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Frances H. Burnett 

 

O Príncipe Desaparecido

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 
 
 
 
 

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Infanto-Juvenil 
 
Círculo de Leitores 
 
Esta  obra  foi  digitalizada  sem  fins  comerciais  e  destina-se  unicamente  à 

leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos 
de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em 
parte, ainda que gratuitamente. 

 
O PRINCIPE DESAPARECIDO 
Tradução de Maria José R. Martins 
Capa de José Antunes 
Ilustrações de João Pedro Cochofel 
CÍRCULO DE LEITORES 

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Os novos inquilinos da Praça Philibert 

 
Há  em  certas  partes  de  Londres  muitos  quarteirões  sombrios,  de  casas 

feias,  mas  de  certeza  que  não  existe  nenhum  mais  horrível  do  que  a  Praça 
Philibert.  Diz-se  que  já  foi  um  local  bem  atraente,  mas  há  tanto  tempo  que 
ninguém  se  lembra.  Ficou  na  memória  pelos  seus  jardins  descuidados  cujas 
vedações rebentadas deveriam protegê-los do tráfego constante de uma estrada 
congestionada  com  camionetas,  táxis,  furgonetas  e  outros  veículos  pesados  e 
também com a constante passagem de pessoas vestidas pobremente, que tanto 
podiam  ir  para  o  trabalho  como  estarem  a  regressar  ou  ainda  andarem  à 
procura de uma ocupação para não morrerem de fome. 

As fachadas de tijolo das casas estavam escurecidas pelo fumo, as janelas 

quase  todas  sujas  e  com  cortinas  baratas  ou  até  mesmo  sem  cortinas.  Os 
canteiros, onde outrora deviam ter existido flores, eram agora constituídos por 
terra  seca,  onde  nem  as  sementes  germinavam.  Um  deles  era  utilizado  como 
pátio  de  cantaria,  onde  estátuas,  cruzes  e  placas  com  inscrições  como  “Em 
memória de...”, estavam à venda. Outro tinha pilhas de madeira velha e outro 
ainda  exibia  mobília  em  segunda  mão,  cadeiras  desengonçadas,  sofás  com  o 
estofo  a  sair  pelos  buracos  e  espelhos  rachados.  O  interior  das  casas  era  tão 
triste  como  a  sua  fachada.  Eram  exactamente  iguais  umas  às  outras.  Em  cada 
uma  delas,  uma  entrada  escura  conduzia  às  escadas  estreitas  que  iam  dar  aos 
quartos do primeiro andar, ou a degraus estreitos que desciam para as cozinhas 
na cave. 

O  quarto  das  traseiras  dava  para  pátios  sujos  e  pequenos,  onde  gatos 

escanzelados lutavam ou se sentavam nos muros esperando por uma pequena 
nesga  de  sol  para  se  aquecerem;  as  casas  da  frente  davam  para  a  tal  estrada 
barulhenta, permitindo que o ruído entrasse pelas janelas. 

Mesmo nos dias bonitos, era feio e sem vida e era o local mais horroroso 

de Londres nos dias chuvosos de nevoeiro. 

Era  isto  que  pensava  um  rapazito,  sentado  na  beira  do  passeio, 

observando quem passava, na manhã seguinte àquela em que, juntamente com 
o  seu  pai,  se  instalou  no  quarto  das  traseiras  do  n.o  7,  e  que  é  quando  esta 
história precisamente começa. 

Tinha cerca de doze anos, o seu nome era Marco Loristan e era um rapaz 

que chamava à atenção. Em primeiro lugar, era alto para a sua idade e de forte 

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constituição,  com  ombros  largos,  pernas  e  braços  compridos  e  fortes.  Estava 
habituado a ouvir dizerem-lhe: 

 Mas que belo rapaz. A sua tez era mais escura do que a dos ingleses ou 

americanos,  de  traços  fortes,  e  espesso  cabelo  preto,  com  olhos  grandes  e 
profundos  que  apareciam  pelo  meio  das  fartas  pestanas.  Era  o  mais  diferente 
possível dos ingleses, e um bom observador via logo pelo seu olhar calmo que 
era pouco falador. 

Isto  notava-se  especialmente  nessa  manhã,  porque  os  seus  pensamentos 

eram de tal natureza que provocariam essa expressão adulta a qualquer rapaz 
de  doze  anos.  Pensava  na  viagem  longa  e  apressada  que  tinha  feito  desde  a 
Rússia, com o pai e o seu criado Lazarus, um antigo soldado. 

Tinham  atravessado  o  continente  a  correr,  enfiados  numa  carruagem 

apertada  de  3.  a  classe,  como  se  algo  muito  importante  ou  terrível  os 
conduzisse. E agora, aqui se encontravam instalados em Londres, como se fosse 
para  sempre,  no  n.o  7  da  Praça  Philibert.  No  entanto,  sabia  que  embora 
pudessem  ficar  um  ano,  era  mesmo  muito  provável  que,  a  meio  de  qualquer 
noite,  u  seu  pai  ou  Lazarus  o  viessem  acordar  e  lhe  dissessem:  Levanta-te  e 
veste-te depressa; temos de partir imediatamente. Dias mais tarde, tanto podia 
estar  em  Petrogrado  como  em  Berlim,  Viena  ou  Budapeste,  desterrado  numa 
casa tão pequena e desconfortável como este n.o 7 da Praça Philibert. 

E com estes pensamentos passou a mão pela testa, continuando a observar 

os autocarros. Mas embora a vida estranha e a íntima ligação que tinha com o 
pai,  o  tivessem  feito  parecer  mais  velho,  era  somente  um  rapaz  e  por  vezes  o 
mistério das coisas pesava muito nele e obrigava-o a pensar profundamente. 

Em  nenhum  dos  muitos  países  por  onde  tinha  passado  encontrara 

ninguém que tivesse tido uma vida como a sua. Os outros tinham sempre lares 
onde  viviam  ano  após  ano;  iam  regularmente  à  escola,  brincavam  uns  com  os 
outros, falavam das coisas que lhes tinham acontecido e das viagens que tinham 
feito. Quando alguma vez ficava num local tempo suficiente para fazer amigos, 
nunca  podia  esquecer  que  toda  a  sua  existência  era  uma  espécie  de  segredo, 
cuja segurança dependia do seu próprio silêncio e discrição. 

Acontecia-lhe  isso  devido  às  promessas  que  tinha  feito  ao  pai  e  que 

tinham sido a primeira coisa que se lembrava de ter feito. Não que alguma vez 
se  tivesse  arrependido  de  algo  relacionado  com  o  pai.  Ao  pensar  nisso  erguia 
orgulhosamente  a  cabeça.  Nenhum  dos  rapazes  tinha  a  sorte  de  ter  um  pai 
assim,  nem  sequer  um  só.  O  pai  era  para  ele  um  ídolo  e  um  chefe.  Mal  se 
lembrava de o ter visto com outras roupas menos pobres e coçadas, mas, apesar 
disso, era sempre o mais distinto. 

Quando  ele  passava  pela  rua,  as  pessoas  voltavam-se  para  o  ver,  muito 

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mais vezes do que se viravam para olharem para Marco, e o rapaz pensava que 
isso não se devia ao facto de o pai ser um homem alto, fino e de tez escura, mas 
porque  ele  parecia  de  algum  modo  ter  nascido  para  comandar  exércitos,  e  a 
quem  ninguém  ousaria  desobedecer.  Contudo,  Marco  nunca  o  tinha  visto 
comandar ninguém, e eles sempre tinham sido pobres e andado mal vestidos e 
mesmo muitas vezes subalimentados. Mas onde quer que estivessem, as poucas 
pessoas que o viam, tratavam-no com deferência e quase sempre se levantavam 
quando estavam na sua presença, a não ser que ele os convidasse a sentarem-se. 

Com  certeza,  é  porque  eles  sabem  que  é  um  patriota,  e  os  patriotas  são 

sempre respeitados, pensava o rapaz. 

Ele próprio queria ser um patriota, embora nunca tivesse visto o seu país, 

a Samávia. No entanto conhecia-o muito bem. 

O pai tinha-lhe falado muito dele, desde aquele dia em que tinha feito as 

tais  promessas.  Ensinara-o  a  reconhecê-lo,  ajudando-o  a  estudar  mapas 
detalhados  com  as  suas  cidades,  montanhas  e  estradas.  Contara-lhe  os  males 
que  tinham  sido  infligidos  ao  seu  povo,  os  seus  sofrimentos  e  lutas  pela 
liberdade e, acima de tudo, a sua inabalável coragem. Quando conversavam um 
com o outro acerca da história do seu país, o sangue corria velozmente e ardia 
nas  veias  de  Marco,  e ele  sabia  que  o  coração  do  pai também  batia  forte,  pelo 
fulgor  que  lhe  perscrutava  no  olhar.  Os  seus  compatriotas  tinham  sido 
roubados  e  morrido  aos  milhares  em  consequência  de  sevícias  e  fome,  mas 
nunca lhes conseguiram conquistar a alma; e através de todos aqueles anos, em 
que  países  mais  poderosos  foram  subjugados  e  aprisionados,  eles  nunca 
pararam de lutar para reaverem a liberdade que tinham gozado durante tantos 
séculos. 

-  Porque  não  vivemos  nós  lá?  -  gritou  Marco  no  dia  em  que  fez  as 

promessas. - Porque não voltamos para lá e lutamos? Quando for crescido serei 
soldado e morrerei pela Samávia. 

- Nós somos dos que têm de viver para a Samávia, trabalhando dia e noite 

- respondeu o pai. - Esquecendo-nos de nós próprios, treinando corpo e espírito, 
aprendendo  o  que  for  melhor  para  o  nosso  povo  e  para  o  nosso  país.  Até 
mesmo  os  exilados  podem  ser  soldados  samavianos.  Eu  sou  um  deles  e  tu 
deves ser outro. 

- Nós somos exilados? - perguntou Marco. Um estranho olhar perpassou 

pela cara do pai. 

-  Não  -  respondeu,  e  não  disse  mais  nada.  Marco,  que  o  conhecia  bem, 

sabia que não devia repetir a pergunta. 

As  palavras  que  o  pai  proferiu  a  seguir  foram  acerca  das  promessas  que 

tinham  acabado  de  fazer.  Marco  era  ainda  muito  pequeno  nessa  altura,  mas 

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percebeu a solenidade delas, e sentiu-as como uma honra, como se fosse já um 
homem. 

-  Quando  fores  homem,  saberás  tudo  o  que  agora  queres  saber  -  disse 

Loristan.  -  Agora  és  ainda  uma  criança,  e  a  tua  cabecinha  não  deve  ser 
sobrecarregada com muita coisa. Mas tens uma missão. Por vezes uma criança 
esquece-se  de  que  as  palavras  podem  ser  perigosas.  Tens  de  prometer  que 
nunca te esquecerás disto. 

