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Frances H. Burnett 

 

O Pequeno Lorde

 

 
 

Infanto-Juvenil

 

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Esta  obra  foi  digitalizada  sem  fins  comerciais  e  destina-se  unicamente  à 

leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos 
de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em 
parte, ainda que gratuitamente. 

 
Composto  e  impresso  por  Printer  Portuguesa,  Indústria  Gráfica,  Lda. 

Mem  Martins  –  Sintra  para  a  EDITORIAL  PUBLICA,  com  sede  na  Avenida 
Poeta Mistral, 6-B - 1000 Lisboa Maio de 1987  

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Uma grande surpresa 

 
Cedric  ignorava  a  sua  própria  história.  Quando  o  pai  morreu,  ainda  ele 

não  tinha  completado  cinco  anos.  Sabia  que  era  filho  de  um  inglês,  porque  a 
mãe lho dissera, e lembrava-se, apenas, de que o pai era um senhor muito alto, 
com  olhos  azuis  e  grandes  bigodes  loiros.  Recordava-se  também  de  que  o  pai 
costumava escarranchá-lo no ombro, andando assim, com ele, em volta da sala 
de jantar, e rindo, os dois, cheios de alegria. 

Um  dia,  o  capitão  Errol  adoeceu  e  Cedric  foi  levado  de  casa.  Quando 

voltou, algum tempo depois, tudo tinha mudado. A mãe não parecia a mesma: 
toda  vestida  de  preto,  estava  magra,  pálida  e  triste  -  ela  que  fora  tão  alegre! 
 

Com os lindos olhos escuros sempre cheios de lágrimas. Passava os dias 

sentada junto do fogão ou em frente da janela, fitando o espaço. 

   -  Querida!  -  exclamou  Cedric.  (Era  assim  que  o  capitão  Errol  chamava 

sempre  à  mulher,  e  o  pequenito  habituara-se  também  a  dar-lhe  esse  doce 
tratamento. ) - Querida, o paizinho está melhor? 

A mãe apertou-o muito de encontroao coração, e não respondeu. 
A pobre senhora mal podia reprimir os soluços. 
Cedric  ergueu  para  ela  a  cabecita  toda  cheia  de  caracóis  dourados  e 

insistiu: 

- Como está o paizinho, Querida? 
  O  seu  coraçãozinho  dizia-lhe  que  a  única  coisa  que  tinha  a  fazer  era 

deixar-se  ficar  no  colo  da  mãe  e  lançar-lhe  os  braços  em  volta  do  pescoço, 
beijando-a com toda a ternura de que era capaz. E a mãe, já sem poder dominar-
se  encostou  a  cabeça  ao  ombro  do  pequenito  e  chorou  con  vulsivamente, 
apertando-o mais ainda, como se tivesse medo de o perder. Por fim, disse: 

- O paizinho já não sofre mais, meu amor! Mas nós ficámos para sempre 

sozinhos. Não temos mais ninguém no mundo. 

Apesar  da  sua  pouca  idade,  Cedric  percebeu  que  o  pai  tinha  morrido, 

como  já  ouvira  dizer de  outras  pessoas.  Como  fora  possível?!  Era  tão  alto,  tão 
forte e belo! A palavra morte tinha um sentido que ele não podia compreender. 
Sabia somente que o pai nunca mais voltaria. Mas como a mãe chorava sempre 
que  se  referiam  a  ele,  Cedric  resolveu  não  falar  tantas  vezes  no  pai,  e  pensou 
também  que  a  mãe  não  devia  passar  tanto  tempo  imóvel,  sentada  junto  do 

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fogão  ou  em  frente  da  janela,  a  contemplar  o  céu,  sem  fazer  nada,  sem 
pronunciar uma palavra, em tão triste solidão. 

A  Sr.  a  Errol  e  o  filho  viviam  muito  isolados,  quase  sem  relações,  na 

grande  cidade  de  Nova  Iorque;  mas  Cedric  só  notou  isto  muito  mais  tarde, 
quando  conheceu  o  motivo  pelo  qual  só  raramente  recebiam  visitas.  Soube 
então que sua mãe era orfã, sem ter ninguém, quando o pai casara com ela. 

Conhecera-o em casa de uma senhora já velha e muito rica, junto de quem 

ela desempenhava o lugar de dama de companhia. Era linda, e o capitão Cedric 
Errol,  ao  encontrá-la,  por  acaso,  na  escada,  notara-  lhe  uma  tal  expressão  de 
tristeza  e  doçura,  que  nunca  mais  pôde  esquecê-la.  Procurou  tornar  a  vê-la. 
Apaixonaram-se um pelo outro e acabaram por casar, apesar da oposição feita a 
esse casamento. 

 O  conde  de  Dorincourt,  pai  do  capitão  Errol,  foi  quem  mostrou  maior 

descontentamento. Era um velho fidalgo inglês, da mais antiga linhagem, muito 
rico  e  de  génio  violento.  Tinha  uma  especial  aversão  à  América  e  aos 
americanos. 

O  capitão  Errol  era  o  mais  novo  dos  seus  três  filhos.  Conforme  a  lei  e  a 

tradição britânicas, o filho mais velho era o  único herdeiro dos bens paternos. 
No  caso  da  sua  morte  ou  desaparecimento,  a  herança  cabia  ao  segundo.  Era, 
pois,  pouco  provável  que  o  capitão  Errol,  pertencendo  embora  a  uma  família 
riquíssima, viesse a ser senhor de uma grande fortuna. 

Mas, em compensação, era ele o mais bem dotado pela natureza; possuía 

as mais nobres qualidades morais; era decidido, inteligente, generoso e bom; o 
seu  aspecto  elegante  e  simpático  tornava-o  querido  e  amigo  de  quantos  o 
conheciam. 

Com  os  irmãos  sucedia  exactamente  o  contrário;  nenhum  deles  dera 

provas de inteligência ou bondade. No colégio de Eton, onde foram educados, 
nunca  souberam  con  quistar  a  estima  dos  professores  nem  dos  colegas.  Eram 
maus  estudantes  e  maus  camaradas,  causando  grandes  desgostos  ao  pai,  que 
não podia deixar de reconhecer a inferioridade dos dois filhos mais velhos. 

O  orgulhoso  fidalgo  sofria  profundamente  ao  pensar  que  o  herdeiro  da 

sua  fortuna  e  do  seu  título  viria  a  ser  um  homem  insignificante,  egoísta  e 
mesquinho, sem nenhuma das qualidades nobres e viris que convinham à sua 
elevada  posição  social.  Não  se  conformava  com  a  ideia  de  o  terceiro  filho, 
destinado  a  uma  vida  apagada  e  medíocre,  ser  o  único  que  possuía  dons 
intelectuais  e  beleza  física  capazes  de  o  fazerem  brilhar  na  sociedade.  No 
entanto, lá bem no íntimo do seu inflexível coração, não podia deixar de sentir 
um “fraco” pelo mais novo dos três rapazes. 

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 Receando,  talvez,  deixar-se  dominar  por  essa  preferência  instintiva,  um 

dia, num acesso de altivez, mandou-o para a América. Parecia-lhe ser aquela a 
melhor  maneira  de  evitar  comparações  com  os  irmãos,  cada  vez  máis 
antipáticos e malcomportados. 

Pouco  depois,  ainda  não  tinham  passado  seis  meses,  já  o  conde  de 

Dorincourt estava cheio de saudades do filho. Sentia-se só e resolveu escrever-
lhe, dizendo que regressasse a Inglaterra. Esta carta cruzou-se no caminho, com 
outra  do  capitão  Errol,  contando  ao  pai  o  seu  amor  por  uma  linda  americana 
com quem tencionava casar. 

Ao receber  esta  notícia,  o  conde  ficou  cheio  de  cólera,  a tal  ponto  que  os 

criados recearam que ele enlouquecesse. 

Resolveu então escrever novamente ao filho, proibindo-o de voltar à casa 

paterna e de se dirigir, mesmo que fosse só por carta, ao pai e aos irmãos. Não 
contente  com  isso,  acrescentou,  ainda,  que  nunca  mais,  fosse  em  que 
circunstâncias fosse, o capitão Errol poderia esperar qualquer ajuda da família. 

Esta  resposta  causou  a  maior  mágoa  ao  capitão  Errol,  que  estimava 

profundamente  o  pai,  apesar  do  seu  génio  irascível,  e  tinha  grande  afeição  à 
casa em que nascera.  Sabia  perfeitamente que nunca  mais podia  contar com o 
velho  conde.  No  primeiro  momento,  sentiu-se  completamente  desorientado, 
pois  não  estava  preparado  para  uma  vida  de  trabalho  e  não  sabia  nada  de 
negócios.  Era,  porém,  corajoso  e  persistente;  pediu  a  demissão  de  oficial  da 
marinha inglesa e, depois de vencer muitas dificuldades, conseguiu, finalmente, 
arranjar um emprego em Nova Iorque. Em seguida casou. 

O jovem passou a viver modestamente numa rua tranquila dos arredores 

da grande capital americana. Havia uma grande diferença entre a existência que 
Errol agora levava e aquela a que estava habituado em Inglaterra. 

 Mas  a  esposa  era  tão  gentil,  tão  carinhosa  e  boa,  que  ele  nunca  teve 

motivo  para  se  arrepender  de  haver  casado  com  uma  simples  dama  de 
companhia.  Pelo  contrário,  sentia  que  a  felicidade  presente  o  compensava 
generosamente  de  tudo  quanto  tinha  perdido.  A  casinha  onde  habitava  era 
alegre, primorosamente arranjada, com simplicidade e bom gosto. 

Quando lhes nasceu um filhinho, o simpático casal Errol considerou-se o 

par  mais  venturoso  do  mundo.  Realmente,  era  difícil  imaginar  criança  mais 
encantadora que o pequenino Cedric. 

Parecido, ao mesmo tempo, com o pai e com a mãe, tinha os cabelos muito 

loiros  e  encaracolados,  os  olhos  de  um  castanho  muito  claro,  com  longas 
pestanas  e  uma  expressão  cheia  de  inteligência  e  bondade.  Saudável,  sempre 
bem disposto, desenvolvia-se de dia para dia, e cativava toda a gente com o seu 

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lindo sorriso e maneiras afáveis. Parecia um principezinho, apesar da modéstia 
em que era criado. 

No  bairro  onde  viviam,  todos  gostavam  dele;  até  mesmo  o  Sr.  Hobbes, 

dono  da  mercearia  que  ficava  ao  fim  da  rua,  e  que  era  conhecido  como 
incorrigível maldizente, não se cansava de elogiar aquele menino tão simpático 
e bem-educado, como ele nunca vira outro. 

À medida que ia crescendo, mais atraente se tornava o pequeno Errol. A 

sua beleza física correspondia às boas qualidades morais que o distinguiam. A 
maneira  agradável  como  falava  a  qualquer  pessoa,  era  um  dos  seus  maiores 
encantos;  todo  o  seu  empenho  era  ver  felizes  aqueles  que  o  rodeavam,  e 
satisfazer-lhes os desejos. 

O ambiente de delicadeza e ternura em que era criado, desenvolvia ainda 

mais as suas naturais tendências para a cortesia e para a bondade. Nunca ouvira 
pronunciar  uma  palavra  grosseira  ou  dura;  ouvia  o  pai  dizer  “Querida”, 
sempre  que  se  dirigia  à  mãe,  e  aquela  intimidade  afectuosa  enchia  a  sua 
alminha de sentimentos generosos e ternos. 

- Querida, minha querida! - foram também as primeiras palavras que ele 

soube pronunciar. 

Por isso, quando compreendeu que o pai nunca mais voltaria, e o motivo 

por  que  a  mãe  chorava  tão  amargamente,  prometeu  a  si  próprio  fazer  tudo 
quanto fosse possível para a consolar e lhe tornar mais suave a sua grande dor. 
Tomou esta resolução naquele mesmo dia em que, ao regressar a casa, a mãe o 
abraçou a chorar, escondendo o rosto entre os seus caracóis doirados. Era ainda 
muito criança, mas o seu coraçãozinho afectuoso não podia conformar-se com a 
tristeza da mãe. 

Ocorreu-lhe  então  uma  ideia:  mostrar-lhe  todos  os  seus  brinquedos  e 

livros  com  gravuras.  Assim  fez,  e,  ao  mesmo  tempo  que  lhos  colocava,  um  a 
um, diante dos olhos, murmurava com infinita meiguice: 

- Ora vê, Querida, vê! 
No rosto doloroso da infeliz senhora passou rapidamente um sorriso que 

era a expressão do maior amor humano. 

“Meu adorado filhinho!” - pensava ela. 
- Tenho a certeza de que ele me compreende! - dizia a viúva de Errol para 

a criada Maria, que a servia desde que casara e trouxera Cedric ao colo. - Olha 
para mim com tanta ternura e tão preocupado como se adivinhasse tudo quanto 
me aflige. É um homenzinho! 

Cedric  passou  a  ser  o companheiro  constante  da  mãe.  Passeavam  juntos; 

conversavam  e  brincavam  como  se  tivessem  a  mesma  idade.  Logo  que  soube 
ler, era ainda muito novinho, Cedric passava horas estendido sobre o tapete, em 

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frente ao fogão, lendo em voz alta, não só histórias infantis, como outros livros, 
revistas e até o jornal. A mãe escutava-o enlevada, quase feliz, e a velha Maria 
ouvia  muitas  vezes,  na  cozinha,  o  riso  da  Sr.  a  Errol,  perante  as  inesperadas 
observações que o pequenino fazia acerca do que ia lendo. 

A  criada  gostava  de  conversar  com  o  Sr.  Hobbes,  e  sempre  que  podia, 

demorava-se na mercearia a contar coisas extraordinárias do “seu menino”. 

-  Palavra!  Nunca  vi  uma  criança  como  aquela!  Tem  modos  e  falas  de 

pessoa  crescida.  No  dia  da  eleição  do  Presidente  entrou  pela  cozinha  dentro, 
parou em frente do fogão, com as mãos atrás das costas, sério que nem um juiz, 
e disse-me assim: “Olha lá, Maria, que te parece isto da eleição? Eu sou e hei-de 
ser sempre republicano. A Querida também é da minha opinião. E tu, qual é o 
teu  partido?”  Respondi-lhe  que  não  percebia  nada  de  política,  e  ele,  então, 
mostrou-se  todo  ofendido  e  disse  que  todos  deviam  saber  o  que  convinha  ou 
não convinha ao país. Só queria que o visse, Sr. Hobbes! Ficava de boca aberta. 
E de então para cá, todos os dias, vai à cozinha falar-me de política. 

Maria  adorava  aquela  criança  e  tinha  tanto  orgulho  nela  como  se  lhe 

pertencesse. Depois da morte do patrão, a boa mulher passara a fazer, sozinha, 
o serviço de cozinheira e criada de fora. Era saudável e trabalhava com gosto, 
ajudando ainda a Sr. a Errol a confeccionar os seus vestidos e as roupinhas de 
Cedric. 

-  É  tal  qual  um  príncipe!  -  costumava  ela  dizer,  ao  pentear  os  lindos 

cabelos loiros, que lhe desciam, em caracóis, até aos ombros. - Sempre gostava 
que me mostrassem uma criança da Quinta Avenida, mais bonita e distinta do 
que  o  “nosso”  menino.  Toda  a  gente  olha  para  ele,  quando  vai  com  o  fato  de 
veludo preto e a cabeleira a brilhar ao sol. Parece mesmo um pequeno lorde! 

Para  Cedric,  porém,  tudo  isto  era  indiferente.  Não  lhe  importava  ter  ou 

deixar de ter o ar de um lorde. Nem mesmo sabia o que vinha a ser um lorde! 

 O  seu  amigo  predilecto  era  o  merceeiro  da  esquina,  que,  apesar  de 

embirrar com toda a gente, se mostrava sempre amável para ele, e, verdade se 
diga, o estimava deveras. Para o pequenito, o Sr. Hobbes devia ser uma pessoa 
muito rica e importante, pois tinha a loja cheia de coisas boas - ameixas, figos; 
laranjas,  conservas  e  bolos  -  possuindo,  além  disso,  uma  carroça  e  um  cavalo, 
para levar as compras a casa dos fregueses. 

Cedric  também  gostava  do  leiteiro,  do  padeiro  e  da  mulher  da  hortaliça, 

mas  preferia,  a  todos,  o  seu  amigo  Hobbes,  que  visitava  todos  os  dias  e  com 
quem  tinha  grandes  conversas  acerca  das  notícias  publicadas  nos  jornais. 
Falavam de tudo, até mesmo de política. Um dos assuntos mais discutidos era o 
Quatro  de  Julho,  festa  nacional  comemo  rativa  da  independência  dos  Estados 
Unidos.  Cedric  não  se  cansava  de  ouvir  o  merceeiro  descrever-lhe  episódios 

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dessa época. E quando regressava a casa, com o olhar brilhante e a cabeleira em 
desalinho, esperava ansiosamente a hora do jantar, para contar tudo à mãe. 

Foi,  sem  dúvida,  o  sr.  Hobbes,  contando-lhe  constantemente  o  que  se 

passava em Washington e dizendo-lhe a sua opinião sobre o próprio Presidente, 
quem  fez  nascer  no  espírito  do  pequeno  Errol  o  gosto  pela  política.  Pouco 
tempo  depois  de  uma  eleição  presidencial  deu-se  um  inci  dente  que 
transformou por completo a existência de Cedric. Tinha ele então oito anos de 
idade. 

Nesse  dia,  Hobbes  conversara  com  ele  acerca  da  Inglaterra  e  da  rainha 

Vitória, que governava então o Império Britânico, aproveitando a ocasião para 
censurar  asperamente  a  aristocracia  inglesa,  e,  em  especial,  os  condes  e  os 
duques. 

Fazia  um  calor  sufocante  e  Cedric,  depois  de  ter  brincado  aos  soldados 

com  outros  rapazes  seus  conhecidos,  resolveu  entrar  na  mercearia  para 
descansar  um  pouco.  Encontrou  o  merceeiro  a  olhar  atentamente,  com  ar  de 
reprovação,  para  as  gravuras  de  uma  revista  londrina,  que  reproduziam  uma 
cerimónia da corte inglesa. Ao vê-lo exclamou: 

- Aqui está no que eles se entretêm! Mas isto não pode durar muito! Mais 

dia,  menos  dia,  vai  tudo  pelos  ares:  condes,  duques,  lordes  e  toda  essa  tropa 
fandanga! Não escapa nem um! Pode ter a certeza. 

Como  de  costume,  Cedric  sentou-se  sobre  um  caixote,  com  o  chapéu 

atirado para trás e as mãos nas algibeiras, tal como o dono da loja. De repente, 
perguntou muito sério: 

- O Sr. Hobbes conhece muitos duques e muitos condes? 
- Não! Felizmente não conheço! - respondeu o outro, todo exaltado. - Até 

hoje  nenhum  se  atreveu  a  passar  desta  porta  para  dentro.  Tinha  que  ver,  eu 
permitir que gente dessa se encostasse às minhas latas de bolacha! 

Ao dizer isto, o homenzinho sentiu-se tão importante, que olhou em volta 

da sua pessoa, com orgulho, e limpou o suor da testa. 

- Talvez sejam condes por não poderem ser outra coisa 
-  observou  Cedric,  com  instintiva  simpatia  por  aqueles  que  o  merceeiro 

acusava tão severamente. 

- Eles?! Está enganado! Até sentem vaidade de ser o que são. Está- lhes na 

massa do sangue - respondeu Hobbes. 

E continuou a proclamar a superioridade da república sobre a monarquia, 

dos  republicanos  sobre  os  aristocratas,  com  tal  entusiasmo,  que  o  pequenito 
olhava  para  ele,  es  pantado,  ansioso  por  contar  à  Querida  tudo  quanto  estava 
ouvindo.  A  cada  pergunta  que  Cedric  fazia,  respondia  Hobbes  com  novas 
exclamações de indignação, muito vermelho e congestionado. 

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 A meio desta conversa entrou na loja a criada Maria. O pequeno pensou 

que  ela  viesse  fazer  compras,  mas  não  era  disso  que  se  tratava.  A boa  mulher 
estava pálida e agitada. 

- Venha, meu amor. A mãezinha mandou-o chamar.  
Cedric saltou para o chão, despediu-se de Hobbes e acompanhou a criada. 
- A Querida vai sair? - perguntou ele. 
Maria não respondeu, mas olhou de tal maneira para o pequenito, que ele 

sobressaltou-se. 

- Aconteceu alguma coisa, Maria? 
- Esta vida é cheia de surpresas! - murmurou ela. 
- Mas que foi?! 
- Quem havia de pensar! - balbuciou a criada, sem responder directamente 

ao pequeno. 

- A Querida está doente? 
- Não, menino, não é nada disso. 
- Então que é? - insistiu ele, já impaciente. Mas a criada não havia meio de 

responder.  Ao  chegar  a  casa,  Cedric  viu  uma  carruagem  parada  em  frente  da 
porta.  A  mãe  estava  na  sala  do  primeiro  andar,  com  um  senhor  que  ele  não 
conhecia. Que queria dizer tudo aquilo? 

Apressadamente, Maria levou-o ao quarto e vestiu-lhe o fatinho de verão, 

de flanela creme com gola cor-de-rosa. Penteou-lhe cuidadosamente os cabelos 
e, por fim, disse, quase a medo: 

- Um lorde! Nem mais nem menos! Um lorde! E também é conde! Quem 

havia de dizer! 

Cedric, cada vez mais intrigado, já nem se atrevia a interrogar a criada. A 

mãe, com certeza, lhe explicaria tudo. Por isso não perguntou mais nada. Mas a 
boa mulher não se calava, repetindo sempre: 

“Um conde! Tem que ser tratado por senhoria!” 
 Logo  que  se viu  pronto,  Cedric,  desceu  as  escadas,  a  correr,  e entrou  na 

sala. O senhor que falava com a mãe estava sentado numa poltrona; era velho, 
alto  e  magro,  com  a  barba  inteiramente  rapada.  A  mãe  estava  de  pé,  muito 
pálida; tinha os olhos cheios de lágrimas! 

Quando o viu, correu para ele e, apertando-o entre os braços, exclamou: 
- Meu filho! Meu querido filho! 
O  senhor,  então,  levantou-se  e  fitou  Cedric  demoradamente.  Depois 

passou a mão pelo queixo. A criança causara-lhe boa impressão. 

Com  um  ligeiro  sorriso,  inclinou-se,  como  se  fizesse  uma  reverência,  e 

disse lentamente: 

- Sua Senhoria o pequeno Lorde Fauntleroy! 

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Os amigos de Cedric 

 
A  surpresa  de  Cedric  não  pode  descrever-se.  Durante  a  semana  que  se 

seguiu,  tudo  lhe  pareceu  estranho  e  irreal.  Por  mais  que  pensasse,  não 
conseguia  decifrar  o  que  significavam  as  palavras  do  velho  que 
inesperadamente os visitara. 

Depois de ele sair, a  mãe contou-lhe uma história extraordinária, que ele 

ouviu atentamente, mas que não compreendeu bem... Foi preciso repeti-la, para 
o pequenito se convencer. 

O avô, que ele nunca tinha visto, era conde, e o mais velho dos tios seria, 

também, conde, um dia, se não tivesse morrido em consequência de uma queda 
que  dera  de  um  cavalo.  Depois  desse  desastre,  o  título  pertencia  ao  outro  tio; 
mas também esse morrera, repentinamente, durante uma viagem a Roma. Se o 
pai de Cedric fosse vivo, seria, por morte dos irmãos, o herdeiro do título. Mas, 
como ele também já não pertencia ao número dos vivos, era Cedric quem viria a 
ser conde, quando o avô morresse. Entretanto, era, desde já, Lorde Fauntleroy. 

Ao saber isto, o pequeno empalideceu e, abraçando a mãe, exclamou: 
-  Oh!  Querida,  eu  não  quero  ser  conde!  Nenhum  dos  rapazes  que  eu 

conheço é conde. Não me podem dispensar disso? 

A  mãe  explicou-lhe  que  não  era  possível.  E,  enquanto  anoitecia,  mãe  e 

filho  conversaram  longamente,  junto  da    janela,  donde  se  avistava  a  modesta 
rua em que moravam. Cedric, sentado num banquinho, como era seu costume, 
tinha uma expressão de espanto, e corava com o esforço que fazia para reflectir. 

Soube,  então,  que  o  avô  mandara  à  América  o  Sr.  Havisham  -  aquele 

mesmo  que  ele  encontrara  na  sala,  e  que  era  uma  pessoa  da  intimidade  e 
confiança do velho conde - encarregando-o de levar Cedric para Inglaterra. 

A mãe achava que ele devia ir, e dizia-lhe, com uma tristeza muito doce: 
- Tenho a certeza de que seria esse o desejo de teu pai. Ele adorava a sua 

pátria!  Além  disso,  há  outras  razões  que  um  menino  da  tua  idade  não  pode 
ainda compreender bem. Eu seria muito egoísta se não te deixasse ir. Quando 
fores um homem, compreenderás tudo. 

O pequenito, porém, estava profundamente triste. 
- Tenho muita pena de me separar da mamã! - murmurou ele. - Também 

tenho pena do Sr. Hobbes! Ele vai sentir a minha falta... E eu vou sentir a falta 
de todos, todos... 

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O Sr. Havisham voltou no dia seguinte, e Cedric soube ainda mais coisas 

extraordinárias: o enviado do conde de Dorincourt disse-lhe que ele seria muito 
rico  e  possuiria  castelos,  grandes  parques,  minas,  vastas  propriedades  e 
numerosos empregados. Isto, porém, não conseguiu modificar a disposição de 
Cedric,  que  não  se  conformava  com  a  nova  situação.  Pensava  no  seu  amigo 
Hobbes  e  preocupava-se  com  a  opinião  dele  acerca  de  tudo  o  que,  tão 
inesperada mente, estava sucedendo. 

Depois  do  almoço,  o  seu  primeiro  cuidado  foi  procurá-lo,  e  dirigiu-  se 

para a mercearia com o espírito muito perturbado. 

O pequenito encontrou o Sr. Hobbes a ler o jornal da manhã, e aproximou-

se dele com ar grave. 

 Adivinhava que a notícia da transformação que acabava de dar-se na sua 

vida  não  podia  deixar  de  impressionar  o  seu  amigo;  por  isso  procurava  a 
maneira mais agradável de lha dar. 

Quando ele apareceu, o Sr. Hobbes exclamou: 
- Bom dia! 
- Bom dia! - respondeu Cedric. 
Não  saltou,  como  era  seu  costume,  para  cima  de  um  caixote.  Sentou-se 

sobre  uma  caixa  de  bolachas  e,  juntando  as  mãos  sobre  os  joelhos,  deixou-se 
ficar  silencioso.  Estranhando  aquela  atitude,  o  merceeiro  levantou  os  olhos  do 
jornal e fitou o pequeno com ar interrogador. 

- Que há? - perguntou. 
Cedric reuniu toda a sua coragem e respondeu: 
- Lembra-se da conversa que tivemos ontem de manhã? 
- Deixe-me ver. Parece-me que foi acerca da Inglaterra. 
-  Sim  -  disse  Cedric.  -  Mas  eu  refiro-me  ao  que  nós  dizíamos  quando  a 

Maria veio chamar-me, lembra-se? 

Hobbes coçou a cabeça e disse: 
- Falávamos da rainha Vitória e da aristocracia inglesa. 
- Isso mesmo... - concordou Cedric, com uma certa hesitação. - E... também 

falámos nos condes... não foi? 

- Exactamente! Dissemos o que pensávamos de todos eles, creio eu. 
Cedric  corou  até  à  raiz  dos  cabelos.  Nunca,  na  sua  vida,  se  sentira  tão 

embaraçado, e parecia-lhe que a situação era igualmente embaraçosa para o Sr. 
Hobbes. Depois de uns instantes de silêncio, o pequeno continuou: 

- O senhor disse que não lhes permitiria que se sentassem nas suas caixas 

de bolachas... 

-  Disse e repito! - exclamou Hobbes, com energia. Que experimentem, se 

querem ver... 

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- Sr. Hobbes - disse, então, Cedric -, neste momento está um conde sentado 

nas suas caixas de bolachas. 

- O quê?! - gritou o merceeiro sobressaltado. 
- É assim mesmo - confirmou Cedric, com ar modesto. - Eu sou conde... ou 

por outra, hei-de sê-lo, mais tarde. Não quero enganá-lo. 

Hobbes estava agitadíssimo. Levantou-se e foi ver o termómetro. 
-  O  calor  subiu-lhe  à  cabeça!  -  exclamou,  voltando-se  para  o  seu  jovem 

amigo  e  observando-lhe  o  rosto.  O  dia  está  muito  quente.  O  menino  sente-se 
mal? Dói-lhe alguma coisa? Quando foi que o menino adoeceu? 

Ao dizer isto, o homem punha a mão, carinhosamente, sobre os cabelos do 

pequenito. A situação tornava-se cada vez mais embaraçosa. 

- Estou bem, muito obrigado - respondeu Cedric. Não me dói nada. Tenho 

muita  pena  de  que  seja  verdade,  Sr.  Hobbes,  mas  foi  exactamente  por  causa 
disso que a Maria me veio chamar. O Sr. Havisham estava lá em casa a explicar 
tudo à mamã, e o Sr. Havisham é advogado, conhece perfeitamente a lei. 

Hobbes deixou-se cair sobre a cadeira e enxugou o suor que lhe cobria a 

fronte. 

- Um de nós apanhou sol na cabeça... - exclamou ele. 
- Não se trata disso, está enganado. Acredite o que lhe digo, Sr. Hobbes: o 

Sr. Havisham veio propositadamente de Inglaterra para nos explicar isto. Foi o 
meu avô que o mandou. 

O  merceeiro  olhou  com  ar  perfeitamente  desorientado  para  o  rostozinho 

grave e ingénuo que estava na sua frente. 

-  Como  se  chama  o  seu  avô?  -  perguntou  ele.  Cedric  meteu  a  mão  na 

algibeira e tirou de lá, cuidadosamente, um bocado de papel, sobre o qual tinha 
escrito qualquer coisa, com a sua caligrafia irregular. 

 - Como é difícil de decorar, escrevi aqui o nome - disse ele. E leu em voz 

alta, lentamente: - “John Arthur Molinex Eol, Conde de Dorincourt. Aqui tem o 
nome dele. Vive num castelo - creio mesmo que vive em dois ou três castelos - e 
o meu pai era o seu filho mais novo. Se o meu pai não tivesse morrido, eu não 
seria lorde. E o meu pai não seria conde se os dois irmãos mais velhos, que ele 
tinha,  não  tivessem  morrido  também.  Mas  como  morreram  todos,  e  eu  fiquei 
sendo  o  único  homem  da  família,  sou  obrigado  a  ser  conde  e  o  meu  avô 
mandou- me buscar pelo Sr. Havisham, que me levará com ele para Inglaterra. 

Hobbes,  cada  vez  mais  vermelho,  transpirava  abundantemente,  e 

enxugava  a  testa  e  a  calva,  respirando  com  força.  Começava  a  compreender 
que,  na  realidade,  tinha  sucedido  qualquer  coisa  extraordinária.  Porém,  ao 
olhar para o pequenito, sentado sobre a caixa de bolachas, que o olhava também 
com  uma  expressão  inquieta  no  rosto  infantil,  e  ao  verificar  que  ele  tinha  o 

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mesmo  aspecto  e  era,  tal  qual,  o  mesmo  rapazinho  gentil,  que  tinha  visto  na 
véspera,  vestido  de  preto  e  com  uma  gravata  vermelha,  toda  esta  his  tória  de 
títulos e nobreza lhe parecia fantástica. O que o desorientava ainda mais era a 
maneira  simples  e  ingénua  como  Cedric  lhe  fazia  semelhante  revelação,  sem 
perceber, ele próprio, o que havia de prodigioso em tudo aquilo. 

- Como. como disse o  menino que era o seu  nome? - perguntou Hobbes, 

por fim. 

- Cedric Errol, Lorde Fauntleroy - respondeu a criança. - Foi assim que o 

Sr. Havisham me chamou. 

- Muito bem! Sim senhor! Demónios me levem! 
Era  uma  exclamação  que  Hobbes  empregava  sempre  nos  momentos  de 

grande  surpresa.  E,  naquela  ocasião,  não  encontrou  mais  nada  que  dizer  para 
exprimir o seu espanto. 

Cedric  achou  que  a  exclamação  se  adaptava  bem  à  situação.  Tinha  tanta 

admiração pelo Sr. Hobbes, que aprovava  tudo o que ele dizia, sem perceber, 
ainda, que a linguagem do seu amigo nem sempre era elegante. Evidentemente, 
achava  que  o  Sr.  Hobbes  era  muito  diferente  da  mamã,  mas  a  mamã  era  uma 
senhora  e  ele  achava  que  as  maneiras  das  senhoras  eram  diferentes  das  dos 
homens. Olhou para o merceeiro com ar sonhador e perguntou: 

- A Inglaterra é longe daqui, não é? 
- Fica no outro lado do oceano Atlântico - respondeu Hobbes. 
- Isso é que me aborrece mais - disse Cedric. - Talvez passe muito tempo 

sem o ver, Sr. Hobbes; é o que mais me custa. 

-  Quantas  vezes  os  melhores  amigos  são  obrigados  a  separar-se!  - 

observou Hobbes. 

- E nós já somos amigos há muito tempo! 
- Desde que o menino nasceu. Tinha seis semanas, pouco mais ou menos, 

quando atravessou a rua, pela primeira vez, ao colo da criada. 

- Quem me diria então que eu me veria obrigado a ser conde! - exclamou 

Cedric, suspirando. 

- E não há maneira de evitar que isso suceda? 
-  Creio  que  não  -  respondeu  Cedric.  -  A  mamã  diz  que  o  papá  teria 

gostado  muito  que  isto  acontecesse.  Mas,  visto  que  é  forçoso  eu  ser  conde,  há 
uma coisa que posso fazer: ser um conde bom. E se alguma vez houver o perigo 
de uma guerra entre a Inglaterra e a América, procurarei evitá-la. 

A conversa entre Cedric e Hobbes foi longa e séria. Passado o espanto dos 

primeiros momentos, o merceeiro não se mostrou tão descontente como seria de 
esperar.  Achou  preferível  tirar  partido  da  situação  e  fez  muitas  perguntas  a 
Cedric.  Como  o  pequenito  não  estava  à  altura  de  responder  a  todas,  Hobbes 

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procurou  responder  ele  próprio,  e  uma  vez  lançado  no  capítulo  dos  condes, 
marqueses e lordes, explicou várias coisas de uma forma que teria, certamente, 
surpreendido  deveras  o  Sr.  Havisham,  se  o  digno  procurador  do  conde  de 
Dorincourt o pudesse ouvir. 

Na  realidade,  o  Sr.  Havisham  já  se  sentia  bastante  admirado.  Vivera 

sempre em Inglaterra e não estava habituado aos costumes americanos. Havia 
quarenta  anos  que  tinha  relações  com  a  família  Dorincourt.  Conhecia  a  fundo 
tudo o que dizia respeito aos seus vastos domínios, à sua grande fortuna e ao 
lugar de relevo que ocupava na alta sociedade inglesa. Embora conforme a sua 
maneira  de  ver,  fria  e fleumática,  interessava-se  deveras  por  aquele  pequenito 
que  seria,  mais  tarde,  senhor  de  todos  os  bens  e  conde  de  Dorincourt.  Sabia 
quantas humilhações os outros filhos haviam causado ao velho conde, e a cólera 
que  o  casamento  do  mais  novo  lhe  provocara.  Sabia  também  como  o  conde 
continuava  a  odiar  a  jovem  viúva,  a  quem  se  referia  sempre  com  palavras 
duras, afirmando que ela não passava de uma intrigante vulgar, que tivera artes 
de levar ao casamento o comandante Errol, porque o sabia filho de gente nobre. 

O  próprio  Havisham  estava  também  convencido  disso.  Habituara-se  a 

encontrar,  ao  longo  da  sua  carreira  de  advogado,  pessoas  interesseiras  e 
egoístas.  Além  disso,  tinha,  acerca  dos  americanos,  uma  opinião  pouco 
lisonjeira. 

Logo que a sua carruagem entrara na rua banal onde morava a Sr. a Errol, 

e parara em frente da casa, tão modesta, que ela habitava, Havisham sentira-se 
surpreendido.  Era-lhe  doloroso  pensar  que  o  futuro  senhor  dos  castelos  de 
Dorincourt,  de  Wyndham  Tomers,  de  Chorlworth  e  de  tantas  outras 
maravilhas,  tinha  nascido  e  fora  criado  naquela  insignificante  habitação, 
perdida  num  bairro  popular.  Perguntava  a  si  próprio  como  poderia  ser  a 
criança,  e  que  espécie  de  pessoa  seria  a  mãe.  A  perspectiva  de  ir  travar 
conhecimento  com  aquelas  duas  criaturas  não  lhe  causava  o  menor  prazer. 
Sentia-se  orgulhoso  da  nobre  família,  cujos  negócios  dirigia  há  tantos  anos,  e 
ser-lhe-ia  muito  desagradável  ter  que  tratar  com  uma  pessoa  vulgar  e 
interesseira, sem consideração pela pátria de seu marido, nem respeito pelo seu 
nome. 

Quando  a  criada  o  introduziu  na  pequena  sala,  examinou  tudo  o  que  o 

rodeava. 

O mobiliário era simples, mas a casa tinha um ar de conforto e intimidade. 

As  poucas  gravuras  que  guarneciam  as  paredes  eram  de  muito  bom  gosto,  e 
havia também bonitos bordados executados, sem dúvida, por mãos de mulher. 

“Por agora não há nada a dizer” - pensou ele. - “Isto deve ter sido ainda o 

gosto do marido”. 

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No entanto, quando a Sr. a Errol entrou na sala, ele disse, de si para si, que 

talvez fosse, afinal, o gosto dela. 

Se Havisham  não fosse um velho bem senhor de si, certamente não teria 

podido  dominar  um  gesto  de  surpresa  ao  vê-la  aparecer.  Com  o  seu  vestido 
preto, muito simples, justo ao corpo, parecia mais uma rapariguinha do que a 
mãe de um rapaz de oito anos. 

Os  seus  grandes  olhos  escuros  tinham  uma  expressão  terna  e  ingénua,  e 

no  rosto  transparecia-lhe  aquela  doce  melancolia,  que  nunca  mais  perdera 
depois da morte do marido. 

A experiência pessoal do advogado ensinara-lhe a decifrar o carácter das 

pessoas com quem falava, e, logo que viu a mãe de Cedric, compreendeu que o 
conde  cometera  um  grande  erro,  ao  considerá-la  uma  mulher  vulgar  e 
interesseira. 

Havisham não era casado, nem estivera nunca apaixonado; no entanto, ao 

ver aquela encantadora criatura, de olhar triste, sentiu que ela se tornara esposa 
do capitão Errol unicamente porque o amava, sem qualquer ideia de ambição. 
Compreendeu também que não lhe levantaria dificuldades e, além disso, teve a 
impressão  de  que  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy,  apesar  de  tudo,  talvez  não 
deslustrasse  a  sua  nobre  família.  O  capitão  Errol  fora  um  belo  homem;  a  mãe 
era, realmente, muito bonita; havia, portanto, probabilidades de o pequeno ter 
um físico agradável. 

Quando Havisham disse à Sr. e Errol o motivo da sua visita, ela tornou-se 

muito pálida e exclamou: 

-  Oh!  vem  então  buscar  o  meu  filho?  Ele  é  toda  a  minha  felicidade!  Não 

tenho mais ninguém no mundo! E é tão meu amigo! Tenho feito tudo para lhe 
dar uma boa educação. 

A sua voz tremia, ao pronunciar estas palavras, e os olhos encheram-se-lhe 

de lágrimas. 

- Não pode imaginar o que esta criança representa para mim! - murmurou 

ela. 

Havisham tossiu, para aclarar a voz. 
-  Devo  dizer-lhe  -  continuou  ele  -  que  o  conde  de  Dorincourt  não  está 

muito bem disposto a seu respeito. É um velho de carácter violento, fortemente 
agarrado  às  suas  ideias.  Nunca  gostou  da  América  nem  dos  americanos,  e  o 
casamento  do  filho  desgostou-o  em  extremo.  Lamento  estar  encarregado  de 
uma  comunicação  tão  desagradável,  mas  é  meu  dever  dizer-lhe  que  ele  não 
quer  vê-la,  a  si.  O  seu  desejo  é  que  Lorde  Fauntleroy  seja  educado  sob  a  sua 
direcção  e  que  viva  junto  dele.  O  conde  afeiçoou-se  à  sua  residência  de 
Dorincourt,  onde  passa  a  maior  parte  do  ano.  Sofre  de  ataques  de  gota  e  não 

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gosta  de  viver  em  Londres.  Por  consequência,  Lorde  Fauntleroy  viverá 
principalmente em Dorincourt. O conde oferece-lhe a si, minha senhora, como 
residência,  Court  Lodge,  um  bonito  pavilhão  agradavelmente  situado  nas 
proximidades  do  castelo.  Oferece-lhe,  além  disso,  uma  mesada  em  harmonia 
com  a  sua  situação.  Lorde  Fauntleroy  irá  visitá-la  muitas  vezes.  A  única 
imposição  do  conde  é  esta:  a  viúva  do  capitão  Errol  não  poderá,  sequer, 
transpor os portões do parque. Como vê, não ficará verdadeiramente separada 
do seu filho. Afirmo-lhe que esta proposta não é tão dura... como poderia ser. 
Tenho  a  certeza  que  avaliará  bem  as  vantagens  enormes,  de  meio  e  educação, 
oferecidas a Lorde Fauntleroy. 

A mãe de Cedric afastou-se um pouco, voltou-se e ficou uns momentos em 

frente da janela, como se contemplasse a rua. Porém, Havisham compreendeu 
perfeitamente  que  ela  procurava  dominar  a  sua  comoção,  e  admirou 
sinceramente  a  serena  coragem  daquela  jovem  mulher,  disposta  a  sacrificar-se 
pelo bem do filho. 

Minutos  depois,  a  Sr.  a  Errol  veio  novamente  para  junto  de  Havisham  e 

fixou nele um olhar pensativo. Depois continuou: 

- Sim, o desejo de meu marido era que o filho fosse educado em Inglaterra. 

Estou convencida de que o conde não terá a crueldade de o separar de mim, e 
mesmo que o tentasse, sei que o meu Cedric é muito parecido com o pai e não 
mudaria.  Ainda  que  estejamos  separados,  continuará  a  querer-me  com  toda  a 
sua ternura. Por meu lado, desde que possa vê-lo, não me queixarei. 

Enquanto ela falava, o advogado ia pensando: <  <Só  pensa  no  filho.  Para 

ela não impõe condições”. Depois, erguendo a voz, disse: 

-  Minha  senhora,  rendo  homenagem  à  sua  abnegação  em  favor  de  seu 

filho. Ele próprio lhe agradecerá, mais tarde, a sua atitude de agora. 

- Espero - murmurou a mãe, com a voz ligeiramente trémula - que o avô 

de Cedric seja carinhoso para ele. O pequeno tem uma natureza afectiva e viveu 
sempre rodeado de ternura. 

Havisham  tornou  a  tossir.  Não  acreditava  que  o  velho  conde,  gotoso  e 

irascível, se afeiçoasse fosse a quem fosse. 

 Mas  estava  convencido  de  que  ele  procuraria  mostrar-se  bom,  à  sua 

maneira, para o herdeiro do seu nome e da sua fortuna. E também sabia que, se 
o pequeno se mostrasse à altura da sua condição, o avô teria orgulho nele. Por 
isso respondeu: 

-  Lorde  Fauntleroy  será  muito  bem  tratado,  pode  ter  a  certeza,  minha 

senhora. 

Quando  a  Sr.  a  Errol  mandou  chamar  Cedric,  o  enviado  do  conde  de 

Dorincourt sentiu um ligeiro choque, ao ouvir a criada dizer: 

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-  Não  terei  muito  trabalho  a  procurá-lo.  A  esta  hora  deve  ele  estar  na 

mercearia,  sentado  nalgum  caixote,  a  discutir  política  com  o  Sr.  Hobbes,  ou  a 
brincar com o sabão, as velas e as batatas. 

Os receios de Havisham aumentaram. Em Inglaterra, os filhos dos fidalgos 

não costumam conviver com merceeiros. Seria lamentável que a criança tivesse 
adquirido hábitos ordinários, em semelhante companhia. 

Lembrou-se,  então,  de  que  os  filhos  mais  velhos  de  Lorde  Dorincourt 

sempre haviam gostado de conviver com gente grosseira, e fora essa uma das 
mais amargas humilhações que o conde sofrera, por causa deles. Quem sabe se 
aquele  pequenito  herdara  as  más  inclinações  dos  tios,  em  vez  das  nobres 
qualidades do pai? 