Onde  quer  que  estejas,  se  tiveres  colegas,  tens  de  permanecer  silencioso 

acerca de muitas coisas. Não podes falar do que eu faço, nem das pessoas que 
me visitam. Não deves mencionar as coisas da tua vida que a tornam diferente 
da  dos  outros  rapazes.  Tens  de  te  lembrar  que  existe  um  segredo,  e  que  uma 
simples palavra o pode trair. És um Samaviano, e houve Samavianos que teriam 
dado  a  vida  milhares  de  vezes  para  não  terem  de  trair  um  segredo.  Tens  de 
aprender a obedecer sem fazer perguntas, como se fosses um soldado. E agora 
tens de prestar juramento de obediência. 

Levantou-se  e  dirigiu-se  para  um  canto  da  sala.  Ajoelhou-se,  arrastou  o 

tapete, levantou uma tábua do chão e tirou algo que se encontrava debaixo. Era 
uma espada; e, ao voltar para ao pé de Marco, desembainhou-a. O pequeno mas 
forte  corpo  da  criança  empertigou-se  e  os  grandes  olhos  faiscaram.  Ia  prestar 
juramento  de  obediência  sobre  uma  espada,  como  se  fosse  um  homem.  Não 
sabia  que  a  sua  pequena  mão  abria  e  fechava  num  aperto  de  entendimento, 
porque  os  do  seu  sangue  tinham  transportado  durante  séculos  espadas  e 
combatido com elas. 

Loristan  entregou-lhe  a  grande  espada  desembainhada,  e  colocou-se 

aprumado diante dele.  

- Repete todas as palavras que eu disser! - ordenou. 
E à medida que as pronunciava, Marco repetia-as em alto e bom som. 
-  Na  minha  mão  a  espada,  pela  Samávia!  No  meu  peito  o  coração,  pela 

Samávia!  A  vivacidade  do  meu  olhar,  os  meus  ideais,  a  vida  da  minha  vida, 
pela Samávia! Aqui se faz um homem pela Samávia. Deus seja louvado! 

Nesta  altura  Loristan  colocou  a  mão  no  ombro  da  criança,  e  o  seu  rosto 

moreno irradiava orgulho. - A partir deste momento - disse ele -, tu e eu somos 
companheiros de armas. 

E, desde então, até ao dia em que se achou por detrás do gradeamento do 

n.o 7 da Praça Philibert, Marco nunca mais se esqueceu disso. 

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Um jovem cidadão do mundo

 

 
Marco já tinha estado em Londres mais do  que uma vez, mas nunca nos 

alojamentos  da  Praça Philibert.  Quando  o traziam  para  uma  cidade  ou  capital 
pela segunda ou terceira vez, já sabia que a casa para onde seria levado ficaria 
num  bairro  que  ainda  não  conhecia,  e  que  não  tornaria  a  ver  as  pessoas  que 
tinha  encontrado  anteriormente.  Quaisquer  traços  de  ligação  que  o  unissem  a 
outras  crianças  tão  pobres  e  maltrapi  lhas  como  ele,  por  mais  frágeis  que 
fossem,  eram  imediatamente  quebrados.  O  seu  pai  nunca  o  tinha  proibido  de 
fazer amizades fortuitas. 

Havia-lhe até dito, na verdade, que tinha as  suas razões para não  querer 

que o filho se mantivesse indiferente aos outros rapazes. A única barreira que 
devia  existir  entre  eles,  devia  ser  a  de  manter  silêncio  em  tudo  o  que  dissesse 
respeito  às  suas  deambulações  de  país  para  país.  Os  rapazes  tão  pobres  como 
ele,  não  faziam  viagens  constantes,  portanto  nem  davam  por  isso,  quando  ele 
não as referia, ao conversarem uns com os outros. Se estava na Rússia só devia 
falar dos locais russos e do povo russo com os seus costumes. E  devia fazer o 
mesmo quer se encontrasse em França, na Alemanha, Áustria ou Inglaterra. 

Quando aprendeu inglês, francês, alemão, italiano e russo, não sabia para 

que lhe serviria isso. Parecia-lhe ter crescido no meio de línguas em constante 
mudança, mas habituara-se a todas, tal como as crianças   

se  adaptam  aos 

idiomas dos locais em que vivem. Contudo, lembrava-se que o seu pai sempre 
prestara atenção à sua pronúncia e à sua maneira de falar fosse qual fosse o país 
em que estivessem a viver na ocasião. 

- Não deves parecer estrangeiro em nenhum país. 
É necessário que o não pareças. Se estiveres em Inglaterra, não podes saber 

francês, alemão nem nenhuma 

outra língua além do inglês. 
Uma vez, quando ele tinha sete ou oito anos, um rapaz que ele conhecera 

perguntara-lhe qual era o trabalho que o pai fazia. 

- O pai dele é carpinteiro, e ele perguntou-me se o meu também era - foi 

assim  que  Marco  contou  a  história  a  Loristan.  -  Mas  eu  disse  que  não. 
Lembrei-me que o pai está quase sempre a escrever e a desenhar mapas, e então 
disse que era escritor, mas que eu  não sabia  o que é que escrevia,  e que o pai 

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tinha dito que era uma profissão pobre. Tinha ouvido o pai dizer isso uma vez a 
Lazarus. Foi uma coisa acertada, o que lhe disse? 

- Sim. Podes sempre dizer isso quando te perguntarem. 
Foi  isto  que  Loristan  lhe  respondeu,  e  desde  aquela  altura,  se,  por 

qualquer razão, perguntavam a Marco quais eram os meios de sobrevivência do 
pai,  era  muito  simples,  e  quase  verdade,  dizer  que  ele  escrevia  para  ganhar  o 
pão de cada dia. 

Estava  muito  aborrecido  nessa  primeira  manhã.  Desejava  ter  algo  para 

fazer  ou  alguém  com  quem  falar.  Londres,  tal  como  a  olhava  em  Marylebone 
Road,  parecia  um  sítio  horrível.  Era  suja,  miserável  e  cheia  de  pessoas  com  ar 
triste. Além disso já não era a primeira vez que via as mesmas coisas, o que o 
fazia sempre desejar ter algo com que se ocupar. 

De repente afastou-se do portão e entrou em casa para falar com Lazarus. 

Foi encontrá-lo entretido no seu cubículo sombrio, no quarto andar nas traseiras 
da casa. 

-  Vou  passear  -  comunicou-lhe.  -  Por  favor  diz  isso  ao  meu  pai,  se  ele 

perguntar por mim. Ele agora está ocupado e não devo interrompê-lo. 

Lazarus  estava  a  remendar  um  casaco  velho,  como  costumava  fazer  com 

todas as coisas, até mesmo, por vezes, com os sapatos. Quando Marco falou, ele 
levantou-se logo para lhe dar atenção. Era muito caprichoso e minucioso nestas 
questões  de  delicadeza.  Nada  deste  mundo  o  faria  ficar  sentado  quando 
Loristan  ou  Marco  estivessem  ao  pé  dele.  Marco  pensava  que  era  por  ele  ter 
sido  treinado  para  soldado  com  tanto  rigor.  Sabia  que  o  seu  pai  tinha  tido 
imenso  trabalho  para  o  desabituar  de  fazer  a  costumada  saudação  quando 
falassem com ele. 

-  Talvez  -  ouvira  Marco  uma  vez  Loristan  dizer  quase  severamente, 

quando ele se tinha esquecido e se pusera a fazer a saudação, no momento em 
que o seu amo atravessava um portão desengonçado que dava para a entrada 
de uma casa igualmente com ar desprezado que estava para arrendar -, talvez te 
consigas lembrar se eu te disser que não é seguro, nada seguro mesmo! Podes 
pôr-nos em perigo! 

É claro que isto ajudou o bom homem a controlar-se. Marco lembrava-se 

que nessa altura ele ficara pálido, batera na testa e dissera de enfiada uma série 
de palavras em samaviano, como que a servir de desculpa. Mas, se nunca mais 
os tinha saudado em  público,  não deixara todavia de usar outras maneiras de 
mostrar  consideração  e  cerimónia,  acostumando-se  por  isso  o  rapaz  a  ser 
tratado  como  se  ele,  Lazarus,  não  passasse  de  um  pobre  tipo  de  casaco 
remendado. 

- Sim, senhor - respondeu Lazarus. - E onde gostaria de ir? 

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Marco  levantou  um  pouco  as  sobrancelhas  escuras,  tentando  recordar-se 

dos sítios de Londres, em que estivera da última vez. 

- Visitei tantos lugares e vi tantas coisas desde que aqui estive, que devo 

começar  a  fixar  novamente  as  ruas  e  os  prédios  de  que  já  não  me  consigo 
lembrar. 

- É verdade, senhor - disse Lazarus. - Passou tanto tempo, e só tinha oito 

anos quando cá esteve da última vez. 

- Acho que vou ver se descubro o Palácio Real, e depois vou andar por aí a 

tentar decorar os nomes das ruas - disse Marco. 

-  Sim,  senhor  -  respondeu  Lazarus  fazendo  desta  vez  a  sua  saudação 

militar. 

Marco  levantou  a  sua  mão  direita  em  sinal  de  agradecimento,  como  se 

fosse  um  jovem  oficial.  A  maior  parte  dos  rapazes  poderia  ter  parecido 
desajeitado ou ridículo ao fazer este gesto, mas ele fê-lo com à-vontade, porque 
se  tinha  familiarizado  com  esta  prática  desde  a  infância.  Observara  oficiais  a 
retribuir as saudações dos seus subalternos, quando se cruzavam por acaso nas 
ruas; vira príncipes levando calmamente a mão aos seus capacetes, em sinal de 
agradecimento,  quando  passavam  por  entre  as  multidões  que  os  aplaudiam. 
Tinha visto muitos cortejos reais, mas sempre e só como um rapaz mal vestido 
despercebido entre a multidão. Embora pobre, um jovem cheio de energias não 
pode  passar  o  tempo  a  ir  de  um  país  para  outro,  sem  se  acostumar  a  ter 
conhecimento da vida pública de realezas e grandes senhores, como se isso não 
passasse de um mero acontecimento do dia a dia. Marco assistira já à visita de 
imperadores  em  países  do  continente.  Nas  grandes  capitais,  ele  sabia  onde  é 
que as sentinelas se colocavam diante dos palácios. Já tinha visto algumas faces 
reais vezes suficientes para as conhecer bastante bem e estar pronto a saudá-las, 
quando  as  suas  carruagens  particulares  calma  e  inesperadamente  passassem 
por ele. 

-  É  bom  conhecê-las.  Devemos  observar  tudo  e  treinarmo-nos  a  tentar 

lembrar  caras  e  situações  -  dissera  o  seu  pai.  -  Se  fosses  um  príncipe  ou  um 
jovem  a  treinar-se  para  uma  carreira  diplomática,  ensinar-te-iam  a  reparar  e  a 
lembrares-te  das  pessoas  e  das  coisas,  assim  como  te  ensinariam  a  usar  com 
elegância a tua própria língua. É uma experiência útil para toda a gente: tanto 
para  um  pobre  tipo  de  casaco  remendado  como  para  outro  habituado  a 
frequentar  a  corte.  Mas  como  tu  não  podes  ser  educado  da  maneira  normal, 
tens de aprender a partir das viagens que fazes e do mundo que te rodeia. Não 
deves perder nada, nem esqueceres-te de coisa nenhuma. 