Esta  ideia  atormentava-o,  enquanto  continuava  a  conversa  com  a  Sr.  a 

Errol. Quando a porta se abriu, Havisham hesitou um momento antes de olhar 
para Cedric; mas, logo que os seus olhos pousaram no rapazinho, que correu a 
abraçar  a  mãe,  todos  os  receios  desapareceram.  Verificou  imediatamente  que 
era  uma  das  crianças  mais  belas  que  tinha  visto;  desenvolvido  para  a  idade, 
forte  e  esbelto,  tinha  um  rosto  encantador,  de  expressão  franca,  decidida,  e 
erguia a cabeça, muito direita, com natural distinção. A semelhança com o pai 
era evidente. Tinha os cabelos loiros do capitão Errol e os olhos escuros da mãe, 
mas  no  seu  olhar,  confiante  e  sereno,  não  havia  a  menor  sombra  de  tristeza. 
Dava a impressão de não ter medo de coisa alguma. 

“Nunca vi um rapazinho tão gentil e com tão boa apresentação” - pensou 

Havisham, mas em voz alta disse apenas: 

- Sua Senhoria o pequeno Lorde Fauntleroy!  
A partir desse momento, o enviado do conde de Dorincourt encontrou-se 

muitas vezes com Cedric, que o surpreendia cada vez mais. 

Havisham  não  estava  habituado  a  conviver  com  crianças,  embora 

conhecesse muitas. A verdade é que não interessavam ao seu feitio cerimonioso 
e  rígido  de  homem  de  leis.  Com  Cedric,  porém,  não  sucedia  assim.  Talvez  o 
interesse  que  lhe  merecia  o  destino  do  pequeno  Lorde  Fauntleroy  o  levasse  a 
observá-lo  mais  de  perto.  Fosse  qual  fosse  a  razão,  o  que  é  certo  é  que  o 
pequeno despertara extraordinariamente a sua atenção e a sua curiosidade. 

Cedric,  sem  perceber  que  estava  sendo  objecto  de  minucioso  exame, 

conservava  toda  a  sua  naturalidade.  Apertava  a  mão  que  Havisham  lhe 
estendia e respondia às suas perguntas com a mesma espontaneidade com que 
responderia ao Sr. Hobbes. Não era tímido nem atrevido, e Havisham reparou 
que,  quando  ele  próprio  conversava  com  a  Sr.  a  Errol,  o  pequenito  seguia  a 
conversa com o mesmo interesse de uma pessoa crescida. 

- Tem o ar de um homenzinho muito ponderado - disse Havisham à mãe. 

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-  Em  muitas  coisas,  sim.  Mostrou  sempre  uma  grande  facilidade  em 

aprender, e como tem vivido principalmente com pessoas mais velhas, tem uma 
maneira  engraçada  de  empregar  palavras  e expressões  complicadas,  que  ouve 
em  conversas  ou  encontra  nos  livros.  Mas  também  gosta  de  se  distrair.  Julgo 
que é bem dotado sob o ponto de vista de inteligência, o que não o impede de 
ser um rapazinho alegre e brincalhão. 

No dia seguinte, Havisham teve ocasião de observar que esta afirmação da 

mãe era verdadeira. 

Quando  ele  se  dirigia  de  carruagem,  como  de  costume,  a  casa  da  Sr.a 

Errol,  ao  dobrar  a  esquina,  viu  um  grupo  de  rapazes  que  pareciam  muito 
excitados.  Dois,  dentre  eles,  preparavam-se  para  fazer  uma  corrida,  e  um  dos 
pequenos  campeões,  aquele  que  tinha  peúgas  vermelhas,  era,  exactamente,  o 
jovem  Lorde  Fauntleroy,  que  gritava  e  se  entusiasmava  tanto  como  o  mais 
ruidoso  dos  seus  amigos.  Estava  colocado  a  par  do  outro  concorrente,  com  a 
perna direita para a frente. 

- Um... Preparem-se! - gritou o árbitro. - Dois... Atenção! Três... Partida! 
Havisham debruçou-se na portinhola, cheio de interesse. Não se lembrava 

de ter visto coisa alguma semelhante ao espectáculo oferecido por esse pequeno 
lorde,  lançado  em  corrida,  a  devorar  terreno  com  toda  a  velocidade  das  ágeis 
pernas, os punhos cerrados, a cabeça direita, o rosto contraído. 

-  Coragem,  Ced  Errol!.  -  gritavam  os  outros  garotos,  agitando  os  braços, 

num entusiasmo louco, próprio da sua idade. 

-  Coragem,  Billy  Williams.  Vá,  Ced.  Vá,  Billy.  “É  ele  quem  vai  ganhar”  - 

pensava  Havisham.  A  rapidez  com  que  as  pernas  de  peúgas  vermelhas 
avançavam,  os  gritos  dos  rapazes  e  os  esforços  desesperados  das  pernas 
morenas do outro concorrente, que era também um bom corredor, excitavam o 
grave advogado inglês, mesmo sem ele dar por isso. 

“Realmente. oxalá que ele ganhe!“ - dizia Havisham, de si para si, tossindo 

levemente como se quisesse desculpar-se a si próprio. 

 Nesse  mesmo  instante,  o  grupo  dos  pequenos  espectadores  da  corrida 

agitou-se freneticamente e ouviam-se exclamações ainda mais selvagens que as 
precedentes:  num  arranco  magnífico,  o  futuro  conde  de  Dorincourt  tinha 
chegado ao ponto onde a corrida terminava, dois segundos antes de Billy. 

- Viva Ced Errol! - aclamavam os rapazes, como loucos. - Hurrah por Ced 

Errol!! 

Havisham retirou a cabeça da portinhola e murmurou:  Bravo,  Lorde  Fau 

ntleroy “ 

Quando  a  carruagem  parou  em  frente  da  casa  da  Sr.  a  Errol,  Havisham 

avistou  o  vencedor  e  o  vencido,  caminhando  juntos,  seguidos  pelo  grupo 

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ruidoso dos outros pequenos. Cedric falava com Billy. O seu rosto estava muito 
vermelho e tinha uma expressão excitada. Os caracóis doirados colavam-se-lhe 
à fronte húmida de transpiração, e trazia as mãos metidas nas algibeiras. 

-  Sabes?  -  dizia  ele  ao  outro,  com  evidente  intenção  de  lhe  adoçar  a 

sensação  da  derrota.  -  Estou  convencido  de  que  ganhei  porque  as  minhas 
pernas são um pouco mais compridas do que as tuas. Foi por isso, com certeza. 
E,  além  disso,  sou  mais  velho  três  dias  do  que  tu,  o  que  é  também  uma 
vantagem. 

Esta  maneira  de  apreciar  as  coisas  devia  ter  agradado  a  Billy,  porque 

principiou  a  sorrir  e tomou  um  ar  quase  tão  triunfante  como  se, na  realidade, 
tivesse ganho a corrida, em vez de a ter perdido. 

Cedric Errol sabia, maravilhosamente, consolar as pessoas; no entusiasmo 

da  vitória,  pensava  que  o  seu  concorrente  não  devia  estar  tão  satisfeito  como 
ele,  e  achou  que,  certamente,  daria  prazer  imaginar  que,  noutras  condições, 
poderia, talvez, ter ganho. 

Nesse  mesmo  dia,  Havisham  teve  com  o  jovem  campeão  uma  conversa, 

durante a qual sorriu por mais de uma vez, e passou a mão pelo queixo, como 
era seu costume, quando alguma coisa o impressionava deveras. 

A  Sr.a  Errol,  a  quem  a  criada  veio  chamar,  teve  que  sair  da  sala,  para 

resolver qualquer assunto que requeria a sua atenção, e Havisham ficou só com 
Cedric. 

A  princípio,  o  advogado  perguntou  a  si  próprio  o  que  diria  ao  pequeno. 

Sem dúvida, devia ir preparando Cedric para o encontro com o avô, e também 
para a mudança que ia dar-se na sua vida. Já notara que o pequenito não fazia a 
menor ideia do que ia encontrar em Inglaterra, nem do género de existência que 
ali  o  esperava.  Ignorava  igualmente  que  ia  viver  separado  da  mãe.  Tanto  ela 
como Havisham haviam achado preferível informá-lo disso mais tarde. 

O  advogado  e  Cedric estavam  sentados  em  confortáveis  poltronas,  um  a 

cada lado da janela. Com a cabeça encostada ao estofo, as pernas cruzadas e as 
mãos muito enterradas nas algibeiras, à maneira de Hobbes, Cedric olhava para 
Havisham.  Observara-o  atentamente,  enquanto  a  mãe  se  conservara  na  sala,  e 
continuava a fitá-lo agora, com uma expressão de respeitoso interesse. 

Quando  ficaram  a  sós,  houve  um  breve  silêncio,  durante  o  qual  o 

advogado  e  a  criança  pareciam  querer  estudar-se  mutuamente.  Havisham 
perguntava  a  si  próprio  qual  seria  a  melhor  maneira  de  um  velho  falar  a  um 
rapazinho de calção e peúgas vermelhas, cujas pernas não chegavam ainda ao 
chão,  quando  ele  se  enterrava  numa  espaçosa  poltrona.  Mas  Cedric,  como  se 
adivinhasse, livrou-o de embaraços, tomando, de repente, a palavra. 

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- Sabe uma coisa,  Sr. Havisham? - disse ele. - Não faço a menor ideia do 

que venha a ser um conde! 

- Isso é verdade? 
- É! - respondeu Cedric. - E parece-me que uma pessoa que há-de vir a ser 

conde um dia, deve saber o que isso é. Não acha? 

 - Com certeza que sim! - respondeu Havisham. 
-  Importa-se  de  me  explicar  -  perguntou  Cedric,  delicadamente  -  que  é, 

afinal, um conde? 

-  A  princípio  -  explicou  Havisham  -  o  título  de  conde  era  concedido  por 

um  rei  ou  por  uma  rainha,  em  reconhecimento  por  serviços  prestados  ao 
soberano, ou em recompensa de qualquer acção heróica. 

- Nesse caso é como para ser presidente! - exclamou Cedric. 
- Ah! Sim? É assim que o presidente é eleito? 
- Pois é! - respondeu o pequenito, com ingenuidade. - Quando um homem 

é  muito  bom  e  muito  sábio,  nomeiam-no  presidente.  Há  marchas  luminosas, 
bandas a tocar, e toda a gente faz discursos. Eu até já tinha pensado que podia, 
mais  tarde,  vir  a  ser  presidente;  o  que  nunca  me  passou  pela  cabeça  foi  que 
ainda  havia  de  ser  conde.  É  verdade  que  nunca  ouvira  falar  em  condes...  - 
apressou-se  ele  a  explicar,  receando  que  esta  indiferença  pudesse  parecer 
indelicada. 

- Ser conde ou presidente não é bem a mesma coisa! 
- observou Havisham. 
-  Não?  -  exclamou  Cedric.  -  E  qual  é  a  diferença?  Não  há  marchas 

luminosas? 

Havisham  cruzou  as  pernas,  ajustou  cuidadosamente  os  dedos  da  mão 

direita aos da mão esquerda e tentou dar uma explicação. 

- Um conde é uma pessoa... muito importante. 
- E o presidente também! - interrompeu Cedric. As marchas luminosas têm 

quase  duas  léguas  de  comprimento,  toca  a  música  e  deitam  foguetes.  O  Sr. 
Hobbes levou-me, uma vez, a ver tudo isto. 

-  Um  conde  -  continuou  Havisham  -  é  quase  sempre  de  muito  antiga 

linhagem. 

- Que quer isso dizer? - perguntou o pequenito. 
 - Quer dizer que descende de uma família muito antiga... muito velha. 
- Ah! - exclamou Cedric, enterrando ainda mais as mãos nas algibeiras - é 

como a vendedeira de maçãs que está ao pé do parque. Pode-se dizer que é de 
muita antiga linhagem. É tão velha, tão velha, que ninguém sabe como ela pode 
conservar-se  de  pé.  Tem  mais  de  cem  anos,  com  certeza.  E,  apesar  disso,  está 
sempre  na  rua,  esteja  o  tempo  que  estiver.  Eu  tenho  pena  dela,  e  os  outros 

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rapazes  também.  Uma  ocasião,  o  Billy  Williams  tinha  quase  um  dó  lar,  e  eu 
pedi-lhe  que  comprasse  todos  os  dias  cinco  cêntimos  de  maçãs,  até  gastar  o 
dinheiro todo. Assim chegava para vinte dias. Mas, infelizmente, ele enfartou-se 
das maçãs, ao fim de uma semana. Então - foi uma sorte! - um senhor deu- me 
meio  dólar,  e  eu  pude  comprar  as  maçãs,  em  lugar  do  Billy.  Faz  pena  ver 
alguém assim tão pobre e de tão velha linhagem. Ela diz que a sente nos ossos e 
que, quando chove, ainda é pior! 

Havisham  olhava  para  o  pequenito,  enquanto  ele  falava,  e  sentia-se 

ligeiramente embaraçado. 

- Parece que não me compreeendeu bem! - explicou ele, por fim. - Quando 

eu falava de “antiga linhagem” não queria dizer “velhice”. Queria dizer que o 
nome dessa família já era conhecido há muitos anos. Durante centenas de anos, 
talvez,  muitas  pessoas  usaram  aquele  mesmo  nome,  ou  desempenharam  um 
papel na História do seu país. 

- É tal como George Washington - disse Cedric. Ouço falar dele desde que 

nasci,  e  é  conhecido  ainda  há  mais  tempo!  O  Sr.  Hobbes  diz  que  nunca  se 
esquecerá  dele.  É  por  causa  da  declaração  da  Independência  e  do  Quatro  de 
Julho, sabe? É um homem muito valente! 

-  O  primeiro  conde  de  Dorincourt  foi  nomeado  conde  há  quatrocentos 

anos! - disse Havisham, em tom solene. 

 -  Oh!  Oh!  -  exclamou  Cedric.  -  Isso  é  muito  tempo!  É  preciso  dizer  à 

Querida; deve interessá-la muito. E, depois de ser nomeado, o que faz o conde? 

- Muitos ajudaram a governar a Inglaterra. Alguns eram muito valentes e 

distinguiram-se nos campos de batalha. 

- Também eu gostava de combater! O meu papá era soldado e era muito 

valente - tão valente como George Washington. Talvez fosse por ser filho de um 
conde.  Gosto  muito  de  saber  que  os  condes  são  valentes.  É  uma  grande 
vantagem!  Dantes,  eu  tinha  medo  da  escuridão;  mas  comecei  a  pensar  nos 
soldados da Revolução e em George Washington, e perdi o medo. 

-  Às  vezes,  há  ainda  outra  vantagem  em  ser  conde  -  disse  lentamente 

Havisham, e fixou no pequenito os seus olhos penetrantes, com uma expressão 
particular. E continuou: - Alguns condes têm muito dinheiro. 

Tinha  curiosidade  em  saber  se  o  seu  jovem  amigo  conhecia  o  poder  do 

dinheiro. 

-  Deve  ser  muito  agradável  -  respondeu  Cedric  ingenuamente.  -  Eu 

gostava de ter muito dinheiro. 

- Gostava? - perguntou Havisham. - Porquê? 
-  Ora!  Porque  há  muitas  coisas  que  se  podem  fazer  com  dinheiro.  Por 

exemplo:  à  vendedeira  de  maçãs,  se  eu  fosse  rico,  havia  de  comprar-  lhe  uma 

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barraca para ela estar abrigada, um fogão para ela se aquecer, e havia de dar-lhe 
um dólar, todos os dias, quando chovesse, para não precisar de sair de casa. E 
depois... Oh! também lhe dava um xaile. Bem vê, com o xaile já lhe não doíam 
tanto  os  ossos.  Os  ossos  dela  não  são  como  os  nossos;  doem-lhe  quando  se 
mexe. Deve ser horrível. Se eu tivesse dinheiro, com certeza que ela não sofreria 
tanto. 

-  Bem  -  disse  Havisham.  -  E  que  mais  faria,  Lorde  Fauntleroy,  se  fosse 

rico? 

 -  Oh!  Muitas  coisas!  Como  é  natural,  dava  os  mais  lindos  presentes  à 

Querida: carteiras de agulhas, leques, dedais de ouro, anéis, uma enciclopédia e 
uma  carruagem,  para  ela  nunca  mais  ter  que  esperar  pelo  ónibus.  Se  ela 
gostasse de vestidos de seda cor-de-rosa, também lhe comprava alguns, mas ela 
prefere  os  pretos.  Havia  de  a  levar  aos  maiores  estabelecimentos,  para  ela 
escolher o que quisesse. E depois, Dick... 

- Quem é Dick? - perguntou Havisham. 
-  Dick  é  um  engraxador  -  explicou  o  jovem  lorde,  animando-se  cada  vez 

mais, ao fazer tão maravilhosos projectos. - É o engraxador mais gentil que se 
possa  imaginar.  Está  a  um  canto  da  rua,  num  bairro  central.  Já  o  conheço  há 
muitos anos. Uma vez, quando eu era pequenino, fui passear com a Querida, e 
ela  comprou-me  uma  linda  bola,  que  se  podia  atirar  muito  alto.  De  repente 
escapou-se-me das mãos e rolou na calçada,  no meio de carruagens e cavalos. 
Fiquei tão triste, que comecei a chorar - eu era ainda muito pequeno, só tinha 
três anos. - Dick estava a engraxar os sapatos de um senhor. Gritou: “- Espere, 
menino!”, e correu por entre os cavalos, até apanhar a minha bola. Limpou-a ao 
casaco  e  veio  dar-ma,  dizendo:  “-  Aqui  tem!  Esta  não  se  parte!”  A  Querida 
achou  isto  muito  gentil  e  eu  também.  Depois  disso,  quando  passeamos  para 
aquele  lado,  vamos  sempre  cumprimentá-lo.  Ele  costuma  dizer-me  “-  Como 
está?”,  e  eu  respondo:  “-  Bem,  obrigado!”  Conversamos  um  bocadinho,  e  ele 
conta-me como vão os negócios. Parece que agora correm mal. 

- E que desejaria fazer por ele? - perguntou o advogado, coçando o queixo 

com um sorriso singular. 

- Se eu tivesse dinheiro - disse Lorde Fauntleroy, enterrando-se ainda mais 

na poltrona, com um ar de homem de negócios -, compraria a parte de Jack. 

- Quem é Jack? - perguntou Havisham. 
 - É o sócio de Dick; e, pelo que Dick me  conta, é o pior sócio que há no 

mundo!  Não  honra  o  negócio;  não  é  honesto.  Até  o  senhor  ficaria  raivoso  se 
engraxasse  calçado,  o  melhor  que  pudesse,  mostrando-se  honesto  e  leal  em 
negócios, e, entretanto, o seu sócio fizesse exactamente o contrário. Os fregueses 
gostam do Dick mas detestam Jack, e é por isso que nunca mais voltam. Aqui 

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tem  a  razão  pela  qual,  se  eu  fosse  rico,  compraria  a  parte  de  Jack  e  mandaria 
fazer  uma  bonita  tabuleta  para  o  Dick.  Ele  diz  que  não  há  nada  para  atrair 
fregueses como uma bonita tabuleta. Também havia de lhe comprar escovas e 
fatos  novos,  para  o  ajudar  a  “lançar-se”.  A  única  coisa  que  ele  deseja  é 
exactamente poder “lançar-se”. 

Cedric contava a sua historiazinha, citando, ao mesmo tempo, certos ditos 

em calão, usados pelo seu amigo Dick, com a maior ingenuidade e confiança. A 
ideia  de  que  o  respeitável  Sr.  Havisham  podia  não  se  interessar  pelo  que  ele 
contava,  nem  sequer  lhe  passou  pela  cabeça.  Efectivamente,  Havisham 
começava  a  mostrar-se  vivamente  interessado,  mas  não  era,  talvez,  tanto  pelo 
engraxador e pela vendedeira de maçãs, como por aquela encantadora criança, 
cujo  cérebro  trabalhava  tão  activamente,  fazendo  planos  a  favor  dos  seus 
amigos e esquecendo- se completamente de si próprio. 

-  E  para  si,  que  compraria,  Lorde  Fauntleroy,  se  fosse  rico?  -  perguntou 

ele. 

- Muitas coisas! - respondeu logo Lorde Fauntleroy. - Mas, primeiro, daria 

algum  dinheiro  à  Maria,  para  a  Brígida.  A  Brígida  é  uma  irmã  dela  que  tem 
doze filhos e o marido desempregado. Costuma vir cá a casa e chora. Então, a 
Querida  dá-lhe  coisas,  numa  cesta,  e  ela  torna  a  chorar  e  a  dizer:  “-Deus  a 
abençoe,  minha  rica  senhora!”.  Também  penso  que  o  Sr.  Hobbes  haveria  de 
gostar de ter um relógio e uma corrente de ouro, como recordação minha, assim 
como  um  cachimbo  de  espuma.  E  depois...  gostaria  de  me  alistar  num 
regimento! 

- Um regimento? Para quê? - exclamou Havisham. 
- Para fazer como na festa nacional - explicou Cedric, que se entusiasmava 

cada vez mais. - Teria archotes, uniforme e insígnias para mim e para os meus 
camaradas. Faríamos marchas, exercícios, reconhecimentos... Aqui tem o que eu 
queria, se fosse rico. 

A porta abriu-se e a Sr.a Errol entrou. 
-  Peço  desculpa  de  me  ter  demorado  tanto,  mas  tive  que  atender  uma 

pobre  mulher,  que  tem  uma  vida  muito  amargurada  e  costuma  vir  visitar-me 
de vez em quando. 

- Lorde Fauntleroy tem estado a falar-me de alguns dos seus amigos, e do 

que desejaria fazer por eles, se fosse rico - disse Havisham. 

- Brígida faz parte dos seus amigos - respondeu a Sr.a Errol - e foi com ela, 

exactamente,  que  eu  estive  a  conversar.  Neste  momento,  a  situação  dela  é 
angustiosa,  porque,  além  de  tudo  o  mais,  o  marido  está  com  um  ataque  de 
reumatismo articular. 

Cedric desceu apressadamente da cadeira e disse: 

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- Vou cumprimentá-la e desejar as melhoras do marido. Gosto muito dele 

porque, um dia, fez-me uma espada de madeira. É muito habilidoso! 

O  pequeno  saiu,  a  correr.  Havisham  levantou-se  e  ficou,  um  momento  a 

reflectir. Depois de uma breve hesitação, olhou para a Sr.a Errol e disse: 

-  Antes  de  deixar  Dorincourt  tive,  com  o  conde,  uma  longa  conversa, 

durante a qual recebi instruções, em relação a Lorde Fauntleroy. O conde deseja 
ardentemente que o neto aceite, com alegria, a ideia de ir viver em Inglaterra e 
conhecer  o  avô.  Recomendou-me  que  lhe  explicasse  bem  que  a  mudança 
operada na sua vida lhe dará, além da riqueza, tudo o que as crianças apreciam. 
Desde que Lorde Fauntleroy manifeste um desejo, devo satisfazê-lo e dizer-lhe 
que  o  avô  lhe  dará  tudo  quanto  ele  quiser.  Estou  convencido  de  que  o  conde 
não imaginou que o neto tivesse desejos desta ordem, mas, se Lorde Fauntleroy 
se sente feliz socorrendo essa pobre mulher, estou certo de que o conde ficaria 
zangado ao saber que eu não satisfizera a sua aspiração. 

A verdade, porém, é que a generosidade do conde não tinha uma intenção 

elevada. Se o pequeno Lorde Fauntleroy não fosse, de sua natureza, um carácter 
bondoso e recto, o resultado dessa generosidade poderia ser terrível. Quanto à 
Sr.  a  Errol,  era  incapaz  de  qualquer  suposição  má.  Pensava  que  um  velho 
solitário  e  infeliz  por  ter  perdido  os  filhos  certamente  desejaria  mostrar-se 
generoso para o neto, a fim de conquistar a sua confiança e afeição. 

Alegrava-a a ideia de que Cedric poderia ajudar Brígida, e sentia- se feliz 

ao  pensar  que  a  primeira  consequência  daquela  extraordinária  mudança  de 
sorte, era o filho poder praticar um acto caridoso. Fez-se corada e exclamou: 

-  Oh!  Que  grande  bondade,  da  parte  de  Lorde  Dorincourt.  Como  Cedric 

vai ficar contente. 

Havisham tirou uma carteira do bolso interior do casaco. O seu rosto tinha 

uma  expressão  singular.  Na  verdade,  perguntava  a  si  próprio  o  que  diria  o 
conde, ao saber qual fora o primeiro desejo expresso pelo neto. Que pensaria o 
velho  fidalgo,  irritável,  egoísta  e  tão  profundamente  agarrado  aos  bens  deste 
mundo? 

-  Não  sei  se  já  compreendeu  bem  que  o  conde  de  Dorincourt  tem  uma 

enorme  fortuna  e  pode  satisfazer  seja  que  fantasia  for  -  disse  ele.  -  Julgo  que 
ficará  contente,  ao  saber  que  todos  os  desejos  de  Lorde  Fauntleroy  foram 
satisfeitos.  Quer  ter  a  bondade  de  o  chamar?!  Se  me  autoriza,  dar-lhe-ei 
dinheiro suficiente para ajudar os seus protegidos. 

 - Cinco libras! Vinte e cinco dólares! - exclamou a Sr. a Errol. - Para aquela 

pobre gente é uma verdadeira fortuna? Será possível? 

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-  Absolutamente  possível  -  respondeu  Havisham,  com  o  seu  discreto 

sorriso.  -  Deu-se  uma  grande  transformação  na  vida  do  seu  filho,  minha 
senhora; vai ter nas mãos um grande poder. 

- Oh! - protestou a Sr. á Errol. - Mas ele é ainda uma criança! Uma criança! 

Como  poderei  ensiná-lo  a  fazer  bom  uso  desse  poder?  Sinto-  me  quase 
assustada. Meu adorado filho, meu amor... 

O advogado tossiu ligeiramente, para aclarar a voz. O seu velho coração, 

seco e indiferente, comoveu-se com a expressão de ternura e receio que viu nos 
olhos da jovem mãe. E disse: 

- Pela conversa que tive com Lorde Fauntleroy, estou convencido de que o 

futuro  conde  de  Dorincourt  saberá  pensar  primeiro  nos  outros  do  que  em  si 
próprio. É ainda uma criança, mas creio que se pode confiar nele. 

A Sr. a Errol foi buscar Cedric. Quando se aproximavam, Havisham ouviu 

o pequeno dizer: 

- Parece que é um reumatismo muito mau! Ainda não pagaram a renda da 

casa, e isso ainda os faz mais doentes. 

Quando  entraram  na  sala,  Cedric  trazia  uma  expressão  apoquentada. 

Dirigindo-se a Havisham, disse: 

-  A  Querida  disse-me  que  o  senhor  quer  falar-me.  Eu  estava  a  conversar 

com a Brígida. 

Havisham  fitou-o  um  momento.  Era,  na  realidade,  uma  criança 

encantadora! 

- O conde Dorincourt... - começou ele. Olhou para a Sr. a Errol. A mãe de 

Lorde Fauntleroy ajoelhou junto do filho e enlaçou-o nos braços. Depois disse: 

- Cedric! O conde é teu avô, pai do teu pai. É muito bom, gosta muito de ti 

e  quer  que  tu  gostes  também  muito    dele,  porque  os  filhos  que  ele  tinha 
morreram todos. Deseja que sejas feliz e faças os outros felizes. É muito rico e 
quer  que  te  deem  tudo  o  que  tu  desejares.  Disse  isto  ao  Sr.  Havisham  e 
entregou-lhe  muito  dinheiro  para  ti.  Podes  dar  uma  parte  a  Brígida  -  o 
necessário  para  ela  pagar  a renda  da  casa  e comprar  remédios  para  o  marido. 
Que dizes a isto, Cedric? Como o teu avô é bom! 

Ao  terminar,  beijou  carinhosamente  as  faces  do  filho  que  o  espanto 

tornara coradas. 

O olhar de Cedric ia da mãe para Havisham. De repente, perguntou: 
-  Posso  ter  o  dinheiro  já?  Posso  dá-lo  imediatamente?  A  Brígida  vai-  se 

embora. 

Havisham estendeu-lhe a mão com dinheiro - um belo maço de notas de 

banco, muito novinhas. 

Cedric, sem esperar mais nada, saiu da sala, a correr. Ouviram-no a gritar: 

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-  Brígida!  Brígida!  Espera  um  instante!  Aqui  tens  dinheiro  para  pagar  a 

renda da casa. Foi o meu avô quem mo deu! É para ti e para o teu marido. 

- Oh! menino Cedric! - exclamou Brígida, com a voz alterada. - São vinte e 

cinco dólares! Onde está a senhora? 

Ouvindo isto, a Sr. a Errol disse a Havisham: 
- Tenho que ir explicar-lhe. 
Saiu também da sala, e Havisham ficou só, um momento. Foi até à janela e 

olhou para a rua, com ar pensativo. Imaginava o conde de Dorincourt sentado 
na  biblioteca  do  castelo,  uma  sala  esplêndida  mas  triste;  imaginava  o  velho 
fidalgo gotoso e solitário cercado de luxo e esplendor, mas sem ter a estima de 
ninguém;  porque,  durante  toda  a  sua  vida,  só  gostara  verdadeiramente  de  si 
próprio. 

Sempre  se  mostrara  egoísta,  arrogante  e  violento;  toda  a  sua  fortuna  e  a 

sua  influência,  todas  as  vantagens  que  lhe  vinham  do  seu  nome  e  da  sua 
elevada  categoria  social,  apenas  tinham  servido  para  lhe  proporcionar,  a  ele 
próprio,  distracções  e  satisfação.  Nunca  pensara  nos  outros.  E  agora,  que  a 
velhice  chegara,  toda  esta  vida  agitada  e  unicamente  consagrada  ao  prazer, 
tinha, como consequência, a falta de saúde, a má disposição, um génio irascível 
e o desdém pela vida de sociedade, que já não conseguia interessá-lo! 

Apesar de toda a sua magnificência, não havia fidalgo menos popular do 

que o conde de Dorincourt, nem velho mais isolado. 

Podia, sem dúvida, encher o palácio de hóspedes escolhidos, dar grandes 

recepções e esplêndidas caçadas. Mas ele próprio não ignorava que todas essas 
pessoas  que  acei  tavam  os  seus  convites,  no  íntimo,  temiam  as  suas  palavras 
mordazes  e  sarcásticas,  os  seus  modos  desabridos,  porque  ele  sempre  gostara 
de  ferir  a  susceptibilidade  dos  outros,  ou  vexá-los,  principalmente  se  eram 
tímidos. 

Havisham  conhecia  melhor  do  que  ninguém  os  modos  desagradáveis  do 

conde. E era em tudo isto que ele pensava, enquanto olhava para a rua, estreita 
e tranquila. 

Depois,  em  vivo  contraste,  surgiu  no  seu  espírito  a  figura  do  encantador 

rapazinho sentado na sua frente, a contar a história de Dick e da vendedeira de 
maçãs, com tanta candura e generosidade. 

Havisham pensou nos imensos rendimentos, nas magníficas propriedades 

e no poder de fazer bem ou mal, que se encontrariam, um dia, naquelas mãos 
que o pequeno Lorde Fauntleroy costumava meter nas algibeiras. 

E pensou: “Vai ser muito diferente, muito diferente!” Pouco depois Cedric 

e a mãe voltaram à sala. O pequeno estava excitadíssimo. Sentou-se entre a mãe 

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e  o  advogado  e  tomou  uma  das  suas  atitudes  predilectas:  as  mãos  sobre  os 
joelhos. Estava radiante, ao pensar na alegria e no alívio de Brígida. 

 -  Imagine  que  começou  a  chorar!  -  contou  ele  a  Havisham.  -  Disse  que 

chorava de alegria. Foi a primeira vez que vi chorar alguém de alegria. O meu 
avô  é  muito  bom!  No  fim  de  contas  é  mais  agradável  ser  conde  do  que  eu 
pensava.  Estou  quase  satisfeito...  quase  satisfeito  ao  pensar  que,  mais  tarde,  o 
serei também. 

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A partida 

 
A  opinião  favorável  que  Cedric  começava  a  ter  acerca  das  vantagens  de 

ser conde, aumentou ainda no decorrer da semana seguinte. 

Custava-lhe até a acreditar que podia fazer tudo quanto queria. 
Depois de algumas conversas com Havisham, compreendeu, pelo menos, 

que  era  possível  realizar  os  seus  mais  caros  desejos,  o  que  ele  procurou  fazer 
imediatamente, com um entusiasmo tão grande, que divertiu bastante o velho 
inglês. 

E assim, nas vésperas da partida para Inglaterra, Havisham viu-se forçado 

a desempenhar missões singulares. 

Nunca  mais  poderia  esquecer  aquela  manhã  em  que  Cedric  o  levou  a 

visitar Dick, num bairro central de Nova Iorque, e a tarde em que anunciaram à 
vendedeira  de  maçãs  que  ia  ter  uma  barraca,  um  fogão,  um  bom  xaile  e  uma 
quantia, em dinheiro, que pareceu, à pobre mulher, verdadeiramente fantástica. 

-  É  porque  eu  vou  para  Inglaterra,  para  ser  lorde  -  explicou  Cedric,  com 

doçura.  -  E  nos  dias  de  chuva  eu  sofreria,  ao  pensar  nos  seus  ossos.  Agora, 
espero que se sentirá melhor. 

Quando  se  afastaram,  deixando  a  boa  mulher  tão  espantada,  que  lhe 

custava a acreditar na sua felicidade, Cedric ia dizendo a Havisham: 

 - É muito bondosa e gentil, esta velha de linhagem. Um dia, em que eu caí 

e esfolei um joelho, ela ofereceu-me uma maçã. Nunca mais me esqueci. Como é 
natural, nós lembramo-nos sempre de quem foi bom para nós. 

Aquele  rapazinho;  de  alma  simples  e  bem  formada,  não  supunha  que 

houvesse alguém capaz de esquecer os benefícios recebidos. 

A visita a Dick foi de palpitante interesse. Dick acabava de ter uma grave 

questão com Jack, e estava muito abatido quando chegaram os dois visitantes. 
Ao  ouvir  Cedric  afirmar-lhe,  com  a  maior  naturalidade,  que  todos  os  seus 
aborrecimentos  iam  acabar,  anunciando-lhe,  ao  mesmo  tempo,  que  resolvera 
oferecer-lhe  tudo  quanto  ele  precisava,  o  honesto  Dick  ficou  tão  surpreendido 
que, por uns momentos, nem pôde falar. 

Quanto  a  Havisham,  ficou  impressionado  pela  maneira  clara,  simples  e 

precisa como Lorde Fauntleroy expôs ao jovem engraxador o fim da sua visita. 

Ao  saber  que  o  seu  amiguinho  se  tornara  lorde  e  que  viria  a  ser  conde, 

Dick  abriu  muito  os  olhos  e  ficou  tão  sobressaltado,  que  o  boné  caiu-lhe  ao 

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chão. Ao apanhá-lo, soltou uma exclamação, que pareceu estranha a Havisham, 
mas que Cedric já lhe tinha ouvido mais vezes: 

- Que grande patranha! 
Como não podia deixar de ser, Cedric não gostou e respondeu logo, muito 

senhor de si: 

-  Toda  a  gente  pensa  que  é  mentira:  o  Sr.  Hobbes  até  imaginou  que  eu 

apanhara  sol  na  cabeça.  Eu  próprio,  a  princípio,  não  acreditei,  mas  já  me 
convenci. Agora, quem é conde é o meu avô, e ele quer que eu faça tudo o que 
me der prazer. É muito bom, apesar de ser conde, e mandou-me muito dinheiro 
pelo  Sr.  Havisham.  Foi  desse  dinheiro  que  tirei  a  quantia  que  te  dou  para  te 
desembaraçares de Jack e comprares tudo o que te faz falta. 

 Tal como a velha vendedeira de maçãs, Dick mal podia acreditar na sua 

boa sorte. Parecia-lhe um sonho e chegava a ter medo de acordar! 

À despedida, Cedric estendeu-lhe a mão e disse- lhe: 
-  Desejo-te  boa  sorte  nos  negócios!  Escreve-me  a  dar  notícias.  Não  te 

esqueças de que somos bons amigos. Aqui tens a minha direcção. (Ao dizer isto, 
deu-lhe um bocado de papel onde estava escrita a sua nova morada. ) Já não me 
chamo Cedric Errol; sou Lorde Fauntleroy! Até à vista, Dick! 

O  engraxador  tinha  lágrimas  nos  olhos.  Queria  falar  e  não  podia.  Só  a 

custo conseguiu dizer: 

- Tenho muita pena de que se vá embora!  
Depois, voltando-se para Havisham, levou a mão ao boné e acrescentou: 
- Muito obrigado! 
Quando os dois se afastaram, Dick ficou imóvel, a segui-los, com os olhos 

rasos de água e a garganta apertada, até que eles desapareceram. 

Nos dias que antecederam a partida, o pequeno Lorde Fauntleroy passou 

todos os momentos que pôde com o seu amigo Hobbes. O pobre homem estava 
profundamente triste e abatido. Quando o seu amiguinho lhe entregou, com ar 
triunfal,  um  relógio  e  uma  corrente  de  ouro,  como  presente  de  despedida, 
Hobbes  mal  soube  agradecer.  Colocou  o  estojo  sobre  o  balcão  e  assoou-se 
ruidosamente várias vezes. 

-  Tem  umas  palavras  escritas  -  disse  Cedric.  -  Veja  no  interior  da  tampa. 

Fui  eu  mesmo  quem  disse  ao  relojoeiro  o  que  devia  escrever:  “Lembrança  de 
Lorde Fauntleroy ao seu velho amigo Hobbes. Para se lembrar do seu amigo”. 
Não quero que se esqueça de mim! 

Hobbes  tornou  a  assoar-se  e  respondeu,  com  voz  enrouquecida  pela 

comoção: 

 -  Nunca  me  esquecerei  de  si!  Talvez  suceda  o  contrário,  e  o  menino  se 

esqueça de mim, lá no meio da sua aristocracia inglesa! 

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-  Está  enganado!  -  exclamou  Cedric.  -  Esteja  onde  estiver,  nunca  o 

esquecerei. Tenho até esperança de que me vá visitar um dia. O meu avô ficaria 
encantado.  Talvez  ele  próprio  lhe  escreva,  a  convidá-lo.  E  se  assim  for...  não 
recuse, não! Lá pelo convite vir de um conde... 

- Com certeza! Se ele me convidar, irei imediatamente! 
- respondeu Hobbes. 
Chegou finalmente o momento da partida. As malas foram transportadas 

para  o  vapor  e  a  carruagem  que  devia  conduzi-las  parou  em  frente  da  porta. 
Nesse instante, uma estranha melancolia invadiu a alma do pequenito. A mãe 
fechara-se, durante alguns minutos, no quarto. Quando desceu a escada, tinha 
os olhos húmidos e os lábios trémulos. Cedric correu para ela. Abraçaram-se e 
beijaram-se.  A  criança  sentia  que  qualquer  coisa  os  entristecia,  mas  não  sabia 
explicar o quê. De repente, teve uma ideia e exclamou: 

-  Nós  gostávamos  muito  da  nossa  casinha,  não  é  verdade,  Querida?  E 

havemos de gostar sempre dela, não é verdade? 

- Sim... sim respondeu a mãe, em voz baixa e muito doce. E repetiu: - Sim, 

meu tesouro! 

Na carruagem, Cedric sentou-se muito encostado à mãe e enquanto ela se 

debruçava  na  portinhola,  para  lançar  um  derradeiro  olhar  para  tudo  o  que 
deixava, o pequenito pegou-lhe na mão e acariciou-lha ternamente. 

Depois, sem transição, sem quase saberem como, encontraram-se a bordo, 

no meio de um movimento enorme e de um ruído ensurdecedor. 

Cedric reparava interessadamente em tudo o que o rodeava: viajantes que 

chegavam,  outros  que  procuravam  as  bagagens;  malas,  cestos,  caixotes, 
guindastes,  cordas,  oficiais  que  davam  ordens;  gente  que  se  despedia  -  uns 
choravam, outros acenavam com lenços brancos. Olhava também para os salva-
vidas, os mastros muito altos, que parecia tocarem no céu, e fez logo projecto de 
conversar  com  os  marinheiros  e  pedir-lhes  que  lhe  contassem  histórias  de 
piratas e ilhas desertas. 

No último instante, quando se debruçava na ponte superior, para observar 

as  manobras  finais,  percebeu  que  alguém  pretendia  atravessar  por  entre  um 
grupo de pessoas que estava a seu lado. Essa pessoa queria chegar junto dele. 
Era um rapaz que trazia uma coisa vermelha na mão. Foi então que o pequeno 
Lorde Fauntleroy reconheceu Dick. 

-  Vim  a  correr  -  disse  o  engraxador.  –  Queria  desejar-lhe  boa  viagem.  O 

negócio “vai de vento em popa”! Comprei este presente para si, com o dinheiro 
que ganhei ontem. Perdi o papel do embrulho quando me “esgueirei” por entre 
esses  “tipos”  que  não  me  queriam  deixar  passar.  É  um  lenço  de  seda.  É  para 
fazer boa figura lá no meio dessa “gente da alta”. 

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Disse  tudo  isso  sem  parar,  como  se  fosse  uma  só  frase.  Ouviu-se  uma 

campainha e, antes que Cedric pudesse pronunciar uma única palavra, Dick foi-
se embora, gritando com toda a força: 

- Tenho que me “pôr a andar!” Até à vista! Não se esqueça de usar o lenço! 
Atravessou  a  ponte  como  uma  flecha,  exactamente  no  último  instante 

antes da partida. Depois, no cais, parou, tirou o boné e agitou-o no ar. Cedric, lá 
em  cima,  segurava  na  mão  um  lenço  de  seda  vermelha,  guarnecido  de 
ferraduras cor de violeta. 

O barulho era cada vez maior. 
- Até à vista! Adeus! Até à vista! - parecia que todos gritavam, ao mesmo 

tempo. 

- Não se esqueça! Escreva- me! Até à vista! Até à vista! 
 O pequeno Lorde Fauntleroy, muito debruçado, agitava o lenço vermelho 

e gritava com quanta força tinha: 

- Até à vista, Dick! Muito obrigado! Até à vista! 
Então,  o  navio  principiou  a  afastar-se,  e  os  seus  clamores  redobraram.  A 

multidão agitava-se no cais. A Sr.a Errol puxou o véu para os olhos. Mas Dick 
viu apenas um claro rosto de criança, uma cabeleira loira que brilhava ao sol, e, 
no meio de todo aquele ruído, só ouvia uma voz infantil que gritava: “- Até à 
vista, Dick!” - enquanto o navio se movia lentamente, levando o pequeno Lorde 
Fauntleroy  para  longe  da  terra  onde  nascera,  para  a  pátria  dos  seus 
antepassados. 

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Em Inglaterra 

 
Foi  mesmo  durante  a  viagem  que  a  mãe  de  Cedric  lhe  explicou  que  não 

viveriam juntos, na mesma casa, e esta notícia causou-lhe uma tal tristeza, que 
Havisham  compreendeu  como  o  conde  fizera  bem  em  decidir  que  a  mãe 
habitasse perto do filho e pudesse vê-lo muitas vezes. 

Era  evidente  que,  noutras  circunstâncias,  a  criança  não  suportaria  a 

separação.  Mas  a  mãe  soube  convencê-lo  com  tanta  ternura,  de  que  estaria 
muito perto dele, que pouco tempo depois Cedric deixou de estar atormentado 
com a ideia de se separarem. 

- A casa em que eu viverei não é longe do castelo 
- repetia ela, sempre que falavam no assunto. - Poderemos ver-nos todos 

os  dias,  e  tu  terás  sempre  muitas  coisas  para  me  contar.  A  casa  para  onde  tu 
vais viver é muito bonita. O teu pai falava-me dela muitas vezes. Gostava muito 
dela, e tu também hás-de gostar! 

- Mas, gostaria muito mais, se a Querida lá vivesse também - respondeu o 

jovem lorde, com um fundo sus piro. 

Não podia compreender por que razão a mãe devia viver numa casa e ele 

noutra. 

A Sr.a Errol achava preferível não lhe explicar as razões desta resolução e 

dissera a Havisham: 

- Se lhe disser a verdade, isso far-lhe-á muita impressão. Tenho a certeza 

de que se afeiçoará mais facilmente  ao avô se ignorar que ele tem por mim uma 
tal  aversão.  É  preferível  não  lhe  dizer  nada,  pois,  de  contrário,  pode  cavar-se 
uma barreira entre o conde e ele, apesar de Cedric ser ainda uma criança. 