Fora  o  seu  pai  quem  lhe  ensinara  tudo,  e  com  ele  aprendera  muito. 

Loristan  tinha  o  poder  de  tornar  as  coisas  fascinantes.  Marco  achava  que  ele 

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sabia tudo. Eles não eram suficientemente ricos para poderem comprar muitos 
livros,  mas  Loristan  conhecia  as  riquezas  de  todas  as  grandes  capitais  e  os 
recursos  das  mais  pequenas  cidades.  Juntos,  ele  e  o  filho,  tinham  percorrido 
galerias  repletas  de  obras  primas  mundiais,  de  quadros  diante  dos  quais 
haviam  desfilado,  através  dos  séculos,  cortejos  ininterruptos  de  olhares 
enlevados. 

Por  não  ter  companheiros  nem  nada  com  que  brincar  quando  ainda  era 

pequeno,  começou  a  conceber  uma  espécie  de  jogo  a  partir  das  suas 
deambulações através de galerias de pintura. Consistia em tentar lembrar-se de 
tudo  quanto  conseguisse,  para  poder  descrever  com  todos  os  pormenores  ao 
pai, quando à noite se sentassem os dois a conversar sobre o que ele tinha visto. 
Estas conversas com o pai, à noite, preenchiam as suas horas mais felizes. Nessa 
altura  não  se  sentia  só,  e  quando  o  pai  se  sentava  ao  pé  dele  e  o  olhava  nos 
olhos, dando-lhe toda a atenção, então ainda mais confortado e contente ficava. 
Por  vezes  trazia  esboços  rápidos  de  objectos  sobre  os  quais  queria  fazer 
perguntas,  e  Loristan  conseguia  sempre  contar-lhe  uma  história  completa 
acerca daquilo que ele queria saber. E eram histórias tão cheias de colorido e tão 
bem contadas que Marco não as podia esquecer mais. 

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A lenda do Príncipe Desaparecido

 

 
Enquanto  passeava  pelas  ruas,  ia  precisamente  a  pensar  numa  destas 

histórias.  Tinha-a  ouvido  contar  pela  primeira  vez  quando  ainda  era  muito 
novo, e de tal maneira ela se tinha fixado na sua imaginação, que pedia muitas 
vezes que lha contassem. Fazia parte da longa história do passado da Samávia, 
e  era  essa  a  razão  por  que  ele  gostava  tanto  dela.  Lazarus  tinha-lha  contado 
algumas vezes, mas ele gostara sempre mais da versão do seu pai, por ser mais 
viva  e  emocionante.  Na  sua  viagem  de  regresso  da  Rússia,  quando  foram 
forçados  a  esperar  durante  uma  hora  numa  fria  estação  secundária,  Loristan 
tendo  achado  que  era  muito  tempo,  resolveu  discutir  a  história  com  ele. 
Loristan  procurava  sempre  uma  maneira  de  tornar  as  horas  difíceis  e 
desconfortáveis mais fáceis de serem vividas. 

-  Que  grande  homem,  para  um  estrangeiro!  -  ouviu  Marco  um  homem 

dizer  para  o  seu  companheiro,  quando  passava  por  eles  naquela  manhã.  - 
Parece Polaco ou Russo. 

E foi isto que o fez lembrar-se da história do Príncipe Desaparecido. Sabia 

que  a  maior  parte  das  pessoas  que  olhavam  para  ele  e  lhe  chamavam 
“estrangeiro”  nem  sequer  tinham  ouvido  falar  da  Samávia.  E  aqueles  que  por 
acaso se lembravam da sua existência, sabiam apenas que era um pequeno país 
selvagem,  de  tal  maneira  situado  no  mapa,  que  os  países  maiores,  seus 
vizinhos,  achavam  que  o  deviam  controlar  e  mantê-lo  na  ordem,  e  portanto 
estavam  sempre  a  fazer  incursões  ao  seu  interior  para  combater  o  seu  povo  e 
tentar  apoderar-se  dele.  Mas  nem  sempre  isso  tinha  acontecido.  Era  um  país 
muito  antigo  que,  no passado,  fora  célebre  tanto  pela  sua  pacífica  felicidade  e 
riqueza, como pela beleza das suas paisagens. Dizia-se muitas vezes que era um 
dos  locais  mais  belos  do  mundo.  E  havia  até  uma  lenda  samaviana  que 
afirmava ter sido aí o paraíso. Nesses séculos passados, as suas gentes eram de 
uma tal estatura e beleza física que pareciam ser uma raça de gigantes nobres. 
Vivia  lá  nessa  altura  um  povo  de  pastores,  cujas  ricas  colheitas  e  esplêndidos 
rebanhos eram motivo de inveja dos países menos férteis. Entre os pastores e os 
lavradores  havia  poetas  que  cantavam  as  suas  próprias  canções  quando 
tocavam  flauta  ao  pé  das  suas  ovelhas,  fosse  nas  montanhas,  fosse  nos  vales 
cobertos  de  flores.  As  suas  canções  eram  sobre  patriotismo,  coragem  e 

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fidelidade para com os seus chefes e com o seu país. A cortesia simples do mais 
pobre  camponês  era  tão  digna  como  a  conduta  de  um  nobre.  Mas  isso,  como 
dissera  Loristan  com  um  esmorecido  sorriso,  tinha  sido  antes  de  eles  serem 
forçados a lutar pela sobrevivência e esquecer o Jardim de Eden. 

Há quinhentos anos subira ao trono um rei mau e fraco. O seu pai vivera 

até  aos  noventa  anos  e  o  filho  tinha-se  cansado  de  esperar  na  Samávia  pela 
coroa.  Partira  para  o  mundo  e  visitara  outros  países  e  as  suas  cortes.  Quando 
regressou e se tornou rei, viveu como nenhum outro rei Samaviano tinha vivido 
anteriormente. 

Era  um  homem  extravagante,  cheio  de  vícios,  com  um  temperamento 

impetuoso  e  senhor  de  uma  inveja  amarga.  Invejava  as  cortes  maiores  dos 
países  que  tinha  visitado  e  tentava  por  isso  introduzir  no  seu  próprio  país  os 
seus costumes e as suas ambições. Acabou afinal por introduzir os seus piores 
defeitos e vícios, o que fez iniciar lutas políticas e levou à formação de facções 
descontentes. O dinheiro que existia foi esbanjado até que a  pobreza começou 
pela  primeira  vez  a  perturbar  o  povo.  Os  Samavianos  importantes,  depois  do 
primeiro impacto, irromperam com grande fúria. Houve tumultos e distúrbios, 
e em seguida batalhas sangrentas. Visto que tinha sido o rei que estragara tudo, 
não  queriam  nada  com  ele.  Depuseram-no  e  no  seu  lugar  colocaram  o  filho. 
Nesta  parte  da  história,  Marco  ficava  verdadeiramente  interessado.  O  jovem 
príncipe não se parecia nada com o seu pai. Era um verdadeiro Samaviano de 
sangue  real,  mais  alto  e  mais  forte  para  a  sua  idade  do  que  qualquer  outro 
homem no país, e tão moreno como um jovem deus viking. E, além de tudo o 
mais,    ele  tinha  também  um  coração  de  leão  e  por  isso,  antes  mesmo  de  ter 
dezasseis anos, já os pastores e lavradores tinham começado a compor canções 
sobre o seu valor, acerca da sua cortesia principesca e da sua bondade sublime. 
Até as pessoas as cantavam na rua também. 

O  rei,  seu  pai,  tinha  sempre  tido  inveja  dele,  mesmo  quando  ainda  era 

uma  criança  e  as  pessoas  corriam  com  alegria  para  o  verem  se,  por  acaso, 
passava pelas ruas. 

Logo que regressou das suas excursões e descobriu que o seu filho se tinha 

tornado  num  belo  adolescente,  detestou-o.  O  povo  começou  a  exigir  que  ele 
abdicasse  e,  a  partir  daí,  tornou-se  louco  de  raiva  e  começou  a  praticar  tais 
crueldades e horrores que fez enfurecer as pessoas. Um dia atacaram o palácio, 
dominaram e mataram os guardas e lançando-se sobre o rei nos seus próprios 
aposentos, fazendo-o tremer de medo e fúria. 

Gritavam  que  ele  já  não  era  mais  o  rei  e  que  tinha  de  deixar  o  país,  e 

iam-no cercando, mostrando-lhe as ar mas que traziam consigo. Onde estava o 
príncipe, que eles queriam para rei? Começaram então a gritar pelo seu nome, 

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bem alto, entoando uma espécie de canção em coro. 

- Príncipe Ivor, Príncipe Ivor, Príncipe Ivor!mas não obtiveram resposta. O 

pessoal  do  palácio  tinha-se  escondido  e  o  local  ficara  totalmente  deserto  e 
silencioso. 

O rei apesar de aterrorizado não podia deixar de escarnecer: 
-  Chamem-no  outra  vez  -  disse  ele.  -  Ele  tem  medo  de  sair  do  seu 

esconderijo! 

Um dos montanheses mais selvagem esmurrou-o na boca. 
-  Tem  medo?  -  exclamou  o  montanhês.  -  Se  o  Príncipe  não  aparece,  é 

porque tu o assassinaste, e então serás um homem morto! 

Isto  entusiasmou-os  mais  ainda.  Retiraram-se,  deixando  três  deles  de 

guarda,  e  correram  pelas  salas  vazias  do  palácio  gritando  pelo  nome  do 
príncipe. Mas não obtiveram resposta. Procuraram-no com frenesim em todo o 
lado, derrubando qualquer obstáculo que se lhes interpusesse no caminho. Um 
pagem escondido num cubículo, afirmou que tinha visto Sua Alteza Real passar 
de  manhã  cedo,  num  corredor,  a  cantar  baixinho  para  si  próprio  uma  das 
canções dos pastores. 

E foi assim desta maneira estranha que o príncipe desapareceu da história 

da Samávia, há quinhentos anos, uma vez que nunca mais foi visto. 

Procuraram-no  em  todos  os  recantos,  pensando  que  o  rei  o  fizera 

prisioneiro  e  o  escondera  ou  até  que  talvez  o  tivesse  morto.  A  fúria  do  povo 
aumentou até à loucura. Havia sempre novas investidas e de vez em quando o 
palácio era atacado para vasculharem tudo de novo. Mas nunca foi encontrada 
qualquer  pista  do  príncipe.  Sumira-se  como  se  fosse  uma  estrela  cadente  que 
desaparece. Durante um ataque ao palácio, quando a última busca foi feita, o rei 
foi assassinado por um nobre poderoso que encabeçava um dos ataques, e que 
depois  se  auto-proclamou  rei.  A  partir  dessa  altura  o  pequeno  reino, 
anteriormente  maravilhoso,  converteu-se  num  osso  disputado  por  cães.  A  sua 
paz  bucólica  desapareceu,  visto  que  os  países  mais  poderosos  ameaçavam 
atacá-lo  e  invadi-lo.  Internamente  também  se  destruía  com  as  suas  inúmeras 
revoluções.  Isto  levava  a  que  os  sucessivos  reis  fossem  sistematicamente 
assassinados  e  logo  outros  escolhidos  para  ocupar  o  lugar.  Ninguém  podia 
prever,  quando  ainda  fosse  jovem,  quais  seriam  as  regras  por  que  teria  de  se 
guiar na idade adulta, ou se os seus filhos morreriam em combates inúteis, ou 
sob  a  pressão  da  pobreza  e  crueldade,  com  leis  sem  qualquer  valor.  Já  não 
existiam nem pastores nem camponeses que fossem poetas, mas, mesmo assim, 
ainda  se  ouviam  por  vezes  nas  montanhas  e  nos  vales  algumas  das  antigas 
canções. As mais apreciadas eram as que versavam um Príncipe Desaparecido, 
que tinha tido o nome de Ivor. Se tivesse sido rei, teria salvo a Samávia, era o 

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que diziam os versos, e todos os corações corajosos acreditavam que ele ainda 
regressaria.  Nas  cidades  modernas  um  dos  ditos  mais  irónicos  era:  “Pois,  isso 
deve suceder quando o Príncipe Ivor voltar outra vez”. 