Ficou,  então,  combinado  que  Havisham  diria  apenas  a  Cedric  que  uma 

forte  razão  misteriosa,  que  ele  era  ainda  muito  pequeno  para  compreender, 
impedia  a  mãe  de  viver  com  ele  e  com  o  avô,  no  castelo.  Mais  tarde  saberia 
tudo. 

A verdade é que, apesar de todas as explicações da mãe, o pequeno lorde 

não se conformava com aquela ideia. 

-  Desagrada-me  muito,  muito!  -  disse  um  dia  ao  advogado.  -  Ninguém 

pode  imaginar  quanto  me  desagrada  que  a  Querida  viva  numa  casa  à  parte. 
Mas,  enfim,  há  muitas  coisas  desagradáveis  na  existência  e  é  preciso  suportá-
las.  Ouvi  dizer  isto  à  Maria  e  ao  Sr.  Hobbes.  Além  disso,  a  Querida  quer  que 

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viva  feliz  ao  pé  do  avô,  porque  ele  perdeu  todos  os  filhos  que  tinha.  Tenho 
muita pena dele! 

Uma das coisas que encantava toda a gente que convivia com o pequeno 

Lorde Fauntleroy era o ar atento com que seguia todas as conversas. Este ar, as 
observações,  próprias  de  pessoas  crescidas,  que  fazia  frequentemente  e  a 
expressão  ao  mesmo  tempo  grave  e  ingénua  do  seu  rosto  infantil,  eram 
irresistíveis. Havisham gostava cada vez mais de conversar com ele. 

-  Está,  então,  disposto  a  gostar  muito  do  conde  de  Dorincourt?  - 

perguntou-lhe um dia. 

- Estou. É da minha família e nós gostamos sempre da nossa família. Além 

disso, foi muito gentil para mim, e quando alguém é assim tão gentil para nós, 
devemos estimá-lo, mesmo que não seja da nossa família. Ora, sendo meu avô, 
devo estimá-lo ainda mais. 

-  Parece-lhe  que  ele  gostará  também  de  si,  Lorde  Fauntleroy?  -  insistiu 

Havisham. 

 - Oh! Sem dúvida! Bem vê, eu também sou da sua família e sou o filho do 

seu  filho.  Tenho  mesmo  a  certeza  de  que  já  gosta  de  mim,  senão  não  me 
mandaria buscar e não satisfaria todos os meus desejos. 

- Realmente... - concordou Havisham. 
-  Sim  -  repetiu  Cedric  -,  é  natural  que  um  avô  goste  do  neto.  Não  é  da 

minha opinião? 

Os  passageiros  simpatizavam,  todos,  com  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy, 

como se conhecessem a sua romântica história. Viam-no correr de um lado para 
o  outro,  passear  com  toda  a  seriedade  entre  a  mãe  e  Havisham,  ou  conversar 
animadamente com os marinheiros, e todos lhe queriam bem. Mas era entre os 
marinheiros  que  ele  tinha  os  seus  melhores  amigos.  Contavam-lhe  histórias 
maravilhosas  de  ilhas  desertas,  de  piratas  e  naufrágios,  ensinavam-lhe  a 
entrançar  cordas,  a  aparelhar  barquinhos  de  madeira,  e  explicavam-lhe 
minuciosamente  as  manobras  de  bordo.  Cedric  aprendia  termos  náuticos, 
empregando-os depois nas suas conversas com os passageiros, que lhe achavam 
imensa graça. 

Jerry,  um  velho  “lobo  do  mar”  que,  segundo  ele  dizia,  já  fizera  duas  ou 

três  mil  viagens,  contava-lhe  as  peripécias  mais  extraordinárias  da  sua  vida, 
aumentadas agora pela sua própria imaginação. A acreditar no que dizia, Jerry 
já  tinha  sido  parcialmente  assado,  comido  e  escalpelizado  pelos  canibais,  uma 
boa dúzia de vezes. 

- É por isso que ele é calvo - explicava Lorde Fauntleroy à mãe. - Quando 

se  é  escalpelizado  muitas  vezes,  os  cabelos  nunca  mais  tornam  a  nascer.  Jerry 
tinha  uma  bonita  cabeleira,  mas  o  rei  dos  canibais  arrancou-lha,  para  ele 

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próprio a usar. E como Jerry estava a tremer de medo, os cabelos puseram-se-
lhe em pé e nunca mais tornaram a ficar macios. E agora, o rei dos canibais usa 
a cabeleira de Jerry, toda espetada, como uma escova. Nunca ouvi histórias tão 
extraordinárias! Quem me dera contá-las ao Sr. Hobbes! 

Nos  dias  em  que  fazia  mau  tempo,  os  passageiros,  reunidos  no  salão, 

pediam a Cedric que contasse histórias de Jerry, e o pequenito, sentado no meio 
deles, encantava-os com a ingenuidade e a graça das suas narrativas. 

Por seu lado, Cedric costumava dizer à mãe: 
- As histórias de Jerry agradam a toda a gente! É pena ele já não se lembrar 

bem  e  confundir,  às  vezes,  umas  histórias  com  outras.  Também  não  admira! 
Quando se foi escalpelizado várias vezes, é natural perder-se a memória. 

Onze  dias  depois  de  terem  embarcado,  chegaram  a  Liverpool.  No  dia 

seguinte,  ao  anoitecer,  a  carruagem  que  os  conduzia  parava  em  frente  do 
pavilhão de Court Lodge. Como estava escuro, a casa distinguia-se mal. Cedric 
viu  apenas  que  havia  uma  alameda  com  grandes  árvores,  uma  porta  aberta  e 
um raio de luz que viriha de dentro. A fiel Maria, que os havia acompanhado, 
chegara a Court Lodge primeiro que eles. Quando saltou da carruagem, Cedric 
avistou-a logo com mais duas criadas que os esperavam no vasto vestíbulo. 

Lorde Fauntleroy correu para ela, com uma exclamação de contentamento: 
- Chegaste bem, Maria? Querida, a Maria está aqui! E, ao dizer isto, beijou 

as faces vermelhas da velha criada. 

A Sr. a Errol também se mostrou satisfeita. A presença de Maria fazia- lhe 

bem. Parecia-lhe, assim, que estaria menos só. Estendeu- lhe a mão, que a criada 
apertou afectuosamente, como se adivinhasse o que lhe ia na alma. 

As criadas inglesas observaram mãe e filho com viva curiosidade. Tinham 

ouvido  as  coisas  mais  disparatadas  acerca  deles;  sabiam  que  o  conde  não 
gostava  da  nora  e  que,  por  isso  mesmo,  ela  ficaria  vivendo  no  pavilhão,  ao  
passo que a criança iria para o castelo. Também sabiam que o pequenito era o 
herdeiro  da  imensa  fortuna  do  conde,  e  conheciam  perfeitamente,  por 
experiência própria, o irascível fidalgo, os seus ataques de gota e as suas fúrias. 

-  Não  te  invejamos  a  sorte,  pequeno  -  diziam  elas.  Mas  ignoravam 

absolutamente a personalidade de Lorde Fauntleroy, a sua maneira de ser e o 
seu carácter. 

O futuro conde de Dorincourt observava tudo: o vestíbulo espaçoso, com 

numerosos  quadros,  as  cabeças  de  veado  e  todos  os  objectos  curiosos  que  o 
ornamentavam. Era diferente de tudo quanto ele tinha visto, até então. 

- É uma casa muito bonita, não achas, Querida? 
- disse ele. - Gosto que fiques a viver aqui! É uma grande casa. 

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Era,  realmente,  uma  grande  casa,  comparada  com  aquela  onde  haviam 

vivido em Nova Iorque. Maria conduziu-os ao primeiro andar, a um quarto de 
cama forrado de tecido claro, onde ardia um belo fogo. Uma gata persa, branca 
de neve, dormia regaladamente perto do lume. 

-  Foi  a  governante  do  castelo  que  a  mandou  para  a  senhora.  Diz  que 

sempre é uma companhia - explicou Maria. - A governante é boa pessoa e veio, 
pessoalmente, preparar tudo, aqui. Ela disse-me que estimava muito o capitão 
Errol,  e  que  teve  imensa  pena  dele.  Contou-me  que  o  capitão,  em  criança,  era 
lindo, e que depois, quando se fez homem, tinha sempre uma palavra agradável 
para  toda  a  gente.  Então  eu  disse-  lhe:  “-  Pois  saiba,  minha  senhora,  que  o 
capitão Errol deixou um filho que é tal qual como ele “. 

Pouco  depois,  mãe  e  filho  desceram  e  dirigiram-se  a  uma  grande  sala, 

muito bem iluminada e com mobiliário sumptuoso. Em frente do fogão estava 
estendida uma grande pele de tigre e, de cada lado, havia uma poltrona. 

 A  linda  gata  branca,  sensível  às  festas  de  Lorde  Fauntleroy,  seguiu-o 

quando  voltaram  para  o  rés-do-chão.  Cedric  estava  encantado  com  ela  e 
estendeu-se no tapete, deixando- se ficar assim, com a cabeça encostada à dela, 
a acariciá-la, sem prestar atenção ao que a mãe e Havisham diziam. 

Falavam em voz baixa e a Sr. a Errol, um pouco pálida, parecia comovida. 
- É forçoso que ele vá hoje? - perguntou ela. 
-  Não,  não  é  necessário  ir  já  hoje  -  respondeu  Havisham.  -  Irei  eu, 

pessoalmente, logo que acabemos de jantar, prevenir o conde da nossa chegada. 

A Sr. a Errol contemplou o filho, e depois sorriu tristemente, dizendo: 
-  O  conde  não  avalia,  com  certeza,  o  que  me  leva.  Depois,  fitando 

Havisham, acrescentou: 

-  Quer  fazer-me  o  favor  de  lhe  dizer  que  eu  prefiro  não  receber  este 

dinheiro? 

-  Este  dinheiro?!  -  exclamou  Havisham.  -  Quer  dizer,  a  mesada  que  ele 

resolveu conceder-lhe? 

-  Exactamente  -  respondeu  ela,  com  simplicidade.  Prefiro  não  a  receber. 

Aceitarei a casa, para viver, porque não pode ser de outra maneira, e fico muito 
grata ao conde de Dorincourt, pois, assim, tenho possibilidade de ficar perto do 
meu  filho.  Mas  eu  possuo  algum  dinheiro  -  o  suficiente  para  levar  uma  vida 
simples. O conde tem tal aversão por mim, que eu teria um pouco... a impressão 
de  lhe  vender  Cedric.  Cedo-lhe,  sim,  mas  unicamente  porque  é  para  bem  do 
meu filho e porque o pai gostaria que ele fosse educado aqui. 

Havisham coçou o queixo. 
- A sua resolução é muito estranha - disse ele. - O conde de Dorincourt vai 

ficar descontente e não compreenderá a sua maneira de ver. 

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 - Se reflectir, compreenderá. Para o necessário, não preciso de dinheiro. E 

porque  havia  de  aceitá-lo,  para  o  supérfluo,  da  parte  de  um  homem  que  me 
detesta, a ponto de me tirar o meu filho. o filho do seu filho? 

Havisham ficou silencioso durante um momento. Depois respondeu: 
- Transmitir-lhe-ei o que deseja. 
Serviram o jantar. A gata instalou-se numa cadeira ao lado de Cedric, e ali 

se conservou até se levantarem da mesa. 

Quando,  mais  tarde,  Havisham  se  apresentou  no  castelo,  foi  logo 

introduzido  nos  aposentos  do  conde,  que  encontrou  comodamente  instalado 
numa grande poltrona, junto do fogão. 

O  velho  fidalgo  fixou  em  Havisham  o  olhar  penetrante  e  o  advogado 

compreendeu que, apesar da sua aparência impassível, o conde estava nervoso 
e intimamente agitado. 

- Ei-lo de volta, Havisham. Que notícias me traz? - perguntou ele. 
- Lorde Fauntleroy e sua mãe chegaram a Court Lodge 
- respondeu Havisham. - Fizeram boa viagem e estão de perfeita saúde. 
O conde teve um gesto impaciente e disse, bruscamente: 
-  Tanto  melhor!  Até  aqui  tudo  vai  bem.  Ponha-se  à  vontade,  Havisham; 

tome um cálice de Porto e sente-se. Tem mais alguma coisa para me dizer? 

-  O  jovem  lorde  passará  esta  noite  com  a  mãe.  Acompanhá-lo-ei  amanhã 

ao castelo. 

O conde tinha o cotovelo apoiado ao braço da poltrona. Levantou a mão 

até aos olhos, como se quisesse ocultá-los. Depois disse: 

-  E  então?  Continue.  Recomendei-lhe  que  não  me  escrevesse;  portanto 

ignoro tudo. É um rapaz de que género? A mãe não interessa. Como é o rapaz? 

 Havisham bebeu um gole de vinho do Porto e respondeu, com o cálice na 

mão, muito ponderadamente: 

- É difícil apreciar o carácter de uma criança de oito anos. 
Lorde  Dorincourt  estava  fortemente  apreensivo.  Olhou  para  Havisham 

com expressão dura e deixou escapar palavras desagradáveis: 

-  Nesse  caso,  é  um  parvo?  Ou  um  malcriado?  Adivinha-se-lhe  logo  o 

sangue americano, não é assim? 

-  Creio  que  o  sangue  americano  não  o  prejudicou!  -  respondeu  o 

advogado, no seu tom frio e calmo. - Tenho pouca experiência de crianças, mas 
esta causou-me excelente impressão. 

Havisham exprimia-se sempre com uma grande serenidade, mas, naquela 

noite,  a  sua  maneira  de  falar  era  ainda  mais  reservada.  Parecia-lhe  preferível 
que  o  conde  formasse,  por  si  próprio,  a  sua  opinião  acerca  do  neto,  sem 
qualquer influência estranha. 

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- É saudável e bem desenvolvido? - perguntou ainda o avô. 
- Tem uma aparência absolutamente saudável e está muito desenvolvido. 
- Boa figura e com um físico aceitável? 
Nos lábios finos de Havisham passou um imperceptível sorriso. 
-  Parece-me  uma  linda  criança,  mas  talvez  eu  não  seja  bom  juiz  no 

assunto...  -  respondeu.  -  Em  todo  o  caso,  vai  achá-lo  um  pouco  diferente  da 
maioria das crianças inglesas. 

- Não duvido... - resmungou o velho fidalgo. - As crianças americanas não 

passam de um bando de malucos e atrevidos. Têm-mo dito muitas vezes.  

- Não notei que ele fosse uma coisa nem outra - observou Havisham. - Não 

sei bem explicar a diferença que  acho entre ele e os nossos jovens compatriotas. 
É uma espécie de mistura de infantilidade e ponderação. 

- É mas é o atrevimento americano. - protestou o conde. - Há muito tempo 

que  sei  isso...  Chamam-lhe  precocidade.  franqueza.  Cá  por  mim  chamo-lhe 
impertinência, grosseria e maneiras ordinárias! 

Havisham bebeu mais uns goles de Porto. Evitava sempre discutir com o 

seu  nobre  cliente,  principalmente  quando  ele  estava  com  um  ataque  de  gota, 
como  agora  sucedia.  Nessas  ocasiões  era  preferível  não  o  contrariar.  Por  isso, 
houve uns minutos de silêncio. Por fim, Havisham disse: 

- A Sr.a Errol encarregou-me de lhe transmitir um desejo... 
- Não tenho nada a ver com os desejos de semelhante criatura - exclamou 

Lorde Dorincourt, irritado. - Quanto menos ouvir falar nela, melhor. 

-  Trata-se  de  uma  coisa  importante  -  explicou  o  advogado.  -  Ela  prefere 

não aceitar a mesada que Vossa Senhoria tenciona dar-lhe. 

O conde teve um sobressalto. 
-  O  quê?  -  gritou  ele.  -  Que  quer  isso  dizer?  Havisham  repetiu  o  que 

dissera e acrescentou: 

- Ela pensa que não necessita desse dinheiro, e como não existem entre ela 

e Vossa Senhoria relações... como direi?. relações amigáveis. 

- Amigáveis! - respondeu o velho fidalgo, cada vez mais exaltado. - Com 

certeza  que  as  nossas  relações  não  são  amigáveis!  Essa  mulher  é-  me  odiosa! 
Uma americana ambiciosa e barulhenta! Nem a quero ver! 

-  Senhor  conde  -  disse  Havisham  -,  não  tem  o  direito  de  lhe  chamar 

ambiciosa. Ela não pediu nada. Não aceita, mesmo, o dinheiro que lhe oferece. 

- É tudo uma comédia! - replicou asperamente o fidalgo. - O que ela quer é 

convencer-me do seu desinteresse. Mas não me convence! Não consentirei que 
ela viva, como uma pobre qualquer, à porta do meu parque. Desde que é a mãe 
de Lorde Fauntleroy, tem uma situação a manter e há-de mantê-la. Receberá o 
dinheiro quer queira, quer não! 

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- Não o gastará! - respondeu Havisham. 
- Isso pouco me importa. Mas há-de recebê-lo. Não poderá contar, a quem 

lhe  apetecer,  que  leva  uma  vida  miserável  porque  eu  a  abandono.  O  que  ela 
quer  é  impressionar  mal  o  filho  a  meu  respeito.  A  estas  horas  já  o  indispôs 
contra mim. 

- Não! - exclamou Havisham. - Tenho ainda mais alguma coisa para dizer 

a Vossa Senhoria, que lhe provará não ser verdade o que pensa. 

-  Não  quero  ouvir  mais  nada!  -  gritou  o  conde,  com  a  voz  alterada  pela 

cólera, pela comoção e pela gota. 

Apesar disso, o advogado continuou: 
-  A  Sr.  a  Errol  pede  a  Vossa  Senhoria  que  não  deixe  perceber  a  Lorde 

Fauntleroy a aversão que tem por ela. A criança adora-a, e esse ódio levantaria 
uma  barreira  entre  avô  e  neto.  Ela  explicou  a  Lorde  Fauntleroy  que  era  ainda 
muito  pequeno  para  compreender  a  razão  pela  qual  viveria  separado  da  mãe, 
mas  que,  mais  tarde,  compreenderia  tudo.  Ela  deseja  que  não  haja  nenhuma 
sombra entre Vossa Senhoria e Lorde Fauntleroy. 

O  conde  de  Dorincourt  recostou-se  na  poltrona.  Pelos  seus  olhos,  de 

expressão dura, muito enterrados sob as fortes sobrancelhas, passou um rápido 
clarão. 

-  Quer,  então,  convencer-me  de  que  a  mãe  não  explicou  a  Lorde 

Fauntleroy o motivo desta separação? - exclamou, com voz um pouco trémula. 

- Não lhe disse uma única palavra - respondeu Havisham. - Posso afirmá-

lo! Lorde Fauntleroy considera Vossa Senhoria o avô mais amável e carinhoso 
do mundo. 

 Ninguém lhe disse nada, absolutamente nada, que possa fazê-lo duvidar 

da  bondade  e  da  perfeição  do  conde  de  Dorincourt.  Além  disso,  como  eu  lhe 
satisfiz todos os desejos que manifestou antes de deixar Nova Iorque, conforme 
as  instruções  de  Vossa  Senhoria,  ele  considera  o  avô  um  prodígio  de 
generosidade. 

- Está convencido disso? 
-  Afirmo,  sob  a  minha  palavra  de  honra,  que  a  impressão  de  Lorde 

Fauntleroy  acerca  do  avô  depende  unicamente  de  Vossa  Senhoria.  E,  se  me 
permite ser inteiramente franco, dir-lhe-ei que acho preferível não lhe falar da 
mãe com desdém. 

- Hum! Hum!. . - resmungou o conde. - O pequeno só tem oito anos. 
- Mas viveu esses oito anos junto da mãe, que ele adora acima de tudo no 

mundo - respondeu Havisham. 

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O castelo de Dorincourt 

 
A  carruagem  que  conduzia  Lorde  Fauntleroy  e  Havisham  dirigiu-se  ao 

castelo,  no  dia  seguinte,  quando  principiava  já  a  entardecer.  O  conde  de 
Dorincourt  ordenara  que  lhe  levassem  o  neto  antes  do  jantar;  e  recomendara, 
também, que o introduzissem, sozinho, na sala onde ele próprio o receberia. 

Enquanto  a  carruagem  subia  a  avenida,  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy, 

confortavelmente recostado em luxuosas almofadas, olhava atentamente para o 
que  o  rodeava.  Tudo  lhe  parecia  maravilhoso,  desde  a  paisagem  aos  soberbos 
cavalos,  de  arreios  reluzentes,  que  puxavam  o  carro,  ao  cocheiro  e  ao 
trintanário, vistosamente fardados. A coroa que estava pintada nas portinholas 
intrigara-o  imenso,  e  não  resistira  ao  desejo  de  perguntar  a  um  criado  o  que 
aquilo significava. 

Quando a carruagem chegou frente das grandes portas do parque, Cedric 

debruçou-se para ver melhor os enormes leões de pedra que estavam à entrada. 
O  portão  foi  aberto  por  uma  mulher  nova  e  gentil  que  saiu  de  uma  casinha 
coberta de hera. A seguir vieram duas crianças, a correr, e olharam para ele com 
os olhos muito abertos. A mãe fazia reverências, a sorrir, e, a um sinal seu, os 
pequenitos fizeram também o mesmo. 

- Ela conhece-nos? - perguntou o pequeno lorde. Naturalmente pensa que 

já me viu em qualquer parte. 

 E, ao dizer isto, Cedric sorriu-lhes e, tirando a sua boina de veludo, disse: 
- Bom dia! Como passou? 
A  mulher  parecia  contentíssima,  porque  o  seu  sorriso  tornou-se  ainda 

mais  amável  e  os  seus  olhos  azuis  iluminaram-se,  com  uma  expressão  de 
reconhecimento. 

- Que Deus o abençoe, milorde! - exclamou ela - Sentimo-nos muito felizes 

por poder dar-lhe as boas-vindas! 

Lorde  Fauntleroy  agitou  a  boina  e  dirigiu  novos  sinais  amigáveis  à 

simpática mulher quando a carruagem passou. 

- Esta criatura agrada-me. Deve gostar de crianças - declarou ele. - Hei-de 

vir brincar com os filhos dela.  

Quantos  serão?  Gostava  de  saber  se  chegarão  para  formar  uma 

“companhia”. 

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Havisham não se atreveu a dizer-lhe que havia poucas probabilidades de 

o autorizarem a brincar com os filhos da porteira. O advogado pensou que ele 
tinha tempo de saber todas estas coisas. 

 A  carruagem  continuava  por  entre  as  belas  árvores  que  marginavam  a 

avenida,  sobre  a  qual  estendiam  os  seus  ramos,  formando  como  que  uma 
abóbada. 

Cedric  nunca  vira  árvores  semelhantes;  ignorava  ainda  que  o  castelo  de 

Dorincourt  era  um  dos  mais  sumptuosos  de  Inglaterra,  que  o  seu  parque 
figurava  entre  os  mais  belos  e  que  aquela  avenida,  com  as  suas  árvores 
frondosas  não  podia  comparar-se  a  nenhuma  outra.  No  entanto,  admirava  a 
beleza de tudo quanto avistava e sentia-se encantado. 

Por  entre  as  árvores  distinguia  longos  prados,  campos  de  fetos 

surpreendentes, outras árvores igualmente belas. 

De  vez  em  quando,  tinha  um  sobressalto  e  ria,  despreocupadamente,  ao 

ver  um  coelho  sair  de  um  maciço  de  verdura  e  fugir,  depois,  assustado, 
agitando  o  rabito  branco.  E  quando  um  bando  de  perdizes  levantou  voo, 
inesperadamente, fazendo um ligeiro ruído com as asas, Cedric bateu as palmas 
e soltou gritos de alegria. 

-  Como  isto  é  bonito!  -  disse  ele  a  Havisham.  Nunca  vi  nada  tão 

maravilhoso. É ainda mais bonito do que o Parque Central de Nova Iorque! 

A extensão da avenida espantava-o. 
- Que distância há entre o portão do parque e o castelo? - perguntou ele. 
- Um pouco mais que quatro quilómetros - respondeu o advogado. 
- É esquisito habitar assim tão longe do portão de entrada! 
De  momento  a  momento,  a  sua  admiração  aumentava.  Quando  avistou 

veados, por entre a verdura, o seu entusiasmo não teve limites. 

-  Também  aqui  há  um  circo?  -  perguntou  ele.  -  A  quem  pertencem  estes 

animais? 

- Vivem cá e pertencem ao conde de Dorincourt - explicou Havisham. 
Pouco  depois  surgiu  o  castelo,  erguendo  na  frente  deles  a  sua  fachada 

imponente,  com  numerosas  janelas,  em  cujos  vidros  se  reflectiam  os  últimos 
raios de sol. De um lado e de outro havia torres com as suas ameias e seteiras e 
grandes  muralhas  revestidas  de  hera.  Em  volta,  sucediam-se  os  terraços,  os 
campos de relva, os canteiros floridos e ao longe o parque. 

- É a casa mais bela que se pode imaginar! - exclamou Cedric, com as faces 

coradas  de  prazer.  -  Parece  o  palácio  de  um  rei.  Vi  alguns  parecidos  nas 
gravuras dos contos de fadas. 

Em  frente  da  porta  da  entrada  perfilavam-se  duas  filas  de  criados.  O 

pequeno  admirou  as  librés  e  perguntou  o  que  faziam  ali  aqueles  homens. 

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Ignorava  que  toda  a  criadagem  do  castelo  se  reunira  para  fazer  a  guarda  do 
futuro proprietário de todos aqueles esplendores: o magnífico castelo, parecido 
com  os  palácios  dos  contos  de  fadas,  o  parque  maravilhoso,  as  árvores 
centenárias, os vales cobertos de flores, onde havia lebres, coelhos e veados de 
grandes olhos meigos, deitados sobre a verdura. 

Quinze  dias  antes,  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy  passava  as  manhãs  a 

conversar com o merceeiro Hobbes, entre sacos de batata e caixas de conserva. 
Quando  ele  se  sentava  em  cima  dos  caixotes,  com  as  pernas  penduradas  e  as 
mãos nas algibeiras, estava bem longe de imaginar que passaria a viver no meio 
de tal magnificência. 

À frente dos criados estava uma senhora já de certa idade, vestida de seda 

preta. Quando os recém-chegados entraram no vestíbulo, a senhora aproximou-
se e Cedric adivinhou, pela sua expressão, que ela ia falar- lhe. Havisham, que 
dava a mão ao pequeno, parou e disse: 

- Eis Lorde Fauntleroy, Sr. e Millon. Lorde Fauntleroy, apresento-lhe a Sr. 

a Millon, governante do castelo. 

Cedric estendeu-lhe a mão; os seus olhos brilharam e exclamou: 
-  Foi  a  senhora  que  mandou  a  gata  à  minha  mãe,  para  eu  brincar? 

Agradeço-lhe muito. 

O simpático rosto, já envelhecido, da Sr. a Millon, teve uma expressão tão 

feliz como o da porteira pouco antes, quando por ela passara e cumprimentara. 

- Teria reconhecido Lorde Fauntleroy fosse onde fosse 
- disse ela a Havisham. - Tem as mesmas feições e maneiras que o falecido 

capitão. Hoje é um grande dia para todos nós! 

Cedric perguntou a si próprio por que razão era “um grande dia”, e fitou a 

Sr.  a  Millon  com  curiosidade.  Pareceu-lhe  ver  lágrimas  nos  seus  olhos  e,  no 
entanto,  percebia-se  perfeitamente  que  não  era  infeliz,  pois  sorria 
carinhosamente para ele. 

 -  A  gata  deixou  lindos  gatinhos  aqui  no  castelo  -  explicou  ela.  -  Mandá-

los-ei levar aos aposentos de Vossa Senhoria. 

Havisham disse-lhe algumas palavras em voz baixa e ela respondeu: 
- Está na biblioteca. Lorde Fauntleroy deve ser introduzido sozinho junto 

do conde. 

Alguns minutos mais tarde, o imponente criado que acompanhava Cedric 

até à biblioteca, abriu a porta e anunciou em voz solene: 

- Lorde Fauntleroy. 
Embora  fosse  apenas  um  criado,  compreendia  toda  a  importância  que 

tinha a chegada ao castelo do futuro herdeiro do título e da fortuna do conde de 
Dorincourt, e a sua apresentação ao velho fidalgo. 

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Cedric  entrou.  A  sala  era  muito  vasta  e  bela,  com  móveis  de  madeira 

esculpida  e  numerosas  estantes  cheias  de  livros.  O  mobiliário  era  escuro,  os 
reposteiros  pesados  e  as  janelas,  com  vidros  em  losango,  tinham  vãos  muito 
fundos, de maneira que, àquela hora, havia na biblioteca muito pouca luz, o que 
dava ao ambiente certo ar de austeridade e tristeza. 

A  princípio,  Cedric  julgou  que  não  estava  ali  ninguém,  mas  logo 

distinguiu  uma  grande  poltrona  colocada  junto  do  fogo  que  ardia  na  vasta 
chaminé. 

Nessa  poltrona  encontrava-se  alguém  sentado  -  alguém  que  nem  sequer 

voltou a cabeça para o ver entrar. 

Em  compensação,  Cedric  tinha  despertado  a  atenção  de  outra 

personagem... Junto da poltrona estava deitado um cão - um soberbo animal de 
pêlo  acastanhado,  quase  do  tamanho  de  um  leão,  que  olhou  para  ele  e  se 
levantou lentamente, com majestade, para ir ao seu encontro. 

Então, a pessoa que ocupava a poltrona ordenou: 
- Venha aqui, Dougal! 
 Porém,  no  coração  do  pequeno  Lorde  Fauntleroy,  não  havia  medo,  tal 

como não havia maldade. Fora sempre um rapazinho corajoso. 

Pôs a mão na coleira do enorme cão, com o ar mais natural deste mundo, e 

foram os dois, assim, até junto do conde. Este levantou, então, a cabeça. Cedric 
viu um robusto velho, com as sobrancelhas e os cabelos brancos e espessos, um 
nariz bico-de-águia, olhos duros e muito enterrados. 

Por seu lado, o conde de Dorincourt viu uma criança graciosa, vestida de 

veludo preto, com uma gola de rendas, uma farta cabeleira loura, encaracolada, 
e um rosto expressivo, cujos olhos encontraram os seus, fitando-o com ternura e 
confiança. 

Se o castelo fazia lembrar um palácio de contos de fadas, era inegável que 

o  pequeno  Lorde  Fauntleroy  parecia  um  verdadeiro  príncipe,  embora  ele 
próprio  não  desse  por  isso.  No  coração  do  irascível  fidalgo  acendeu-  se  uma 
chama  de  triunfante  alegria,  ao  verificar  que  o  seu  neto  era  aquela  criança 
vigorosa  e  encantadora,  tão  parecido  com  o  pai,  que  olhava  para  ele  com 
firmeza,  segurando  o  cão  pela  coleira.  O  orgulhoso  velho  ficou  satisfeito  ao 
notar  que  o  pequenito  não  mostrava  o  menor  receio  do  enorme  cão  nem  dele 
próprio. 

Cedric  continuava  a  fitá-lo  com  a  mesma  expressão  carinhosa  com  que 

fitara  a  governante  e  a  porteira.  Dando  mais  alguns  passos  e  dirigindo-  se  ao 
conde, disse, com naturalidade: 

- O senhor é que é o conde? Eu sou Lorde Fauntleroy, o seu neto, que o Sr. 

Havisham foi buscar à América. 

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Estendeu a mão, delicadamente, e continuou, com o ar mais afável: 
- Desejo que tenha passado bem! Sinto-me muito feliz em conhecê-lo. 
 O conde apertou-lhe a mão e, nesse momento, os seus olhos tiveram um 

brilho singular. Estava tão surpreendido, que não sabia que dizer. Contemplou 
demoradamente a gentil figurinha do neto, olhando-o da cabeça aos pés, e por 
fim, disse: 

- Sentes-te, realmente, feliz em me conhecer? 
-  Oh!  sim,  muito  feliz!  -  exclamou  Lorde  Fauntleroy.  Havia  uma  cadeira 

perto  do  conde.  Cedric  sentou-se.  Era  uma  cadeira  de  espaldar  e,  depois  de 
sentado, os pés do pequenito não chegavam ao chão. 

Apesar disso, ele tinha o ar de se sentir perfeitamente à vontade, e olhava 

para o avô com uma expressão ao mesmo tempo modesta e atenta. 

- Durante a viagem perguntava a mim próprio como seria o avô - disse ele. 

- E pensava: será parecido com o papá? 

- E achas que me pareço com ele? - perguntou o conde. 
- Bem sabe - respondeu Cedric - eu era ainda muito pequenino quando o 

meu pai morreu e já não me lembro bem. Mas creio que não se parece... 

- E tens pena! - observou o velho. 
-  Oh!  não!  -  respondeu  Cedric,  amavelmente.  -  É  claro  que  é  sempre 

agradável ver alguém parecido com o nosso  pai; mas é  natural gostarmos das 
feições do nosso avô, mesmo que não sejam parecidas com as do nosso pai. Nós 
achamos sempre bem as pessoas da nossa família, não é verdade? 

O  conde  agitou-se  um  pouco  na  poltrona  e  ficou  silencioso,  desviando  a 

vista  do  neto.  Não  se  podia  dizer  que  ele  estimasse  muito  as  pessoas  da  sua 
família. Passara a maior parte da vida em questões com os parentes, a expulsá-
los de casa e a dirigir-lhes insultos. Por isso, no íntimo, todos o detestavam. 

 -  Todas  as  crianças  gostam  dos  avós  -  continuou  Lorde  Fauntleroy  -, 

principalmente quando eles são tão bons como o avôzinho foi para mim. 

Os olhos do velho fidalgo tornaram a brilhar. 
- Oh! Fui realmente bom para ti? - perguntou ele. 
-  Muito  bom!  -  respondeu  o  pequeno  lorde,  com  entusiasmo.  -  Eu  estou 

gratíssimo ao avô pela Brígida, pela vendedeira de maçãs e por Dick. 

- Brígida!. Dick!. A vendedeira de maçãs. - exclamou o conde. 
- Sim - explicou Cedric. - Todos aqueles a quem o avô deu dinheiro. Quero 

dizer,  o  dinheiro  que  o  avô  deu  ao  Sr.  Havisham,  para  satisfazer  os  meus 
desejos. 

-  Ah!  referes-te  ao  dinheiro  para  gastares  como  te  apetecesse?  E  que 

compraste tu, afinal? Gostava de saber. 

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Franziu  as  espessas  sobrancelhas  e  olhou  atentamente  para  a  criança. 

Estava intimamente curioso de saber a que fantasia se entregara o neto. 

- Talvez o avô nunca tenha ouvido falar em Dick, nem na vendedeira de 

maçãs, nem na Brígida - explicou o pequeno Lorde Fauntleroy. - Esqueci-me de 
que  o  avô  tem  vivido  sempre  muito  longe  deles.  Eram  meus  amigos,  sabe?  E 
como o Miguel estava doente. 

- Quem é o Miguel? 
-  É  o  marido  da  Brígida.  Estavam  os  dois  muito  aflitos.  O  avô  pode 

calcular o que é um homem ter filhos e não poder trabalhar, por estar doente. 
Por  isso,  a  Brígida  vinha  muitas  vezes  a  nossa  casa.  Um  dia,  estava  lá  o  Sr. 
Havisham,  a  Brígida  apareceu,  a  chorar,  porque  não  tinham  que  comer  e  não 
podiam pagar a renda da casa. Estava eu justamente a falar com ela, na cozinha, 
quando o Sr. Havisham me mandou chamar, para me dizer que o avô lhe dera 
dinheiro  para  mim.  Então  eu  fui,  a  correr,  dar  dinheiro  à  Brígida  e  tudo  se 
remediou.  A  Brígida  nem  queria  acreditar!  Aqui  tem  a  razão  por  que  eu  lhe 
estou muito reconhecido. 

- Oh! oh! - exclamou o conde, com a sua voz um pouco rouca. - Foi nisso 

que gastaste o teu dinheiro? E em que mais? 

Dougal  instalara-se  ao  lado  da  cadeira.  Escolhera  aquele  lugar  quando 

Cedric  se  tinha  sentado  e  voltava  repetidas  vezes  a  cabeça,  a  olhar  para  a 
criança,  como  se  se  interessasse  pelo  que  ela  dizia.  Dougal  era  um  cão  solene, 
que  tomava  a  vida  a  sério.  O  velho  conde,  que  o  conhecia  bem,  começou  a 
observá-lo com interesse. Dougal não costumava familiarizar-se facilmente com 
qualquer  pessoa  e  o  fidalgo  admirou-se  de  o  ver  conservar-se  tão  dócil  e 
tranquilo, quando o pequenito o acariciava com a sua delicada mãozinha. 

Justamente  na  ocasião  em  que  o  conde  o  observava, o  enorme  cão  olhou 

de novo para Lorde Fauntleroy e depois, vagarosamente, com ar digno, deitou a 
grande cabeça nos seus joelhos. 

A  mãozinha  de  Cedric  continuava  a  fazer  festas  ao  seu  novo  amigo,  ao 

mesmo tempo que explicava ao avô: 

- Depois, havia Dick. O avô com certeza que vai gostar muito dele. É um 

rapaz “às direitas”! 

O  conde  não  estava  habituado  a  expressões  populares;  por  isso,  não 

compreendeu e perguntou: 

- Que quer isso dizer? 
Lorde  Fauntleroy  fez  uma  pausa  para  reflectir.  Não  sabia  bem  o 

verdadeiro sentido da palavra, mas tinha a certeza de que “às direitas” queria 
dizer  qualquer  coisa  boa,  visto  que  Dick  costumava  empregá-la  muitas  vezes. 
No entanto, explicou como pôde: 

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- Às direitas, quer dizer que o Dick não engana ninguém, nem é capaz de 

bater num rapaz mais pequeno do que ele e engraxa o calçado dos fregueses o 
melhor  que  pode,  dando-lhe  lustro  com  toda  a  força.  Sim,  porque  Dick  é 
engraxador. 

- E é das tuas relações? - perguntou o conde. 
- É um velho amigo meu. Não tão antigo como o Sr. Hobbes, mas, apesar 

disso, um bom amigo. Deu-me um presente, antes da partida do navio. 

Ao dizer isto, o pequeno lorde meteu a mão na algibeira e tirou uma coisa 

vermelha, que desdobrou com ar enternecido. Era o lenço das ferraduras roxas. 
Depois, continuou: 

- Aqui tem o que ele me deu. Hei-de guardá-lo sempre. Serve para atar ao 

pescoço  e  para  trazer  na  algibeira.  Comprou-o  com  o  primeiro  dinheiro  que 
ganhou  sozinho,  depois  de  eu  lhe  ter  dado  escovas  novas  e  dinheiro  para 
comprar a parte do Jack. É uma lembrança. Eu também mandei escrever umas 
palavras por dentro da tampa do relógio que ofereci ao Sr. Hobbes. São assim: 
“Para  se  lembrar  do  seu  amigo”.  Sempre  que  vejo  este  lenço,  lembro-me  do 
Dick. 

Seria  difícil  de  descrever  todas  as  impressões  sentidas  pelo  muito  nobre 

conde de Dorincourt, ao ouvir o neto. Não era uma pessoa que se perturbasse 
com  facilidade,  mas  o  que  estava  observando  naquele  momento,  era  de  tal 
forma  novo  para  ele;  que  mal  podia  respirar.  Nunca  gostara  de  crianças.  Os 
próprios  filhos,  quando  eram  pequenos,  não  o  interessavam.  Considerara 
sempre  os  rapazes  como  pequenos  animais  egoístas,  gulosos  e  barulhentos, 
desde  que  não  estivessem  sujeitos  à  mais  rigorosa  disciplina.  Nunca  pensara 
que poderia vir a gostar do neto; mandara-o buscar porque o seu orgulho assim 
o exigia. Desde que Cedric estava destinado a ser o seu herdeiro, não queria que 
o nome de Dorincourt fosse manchado por um homem vulgar e sem educação. 
Estava convencido de que um rapaz educado na América não poderia deixar de 
ter  maneiras  detestáveis.  Não  havia,  no  seu  interesse  pelo  neto,  nenhum 
sentimento  carinhoso.  O  seu  maior  desejo  era  que  ele  tivesse  uma  aparência 
agradável e uma suficiente dose de bom senso. Os filhos mais velhos haviam-
lhe  causado  bastantes  decepções;  o  casamento  do  capitão  Errol  irritara-o 
profundamente  e  não  acreditava  que  da  união  do  filho  com  uma  americana 
pudesse resultar alguma coisa boa. 

No  primeiro  momento,  quando  o  criado  anunciara  Lorde  Fauntleroy,  o 

conde nem se atrevera a olhar para o neto, receando que fosse como ele próprio 
o tinha imaginado.  

Foi exactamente por isso que deu ordem para o pequeno ser introduzido 

sozinho  junto  dele.  Não  queria  que  pessoas  estranhas  presenciassem  a  sua 

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decepção.  O  seu  velho  e  altivo  coração  bateu-lhe  mais  apressado  no  peito 
quando viu o neto aproximar-se dele com desembaraço, segurando o cão pela 
coleira. Mesmo que as suas previsões fossem muito optimistas, o conde nunca 
poderia esperar que o pequeno Lorde Fauntleroy tivesse uma figura tão gentil e 
demonstrasse tal confiança. 

Chegava  a  duvidar!  A  criança  que  ele  receara  ver,  filho  daquela  mulher 

tão  odiada,  seria  realmente  aquele  rapazinho  que  se  apresentava  com  tanta 
graça  e  aprumo?!  Tão  inesperada  descoberta  perturbava  deveras  o  velho 
fidalgo. 

Depois, quando principiaram a conversar, o conde sentiu-se cada vez mais 

surpreendido e desconcertado. 

Em  primeiro  lugar,  estava  tão  habituado  a  ver  gente  tímida  ou 

embaraçada  diante  dele,  que  esperava  ver  o  neto  também  com  um  certo 
acanhamento  e  apreensão.  Mas  Cedric  não  mostrara  mais  receio  de  Lorde 
Dorincourt  do  que  do  próprio  Dougal.  Não  era  atrevido;  era  apenas 
ingenuamente  amável,  e  estava  convencido  de  que  coisa  alguma  poderia 
assustá-lo ou causar-lhe embaraço. 

 O conde compreendeu logo que o pequeno o considerava um amigo e o 

tratava como tal, sem ter a mais pequena dúvida sobre a sua estima. Sentado na 
sua  cadeira,  Lorde  Fauntleroy  conversava  com  gentileza,  absolutamente 
convencido  de  que  o  avô,  apesar  da  sua  expressão  severa,  estava  encantado 
com  a  sua  presença.  Era  igualmente  evidente  que,  à  sua  maneira  infantil,  o 
pequeno  lorde  procurava  agradar  ao  avô  e  despertar-lhe  interesse  sem 
quaisquer outros interesses ocultos. 

Por muito reservado, duro e orgulhoso que fosse, o conde não pôde deixar 

de  sentir  um  íntimo  prazer,  inteiramente  novo  para  ele,  ao  verificar  a  natural 
distinção do neto e aquela encantadora confiança com que lhe falava. 

Afinal, confessava a si próprio que não era desagradável encontrar alguém 

que não tremesse diante dele, alguém que parecesse não lhe ver o seu lado mau, 
e o fitasse confiadamente - embora esse alguém fosse apenas um rapazinho. 

Lorde Dorincourt recostou-se na poltrona e continuou a conversar com o 

seu  jovem  companheiro,  que  foi  contando  várias  coisas  da  sua  vida  e  das 
pessoas que conhecia. O conde observava-o sempre, cada vez com mais atenção 
e curioso, e os seus olhos brilhavam de forma singular. 

Lorde  Fauntleroy  respondia  a  todas  as  perguntas,  com  a  sua  habitual 

simplicidade.  E  lá  foi  contando  ao  avô  toda  a  história  de  Dick  e  de  Jack,  da 
vendedeira de maçãs e do Sr. Hobbes. Descreveu-lhe o cortejo republicano, com 
todas as suas maravilhas e, no decorrer da conversa, falou no Quatro de Julho e 

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na  revolução  americana.  De  repente,  quando  estava  no  maior  entusiasmo, 
lembrou-se de qualquer coisa e calou-se. 

- Então que é isso? - perguntou o avô. - Porque não continuas? 
 Lorde Fauntleroy agitou-se na cadeira, com ar indeciso. Depois explicou: 
-  Pensei  que  talvez  o  avô  não  goste  de  ouvir  falar  neste  assunto.  Talvez 

alguém da sua família ou alguma pessoa querida estivesse na América durante 
a guerra da Independência. Esqueci-me de que o avô é inglês. 

- Podes continuar - disse o conde. - Ninguém da minha família estava na 

América nessa ocasião. Mas tu também és inglês. 

- Oh! Eu, não! Eu sou americano. 
- És inglês como eu e teu pai - repetiu o conde, com um sorriso. 
Cedric  ficou  preocupado.  Nunca  tinha  pensado  em  semelhante  coisa. 

Sentiu-se corar até à raiz dos cabelos. Por fim, exclamou: 

-  Eu  nasci  na  América,  e  quem  nasce  na  América  é  americano.  Peço 

desculpa  de  contradizer  o  avô  -  acrescentou,  delicadamente,  com  um  modo 
encantador  -,  mas  o  Sr.  Hobbes  disse-me  que,  se  houvesse  outra  guerra,  eu... 
devia bater-me pelos americanos. 

O  velho  fidalgo  teve  um  riso  breve  e  irónico.  A  verdade,  porém,  é  que 

aquele riso era quase um milagre, pois havia muito que ele não ria. 

- E é o que tencionas fazer, não é verdade? - perguntou ele. 
O  conde  de  Dorincourt  detestava  a  América  e  os  americanos,  mas  o  ar 

sério  e  convicto  daquele  pequeno  patriota  divertia-o  imenso.  Pensava  que  um 
tão bom americano poderia tornar-se, quando fosse um homem, num excelente 
inglês. 

Não tiveram tempo de voltar a falar na revolução 
- Lorde Fauntleroy, apesar de tudo, sentia escrúpulo de o fazer -, porque o 

criado veio anunciar que o jantar estava servido. 

 Cedric desceu da cadeira e aproximou-se do seu nobre avô. Olhou para o 

pé doente e perguntou com uma delicadeza cativante: 

- Quer que eu o ajude? Pode apoiar-se em mim. Uma vez que um saco de 

batatas caiu em cima do pé do Sr. Hobbes, ele encostava-se a mim, para andar. 

O  criado  teve  grande  dificuldade  em  conter  o  riso.  Era  um  criado 

aristocrático,  que  estivera  sempre  ao  serviço  das  mais  nobres  famílias,  e  que 
nunca tinha sorrido, sequer, no exercício das suas funções. Na realidade, ficaria 
desacreditado  se,  por  um  momento  só  que  fosse,  tivesse  desmanchado  a  sua 
máscara impassível. Mas desta vez, o caso foi difícil... Teve que desviar o olhar, 
por não poder dominar-se. 

O conde examinava o seu valente neto da cabeça aos pés. 
- Parece-te que és capaz? - perguntou ele, com ar quase irritado. 

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- Sim, avô. Eu sou forte. Já tenho oito anos, sabe?  Pode apoiar-se, de um 

lado, à bengala, e do outro, a mim. Dick acha que eu já tenho muitos músculos 
para a minha idade. 

Ao  dizer  isto,  fechou  a  mão  e  dobrou  o  braço  para  que  o  avô  pudesse 

apalpar-lhe  os  músculos.  Fez  isto  com  um  ar  tão  sério,  que  o  criado  viu-se 
novamente obrigado a olhar para os retratos que estavam nas paredes. 

- Muito bem - disse o conde. - Podemos experimentar. 
Cedric deu-lhe a bengala, e julgou-se no dever de o ajudar a levantar-se. 

Habitualmente,  era  o  criado  quem  o  ajudava  e,  nessa  ocasião,  ouvia  as  mais 
violentas expressões, se, por acaso, o conde  sentia alguma dor. Havia dias em 
que  chegava  a  ser  indelicado  e  tão  brusco,  que  os  criados  tremiam.  Mas, 
daquela  vez,  o  velho  fidalgo  não  disse  uma    palavra,  embora  o  pé  doente  o 
fizesse sofrer. Quis fazer uma experiência. Levantou-se da poltrona e pousou a 
mão sobre o ombro que se lhe oferecia de tão boa vontade. 

O  pequeno  Lorde  Fauntleroy  deu,  prudentemente,  um  passo,  sempre  a 

olhar para o pé doente. 

- Encoste-se a mim - disse ele, como se quisesse dar coragem ao avô. - Irei 

devagarinho. 

Se  o  conde  fosse  amparado  pelo  criado,  apoiar-se-ia  menos  à  bengala  e 

mais  ao  braço  dele.  Com  o  neto,  fez  o  mesmo,  porque  isso  fazia  parte  da  sua 
experiência.  O  peso  era  de  respeito,  sem  dúvida;  depois  de  alguns  passos,  o 
rosto do jovem lorde tornou-se vermelho e o coração bateu-lhe com mais força. 
Mas o pequenito reuniu toda a sua energia, pensando no elogio que Dick fizera 
aos seus músculos. 

- Não tenha medo de se encostar - disse ele, com voz um pouco alterada. - 

Posso muito bem ajudar o avô, se... se... se não for muito longe. 

A sala de refeições não ficava distante, mas, apesar disso, Cedric achou o 

caminho um pouco longo, até chegar junto da cadeira, colocada à cabeceira da 
mesa.  A  mão  apoiada  sobre  o  seu  ombro  parecia-lhe  cada  vez  mais  pesada; 
sentia  o  rosto  afogueado  e  custava-lhe  cada  vez  mais  a  respirar,  mas  nunca 
pensou  em  desistir  de  ajudar  o  avô.  Retesava  os  pequeninos  músculos, 
endireitava a cabeça e encorajava o conde, que ia andando, a coxear. 

-  Dói-lhe  muito  o  pé,  quando  o  põe  no  chão?  -  perguntou  Cedric.  -  Já 

experimentou metê-lo num banho de água quente com mostarda? O Sr. Hobbes 
fazia isso. Disseram-me que a arnica também faz muito bem. 

O corpulento cão avançava ao lado deles, com lentidão e majestade. Atrás, 

seguia o criado que, mais de uma vez, olhou com espanto para aquela criança 
que suportava corajosamente o peso do velho fidalgo. 

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 Também o conde olhava, disfarçadamente, de lado, para o neto, com uma 

expressão muito diferente da que lhe era habitual. 

Ao entrarem na sala de refeições, Cedric notou que era vasta e sumptuosa, 

e que o criado que se conservava atrás da cadeira, colocado à cabeceira da mesa, 
os fitava com ar espantado. 

Finalmente, chegaram ao lugar do dono da casa. O conde retirou a mão do 

ombro do neto e instalou-se comodamente na sua cadeira. 

Cedric  tirou  da  algibeira  o  lenço  que  Dick  lhe  oferecera  e  enxugou  a 

fronte. 

- Está calor, não é verdade? - observou ele. - Naturalmente, o avô precisa 

de lume no fogão por causa do seu pé. Mas eu sinto algum calor... 

A delicadeza com que tratava o avô era tal, que não queria dar a entender 

que, qualquer coisa, ali dentro, estava a mais! 

- Acabaste de fazer um grande esforço - disse o conde. 
-  Oh!  Não!  -  respondeu  Cedric.  -  O esforço não  foi  assim  tão grande.  No 

verão tem-se calor facilmente. 

E, ao dizer isto, esfregou os caracóis da fronte com o vistoso lenço. 
O lugar de Lorde Fauntleroy era na outra cabeceira da mesa, em frente ao 

avô. Era uma cadeira brasonada, grande de mais para ele. De resto, tudo quanto 
tinha  visto  até  então  -  salas  vastíssimas  de  altos  tectos  e  grandes  móveis;  os 
imponentes criados; o enorme cão e o próprio conde tudo tinha dimensões que 
pareciam destinadas a fazer-lhe sentir que era, realmente, muito pequeno. Isso, 
porém,  não  o  perturbava.  Nunca  se  considerara  uma  grande  pessoa,  nem  se 
julgara importante, e estava disposto a adaptar-se às circunstâncias, por muito 
esmagadoras que lhe parecessem. 

Certamente, nunca parecera tão pequeno como quando se instalou na sua 

vasta cadeira, numa das cabeceiras da mesa. Embora levasse uma vida solitária, 
o conde de Dorincourt dava a maior importância ao conforto e esplendor da sua 
maneira  de  viver.  O  serviço  das  refeições,  principalmente  o  do  jantar,  era 
sempre  feito  com  grande  cerimónia  e  requinte.  Cedric  via  o  avô  através  de 
cintilações de cristais e de pratas, e os seus olhos, que não estavam habituados a 
tanto brilho, sentiam-se deslumbrados e extasiados. 

Se  um  estranho  pudesse  entrar  ali,  não  deixaria  de  sorrir,  ao  contemplar 

semelhante quadro; a sala enorme e magnífica, os imponentes criados de libré, 
as luzes, as pratas, os cristais, o velho fidalgo, de fisionomia severa, a presidir à 
mesa e, lá ao fim, em frente dele, aquela encantadora criança. 

Geralmente, o jantar representava um grave problema para o cozinheiro, 

porque o conde era exigente e não se dava por satisfeito, mesmo com os pratos 
mais  requintados,  principalmente  quando  não  tinha  apetite.  Naquele  dia, 

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porém,  a  sua  disposição  parecia  melhor  do  que  de  costume  talvez  porque  os 
seus  pensamentos  estavam  ocupados  noutra  coisa  diferente  do  sabor  das 
“entradas” e da apresentação dos molhos. 

O  neto  absorvia  por  completo  a  sua  atenção.  Não  desviava  o  olhar 

profundo da criança sentada na sua frente do outro lado da mesa. Falava pouco, 
mas arranjava as coisas de maneira a obrigar o pequeno a falar. 

-  Não  costuma  usar  sempre  a  sua  coroa,  pois  não?  -  perguntou 

respeitosamente Lorde Fauntleroy. 

-  Não  -  sorriu  o  conde,  com  um  sorriso  irónico.  Só  me  convém  usá-la  de 

vez em quando. 

-  O  Sr.  Hobbes  julgava  que  o  avô  a  trazia  sempre  na  cabeça  -  continuou 

Cedric -; mas, depois de ter reflectido, disse-me que, naturalmente, devia tirá-la 
para pôr o chapéu. 

- Sim, tiro-a algumas vezes. 
Um dos criados voltou-se bruscamente para a parede e tossiu, com a mão 

em frente da boca. 

Cedric foi o primeiro a acabar de jantar. Então, encostando-se às costas da 

cadeira, observou atentamente tudo o que estava sobre a mesa. 

-  O  avô  deve  ter  muito  orgulho  na  sua  casa  -  exclamou  ele.  -  Nunca  vi 

nada tão maravilhoso, tão grandioso! Mas, naturalmente, como eu só tenho oito 
anos, ainda não vi muitas coisas. 

- Achas, então, que eu devo ter orgulho na minha casa? - repetiu o conde. 
- Acho que qualquer pessoa, fosse ela quem fosse, se orgulharia. Até eu, se 

ela me pertencesse. Tudo, aqui, é tão belo! 

Ficou silencioso durante um momento, e depois disse: 
- É uma casa muito grande só para duas pessoas. 
- Realmente, é bastante grande! - concordou o velho Lorde Dorincourt. 
E concluiu: 
- Achas que é grande de mais? 
O jovem lorde hesitou um instante, antes de responder: 
- Penso, simplesmente, que, se viverem nesta casa duas pessoas que não se 

entendam muito bem, devem sentir-se, algumas vezes, um pouco tristes. 

- E parece-te que te entenderás bem comigo? - perguntou o conde. 
-  Oh!  Com  certeza!  -  respondeu  Cedric.  -  Eu  entendia-me  perfeitamente 

com o Sr. Hobles. Era o meu melhor amigo depois da Querida. 

O conde ergueu vivamente as sobrancelhas e perguntou: 
- Quem é a Querida? 
- É a minha mãe - respondeu Lorde Fauntleroy, baixando a voz. 

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O  pequeno  sentia-se,  talvez,  um  pouco  fatigado,  e  a  hora  habitual  de  se 

deitar  aproximava-se.  Também  era  natural  que  a  fadiga  fizesse  nascer  na  sua 
alminha  um  vago  sentimento  de  saudade  ao  pensar  que,  naquela  noite,  não 
dormia  na  sua  casa,  sob  o olhar  carinhoso daquela  a  quem  ele  chamava  a  sua 
Querida.  Tinham  sido  sempre  os  melhores  amigos  do  mundo,  Cedric  e  a  sua 
jovem mãe. Não podia deixar de pensar nela e, quanto mais pensava, menos lhe 
apetecia falar. Quando se levantaram da mesa, Lorde Dorincourt viu que uma 
ligeira  sombra  entristecia  o  olhar  do  neto.  No  entanto,  o  pequeno  Lorde 
Fauntleroy  portou-se  corajosamente  e,  quando  voltaram  para  a  biblioteca,  o 
conde,  apesar  da  presença  do  criado,  apoiou-se  ao  seu  ombro,  menos 
pesadamente, porém, do que o fizera a primeira vez. 

Depois do criado sair, Cedric sentou-se no tapete, em frente do fogão, ao 

lado  do  Dougal.  Durante  alguns  minutos  acariciou  as  orelhas  do  cão  e  olhou 
para o lume, sem dizer nada. 

O  velho  conde observava-o.  O olhar  da  criança  estava  grave  e  sonhador; 

por uma ou duas vezes, o pequenito soltou um leve suspiro. O conde, imóvel, 
não tirava os olhos do neto. 

-  Em  que  estás  a  pensar?  -  perguntou-lhe  por  fim.  Lorde  Fauntleroy 

ergueu a cabeça e fez o máximo esforço para sorrir. Depois disse: 

- Penso na Querida; e. creio que me faria bem um pouco de movimento. 
Levantou-se, meteu as mãos nas algibeiras e começou a andar de um lado 

para  o  outro.  Tinha  os  olhos  brilhantes  e  os  dois  lábios  cerrados,  mas 
conservava a cabeça direita e andava com um passo sempre igual. 

 Dougal  voltou  vagarosamente  a  cabeça  a  fim  de  olhar  para  ele;  depois, 

levantou-se também, foi ter com a criança e principiou a acompanhá-la, com ar 
ansioso.  Lorde  Fauntleroy  tirou  uma  das  mãos  da  algibeira  e  pousou-a  na 
cabeça do cão. 

- É um bom animal - disse ele. - É meu amigo e compreende o que sinto. 
- E que é que tu sentes? - perguntou o conde. 
O orgulhoso fidalgo estava um tanto comovido, ao verificar a luta que se 

travava no espírito do neto, contra aquela primeira sensação de nostalgia; mas 
sentia-se satisfeito, ao ver que ele procurava, corajosamente, reagir e apreciou a 
sua coragem infantil. 

A  certa  altura,  o  pequeno  lorde  aproximou-se  dele  e  disse-lhe,  com  um 

olhar triste: 

-  Até  agora  nunca  estive  longe  da  minha  casa.  Faz-me  impressão  pensar 

que vou dormir num castelo, que pertence a outra pessoa, em vez de ficar em 
minha casa. Mas a Querida não está muito longe de mim. Ela recomendou-me 

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que não me esquecesse disso. E depois... e depois, já tenho oito anos... e posso 
ver o retrato que ela me deu. 

Meteu  a  mão  na  algibeira  e  tirou  um  pequeno  estojo  forrado  de  peluche 

lilás. 

-  Está  aqui  -  continuou  ele.  -  Vê?  Carrega-se  nesta  molazinha,  a  tampa 

abre-se, e pronto. 

Cedric estava junto do conde; enquanto abria o estojo, tinha-se encostado a 

um  braço  da  poltrona  e,  ao  mesmo  tempo,  a  um  braço  do  avô,  com  tanto 
abandono e confiança, como se estivesse habituado a fazê-lo desde sempre. 

-  Aqui  está  o  retrato  da  Querida!  -  disse  ele,  olhando  a  sorrir,  para  a 

miniatura. 

O  conde  franziu  as  sobrancelhas;  não  queria  ver  o  retrato,  mas,  apesar 

disso,  olhou  para  ele.  Diante  dos  seus  olhos  surgiu  um  rosto  jovem  a  fitá-lo  - 
um rosto  tão encantador e tão parecido com o da criança que estava junto de si, 
que o velho estremeceu. 

- Gostas muito dela? - perguntou. 
-  Muito!  -  respondeu  Lorde  Fauntleroy,  com  simplicidade.  -  Gosto  dela 

mais  do  que  tudo  no  mundo.  O  Sr.  Hobbes  é  meu  amigo,  e  Dick  e  Brígida 
também; mas a Querida é a minha melhor amiga. Dizemos tudo um ao outro. O 
meu  pai  deixou-ma  para  que  eu  olhe  por  ela,  e  quando  eu  for  homem  hei-de 
trabalhar e ganhar o dinheiro de que ela precisar para viver. 

- Que pensas tu fazer, quando fores homem? - perguntou ainda o avô. 
O pequeno lorde deixou-se escorregar no tapete e sentou-se, conservando 

o retrato na mão. Reflectiu profundamente, antes de responder, e depois disse: 

- Penso que talvez possa associar-me ao Sr. Hobbes. Mas o que eu preferia 

era ser Presidente da República. 

- Veremos isso, mais tarde, na Câmara dos Lordes - respondeu o avô. 
- No fim de tudo, se eu não puder vir a ser Presidente, e se isso em que o 

avô  falou  é  uma  boa  situação,  eu  não  me  importo  de  aceitar  -  declarou  o 
pequeno. 

Ficou  muito  quieto,  a  olhar  para  o  lume,  como  se  reflectisse  no  que 

acabava de dizer. 

Lorde  Dorincourt  não  falou  mais.  Recostado  na  poltrona,  olhava  para  a 

criança. No cérebro do velho fidalgo havia agora novos pensamentos. 

Dougal,  estendido  no  tapete,  tinha  adormecido,  com  a  cabeça  entre  as 

enormes patas. Houve um longo silêncio. 

Meia  hora  depois  pouco  mais  ou  menos,  Havisham  foi  introduzido  na 

biblioteca.  A  vasta  sala  estava  silenciosa,  quando  ele  entrou.  O  conde 

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continuava  sentado  na  poltrona.  Ao  ver  Havisham,  levantou  a  mão  a 
recomendar-lhe que não fizesse ruído - num gesto quase involuntário. 

 Dougal dormia ainda e, estendido junto dele, com a cabeça encaracolada 

repousada sobre um braço, dormia também o pequeno Lorde Fauntleroy. 

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O conde e o neto 

 
Quando  Lorde  Fauntleroy  acordou  na  manhã  seguinte  (ele  não  tinha 

sequer  aberto  os  olhos  quando,  na  véspera,  o  haviam  levado  para  o  leito),  os 
primeiros ruídos que percebeu foram o crepitar do lume na chaminé e palavras 
pronunciadas em voz baixa. 

-  Deve  ter  a  maior  cautela  em  não  falar  nisso,  Dawson  -  murmurou 

alguém.  -  Lorde  Fauntleroy  ignora  a  razão  pela  qual  ela  não  vive  com  ele  no 
castelo, e é preciso que a não saiba. 

- Obedecerei, Sr.a Millon, visto ser uma ordem de Sua Senhoria. Mas aqui 

entre  nós,  desculpe-me  a  franqueza,  sempre  lhe  direi  que  acho  uma  coisa 
bárbara  separar  aquela  jovem  viúva,  tão  bonita  e  simpática,  do  próprio  filho, 
que é a sua carne e o seu sangue - um rapazinho encantador, que já tem ares de 
fidalgo! James e Tomás disseram ontem à noite, na cozinha, que nunca tinham 
visto  maneiras  tão  delicadas  e  gentis  como  as  do  pequeno  Lorde  Fauntleroy, 
que conversava e se interessava por tudo, como se estivesse jantando com o seu 
melhor  amigo.  É  bom  como  um  anjo!  Quando  nos  chamaram  à  biblioteca,  ao 
Jàmes  e  a  mim,  para  o  trazer  para  o  quarto,  e  que  James  lhe  pegou  ao  colo, 
estava  tão  bonito,  com  a  carinha  muito  corada,  que  até  ficámos  comovidos.  Ia 
jurar que o próprio Sr. Conde estava enternecido, porque recomendou a James:” 
Tem cuidado Não o acordes “ 

 Cedric  mexeu-se  na  cama;  voltou-se  e  abriu  os  olhos.  Estavam  duas 

mulheres  no  quarto,  que  era  grande,  alegre,  com  as  paredes  forradas  de  cor 
viva.  Havia  lume  na  cha  miné  e  o  sol  entrava,  a  jorros,  pelas  janelas 
emolduradas de hera. 

As duas mulheres aproximaram- se. Uma delas era a governante, a Millon; 

a  outra,  mais  nova,  também  era  simpática  e  tinha  uma  expressão  alegre  e 
amável. 

- Bom dia, milorde - disse a Sr. a Millon. - Dormiu bem? 
O pequeno lorde esfregou os olhos e sorriu. 
- Bom dia - disse ele. - Já me não lembrava onde estava! 
- Trouxeram milorde para o quarto, já adormecido. Aqui está Dawson que, 

fica ao seu serviço. 

Lorde  Fauntleroy  sentou-se  na  cama  e  estendeu  a  mão  a  Dawson,  como 

havia estendido à Sr. Millon, e ao conde. 

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-  Como  está,  minha  senhora?  -  disse  ele.  Agradeço-lhe  que  se  ocupe  de 

mim. 

- Pode chamar-lhe Dawson - explicou a governante. 
- É assim que lhe chamam sempre. 
- Menina, ou Sr. Dawson? - perguntou o pequeno lorde. 
-  Simplesmente  Dawson,  milorde  -  respondeu  Dawson,  com  ar 

amabilíssimo. - Nem menina, nem senhora! Quer, agora, levantar-se, para que 
eu o vista, e ir, depois, tomar o pequeno-almoço à nursery? 

-  Agradeço-lhe  muito,  mas  sei  vestir-me  sozinho,  já  há  muito  tempo  - 

respondeu Lorde Fauntleroy. - Foi a Querida que me ensinou. Querida é minha 
mãe. Nós tínhamos a Maria para fazer o serviço da casa, lavar a roupa e tudo o 
mais.  É  claro  que  não  podia  sobrecarregá-la  de  trabalho.  Também  sei  fazer  a 
minha  toilette.  Se  quiser,  pode  apenas  verificar  se  estou  bem,  quando  eu  tiver 
acabado. 

Dawson e a governante trocaram um rápido olhar. 
- Dawson fará tudo o que milorde quiser - disse a Sr. a Millon. 
- Certamente! - confirmou Dawson, com o seu modo gentil. - Vestir-se- á 

sozinho, se quiser, e eu ficarei aqui para o ajudar, se precisar de alguma coisa. 

-  Obrigado!  Realmente  -  sabe?  -  ás  vezes  há  coisas  difíceis  de  abotoar.  E 

então tenho de pedir a alguém que me ajude. 

Lorde  Fauntleroy  achou  Dawson  muito  amável  e,  antes  de  terminar  o 

banho e a toilette, já eram excelentes amigos. Já sabia que ela fora casada com 
um  soldado,  morto  numa  batalha  verdadeira,  e  que  o  filho  era  marinheiro. 
Numa das suas longas viagens, o filho de Dawson tivera ocasião de ver piratas, 
canibais,  chineses  e  turcos.  Trouxera  conchas  e  bocados  de  coral  que  Dawson 
prometeu mostrar a Lorde Fauntleroy, visto ter alguns na sua mala. Como tudo 
aquilo era interessante! 

Quando Cedric entrou na sala vizinha, para tomar o pequeno- almoço, viu 

que era muito espaçosa. Dawson explicou-lhe que comunicava com outra, que 
também  fazia  parte  dos  seus  aposentos.  Apoderou-se  dele  novamente  a 
impressão  de  ser  muito  pequeno,  e  não  pôde  deixar  de  dizer  isto  mesmo  a 
Dawson, quando se sentava à mesa, onde estava disposto um lindo serviço de 
almoço. 

- Sou muito pequeno para viver num castelo tão grande e ter tantas salas 

para mim. Não acha? - perguntou ele, com ar pensativo. 

- Vamos, Vamos! Milorde sente-se um pouco estranho, agora, ao princípio. 

Mas isso há-de passar depressa, e acabará por gostar muito de estar aqui. É um 
castelo tão bonito! - respondeu Dawson. 

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-  É  realmente  um  castelo  maravilhoso  -  disse  Lorde  Fauntleroy,  com  um 

suspiro. - Mas eu gostaria muito mais de aqui viver se a Querida não me fizesse 
tanta falta. Tomava sempre o meu pequeno-almoço com ela, deitava o açúcar e 
o leite no seu chá, e punha-lhe manteiga nas torradas. Era bem mais agradável 
do que almoçar sozinho. 

- Tem razão - respondeu Dawson, a querer consolá-lo. - Mas bem sabe que 

pode  ver  a  sua  mãe  todos  os  dias  e,  assim,  terá  muitas  coisas  para  lhe  contar, 
principalmente  quando  tiver  passeado  um  pouco  e  visto  os  cães  e  as 
cavalariças, com todos os cavalos. Há lá um que lhe interessará especialmente, 
sei eu! 

-  Sim?  -  exclamou  Cedric.  -  Gosto  muito  de  cavalos!  Gostava  imenso  de 

Jim, o cavalo do Sr. Hobbes, que puxava a carroça da distribuição das compras. 
Era um belo animal, quando não coxeava. 

- Pois bem! - repetiu Dawson. - Espere um pouco e verá os que estão nas 

cavalariças do castelo. Mas, parece-me que  milorde não reparou ainda na  sala 
do lado. 

- Que tem ela? - perguntou o pequeno lorde. 
- Iremos ver, quando tivermos acabado de almoçar.  
A  curiosidade  de  Cedric  ficou  excitada,  e  o  pequeno  almoçou  num 

instante. 

A  avaliar  pelo  ar  importante  e  misterioso  de  Dawson,  devia  haver  na tal 

sala alguma coisa muito interessante. 

- Já acabei - exclamou ele, poucos minutos depois, descendo da cadeira. - 

Posso ir ver? 

Dawson  fez  que  sim  com  a  cabeça  e  dirigiu-se  para  a  porta  com  um  ar 

mais importante e misterioso do que nunca. 

Cedric começava a sentir-se intrigado. Dawson abriu a porta e esperou; o 

pequeno parou, maravilhado. 

Não disse uma palavra. Apenas meteu as mãos nas algibeiras e, vermelho 

como uma cereja, ficou imóvel, a olhar. A surpresa e o contentamento é que o 
tinham feito corar. O espectáculo era tal que surpreenderia qualquer criança. 

A sala também era de grandes dimensões, e pareceu a Cedric ainda mais 

bela  do  que  as  outras,  embora  fosse  diferente.  Os  móveis  não  eram  antigos  e 
pesados,  como  os  da  biblioteca  e  da  sala  das  refeições.  As  paredes,  os 
cortinados, e tapetes eram de cores alegres. 

Havia  estantes  cheias  de  livros  e,  sobre  as  mesas,  estavam  dispostos 

brinquedos de todos os géneros - brinquedos engenhosos, semelhantes àqueles 
que Cedric tinha contemplado, com deslumbramento, nas montras das grandes 
lojas de Nova Iorque. 

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- Que bela sala de jogos! - exclamou ele, quando pôde falar. - De quem são 

todos estes brinquedos? 

- Pode mexer-lhes! Pertencem a milorde. 
- A mim?! - exclamou ele. - A mim?! São meus, com certeza? E quem mos 

deu? 

Correu  para  a  frente,  num  impulso  de  alegria.  Parecia-lhe  belo  de  mais, 

para ser verdadeiro. 

- Foi o avô, com certeza. - disse, de repente, com os olhos brilhantes como 

estrelas. - Ia jurar que foi o avô! 

- Sim! Foi Sua Senhoria - respondeu Dawson. – E se Lorde Fauntleroy for 

um  menino  ajuizado,  gentil  e  contente,  o  senhor  conde  dar-lhe-á  tudo  quanto 
lhe pedir. 

A  manhã  passou  num  encantamento.  Cedric  tinha  tanta  coisa  para 

examinar,  tantas  experiências  para  fazer!  Cada  brinquedo  novo  era  tão  belo, 
que a criança tinha pena de o deixar, para admirar os outros. 

O  que  achava  mais  extraordinário  era  que  tudo  aquilo  tivesse  sido 

preparado  unicamente  para  ele  e  que,  ainda  mesmo  antes  da  sua  partida  de 
Nova  Iorque,  tivessem  vindo    pessoas  de  Londres  arranjar  os  seus  aposentos, 
trazer  livros,  brinquedos  e  todas  aquelas  outras  coisas  maravilhosas  que 
poderiam interessá-lo. 

Foi Dawson quem lhe explicou tudo isto. E ele, então, perguntou: 
- Já conheceu alguém melhor do que o meu avô? 
O  rosto  de  Dawson  teve  uma  expressão  de  dúvida.  Chegara  ao  castelo 

havia pouco tempo, mas tivera tempo suficiente para ouvir o pessoal contar as 
singularidades do velho conde. 

“-  De  todos  os  patrões  velhos,  desagradáveis  e  de  mau  modo,  que  eu 

tenho tido a desgraça de servir - tinha declarado o chefe dos criados - este é o 
mais difícil e o mais violento”. 

E  o  outro  criado,  que  se  chamava  Tomás,  tinha  repetido  uma  das 

instruções que o conde dera a Havisham, exactamente acerca dos aposentos do 
neto: 

“- Deixe-o fazer o que ele quiser e encha-lhe a sala de brinquedos - dissera 

Sua  Senhoria.  -  Ofereço-lhe  tudo  quanto  possa  agradar-lhe;  será  a  melhor 
maneira  de  esquecer  rapidamente  a  mãe.  Se  o  soubermos  distrair  e  levá-lo  a 
pensar noutra coisa, não nos causará aborrecimentos. As crianças são assim. “ 

Tendo  imaginado  as  coisas  sobre  este  aspecto,  o  conde  devia  ter  ficado 

contrariado,  ao  verificar  que  o  neto  não  era  assim.  O  velho  fidalgo  passara  a 
noite  mal,  e  não  saiu  dos  seus  aposentos  durante  toda  a  manhã.  Depois  do 
almoço, mandou buscar Cedric. 

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O pequeno apressou-se a obedecer. Desceu as escadas quatro a quatro e o 

conde sentiu-o atravessar o vestíbulo a correr. A porta abriu-se e Cedric entrou 
com as faces coradas e o olhar brilhante. 

- Eu estava à espera de que o avô me mandasse chamar! - exclamou ele. - 

Já estou pronto há muito tempo. 

 Agradeço-lhe  muito  todos  aqueles  brinquedos!  Deram-me  tanto,  tanto 

prazer! Brinquei toda a manhã! 

-  Ah!  Então  os  brinquedos  que  encontraste  lá  em  cima,  agradaram-te?  - 

perguntou o conde. 

- Muito! São tão bonitos e engraçados! - respondeu o pequeno lorde, com o 

rosto  iluminado  de  alegria.  -  Há  um  jogo  que  parece  um  “base-  ball”,  mas  os 
ingleses jogam com peões brancos e pretos, e contam os pontos com bolas, que 
escorregam  numa  prancha.  Quis  ensinar  à  Dawson  como  se  joga,  mas  ela  não 
compreendeu lá muito bem. Como é uma senhora, nunca jogou o “base-ball”, e 
eu, naturalmente, não lhe expliquei bem as regras do jogo. Mas o avô conhece o 
“base-ball”? 

-  Parece-me  que  não.  É  um  jogo  americano,  não  é?  Qualquer  coisa 

parecida com o “cricket”? 

- Nunca vi jogar o “cricket” - respondeu o pequeno -, mas Hobbes levou-

me  muitas  vezes  a  ver  desafios  de  “base-ball”.  É  um  jogo  magnífico,  que 
entusiasma. O avô quer que eu vá buscar o meu jogo, para lhe mostrar? Talvez 
o distraia e lhe faça esquecer as dores dos pés. Doeu-lhe muito, esta manhã? 

- Mais do que desejaria... 
-  Então  talvez  não  possa  esquecer  as  dores  -  disse  o  pequeno,  com  ar 

inquieto. - E talvez eu o aborreça com a explicação do jogo. Que lhe parece? 

- Vai buscá-lo, apesar de tudo - respondeu o conde. Não havia dúvida de 

que  a  companhia  do  neto  era,  para  ele,  uma  distracção  como  nunca  tivera. 
Aquela  ideia  de  lhe  explicar  jogos  que  ele  não  conhecia,  divertia-o.  Quando 
Cedric voltou, no rosto do avô havia a sombra de um sorriso. 

-  Posso  puxar  esta  mesa  pequenina  para  ao  pé  da  sua  poltrona?  - 

perguntou o pequeno. 

- Chama o Tomás para ele a trazer - respondeu o conde. 
 - Oh! Eu posso com ela sozinho. Não é pesada! 
- Está muito bem! 
Nos lábios do conde, o sorriso desenhou-se mais, enquanto ia observando 

o  neto  a  fazer  os  seus  preparativos  com  entusiasmo.  A  mesa  foi  puxada  para 
junto  da  poltrona,  o  jogo  tirado  da  sua  caixa,  preparado  e  disposto  sobre  a 
mesa. 

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-  Depois  de  se  ter  compreendido  é  muito  interessante  -  disse  Lorde 

Fauntleroy. - O avô pode ficar com peões pretos, e eu com os brancos. Os peões 
representam os jogadores, compreende? Cada vez que os seus peões dão uma 
volta  ao  campo  e  chegam  ao  alvo,  o  avô  conta  ú  ponto.  Os  peões  do  seu 
adversário, que sou eu, colocam-se aqui. Aqui está a primeira base, a segunda e 
a terceira aqui está o alvo. 

Explicou  todos  os  pormenores  da  regra  do  jogo,  com  grande  animação. 

Fazia gestos correspondentes a todos os jogadores e descreveu um esplêndido 
desafio  a  que  tinha  assistido  com  Hobbes.  Dava  prazer  contemplar  aquele 
rapazinho  de  corpo  vigoroso  e  movimentos  ágeis,  e  ver  o  seu  alegre 
entusiasmo. 

Quando  chegou  ao  fim  das  explicações,  principiaram  a  jogar,  e  o  conde 

interessou-se sinceramente. O seu jovem companheiro estava animadíssimo. As 
suas gargalhadas quando ganhava, a alegria imparcial com que verificava a sua 
sorte ou a do adversário, tornavam interessante fosse que jogo fosse. 

Se  alguém,  oito  dias  antes,  tivesse  dito  a  Lorde  Doricourt  que,  naquela 

tarde, esqueceria a sua gota e a sua má disposição, graças a um jogo de crianças, 
jogado com peões brancos e pretos sobre um cartão colorido, em companhia de 
um pequenito de calção, ele próprio teria ficado irritado. Entretanto, não havia 
dúvida  de  que  esquecera  o  seu  sofrimento  e  os  assuntos  que  o  contrariavam, 
quando Tomas  abriu a porta e anunciou um visitante: o reverendo Mordaunt. 

Entre  todas  as  obrigações  do  seu  cargo,  a  mais  penosa  de  todas,  para  o 

reverendo Mordaunt, era, na realidade, a visita que fazia, de tempos a tempos, 
ao  nobre  fidalgo  do  castelo  de  Dorincourt.  Deve  dizer-se  que,  por  seu  lado,  o 
conde  fazia  tudo  quanto  podia  para  tornar  essas  visitas  desagradáveis. 
Detestava  as  obras  religiosas  e  de  caridade,  encolerizando-se  sempre  que 
alguém vinha pedir-lhe auxílio para doentes ou desgraçados. 

Nos  dias  em  que  a  gota  o  fazia  sofrer  mais,  o  conde  declarava,  sem 

cerimónias, que não queria ser importunado com todas essas histórias que não 
lhe diziam respeito. 

Quando  se  sentia  um  pouco  mais  aliviado,  dava  dinheiro  ao  sacerdote, 

mas não deixava de lhe dirigir palavras ásperas e de mandar para o inferno a 
paróquia  inteira.  De  qualquer  maneira  discutia  sempre  com  o  reverendo 
Mordaunt, que ficava furioso e com vontade de lhe atirar com a primeira coisa 
que lhe viesse à mão, se esse gesto não fosse incompatível com a sua dignidade 
eclesiástica e a caridade cristã. 

O reverendo Mordaunt exercia o seu ministério em Dorincourt há longos 

anos,  e  não  se  lembrava  de  ter  visto  Sua  Senhoria  mostrar  espontaneamente, 

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por  um  acto  de  caridade,  que  se  preocupava  com  alguém  que  não  fosse  ele 
próprio. 

O  padre  vinha,  naquele  dia,  falar-lhe,  exactamente,  de  um  caso  muito 

urgente; e, enquanto subia a avenida, a ideia da visita que ia fazer assustava-o 
ainda  mais  que  de  costume.  Em  primeiro  lugar  sabia  que  Lorde  Dorincourt 
estava com um dos seus ataques de gota, já há bastantes dias, e andava com tão 
má disposição, que toda a aldeia tinha conhecimento disso, por intermédio de 
uma  criada  do  castelo,  cuja  irmã  era  dona  de  uma  lojazinha,  onde  ganhava 
honestamente a vida, a vender linhas, agulhas, rebuçados, e a contar novidades. 
O  que  esta  mulher  não  soubesse  acerca  do  castelo  e  dos  seus  habitantes,  das 
quintas  e  dos  caseiros,  da  aldeia  e  da  população,  não  tinha,  com  certeza,  a 
menor  importância.  É  claro  que  não  ignorava  absolutamente  nada  do  que  se 
passava no castelo, porque a irmã, que se chamava Joana, era uma das melhores 
criadas  ao  serviço  do  conde,  e  entendia-se  perfeitamente  com  outro  criado,  o 
Tomás. 

- Não se pode fazer ideia do mau génio de Sua Senhoria! - contava a irmã 

de  Joana,  encostada  ao  balcão.  E  a  sua  linguagem?  O  próprio  Tomás  costuma 
dizer  à  minha  irmã  que  ninguém  pode  suportar  uma  coisa  assim!  Imaginem 
que o conde, há dois dias, atirou com a travessa do assado à cabeça do Tomás. 
Se  o  lugar  não  fosse  vantajoso  e  o  pessoal  tão  escolhido,  o  Tomás  tinha-se 
despedido imediatamente. 

O padre estava ao corrente de tudo isto, pois o conde era considerado uma 

espécie de tirano naqueles arredores, e toda a gente falava das suas cóleras e da 
sua crueldade. 

A  outra  razão,  pela  qual  o  reverendo  Mordaunt  temia,  ainda  mais  que 

habitualmente, as palavras desabridas do conde, era a chegada do neto. 

Todos sabiam que o velho fidalgo ficara furioso quando o filho casara com 

uma americana. 

Todos sabiam que ele fora implacável para com o jovem capitão, que era, 

afinal, o único homem simpático e amável da família, o único de quem toda a 
gente  gostava,  e  que  morrera  longe  da  pátria,  pobre  e  sem  obter  o  perdão  do 
pai. 

Todos sabiam que ele detestava a viúva do capitão, e como o contrariava 

que  ela  tivesse  um  filho,  a  ponto  de  só  querer  ver  o  neto  depois  de  os  filhos 
mais  velhos  terem  morrido,  e,  ainda  assim,  só  porque  ele  viria  a  ser  o  seu 
herdeiro. 

 Todos  sabiam  que  ele  esperava,  com  frieza,  a  chegada  do  neto, 

convencido  de  que  era  uma  criança  ordinária,  capaz  de  escurecer  o  brilho  do 
seu título. 

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Embora  o  orgulhoso  e  irascível  velho  imaginasse  que  ninguém  podia 

adivinhar  os  seus  pensamentos  e,  ainda  menos,  discutir  os  seus  sentimentos  e 
acções,  a  verdade  é  que  os  criados  observaram-no  e  sabiam  ler  na  sua 
fisionomia  o  que  se  passava  no  seu  íntimo.  E  enquanto  o  conde  se  julgava  ao 
abrigo  de  todas  as  curiosidades,  Tomás  contava  a  Joana,  ao  cozinheiro,  ao 
criado de mesa, aos criados e criadas, que o velho andava mais preocupado do 
que nunca, por causa do neto, pois temia que ele não honrasse a família. 

Caminhando  ao  longo  da  formosa  avenida,  o  reverendo  Mordaunt 

pensava que o pequeno americano chegara ao castelo exactamente na véspera à 
noite. Se os receios de Sua Senhoria se tinham realizado, ele corria o risco de ser 
ainda mais mal recebido e tratado pelo irascível conde do que habitualmente. 

Imagine-se,  pois,  o  espanto  do  sacerdote,  quando  Tomás  abriu  a  porta  e 

um riso alegre, de criança, chegou aos seus ouvidos. 

- Estão dois fora de jogo! - exclamou uma vozinha clara. - Vê, avô? Estão 

dois peões fora de jogo! 

O conde também lá estava, sentado na sua poltrona, com os pés sobre uma 

almofada.  Tinha  ao  lado  uma  pequena  mesa,  sobre  a  qual  se  encontrava  um 
jogo.  E,  junto  do  velho,  encostado  ao  seu  braço  e  ao  seu  joelho  válido, 
encontrava-se  um  rapazinho  com  a  carinha  corada  e  os  olhos  brilhantes  de 
alegria. 

- Dois peões fora de jogo! - repetiu a criança. - O avô, desta vez, não teve 

sorte! 

Foi  então  que  o  avô  e  o  neto  repararam  ao  mesmo  tempo,  que  tinha 

entrado alguém na biblioteca. 

 O  conde  voltou  a  cabeça,  franzindo  as  sobrancelhas  segundo  o  seu 

costume,  e  o  reverendo  Mordaunt  ficou  todo  surpreendido  ao  notar-lhe  uma 
expressão  menos  carrancuda  do  que  era  costume.  Realmente,  o  velho  fidalgo 
parecia ter esquecido a sua rudeza especial. 

-  Seja  bem  aparecido,  Mordaunt!  -  disse  ele,  estendendo-lhe  a  mão  com 

bom modo. - Como vê, descobri uma nova ocupação. 

Pousou a outra mão no ombro de Cedric. Adivinhava-se que, no íntimo do 

seu  coração,  sentia  orgulhoso  prazer  em  apresentar  um  tal  herdeiro,  e os  seus 
olhos  tiveram  como  que  um  lampejo  de  alegria,  enquanto  empurrava 
ligeiramente o pequenito na direcção do padre: 

- Apresento-lhe o novo Lorde Fauntleroy - disse ele. - Fauntleroy, este é o 

reverendo Mordaunt, o prior da paróquia. 

O pequeno olhou o padre e estendeu-lhe a mão. 

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-  Estou  encantado  por  tê-lo  conhecido!  -  disse  ele,  lembrando-se  dos 

termos  que  ouvia  Hobbes  empregar  uma  vez  ou  duas,  ao  cumprimentar 
cerimoniosamente um novo cliente. 

Cedric  sabia  que  se  devia  ser  especialmente  delicado,  quando  se 

cumprimentava um eclesiástico. 

O reverendo Mordaunt conservou, por um momento, aquela mãozinha na 

sua,  fitando  o  rosto  da  criança,  com  um  sorriso.  O  pequenito  agradara-lhe 
imediatamente,  como  agradava  a  toda  a  gente.  Não  era  a  sua  beleza  que  o 
encantava,  mas  a  natural  gentileza  que  dava  às  suas  palavras,  tão  pouco 
infantis, num tom de amável sinceridade. Ao fitar Cedric, o sacerdote esqueceu 
completamente  o  conde.  Não  há,  no  mundo,  maior  influência  do  que  um 
coração generoso. 

A  simples  presença  daquela  criança  parecia  tornar  mais  clara  e  alegre  a 

atmosfera da grande sala. 

 -  Também  eu  estou  encantado,  por  travar  conhecimento  com  Lorde 

Fauntleroy - respondeu. - Fez uma longa viagem para chegar junto de nós! Toda 
a gente daqui vai ficar contente quando souber da sua vinda! 

-  Oh!  sim,  fiz  uma  longa  viagem  -  respondeu  o  pequeno  lorde.  -  Mas, 

como  a  Querida  vinha  comigo,  não  me  aborreci.  Nunca  nos  aborrecemos, 
quando a nossa mãe está connosco. E, depois, o navio era muito bonito. 

- Sente-se, Mordaunt - disse o conde. 
O padre sentou-se e os seus olhos foram de Lorde Fauntleroy ao avô. 
- Vejo que posso felicitá-lo, senhor conde - disse ele, com entusiasmo. Mas 

o  velho,  evidentemente,  não  estava  disposto  a  revelar  os  seus  sentimentos 
acerca do neto. 

-  Parece-se  com  o  pai  -  disse  por  fim,  com  modo  brusco.  -  Esperaremos 

que, no futuro, saiba conduzir-se de maneira mais satisfatória. - E acrescentou 
logo: - Que há de novo, Mordaunt? Quem precisa de auxílio? 

A  conversa  principiava  muito  melhor  do  que  o  padre  supusera.  No 

entanto, hesitou um momento, antes de responder. 