Na  sua  infância,  Marco  preocupara-se  amargamente  com  o  mistério  sem 

solução.  Para  onde  teria  ido  o  Príncipe  Desaparecido?  Teria  sido  morto  ou 
escondido  em  qualquer  calabouço?  Mas  se  ele  era  tão  grande  e  tão  corajoso, 
teria  fugido  de  qualquer  masmorra.  O  rapaz  tinha  inventado  para  si  próprio 
uma dúzia de finais para a história. 

-  Nunca  ninguém  terá  encontrado  a  sua  espada  ou  a  sua  capa,  nem  terá 

ouvido ou descoberto nada acerca dele? - repetia, impacientemente, vezes sem 
conta. 

Numa noite de Inverno, estando sentados juntos à lareira de uma pequena 

sala  gelada  numa  fria  cidade  da  Áustria,  ele  tinha  sido  tão  insistente  e  fizera 
tantas  perguntas  minuciosas,  que  o  pai  lhe  deu  uma  resposta  como  nunca  lhe 
tinha  dado  antes,  e  que  era  uma  espécie  de  final  para  a  história,  embora  não 
muito satisfatório: 

-  Toda  a  gente  se  deitou  a  adivinhar  como  tu.  Alguns  pastores  muito 

velhos  que  viviam  nas  montanhas,  e  que  gostavam  de  acreditar  em  contos 
antigos,  relatavam  um  facto  que  a  maior  parte  das  pessoas  considera  uma 
lenda.  Diziam  que,  quase  cem  anos  depois  do  príncipe  ter  desaparecido,  um 
velho pastor contara uma história que o seu  pai, morto há muito, lhe confiara 
em segredo, ao morrer. O pai dissera que num dia de manhã cedo, ao subir pela 
encosta  da  montanha,  encontrara  na  floresta  o  que  ao  princípio  julgou  ser  o 
corpo  inanimado  de  um  belo  caçador  jovem,  certamente  atacado  por  alguém 
que pensara que o matara. Mas ele não estava completamente morto, e, então, o 
pastor  tinha-o  arrastado  para  dentro  de  uma  caverna,  onde  por  vezes  se 
costumava refugiar das tempestades. Como havia lutas e desordem na cidade, 
receou dizer o que havia encontrado; e mais tarde, quando descobriu que dava 
guarida ao príncipe, já o rei havia sido morto e um homem ainda pior se tinha 
apoderado do trono,  governando a Samávia a ferro e fogo. O que pareceu mais 
seguro  para  o  simples  camponês  assustado,  foi  levar  o  jovem  ferido  para  fora 
do país, antes que houvesse hipótese de ser descoberto e assassinado, como de 
certeza  aconteceria.  A  caverna  em  que  o  príncipe  estava  escondido  não  ficava 
longe  da  fronteira,  e  como  se  encontrava  ainda  tão  fraco,  que  mal  tinha 
consciência do que se passava, atravessou-a clandestinamente, escondido num 
carro  carregado  de  peles  de  cabra,  tendo  sido  levado  por  alguns  monges  que 
desconheciam  a  sua  origem  ou  nome.  O  pastor  regressou  com  o  seu  rebanho 
para  as  montanhas  e  lá  viveu  e  morreu,  sempre  no  terror  das  mudanças 
constantes  de  reinado,  com  as  sangrentas  batalhas  que  sempre  as 

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acompanhavam.  Os  montanheses  diziam  entre  eles,  à  medida  que as  gerações 
se sucediam, que o Príncipe Desaparecido devia ter morrido jovem, porque de 
contrário teria regressado ao seu país, para tentar restabelecer a ordem e a paz. 

- Claro, ele teria regressado - disse Marco. 
-  Teria  regressado  se  achasse  que  podia  ajudar  o  seu  povo  -  respondeu 

Loristan,  como  se  não  se  estivesse  a  referir  a  uma  história  que  provavelmente 
não passaria de uma lenda. - Mas ele era muito jovem e a Samávia estava nas 
mãos de uma nova dinastia em que os seus inimigos dominavam. Não poderia 
ter atravessado a fronteira sem um exército. Continuo a pensar que ele morreu 
jovem. 

Era nesta história que Marco ia a pensar quando caminhava pelas ruas, e 

talvez os pensamentos que surgiam na sua mente transparecessem para a cara 
de uma maneira que poderia chamar a atenção. Ao aproximar-se do Palácio de 
Buckingham, um homem, de boa aparência, muito bem vestido e com um olhar 
perspicaz,  avistou-o,  e  depois  de  o  ter  observado  com  interesse,  abrandou  o 
passo à medida que se aproximava. Um 

bom  observador  teria  pensado  que  ele  vira  algo  que  o  intrigara  e 

surpreendera.  Marco  não  o  tinha  visto  e  continuava  a  avançar  pensando  nos 
pastores  e  no  príncipe.  O  homem  bem  vestido  começou  a  andar  ainda  mais 
devagar.  Quando  estava  bastante  perto  de  Marco,  parou  e  falou-lhe  em 
samaviano. 

- Como se chama? - perguntou ele. O treino de Marco tinha sido, desde a 

infância, um assunto muito sério. O seu amor pelo pai tinha tornado esse treino 
uma  coisa  simples  e  natural  e  nunca  se  questionou  sobre  a  sua  razão  de  ser. 
Assim  como  fora  ensinado  a  guardar  silêncio,  também  o  fora  a  controlar  a 
expressão do rosto, o som da voz e, acima de tudo, a não mostrar surpresa. Mas 
nesta altura ele podia ter ficado espantado por ter ouvido o som extraordinário 
daquelas palavras pronunciadas em samaviano, numa rua de Londres e por um 
senhor  Inglês.  Podia  até  ter  respondido  à  pergunta  em  samaviano.  Mas  não  o 
fez. Com cortesia, tirou o boné e replicou em inglês: 

- Como diz? 
O  olhar  perspicaz  do  homem  perscrutou-o  com  interesse.  E  em  seguida 

falou-lhe também em inglês. 

- Talvez não compreenda. Perguntei o seu nome, porque se parece muito 

com um samaviano que conheço - disse ele. 

- Eu sou Marco Loristan - respondeu o rapaz. 
O homem olhou-o bem nos olhos e sorriu. 
- Não é esse o nome - disse. - Peço desculpa, meu rapaz. 
Estava  prestes  a  continuar  a  andar,  tendo  mesmo  chegado  a  dar  uns 

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passos, quando parou e se virou para trás. 

- Pode dizer ao seu pai que é um rapaz muito bem treinado. Foi o que quis 

descobrir - e depois continuou a andar. 

Marco sentia que o seu coração batia um pouco apressadamente. Este foi 

um  dos  vários  incidentes  que  tinham  ocorrido  durante  os  três  últimos  anos  e 
que o fizeram sentir que vivia de um modo misterioso, que sugeria perigo. Mas 
ele próprio nunca ligou muito a isso. Porque é que havia de ter importância o 
facto  de  ele  ser  bem  comportado?  Nessa  altura  lembrou-se  de  uma  coisa.  O 
homem não tinha dito “bem educado” mas sim “bem treinado”. Bem treinado 
de que maneira? 

Sentiu a testa enrugar-se quando pensou no sorriso e olhar perspicaz que 

ele  tinha  mostrado.  Teria  o  homem  falado  com  ele  em  samaviano  para  o 
experimentar,  para  ver  se  ele  ficava  espantado  e  se  esquecia  que  tinha  sido 
treinado  para  parecer  saber  só  a  língua  do  país  em  que  vivia?  Mas  ele  não  se 
tinha  esquecido.  Lembrava-se  muito  bem  e  dava  graças  por  não  se  ter  traído 
fosse no que fosse. 

   -  Até  mesmo  os  exilados  podem  ser  soldados  samavianos.  Eu  sou  um 

deles. Tu deves vir a ser outro. 

Isto  dissera  o  seu  pai,  naquele  dia,  já  há  muito  tempo,  quando  o  fizera 

prestar juramento. Talvez por não se ter esquecido do seu treino, estivesse já a 
ser um soldado. Nunca a Samávia precisara tanto de auxílio como agora. Dois 
anos  antes,  um  pretendente  ao  trono  tinha  assassinado  o  rei  que  então 
governava, assim como os seus dois filhos, e desde essa altura a Samávia tinha 
sido de novo palco de tumultos e de uma guerra sangrenta. O novo rei era um 
homem  muito  poderoso  e  tinha  um  grande  séquito  composto  por  pessoas 
egoístas e más. Os países vizinhos interferiram para salvaguardar a sua própria 
segurança, e os jornais apareceram cheios de histórias de combates selvagens e 
atrocidades, e de notícias sobre a fome que os camponeses passavam. 

Numa  noite,  já  muito  tarde,  Marco  entrara  em  casa  e  fora  encontrar 

Loristan a andar de um lado para o outro, com um papel amarfanhado entre as 
mãos  e  os  olhos  a  chispar.  Tinha  estado  a  ler  as  atrocidades  cometidas  em 
mulheres inocentes e crianças. Lazarus, de pé junto a ele, olhava-o com enormes 
lágrimas  rolando-lhe  pela  cara  abaixo.  Quando  Marco  abriu  a  porta,  o  velho 
soldado dirigiu-se a ele e conduziu-o para fora da sala. 

- Desculpe, senhor! - dizia soluçando. - Ninguém o deve ver, nem mesmo 

o senhor. Ele sofre horrivelmente. 

Ficou  de  pé  atrás  da  cadeira  onde  tinha  conduzido  e  sentado  Marco. 

Inclinou a cabeça grisalha e chorou como uma criança a quem se tivesse batido. 

-  Oh!,  Deus  louvado,  Senhor  dos  aflitos!  Já  é  altura  de  nos  devolveres  o 

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nosso Príncipe Desaparecido! - disse ele. 

E Marco entendeu estas palavras como uma oração e admirou-se com tal 

intensidade de exaltação, porque lhe parecia muito estranho rezar pelo regresso 
de um jovem que tinha morrido quinhentos anos antes. 

Quando  Marco  chegou  ao  palácio,  ainda  pensava  no  homem  que  tinha 

falado com ele. Entretanto andava à volta do edifício para conseguir gravar na 
sua  memória  o  seu  tamanho  e  forma,  bem  como  todas  as  suas  portas,  para 
tentar imaginar o tamanho dos seus jardins. Fazia isto porque era parte do seu 
jogo e também do seu treino. 

Quando voltou para a parte da frente, viu uma carruagem elegante, mas 

com um aspecto um tanto austero, aparecer por entre as altas grades de ferro na 
passagem da grande entrada do palácio real. Marco ficou ali de pé interessado a 
ver  quem  iria  entrar  nela.  Sabia  que  tanto  imperadores  como  reis  que  não 
estivessem em parada, mais não pareciam do que senhores bem vestidos e que, 
por vezes, escolhiam sair calma e simplesmente como quaisquer outras pessoas. 
Assim, ele pensou que talvez, se esperasse, pudesse ver uma daquelas caras tão 
conhecidas que representam a mais alta nobreza e a maior autoridade dum país 
monárquico e que, em tempos idos, representara também o poder sobre a vida, 
a morte e a liberdade. 

-  Gostava  de  poder  contar  ao  meu  pai  que  vi  o  Rei  e  que  conheço  a  sua 

cara, assim como também conheço as caras do Czar e de dois Imperadores. 

Houve  uma  ligeira  movimentação  dos  criados,  vestidos  de  vermelho,  e, 

passados  momentos,  um  senhor  idoso  desceu  os  degraus  apoiado  noutra 
pessoa. Depois entrou na carruagem seguido dessa pessoa, fecharam a porta e a 
carruagem passou pelos portões, onde as sentinelas estavam de guarda. 

Marco estava suficientemente perto para poder ver tudo distintamente. Os 

dois homens iam a conversar interessadamente, e Marco verificou que já tinha 
visto  várias  vezes,  nas  montras  e  nos  jornais,  a  cara  do  que  estava  mais 
afastado.  O  rapaz  fez  uma  rápida  e  formal  saudação.  Era  o  Rei;  e  ao  sorrir  e 
retribuir o cumpri mento, falou para o seu companheiro. 

- Aquele belo jovem cumprimenta como se pertencesse ao exército - foi o 

que ele disse, embora Marco não o pudesse ter ouvido. 

O  seu  companheiro  inclinou-se  para  a  frente  para  olhar  pela  janela.  E 

quando viu Marco, a sua cara tornou-se mais séria. 

- É verdade: ele pertence a um exército - respondeu -, embora não o saiba. 

O nome dele é Marco Loristan. 

Foi nessa altura que Marco conseguiu vê-lo bem pela primeira vez. Era o 

homem de olhar penetrante, que tinha falado com ele em samaviano. 

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O Rato

 

 
Marco  ter-se-ia  admirado  muito  se  tivesse  ouvido  aquelas  palavras;  mas 

como  isso  não  aconteceu,  voltou  para  casa  surpreendido  com  outra  coisa.  Um 
homem  que  estava  tão  intimamente  ao  serviço  do  Rei,  devia  ser  uma  pessoa 
importante. 

De  certeza  que  estava  muito  bem  informado,  não  só  sobre  o  seu  próprio 

país, mas também sobre os outros países. Poucas pessoas sabiam alguma coisa 
acerca da pobre e pequena Samávia, até os jornais terem começado a contar os 
horrores da sua guerra; e quem, se não um Samaviano, sabia falar a sua língua? 
Seria uma coisa interessante dizer ao seu pai que um homem que conhecia o Rei 
falara com Marco em samaviano e lhe tinha dirigido aquela curiosa mensagem. 

Daí a pouco encontrou-se a andar por uma rua lateral e a olhar para cima. 

O facto de ser tão estreita e de ter dum lado e doutro casas tão altas, velhas e 
com  paredes  tão  inclinadas,  atraiu  a  sua  atenção.  Parecia  que  um  pouco  da 
cidade antiga de Londres tinha sido deixada ali, enquanto cresciam locais mais 
novos  que  lhe  tapavam  a  vista.  Esta  era  um  tipo  de  rua  por  onde  gostava  de 
passar  para  satisfazer  a  sua  curiosidade.  Conhecia  já  muitas  ruas  assim,  em 
bairros antigos de inúmeras cidades. Nalgumas até já tinha vivido. Havia outra 
coisa que agora o atraía para além do seu aspecto pitoresco. 

Ouvia um barulho de vozes de rapazes e queria ver o que estavam a fazer. 

Já mais que uma vez, ao chegar a um sítio estranho e ao sentir aquela solidão, 
seguira  aquele  som  de  rapazes  a  brincarem  ou  a  brigarem  e  conseguira  fazer 
um amigo temporário. 

A meio caminho do fim da rua existia uma passagem de tijolo em forma 

de arco. Vinha de lá o som de vozes, destacando-se uma em tom mais alto, mais 
fino e mais agudo de entre todas as outras. Marco subiu a cima do arco e olhou 
para  baixo  através  da  passagem.  Ia  dar  a  um  pátio  pavimentado  de  pedra 
cinzenta,  circundado  pelas  grades  dum  antigo  cemitério,  que  ficava  atrás  de 
uma igreja, cuja fachada principal dava para outra rua. Os rapazes não estavam 
a brincar, mas a ouvir um deles, que lia o jornal. 

Marco atravessou a passagem e pôs-se a ouvir também, escondendo-se na 

parte escura da saída do arco e observando o rapaz que estava a ler. Era uma 
pequena  figura,  estranha,  com  uma  grande  testa  e  olhos  profundos, 

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curiosamente vivos. Mas isso não era tudo. Era corcunda e as pernas pareciam 
ser  pequenas  e  arqueadas.  Estava  sentado  com  elas  cruzadas  à  frente,  numa 
plataforma de madeira tosca colocada sobre umas rodas pequenas, com a qual 
evidentemente  se  fazia  transportar  dum  lado  para  o  outro.  Ao  pé  dele  estava 
uma  quantidade  de  paus,  amarrados  uns  aos  outros  como  se  fossem 
espingardas.  Uma  das  coisas  que  Marco  notou  logo,  foi  que  o  rapaz  tinha  um 
pequeno  rosto  selvagem,  marcado  por  rugas  como  se  estivesse 
permanentemente zangado. 

-  Calem-se,  seus  parvos!  -  gritou  ele,  para  alguns  rapazes  que  o 

interromperam. - Não querem saber nada, seus ignorantes imundos? 

Estava  tão  mal  vestido  como  os  outros  rapazes,  e  apesar  de  pertencer  à 

gentalha  da  rua,  tal  como  os  seus  companheiros,  era  todavia  um  pouco 
diferente. De repente, por acaso, viu Marco. 

- O que é que você está aí a escutar? - gritou ele, inclinando-se ao mesmo 

tempo para apanhar uma pedra, que lhe atirou. 

A  pedra  foi  bater  no  ombro  de  Marco,  mas  não  o  aleijou  muito.  O  que 

ainda menos lhe agradou foi ver um outro rapaz querer atirar-lhe outra coisa, e 
outros dois prepararem-se para fazer o mesmo, sem qualquer aviso. 

 Foi então direito ao grupo e parou mesmo ao pé do corcunda. 
-  Porque  é  que  fez  aquilo?  -  perguntou  com  a  sua  voz  jovem,  num  tom 

bastante grave. 

Marco  era  bastante  alto  e  tinha  um  ar  suficientemente  forte  para  dar  a 

entender que não era um rapaz de quem se pudesse dispor facilmente, mas não 
foi isso que fez com que o grupo ficasse parado a olhar fixamente para ele. Era 
qualquer coisa que havia nele; em parte, talvez, o facto de não estar irritado por 
lhe ter sido atirada uma pedra, como se isso em nada o afectasse. Não o tinha 
feito ficar zangado ou sentir-se insultado. Ficou simplesmente curioso. E porque 
tinha  ar  asseado  e  as  suas  roupas,  assim  como  o  seu  cabelo,  tinham  sido 
escovados,  a  primeira  impressão  que  causou  com  a  sua  aparência,  quando 
parou  ao  pé  do  arco,  foi  a  de  que  era  um  jovem  “figurão”,  metendo  o  nariz 
onde  não  era  chamado;  todavia,  assim  que  ele  se  aproximou,  viram  que  as 
roupas bem escovadas estavam usadas e que havia remendos nos seus sapatos. 

-  Porque  é  que  fez  aquilo?  -  perguntou  ele  de  novo,  como  se  quisesse 

apenas descobrir a razão. 

- Eu não vou deixar-te entrar no meu clube, como se fosse teu, ó janota! - 

disse o corcunda. 

-  Não  sou  nenhum  janota  e  não  sabia  que  isto  era  um  clube  -  respondeu 

Marco. - Ouvi vozes de rapazes e pensei que podia vir até aqui e ver o que se 
passava. Quando te ouvi ler aquilo acerca da Samávia, quis escutar mais. 

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E olhou para o rapaz, que tinha estado a ler, com aqueles seus olhos que 

diziam tudo mesmo sem falar. 

- Não precisavas de me ter atirado uma pedra - acrescentou. - Nos clubes 

não fazem isso aos seus membros. Mas pronto, vou-me embora. 

Ia retirar-se mas ainda não tinha dado dois ou três passos quando ouviu o 

corcunda chamá-lo. 

- Olha! - gritou ele. - Tu, olha! 
- O que é que queres? - disse Marco. 
- Aposto que nem sabes onde fica a Samávia, nem porque é que eles estão 

a combater - foram estas as palavras que o corcunda lhe disse. 

-  Sim,  sei.  Fica  a  norte  de  Beltrazo  e  a  leste  de  Jiardasia;  e  eles  estão  a 

combater,  porque  um  partido  assassinou  o  Rei  Maran,  e  o  outro  não  os  deixa 
coroar Nicola Iarovitch. E como é que havia de deixar? Sendo ele um bandido, 
como é, e não lhe correndo uma gota de sangue real nas veias?! 

- Ah! - admitiu o corcunda com alguma relutância. - Sabes isso tudo afinal, 

não é? Vem cá então. 

Marco  voltou  para  trás,  enquanto  os  rapazes  olhavam  espantados.  Era 

como  se  dois  chefes  ou  generais  se  encontrassem  pela  primeira  vez,  e  a  plebe 
estivesse  

a ver o que iria acontecer com esse encontro. 

- Os Samavianos do partido de Iarovitch são de   má  raça  e  só  querem 

fazer  mal  -  disse  Marco,  falando  em  primeiro  lugar.  -  Não  querem  saber  da 
Samávia  para  nada.  Só  se  interessam  por  dinheiro  e  pela  possibilidade  de 
ditarem leis que os possam beneficiar a eles,  

e aniquilar os outros todos. Eles 

sabem que Nicola é  um homem fraco, e que, se o coroarem rei, podem obrigá-lo 
a fazer tudo o que quiserem. 

O facto de ele ter falado primeiro e de ter dito aquelas palavras na sua voz 

segura de rapaz, sem se gabar, e de ter pressentido de alguma maneira que eles 
o  iam  ouvir,  fez  com  que  o  aceitassem  imediatamente.  Os  rapazes  são  seres 
muito sensíveis e conhecem logo um chefe quando o vêem. O corcunda fitou-o 
com os olhos a brilhar e os rapazes começaram a murmurar. 