-  Trata-se  de  Hugues  -  disse  ele.  -  O  Hugues  da  Herdade  de  Cima.  Tem 

tido  pouca  sorte,  ultimamente.  Esteve  doente  no  Outono,  e  os  filhos  tiveram 
agora  a  escarlatina.  Tudo  lhe  corre  mal.  O  que  o  apoquenta  mais  é  a  renda. 
Newick disse-lhe que, se ele não pagar, terá que deixar a herdade. Isto será uma 
verdadeira  desgraça.  A  mulher  está  doente  e  ele  veio,  ontem,  pedir-me  que 
obtivesse de Vossa Senhoria uma espera. Ele pensa que, se essa espera lhe for 
concedida, poderá depois pagar tudo. 

- É o que eles dizem todos! - observou o conde, com ar aborrecido. 

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Lorde  Fauntleroy  deu  um  passo  para  a  frente.  De  pé,  entre  o  avô  e  o 

sacerdote,  escutara  atentamente  o  que  eles    diziam,  e  interessara-se 
imediatamente por Hugues. Perguntava a si próprio quantos filhos teria ele e se 
a  escarlatina  teria  sido  muito  grave.  Os  seus  olhos  fixaram-se  no  reverendo 
Mordaunt com vivo interesse. 

- Hugues é um homem bem intencionado - continuou o padre, esforçando- 

se por encontrar argumentos a seu favor. 

- É um mau rendeiro - replicou o conde. - Anda sempre atrasado, segundo 

me disse Newick. 

-  Ele  está  muito  apoquentado  neste  momento!  -  disse  ainda  o  padre.  -  É 

muito  amigo  da  mulher  e  dos  filhos  e,  se  lhe  tiram  a  herdade,  não  terão 
absolutamente nada que comer. Duas crianças ficaram muito fraquinhas com a 
escarlatina  e  o  médico  prescreveu-lhes  uma  alimentação  forte  e  cuidada,  que 
Hugues não pode, de forma alguma, dar-lhes. 

O pequeno lorde exclamou: 
- É tal qual como o Miguel! 
O conde teve um ligeiro sobressalto. 
-  Esqueci-me  de  ti!  -  disse  ele.  -  Não  reparei  que  tínhamos  aqui  um 

filantropo. E quem vem a ser o Miguel? 

Ao dizer isto, os olhos do velho voltaram a ter um brilho estranho. 
- É o marido da Brígida, como eu já contei ao avô 
- respondeu Cedric. - Estava doente, não podia pagar a renda da casa, nem 

comida,  nem  remédios,  quando  eu  lhe  dei  o  dinheiro  que  o  avôzinho  me 
mandou. 

Lorde Dorincourt franziu as sobrancelhas, mas desta vez não se mostrava 

irritado. Olhou para o reverendo Mordaunt e disse: 

-  Não  faço  ideia  nenhuma  do  que  virá  a  ser  este  futuro  proprietário. 

Encarreguei Havisham de lhe dar tudo quanto lhe apetecesse e, afinal, creio que 
ele preferiu dar o dinheiro a mendigos. 

 -  Oh!  não  eram  mendigos  -  exclamou  vivamente  Fauntleroy.  -  Miguel  é 

um excelente pedreiro! E os outros também trabalham. 

-  Nesse  caso,  enganei-me  -  observou  o  conde,  em  tom  divertido.  -  Eram 

excelentes  pedreiros,  excelentes  enBraxadores  e  excelentes  vendedeiras  de 
maçãs! 

Fitou o neto durante alguns segundos, sem falar. Acabava de ter uma ideia 

e, embora não fosse inspirada pelos mais nobres sentimentos, nem por isso era 
uma ideia má. Por fim, disse: 

- Vem cá! 

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O  pequeno  lorde  aproximou-se  do  avô,  tanto  quanto  era  possível,  sem 

tocar no pé gotoso. 

- Que farias neste caso? - perguntou Sua Senhoria. O reverendo Mordaunt 

experimentou  uma  sensação  muito  singular.  Aquele  homem,  bondoso  e 
prudente, que vivia há muitos anos no domínio de Dorincourt, conhecia todos 
os  rendeiros,  ricos  e  pobres,  todos  os  habitantes  da  aldeia,  trabalhadores  ou 
preguiçosos,  honestos  ou  desonestos;  avaliava  perfeitamente  o  poder,  para  o 
bem e para o mal, que viria a ter aquele rapazinho de olhar decidido, que estava 
ali na sua frente, muito direito, de mãos nas algibeiras. 

Pensou que o velho conde, orgulhoso e autoritário, podia muito bem ter o 

capricho  de  dar,  desde  já,  uma  parte  desse  podér  ao  pequenito.  Se  Lorde 
Fauntleroy  não  fosse  generoso  e  simples,  essa  resolução  teria  consequências 
detestáveis para os outros e para ele próprio. 

- Sim, que farias tu neste caso? - insistiu o conde. 
Fauntleroy aproximou-se ainda mais do avô, e pousou-lhe a mão sobre o 

joelho, num gesto seguro e cheio de confiança. 

-  Se  eu  fosse  rico  -  respondeu  ele  -  e  não  fosse  apenas  uma  criança, 

autorizaria  Hugues  a  continuar  na  herdade  e  dar-lhe-ia  aquilo  de  que  ele 
precisa para os filhos. Mas assim, como sou ainda muito pequeno... 

Calou-se, durante uns momentos, e o seu rosto iluminou-se de alegria. 
- Mas o avô pode fazer tudo quanto quiser, não é verdade? - exclamou ele. 
- Hum! - murmurou o conde, olhando-o fixamente - É essa a tua opinião? 
Em todo o caso, não parecia zangado. 
-  Quero  dizer  que  o  avô  pode  dar  o  que  quiser  seja  a  quem  for  -  disse 

Fauntleroy. - Quem é Newick? 

- É o meu administrador, e há alguns rendeiros que não gostam dele. 
-  O  avô  pode  escrever-lhe  agora  mesmo?  -  perguntou o  pequeno  lorde.  - 

Quer que eu lhe vá buscar o tinteiro e a caneta? Posso tirar o jogo de cima da 
mesa? 

O avô continuou a fitá-lo, sem responder. Por fim, perguntou: 
- Sabes escrever? 
- Sei - respondeu Cedric -, mas ainda não escrevo muito bem. 
-  Tira  tudo  o  que  está  sobre  a  mesa  -  ordenou  o  conde  -  e  vai  à  minha 

secretária buscar uma caneta, papel e tinta. 

O reverendo Mordaunt estava cada vez mais interessado. 
Lorde  Fauntleroy obedeceu  rapidamente.  Instantes  depois  estava  sobre  a 

mesa tudo quanto o conde pedira e era preciso para escrever. 

- Pronto! - exclamou o pequenito. - O avô já pode escrever. 
- Eu, não. Tu é que escreves. 

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-  Eu?  -  exclamou  Cedric,  tornando-se  corado  como  um  morango.  -  Mas, 

então, não é a mesma coisa! E  quando não tenho dicionário, dou alguns erros, 
nas palavras difíceis. 

-  Não  tem  importância  -  respondeu  o  avô.  -  Hugues  não  terá  que  se 

lamentar das tuas faltas de ortografia. Escreve. 

Fauntleroy pegou na caneta, molhou-a no tinteiro e colocou-se em posição 

de escrever. 

- E agora, que escrevo eu? - perguntou. 
-  Podes  dizer:  -  “Não  se  ocupe  de  Hugues  por  enquanto”.  E  assina: 

“Fauntleroy” - disse o conde. 

O pequeno lorde começou a escrever. 
Foi  uma  operação  séria  e  lenta,  mas  a  criança  aplicou-se  a  ela  de  todo  o 

coração. 

Momentos  depois  a  carta  estava  pronta  e  Cedric  estendeu-a  ao  avô,  com 

um sorriso um tanto inquieto, perguntando: 

- Parece-lhe que pode ir assim? 
O velho fidalgo pegou na carta e esboçou um sorriso. 
- Pode! - respondeu ele. - Hugues achará muito bem. 
Depois deu a carta ao sacerdote, que leu o seguinte: 
 
“Caro senhore Newick 
“Se  faz  favore,  não  se  ocupe  de  Hugues  por  encuanto.  Com  os  meus 

agradecimentos. 

“Respeitosamente seu 
Fauntleroy” 
 
- O Sr. Hobbes assinava sempre assim as cartas - explicou Fauntleroy - e 

pareceu-me melhor dizer “se faz favor”. Acha que tenho muitos erros? 

- Alguns. - concordou o conde. 
 - Eu logo disse! Faltava-me o dicionário... 
-  Não  faz  mal  -  continuou  o  avô.  -  Eu  corrijo  os  erros  e  tu  copias 

novamente a carta. 

Assim foi. 
- A ortografia é muito complicada - disse Cedric, ao concluir. - Há palavras 

que  se  escrevem  de  uma  maneira  muito  diferente  daquela  que  se  espera.  Mas 
eu hei-de aprender. 

Quando  se  retirou,  o  reverendo  Mordaunt  levou  a  carta.  E  levou,  além 

disso,  uma  impressão  agradável  e  cheia  de  esperança,  como  nunca  tivera,  até 
então, quando regressava das suas visitas ao castelo. 

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Lorde  Fauntleroy  acompanhou-o  à  porta  e,  depois,  voltou  para  junto  do 

avô. 

- Agora, posso ir ver a Querida? - perguntou ele. Ela deve estar à minha 

espera. 

O conde ficou silencioso. 
- Primeiro, tens que ir ver uma coisa à cavalariça - respondeu ele, por fim. 

- Toca a campainha. 

-  Agradeço-lhe  muito,  meu  avô  -  disse  o  pequenito,  tornando-se  muito 

corado -, mas parece-me que era melhor guardar isso para amanhã. A Querida 
deve ter saudades minhas. 

- Está bem! - respondeu o avô. - Vamos mandar vir a carruagem. 
Depois, acrescentou secamente: 
- O que eu queria mostrar-te era um “poney”. Fauntleroy abriu muito os 

olhos. 

- Um “poney”? - exclamou ele. - De quem é ele? 
- É teu!. . 
- Meu? - gritou Cedric. - Meu? Tal qual como os brinquedos que estão lá 

em cima? 

-  Sim!  -  confirmou  o  avô.  -  Queres  vê-lo  já?  Posso  dar  ordem  para  o 

trazerem defronte do castelo. 

 As faces de Fauntleroy tornavam-se cada vez mais coradas. 
- Nunca pensei que havia de ter um “poney”! Nunca! Nunca! - repetia ele. 

- Como a Querida vai ficar contente! O avô tem-me dado tantas coisas! 

- Tens muito desejo de ver o “poney”? 
Fauntleroy respirou fundo. 
- Sim, tenho um desejo muito, muito grande, de o ver! - respondeu ele. - 

Tenho tanto desejo, que não sei se não me faltará a coragem para esperar. Mas 
penso que não é agora a melhor ocasião. 

-  É  indispensável  que  vás  visitar  a  tua  mãe  esta  tarde?  -  perguntou  o 

conde. - Achas que não podes guardar a visita para amanhã? 

- Oh! não! - exclamou Fauntleroy. - Ela deve ter pensado em mim toda a 

manhã, como eu também pensei nela. 

-  Ah!  Nesse  caso,  toca  a  campainha  -  disse  o  avô.  Enquanto  desciam  a 

avenida, de carruagem, o velho falou o menos possível. Outro tanto não sucedia 
com o neto, que não se cansava de falar no “poney”. De que cor era ele? De que 
tamanho? Que comia ele? A que horas deveria levantar-se, na manhã seguinte, 
para o ver? 

-  A  Querida  vai  ficar  tão  contente!  -  repetia.  -  Ela  sentir-se-á 

reconhecidíssima  ao  avô,  por  ser  tão  bom  para  mim.  A  Querida  sabe 

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perfeitamente que eu  sempre gostei muito de “poneys”, mas nunca pensámos 
que  eu  poderia  ter  um.  Havia  um  menino  da  Quinta  Avenida  que  tinha  um 
“poney”. Montava-o todas as manhãs, e nós costumávamos dar um passeio por 
esse lado para o vermos. 

Encostou-se  às  almofadas  e  ficou  uns  momentos  a  contemplar  o  avô,  em 

silêncio. Depois exclamou: 

- Não há ninguém no mundo melhor do que o avô, tenho a certeza. O avô 

passa a vida a fazer bem: não pensa em si, mas sim nos outros, não é verdade? 
A  Querida  costuma  dizer  que  a  melhor  maneira  de  ser  bom  é  exactamente 
pensar mais nos outros do que em nós próprios. É assim que o avô faz sempre, 
não é? 

Lorde  Dorincourt  ficou  tão  surpreendido,  ao  ver-se  retratado  com  tão 

belas  cores,  que  não  encontrou  palavras  para  dizer.  Precisava  de  reflectir.  Era 
extraordinário veri ficar como a sua maneira de ser egoísta se ia transformando 
em impulsos bons e generosos, pela influência de uma criança ingénua e boa. 

Continuando  a  fitar  o  avô  com  um  olhar  leal  e  inocente,  cheio  de 

admiração, Fauntleroy prosseguiu: 

-  O  avô  tem  feito  muita  gente  feliz!  Primeiro  Brígida,  Miguel  e  os  filhos; 

depois  a  vendedeira  de  maçãs,  Dick,  Hobbes  e  agora  Hugues,  a  mulher  e  os 
filhos. E também o reverendo Mordaunt, porque ele, com certeza, ficou muito 
contente. Assim como a Querida e eu, por causa do “poney” e de tudo o mais. 
Contei pelos dedos: são vinte e sete pessoas que o avô fez felizes. Vinte e sete 
pessoas é muito. 

- E tens a certeza de que fui eu quem lhes deu a felicidade? 
- Pois foi! O avô fê-los felizes! - Hesitou um instante e depois continuou: - 

O avô sabe que algumas pessoas têm umas ideias esquisitas acerca dos condes, 
quando não os conhecem? Por exemplo, o Sr. Hobbes. Vou escrever a contar-lhe 
tudo. 

- E qual é então a opinião do Sr. Hobbes acerca dos condes? 
- É preciso dizer que ele não conhece nenhum - respondeu Cedric. - O que 

ele sabe,  foi o que leu nos livros. Ele  julga  - mas o avô não se aflija por causa 
disso!  -  que  os  condes  são  maus,  têm  o  sangue  alterado;  e  dizia  que  não  os 
queria nem ver à porta da sua loja. Mas, se ele conhecesse o avô, tenho a certeza 
de que pensaria de outra maneira. Hei-de falar-lhe no avô. 

- E que vais tu contar-lhe? 
- Digo-lhe que o meu avô é o melhor homem do mundo, o mais generoso 

que  eu  tenho  visto!  -  exclamou  Lorde  Fauntleroy,  cheio  de  entusiasmo.  -  E 
também que pensa  sempre nos outros, para os fazer felizes e que... eu espero, 
mais tarde, ser tal qual como o avô. 

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- Tal como eu?! - replicou o conde, olhando o rostozinho, muito corado, do 

neto. 

Sem  saber  porquê,  sentiu-se  ele  próprio  corar  um  pouco  e,  desviando 

bruscamente os olhos, contemplou longamente a paisagem. 

- Tal qual como o avô! - repetiu Fauntleroy. E acrescentou, com modéstia: - 

Se eu for capaz! Talvez não seja, mas hei-de experimentar. 

A carruagem descia a imponente avenida, sob os ramos das belas árvores, 

por onde espreitava a luz do sol. 

Lorde Fauntleroy tornou a ver os campos floridos que o tinham encantado 

na  véspera.  Avistou,  novamente  as  gazelas  e  os  veados,  as  perdizes  e  os 
coelhinhos, e tudo lhe pareceu ainda mais encantador. A beleza que o rodeava 
enchia-lhe o coração de alegria. Por seu lado, o velho fidalgo, embora parecesse 
contemplar os campos e as árvores, via e entendia coisas muito diferentes. Via 
uma longa existência sem pensamentos generosos e actos de bondade; via anos 
e anos, durante os quais um homem, que fora jovem e rico, tinha empregado a 
sua  força  e  a  sua  mocidade,  o  seu  poder  e  a  sua  riqueza  a  dar  unicamente 
satisfação  aos  seus  próprios  desejos;  via  este  mesmo  homem  tornar-se  velho, 
levar  uma  existência  triste  e  solitária  no  meio  dos  seus  imensos  domínios;  via 
pessoas  que  o  detestavam  ou  o  temiam,  e  outras  que  o  lisonjeavam  ou  se 
curvavam  diante  dele,  mas  nem  um  único  daqueles  que  o  rodeavam  se 
preocupava  com  a  sua  vida  ou  a  sua  morte,  a  não  ser  pelo  que  tivessem  a 
ganhar  ou  a  perder  com  isso.  O  conde  olhava  os  vastos  terrenos  que  lhe 
pertenciam  e  pensava  em  coisas  que  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy  ignorava:  a 
extensão  daquele  domínio,  a  riqueza  que  representava  e  o  grande  número  de 
famílias  que  ali  viviam.  E  sabia  uma  coisa  que  Lorde  Fauntleroy  também 
desconhecia: que entre todas essas  famílias, humildes ou abastadas, não havia 
uma única pessoa que, embora invejando a sua fortuna, o seu título e grandeza, 
fosse  capaz  de  classificar  de  bom  o  dono  de  todos  aqueles  bens,  ou  desejar 
parecer- se com ele, como acabava de fazer aquela criança de alma pura. 

Ora,  isto  não  era  um  assunto  de  agradável  meditação,  mesmo  para  um 

velho egoísta e céptico que, durante setenta anos, não tivera outra preocupação 
que  não  fosse  a  sua  própria  pessoa,  sem  ligar  a  menor  importância  à  opinião 
dos outros, a não ser quando se tratava do seu próprio conforto e distracções. 
Nunca  pensara  nisso;  fora  o  neto,  ao  manifestar  o  desejo  de  imitar  o  seu 
exemplo, quem o levara a fazer a si próprio esta pergunta: “Sou eu, realmente, 
uma pessoa a quem se possa tomar como modelo? 

Ao  ver  o  avô  franzir  as  sobrancelhas,  Fauntleroy  pensou  que  ele, 

naturalmente,  sentia  dores  no  pé.  Por  isso,  achou  que  era  melhor  não  o 
incomodar e contentou-se em admirar em silêncio a vista lindíssima que os seus 

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olhos  abrangiam.  Mas  a  carruagem,  tendo  transposto  o  portão  do  parque  e 
rolado  suavemente  sobre  terrenos  relvados,  parou  pouco  depois;  tinham 
chegado  ao  pavilhão  de  Court  Lodge  e,  mal  o  trintanário  abriu  a  portinhola, 
Lorde Fauntleroy saltou para o chão. 

O conde despertou da sua meditação e perguntou: 
- O quê? Já chegámos? 
-  Já,  sim,  avô.  Vou  dar-lhe  a  sua  bengala.  Pode  apoiar-se  a  mim,  para 

descer. 

 - Eu não saio da carruagem - respondeu Sua Senhoria, bruscamente. 
-  O  avô.  não  vem  ver  a  Querida?  -  exclamou  o  pequenino,  muito 

espantado. 

-  Pede  à  Querida  que  me  desculpe!  -  respondeu  secamente  o  conde.  - 

Conta-lhe que nem mesmo para veres o teu “poney” desististe de a visitar. 

- Ela vai ter muita pena. Com certeza que deseja muito conhecer o avô. 
- Talvez não... - replicou o conde. - À volta, a carruagem tornará a passar 

por aqui, para te levar. 

Depois, ordenou ao cocheiro que seguisse. 
O trintanário fechou a portinhola. 
O  pequeno  Lorde  Fauntleroy,  depois  de  ter  mostrado  uma  cara  muito 

surpreendida, subiu, a correr, a alameda que conduzia ao pavilhão. 

Tal como sucedera a Havisham, na América, o conde teve, então, ocasião 

de  ver  umas  belas  pernas,  ágeis  e  sólidas,  transporem  aquele  espaço  com 
admirável  rapidez.  Evidentemente,  o  dono  daquelas  pernas  não  desejava 
perder tempo. 

A  carruagem  afastou-se,  mas  o  conde  não  se  recostou  nas  almofadas; 

continuou a olhar pela portinhola. Um espaço maior entre as árvores permitia-
lhe  ver  a  porta  da  casa.  Estava  aberta.  A  pequena  silhueta  infantil  subiu  os 
degraus; uma outra silhueta, jovem e delgada, vestida de preto, correu ao seu 
encontro. Fauntleroy lançou-se nos braços da mãe, pendurou-se-lhe ao pescoço 
e cobriu-lhe de beijos o jovem e doce rosto. 

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Na igreja 

 
No domingo seguinte, havia, na igreja, uma bela assistência. O reverendo 

Mordaunt  não  se  lembrava  de  outro  domingo  assim,  com  tão  grande 
concorrência. 

Estavam  presentes  pessoas  que  só  muito  raramente  iam  escutar  os  seus 

sermões. 

Algumas eram, até, de Hazelton, a paróquia vizinha. 
Viam-se robustos camponeses, com as mulheres e os filhos. A mulher do 

médico  estava  lá  também  com  as  quatro  filhas.  O  senhor  e  a  senhora  Kimsey, 
donos  da  drogaria,  que  preparavam  pílulas  e  pós  para  algumas  léguas  em 
redor, encontravam-se nos seus bancos, assim como a irmã de Joana, a mudista 
e  a  costureira.  O  ajudante  do  médico  e  o  caixeiro  do  droguista  também  não 
faltaram.  A  verdade  é  que  quase  todas  as  famílias  da  região  estavam  ali 
representadas. 

No  decorrer  da  semana  anterior,  tinham  constado  coisas  maravilhosas 

acerca de Lorde Fauntleroy. Os criados do castelo, principalmente Joana, não se 
cansavam de contar tudo quanto se relacionava com o jovem lorde, desde a sua 
chegada ao castelo. 

- É uma criança que não sabe o que é ter medo - diziam. - Logo que entrou, 

principiou a falar com o avô perfeitamente à vontade, como se sempre tivessem 
vivido  juntos.  O  próprio  avô  estava  admirado  e  não  sabia  o  que  lhe  havia  de 
dizer. 

 A  história  de  Hugues  também  já  era  conhecida.  O  reverendo  Mordaunt 

contara-a  à  criada,  que  logo  o  espalhara  por  toda  a  região.  O  próprio  Newick 
mostrara a duas ou três pessoas a carta assinada “Fauntleroy”. 

Havia uma coisa que indignava toda a gente: o pequeno Lorde Fauntleroy 

viver separado da mãe. Era uma crueldade. 

Em  resumo,  a  chegada  do  pequeno  lorde  ao  castelo  era  o  assunto  das 

conversas  de  todas  as  pessoas,  não  só  da  aldeia,  como  de  toda  a  região  de 
Dorincourt.  E,  no  domingo  seguinte,  nenhum  rendeiro  faltou  à  igreja,  com 
curiosidade  de  conhecer  o  jovem  Lorde  Fauntleroy,  que  seria,  mais  tarde,  o 
proprietário da terra que eles cultivavam e de que tanto dependiam. 

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O conde frequentava pouco a igreja, mas naquele domingo decidiu assistir 

ao  serviço  religioso,  porque  desejava  mostrar-se,  no  grande  banco  senhorial, 
com Lorde Fauntleroy ao seu lado. 

Em frente da porta da igreja tinham-se formado grupos, que discutiam a 

possibilidade  de  o  conde  também  vir.  No  meio  da  discussão,  uma  mulher 
exclamou: 

- Reparem! Lá vem a mãe, com certeza! Que bonita que ela é! 
Todos  se  voltaram  para  ver  a  jovem  senhora,  vestida  de  preto,  que 

avançava  no  caminho.  O  véu,  puxado  para  trás,  deixava-lhe  ver  o  rosto  e  a 
cabeleira  brilhante  encaracolada  como  a  do  pequenito,  sob  o  pequeno  chapéu 
de viúva. 

A  Sr.  a  Errol  não  pensava  nas  pessoas  aglomeradas  à  porta  da  igreja; 

pensava  em  Cedric,  nas  visitas  que  ele  lhe  fazia,  na  alegria  que  tivera  com  o 
“poney”  montado  no  qual  a  fora  ver,  na  véspera,  radiante  de  contentamento. 
Mas não tardou a notar que toda a gente olhava para ela e que a sua chegada 
causava sensação. 

 Uma velha de xaile vermelho fez-lhe uma reverência e disse: 
- Deus a abençoe, minha senhora! 
Uma outra mulher imitou-a e os homens tiraram os chapéus e barretes à 

sua passagem. 

A princípio, a Sr. a Errol não compreendeu; depois percebeu que aquelas 

saudações lhe eram dirigidas, por ser a mãe de Lorde Fauntleroy. 

Então,  toda  corada,  cumprimentou  também  sorrindo,  e  agradeceu  com  a 

sua voz muito doce à mulher que lhe desejara as bençãos do céu. 

Aquelas manifestações rústicas, de deferência, eram absolutamente novas 

e um pouco embaraçosas para quem tinha vivido sempre numa grande cidade 
americana,  ruidosa  e  movimentada.  Mas  a  mãe  de  Cedric  não  pôde  deixar  de 
ficar  sensibilizada  com  os  sentimentos  de  cordial  estima  que  aquelas 
homenagens significavam. 

Apenas  ela  entrou  na  igreja,  deu-se  o  grande  acontecimento  do  dia.  A 

carruagem do castelo apareceu ao longe, no caminho. 

-  Lá  vem  eles!  -  disseram  os  curiosos,  u  uns  aos  outros.  A  carruagem 

parou.  Tomás  desceu,  abriu  a  portinhola  e  um  rapazinho  loiro,  vestido  de 
veludo preto, saltou para o chão. 

Todos  -  homens,  mulheres  e  crianças  -  olharam  para  ele  com  enorme 

curiosidade. 

-  É  tal  qual  o  patrão,  quando  partiu!  -  murmuravam  os  que  ainda  se 

lembravam. - É o retrato do pai! 

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O  rapazinho  parou  um  instante,  em  plena  luz,  de  olhos  erguidos  para  o 

conde,  com  uma  expressão  de  afectuoso  interesse,  enquanto  Tomás  ajudava  o 
velho  fidalgo  a  descer  da  carruagem.  Logo  que  julgou  poder  ser-lhe  útil, 
estendeu  a  mão  ao  avô  e ofereceu-lhe  o  seu  ombro,  como  de  costume.  Toda  a 
gente se convenceu, então, de que, ao contrário do que se passava com as outras 
pessoas, o conde de Dorincourt não inspirava o menor temor ao neto. 

-  Encoste-se  a  mim,  avô!  -  ouviram-no  dizer  aqueles  que  estavam  mais 

próximos. - Como toda esta gente se mostra contente por ver o avô! 

- Tira o teu boné! - disse o conde. - Eles estão a saudar-te! 
-  A  mim?!  -  exclamou  o  pequeno  lorde.  E  tirando  rapidamente  a  boina, 

voltou-se  para  os  camponeses,  com  os  olhos  brilhantes  e  procurando  saudar 
todos ao mesmo tempo. 

-  Que  Deus  abençoe  Vossa  Senhoria  -  disse  a  mesma  velha  de  xaile 

vermelho que dirigira a palavra à mãe. - E que Ele lhe dê uma longa vida muito 
feliz! 

- Muito obrigado, minha senhora - respondeu Fauntleroy. 
Entraram  na  igreja;  todos  os  olhares  se  fixaram  neles,  enquanto  o  avô  e 

neto  se  dirigiram  para  o  grande  banco  quadrado,  guarnecido  de  almofadas  e 
reposteiros  vermelhos,  situado  ao  alto  da  nave.  Logo  que  se  instalou,  Lorde 
Fauntleroy fez uma descoberta que o deixou encantado: no outro lado da igreja, 
num sítio onde ele podia vê-la perfeitamente, estava a mãe a sorrir-lhe. 

Cedric gostava muito de música. 
Quando  o  órgão  principiou  a  tocar,  ele  levantou-se  e  fitou  a  mãe. 

Costumavam  cantar  os  dois,  juntos,  muitas  vezes.  A  sua  voz,  muito  pura  e 
fresca como a de um passarinho, ergueu-se, em coro, com a dos outros fiéis e, 
no prazer de cantar, esqueceu tudo o mais. 

Sentado  a  um  lado  do  grande  banco,  e  um  pouco  encoberto  pelo 

reposteiro,  o  conde  distraiu-se  também  dos  seus  próprios  pensamentos,  ao 
contemplar  o  neto.  Com  o  livro  dos  cânticos  aberto  na  sua  frente,  Cedric 
cantava  com  toda  a  alma,  erguendo  um  pouco  a  cabeça.  Um  raio  de  sol, 
passando  através  do  vidro  amarelo  de  um  vitral,  fazia  resplandecer  a  sua 
cabeleira doirada. 

A  mãe,  que  o  contemplava  de  longe,  sentiu  um  estremecimento  no 

coração,  donde  se  erguia  uma  ardente  prece:  pedia  a  Deus  que  a  inocente 
alegria do filho fosse duradoira e que a espantosa fortuna que lhe coubera em 
sorte, não fosse, para ele, origem de desgostos e perigos. 

- Oh! meu Cedric! - tinha-lhe ela dito na véspera. Eu queria ser capaz de te 

dar  os  melhores  conselhos!  Dir-te-ei  apenas  que  sejas  sempre  bom,  corajoso  e 
leal! Nunca faças mal a ninguém; procura fazer todo o bem que puderes, e este 

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vasto  mundo  será  um  pouco  melhor,  graças  a  ti,  meu  filho!  É  isso  o  que 
importa, acima de tudo! Tornar o mundo melhor - por muito pouco que seja. 

Ao  regressar  ao  castelo,  Cedric  repetira  ao  conde  as  palavras  da  mãe  e 

acrescentara: 

- Quando a Querida me disse isto, pensei no avô e respondi-lhe que tornar 

o mundo melhor, era exactamente o que o avô fazia, e que eu procuraria imitá-
lo. 

- Que respondeu ela? - perguntou o conde, um pouco contrariado. 
- Disse que estava muito bem, e que devíamos sempre ver o que havia de 

bom nos outros, para seguir os seus bons exemplos. 

Era,  talvez,  nisto  mesmo  que  pensava  o  conde,  enquanto  contemplava  o 

neto, na igreja. Mais de uma vez olhou também para o lugar onde estava a mãe 
de  Cedric,  e  pôde  ver  o  claro  rosto  que  o  filho  tinha  amado  -  esse  filho  que 
morrera sem obter o perdão paternal - e os olhos escuros, tão parecidos com os 
da criança que estava ali, junto de si. 

Os pensamentos do conde estariam ainda cheios de ódio, ou haveria neles 

uma vaga doçura? Seria difícil responder. 

 Quando saíram da igreja, a maior parte das pessoas que tinham assistido 

ao serviço religioso, esperavam fora, para os ver passar. 

No  momento  em  que  o  avô  e  o  neto  se  aproximavam  da  porta  do 

cemitério, um homem tirou o chapéu e avançou um pouco. Depois parou, com 
ar hesitante. 

- Bom dia, Hugues! - disse o conde. 
Fauntleroy voltou-se vivamente, para ver o homem. 
- Oh! - exclamou ele. - Este é que é o Hugues? 
-  Sim!  -  respondeu  o  conde  -  e  suponho  que  ele  veio  aqui  para  travar 

conhecimento com o seu novo senhorio. 

- É verdade, Sr. Conde! - confirmou o homem, com ar embaraçado. - O Sr. 

Newick disse-me que Sua Senhoria se interessou por mim; eu gostava, se o Sr. 
Conde mo permite, de lhe dizer uma palavra de agradecimento. 

É natural que o pobre homem ficasse surpreendido, ao ver que, quem lhe 

tinha feito um tão grande favor, era, afinal, uma criança. 

Cedric olhava para ele, com a cabeça levantada, tão simplesmente como o 

faria um dos próprios filhos de Hugues, sem fazer a menor ideia da sua própria 
importância. 

-  Vossa  Senhoria,  fez-me  um  grande  favor  -  começou  ele  -;  um  grande 

favor! 

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- Oh! - exclamou Lorde Fauntleroy. - Eu apenas escrevi uma carta. Quem 

lhe  fez  o  favor  foi o meu  avô.  O  senhor  bem  sabe  que  ele  é  sempre  bom  para 
toda a gente! A sua mulher, agora, está melhor? 

Hugues  ficou  ainda  mais  embaraçado.  Nunca  tinha  ouvido  dizer  que  o 

conde era bom. 

- Sim. muito obrigado, milorde. Ela está melhor, desde que não tem tantas 

apoquentações. Os cuidados é que a faziam doente. 

-  Ainda  bem;  fico  muito  satisfeito.  O  meu  avô  preocupou-se  muito, 

quando soube que os seus filhos tinham escarlatina. Ele também teve filhos. Eu 
sou filho de um dos seus filhos. Já vê. 

Hugues não sabia que dizer. Achou mais prudente não olhar para Lorde 

Dorincourt, pois ninguém ignorava que os sentimentos dele para com os filhos 
tinham  sido  pouco  carinhosos.  Contentava-se  em  vê-los  uma  vez  por  ano.  E 
quando eles estavam doentes, o seu primeiro cuidado era partir para Londres, e 
evitar  assim  encontros  com  os  médicos  e  as  enfermeiras.  Devia  ser  aborrecido 
para  o  conde,  cujos  olhos  brilhavam  mais,  ouvir  dizer  que  se  interessara  pela 
escarlatina dos filhos de Hugues. 

- Afinal, Hugues - disse o conde, com um sorriso sarcástico -, vocês todos 

estão  completamente  enganados  a  meu  respeito.  Quem  me  conhece  é  Lorde 
Fauntleroy. Quando quiserem saber o que hão-de pensar de mim, dirijam-se a 
ele. Vamos, Fauntleroy! 

Subiram para a carruagem. 
Quando  chegaram  à  estrada,  depois  da  volta  do  caminho,  o  conde 

continuava a sorrir, da mesma forma enigmática. 

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Primeiras lições de equitação 

 
O  sorriso  sarcástico  voltou  a  aparecer  várias  vezes  nos  lábios  do  conde, 

durante os dias seguintes. 

Efectivamente, à medida que ia conhecendo melhor o neto, aquele sorriso 

repetia-se,  sucedendo,  até,  tornar-se  quase  suave.  Deve  dizer-se  que,  antes  da 
chegada do pequeno lorde, o conde principiava a sentir-se cansado da solidão 
em  que  vivia,  da  sua  gota  e  dos  seus  setenta  anos.  Depois  de  uma  vida  de 
agitação e prazer, não era agradável passar os dias sozinho, ainda que fosse nos 
mais  luxuosos  aposentos,  com  um  pé  sobre  uma  almofada  e  sem  outra  dis 
tracção  que  não  fosse ralhar  com  o  criado  de  quarto,  aterrorizado que,  no  seu 
íntimo, o detestava. 

O  velho  fidalgo  era  muito  inteligente,  e  não  tinha  a  menor  ilusão  acerca 

dos  sentimentos  dos  criados  a  seu  respeito.  Também  sabia  que  as  poucas 
pessoas que ainda o visitavam, não sentiam por ele nenhuma simpatia, embora, 
às  vezes,  se  distraíssem  com  as  suas  reflexões  desabridas  e  picantes,  que  não 
poupavam  ninguém.  Enquanto  fora  vigoroso  e  saudável,  o  conde  viajara  por 
todo o mundo, tentando distrair-se, mas sem, na realidade, o conseguir. Depois, 
quando a saúde começara a faltar-lhe, desgostara-se de tudo e encerrara-se em 
Dorincourt, com a sua gota, os seus jornais e os seus livros. 

No entanto, não podia ler constantemente, e o conde aborrecia-se cada vez 

mais. 

 Foi então que Lorde Fauntleroy chegou, e felizmente para o pequenito, o 

orgulho  do  avô  sentira-se  satisfeito  desde  o  primeiro  instante  em  que  ele 
apareceu. 

Se  Cedric  não  fosse  belo,  certamente  Lorde  Dorincourt  teria  sentido  por 

ele uma antipatia que não lhe deixaria ver as boas qualidades do neto. 

Assim, observou-o com interesse e achava engraçado conceder-lhe o poder 

de  prestar  um  favor  ao  desgraçado  Hugues.  Pessoalmente,  o  rendeiro  não  lhe 
interessava  nada,  mas  a  ideia  de  que  falariam  do  neto,  na  aldeia,  e  que,  desta 
forma  ele  principiaria  a  tornar-se  popular  e amado  pelos  rendeiros,  agradava-
lhe. 

Sentiu  prazer  em  ir  à  igreja  com  Cedric  e  verificar  a  curiosidade  e  o 

interesse que a sua vinda causara. Imaginava os comentários que fariam acerca 
do pequeno lorde - a sua beleza, o seu aspecto vigoroso, a sua distinção, a sua 

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cabeleira doirada e o seu ar agradável. Tinha a certeza de que diriam, como ele 
próprio ouvira a uma mulher segredar a outra: 

“- É um verdadeiro lorde, da cabeça aos pés”! 
O velho conde de Dorincourt era um fidalgo arrogante, orgulhoso do seu 

nome e da sua categoria social. Sentia-se satisfeito por mostrar ao mundo que a 
casa  de  Dorincourt  tinha,  finalmente,  um  herdeiro  digno,  sob  todos  os  pontos 
de vista, da sua situação futura. 

Na manhã em que Cedric experimentou o “poney”, Lorde Dorincourt teve 

uma satisfação tão grande, que quase esqueceu a sua gota. Quando Wilkins, o 
“groom”  especialmente  contratado  para  lhe  ensinar  equitação,  trouxe  o  belo 
animal  que  arqueava  o  pescoço  castanho  e  lustroso,  e  sacudia,  ao  sol,  a  fina 
cabeça,  o  conde  instalara-se,  junto  de  uma  das  janelas  da  biblioteca,  para  ver 
Fauntleroy tomar a sua primeira lição. Perguntava a si próprio se o pequenito 
teria  medo;  o  “poney”  não  era  muito  pequeno  e    o  conde  vira,  muitas  vezes, 
crianças que desanimavam, assustadas, à primeira lição. 

Lorde  Fauntleroy  saltou  para  a  sela,  com  desembaraço.  Nunca  montara 

um  “poney”  e  sentia-se  feliz  como  um  rei.  Wilkins  fez  passar  várias  vezes  o 
animal em frente das já nelas da biblioteca, segurando-o pelo freio. 

Mas,  isto  de  se  conservar  bem  direito  sobre  um  cavalo,  conduzido  pelo 

freio,  não  bastava  para  o  entusiasmo  de  Cedric.  Ao  fim  de  alguns  minutos, 
dirigiu-se ao avô, que estava lá em cima, na janela e perguntou: 

-  Não  posso  andar  sozinho?  Não  posso  andar  depressa?  O  pequeno  da 

Quinta Avenida andava a trote e a galope! 

- Parece-te que és capaz de trotar e galopar? - perguntou o conde. 
-  Gostava  de  experimentar  -  respondeu  Fauntleroy.  O  conde  fez  sinal  a 

Wilkins,  que  foi  buscar  outro  cavalo,  montou-o  e  segurou  nas  rédeas  do 
“poney”. 

-  Agora,  fá-lo  trotar!  -  ordenou  Lorde  Dorincourt.  Os  minutos  que  se 

seguiram foram violentos, para o aprendiz de cavaleiro. 

Reconheceu  que  o  trotar  não  era  tão  fácil  como  andar  a  passo,  e  que, 

quanto mais depressa o “poney” trotava, mais difícil se tornava. 

-  Isto  saco...  de  bas...  tante,  não  é  verdade?  -  gritou  ele  a  Wilkins.  - 

Também lhe sucede o mesmo? 

- Não, milorde. Há-de habituar-se, com o tempo. Erga-se nos estribos. 
- Er... go-... me tan... to quan... to posso! 
Erguia-se e baixava irregularmente, com muitas sacudidelas e pancadas. O 

conde observava tudo da janela. Quando os cavaleiros passaram novamente ao 
alcance  da  sua  voz,  depois  de  terem  desaparecido  uns  instantes  por  trás  das 
árvores, Fauntleroy tinha perdido a boina, cerrava os 

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 lábios, e as suas faces estavam vermelhas como papoilas, mas continuava, 

corajosamente, a trotar. 

- Parem um instante! - disse o avô. - Onde está a tua boina? 
Wilkins respondeu, com vísivel satisfação: 
-  Voou,  senhor  conde!  Quis  apear-me  para  a  ir  buscar,  mas  Lorde 

Fauntleroy não mo consentiu. 

- Teve muito medo? - perguntou o conde, baixando a voz. 
- Medo Quem? Lorde Fauntleroy? - exclamou Wilkins. - Creio mesmo que 

não  sabe  o  que  isso  é!  Tenho  ensinado  a  montar  muitos  jovens,  mas  nunca 
encontrei nenhum com tão boa vontade e decisão. 

- Estás cansado? - perguntou ainda o conde dirigindo-se ao neto. - Queres 

apear-te? 

-  Isto  sacode  mais  do  que  se  imagina  -  confessou  o  pequeno  lorde,  com 

franqueza  -  e  cansa  um  bocado!  Mas  ainda  não  tenho  vontade  de  me  apear. 
Prefiro continuar. Logo que esteja fatigado, irei buscar a minha boina. 

Se  tivessem  ensinado  a  Fauntleroy o  que  ele  devia  fazer  para  agradar  ao 

avô, não poderia ter feito nada melhor. 

Quando  o  “poney”  tornou  a  afastar-se,  a  trote,  na  avenida,  o  rosto  do 

velho  fidalgo  corou  um  pouco  e,  sob  as  espessas  sobrancelhas,  os  olhos 
brilharam-lhe  de  um  prazer,  que  ele  próprio  não  julgava  poder  experimentar. 
Aguardou, com impaciência, que o ruído das ferraduras anunciasse o regresso 
dos  cavaleiros.  Quando  voltaram,  desta  vez  num  andamento  mais  rápido, 
Fauntleroy  não  tornara  a  pôr  a  boina  que  Wilkins  trazia  na  mão;  as  faces  do 
pequeno  lorde  estavam  mais  coradas  do  que  nunca  e  tinha  os  cabelos  em 
desordem. Mas voltava a galope! 

-  Avô!  -  exclamou  ele,  ofegante,  logo  que  pararam  em  frente  da  porta.  - 

Galopei! Não galopei tão bem como o rapaz da Quinta Avenida, mas galopei e 
não caí! 

 Depois disto, Wilkins e o “poney” passaram a ser seus grandes amigos, e 

todos  os  dias  os  viam  trotar  juntos,  na  estrada,  ou  ao  longo  dos  caminhos 
verdejantes. 

As  crianças  da  região  saíam  de  casa  para  ver  passar  o  elegante  “poney” 

castanho, com o seu gentil cavaleiro, muito direito na sela. 

E  o  jovem  lorde,  tirando  a  boina,  dizia:  -  “Olá,  bom  dia!”  -  com  um  ar 

muito  pouco  senhorial,  mas  cheio  de  cordialidade.  Às  vezes,  parava  para 
conversar com os garotos, e um dia, ao regressar ao castelo, Wilkins contou que 
Lorde Fauntleroy quisera descer do cavalo junto da escola da aldeia para fazer 
montar  no  seu  lugar,  e  conduzir  a  casa,  um  pequenito  coxo,  que  parecia 
fatigado. 

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-  Palavra!  -  dizia  Wilkins,  ao  contar  a  história  aos  criados.  -  Não  há 

maneira  de  o  contrariar!  Também  não  quis  que  eu  pusesse  o  garoto  no  meu 
cavalo, porque - dizia ele - podia o rapazito ter medo de um cavalo tão grande. 
“- Repare bem, Wilkins - disse-me ele - este pequeno é coxo, e eu não sou. Além 
disso, apetece-me conversar com ele. “ E não houve remédio, senão fazer-lhe a 
vontade,  montar  o  garoto  no  “poney”,  enquanto  milorde  caminhava  ao  lado, 
com as mãos nas algibeiras e a boina para trás, falando ou assobiando sem mais 
cerimónia  que  qualquer  de  nós.  Quando  chegámos  à  choupana  e  a  mãe  do 
rapaz  apareceu,  toda  inquieta,  para  saber  o  que  se  passava,  Lorde  Fauntleroy 
descobriu-se  e  disse-lhe:  “-  Trago-lhe  o  seu  filho,  minha  senhora,  porque  lhe 
doía  a  perna.  Creio  que  esta  bengala  não  é  suficiente  para  ele  se  apoiar.  Vou 
pedir ao meu avô que lhe mande fazer umas muletas”. Vocês calculam como a 
mulher  ficou  espantada!  Por  meu  lado,  julguei  que  estava  a  sonhar.  Nunca 
imaginei uma coisa assim! 

Wilkins  receava  que  o  conde  se  zangasse,  ao  saber  o  que  sucedera.  Mas, 

pelo contrário, o velho fidalgo soltou uma 

 gargalhada e mandou chamar Fauntleroy, para que ele lhe contasse tudo, 

do  princípio  ao  fim.  Depois,  riu  novamente,  e  a  verdade  é  que,  alguns  dias 
depois,  a  carruagem  do  castelo  parava  em  frente  da  casa  onde  morava  o 
pequeno coxo. 

Lorde  Fauntleroy  saltou  para  o  chão  e  bateu  à  porta  da  casa;  levava  ao 

ombro, à maneira de uma espingarda, um par de muletas novas, sólidas e leves. 
Entregou-as à mãe do pequenito, e disse: 

- O meu avô manda-lhe cumprimentos e pede-lhe que aceite estas muletas 

para o seu filho. Espero que ele se cure depressa. 

Ao subir para a carruagem, Cedric explicou ao avô: 
- Apresentei cumprimentos do avô à mãe do pequeno. O avô não me tinha 

dito nada, mas pensei que, naturalmente, foi por se ter esquecido. Fiz bem, não 
é verdade? 

O conde riu e não fez qualquer observação. De dia para dia, apertavam-se 

mais os laços que uniam avô e neto, e a confiança de Cedric na bondade e nas 
virtudes  do  conde  era  cada  vez  maior.  O  pequeno  estava  convencido  de  que 
não havia ninguém  mais amável e generoso do que o avô. Sabia  que todos os 
seus  desejos  seriam  satisfeitos,  muitas  vezes  ainda  antes  de  os  manifestar,  e 
tinha  tantos  brinquedos  e  distracções,  que  chegava  a  sentir-se  confundido  à 
vista  da  sua  própria  riqueza.  Este  sistema,  aplicado  a  outras  crianças,  seria 
perigoso, mas com o jovem lorde não dava mau resultado. No entanto, apesar 
da  sua  natureza  bondosa  e  simples,  Cedric  ter-se-ia  tornado  uma  criança  um 
pouco  amimada  e  caprichosa,  se  não  fossem  as  horas  que  passava  em  Court 

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Lodge,  com  a  mãe.  Felizmente,  a  sua  “melhor  amiga”  velava  por  ele  com 
imensa ternura. Conversavam muito, os dois, e Cedric, ao regressar ao castelo, 
além  dos  beijos  carinhosos  que  a  mãe  lhe  dava  nas  faces,  levava  sempre  no 
coração  algumas  palavras  puras  e  nobres,  que  mereciam  ser  guardadas  para 
sempre. 

 Havia, porém, uma coisa que intrigava profundamente o pequeno lorde: 

o  tal  mistério  em  que  lhe  tinham  falado  e  no  qual  reflectia  cada  vez  mais.  A 
própria mãe ignorava a que ponto o seu espírito andava preocupado, e Lorde 
Dorincourt supunha que ele nunca mais pensara em semelhante coisa. 

Dotado  de  um  espírito  vivo  e  observador,  o  pequeno  lorde  não  podia, 

porém,  deixar  de  perguntar  a  si  próprio  por  que  motivo  o  avô  e  a  mãe  nunca 
estavam  juntos.  Quando  a  carruagem  do  castelo  parava  em  frente  de  Court 
Lodge,  o  conde  nunca  descia,  e  nas  raras  vezes  que  o  avô  o  acompanhava  à 
igreja,  deixava-o  sempre  sozinho,  à  porta,  nos  dias  em  que  ele  devia 
acompanhar  a  mãe.  E,  no  entanto,  todos  os  dias  eram  enviados  para  Court 
Lodge cestos com flores e frutos dos jardins e pomares do castelo. Porém, o que 
acabava de elevar o conde no conceito do neto, fora um facto sucedido pouco 
depois  do  primeiro  domingo  em  que  a  Sr.  a  Errol  voltara  a  pé,  da  igreja  para 
casa. Uma vez que Cedric se preparava para ir visitar a mãe, viu, em frente da 
porta,  não  a  grande  carruagem  do  castelo,  com  os  seus  dois  cavalos  fogosos, 
mas uma bonita “vitória”, com um belo cavalo baio. 

-  É  um  presente  para  tu  ofereceres  a  tua  mãe  -  disse-lhe  o  conde, 

bruscamente. - Ela não pode andar a pé, precisa de uma carruagem. O cocheiro 
que  a  vai  levar  ficará  também  ao  seu  serviço.  Tu  é  que  lhe  ofereces  este 
presente. 

A  alegria  de  Fauntleroy  não  se  pode  descrever.  Mal  pôde  conter-se,  até 

chegar a Court Lodge. A mãe estava no jardim, a colher flores. Cedric saltou da 
pequena “vitória” e precipitou-se nos braços da mãe, gritando: 

-  Querida,  quer  saber?  Esta  carruagem  é  para  si!  O  avô  disse  que  era  eu 

quem lha oferecia. É a sua carruagem, para a levar aonde a Querida quiser! 

 Cedric mostrava-se tão feliz, que a mãe não sabia que dizer. Não se sentia 

com coragem de lhe perturbar a alegria, recusando-se a aceitar a oferta de um 
homem que continuava a considerar como seu inimigo. 

Teve que subir imediatamente para a “vitória”, com as rosas que tinha na 

mão, e deixar-se conduzir num passeio, durante o qual o filho não cessou, um 
momento,  de  lhe  contar  histórias  acerca  da  bondade  do  avô.  Essas  histórias 
eram, às vezes, tão ingénuas, que a Sr. a Errol não podia deixar de rir; depois, 
puxava  o  pequenito  para  si  e  beijava-o,  satisfeita  por  ver  que  ele  apenas 
descobria boas qualidades naquele velho que tinha tão poucos amigos. 

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No dia seguinte, Fauntleroy escreveu a Hobbes uma grande carta. Quando 

o rascunho estava pronto, levou-o ao avô, dizendo: 

-  Não  tenho  confiança  na  minha  ortografia.  Se  o  avô  quiser  fazer-me  o 

favor de emendar os erros, eu depois torno a copiá-la. 

A carta dizia assim: 
 
“Meu caro senhor Hobbes 
“ Venho falar-lhe do meu avô. É o melhor conde que existe. Não é verdade 

que os condes sejam todos tiranos. Gostava que o conhecesse. Com certeza que 
seriam amigos. Ele sofre de gota num pé. É um martírio, mas o meu avô é muito 
paciente. Cada vez gosto mais dele, porque ninguém pode deixar de gostar de 
um conde assim. Tinha muito empenho em que conversasse com ele. Sabe tudo, 
e  o  Sr.  Hobbes  podia  fazer-lhe  todas  as  perguntas  que  quisesse.  Deu-me  um 
“poney” e uma “charrete” e ofereceu uma esplêndida carruagem a minha mãe. 
Tenho  três  quartos,  e  tantos  brinquedos,  de  todas  as  qualidades,  que  o  Sr. 
Hobes  ficaria  espantado.  O  castelo  e  o  parque  haviam  de  agradar-lhe  muito, 
com certeza. É um castelo tão grande, que as pessoas perdem-se lá dentro, como 
diz Wilkins. Wilkins é o meu “groom”. Ele diz que há masmorras no castelo. O 
par que é maravilhoso, com árvores enormes, veados, coelhos e outra caça, que 
corre  à  vontade  pelos  campos.  O  meu  avô  é  muito  rico,  mas  não  é  altivo  e 
orgulhoso como o Sr. Hobbes imagina que são sempre os condes. Gosto muito 
de  passear  com  ele.  Toda  a  gente  o  cumprimenta;  as  mulheres  fazem 
reverências,  e  algumas  dizem:  “Deus  o  abençoe!”  Já  sei  montar  a  cavalo.  A 
principio sentia- me um pouco sacudido, quando trotava. O meu avô permitiu 
que um rendeiro, que não podia pagar, continuasse na herdade, e a Sr.a Millon 
levou-lhe vinho e outras coisas para os filhos, que estavam doentes. 

“Gostava  de  o  ver,  e  também  gostava  que  a  Querida  vivesse  no  castelo. 

Quando  não  sinto  muitas  saudades  dela,  sou  feliz  e  gosto  muito  do  meu  avô. 
Escreva-me depressa, se faz favor. 

“Seu amigo dedicado 
Fauntleroy “ 
“P. S. - Nas masmorras não está ninguém. O meu avô nunca fez padecer 

ninguém”. 

“P.  S.  -  É  um  conde  tão  bom,  que  me  faz  lembrar  o  Sr.  Hobbes.  Toda  a 

gente gosta dele”. 

 
- Sentes muito a falta da tua mãe? - perguntou-lhe o conde, ao acabar de 

ler o rascunho. 

- Muito! - disse Fauntleroy. - Tenho sempre saudades dela. 

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 Aproximou-se  do  conde,  pôs-lhe  a  mão  no  joelho,  ergueu  os  olhos  para 

ele e perguntou: 

- O avô não sente a falta dela? 
- Não a conheço - respondeu o conde, num tom sacudido. 
-  Bem  sei  -  retorquiu  o  pequeno.  -  É  isso  que  me  admira  imenso.  Ela 

recomendou-me que não perguntasse nada ao avô, por isso... por isso não me 
atrevo. Mas não posso deixar de pensar neste mistério e de perguntar porquê... 
Mas, lá vou eu fazer perguntas! Quando tenho muitas saudades dela, vou até à 
janela  e  fico  a  olhar  para  a  luzinha  que  brilha,  para  mim,  todas  as  noites  por 
entre as árvores. É longe daqui, mas ela põe a luz na janela, para que eu possa 
vê-la brilhar, e eu sei o que ela me diz. 

- Então, que é? 
- A luzinha diz assim: “Deus te guarde toda a noite!” tal como a Querida 

costumava dizer-me, quando estávamos juntos. Ela dizia-me isto todas as noites 
e, de manhã, era assim: “Deus te proteja durante o dia!” Por isso, bem vê, não 
me pode suceder nenhum mal. 

- Nenhum mal, com certeza! - repetiu o conde, em voz baixa. 
O  avô  contemplou-o  tão  longamente,  que  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy 

perguntou a si próprio o que estaria ele a pensar. 

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Os casebres da aldeia 

 
Lorde Dorincourt habituara- se, ultimamente, a reflectir em muitas coisas 

que  nunca  o  tinham  preocupado.  E todos  esses  pensamentos  se  relacionavam, 
de uma forma ou de outra, com o neto. 

O  orgulho  era  o  traço  dominante  do  seu  carácter,  e  como  a  criança 

satisfazia  absolutamente  esse  orgulho,  o  velho  fidalgo  encontrava  agora  um 
novo interesse na vida. 

Toda a gente sabia que os filhos lhe haviam causado graves decepções: por 

isso, o conde experimentava uma agradável sensação de triunfo, ao apresentar 
ao  mundo  um  novo  Lorde  Fauntleroy  que  não  podia  desapontar  ninguém. 
Desejava que a  criança tivesse consciência do seu poder e da elevada situação 
que ocupava na sociedade; desejava também que os outros tivessem consciência 
disso. Fazia planos para o futuro do neto. Às vezes, lá no íntimo, lamentava que 
a sua vida passada não tivesse sido melhor, e que existissem nela passagens que 
escandalizariam a alminha pura do neto, se ele conhecesse a verdade. 

Ao pensar que aquela criança podia vir a saber que, durante muitos anos, 

toda  a  gente  chamava  ao  avô  o  “odioso  conde  de  Dorincourt”,  sentia-se 
profundamente  contrariado.  Aquele  novo  interesse  pela  vida,  que  despertava 
em si, fazia-o, por vezes, esquecer as dores e a gota; o próprio médico, ao fim de 
algum tempo, ficou surpreendido, ao verificar que a saúde do seu nobre cliente 
melhorara de uma forma absolutamente inesperada. 

Uma  bela  manhã,  os  habitantes  de  Dorincourt  ficaram  espantados,  ao 

verem  passar  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy,  montado  no  seu  “poney”, 
acompanhado  por  uma  pessoa  que  não  era  Wilkins.  Este  novo  companheiro, 
que montava um esplêndido cavalo, era o próprio conde. Aquela ideia fora de 
Cedric. 

Quando se preparava para montar, o pequenito tinha dito ao avô, com ar 

de pena: 

-  Gostava  tanto  que  o  avô  viesse  comigo!  Quando  vou  passear,  faz-me 

tristeza  deixá-lo  sozinho  no  seu  grande  castelo.  Era  tão  agradável,  se  o  avô 
viesse também comigo! 

Minutos depois, havia grande movimento nas cavalariças. O conde tinha 

dado  ordem  para  selarem  o  seu  cavalo  favorito.  Dali  em  diante,  o  povo 

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habituou-se a ver o velho fidalgo, de perfil severo, passar a cavalo, ao lado do 
“poney”, montado pelo jovem lorde. 

Pouco a pouco, o conde foi conhecendo muitas coisas acerca de Cedric e 

dos  seus  hábitos.  Durante  os  passeios,  o  pequeno  lorde  conversava  sempre,  e 
contou  ao  avô  que  a  mãe  costumava  visitar  os  doentes,  e  levar  donativos 
àqueles que estavam na miséria. E acrescentou: 

- Calcule, avô, que todos dizem: “Deus a abençoe!”, quando ela passa. E as 

crianças  também  ficam  contentes.  Há  pequenitas  que  vão  a  casa  da  Querida 
para aprenderem a coser. A Querida costuma dizer que, se ela fosse rica, havia 
de ajudar todos os pobres que a rodeiam. 

Lorde  Dorincourt  ficara  satisfeito  ao  verificar  que  a  mãe  de  Cedric  era 

bonita  e  tão  distinta  como  uma  duquesa;  de  certo  modo,  não  lhe desagradava 
saber  que  ela  era  tão  popular  entre  os  pobres.  No  entanto,  sentia  ciúmes  do 
lugar que ocupava no coração do filho. O velho desejava que o primeiro lugar, 
no afecto da criança, fosse para ele. 

 Naquele  mesmo  dia,  o  conde  parou  o  cavalo  no  alto  de  uma  colina  e, 

fazendo um gesto que abrangia tudo em volta, disse ao neto: 

- Sabes que tudo isto me pertence? 
-  Realmente?!  -  exclamou  Fauntleroy.  -  É  muito  grande,  para  pertencer  a 

uma pessoa só! 

- Sabes que, um dia, tudo isto, e muitas outras coisas, te pertencerão a ti? - 

continuou o conde. 

- A mim? - gritou Fauntleroy, cada vez mais espantado. - Quando? 
- Quando eu morrer - respondeu Lorde Dorincourt. 
- Ah! Então, não quero! - declarou imediatamente Fauntleroy. - Eu desejo 

que o avô viva sempre. 

- É muito gentil da tua parte - disse o velho num tom ligeiramente irónico. 

-  No  entanto,  tudo  isto  te  pertencerá,  um  dia.  E,  um  dia,  serás  conde  de 
Dorincourt. 

O pequeno lorde conservou-se silencioso durante alguns instantes. Olhou 

os  vastos  prados,  as  herdades  verdejantes,  as  belas  matas,  as  casinhas 
construídas  à  beira  dos  caminhos,  a  aldeia  graciosa  e,  depois,  o  seu  olhar 
dirigiu-se para o lugar onde se erguiam, acima das árvores, as majestosas torres 
do castelo. 

- Em que estás a pensar? - perguntou o conde. 
- Penso que sou apenas um rapazinho; e penso também em tudo quanto a 

Querida me tem dito. 

- Que te disse ela? - interrogou o velho Lorde Dorincourt. 

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- Disse-me que ser rico não é uma coisa muito cómoda; que, muitas vezes, 

as  pessoas  ricas  esquecem-se  de  que  há  muita  gente  pobre,  e  que  é  isso, 
exactamente,  o  que  nunca  deviam  esquecer.  Eu  contei-lhe  como  o  avô  é  bom. 
Então, ela disse-me que ainda bem, porque, ser conde, é ter um grande poder, e 
se um conde só pensa nos seus prazeres, esquecendo-se das pessoas que vivem 
nas suas terras, essa pobre gente sofrerá muitas dificuldades e amarguras, que o 
conde poderia perfeitamente evitar-lhe. Mas, quando se possuem propriedades 
tão vastas, deve ser muito difícil ocupar-se de toda a gente! Há pouco, quando 
estava  a  olhar  para  todas  essas  casas,  pensei  que,  se  eu  fosse  conde,  havia  de 
conhecer  todas  as  pessoas  que  lá  vivem.  Como  fez  o  avô  para  os  conhecer  a 
todos? 

O  velho  Lorde  Dorincourt  teve  bastante  dificuldade  em  responder  à 

pergunta do neto, pois sabia apenas quais eram os rendeiros que não pagavam 
a renda a tempo e horas, para os despedir. Por isso, limitou- se a dizer: 

- Quem se ocupa deles é Newick. 
Cofiou  os  grandes  bigodes  grisalhos  e,  olhando  o  neto  com  um  certo 

embaraço, acrescentou: 

-  Vamos  regressar  ao  castelo.  Mais  tarde,  quando  tu  fores  conde, 

procurarás ser um senhorio melhor do que eu. 

Durante  o  regresso,  o  conde  não  falou.  Pensava  que,  afinal,  chegava  a 

parecer inacreditável que ele - uma pessoa que nunca se dedicara a ninguém - 
se sentisse cada vez mais afeiçoado ao neto. Sucedia-lhe dizer, algumas vezes, a 
si próprio: “Não passo de um velho tonto, que entrou na segunda infância! Bem 
se vê que não tenho mais nada em que pensar”. 

Mas  ele  sabia  perfeitamente  que  a  verdade  era  outra.  A  verdade é  que  a 

simplicidade, a nobreza de sentimentos do neto e, principalmente, a confiança 
que a criança depositava nele, o iam transformando por completo. 

Uma  semana  depois  da  conversa  que  o  avô  tivera  com  ele,  acerca  da 

vastidão dos seus domínios, Cedric entrou na biblioteca, com a fisionomia um 
pouco  alterada.  Sentou-se  na  mesma  poltrona  onde  se  instalara  no  dia  da  sua 
chegada e contemplou o lume que ardia na chaminé. O conde observava-o em 
silêncio, perguntando, de si para si, o que se passaria. Era evidente que alguma 
coisa  atormentava  Cedric.  Por  fim,  o  pequenito  ergueu  os  olhos  para  o  avô  e 
perguntou: 

- Newick está perfeitamente a par de tudo o que se passa na região? 
-  Pelo  menos  é  o  seu  dever!  -  respondeu  o  conde.  Porquê?  Mostrou-se 

menos diligente? 

Por  mais  extraordinário  que  pareça,  Lorde  Dorincourt  achava  imensa 

graça  ao  interesse  que  o  neto  dedicava  aos  rendeiros.  Ele  próprio  nunca  se 

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preocupara  com  essa  gente,  mas  agradava-lhe  verificar  que,  a  par  das  suas 
preocupações  infantis,  e  do  seu  gosto  pelas  distracções,  Cedric  mostrava  uma 
tão decidida disposição para os assuntos sérios! 

-  Há,  ao  fim  da  aldeia,  um  sítio  muito  triste.  Foi  a  Querida  quem  o 

descobriu  -  começou  o  pequenito,  olhando  para  o  avô  com  uma  expressão  de 
angústia. - As casas estão a cair em ruínas. Lá dentro mal se pode respirar; tudo, 
ali,  é  miserável  e  horrível.  As  pessoas  que  vivem  naquelas  casas  têm  febres, 
muitas  vezes,  e  algumas  crianças  morrem.  Uma  tão  grande  miséria  torna  as 
pessoas más. Ainda é pior do que o caso da Brígida e do Miguel. A chuva entra 
pelos telhados! A Querida foi lá visitar, hoje, uma pobre mulher, e não me quis 
beijar antes de mudar de roupa. E, quando me contou isto, tinha os olhos cheios 
de lágrimas. 

Também  Cedric,  ao  dizer  estas  palavras,  tinha  os  olhos  húmidos;  no 

entanto, procurava sorrir. E continuou: 

- Eu disse-lhe logo que o avô, com certeza, não sabia e que eu próprio lhe 

falaria no assunto. 

Cedric desceu da poltrona e veio encostar-se à de Lorde Dorincourt. 
- O avô pode remediar tudo, como já fez com o Hugues, não é verdade? - 

disse ele. - Eu garanti à Querida que o avô não deixaria de o fazer e que, sem 
dúvida, Newick se esquecera de lhe contar o que se passa. 

 O  conde  olhava  para  a  mãozinha  pousada  no  seu  joelho.  Na  realidade, 

Newick  não  se  esquecera  de o  pôr  ao  facto do  estado em  que  se  encontravam 
aquelas  casas.  Pelo  contrário,  falara-lhe  nisso  mais  de  uma  vez.  O  conde 
conhecia  perfeitamente  as  condições  miseráveis  em  que  vivia  aquela  pobre 
gente. O reverendo Mordaunt também lhe chamara a atenção para o assunto e 
ele  respondera-lhe  desabridamente.  Naquele  dia,  a  gota  atormentava-o  e,  o 
velho  lorde  chegara  a  dizer  que,  quanto  mais  depressa  essa  gente  morresse, 
mais depressa o padre a enterraria! 

Entretanto, olhando para a mãozinha do neto, e erguendo, depois o olhar 

para  o  seu  rosto  de  expressão  tão  nobre  e  leal,  o  conde  envergonhou-se  da 
miséria daqueles habitantes da aldeia. 

- Queres, então, fazer de mim um construtor de casas  modelares? - disse 

ele. 

E, pondo a sua mão sobre a do pequenito, acariciou-a levemente. 
- É preciso deitar abaixo as casas velhas - disse Fauntleroy, com calor. - Foi 

o  que  a  Querida  disse.  Vamos  mandá-las  demolir  amanhã,  sim?  Os  aldeãos 
ficarão  todos  contentes,  por  verem  o  avô.  E  ficarão  sabendo,  imediatamente, 
que o avô vai socorrê-los. 

Os olhos da criança brilhavam como estrelas no seu rosto corado. 

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O conde levantou-se, pôs a mão sobre o ombro de Cedric e disse, com um 

sorriso breve: 

- Vamos dar uma volta no terraço e, ao mesmo tempo, poderemos falar de 

tudo isso. 

Enquanto  passeavam,  para  trás  e  para  diante,  no  grande  terraço,  como 

faziam todas as tardes, quando o tempo estava bom, Lorde Dorincourt, embora 
fizesse  ouvir,  uma  ou  duas  vezes,  o  seu  riso  trocista,  parecia  pensar  em 
qualquer coisa que não lhe desagradava. 

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Uma notícia alarmante 

 
Na realidade, a Sr. a Errol tinha descoberto muitas coisas lamentáveis, ao 

visitar  os  pobres  da  pequena  aldeia  que,  vista  do  alto  da  colina,  tinha  um 
aspecto tão pitoresco. 

De  perto,  as  coisas  eram  diferentes,  e  a  mãe  de  Cedric  encontrara  a 

preguiça, a ignorância e a miséria, num sítio onde deveriam reinar o bem-estar 
e a actividade. Por fim, soubera que aquela aldeia era considerada a mais triste 
da  região.  O  próprio  padre  lhe  confessou  sentir-se  desanimado.  Os 
administradores  que,  sucessivamente,  se  tinham  ocupado  dos  domínios  de 
Dorincourt,  haviam  procurado,  principalmente,  agradar  ao  conde,  e  nunca  se 
haviam inquietado com a miséria material e moral dos rendeiros mais pobres. 
Em resultado, tudo ia de mal a pior. 

As casas em que o pequeno lorde falara ao avô formavam um bairro, no 

extremo da aldeia, e os seus habitantes eram miseráveis e desconfiados. 

Quando lá foi a primeira vez, a Sr. a Errol sentiu arrepios. Ao contemplar 

as crianças, sujas e desmazeladas, que se criavam ao abandono, pensou no seu 
próprio  filho,  protegido  e  servido  como  se  fosse  um  principezinho,  vivendo 
num  castelo  magnífico  e  vendo  satisfeitos  todos  os  seus  desejos.  Nesse 
momento,  surgiu  no  seu  cérebro  uma  ideia  audaciosa.  A  Sr.  a  Errol  notara, 
como toda a gente, que Cedric obtinha do avô tudo quanto queria. E disse de si 
para si que o conde nada lhe recusaria. 

O conde não lhe recusa coisa alguma. Porque não há-de Cedric aproveitar 

esta condescendência a favor dos pobres?” 

Conhecia  bem  o  filho  e  sabia  que  podia  contar  com  a  sua  generosidade. 

Contou-lhe o que tinha observado, persuadida de que o pequenito diria tudo ao 
avô, esperançada nas boas consequências que daí podiam resultar. 

E, efectivamente, não se enganou. 
A  confiança  absoluta  que  o  neto  depositava  no  conde,  exercia  nele  uma 

influência  extraordinária.  Não  podia  admitir  a  ideia  de  o  pequenito  descobrir 
que  ele  nunca  fora  bom  nem  generoso.  Por  isso,  depois  de  ter  reflectido, 
mandou  chamar  Newick,  teve  com  ele  uma  conversa  acerca  do  miserável 
bairro,  e  resolveu  mandar  demolir  todas  aquelas  casas,  para  construir  outras 
novas. 

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-  Foi  Lorde Fauntleroy  quem  decidiu  isto  -  disse  o  conde.  -  Ele  acha  que 

será  um  melhoramento  para  Dorincourt.  Pode  dizer  aos  rendeiros  que  a  ideia 
foi dele. 

Olhou para o neto, que brincava com Dougal, sobre o tapete. O grande cão 

tornara-se o seu fiel companheiro, seguindo-o para toda a parte, quer passeasse 
a pé, a cavalo ou de carruagem. 

A  notícia  das  obras  espalhou-se  rapidamente  pela  região.  A  princípio, 

muitos  não  acreditaram;  mas,  quando  chegou  uma  turma  de  operários  para 
demolir as casas velhas e nojentas, os aldeões começaram, então, a compreender 
que Lorde Fauntleroy lhes prestava um novo serviço, e que aquele vergonhoso 
bairro  ia,  finalmente,  desaparecer.  Cedric  estava  longe  de  imaginar  como  os 
rendeiros falavam dele, elogiando-o e profetizando-lhe um futuro maravilhoso! 
Mas  o  pequeno  lorde  não  pensava  em  elogios  nem  em  agradecimentos.  Vivia 
despreocupadamente,  brincando  nos  prados  e  jardins  do  castelo,  lendo  livros 
de histórias, acerca dos quais conversava com o avô; passava horas 

deliciosas  com  a  mãe,  escrevia  a  Hobbes  e  a  Dick,  que  lhe  respondiam 

cada  um  à  sua  maneira;  dava  grandes  passeios  a  cavalo,  com  o  avô  ou 
acompanhado por Wilkins. 

Quando atravessava a aldeia com o avô, Cedric notava que toda a gente se 

voltava para os ver passar, e que lhes sorriam, tirando os chapéus; mas julgava 
que era por causa do conde. 

-  Como  eles  gostam  do  avô!  -  disse  ele,  um  dia,  com  uma  expressão  de 

contentamento  no  olhar.  -  Já  reparou  como  ficam  contentes,  quando  o  vêem? 
Queria que, mais tarde, gostassem também de mim! Deve ser muito agradável 
ser adorado por toda a gente! 

Ao dizer isto, o pequenito sentia-se orgulhoso de ser neto de uma pessoa 

tão estimada. 

Quando começou a construção das novas casas, o pequeno lorde e o avô 

habituaram-se  a  ir  muitas  vezes  passear,  a  cavalo,  para  aquele  lado,  a  fim  de 
observarem os trabalhos, pelos quais Fauntleroy se interessava imenso. 

Descia do “poney” para conversar com os operários; fazia-lhes perguntas 

sobre a construção das casas e contava-lhes coisas da América. Depois de duas 
ou três conversas deste género, Cedric já sabia explicar ao avô como se faziam 
os tijolos. 

-  Gosto  de  aprender  estas  coisas  -  dizia.  -  Ninguém  sabe  o  que  terá  que 

fazer, mais tarde. 

Por  seu  lado,  quando  o  pequeno  lorde  se  retirava,  os  operários  falavam 

acerca  dele,  achando  graça  às  suas  observações  originais  e  ingénuas.  Todos 
gostavam muito dele. 

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-  Não  há  outro  assim!  -  repetiam.  -  É  um  belo  rapazinho,  sem  nenhum 

orgulho! Não sai à família... 

Depois,  em  casa,  falavam  no  pequeno  lorde às  mulheres;  por  sua vez,  as 

mulheres  falavam  nele  umas  com  as  outras.  Desta  maneira,  o  pequeno  Lorde 
Fauntleroy tornou-se popular e querido em toda a região. 

E  toda  a  gente  acabou  por  saber  que  o  “odioso  conde  Dorincourt”  se 

interessara, finalmente, por alguém, e esse alguém era uma criança, que soubera 
tocar-lhe ternamente o coração. 

O que ninguém sabia era a que ponto o coração do velho fidalgo se sentia 

reconfortado, nem a ternura cada vez maior que o prendia àquele rapazinho - a 
única  pessoa,  no  mundo,  que  confiava  absolutamente  nele.  Às  vezes, 
surpreendia-se  a  pensar  no  neto  quando  já  fosse  um  homem,  com  uma  bela 
existência na sua frente, mas conservando um coração generoso e o mesmo dom 
de tornar seus amigos todos aqueles que o conheciam, e perguntava a si próprio 
o que faria Cedric dessa existência. Ao contemplar o neto, estendido no tapete, 
em frente da chaminé, muito interessado na leitura de um livro, com os cabelos 
loiros  iluminados  pelas  chamas,  os  olhos  do  conde  brilhavam  mais,  a  sua 
expressão animava-se e ele pensava: 

“Este rapaz poderá chegar a ser tudo o que quiser! Tudo “ 
Embora  o  conde  de  Dorincourt  não  exprimisse  a  ninguém  os  seus 

sentimentos  pelo  neto  e  continuasse  a  sorrir  com  ironia,  quando  falava  nele, 
Lorde Fauntleroy sabia perfeitamente que o avô se lhe afeiçoara e gostava de o 
ter sempre junto de si. 

-  Lembra-se,  avô,  de  eu  lhe  ter  dito,  no  dia  em  que  cheguei,  que  nos 

podíamos  entender  muito  bem?  -  perguntou-lhe  Cedric,  uma  vez.  -  Por  mim, 
acho que não é possível haver um avô e um neto que se entendam melhor. Que 
lhe parece? 

- Realmente, somos bons amigos! - respondeu o conde. - Ora vem cá! 
Lorde Fauntleroy aproximou-se. 
-  Desejas  alguma  coisa?  -  perguntou  o  conde  de  Dorincourt.  -  Alguma 

coisa que tu não tenhas? 

 Os  olhos  escuros  da  criança  fixaram-se  no  avô,  com  uma  expressão 

sonhadora. 

- Há uma só! - disse ele por fim. 
- Qual é? 
Fauntleroy  conservou-se  silencioso  durante  alguns  instantes.  Não  era  em 

vão que tinha reflectido sozinho, durante muito tempo, em certos assuntos. 

- Qual é? - repetiu o conde. 
Desta vez Lorde Fauntleroy respondeu: 

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- É a Querida! 
O velho fidalgo teve um leve estremecimento. 
- Mas tu vais visitá-la todos os dias - observou ele. Não é suficiente? 
- Eu estava habituado a tê-la sempre junto de mim. Ela beijava-me, à noite, 

antes  de  eu  adormecer,  e  de  manhã,  quando  acordava,  era  a  primeira  pessoa 
que  eu  via.  Além  disso,  podíamos  contar  muitas  coisas  um  ao  outro,  sem 
esperar pelo dia seguinte. 

Os  olhos  do  conde  fixaram-se  um  instante  nos  da  criança.  Houve  uns 

minutos de silêncio. Depois, o fidalgo franziu as sobrancelhas. 

- E nunca te esqueces da tua mãe? Nunca? - perguntou ele. 
-  Não!  -  respondeu  Fauntleroy.  -  Nunca!  E  ela  também  nunca  se  esquece 

de mim. E também não me esqueceria do avô, mesmo que não vivesse consigo. 
Parece-me que ainda pensaria mais no avôzinho. 

- Acredito! - respondeu o conde, continuando a fitar o neto. 
O ciúme que ele sentia quando o pequenito falava da mãe, fazia-o sofrer 

agora ainda mais, porque o seu afecto por aquela criança era cada vez maior. 

Mas  não  passaria  muito  tempo  sem  que  o  conde  experimentasse  outros 

tormentos  mais  duros  de  suportar,  exactamente  quando  quase  esquecera  que 
odiara a mulher do filho. 

E isso aconteceu de  uma forma estranha e inesperada. Uma noite, pouco 

antes  de  as  casas  novas  da  aldeia  estarem  concluídas  houve  um  grande  jantar 
em Dorincourt. Havia muito tempo que não se realizava no castelo uma reunião 
assim. Alguns dias antes, Harry Lorridaile e sua mulher, que era a única irmã 
do conde, tinham vindo visitá-lo - acontecimento que fez sensação na aldeia e 
nos arredores. Toda a gente sabia que Constança Lorridaile viera ao castelo uma 
única  vez,  depois  do  seu  casamento,  realizado  havia  trinta  e  cinco  anos.  Era 
uma  senhora  de  cabelos  brancos,  com  duas  covinhas  no  rosto  ainda  fresco,  e 
imensamente  rica.  A  sua  opinião  acerca  do  irmão  não  era  melhor  que  a  das 
outras pessoas e, como ela própria tinha muita energia e não receava dizer com 
franqueza  a  sua  maneira  de  pensar,  muitas  vezes  discutira  com  o  conde,  e 
desde a mocidade que não tornara a vê-lo. 

Durante  todo  esse  tempo,  ouvira  dizer  do  irmão  muitas  coisas  que  a 

desgostavam.  Ouvira  contar  como  ele  fora  desabrido  e  sem  carinho  para  a 
mulher,  que  morrera ainda  muito  nova;  a  sua  indiferença  pelos  filhos;  e  sabia 
também  que  o  mau  carácter  e  os  graves  defeitos  dos  dois  mais  velhos  não 
tinham honrado o nome da família. Não conhecera estes dois filhos do irmão, 
mas, um dia, chegara a Lorridaile Park um belo rapaz de dezoito anos, que se 
apresentara como seu sobrinho: Cedric Errol. Passara ali perto - explicara ele - e 
aproveitara  a  ocasião  para  conhecer  a  sua  tia  Constança,  de  quem  a  mãe  lhe 

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falara  muitas  vezes.  O  coração  afectuoso  de  Constança  Lorridaile  enternecera-
se. O sobrinho ficou uma semana com ela, que procurou, por todas as formas, 
tornar-lhe  esses  dias  agradáveis.  Cedric  Errol  agradara-lhe  imenso,  com  o  seu 
feitio alegre, vivo, amável. Quando ele partiu, a tia pediu-lhe que 

 voltasse  mais  vezes.  Porém,  o  destino  fizera  com  que  nunca  mais  o 

tornasse a ver. 

O conde, ao saber desta visita, mostrara-se muito descontente e proibira o 

filho de voltar ao castelo de Lorridaile. No entanto, Constança conservava uma 
terna  lembrança  daquele  sobrinho  encantador,  e  indignara-se,  ao  saber  que  o 
pai cortara relações com ele e que ninguém, na família, sabia onde e como ele 
vivia.  No  íntimo,  também  ela  receava  que  o  sobrinho  tivesse  feito  um  mau 
casamento.  Um  dia,  teve  conhecimento  da  sua  morte,  e  bem  assim  do  fim 
desastroso dos outros filhos de Lorde Dorincourt. 

Soube depois que o capitão Errol deixara um filho na América e que o avô 

o mandara buscar, para fazer dele o novo Lorde Fauntleroy. 

- Naturalmente, para lhe estragar a vida, como fez aos outros! - dissera ela 

ao  marido.  -  A  não  ser  que  a  mãe  do  pequeno  tenha  bastante  valor  e  energia 
para velar, ela própria, pelo filho. 

Mas,  ao  saber  que  a  mãe  do  pequeno  lorde  estava  separada  dele,  Lady 

Lorridaile ficara indignadíssima. 

- É uma vergonha, Harry! - exclamara ela. - Imagina, uma criança daquela 

idade, arrancada ao carinho da mãe, para viver em companhia de um homem 
como o meu irmão!  De duas, uma: ou o  conde trata a criança  com dureza, ou 
lhe  satisfaz  todos  os  caprichos,  fazendo  dela  um  monstro.  Se  eu  soubesse  que 
conseguiria alguma coisa escrevendo a meu irmão. 

- Não servirá de nada! - respondeu Lorde Lorridaile. 
- Bem sei - continuou ela. - Conheço perfeitamente Lorde Dorincourt. Mas 

é revoltante! 

Não  eram  só  os  rendeiros  e  a  gente  humilde  que  falavam  do  pequeno 

Lorde Fauntleroy; outras pessoas conheciam a sua fama de gentileza e bondade. 

 Mesmo nas reuniões e chás das senhoras dos arredores, Lorde Fauntleroy 

era o assunto de muitas conversas. 

Contava-se já a influência que ele tinha no avô e causara sensação o facto 

de acompanhar o pequenito nos seus passeios a cavalo. 

Mesmo  aqueles  que  o  não  conheciam,  falavam  na  beleza  do  pequeno 

lorde, indignando-se por ele viver separado da mãe. 

Também Lady Lorridaile ouvira contar coisas maravilhosas de Fauntleroy; 

sabia  a  história  de  Hugues,  do  pequenito  coxo  e  dos  casebres  da  aldeia,  e 
desejava vivamente conhecê-lo. Enquanto pensava na maneira de o conseguir, 

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teve  a  enorme  surpresa  de  receber  uma  carta  do  conde  de  Dorincourt, 
convidando-a, a ela e ao marido, a passarem um tempo no castelo. 

-  É  prodigioso!  -  exclamou  ela.  -  Ouvi  dizer  que  esta  criança  conseguiu 

milagres, e começo a acreditar que é verdade. Dizem que o meu irmão adora o 
neto e não pode passar sem a sua companhia. Deve ter orgulho nele e quer, por 
isso, que o conheçamos. 

O  convite  foi  imediatamente  aceite.  Quando  Constança  Lorridaile  e  o 

marido  chegaram  ao  castelo  era  quase  noite  e  ela  dirigiu-se  directamente  ao 
quarto  que  lhe  era  destinado,  antes  de  ver  o  irmão.  Depois  de  vestida  para  o 
jantar, desceu ao salão. Encontrou ali o conde, de pé, junto do fogão; tinha um 
ar  imponente,  com  a  sua  alta  estatura  e  os  seus  cabelos  brancos.  A  seu  lado 
estava  um  rapazinho,  vestido,  como  de  costume,  de  veludo  preto,  com  um 
grande cabeção de renda - um rapazinho, cujo rosto sorridente era lindo, e que 
fitava nela os seus olhos castanhos, tão meigos, que Lady Lorridaile mal pôde 
reprimir uma exclamação de surpresa e prazer. 

Apertou a mão do conde, tratando-o pelo nome próprio - o que não o fazia 

desde o tempo de rapariga. 

 - Como estás, Eduardo? - disse ela. - É este o teu neto? 
- Sim, Constança - respondeu ele -, é o meu neto! Fauntleroy, esta senhora 

é tua tia, Lady Lorridaile. 

- Como está, minha tia? - disse amavelmente o pequeno lorde. 
Constança  Lorridaile  pôs  a  mão  no  ombro  da  criança  e,  depois  de 

contemplar  durante  alguns  momentos  o  rostozinho  que  se  erguia  para  ela, 
beijou-o ternamente. 

-  Sou  a  tua  tia  Constança!  -  disse  ela.  -  Gostava  muito  do  teu  papá,  e  tu 

pareces-te com ele. 

- Fico sempre muito contente, quando oiço dizer isso! 
-  respondeu  Fauntleroy.  -  Creio  que  toda  a  gente  gostava  do  meu  pai, 

assim como gosta da Querida... 

Lady  Lorridaile  estava  encantada.  Curvou-se  para  beijar  novamente  o 

pequenito e, desde esse instante, ficaram sendo excelentes amigos. 

- Felicito-te, Eduardo! - disse ela ao irmão, logo que se encontraram a sós. - 

Não podias esperar melhor! 

-  Realmente!  -  respondeu  o  conde.  -  É  um  rapazinho  encantador! 

Entendemo-nos  maravilhosamente!  Ele  julga-me  o  melhor  dos  homens,  e  eu 
confesso-te,  Constança  -  de  resto  não  era  necessário  confessar-to,  porque  o 
compreenderias  imediatamente  -,  que  estou  quase  a  tornar-me  ridículo  por 
causa dele. 

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-  E  a  mãe,  o  que  pensa  de  ti?  -  perguntou  Lady  Lorridaile  com  a  sua 

habitual franqueza. 

-  Nunca  lho  perguntei  -  respondeu  o  conde,  franzindo  ligeiramente  as 

sobrancelhas. 

-  Pois  bem,  vou  dizer-te  imediatamente  a  minha  opinião  -  replicou 

Constança  Lorridaile.  -  Não  aprovo  a  tua  forma  de  proceder  e  previno-  te  de 
que  tenciono  visitar  a  viúva  do  capitão  Errol,  o  mais  depressa  possível.  De 
maneira que, se tencionas censurar-me por isso, podes fazê-lo  imediatamente. 
O  que  tenho  ouvido  dizer  dessa  jovem  senhora,  dá-me  a  convicção  de  que  o 
filho lhe deve tudo. Já consta em Lorridaile que ela é adorada pelos rendeiros 
mais pobres de Dorincourt.  

-  É  a  ele  que  toda  a  gente  adora  -  observou  o  conde,  designando  o  neto 

com  um  movimento  de  cabeça.  Quanto  à  Sra  Errol,  é  realmente  uma  mulher 
nova e formosa. Estou-lhe agradecido por ter dado um pouco da sua beleza ao 
filho, e tu podes visitá-la se quiseres. Tudo quanto eu desejo é que ela continue 
em Court Lodge e que tu não me peças que te acompanhe. 

Ao dizer isto, o conde franziu novamente as sobrancelhas. 
Mais  tarde,  conversando  com  o  marido,  Lady  Lorridaile  diss:  Ele  não  a 

detesta tanto como dantes. Isso é evidente! Não há dúvida de que o meu irmão 
está um pouco mudado! Ainda bem! 

No  dia  seguinte,  Lady  Lorridaile  foi  visitar  a  Sr.  e  Errol.  Ao  regressar, 

disse ao conde:  

- É a mulher mais adorável que tenho visto. Tem uma 
voz de cristal e podes agradecer-lhe ter feito de Lorde Fauntleroy o que ele 

é. Deu-lhe mais e melhor do que a beleza, e tu cometes um grave erro em não a 
persuadires  a  vir  viver  junto  de  ti.  Por  minha  parte,  vou  convidá-la  a  ir  a 
Lorridaile. 

- Não deixará o filho - respondeu o conde. 
-  Espero  receber  a  visita  do  filho,  também!  -  observou  Lady  Lorridaile, 

rindo. 

Mas  ela  sabia  como  seria  difícil  o  avô  separar-se  do  neto!  Notava,  dia  a 

dia, como aqueles dois entes estavam ligados um ao outro, como o orgulhoso e 
terrível  velho  tinha  concentrado  a  sua  afeição,  as  suas  esperanças  e  ambições, 
naquela criança, e como, por seu lado, o pequenito  lhe retribuía com todo o seu 
coração  ardente  e  ingénuo,  dedicando-lhe  imensa  ternura,  com  uma  fé  e 
confiança absolutas. 

Sabia  também  que  a  razão  principal  do  grande  jantar  projectado,  era  o 

desejo que o conde sentia de mostrar o neto, herdeiro do seu nome, e de deixar 
verificar às pessoas das suas relações que o pequenito, tão discutido, era ainda 

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mais  belo e atraente do que diziam. Chegou, final mente, o dia em que  Lorde 
Fauntleroy  se  encontrou  ao  lado  do  avô,  para  receber  os  numerosos 
convidados. Todos se mostravam encantados e queriam falar com ele. Faziam-
lhe  perguntas  acerca  da  viagem,  da  vida  a  bordo  e  de  tudo  quanto  ele  tinha 
visto. A criança não percebia bem porque se riam tanto com as suas respostas, 
mas estava tão habituado a ver as pessoas com ar divertido, quando ele próprio 
falava a sério, que não se inquietou. 