-  Rato  Rato  -  gritaram  algumas  vozes  ao  mesmo  tempo.  -  Pergunta-lhe 

mais, Rato! 

- É isso que eles te chamam? - perguntou Marco ao corcunda. 
-  Eu  é  que  chamo  isso  a  mim  próprio  -  respondeu  ele  ressentido.  -  “O 

Rato”.  Olha  para  mim!  Arrastando-me  pelo  chão,  assim  desta  maneira!  Olha 
para mim! 

Fez  um  gesto,  para  dizer  aos  seus  seguidores  que  se  afastassem  para  o 

lado, e começou a arrastar-se com movimentos rápidos para um lado e para o 
outro, à volta do pátio. 

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Inclinava  a  cabeça  e  o  corpo,  torcia  a  cara  e  fazia  movimentos  estranhos 

como  se  fosse  um  animal.  Até  emitia  ruídos  agudos  ao  dirigir-se 
apressadamente  para  aqui  e  para  ali,  tal  qual  um  rato  faria  se  estivesse  a  ser 
caçado.  Fez  aquilo  como  se  mostrasse  uma  habilidade,  e  a  risota  dos  seus 
companheiros era um aplauso para ele. 

- Não parecia mesmo um rato? - perguntou quando parou de repente. 
- Fizeste isso de propósito - respondeu Marco. 
- Fazes isso para ter graça. 
- Não é para ter graça - disse o Rato. - Eu sinto-me mesmo como se fosse 

um rato. Todos são meus inimigos. Sou um verme. Não consigo lutar ou mesmo 
defender-me,  a  não  ser  dando  dentadas.  Apesar  de  tudo,  consigo  morder  -  e 
mostrou então duas fiadas de fortes dentes brancos e mais ponteagudos do que 
costumam  ser  os  dentes  das  pessoas.  -  Eu  mordo  no  meu  pai,  quando  ele  fica 
embriagado  e  me  bate.  Mordi-o  até  ele  aprender  a  lembrar-se  disso  -  e  riu-se 
dando  guinchos.  -  Já  não  me  bate  há  três  meses,  mesmo  quando  fica 
embriagado, o que acontece a toda a hora - riu-se então, outra vez, dando ainda 
mais guinchos. - Ele é um senhor - disse ele - e eu sou o filho de um senhor. Era 
professor numa boa escola até que foi corrido, e isso aconteceu quando eu tinha 
quatro anos e a minha mãe morreu. Agora tenho treze anos. Que idade tens? 

- Tenho doze anos - respondeu Marco. O Rato fez uma careta, com ar de 

inveja. 

- Quem me dera ser do teu tamanho! Também és filho de algum senhor? 

Pareces ser. 

- Sou filho de um homem muito pobre - foi a resposta de Marco. - O meu 

pai é escritor. 

- Então, aposto dez contra um em como é uma espécie de senhor! - disse o 

Rato.  E  de  repente  fez-lhe  outra  pergunta.  -  Qual  é  o  nome  do  outro  partido 
Samaviano? 

- O Maranovitch. Já há quinhentos anos que Maranovitch e Iarovitch têm 

vindo a lutar um com ou outro. Têm governado alternadamente, assassinando 
ou depondo os Reis do partido contrário. O último a ser morto foi o Rei Maran - 
respondeu Marco sem hesitação. 

-  Qual  era  o  nome  da  dinastia  que  governava  antes  de  eles  terem 

começado  a  lutar?  -  perguntou-lhe  o    Rato.  -  O  primeiro  Maranovitch 
assassinou o seu derradeiro representante. 

- O Fedorovitch - disse Marco. - O último foi um mau rei. 
- O filho dele foi o que nunca mais encontraram - disse o Rato. - Aquele a 

quem chamavam o Príncipe Desaparecido. 

Marco teria começado a falar demasiado se não fosse o seu longo treino de 

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autocontrolo.  Era  muito  estranho  ouvir  falar  do  herói  dos  seus  sonhos  neste 
pátio sujo, precisamente na altura em que acabava de pensar nessa história. 

-  O  que  é  que  sabes  sobre  ele?  -  perguntou  Marco,  e,  ao  fazê-lo,  viu  o 

grupo de rapazes maltrapilhos aproximar-se mais.  

-  Não  muito.  Só  li  alguma  coisa  sobre  ele  numa  revista  rasgada  que 

encontrei na rua - respondeu o Rato. - O homem que escrevia acerca dele dizia 
que ele fazia parte de uma lenda e troçava das pessoas que acreditavam nisso. 
Achava que já era altura de ele aparecer outra vez, se realmente tinha intenção 
disso.  Inventei  histórias  sobre  ele,  porque  estes  tipos  gostam  de  me  ouvir 
contá-las. 

Mas não passam de histórias saídas da minha imaginação. 
-  Nós  gostamos  dele  -  ouviu-se  uma  voz  gritar  -,  porque  ele  era  como 

devia ser; lutou e lutaria ainda, se estivesse agora na Samávia. 

Marco interrogou-se imediatamente sobre o que deveria contar. E decidiu 

contar tudo. 

- Ele não é uma lenda, mas sim uma parte da história da Samávia - disse. - 

Também sei alguma coisa acerca dele. 

- Como é que descobriste? - perguntou o Rato. 
-  Descobri  porque  o  meu  pai  é  escritor,  e  vê-se  obrigado  a  ter  livros  e 

jornais. Está por isso muito bem informado e sabe muitas coisas. Eu, como gosto 
de ler, vou a bibliotecas públicas. Lá podem-se consultar livros e documentos. E 
depois faço perguntas ao meu pai. Os jornais agora vêm cheios de notícias sobre 
a Samávia.  

Marco achou que aquilo era uma explicação que não era comprometedora. 

Era bem verdade que ninguém podia abrir um jornal, nesta altura, sem ver as 
notícias e as histórias da Samávia. 

O  Rato  viu  então  surgir-lhe  uma  oportunidade  de  alargar  a  sua 

informação. 

 - Senta-te aqui - disse - e conta-nos o que sabes sobre ele. Vocês, sentem-se 

também aqui. 

Não  havia  sítio  onde  se  sentarem  a  não  ser  no  pavimento,  mas  Marco 

estava  habituado  a  sentar-se  em  qualquer  lado,  tal  como  os  outros  rapazes,  e 
assim sentaram-se todos no chão. Ficou ao pé do Rato e os outros formaram um 
semicírculo em frente deles. Os dois chefes tinham-se aliado, por assim dizer, e 
os seguidores puseram-se “em sentido” com todo o respeito. 

Nessa altura o recém-chegado começou a falar. Era uma boa história, a do 

Príncipe  Desaparecido,  e  Marco  contou-a  de  um  modo  que  a  tornava  ainda 
mais  real.  Desde  os  sete  anos  que  ele  sabia  que  aquilo  era  real.  Ele,  que  tinha 
estudado  os  mapas  da  pequena  Samávia  com  o  pai,  sabia  que  se  poderia 

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orientar em qualquer parte do país, tanto nas florestas como nas montanhas, se, 
por acaso, um dia fosse a isso obrigado. 

-  Aquela  revista  rasgada  que  encontraste  tinha  mais  do  que  um  artigo 

sobre  a  Samávia  -  disse  ele  para  o  Rato.  -  Eu  li-os  todos  numa  biblioteca.  O 
escritor até dizia que era um dos mais bonitos países que já visitara e também o 
mais fértil. 

O  grupo  que  estava  diante  de  si  não  sabia  nada  de  fertilidade  nem  das 

coisas  do  campo.  Só  conheciam  as  ruas  de  Londres  e  os  seus  pátios. 
Constituíam um grupo tosco e, tal como tinham ficado admirados a olhar para 
Marco  logo  que  o  viram  pela  primeira  vez,  do  mesmo  modo  continuaram  a 
olhar extasiados para ele, à medida que ia falando. 

Quando  ele  contou  que  os  antigos  Samavianos  eram  muito  altos  e  que 

conseguiam capturar cavalos selvagens e domesticá-los com muita perícia, mas 
também com muita suavidade, de modo a treiná-los para seu uso, então ficaram 
de  boca  aberta.  Aquilo  era  o  estilo  de  coisa  que  despertava  a  imaginação  de 
qualquer rapaz. 

-  Quem  me  dera  apanhar  um  desses  cavalos  -  gritou  um  dos  rapazes, 

sendo a sua exclamação logo seguida por uma dúzia de outras. 

Depois,  Marco  falou  das  frondosas  florestas  que  pareciam  não  ter  fim  e 

dos  pastores  que  tocavam  as  suas  flautas  e  compunham  canções  acerca  dos 
grandes feitos de bravura e de coragem, e eles, então, gritaram de prazer sem 
darem por isso. 

Não  concebiam  que  fosse  possível  sentir  a  presença  desses  campos  e 

arvoredos  num  beco  de  Londres  rodeado  de  casas  velhas  e  sujas,  mas 
aprenderam-no  devido  à  história  do  Príncipe  Desaparecido,  que  descrevia 
como  o  Príncipe  Ivor  gostava  muito  da  vida  ao  ar  livre,  das  florestas  e  das 
montanhas. Quando Marco o descreveu como sendo alto, jovem e forte e como 
conquistava toda a gente com o seu sorriso simpático, os rapazes gritaram outra 
vez com entusiástico prazer. 

-  Quem  nos  dera  que  ele  não  se  tivesse  perdido!  -  gritou  um  deles.  E 

quando  ouviram  falar  do  desassossego  e  da  insatisfação  dos  Samavianos, 
começaram a ficar inquietos. Na parte da história em que a multidão entrava de 
rompante no palácio e perguntava ao rei pelo príncipe, começaram a praguejar. 

-  O  malandro  do  velho  escondeu-o  nalgum  torreão,  ou  então  matou-o!  - 

exclamaram. - Quem nos dera ter lá estado nessa altura; não o teríamos deixado 
fazer isso! - prosseguiram cheios de raiva. 

A sua linguagem nesta altura já era bastante má, mas tornou-se ainda pior 

quando  ouviram  a  parte  em  que  o  velho  pastor  encontrou  o  corpo  do  jovem 
caçador meio-morto na floresta. 

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-  Ele  foi  atacado  pelas  costas!  Não  lhe  deram  qualquer  hipótese!  - 

vociferaram  em  coro.  -  Quem  nos  dera  que  lá  tivéssemos  estado  quando  isso 
aconteceu. Eles tinham que se haver com alguém. 

E  então,  no  episódio  da  passagem  clandestina  do  príncipe  inconsciente 

pela  fronteira,  escondido  na  carroça  carregada  de  peles  de  cabra,  eles 
sustiveram  a  respiração.  Conseguiria  o  velho  pastor  fazê-lo  passar  a  linha  da 
fronteira? Marco, que se tinha perdido no seu relato, contou-a como se tivesse 
estado presente. E na realidade, era quase como se isso fosse verdade, tal era o 
entusiasmo  que  a  história  despertava  nos  seus  ouvintes.  Até  a  sua  própria 
imaginação  se  exaltou  e  o  seu  coração  lhe  saltou  no  peito,  como  devia  com 
certeza  ter  acontecido com  o  velho  homem quando  o  guarda  mandou  parar  o 
carro e lhe perguntou o que é que ele levava para fora do país. 