O serão deslumbrou-o; as grandes salas estavam todas iluminadas e havia 

flores por toda a parte. Os homens conversavam animadamente, e as senhoras 
pareciam-lhe todas lindas, com os ombros nus e jóias maravilhosas nas orelhas, 
nos  braços  e  no  pescoço.  Havia  uma,  particularmente,  de  quem  Cedric  não 
podia  desviar  os  olhos.  Era  uma  jo  vem,  elegante,  com  a  cabeça  um  pouco 
altiva,  cabelos  escuros,  grandes  olhos  aveludados,  faces  e  lábios  frescos  como 
pétalas  de  rosa.  Havia  sempre  em  volta  desta  jovem  tantos  homens,  todos 
parecendo desejosos de lhe agradar, que Fauntleroy concluiu que ela devia ser 
qualquer coisa como uma princesa. 

Sentia-se instintivamente impelido para ela, e foi-se aproximando, sempre 

com  os  olhos  fitos  no  seu  rosto  adorável.  Por  fim,  a  jovem  compreendeu  a 
intenção do pequenito e disse, sorrindo: 

- Venha cá, Lorde Fauntleroy, e explique-me porque está, há tanto tempo, 

a olhar para mim dessa maneira. 

 - É porque a acho muito bela! - respondeu ele. 
A  estas  palavras,  todos  os  homens  que  ali  se  encontravam  riram  com 

gosto; a jovem também riu, e as suas faces tornaram-se mais coradas. 

-  Ah!  Fauntleroy!  -  exclamou  um  dos  convidados,  que  parecia  muito 

divertido. - Quando for homem, não se atreverá a falar dessa maneira. 

- Como é possível deixar de dizer o que se sente? - observou Fauntleroy. - 

O senhor é capaz disso? Não acha também que ela é muito bonita? 

-  Não  estamos  autorizados  a  dizer  o  que  pensamos  -  respondeu  o  outro, 

enquanto, em roda, as gargalhadas continuavam. 

Mas a encantadora rapariga, que se chamava Viviana Herbert, estendeu a 

mão e puxou Cedric para junto de si com o ar mais encantador que é possível. 

- Lorde Fauntleroy pode dizer-me tudo quanto pensa - exclamou ela. - Isso 

dá-me prazer. Tenho a certeza de que pensa realmente o que diz. 

E beijou a face do pequenito. 
- Nunca vi outra senhora tão bonita como a Viviana, a não ser a Querida! - 

disse  o  pequeno  lorde,  olhando-a  com  uma  expressão  de  deslumbramento.  - 
Como é natural, eu penso que nenhuma senhora pode ser mais bonita do que a 
Querida! Creio mesmo que ela é a pessoa mais bonita do mundo. 

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- Também creio! - respondeu Viviana, a rir, beijando-o novamente. 
Viviana  conservou  Fauntleroy  junto  de  si  durante  uma  grande  parte  da 

noite,  e  o  grupo  que  os  rodeava  mostrava-se  animadíssimo.  Sem  saber  como, 
Cedric principiara a contar- lhes a sua vida na América, falando-lhes do cortejo 
republicano,  de  Hobbes,  de  Dick  e  acabando  por  tirar  orgulhosamente  da 
algibeira o lenço vermelho. 

 - Meti-o hoje na algibeira, porque era uma grande recepção - explicou ele. 

- Pensei que Dick gostaria que eu o usasse numa festa assim. 

Mas, por mais extravagante que o lenço vermelho parecesse, a verdade é 

que  o  pequeno  lorde  tinha  uma  expressão  tão  séria  e  enternecida,  que  os 
convidados não se atreveram a rir francamente. 

- Gosto imenso deste lenço - continuou ele - porque Dick é meu amigo. 
Embora  toda  a  gente  lhe  falasse  e  lhe  dispensasse  atenções,  Lorde 

Fauntleroy não se mostrava impertinente. Sabia calar-se e escutar, enquanto os 
outros falavam, e ninguém o achou indiscreto. 

De  vez  em  quando,  vinha  ao  pé  da  poltrona  do  avô  e  sentava-se  a  seu 

lado, num banquinho, escutando-o atentamente, como se quisesse beber- lhe as 
palavras.  E  o  avô  olhava-o  com  um  carinho  que  surpreendia  todas  aquelas 
pessoas, habituadas a conhecer o conde sob um aspecto muito diverso. 

Havisham também devia comparecer àquela festa; esperavam-no à tarde, 

mas,  coisa  estranha,  chegara  tão  atrasado,  que  o  jantar  já  estava  servido  e  os 
convivas dirigiam-se para a sala das refeições, quando ele apareceu. 

Este facto fora muito notado, porque Havisham era uma pessoa metódica 

e  de  uma  pontualidade  impecável.  Frequentava  o  castelo  de  Dorincourt  havia 
muitos anos, e nunca sucedera chegar mais tarde que a hora marcada. 

Quando  ele  chegou  junto  do  conde,  este  olhou-o  com  espanto,  porque  o 

advogado tinha as feições alteradas. 

- Demorei-me - disse, em voz baixa. - Demorei-me... por uma circunstância 

extraordinária. 

Via-se  que  estava  atormentado.  Comeu  pouco,  ao  jantar  e,  quando  lhe 

falavam, ficava sobressaltado, como se tivesse o espírito muito longe dali. 

 Quando  Lorde  Fauntleroy  entrou  na  sala,  pela  altura  da  sobremesa, 

Havisham fitou-o com o olhar ansioso e preocupado. 

Lorde Fauntleroy deu por isso e ficou surpreendido. Havisham e ele eram 

bons amigos e costumavam sorrir, quando olhavam um para o outro. 

Ora, nessa noite, o advogado tinha o ar de quem não sabia sorrir. 
Efectivamente, tudo se lhe tornara indiferente, excepto a dolorosa notícia 

que  devia  comunicar  ao  conde  naquela  mesma  noite  -  notícia  que  produziria 
uma  terrível  sensação  e  mudaria  o  aspecto  das  coisas.  Olhando  os  salões 

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esplêndidos  onde  se  encontravam  reunidas  tantas  pessoas  de  categoria; 
olhando  toda  essa  gente  que  ali  fora  para  reconhecer  o  pequenito  de  cabelos 
doirados,  que  estava  graciosamente  encostado  à  poltrona  do  avô,  Havisham, 
embora  fosse  um  homem  de  negócios,  prático  e  endurecido  pela  vida,  não 
podia deixar de sentir uma forte emoção, perante a notícia que recebera nessa 
tarde. 

O  longo  e  sumptuoso  jantar  terminou  sem  quase  dar  por  isso.  O  seu  ar 

preocupado era tal, que o conde olhou mais de uma vez para ele, admirado. 

Depois,  no  grande  salão,  encontrou  Fauntleroy  instalado  num  sofá,  ao 

lado de Viviana Herbert. 

O  pequenito  tinha-se  divertido  tanto  e  recebera,  naquele  dia,  tantas 

impressões  novas,  que  não  podia  mais.  Enquanto,  à  sua  volta,  a  conversa 
continuava animada, as pálpebras começaram a pesar-lhe e os olhos fecharam-
se-lhe,  por  duas  ou  três  vezes.  Ele  não  queria  dormir!  Mas,  pouco  a  pouco,  a 
cabecita foi-se-lhe enterrando numa almofada, e os olhos tornaram a fechar-se, 
não  se  abrindo,  nem  quando  Viviana  lhe  deu  um  beijo,  antes  de  partir,  ao 
mesmo tempo que lhe dizia docemente: 

- Boa noite, Lorde Fauntleroy! Durma bem! 
 No  dia  seguinte,  de  manhã,  não  se  lembrava  de  ter  murmurado,  com  a 

voz ensonada: 

- Boa noite. Gostei. muito. muito de a ter conhecido. É tão bonita. 
Tinha apenas uma vaga ideia de ter ouvido risos e de ter perguntado a si 

próprio porque riam assim. 

Mal  o  último  convidado  se  despediu,  Havisham  aproximou-se  do  sofá 

onde  dormia  o  pequeno  lorde.  Ao  contemplá-lo,  tinha  um  ar  acabrunhado, 
cofiando o queixo com a mão. 

-  Que  tem  Havisham?  -  perguntou,  por  detrás  dele,  o  conde.  -  Que  se 

passa? Que coisa extraordinária foi essa em que me falou? 

Havisham  voltou-se,  sem  deixar  de  passar  a  mão  pelo  queixo.  Por  fim, 

disse: 

-  Uma  má  notícia...  Uma  notícia  desoladora,  senhor  conde!  A  pior  das 

notícias. Custa-me muito ser eu a comunicar-lha. 

Lorde  Dorincourt  ficara  logo  mal-disposto  ao  notar  a  perturbação  de 

Havisham. Por isso, perguntou com impaciência: 

-  Porque  está  a  olhar  assim  para  a  criança?  Olhou  toda  a  noite  para  ela 

como  se...  Vamos,  Havisham,  para  que  se  inclina  para  ele,  como  uma  ave 
agoirenta? A tal notícia tem alguma coisa que ver com Lorde Fauntleroy? 

- Senhor conde - respondeu Havisham -, não perderei tempo com palavras 

inúteis. A notícia que lhe trago diz particularmente respeito a Lorde Fauntleroy. 

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E  se  lhe  dermos  crédito,  não  é  Lorde  Fauntleroy  quem  dorme  neste  sofá,  mas 
simplesmente o filho do capitão Errol. O verdadeiro Lorde Fauntleroy é o filho 
do seu filho Bevis, que se encontra, neste momento, em Londres. 

O  conde  apertou  tão  fortemente  os  braços  da  poltrona,  que  as  veias  das 

mãos  incharam-lhe.  As  veias  da  fronte    dilataram-se  igualmente,  e  o  rosto  do 
velho fidalgo tornou-se lívido, com uma expressão terrível. 

- Que quer dizer? O senhor está bom? Que mentira é essa? - exclamou ele. 
- Se é mentira - respondeu Havisham -, tem, infelizmente, toda a aparência 

de  ser  verdade.  Esta  manhã,  apresentou-se  no  meu  escritório  uma  mulher  e 
disse-me que o vosso filho Bevis casou com ela, em Londres, há seis anos. Ela 
mostrou-me  a  certidão  de  casamento.  Ao  fim  de  um  ano  zangaram-se  e  o 
marido  deu-lhe  uma  determinada  quantia  para  ela  partir.  Tem  um  filho  de 
cinco anos. É uma americana, pertencente, sem dúvida, a um meio ordinário! 

- uma mulher ignorante, que só agora compreendeu a categoria social do 

filho.  Consultou  um  advogado  e  descobriu  que  a  criança  é,  realmente,  Lorde 
Fauntleroy,  herdeiro  do  nome  e  do  domínio  de  Dorincourt  e,  como  é  natural, 
ela pretende fazer valer os seus direitos. 

A  cabeça  encaracolada  fez  um  movimento.  Um  longo  e  doce  suspiro 

escapou-se dos lábios entreabertos e o pequenito mexeu-se um pouco, mas sem 
excitação. O seu sono era o mais tranquilo possível. Voltou um pouco a cabeça, 
como se quisesse que o avô o visse melhor. 

O rosto severo do conde de Dorincourt contraiu-se num sorriso amargo. 
- Recusar-me-ia a acreditar uma única palavra de toda essa história - disse 

ele - se não reconhecesse em toda a sua baixeza a falta de carácter do meu filho 
Bevis. É bem uma coisa dele! Foi sempre a vergonha da família. Um bruto, um 
vicioso, sem energia nem vontade, aqui tem o que era o meu filho mais velho, 
Lorde Fauntleroy. Diz que essa mulher é ignorante e vulgar? 

- Absolutamente. Não tem a menor educação e deve ser uma interesseira. 

Só  o  dinheiro,  conta  para  ela.  É  uma  bela  mulher,  no  seu  género  -  um  género 
muito ordinário. 

 O  velho  advogado  calou-se  subitamente,  como  se  lhe  repugnasse 

continuar a descrever semelhante criatura. 

O rosto do conde estava cada vez mais alterado. Tinha a testa coberta de 

suor.  Enxugou-a,  com  um  lenço,  e  a  sua  expressão  tornou-se  ainda  mais 
amarga. 

-  E  eu  que  me  recusei  a  reconhecer  como  nora...  a  outra...  a  mãe  desta 

criança! - e designou, com um gesto, o pequenito adormecido no sofá. 

De  repente,  levantou-se  e  principiou  a  passear  na  sala,  pronunciando 

palavras  furiosas  e  terríveis.  A  cólera  subia  nele  como  uma  tempestade.  Fazia 

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impressão  vê-lo.  Havisham  observou  que,  mesmo  nos  momentos  de  maior 
indignação, o conde nunca tinha o ar de se esquecer da criança que dormia no 
sofá, falando sempre em voz baixa, como se receasse acordá-la. 

- Eu devia desconfiar! - disse ele. - Foram sempre a minha vergonha, ele e 

o  irmão!  Nunca  pude  suportá-los  e  eles  odiavam-me!  Mas,  apesar  de  tudo, 
ainda  duvido!  Lutarei  até  ao  fim  Mas  é  bem  uma  coisa  do  Bevis.  É  bem  uma 
coisa digna dele! 

Cada  vez  mais  indignado,  fez  novas  perguntas  acerca  da  tal  mulher  e 

sobre  as  provas  que  ela  apresentava,  sem  deixar  de  andar  de  um  lado  para  o 
outro, ora vermelho, ora pálido, mal podendo conter a sua ira. 

Havisham, depois de ter posto o conde ao corrente de tudo, fitou-o com ar 

inquieto. O velho fidalgo tinha um ar sucumbido, profundamente alterado. Os 
grandes  acessos  de  cólera  eram-lhe  sempre  prejudiciais;  mas  aquele  fizera-lhe 
ainda pior, porque não era só cólera o que ele sentia. 

Por  fim,  dirigiu-se  lentamente  para  junto  do  sofá  e  disse  em  voz  baixa, 

rouca e trémula: 

- Se me tivessem dito que eu havia de afeiçoar-me a uma criança, não teria 

acreditado. Tinha horror às crianças... e aos meus filhos mais do que às outras. 
Adoro  este  pequeno  e  ele  adora-me!  -  Ao  dizer  isto  sorriu  com  amargura.  - 
Ninguém  gosta  de  mim;  nunca  fui  estimado.  Mas  ele  adora-me!  Nunca  me 
temeu e teve sempre confiança em mim. Mais tarde, ele ocuparia o meu lugar 
melhor do que eu. Tenho a certeza! E honraria o nome de Dorincourt! 

Inclinou-se  e  ficou  um  momento  a  contemplar  o  rosto  sorridente  da 

criança  adormecida.  As  suas  sobrancelhas  estavam  contraídas,  mas  ele  não 
tinha  ar  de  uma  pessoa  enfurecida.  Avançou  a  mão  para  afastar  os  cabelos 
loiros que haviam tombado sobre a fronte da criança, e depois voltou-se, para 
tocar a campainha. 

Quando o criado apareceu, o conde indicou-lhe o sofá e disse: 
- Pegue. (a voz quebrou-se-lhe um pouco). pegue com cuidado em Lorde 

Fauntleroy e leve-o para o quarto. 

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Inquietações na América 

 
Logo  que  Cedric  se  separou  de  Hobbes,  a  fim  de  ir  para  o  castelo  de 

Dorincourt e tornar-se Lorde Fauntleroy, e quando o merceeiro se convenceu de 
como era grande a distância que os separava, começou a sentir-se muito só. 

Deve  dizer-se  que  Hobbes  não  era  muito  inteligente,  nem  possuía  uma 

grande  vivacidade  de  espírito.  Era  um  homem  gordo,  pesado,  para  quem  o 
mundo  se  resumia  aos  fregueses  é  à  loja,  e  que  não  tinha  outras  distracções 
além das contas e da leitura dos jornais. As somas representavam para ele uma 
tarefa difícil e, às vezes, levava dias a acertá-las. Antes de partir para Inglaterra, 
Cedric  chegara  a  experimentar  ajudá-lo.  De  resto,  o  pequeno  fazia-lhe  tanta 
companhia e ouvia com tanta atenção tudo quanto ele dizia acerca da política e 
das  eleições,  que  não  admira  que  o  merceeiro  sentisse  muito  a  sua  falta.  A 
princípio,  Hobbes  tinha  a  impressão  de  que  Cedric  não  partira  para  muito 
longe.  Pensava  que,  depois  de  algum  tempo,  ao  levantar  os  olhos  do  jornal, 
veria o pequeno ali mesmo, na sua loja, com o fato branco, as peúgas vermelhas 
e o chapéu de palha posto para trás, como era seu costume, a dizer: “- Bom dia, 
Sr.  Hobbes!  O  dia,  hoje,  está  quente!”  Mas  o  tempo  ia  passando  e  Hobbes 
começou  a  sentir-se  triste  e  deprimido.  Já  nem  achava  prazer  na  leitura  do 
jornal,  e  passava  horas  a  olhar  pensativamente,  para  os  caixotes  e  latas  de 
bolacha. 

Havia  um  banco  que  ainda  conservava  a  marca  dos  pés  de  Cedric,  que 

costumava  baloiçar  as  pernas  e  bater  ali  com  os  tacões.  Hobbes  olhava 
melancolicamente  para  essas  marcas;  depois  tirava  da  algibeira  o  relógio  de 
ouro, abria-o e lia a inscrição que havia no interior da tampa: “Para se lembrar 
do  seu  amigo”.  Contemplava  aquelas  palavras,  fechava  a  tampa,  com  um 
suspiro,  ia  e  vinha  até  à  porta,  para  disfarçar  as  saudades  que  sentia.  À  noite, 
depois de fechar a loja, acendia o cachimbo e seguia, lentamente, pelo passeio, 
até  à  casa  onde  Cedric  tinha  habitado  e  que  estava  agora  para  alugar.  Parava 
em  frente,  abanava  a  cabeça,  tirava  algumas  fumaças  do  cachimbo  e,  por  fim, 
voltava tristemente para casa. 

Passaram assim duas ou três semanas, antes que uma ideia surgisse no seu 

espírito.  Lento  e  pesado  por  natureza,  precisava  sempre  de  muito  tempo  para 
acolher  qualquer  pensamento  novo.  Por  fim,  nasceu  no  seu  espírito  um 
projecto, que amadureceu lentamente: ir visitar Dick. Sabia por Cedric quem era 

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Dick  e  tudo  quanto  lhe  dizia  respeito;  a  sua  ideia  era  que  talvez  pudesse 
encontrar  alguma  consolação  conversando  com  o  engraxador  acérca  de  tudo 
quanto o trazia preocupado. 

Um dia, quando Dick se ocupava activamente em engraxar os sapatos de 

um cliente, um homem gordo e baixo parou em frente da tabuleta, onde estava 
escrito em grandes letras: 

 

O Mestre Dick Tipton não pode ser batido por ninguém 

 
O homem gordo ficou tanto tempo a contemplar a tabuleta, que chamou a 

atenção de Dick e, logo que termieéreceu-me todo o material que tenho. É um 
rapazinho como há poucos! A esta  hora está na Inglaterra, onde vai ser lorde, 
creio eu. 

-  Realmente!  -  exclamou  Hobbes,  com  ar  meditativo.  -  Lorde.  Lorde. 

Fauntleroy, talvez?. E mais tarde conde de Dorincourt? 

Dick ia deixando cair as escovas. 
- Como, patrão, o senhor também o conhece?! 
-  Conheço-o  desde  que  ele  nasceu  -  respondeu  Hobbes,  enxugando  a 

fronte luzidia. - Ele e eu somos velhos amigos. Aqui tem o que nós somos um 
para o outro. 

Comovido  com  a  conversa,  tirou  o  relógio,  que  nunca  abandonava,  da 

algibeira e mostrou a Dick as palavras que estavam gravadas na tampa: “Para 
se lembrar do seu amigo”. 

- Foi o seu presente de despedida. “Não quero que se esqueça de mim” - 

foram as suas próprias palavras. Mesmo que ele não me tivesse oferecido coisa 
nenhuma e eu nunca mais ouvisse falar no seu nome, não o esqueceria jamais. É 
uma criança tão gentil, que não se pode esquecer. 

-  Eu  nunca  vi  rapazinho  mais  simpático  -  declarou  Dick.  -  E  “direito” 

como poucos! Agradava-me, o garoto. 

 Ficámos logo amigos, desde o primeiro dia em que o vi. Não há dúvida! É 

um rapaz “fixe” como não há outro, e quando as coisas me corriam tortas, fazia-
me bem conversar um bocado com ele! 

-  Exactamente  como  eu!  -  disse  Hobbes.  -  Foi  pena  fazerem-no  conde! 

Teria  feito  uma  carreira  brilhante  no  comércio  de  mercearia.  Sim... 
positivamente brilhante! 

Tinham,  os  dois,  tanto  que  dizer,  que  uma  só  conversa  não  podia  ser 

suficiente. Combinaram, então, que o próximo encontro seria na loja de Hobbes. 
Este plano encantou Dick. 

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Tinha  sido,  quase  toda  a  vida,  um  pobre  rapaz  abandonado,  mas  nunca 

fora um mau rapaz, e aspirava, no seu íntimo, a uma existência melhor. 

Desde que trabalhava sozinho, por sua conta, ganhava dinheiro suficiente 

para poder dormir debaixo de telha, em vez de ficar em qualquer vão de porta, 
e  esperava  ainda  atingir  um  nível  superior.  Por  isso,  aquele  convite  para  ir 
visitar um homem gordo e respeitável que tinha uma mercearia e possuía uma 
carroça  e  um  cavalo,  produziu-  lhe  o  efeito  de  um  acontecimento 
importantíssimo, a não perder por nada. 

-  Sabe  alguma  coisa  a  respeito  dos  condes  e  das  pessoas  que  vivem  em 

castelos?  -  perguntou  Hobbes.  -  É  que  eu  gostaria  de  me  informar  um  pouco 
sobre a sua maneira de viver. 

-  Há,  justamente,  uma  história  de  condes  numa  revista  que  eu  conheço. 

Chama-se “A Coroa Sangrenta ou a Vingança da Condessa May”. Uma história 
espantosa!  Juntámo-nos  uns  poucos  de  colegas,  para  comprar  a  revista,  para 
seguirmos essa história. 

-  Leve-a  quando  me  for  visitar  -  disse  Hobbes  -  e  eu  pagar-lhe-ei  os 

números.  Traga  todas  as  histórias  sobre  condes,  que  puder  encontrar.  Se  não 
houver histórias de  condes, os duques e marqueses também servem, embora o 
pequeno nunca me falasse neles. Falámos algumas vezes de coroas - as coroas 
que  os  condes  usam  na  cabeça  -,  mas  nunca  vi  nenhuma.  Creio  que  não  se 
vendem aqui. 

-  Só  se  for  na  joalharia  Tiffanny  -  disse  Dick.  Mas,  naturalmente,  mesmo 

que visse alguma, eu não a saberia reconhecer. 

Hobbes concordou, com um sinal de cabeça. Assim terminou a conversa, 

que foi o início de uma boa e prolongada amizade. 

Quando Dick apareceu na mercearia, Hobbes recebeu-o da maneira mais 

amável.  Ofereceu-lhe  uma  cadeira  e,  logo  que  o  jovem  visitante  se  instalou, 
indicou-lhe um cesto de maçãs que estava a seu lado, e disse: 

- Sirva-se! 
Depois,  passou  a  vista  pelos  jornais  e  revistas  que  Dick  trouxera,  e 

começaram a discutir acerca da aristocracia britânica. 

Hobbes  tirava  grandes  fumaças  do  cachimbo  e  acenava  frequentes  vezes 

com a cabeça. A certa altura, mostrou a Dick os sinais que existiam no banco: 

-  São  as  marcas  dos  seus  pés!  -  explicou  ele,  comovido.  -  Passo  horas  a 

olhar para elas. Tudo muda de pressa, neste mundo! Ainda não há muito tempo 
que ele estava aí, sentado nesse banco, a comer bolachas dessas caixas e maçãs 
desse  cesto,  deitando  as  pevides  para  a  rua.  Agora,  está  longe,  em  Inglaterra, 
feito  lorde  e,  um  dia, esses  sinais  serão  as  marcas  dos  pés  de  um  conde!  Digo 
muitas vezes: “O demónio me leve, se eu tinha previsto uma coisa destas “ 

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Hobbes  ficou  muito  reconfortado  com  a  visita  de  Dick  e  com  as 

confidências  que  lhe  fez.  Antes  do  engraxador  se  retirar,  cearam  os  dois  no 
armazém, que ficava nas traseiras da loja. Comeram bolachas, queijo, sardinhas 
e outros  petiscos. Hobbes abriu duas garrafas de cerveja e, enchendo os copos, 
propôs um brinde: 

- À saúde do nosso jovem amigo! - disse ele, levantando o copo. - Para que 

ele possa dar uma lição a esses condes, marqueses, duques e a toda a fidalguia! 

Depois  desse  dia,  Dick  e  Hobbes  encontraram-se  muitas  vezes,  e  o 

merceeiro recuperou um pouco a sua boa disposição. 

Leram,  juntos,  a  tal  história  da  “Coroa  Sangrenta  ou  a  Vingança  da 

Condessa  May”,  e  muitas  outras  coisas  interessantes,  adquirindo,  assim, 
conhecimentos e noções acerca da nobreza, que teriam surpreendido fortemente 
as pessoas pertencentes a essa classe, por eles tão desprezada. 

Um  dia,  Hobbes  foi  a  uma  livraria,  com  a  intenção  de  enriquecer  a  sua 

comum  biblioteca.  Dirigiu-se  a  um  empregado  e,  encostando-se  ao  balcão, 
disse: 

- Queria um livro sobre condes. 
- O quê? - exclamou o empregado. 
- Um livro sobre condes - repetiu Hobbes. 
-  Receio  não  saber  o  que  o  senhor  deseja!  -  disse  o  empregado,  bastante 

admirado. 

- Não tem livros desses? - continuou Hobbes, desapontado. - Nesse caso, 

pode ser sobre marqueses ou duques. 

- Não conheço nada desse género! - confirmou o empregado. 
Hobbes,  desanimado,  fitou  o  chão  e  depois  tornou  a  erguer  os  olhos, 

perguntando: 

- E sobre as mulheres dos condes, também não tem? 
- Creio que não... - respondeu o outro, sorrindo. 
- Nesse caso - exclamou Hobbes -, que os leve o demónio! 
No momento em que ele saía da livraria, o empregado chamou-o, para lhe 

perguntar  se  lhe  serviria  uma  história,    na  qual  as  personagens  mais 
importantes pertencessem à nobreza. 

Hobbes  respondeu  que,  à  falta  de  melhor,  aquilo  devia  servir.  Então,  o 

empregado  foi  buscar  um  volume  com  este  título:  A  Torre  de  Londres,  e 
Hobbes comprou-o e levou-o para casa. 

Logo  que  Dick  apareceu,  começaram  a  leitura.  Era  uma  história 

impressionante,  passada  no  tempo  da  famosa  rainha  Maria  Tudor,  a  quem 
chamam, algumas vezes, “Maria, a sanguinária”. 

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Quando Hobbes soube quem era Maria e o costume que ela tinha de cortar 

a cabeça aos seus súbditos, de os condenar às maiores torturas ou de os mandar 
queimar vivos, ficou impressionadíssimo. Tirou o cachimbo da boca, fitou Dick 
com os olhos muito abertos e limpou a testa com o lenço. 

- Ele não está em segurança! - exclamou o honrado merceeiro. - Não pode 

estar em segurança! Quem sabe o que poderá acontecer-lhe! 

- Não há dúvida! - disse Dick, que se sentia também um pouco inquieto. - 

Mas a rainha que governa agora, em Inglaterra, é diferente. Chama-se Vitória e 
a outra, do livro, chamava-se Maria. 

-  Sim,  isso  é  verdade  -  observou  Hobbes,  continuando  a  limpar  a 

transpiração da testa. - E os jornais não dizem nada acerca dessas  histórias de 
torturas e fogueiras. Em todo o caso, não me parece que ele esteja muito seguro 
em Inglaterra. Tenho quase a certeza de que nem festejou o Quatro de Julho. 

A verdade é que Hobbes andou muitos dias preocupado, tranquilizando- 

se,  somente,  quando  recebeu  a  primeira  carta  de  Fauntleroy.  Leu-a  primeiro 
sozinho e depois com  Dick. E leu igualmente a carta que Dick recebeu, pouco 
mais ou  menos na mesma ocasião, e que trouxe para lhe mostrar. Ficou então 
mais  sereno.  Sentiam-se,  os  dois,  encantados  com  as  cartas  de  Cedric.  Leram-
nas e releram-nas, conversando acerca do que elas diziam, e saboreando até as 
mais  pequenas  palavras  que  ele  escrevera.  Depois,  passaram  horas  e  horas  a 
compor as respostas. 

Para Dick, foi um verdadeiro trabalho escrever a sua. 
Mal  sabia  ler  e  escrever,  e  o  que  sabia  aprendera-o  no  pouco  tempo  em 

que  frequentara  a  escola.  Tinha-lhe  valido  ser  inteligente  e  aplicado,  pois  de 
contrário ficaria sem saber nada. 

Pouco a pouco, o engraxador contara toda a sua vida a Hobbes: falou-lhe 

em seu irmão Ben, que se mostrara bom para ele, depois da morte do pai, era 
Dick ainda pequeno. Ben tinha-o sustentado como podia, até ele chegar à idade 
de  fazer  recados  e  vender  jornais.  Tinham  vivido  muito  tempo  juntos  e  Ben, 
quando chegou a homem, encontrou um bom lugar num armazém. 

-  Mas,  depois  -  exclamou  Dick,  num  tom  de  desgosto  -  teve  a  ideia  de 

casar! Apaixonou-se por uma rapariga qualquer, chamada Mina, e casou. Mas 
teve pouca sorte, porque ela - palavra! - era uma verdadeira selvagem! Quando 
se zangava, partia tudo quanto lhe vinha à mão. E, a bem dizer, estava sempre 
zangada!  Tinha  um  filho  que  era  tal  qual  ela:  gritava  de  dia  e  de  noite.  Ela 
queria que eu fosse criado dele, e, quando o outro se zangava mais, atirava-me 
as coisas à cabeça. Um dia, atirou-me com um prato, mas eu baixei-me e quem 
apanhou  com  ele  foi  o  outro  “miúdo”.  Ficou  com  os  queixos  quebrados  e  o 
doutor  disse  que  lhe  deixaria  cicatriz  para  toda  a  vida.  Não  há  dúvida!  Uma 

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bela mãe! Não pode imaginar os maus bocados que ela me fez passar e também 
ao Ben e ao petiz! 

Como  ela  ralhava  constantemente,  porque  o  meu  irmão  não  ganhava  o 

dinheiro suficiente para ela gastar à vontade. 

Ben,  um  dia,  partiu  para  Oeste,  com  um  amigo,  na  intenção    de  se 

empregar  em  qualquer  “rancho”.  Ainda  não  tinha  passado  uma  semana, 
quando uma noite, ao voltar da venda dos jornais, não encontrei Mina em casa. 
Contaram-me que tinha embarcado como criada de uma senhora, que também 
tinha um filho. Depois, nunca mais ouvi falar nela e Ben também nunca recebeu 
notícias.  No  lugar  dele,  eu  teria  dito:  “Que  alívio”!  -  e  creia  que  foi  o  que  ele 
pensou,  por  fim.  Mas,  a  princípio,  era  capaz  de  se  pôr  de  joelhos  diante  dela. 
Era,  realmente,  bonita!  Tinha  olhos  escuros  e  uns  cabelos  pretos  que  lhe 
chegavam aos joelhos, e que usava entrançados, em volta da cabeça. Diziam que 
era meio italiana e que a mãe viera lá dessas terras. O que eu sei é que ela era 
doida... positivamente doida! 

Dick contava muitas vezes a Hobbes a história de Mina e de Ben, que lhe 

escrevera algumas cartas do Oeste. A sorte não o tinha favorecido. 

- Aquela mulher, levando-lhe o filho, roubou-lhe toda a coragem! Quando 

penso nisto, até se me aperta o coração - exclamou Dick. 

Estavam os dois na loja de Hobbes, que, como de costume, fumava o seu 

cachimbo. 

-  Ele  não  se  devia  ter  casado  -  observou  o  merceeiro,  gravemente, 

levantando-se  para  ir  buscar  um  fósforo.  Nunca  percebi  a  utilidade  das 
mulheres! 

Quando acendia o fósforo, olhou para o balcão e disse: 
-  Uma  carta!  Ainda  a  não  tinha  visto.  Naturalmente,  o  correio  deixou-  a 

aqui ficar sem eu dar por isso, e pôs-lhe o jornal em cima. 

Pegou-lhe e examinou-a atentamente. 
- É dele - exclamou. - É dele, com certeza! Esqueceu-se completamente do 

cachimbo e veio para junto de Dick. Enquanto abria a carta, ia dizendo: 

- Que notícias nos dará ele? 
- E leu o seguinte: 
 
 “Castelo de Dorincourt 
“Meu caro Sr. Hobbes 
“Escrevo-lhe  com  muita  pressa  porque  tenho  uma  coisa  extraordinária 

para  lhe  contar  e  calculo  que  o  meu  amigo  ficará  muito  admirado  quando 
souber. Enganaram-se, eu não sou lorde e nunca serei conde. Há uma senhora, 
que  foi  casada  com  o  meu  tio  Bevis  e  que  tem  um  filho.  Ele  é  que  é  Lorde 

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Fauntleroy,  porque,  em  Inglaterra,  é  assim:  o  filho  do  filho  mais  velho  de  um 
conde, é também conde, quando os outros tiverem morrido - quero dizer, o pai 
e o avô. O meu avô é vivo, mas o meu tio Bevis morreu e, por isso, o filho dele é 
que é Lorde Fauntleroy, e eu não posso ser, porque o meu pai era o filho mais 
novo,  e  eu  chamo-me  apenas  Cedric  Errol,  como  quando  estava  em  Nova 
Iorque, e todas as coisas pertencem ao outro rapaz. Julguei que também tinha 
que dar o meu “poney” e a minha “charrete”, mas o avô disse-me que não era 
preciso.  O  meu  avô  está  muito  zangado  e  creio  que  não  gosta  nada  da  tal 
senhora. Naturalmente pensa que a Querida e eu estamos tristes por eu já não 
ser  conde.  Eu  gostava,  realmente,  de  ser  conde,  mais  do  que  me  pareceu  a 
princípio, porque o castelo é muito bonito e eu gosto de todos que aqui vivem, 
e, quando se é rico pode fazer-se muita coisa. Agora já não sou rico, e tenho que 
aprender a trabalhar para tomar a Querida a meu cargo. 

 Consultei Wilkins sobre a maneira de aparelhar os cavalos. Talvez possa 

ser cocheiro. 

“A senhora trouxe ofilho ao castelo, mas o meu avô não quis falar com ela. 

Creio  que  ela  estava  zangada,  porquefalava  muito  alto,  e  o  meu  avô  também 
estava  zangado.  Nunca  o  tinha  visto  assim.  Espero  que  tudo  isto  não  os  faça 
endoidecer.  Quis  preveni-lo  imediatamente,  a  si  e  ao  Dick,  porque  tenho  a 
certeza de que isto lhes interessará. Depois contarei o resto. 

“Seu velho amigo, Cedric Errol (e não Lorde Fauntleroy) “ 
 
Hobbes  deixou-se  cair  numa  cadeira,  a  carta  caiu-lhe  nos  joelhos  e  o 

sobrescrito escorregou para o chão. 

-  Ora  esta!  -  exclamou  ele.  -  Que  o  demónio  me  leve!  Estava  tão 

perturbado, que pôs na sua exclamação favorita ainda mais energia do que de 
costume. 

- Nesse caso, está tudo perdido! - exclamou Dick. 
- Tudo! - repetiu Hobbes. - Mas eu sou de opinião que esta trapalhada foi 

arranjada  pelos  aristocratas  ingleses,  para  lhe  tirarem  a  fortuna,  só  por  ele  ser 
americano.  Nunca  mais  gostaram  de  nós,  depois  da  Revolução,  e,  agora, 
vingam-se  nele.  Bem  dizia  eu  que  não  estava  em  segurança!.  Veja  lá  o  que 
aconteceu!  Não  é  nada  de  espantar  que  o  próprio  Governo  se  tenha  metido 
nisto, para lhe tirar tudo o que legitimamente lhe pertence. 

Hobbes estava extremamente agitado. A princípio, a transformação que se 

dera  na  vida  de  Cedric  Errol  não  lhe  agradara;  mas,  depois,  habituara-se  a 
pensar  que  havia  um  lorde  entre  as  pessoas  das  suas  relações,  e  acabara  por 
sentir um certo orgulho com a opulência do seu jovem amigo. 

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 Hobbes  podia  não  ter  uma  opinião  lisonjeira  sobre  os  condes;  mas, 

mesmo na América, o dinheiro tem uma grande influência, e se o dinheiro e o 
esplendor da vida de Cedric deviam desaparecer com o título, Hobbes pensava 
que era, realmente, para lamentar. 

-  Querem  roubá-lo  -  repetiu  ele.  -  Não  há  dúvida!  E  todos  aqueles  que 

possuem fortuna deviam juntar-se para o proteger! 

Dick  demorou-se  mais  do  que  habitualmente,  porque  Hobbes  não  se 

cansava de falar naquele sensacional assunto. 

Quando se retirou - era já tarde -, o merceeiro acompanhou-o até à esquina 

da rua. 

Ao  voltar  para  a  loja,  Hobbes  parou  em  frente  da  casa  desabitada  e 

contemplou,  durante  alguns  minutos,  a  tabuleta,  que  dizia:  Aluga-se  -  sem 
deixar  de  fumar  o  seu  cachimbo.  Mas  tinha  o  espírito  profundamente 
perturbado. 

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Os dois pretendentes 

 
Poucos  dias  depois  da  recepção  dada  pelo  conde  de  Dorincourt,  quase 

todos  os  ingleses  souberam,  pelos  jornais,  do  acontecimento,  verdadeiramente 
teatral, que acabava de dar-se no castelo. 

Era  uma  história  das mais  interessantes,  para  quem  a  conhecia  em  todos 

os seus pormenores. As personagens eram: o rapazito que tinham ido buscar à 
América, para o fazer Lorde Fauntleroy - uma criança adorável, que conquistara 
o  coração  de  toda  a  gente;  o  conde,  seu  avô,  que  se  sentia  orgulhoso  de  tal 
herdeiro;  a  jovem  e  encantadora  mãe,  a  quem  o  conde  não  perdoava  o  ter 
casado com o capitão Errol; e havia também a viúva de Bevis, uma estrangeira 
de quem ninguém sabia nada e que aparecia assim, de repente, com um filho, 
afirmando  que  era  ele  o  verdadeiro  Lorde  Fauntleroy,  e  exigindo  que 
reconhecessem os seus direitos. 

Espalhou-se  também  a  notícia  de  que  o  conde  de  Dorincourt  estava 

furioso com a vinda inesperada da quela gente, mostrando-se disposto a levar o 
caso para os tribunais, o que daria, certamente, um processo sensacional. 

Nunca em todo o condado de Dorincourt sucedera uma coisa que causasse 

tanta emoção. Falava-se do assunto em toda a parte: no mercado, nas lojas, nas 
casas  particulares,  e  toda  a  gente  lamentava  que  Cedric  não  fosse,  realmente, 
Lorde  Fauntleroy.  Ninguém  via  com  simpatia  o  aparecimento  daquele  que 
vinha ocupar o lugar e que, aliás, ninguém conhecia. 

No  castelo  todos  andavam  impressionadíssimos.  O  conde  tinha  longas 

conversas com Havisham; Tomás, o chefe da mesa, os outros criados, homens e 
mulheres, trocavam impressões e faziam comentários; nas cavalariças, Wilkins 
sentia-se  abatido,  tratava  do  “poney”  ainda  com  mais  cuidado  do  que 
habitualmente  e  dizia,  em  tom  desesperado,  que  “nunca  vira  uma  criança 
aprender  tão  facilmente  e  tão  bem  a  montar  a  cavalo  e  que  era  um  prazer 
acompanhar um cavaleiro tão belo e destemido”. 

No  meio  de  toda  esta  confusão  havia  uma  pessoa  que  se  conservava 

calma: o pequeno Lorde Fauntleroy, que diziam não ser o verdadeiro. 

Ao  explicarem-lhe  o  que  se  passava,  ficara  um  pouco  inquieto,  mas  não 

era por um sentimento de ambição ferida. 

Quando  o  avô  acabou  de  falar,  o  rosto  de  Cedric  tomou  uma  expressão 

muito grave, e disse apenas: 

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- Isto causa-me uma impressão esquisita. sim, esquisita. 
O  conde  olhava  para  a  criança.  Também  ele  sentia  uma  impressão  que 

nunca tinha experimentado em toda a sua existência. Essa impressão acentuou-
se quando viu o ar de tristeza que velava a fisionomia do neto, habitualmente 
tão alegre. 

-  Eles  tiram  a  casa  à  Querida.  e  também  a  carruagem  dela?  -  perguntou 

Cedric, com a voz inquieta. 

- Não! - respondeu vivamente o conde. - Não podem tirar-lhe nada. 
-  Ah!  -  exclamou  Cedric,  visivelmente  aliviado.  Não  podem  tirar-lhe 

nada?! 

 E  olhando  para  o  avô,  com  olhar  interrogador,  em  que  havia  também 

ansiedade, perguntou ainda com voz trémula: 

- E o outro. vai ser o companheiro do avô. como eu tenho sido até agora? 
-  Não!  -  respondeu  o  conde,  em  voz  tão  irritada  e  forte,  que  Cedric 

sobressaltou-se. 

- Não? - repetiu a criança muito admirada. - Eu julgava. 
Saltou  subitamente  para  o  chão  e  aproximou-se  do  avô,  com  as  faces 

coradas de emoção. 

-  Nesse  caso,  eu  continuo  a  viver  com  o  avô,  e  a  ser  o  seu  companheiro, 

mesmo  se  não  for  conde,  mais  tarde?  O  avô  continua  a  ser  meu  amigo,  como 
dantes? 

O  olhar  em  que  o  conde  de  Dorincourt  envolveu  o  neto,  não  pode 

descrever-se. Tinha as sobrancelhas muito contraídas e os olhos brilhavam-lhe 
de forma estranha e diferente. 

-  Meu  filho  -  murmurou  ele,  e  a  sua  voz  parecia  mudada,  um  pouco 

trémula e rouca. - Sim, serás o meu companheiro, enquanto eu viver! Tenho, às 
vezes, a impressão de que tu és o único filho que eu tive! 

Cedric  tornou-se  vermelho  até  à  raiz  dos  cabelos,  mas  era  de  alegria  e 

alívio. Meteu as mãos nas algibeiras e fitou o avô bem de frente. 

-  Isso  é  verdade?  -  exclamou  ele.  -  Então  já  não  me  importo  de  não  ser 

conde! 

O conde de Dorincourt pôs a mão sobre o ombro do neto e disse, cada vez 

mais comovido: 

- Ninguém poderá tirar-te nada daquilo que eu tenho o direito de reservar 

para ti. Além disso, eu não posso acreditar que eles te tirem seja o que for! Tu 
estavas  destinado  a  viver  junto  de  mim,  como  meu  herdeiro,  e  não  posso 
admitir a ideia de seres substituído por outro. 

 Falava  com  um  ar  solene,  não  como  se  se  dirigisse  a  uma  criança,  mas 

como se tomasse um compromisso para consigo próprio. 

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Cedric  parecia-lhe  mais  belo  e  nobre  do  que  nunca.  E  o  conde  estava 

disposto a lutar até ao fim, para defender os direitos dele. 

Alguns  dias  depois  de  ter  procurado  Havisham,  a  mulher  que  dizia  ser 

Lady  Fauntleroy  apresentou-se  no  castelo,  acompanhada  pelo  filho.  O  conde 
não quis recebê-la e mandou-lhe dizer que, quem tratava do assunto, era o seu 
advogado. 

Foi Tomás quem transmitiu o recado do conde; depois, contou aos outros 

criados a sua opinião acerca da visitante. 

Disse  que  estava  muito  habituado  a  servir  em  casas  de  famílias  nobres  e 

que sabia conhecer as verdadeiras senhoras. Aquela não podia ser uma “lady”! 
E se o era, tinha descido muito. 

-  Não  se  compara  com  a  que  vive  no  pavilhão  de  Court  Lodge  - 

acrescentou ele. - Americana ou não americana, essa é uma senhora como deve 
ser! 

Entretanto, a visitante retirara-se com uma expressão de cólera e de receio, 

ao mesmo tempo. 

Durante as conversas que teve com ela, Havisham principiou a notar que, 

apesar  dos  seus  modos  desabridos  e  palavras  insolentes,  ela  estava  muito 
menos segura do seu papel do que pretendia demonstrar. Houve um momento 
em  que  se  mostrou,  mesmo,  bastante  embaraçada.  Percebia-se  que  ela  não 
esperava encontrar uma oposição tão forte. 