E  aqueles  bondosos  monges!  Aqui  teve  de  parar  para  explicar  o  que  era 

um monge. Quando descreveu a solidão do antigo mosteiro e dos seus jardins 
rodeados  de  muros,  cheios  de  flores  e  plantas  medicinais,  e  como  os  sábios 
monges  andavam  em  silêncio  ao  sol,  os  rapazes  ficaram  atónitos,  mas 
impávidos como se estivessem a saborear a cena. 

De  repente  Marco  calou-se;  tinha  acabado  a  história.  A  seguir  não  havia 

mais nada para contar. Então ouviram-se protestos vindos do semicírculo. 

- Que pena! - protestaram. - Não devia parar aqui! Não há mais? Só se sabe 

isso? 

- É tudo o que se sabe. 
O  Rato  escutou  tudo  com  os  olhos  a  brilhar.  Estivera  sentado  a  roer  as 

unhas, um hábito que tinha quando estava zangado ou assustado. 

- Sabes que mais! - exclamou de repente. - Vou-te dizer o que aconteceu! 

Foram  alguns  adeptos  do  grupo  de  Maranovitch  que  tentaram  matá-lo. 
Quiseram matar o pai e fazer dum dos seus o rei, mas sabiam que o povo não 
aceitaria  isso  se  o  Príncipe  Ivor  estivesse  vivo.  E  eles  muito  simplesmente 
apunhalaram-no  pelas  costas,  os  malandros!  Atrevo-me  a  dizer  que  eles 
ouviram  o  velho  pastor  aproximar-se  e  abandonaram-no  ao  fugir,  por  o 
julgarem morto. 

-  Com  certeza  que  foi  isso!  -  concordaram  os  companheiros.  -  Nisso  tens 

razão, Rato. 

-  Quando  ele  se  curou  -  continuou  o  Rato  com  fervor,  roendo  sempre  as 

unhas -, não pôde regressar. Era muito novo. O outro tipo tinha sido coroado e 
os  seus  seguidores  sentiam-se  fortes  porque  tinham  acabado  de  conquistar  o 
país. Ele não podia ter feito nada sem um exército e era demasiado jovem para 
organizar um. Talvez tivesse pensado que devia esperar até ter idade suficiente 
para  saber  o  que  havia  de  fazer.  Ouso  dizer  que  se  foi  embora  e  teve  de 

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trabalhar  para  seu  próprio  sustento,  como  se  nunca  tivesse  sido  um  príncipe. 
Talvez  mais  tarde  tenha  casado  e  tido  um  filho  e  lhe  tenha  revelado,  em 
segredo, a sua identidade e tudo o mais acerca da Samávia. - O rato começou a 
mostrar um ar vingativo. - Se eu fosse a ele, ter-lhe-ia dito para não esquecer o 
que Maranovitch lhe tinha feito. E que se não pudesse voltar para o trono, ele 
havia de ver o que lhe faria, quando fosse já homem. Tê-lo-ia feito jurar que se 
conseguisse apanhá-lo, lhe tiraria um dos seus filhos ou netos e o torturaria ou 
mataria. Tê-lo-ia feito prometer que não deixaria nenhum Maranovitch vivo. E 
que, se não pudesse fazer isso em vida, que passasse o juramento de geração em 
geração,  enquanto  houvesse  um  Fedorovitch  na  terra.  Não  terias  feito  isso?  - 
perguntou com ardor a Marco. 

Marco  também  se  sentia  a  ferver  por  dentro,  mas  de  uma  maneira 

diferente: achava que já tinha falado demais. 

- Não - disse devagar. - Para que serviria isso? Não seria nada bom para a 

Samávia, e não era decente torturar e matar pessoas. Era melhor deixá-los viver 
e  obrigá-los  a  fazerem  coisas  pelo  país.  Quando  se  é  um  patriota,  pensa-se 
primeiro no país. 

- Mas devia-se torturá-los primeiro e a seguir tratar do país. - interrompeu 

o Rato. - O que é que terias dito ao teu filho, se fosses o Ivor? 

- Ter-lhe-ia dito para aprender tudo sobre a Samávia e todas aquelas coisas 

que  os  reis  têm  de  saber;  e  para  estudar  tanto  as  leis  do  seu  país  como  dos 
outros  países;  e  que  era  importante  guardar  silêncio.  Tê-lo-ia  ensinado  como 
havia de governar, tal como se i i fosse um general a comandar soldados numa 
batalha, de maneira a nunca fazer nada de que depois se pudesse envergonhar. 
Ter-lhe-ia pedido para contar aos filhos 

do  seu  filho  para  aprenderem  estas  mesmas  coisas.  E  assim,  estás  a  ver, 

por  muito  tempo  que  tivesse  passado,  havia  sempre  um  rei  pronto  para 
governar  a  Samávia,  quando  esta  precisasse  dele  realmente.  E  seria  um  rei 
verdadeiro. 

De  repente  parou  de  falar  e  olhou  para  o  semicírculo  que  o  fitava 

admirado. 

-  Não  pensei  nisto  sozinho  -  disse.  -  Ouvi-o  dizer  a  um  homem  que  lê 

muitas coisas e sabe muito. Acho que o Príncipe Desaparecido teria pensado o 
mesmo.  Se  o  fez,  e  o  disse  ao  seu  filho,  deve  ter  havido,  durante  quinhentos 
anos, uma sucessão de reis a treinarem-se para governar a Samávia, e talvez um 
deles ande agora nas ruas de Viena, Budapeste, Paris ou Londres, e se encontre 
pronto quando o povo souber dele e o chamar. 

- Quem dera que tenha havido! - gritou um deles. 
- Seria um segredo muito estranho para se guardar todo este tempo, sem 

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mais ninguém saber - resmungou o Rato, como se falasse consigo próprio. “ És 
rei  e  devias  estar  sentado  no  trono  “.  Gostava  de  saber  se  isso  não  faria  uma 
pessoa  parecer  diferente?  Riu-se,  na  sua  maneira  esquisita,  e  depois, 
voltando-se de repente para Marco, disse: 

- Mas foi um parvo por desistir da vingança. Como te chamas? 
- Marco Loristan. E tu? Com certeza não é mesmo Rato. 
- Sou Jem Ratcliffe. É bastante parecido. Onde é que moras? 
- No n.º 7 da Praça Philibert. 
- Isto é um clube de soldados - disse o Rato. Chama-se o Exército. Eu sou o 

capitão. Atenção, rapazes! Mostrem-lhe. 

O semicírculo desfez-se. Ao todo, eram doze rapazes e quando se puseram 

de  pé,  Marco  notou  imediatamente  que  estavam  habituados  a  obedecer  à 
palavra de comando com precisão militar. 

-  Formar  em  linha!  -  ordenou  o  Rato.  E  eles  imediatamente  obedeceram 

mantendo as costas e as pernas muito direitas e as cabeças surpreendentemente 
bem  levantadas.  Cada  um  deles  tinha  segurado  num  dos  paus  e  tinha-o 
empunhado como se fosse uma espingarda. 

O próprio Rato tinha-se sentado muito direito na sua plataforma. E havia 

realmente  algo  de  militar  na  sua  maneira  de  manter  o  corpo  inclinado.  Até  a 
sua voz perdeu o som agudo, estranho e tornou-se numa voz forte de comando. 

Conseguiu  pôr  aquela  dúzia  de  rapazes  em  formação  como  se  já  tivesse 

sido um garboso jovem oficial. E a própria formação tinha um tal aprumo que 
não recearia a comparação com qualquer regimento de bravos soldados. Isto fez 
com  que  Marco  ficasse  de  pé  muito  direito  e  observasse  tudo  com  surpresa  e 
interesse. 

- Muito bem! - exclamou, quando aquilo chegou  ao  fim.  -  Como  é  que 

aprendeste isto? 

O Rato fez um gesto de má vontade. 
- Se eu tivesse pernas para me pôr de pé, teria sido um soldado! - disse. - 

Ter-me-ia alistado em qualquer regimento. Nada mais me interessa. 

E  de  repente  o  seu  rosto  modificou-se  e  deu  uma  ordem  aos  seus 

seguidores. 

- Virar costas! - ordenou. 
E virando as costas, puseram-se a olhar através das grades do velho pátio 

da  igreja.  Marco  reparou  que  eles  obedeceram  a  uma  ordem  que  não  era 
novidade para eles. O Rato tinha posto a mão nos olhos a cobri-los. 

Ficou  assim  durante  algum  tempo  como  se  não  quisesse  ser  visto.  Então 

Marco  virou  também  as  costas  como  os  outros  tinham  feito.  De  repente 
percebeu que embora o Rato não estivesse a chorar, estava a sentir alguma coisa 

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que poderia ter deitado abaixo qualquer outro rapaz. 

- Chega! - gritou ele a seguir, e baixando a mão sentou-se de novo muito 

direito. - Quero ir para a guerra! - disse com aspereza. - Quero combater! Quero 
levar  exércitos  para  a  luta!  Mas  não  tenho  pernas.  Às  vezes  isso  tira-me  a 
coragem toda. 

- Tu ainda não cresceste tudo! - disse Marco. Ainda podes vir a ser forte. 

Ninguém  sabe  o  que  pode  acontecer.  Como  é  que  aprendeste  a  comandar  o 
clube? 

-  Ando  por  aí  pelos  quartéis,  escuto  e  oiço.  Sigo  atrás  dos  soldados.  Se 

pudesse  ter  livros,  havia  de  ler  tudo  sobre  as  guerras.  Mas  não  posso  ir  às 
bibliotecas como tu. Não consigo fazer outra coisa senão rastejar como um rato. 

- Posso levar-te às bibliotecas - disse Marco. Há algumas onde os rapazes 

podem entrar. E posso trazer jornais do meu pai. 

- Podes? - perguntou o Rato. - Queres entrar para o clube? 
- Quero! - respondeu Marco. - Vou falar nisso ao meu pai. 
Disse  aquilo  porque  a  sua  enorme  vontade  de  fazer  amigos  tinha 

encontrado uma espécie de resposta nos olhos do Rato. 

Queria  vê-lo  outra  vez.  Era  uma  criatura  tão  estranha,  que  se  tornava 

fascinante.  Arrastando-se  naquela  plataforma  com  rodas,  tinha  conseguido 
juntar aquele grupo de rapazes rudes, e tinha-se tornado o seu comandante. E 
eles  obedeciam-lhe  e  escutavam  as  suas  histórias  sobre  guerras,  deixando  que 
ele  os  treinasse  e  lhes  desse  ordens.  Marco  sabia  que  o  seu  pai  ficaria 
interessado. Mas queria ter a certeza disso. 

-  Agora  vou  para  casa  -  disse  -,  mas  se  estiveres  cá  amanhã,  vou  tentar 

aparecer também. 