- Sem dúvida, é uma  criatura vinda de um meio muito ordinário - disse, 

um  dia,  Havisham,  à  Sr.  Errol.  -  Não  tem  educação  nenhuma  e  não  está 
habituada  a  conviver,  em  pé  de  igualdade,  com  pessoas  da  nossa  classe.  Está 
desconcertada.  A  sua  visita  ao  castelo  diminuiu  a  arrogância  com  que  se 
apresentava.  O  conde não  a  recebeu,  mas  eu  aconselhei-o  a  avistar-se  com  ela 
no Hotel do Escudo, onde se hospedou. Eu assisti ao encontro. Quando o conde 
entrou, ela empalideceu, mas isso não a impediu de falar nos direitos do filho, e 
fazer ameaças. A verdade é que o conde entrou na sala do Hotel do Escudo com 
o seu porte majestoso e o seu ar de grande senhor, fitando a viúva de Bevis com 
um  olhar  severo.  Limitou-se  a  observá-la  dos  pés  à  cabeça,  como  se  ela  fosse 
objecto curioso e repugnante, deixando-a expor demorada e atabalhoadamente 
as suas pretensões, sem a interromper. Quando ela se calou, ofegante, declarou: 

“- A senhora pretende ser a viúva do meu filho mais velho. Se for verdade, 

e a prova que apresenta for autêntica, tem a lei por si. Nesse caso, o seu filho é 
Lorde Fauntleroy. A questão vai ser estudada a fundo, pode ter a certeza. Se as 
suas reivindicações forem justas, receberá uma mesada. Mas não quero tornar a 
vê-la,  nem  ao  seu  filho!  Bem  basta  que  o  castelo  e  a  população  de  Dorincourt 

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sofram a vossa presença depois da minha morte! A senhora é bem o género de 
mulher capaz de se entender com o meu filho Bevis. 

“Dito isto, voltou-lhe as costas e saiu, com o mesmo ar majestoso com que 

havia entrado. “ 

Alguns dias depois, a Sr. a Errol foi prevenida da chegada de uma visita. 

A criada que a anunciou tinha os olhos muito abertos, de espanto. 

- É o Sr. Conde, em pessoa! - exclamou ela, com ar embaraçado. 
Quando  a  Sr.  a  Errol  entrou  na  sala,  viu  um  velho  de  grande  estatura  e 

aspecto altivo, em pé, junto do fogão. Tinha um belo rosto severo, um perfil de 
águia, grandes bigodes brancos e um olhar duro. 

- A Sr. a Errol? - perguntou ele. 
- Sou eu. 
 - Eu sou o conde de Dorincourt. 
Sem  quase  dar  por  isso,  o  conde  fez  uma  pequena  pausa,  para  fitar  os 

olhos  que  se  erguiam  para  ele.  Eram  tão  parecidos  com  os  do  neto,  quee 
experimentou uma estranha sensação. 

- A criança parece-se consigo disse ele, bruscamente 
- Têm-mo dito muitas vezes, milorde - respondeu ela -, mas sinto-me feliz 

ao pensar que se parece também muito com o pai. 

Tal  como  Lady  Lorridaile  tinha  contado  ao  conde,  a  viúva  Errol  possuía 

uma voz muito doce, maneiras simples e distintas ao mesmo tempo. A visita do 
conde parecia não a perturbar. 

- Sim - disse o conde de Dorincourt -, também se parece... com o meu filho. 
Levou a mão ao bigode, que puxou violentamente. Depois, continuou: 
- Sabe porque estou aqui? 
- O Sr. Havisham falou-me de reivindicações... - começou a Sr. a Errol. 
- Venho dizer-lhe - interrompeu o conde - que essas reivindicações vão ser 

estudadas  e  que  serão  contestadas,  se  for  preciso.  Farei  tudo  para  defender  a 
situação de seu filho. Esta mulher impossível... 

- Talvez ela ame o filho tanto como eu amo Cedric, milorde! - observou a 

Sr.  a  Errol  com  a  sua  voz  tão  doce.  -  E  se  ela  foi  casada  com  o  seu  filho  mais 
velho, Cedric não é Lorde Fauntleroy. 

Mostrava-se tão serena e confiante como Cedric. A presença do conde não 

lhe  causava  o  menor  receio,  tal  como  sucedera  com  o  pequenito.  E  o  velho 
fidalgo,  que  apresentava,  naquele  momento,  a  sua  expressão  mais 
desagradável, sentia-se intimamente satisfeito. 

 - Suponho que a senhora prefere que o seu filho não venha a ser o conde 

de Dorincourt? - disse ele, franzindo as sobrancelhas. 

As faces da viúva Errol tornaram-se rosadas. 

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-  É  uma  coisa  magnífica  ser  conde  de  Dorincourt  -  disse  ela.  -  Tenho  a 

certeza disso. Mas o que eu desejo, acima de tudo, é que o Cedric seja como era 
o pai: que seja, como ele, justo e leal, e que possua a mesma nobreza de carácter. 

...  E  que  faça  um  verdadeiro  contraste  com  o  avô,  não  é  verdade?  - 

observou Sua Senhoria, em tom brusco e irónico. 

- Não tenho a honra de conhecer intimamente o avô - replicou a Sr. e Errol 

-, mas sei que o meu filho o considera. 

Interrompeu-se, de repente, olhou calmamente para o conde e continuou: 
- Sei que Cedric o adora! 
- Parece-lhe que ele o estimaria da mesma forma, se a senhora lhe tivesse 

explicado  o  motivo  por  que  não  foi recebida  no  castelo?  -  perguntou  o  conde, 
friamente. 

- Não! - respondeu a Sr. ' Errol. - Creio que não. Foi por isso que eu não 

quis que ele soubesse. 

-  Pois  bem!  -  disse  bruscamente  o  conde.  -  Poucas  mulheres  seriam 

capazes de proceder assim. 

Principiou,  então,  a  andar  de  um  para  o  outro  lado  da  sala,  puxando 

sempre o bigode. E continuou: 

- Sim, ele adora-me e eu adoro-o! Posso dizer que nunca, na minha vida, 

me  dediquei  a  ninguém.  Mas  tenho  por  ele  uma  grande  afeição.  Agradou-me 
desde o primeiro instante. Sou velho e estou fatigado da existência. Ele deu-me 
uma  nova  razão  de  viver.  Tenho  orgulho  nele  e  sentia-me  feliz  ao  pensar  que 
seria, mais tarde, o chefe da casa de Dorincourt. 

 Aproximou-se da Sr. a Errol, e ficou de pé, na sua frente. 
- Sou muito infeliz - disse ele. - Muito infeliz! 
Via-se  perfeitamente  que  era verdade. Apesar  do  seu  orgulho,  a voz  não 

era  firme,  e  as  mãos  tremiam-lhe.  Durante  um  momento,  dir-se-ia  que  havia 
lágrimas nos seus olhos. 

-  Foi,  talvez,  por  me  sentir  infeliz,  que  vim  procurá-la!  -  continuou, 

fitando-a com um olhar profundo. Detestei-a, depois tive ciúmes do afecto que 
Cedric lhe consagra. Esta desgraçada questão, porém, mudou tudo. Depois de 
ter  visto  a  mulher  repugnante  que  se  diz  viúva  de  Bevis,  senti  que  seria, 
realmente, um conforto para mim, vê-la a si. Sou um velho imbecil, teimoso nos 
meus erros, e reconheço que fui muito injusto para consigo. A senhora parece-se 
com  a  criança  que  se  tornou  o  maior  interesse  da  minha  vida.  Sentindo-me 
infeliz,  vim  procurá-la,  unicamente  porque  a  senhora  se  parece  com  o 
pequenito, porque ele a adora, e eu o adoro a ele. Por amor dele, seja boa para 
mim! 

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Estas palavras foram pronunciadas numa voz rouca, quase rude, mas com 

um  ar  tão  abatido,  que  a  Sr.  a  Errol  sentiu-se  profundamente  comovida. 
Aproximou-se do conde e disse docemente: 

-  Gostava  que  se  sentasse.  Tem-se  atormentado  tanto,  que  deve  estar 

muito fatigado. E agora, justamente, precisa de toda a sua energia. 

Esta maneira simples e delicada de lhe falar e de se ocupar dele, era uma 

coisa  tão  nova  para  o conde,  como  o  aparecimento  da  viúva  de  Bevis.  Pensou 
em  Cedric  e  fez  o  que  a  Sr.  a  Errol  lhe  pedia.  Começava  já  a  sentir-se  menos 
abatido,  sob  a  suave  influência  daquela  encantadora  criatura,  que  ele  odiara 
tanto. 

-  Suceda  o  que  suceder,  a  situação  do  pequenito  será  assegurada  no 

presente e no futuro - disse ele. 

Antes de se retirar, o conde percorreu a sala com o olhar. 
- Gosta desta casa? - perguntou ele à Sr. a Errol. 
- Muito! - respondeu ela. 
- Esta sala é muito agradável - observou Lorde Dorincourt. - Posso voltar 

de vez em quando, para conversarmos acerca de todas estas coisas? 

- Sempre que quiser! - respondeu a mãe de Cedric. Pouco depois, o conde 

saiu, instalou-se na carruagem e regressou ao castelo. 

O  cocheiro e  Tomás,  que  acompanhava  sempre  o  conde,  estavam mudos 

de espanto, pelo aspecto imprevisto que as coisas iam tomando. 

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Dick vem em socorro do seu amigo 

 
Os  jornais  ingleses  não  podiam  deixar  de  se  ocupar  de  um  assunto  tão 

sensacional, e os jornais dos Estados Unidos da América fizeram o mesmo. 

A  história  era  realmente  interessantíssima  e  cada  um  a  contava  a  seu 

modo, a tal ponto que Hobbes, ao ler tudo o que diziam, quase perdia a cabeça. 

Um jornal dizia que Cedric era uma criancinha, outro apresentava-o como 

um  estudante  de  Oxford,  que  obtinha  distinções  em  todos  os  exames  e 
compunha  poemas  gregos;  outro  informava  os  seus  leitores  de  que  ele  estava 
noivo da filha de um duque, extraordinariamente formosa; havia ainda um que 
noticiava que ele casara havia pouco. 

Enfim,  diziam  as  coisas  mais  disparatadas,  chegando  a  afirmar  que  não 

existia o menor parentesco entre Cedric e o conde Dorincourt e que se tratava 
de um garoto que vendia jornais nas ruas de Nova Iorque. 

Quanto  ao  novo  Lorde  Fauntleroy  e  sua  mãe,  tanto  diziam  que  ela  era 

uma actriz, como uma boémia. Outros afirmavam que era espanhola, mas todos 
concordavam num ponto: o conde era seu inimigo mortal e só lhe reconheceria 
o filho se fosse obrigado a isso. Falavam também numa pequena irregularidade 
descoberta  nas  certidões  apresentadas  pela  mãe,  e  calculavam  que  isso  daria 
motivo a longo e complicado processo. 

 Hobbes lia os jornais do princípio ao fim; depois, à noite, conversava com 

Dick sobre as últimas notícias. 

Convenceram-se,  assim,  de  que  o  conde  de  Dorincourt  era,  realmente, 

uma  personagem  muito  importante  e  que  possuía  enorme  riqueza,  vivendo 
num castelo sumptuoso, tal como Cedric lhes contara nas suas cartas. 

E quanto mais se convenciam de tudo isso, mais preocupados ficavam. 
- A minha opinião é que temos de fazer qualquer coisa por ele - disse um 

dia  Hobbes.  -  Conde  ou  não  conde,  não  se  pode  ficar  indiferente  a  uma  coisa 
destas. 

Mas,  na  realidade,  a  única  coisa  que  eles  podiam  fazer  era  escrever  a 

Cedric, a afirmar-lhe a sua amizade. E assim foi. A carta de Dick, cheia de erros 
de ortografia, dizia assim: 

 
“Caro amigo 

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“Recebi a sua carta e o Sr. Hobbes também recebeu a que lhe mandou, e 

estamos muito aborrecidos com o que lhe aconteceu. É preciso não deixar que 
outro lhe tome o seu lugar. O que eles querem é roubá-lo. Tenha cautela Mas eu 
quero,  principalmente,  dizer-lhe  que  não  esqueço  o  que  fez  por  mim.  Os 
negócios  correm  agora  melhor  e  eu  o  protegerei,  se  for  preciso.  Quem  quiser 
fazer-lhe mal tem que se haver primeiro com o mestre Dick Tipton. Não tenho 
mais para lhe dizer, por agora. 

Dick,  
 
Quanto à carta de Hobbes, era como segue 
 
“Caro senhor 
“Recebi  a  sua  prezada  carta  e  acho  que  as  coisas  não  caminham  bem. 

Estou convencido de que é uma `partida ' que lhe querem fazer, e é preciso ter 
cuidado com a gente que preparou toda esta complicação. Escrevo-lhe para lhe 
dizer duas coisas. Vou ocupar-me do seu assunto. Não se inquiete; consultarei 
um  advogado  e  farei  tudo  quanto  puder.  Se  não  conseguirmos  resolver 
favoravelmente toda esta história, tem sempre um lugar de sócio na minha loja 
à sua espera, logo que tenha mais idade, bem como uma casa e um amigo. 

“Sou, com muita consideração, seu amigo 
Hobbes” 
 
- Se ele deixar de ser conde - disse Hobbes -, nós dois sempre havemos de 

lhe assegurar a existência. Não acha? 

- Com certeza! - respondeu logo Dick. - Por mim, nunca o abandonarei. É o 

garoto mais gentil que eu conheço. 

No dia seguinte, um cliente de Dick teve uma surpresa. Este cliente era um 

jovem  advogado,  no  princípio  da  sua  carreira;  não  tinha  dinheiro,  mas  era 
inteligente, activo, com um espírito vivo e um carácter amável. 

O  seu  modesto  escritório  estava  situado  próximo  do  lugar  onde  Dick 

trabalhava, e era ele quem lhe engraxava os sapatos todas as manhãs. Os ditos 
sapatos nem sempre estavam em bom estado... Mas o jovem advogado nem por 
isso deixava de ter sempre uma palavra agradável para dizer a Dick. 

 Naquele dia, quando o engraxador terminou o seu trabalho, o advogado 

estendeu-lhe o jornal e disse: 

- Aqui tens, para te entreteres, à hora do almoço. Traz a fotografia de um 

castelo  inglês  e  o  retrato  da  nora  de  um  conde!  -  uma  bela  mulher,  com  uma 
esplêndida  cabeleira  -  que  tem  cara  de  quem  é  capaz  de  bater  o  pé  a  todos 
aqueles senhores da fidalguia inglesa! Precisas de te pôr ao corrente do que se 

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passa no grande mundo! Começa, portanto, pelo nobre conde de Dorincourt e 
Lady Fauntleroy. Mas. Que é isso? 

As  fotografias  de  que  ele  falava  estavam  na  primeira  página,  e  Dick,  de 

olhos muito abertos, pálido de espanto, observava atentamente uma delas. 

-  Vamos,  Dick  -  insistiu  o  advogado.  -  Que  foi  que  te  causou  tanta 

impressão? 

Na  realidade,  a  expressão  de  Dick  demonstrava  que  alguma  coisa 

prodigiosa tinha sucedido. O engraxador apontou para o retrato que tinha esta 
legenda: Lady Fauntleroy, a mãe do novo pretendente”. 

A  gravura  mostrava  uma  formosa  mulher,  com  grandes  olhos  escuros  e 

grossas tranças enroladas em volta da cabeça. 

- Mina! - exclamou ele. - Afirmo-lhe que é ela! Conheço-a melhor do que a 

si! 

O advogado começou a rir. 
-  Onde  a  encontraste?  -  perguntou  ele.  -  Em  Newport?  Ou  na  Ópera,  a 

última vez que foste a Paris? 

Mas  Dick  não  estava  disposto  a  rir  nem  a  brincar.  Começou 

imediatamente  a  arrumar  as  escovas  e  todo  o  material,  como  se  alguma  coisa 
urgente o obrigasse a interromper o trabalho. 

- Pode dizer o que quiser - afirmou ele. - A verdade é que a conheço muito 

bem. E, por hoje, não trabalho mais. 

 Ainda  não  tinham  passado  cinco  minutos,  já  ele  corria  em  direcção  à 

mercearia de Hobbes. 

Quando entrou, muito vermelho e ofegante, com o jornal na mão, Hobbes 

não sabia o que pensar. 

Antes de poder falar, Dick atirou com o jornal para cima do balcão. Estava 

tão  cansado,  que  só  uns  minutos  depois  é  que  pôde  exclamar,  numa  voz 
alterada: 

- Veja. Aí. na primeira página. olhe para essa cabeça de mulher... Essa não 

é  da  “alta”  tenho  a  certeza  -  disse  ele  com  desprezo.  -  Não  é  mulher  de  um 
lorde. Pode comer-me vivo, se essa mulher não é Mina... sim, Mina! Era capaz 
de  a  reconhecer  entre  mil.  E  o  meu  irmão  também.  Pode  perguntar-lhe,  se 
quiser. 

Hobbes deixou-se cair na cadeira. 
-  Bem  dizia  eu  que  era  uma  traição  que  lhe  faziam!  Eu  bem  sabia!  E 

fizeram tudo isto por ele ser americano. 

-  Mas,  foi  ela!  -  exclamou  Dick,  com  desespero.  Foi  ela  quem  preparou 

tudo!  Sempre  teve  a  mania  de  escândalos  e  mistérios.  Desde  que  vi  o  retrato 
dela,  parece-me  que  nem  estou  em  mim!  Há  um  jornal  que  fala  do  filho  e  diz 

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que tem uma cicatriz no queixo. Junte tudo isto. Mina, o filho, a cicatriz! Tenho 
a certeza de que esse rapaz é tanto lorde como eu ou o Sr. Hobbes. É o filho de 
Ben... o garoto que ela feriu, quando me atirou com um prato à cabeça. 

Dick  Tipton  tivera  sempre  um  espírito  vivo,  e  o  facto  de  ganhar  a  vida 

trabalhando  nas  ruas  aumentara  ainda  a  sua  vivacidade.  Aprendera  a  ver  as 
coisas  com  clareza  e  a  não  se  desorientar.  Aquele  acontecimento  inesperado, 
após  o  espanto,  chegava  a  causar-lhe  alegria.  Se  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy 
pudesse  entrar,  naquela  manhã,  na  mercearia  do  Sr.  Hobbes,  teria  achado  a 
conversa interessante, mesmo que os planos que eles faziam dissessem respeito 
a outra pessoa. 

 Hobbes sentia-se esmagado pela sua responsabilidade, e Dick não parava, 

cheio de ardor e actividade. Começou por escrever uma carta a Ben, juntando-
lhe  o  retrato  recortado  do  jornal.  Por  seu  lado,  Hobbes  escreveu  uma  carta  a 
Cedric e outra ao conde. 

Estavam  os  dois  ocupados  na  sua  correspondência  quando  Dick  teve, 

subitamente, uma ideia. 

- Quem me  mostrou o jornal foi um advogado! - disse ele.  - E  se  nós lhe 

perguntássemos  o  que  devemos  fazer?  Os  advogados  conhecem  todas  estas 
artimanhas. 

Esta  lembrança  produziu  uma  grande  impressão  em  Hobbes  e  fê-lo 

admirar, sem reservas, a esperteza de Dick. 

-  Tem  razão  -  disse  ele.  -  Um  assunto  como  este  não  dispensa  um 

advogado. 

Pediu a um vizinho que lhe tomasse conta da loja, vestiu o casaco e pôs-se 

a caminho, ao lado de Dick. Pouco depois apresentavam-se os dois no escritório 
do advogado Harrison, que ouviu, muito espantado, aquela estranha história. 

Se  Harrison  não  fosse  tão  novo  e  tivesse  mais  trabalho,  certamente  não 

tomaria a sério o que eles lhe contavam, pois era, realmente, muito estranho e 
fantástico. Mas, por sorte, o jovem advogado desejava ardentemente ocupar-se 
de  qualquer  questão  interessante,  que  pusesse  à  prova  a  sua  energia  e 
competência;  além  disso,  conhecia  Dick,  e  este  expunha  o  assunto  com  tal 
vivacidade e convicção, que o advogado resolveu estudar o problema. 

“Se as coisas correrem bem - pensou ele - será uma causa sensacional, e o 

resultado  será  quase  tão  interessante  para  mim,  como  para  Lorde  Fauntleroy. 
De  qualquer  forma,  porém,  não  perco  nada  em  investigar.  A  primeira  coisa  a 
fazer é escrever ao irmão de Dick e ao procurador do conde de Dorincourt”. 

 Assim  fizeram.  As  cartas  seguiram  naquele  mesmo  dia.  Uma  foi  para 

Inglaterra e outra para a Califórnia. 

A primeira era dirigida a Havisham e a segunda a Benjamim Tipton. 

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À noite, depois de fechar a loja, Hobbes demorou-se ainda bastante tempo, 

no armazém, a conversar com Dick. 

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Descobre-se a mentira 

 
É  espantoso  como,  em  tão  pouco  tempo,  podem  suceder  coisas  tão 

extraordinárias! Bastaram poucos minutos para mudar o destino do pequenito 
que  costumava  sentar-se  sobre  os  caixotes  da  mercearia  de  Hobbes, 
transformando esta criança, que levava uma vida simples numa das ruas mais 
calmas  de  Nova  Iorque,  num  jovem  fidalgo  inglês,  herdeiro  de  um  título  de 
conde  e  de  uma  fortuna  magnífica.  Da  mesma  forma,  alguns  minutos  haviam 
bastado para que este jovem lorde passasse a ser considerado sem direito algum 
aos esplendores que principiara a gozar. 

E foi necessário ainda menos tempo para que a mulher que se apresentava 

como  Lady  Fauntleroy,  caísse  em  várias  contradições,  que  levantaram 
imediatamente suspeitas no espírito do advogado Havisham. 

Aquela mulher era, sem dúvida, mais perversa do que inteligente. 
Ao  perceber  que  se  comprometera,  ficou  de  tal  forma  perturbada,  que 

cada vez se contradizia mais. 

Afirmava  ela  que  casara  com  Bevis,  Lorde  Fauntleroy,  e  que,  depois, 

tendo-se zangado um com o outro, ele lhe dera dinheiro para se desembaraçar 
dela.  Dizia  que  o  filho  tinha  nascido  em  determinado  bairro  de  Londres.  Mas 
Havisham descobriu que era falso. Foi nesta altura que chegaram as cartas de 
Hobbes e do jovem advogado americano. 

Não é possível descrever o alvoroço que essas cartas causaram no castelo! 

O conde e Havisham fecharam-se na biblioteca e conversaram longamente. 

O advogado expôs a Lorde Dorincourt as suas suspeitas. A criança parecia 

mais  velha  do  que  a  mulher  dizia  e,  exactamente,  ao  referir-  se  à  data  do 
nascimento  do  filho,  ela  caíra  em  várias  contradições.  A  história  contada  nas 
cartas vinha reforçar essas suspeitas. Chegaram, por isso, à conclusão de que o 
melhor que havia a fazer era telegrafar para a América, mandando vir os dois 
irmãos Tipton, para os apresentar, inesperadamente à mulher. 

- Ela não é bastante esperta. - afirmou Havisham. 
- Estou convencido de que perderá a cabeça e confessará tudo. 
Aquele plano foi posto em prática. Para que a mulher não desconfiasse de 

coisa alguma, Havisham continuou a avistar-se com ela, afirmando- lhe que as 
investigações continuavam. A verdade é que ela voltou a estar mais senhora de 
si, convencida do seu triunfo, e tornou- se mais insolente do que nunca. 

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Uma  bela  manhã,  estava  ela  nos  seus  aposentos  do  Hotel  do  Escudo, 

certamente  a  fazer  projectos  magníficos,  quando  Havisham  se  fez  anunciar.  O 
advogado entrou, mas não ia só. Acompanhavam-no três pessoas: um rapaz de 
fisionomia inteligente; outro, um homem novo e robusto; o terceiro era o conde 
de Dorincourt em pessoa. 

Ao vê-los, aquela que se fazia passar por Lady Fauntleroy pôs-se de pé e 

soltou  um  grito  de  terror.  Poderia  esperar  tudo,  menos  ver  aparecer-lhe  ali 
aquelas duas criaturas que ela supunha na América, e que julgava nunca mais 
encontrar. 

Dick não pôde conter-se e começou a gracejar: 
- Viva, Mina! Como vai isso? 
 O outro homem, que era Ben, olhava para ela em silêncio. 
- Reconhecem-na? - perguntou Havisham, que os observava. 
- Sim, reconheço-a, e ela também me reconhece - disse Ben. 
Depois de pronunciar estas palavras, voltou-lhe as costas e foi até à janela, 

como  se  a  vista  daquela  mulher  lhe  causasse  horror.  Vendo-se  desmascarada, 
teve  um  dos  tais  acessos  de  fúria  que  Ben  e  Dick  haviam  presenciado  muitas 
vezes. Ao ouvir as injúrias e as ameaças violentas que ela dirigia a todos, Dick 
continuou a troçar, mas Ben nem se voltou. 

-  Posso  jurar,  perante  qualquer  tribunal,  que  é  ela!  -  declarou  Ben  a 

Havisham. - E posso apresentar dezenas de outras testemunhas, se for preciso. 
O  pai  é  um  simples  operário,  mas  é  um  homem  honesto.  A  mãe  era  tal  como 
ela.  Já  morreu,  mas  o  pai  ainda  vive  e  envergonha-se  de  ter  semelhante  filha. 
Ele pode dizer-lhes quem ela é, e se casou, ou não, comigo. 

Depois,  cerrando  os  punhos,  voltou-se  subitamente  para  Mina, 

perguntando: 

- Onde está a criança? Quero levá-la comigo!  
Mal ele tinha pronunciado estas palavras, a porta que comunicava com o 

quarto  abriu-se,  e  o  pequenito  espreitou,  certamente  admirado  de  ouvir  falar 
tão alto. 

Não era uma criança bonita, mas possuía uma cara engraçada e parecia- se 

muito com Ben. No queixo, tinha uma cicatriz triangular. 

Ben foi até junto dele, pegou- lhe meigamente na mão e declarou: 
- Sim, posso também jurar que o reconheço. Tom - disse ele ao garoto -, eu 

sou o teu pai. Venho buscar- te. Onde está o teu chapéu? 

O pequeno não fez a mais leve observação. Via-se que lhe agradava a ideia 

de  partir.  Levara,  até  então,  uma  existência  tão  extraordinária,  que  já  não  se 
admirava de coisa alguma, nem sequer de ouvir aquele desconhecido dizer que 
era seu pai. Sentia tão pouca afeição pela mãe, que fora buscá-lo, poucos meses 

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antes,  ao  lugar  onde  ele  fora  criado  desde  pequenino,  que  não  lhe  custou 
absolutamente  nada  aceitar  aquela  nova  mudança  na  sua  vida,  passando  a  ir 
viver  com  o  pai.  Ben  dirigiu-se  tranquilamente  para  a  porta,  com  o  filho  pela 
mão. Antes de sair, disse a Havisham: 

-  Se  precisar  de  mim  sabe  onde  me  encontrará.  Em  seguida  saiu  com  a 

criança, sem tornar a olhar para a mulher, que continuava a mostrar- se furiosa, 
enquanto o conde a observava com calma. 

-  Vamos!  Vamos!  -  disse  Havisham.  -  A  sua  cólera  não  serve  para  coisa 

nenhuma. Se não quer ser presa, é melhor calar-se. 

Isto  foi  dito  num  tom  tão  frio  e  positivo,  que  Mina  compreendeu  que  o 

melhor  que  tinha  a  fazer  era  ir-se  embora  e,  lançando  ao  advogado  um  olhar 
selvagem, dirigiu-se para o quarto atirando com a porta. 

- Não voltará a incomodar-nos! - disse Havisham. Ele tinha razão, porque, 

nessa  mesma  noite,  Mina  deixou  o  Hotel  do  Escudo  e  tomou  o  comboio  para 
Londres. Depois, nunca mais ouviram falar nela. 

Terminada  a  entrevista,  o  conde  dirigiu-se  imediatamente  à  carruagem 

que o esperava. 

- Para Court Lodge! - ordenou ele a Tomás. 
- Para Court Lodge! - disse Tomás ao cocheiro. E pensou: 
“Vamos  assistir  a  coisas  que  ninguém  espera...  “  Quando  a  carruagem 

parou em frente do pavilhão, Cedric estava na sala com a mãe. 

O conde entrou sem se anunciar. A sua figura parecia mais alta, e dir-se-ia 

que tinha menos dez anos. Os seus olhos brilhavam de satisfação. 

- Onde está Lorde Fauntleroy? 
A Sr. a Errol foi ao seu encontro, muito corada. 
- Cedric é, realmente, Lorde Fauntleroy? - perguntou ela. 
- Sim - respondeu o conde, estendendo-lhe a mão. 
- É, realmente, Lorde Fauntleroy. 
Depois, pousou a mão no ombro de Cedric e disse, na sua voz autoritária: 
- Fauntleroy, queres perguntar a tua mãe quando virá ela instalar-se junto 

de nós, no castelo? 

O  pequeno  lorde  lançou  os  braços  em  volta  do  pescoço  da  mãe  e 

exclamou: 

- Para viver connosco! Para viver connosco, sempre, sempre? 
O conde olhava para a Sr. a Errol e a Sr.a Errol olhava para ele. O velho 

fidalgo  tinha  um  ar  perfeitamente  sério.  Decidira  não  perder  um  minuto  para 
resolver  aquele  assunto.  A  ideia  de  se  reconciliar  com  a  nora  não  lhe 
desagradava. 

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- Tem a certeza de que precisa de mim? - perguntou a mãe de Cedric, com 

a sua voz doce e o seu encantador sorriso. 

- A certeza absoluta! - respondeu ele, bruscamente. 
-  Precisámos  sempre  de  si,  mas  não  tínhamos  dado  por  isso.  Esperamos 

que aceitará. 

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O aniversário do pequeno lorde 

 
Ben voltou, com o filho, para a Califórnia. Antes da sua partida, Havisham 

comunicou-lhe  que  o  conde  de  Dorincourt  resolvera  fazer  qualquer  coisa  pela 
criança  que  estivera  para  ser  Lorde  Fauntleroy  e,  por  isso,  colocara  algum 
capital  num  “rancho”,  cuja  administração  seria  confiada  a  Ben,  em  condições 
especialmente  vantajosas  para  ele  e  para  o  filho.  O  futuro  da  criança  estava, 
assim, assegurado. 

Na realidade, alguns anos depois, Ben tornou-se o proprietário definitivo 

desse  rancho.  Tom  cresceu  e  tornou-se  um  rapaz  simpático,  forte  e  muito 
dedicado ao pai. Trabalhavam os dois juntos, e tiveram dias tão felizes, que Ben 
costumava dizer que o filho lhe fizera esquecer todas as misérias passadas. 

Quanto  a  Dick  e  a  Hobbes  -  porque  o  merceeiro  quisera  acompanhar  os 

dois irmãos a Inglaterra, para verificar se tudo corria bem - não voltaram logo 
para  a  América.  O  conde  decidiu  assegurar  também  o  futuro  de  Dick,  e 
principiou  por  lhe  mandar  dar  uma  sólida  instrução.  Quanto  a  Hobbes,  como 
tinha  confiado  a  mercearia  a  uma  pessoa  amiga,  pensava  que  podia 
perfeitamente  ficar  algum  tempo  em  Inglaterra,  para  assistir  às  festas  do 
aniversário de Lorde Fauntleroy. 

Todos  os  rendeiros  e  suas  famílias  foram  convidados;  haveria  um 

banquete, jogos e danças no parque de Dorincourt. 

À noite acenderiam fogueiras e queimariam fogo de artifício. 
- É tal qual como o Quarto de Julho - dizia Lorde Fauntleroy. - É uma pena 

que  o  aniversário  não  seja  nesse  dia,  não  acha,  Sr.  Hobbes?  Festejaríamos  as 
duas datas juntas. 

É preciso dizer que o conde e Hobbes não se tornaram amigos tão íntimos, 

como  Cedric  esperava.  A  verdade  é  que  o  conde  nunca  conhecera  nenhum 
merceeiro,  e  Hobbes  nunca  tivera  convivência  com  condes.  Por  isso,  nas  suas 
raras entrevistas, a conversação não fora animada. Deve dizer- se, também, que 
Hobbes se sentira esmagado com os esplendores que Lorde Fauntleroy julgava 
de seu dever mostrar-lhe. 

Logo  que  chegara,  à  entrada  do  portão,  os  leões  de  pedra  e  a  avenida, 

tinham-lhe causado uma impressão enorme. E quando viu o castelo, as torres, 
os  jardins,  os  prados,  os  terrenos,  os  pavões,  as  prisões  subterrâneas,  as 
armaduras,  a  escadaria  de  honra,  as  cavalariças,  os  criados  de  libré,  ficou 

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perfeitamente confundido. Mas, o que acabou de o deslumbrar, foi a galeria dos 
quadros.  

-  É  como  um  museu  -  observou  ele  a  Lorde  Fauntleroy,  quando  este  o 

introduziu  no  enorme  e  sumptuoso  salão,  cujas  paredes  estavam  cobertas  de 
quadros. 

- Não... - respondeu Fauntleroy, com ar indeciso. Parece-me que não é um 

museu. O meu avô diz que são os meus antepassados. os avós dos meus avós. - 
explicou ele a Hobbes, com ar interrogador. 

- Os avós dos seus avós - exclamou Hobbes, espantado. - Nunca imaginei 

que  se  pudesse  ter  tantos.  Como  pôde  o  pai  deles  criar  uma  família  tão 
numerosa?! 

Sentou-se numa cadeira e olhou em volta de si, com ar perturbado, até que 

Lorde  Fauntleroy  conseguiu  explicar-  lhe  que  aqueles  retratos  pertenciam  a 
muitas gerações de Dorincourt. 

   Mas, para falar dos seus antepassados, Lorde Fauntleroy achou que era 

melhor  recorrer  à  Sr.  a  Millon,  que  sabia  tudo  quanto  dizia  respeito  àqueles 
retratos. 

   As histórias da Sr.a Millon cativaram Hobbes; depois   de  as  ter  ouvido, 

Hobbes veio muitas vezes da aldeia, onde se hospedara no Hotel do Escudo, até 
ao castelo, só para passar alguns minutos na galeria dos retratos. Contemplava 
um e outro, abanava a cabeça, e repetia: - “Dizer que todas estas pessoas foram 
condes  e  condessas,  e  que  ele  virá  também  a  ser  conde,  como  eles,  e  possuirá 
tudo isto!” No fundo, Hobbes não estava tão indignado com os condes e a sua 
maneira  de  viver,  como  seria  de  esperar.  Pode  mesmo  dizer-se  que  os  seus 
princípios  republicanos  haviam  ficado  um  pouco  abalados,  desde  que  se 
famíliarizara com os condes, os castelos, os antepassados e tudo mais. E um dia,  
teve uma ideia notável e absolutamente inesperada. 

   “- No fim de contas, não me importava de ser conde!”  - exclamara ele, o 

que representava, da sua parte, uma grande concessão. 

O dia do aniversário do pequeno Lorde Fauntleroy foi   verdadeiramente 

maravilhoso. O conde sentia-se feliz como nunca fora! O parque estava lindo: os 
rendeiros,  com  os  seus  trajes  de  festa;  as  bandeiras  que  esvoaçavam  sobre  as 
barracas e nas torres do castelo; tudo, naquele dia, parecia mais belo, enchendo 
o  ar  de  alegria.  Nenhum  convidado  faltou,  porque  toda  a  gente  estava 
encantada pelo facto de o pequeno Lorde Fauntleroy continuar a ser o pequeno 

   Lorde Fauntleroy, futuro senhor daquele domínio. 
   Todos queriam vê-lo de perto, e também a sua linda mãe, que estimavam 

profundamente. Além disso, toda  aquela gente se sentia mais bem-disposta em 
relação  ao  conde,  principalmente  desde  que  se  tinha  reconciliado  com  a  Sr.  a 

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Errol, passando a tratá-la com todas as atenções. Diziam, mesmo; que o conde 
tinha  pela  nora  uma  verdadeira  simpatia  e  que,  na  convivência  dela  e  do 
pequeno lorde, ele viria a tornar-se, com o tempo, o mais amável dos fidalgos, o 
que era motivo de satisfação para todos. 

Sob as árvores, nas barracas e nos campos arrelvados, aglomeravam-se os 

habitantes da aldeia e os camponeses. 

No castelo estavam os amigos que tinham vindo felicitar o conde e Lorde 

Fauntleroy, e também para conhecer a Sr. A Errol. Lady Lorridaile e o marido 
não faltaram, bem como Havisham. A linda Viviana Herbert lá estava também, 
com  uma  vaporosa  “toilette”  branca  e  uma  sombrinha  de  renda,  rodeada  por 
um grupo de rapazes. Mas ela preferia o pequeno Lorde Fauntleroy a todos os 
seus admiradores reunidos. Este, logo que a viu, correu para ela, lançando-lhe 
os braços ao pescoço. 

A jovem fez o mesmo, e beijou-o com tanto entusiasmo e carinho como se 

Cedric fosse seu irmãozinho muito querido. 

-  Meu  pequeno  Lorde  Fauntleroy!  -  exclamou  ela.  Querido  amiguinho! 

Estou muito contente, muito contente! 

Depois, passearam juntos pelo parque, e Cedric sentia-se feliz por fazer as 

honras  do  castelo.  Quando  passaram  no  sítio  onde  se  encontravam  Hobbes  e 
Dick, o pequeno lorde disse à sua gentil companheira: 

- Este é o meu velho amigo Hobbes, e aquele o meu também velho amigo 

Dick, a quem eu disse que a Viviana era muito bonita, e que desejavam imenso 
conhecê-la. 

Ela apertou a mão aos dois e demorou-se uns momentos a conversar com 

eles  da  maneira  mais  amável.  Enquanto  ela  lhes  fazia  perguntas  acerca  da 
América e das suas impressões de Inglaterra, o pequeno Lorde Fauntleroy, de 
cabeça erguida para ela, não deixava de a fitar, corando de alegria ao ver que 
Hobbes e Dick se sentiam felizes. 

-  Palavra  de  honra!  -  disse  Dick,  quando  ela  se  afastou.  -  É  encantadora! 

Ninguém pode dizer o contrário. 

 Por  onde  ela  passava,  todos  a  seguiam  com  o  olhar,  assim  como  ao 

pequeno  lorde,  que  se  apresentou,  nesse  momento,  de  calça  comprida, 
colarinho de goma e laço preto. 

O  sol  brilhava,  as  bandeiras  esvoaçavam  no  ar  e  as  danças  estavam  no 

auge  da  animação.  Lorde  Fauntleroy  sentia-se  imensamente  feliz.  O  mundo 
inteiro parecia-lhe magnffico. Mas havia outra pessoa que sentia uma felicidade 
nova, como nunca experimentara em toda a sua longa vida: um velho fidalgo, 
cuja  existência  agitada  e  faustosa  jamais  lhe  dera  uma  hora  de  verdadeira 
alegria. 

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Cada  dia  se  sentia  mais  afeiçoado  ao  neto  e  à  Sr.  a  Errol.  Já  não  podia 

dispensar a voz doce e a presença encantadora da jovem viúva. Sentado na sua 
grande poltrona, passava horas a conversar com ela e com Lorde Fauntleroy. 

Habituou-se,  então,  a  ouvir  expressões  afectuosas,  que  nunca  ouvira.  E 

compreendeu,  também,  como  um  rapazinho  nascido  e  criado  numa  rua 
modesta de Nova Iorque, convivendo com merceeiros e engraxadores, podia ter 
maneiras  tão  delicadas  e  uma  alminha  tão  nobre  e  corajosa,  que  não 
envergonharia  ninguém,  mesmo  tendo-se  ele  tornado,  inesperadamente,  o 
herdeiro  de  um  grande  nome,  destinado  a  viver  num  dos  mais  sumptuosos 
castelos. 

A razão era simples: Cedric vivera junto de uma mãe de coração afectuoso 

e delicado, que o ensinara a ter somente pensamentos generosos e a mostrar-se 
sempre bom para os seus semelhantes. 

Ao chegar à Inglaterra, Cedric ignorava o poder da riqueza, mas possuía 

uma alma confiante e recta, e isto vale todos os tesouros do mundo. 

Naquele dia, vendo Lorde Fauntleroy andar de um lado para o outro, no 

parque,  para  fazer,  a  todos,  as  honras  da  festa,  o  velho  conde  de  Dorincourt 
sentia-se  verdadeiramente  orgulhoso  do  neto.  E  a  sua  satisfação  aumentou 
ainda, quando ele e o pequenito se dirigiram, juntos,  

a um lindo toldo sob o qual os rendeiros de Dorincourt estavam reunidos 

num grande banquete. 

Começaram,  nessa  altura,  a  fazer  os  brindes  e,  depois  de  terem  bebido  à 

saúde  do  conde,  com  um  entusiasmo  que  o  altivo  fidalgo  nunca  calculara, 
propuseram uma “saúde” a Lorde Fauntleroy. 

 Se  ainda  fosse  possível  alguém  duvidar  da  popularidade  do  pequeno 

lorde,  essas  dúvidas  teriam  desaparecido  naquele  momento.  Que  ruído  de 
vozes! Que estrondosos aplausos! Aquela boa gente, de coração leal, tinha uma 
tal  adoração  pelo  pequeno  lorde,  que,  sem  se  preocupar  com  a  presença  dos 
convidados  do  castelo,  gritaram  quanto  puderam,  para  melhor  exprimirem  o 
seu  entusiasmo:  “Viva  Lorde  Fauntleroy!  Viva!”  As  mulheres,  com  expressão 
maternal,  olhavam  enternecidamente  para  o  pequenito  que  se  conservava  de 
pé, muito direito, entre a mãe e o avô, e diziam umas para as outras: 

- Que Deus abençoe o nosso querido Lorde Faunterey! 
Por seu lado, o pequeno lorde estava deslumbrado! Sorria e fazia gesto de 

saudações para todos os lados, muito corado de prazer. 

- Eles gostam de mim, Querida? - perguntou à mãe. - É por isso que estão 

assim contentes? Oh! Querida como eu me sinto feliz! 

- Agora, Lorde Fauntleroy - disse o conde, pousando a mão no ombro do 

neto -, é preciso dirigir-lhes algumas palavras a agradecer! 

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Fauntleroy ergueu os olhos para o avô e depois para a mãe. 
- Acham que é preciso? - perguntou, levemente intimidado. 
Mas  a  mãe  sorriu-lhe,  Viviana  também,  e  as  duas  inclinaram  a  cabeça. 

Então, Cedric deu um passo para a frente  e falou o mais alto que pode. A sua 
voz  infantil  ressoou,  vibrante  e  clara,  no  silêncio  que  se  estabeleceu 
repentinamente, enquanto todos os olhos se fixavam nele. 

-  Agradeço-lhes  de  todo  o  meu  coração.  Espero  que  tenham  passado 

alegremente  o  dia  do  meu  aniversário.  Por  mim,  tenho-me  sentido  muito 
satisfeito. A princípio julguei que não me agradasse ser conde, mas agora estou 
muito contente. procurarei ser tão bom como o meu avô. 

E,  entre  bravos  e  palmas,  o  pequeno  Lorde  Fauntleroy  recuou  com  um 

suspiro de alívio, deu a mão ao avô e encostou-se a ele, sorrindo. 

Esta  história  deveria  terminar  aqui  se  não  houvesse  ainda  uma  curiosa 

informação para dar aos leitores. Essa informação diz respeito a Hobbes. A vida 
do  castelo  e  a  convivência  com  fidalgos  encantaram  de  tal  forma  o  honrado 
homem, que trespassou a mercearia que tinha em Nova Iorque e instalou-se na 
aldeia  de  Dorincourt,  onde  abriu  uma  loja,  que  prosperou  admiravelmente, 
ajudada pela clientela do castelo. 

Embora  nunca  convivesse  intimamente  com  o  conde,  o  bom  Hobbes 

tornou- se um defensor da fidalguia, ainda mais ferrenho que o próprio conde 
de Dorincourt. Lia todas as manhãs as notícias da corte e seguia, assiduamente, 
os debates da Câmara dos Lordes. 

Alguns anos mais tarde, quando Dick terminou os seus estudos e resolveu 

ir  à  Califórnia  visitar o  irmão,  perguntou  a Hobbes  se  não  desejava  voltar  aos 
Estados Unidos da América; o merceeiro abanou a cabeça e respondeu: 

-  Para  lá  viver,  não.  Prefiro  ficar  aqui.  como  direi?.  a  velar  por  ele.  A 

América  é  um  bom  país  para  os  novos  e  os  audaciosos.  Mas  nem  tudo,  lá,  é 
perfeito... Não sabem o que é um conde... nem têm antepassados. 

 
FIM