- Nós estamos cá - respondeu o Rato. - Isto é o nosso quartel. 
Marco levantou-se com elegância e fez uma saudação como se a estivesse a 

fazer a um oficial superior. Depois começou a andar para a passagem em arco e 
o som dos seus passos era tão regular e coordenado, que parecia ir ao ritmo de 
um regimento. 

- Ele tem-se treinado a ele próprio - disse o Rato. 
- Sabe tanto como eu. 
Depois,  sentou-se  e  ficou  a  olhar  para  aquele  arco  com  um  novo 

entusiasmo. 

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Silêncio é ainda palavra de ordem

 

 
Nessa época eles eram ainda mais pobres do que o costume, e a ceia que 

Marco e o pai tinham à frente era bastante frugal. Lazarus estava muito direito 
atrás da cadeira do seu amo e servia-o com imensa cerimónia. Aquela habitação 
pobre  estava  sempre  limpa  e  em  ordem,  com  um  rigor  militar.  Lazarus 
tornou-se imprescindível, ao tomar a seu cargo todo o trabalho com o seu amo, 
retirando-o  das  mãos  das  empregadas  desajeitadas.  Quando  era  novo,  tinha 
aprendido  a  fazer  muitas  coisas  no  quartel.  Conseguia  remendar,  passajar, 
consertar  e  até  combater  o  que  era  mais  duro  na  pobreza:  a  sujidade  e 
imundície. Nesse dia à noite, não tinham mais nada senão pão seco e café, mas 
Lazarus tinha feito com que parecessem boas iguarias. 

À  medida  que  Marco  comia,  ia  contando  ao  pai  a  história  do  Rato  e  dos 

seus  amigos.  Loristan  escutava-o,  tal  como  Marco  previra,  com  aquele  sorriso 
longínquo nos olhos escuros. 

-  E  eles  falavam  acerca  da  Samávia?  E  ele  sabia  a  história  do  Príncipe 

Desaparecido? - perguntou meditando. - Até nesse sítio! 

-  Ele  gosta  de  ouvir  falar  de  guerras,  quer  falar  acerca  delas  -  respondeu 

Marco. - Se se pudesse pôr de pé e tivesse idade suficiente, ele próprio iria para 
a Samávia combater. 

-  Agora  não  é  mais  do  que  um  local  triste  e  banhado  em  sangue!  -  disse 

Loristan.  -  As  pessoas  ou  estão  loucas  ou  aterrorizadas  e  com  o  coração 
despedaçado. 

 De repente, Marco, sem compreender porquê, deu uma palmada na mesa 

com a sua pequena mão de rapaz. 

- Porque é que um dos Iarovitch ou um dos Ma ranovitch há-de ser rei ? - 

gritou ele. - Eles eram apenas camponeses selvagens quando combateram pela 
primeira vez pela coroa, há centenas de anos. E não pararam de combater desde 
então,  até  o  mais  selvagem  deles  conseguir  ser  coroado.  Mas  não  tinham 
qualquer direito! Só os Fedorovitch nasceram reis. Há apenas um único homem 
no  mundo  que  tem  direito  ao  trono,  mas  não  sei  se  ele  está  vivo  ou  não. 
Acredito sinceramente que sim. 

Loristan olhava para aquela cara vermelha com apenas doze anos. Viu que 

o  ardor  que  tinha  subido  à  cara  do  filho  era  consequência  de  um  bater  de 

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coração mais forte. 

 - Queres dizer. ? - sugeriu gentilmente. 
-  Ivor  Fedorovitch.  Esse  é  que  deveria  ser  o  Rei  Ivor.  E  as  pessoas 

obedecer-lhe-iam  e  os  bons  velhos  tempos  regressariam  de  novo.  -  Parou  de 
repente por ter descoberto qualquer coisa. - Pai! - gritou. - O pai podia ser um 
dos  que  eram  capazes  de  descobri-lo,  se  é  que  alguém  pode.  Mas  talvez  -  e 
parou  de  novo  por  um  momento,  porque  uma  outra  coisa  lhe  tinha  vindo  à 
ideia. - Já alguma vez o procurou? - perguntou com hesitação. 

- Não o procurei - disse -, porque sei onde é que ele está. 
 Marco susteve a respiração. 
-  Pai!  -  e  disse  apenas  esta  palavra.  Sabia  que  não  devia  fazer  mais 

perguntas.  Mas  quando  eles  olharam  um  para  o  outro,  naquela  pequena  sala 
nas  traseiras  duma  casa  pobre  como  aquela  ao  pé  da  rua  barulhenta,  i  ao 
mesmo  tempo  que  Lazarus  se  mantinha  atrás  da  cadeira  do  seu  pai,  de  olhos 
fixos  nas  chávenas  de  café  vazias  e  no  prato  de  pão  seco,  e  tudo  parecia  tão 
pobre  como  sempre  tinha  sido,  um  rei  da  Samávia,  Ivor  Fedorovitch,  com  o 
sangue  do  Príncipe  Desaparecido  nas  veias,  estava  vivo  algures  em  qualquer 
cidade! E até o pai de Marco sabia onde ele estava! 

Olhou  depois  para  Lazarus,  e  embora  a  cara  deste  não  tivesse  qualquer 

expressão, parecendo esculpida em madeira, Marco percebeu logo que ele sabia 
este  segredo,  sempre  tinha  sabido.  Ele  tinha  sido  um  companheiro  de  armas 
toda a vida. Agora continuava a olhar fixamente para o prato do pão. 

Loristan falou outra vez num tom ainda mais baixo. 
-  Os  Samavianos,  que  são  patriotas  e  pensadores  -  disse  -,  formaram  há 

oitenta anos um partido secreto. Fizeram-no quando já não tinham razões para 
terem  esperanças,  e  também  porque  um  deles  descobriu  que  um  Ivor 
Fedorovitch estava vivo. Era guarda florestal de um nobre, numa província dos 
Alpes  austríacos.  O  patrão  sempre  pensou  que  haveria  algum  mistério  nele, 
visto  que  se  via  bem  que  não  tinha  nascido  para  ser  criado.  Mas,  no  entanto, 
nunca  se  dava  ares  de  superioridade  mas  também  não  mostrava  muita 
familiaridade com os seus outros colegas. Era um homem muito alto, corajoso e 
pouco falador. O seu patrão acabou por se tornar no seu companheiro, quando 
caçavam juntos. Uma vez, quando apanhavam cavalos selvagens, descobriu que 
Ivor  conhecia  bem  os  costumes  de  caça  da  Samávia  e  até  mesmo  as  suas 
tradições.  Quando  voltaram  para  a  Áustria,  Ivor  obteve  permissão  para  ir 
sozinho para as montanhas. Tornou-se então amigo dos pastores, fazendo-lhes 
também  muitas  perguntas.  Uma  noite,  quando  se  sentavam  à  roda  de  uma 
fogueira, ouviu cantar algumas das canções sobre o Príncipe Desaparecido, que 
ele  julgava  esquecidas  há  quase  quinhentos  anos.  Um  pastor  muito  velho, 

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juntando  as  mãos,  rogou  a  Deus  para  que  lhe  mandasse  o  seu  rei  outra  vez. 
Alguns dos pastores começaram a 

chorar.  No  dia  seguinte,  Ivor  foi  ao  mosteiro  onde  vivia  a  Ordem  dos 

monges  que  tinham  recolhido  o  Príncipe.  Quando  ele  partira  para  a  Samávia, 
formou-se a sociedade secreta e os seus membros sabiam que um 

Ivor  Fedorovitch  tinha  atravessado  o  país  dos  seus  antepassados  como 

criado  de  um  outro  homem.  Mas  a  sociedade  secreta  era  muito  pequena  e 
embora  tivesse  vindo  a  crescer  desde  então,  o  caçador  morreu  muito  velho, 
antes  de  a  sociedade  ser  suficientemente  forte  para  poder  ser  divulgada  aos 
Samavianos e contar à Samávia o que sabia. 

 Nesta  altura  Marco  lembrou-se  outra  vez  da  história  que  tinha  para 

contar, mas que tinha deixado para o fim, a história do homem que lhe falou em 
samaviano  e  que  depois  viu  passar  na  carruagem  com  o  Rei.  Agora  sabia  que 
devia significar algo de importante, de que antes não tinha suspeitado. 

- Há uma coisa que tenho de lhe contar - disse. 
Descreveu  o  homem  com  olhos  penetrantes  e  o  modo  como  tinha  dito: 

“Diz ao teu pai que estás muito bem treinado”. 

- Fico muito satisfeito por ele ter dito isso. Ele é um homem que sabe o que 

é treino - disse Loristan. 

- É uma pessoa que sabe tudo o que se passa na Europa e também o que se 

irá passar. É um embaixador de um país poderoso. Se ele achou que estás bem 
treinado, isso pode ser bom para a Samávia. 

- Mas como é que isso pode interessar à Samávia? - exclamou Marco. 
Loristan  fez  uma  pequena  pausa  e,  olhando-o  com  seriedade,  disse-lhe 

depois com um leve sorriso: 

- Sim. Pode realmente interessar à Samávia. 

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O Partido Secreto e o treino disciplinar

 

 
 Loristan  não  proibiu  Marco  de  continuar  a  dar-se  com  o  Rato  e  os 

companheiros. 

- Vais ser tu próprio a descobrir se eles são amigos que te convêm ou não - 

disse  ele.  -  Dentro  de  poucos  dias  ficas  a  saber  e  depois  podes  tomar  uma 
decisão por ti. Já conheceste outros companheiros em muitos países e és capaz 
de ser um bom juiz nisso, penso eu. Verás dentro de pouco tempo se eles vão 
ser “homens” ou mera canalha. Até que ponto o Rato te impressionou? - E, ao 
perguntar isto, lançou-lhe o seu olhar penetrante. 

 -  Teria  sido  um  bravo  soldado,  se  pudesse  -  disse  Marco.  -  Mas  pode 

também ser cruel. 

- Não se deve desdenhar de um homem que pode dar um bom  soldado; 

mas se for cruel, é porque é um louco. Diz-lhe isso da minha parte - respondeu 
Loristan.  -  Desperdiça  as  suas  próprias  forças  e  as  daqueles  a  quem  trata  com 
crueldade. E só um louco pode desperdiçar forças. 

- Posso falar em si, algumas vezes? - perguntou Marco. 
-  Podes,  deves  saber  como.  Basta  que  te  lembres  das  coisas  nas  quais  o 

silêncio é a palavra de ordem. 

-  Nunca  me  esqueço  delas  -  disse  Marco.  -  Já  estou  habituado  a  isso  há 

muito tempo. 

- E foste bem sucedido, companheiro! - retorquiu Loristan, da sua mesa de 

trabalho, onde estava a arrumar uns papéis. 

O rapaz sentiu um novo alento. Dirigiu-se para o pai e muito direito fez a 

saudação militar. 

- Pai! - disse. - Não sabe quanto gosto de si! Quem me dera que fosse um 

general e eu pudesse morrer por si em batalha. Quando olho para o pai, queria 
poder fazer qualquer coisa por si, mas um simples rapaz não consegue. Preferia 
morrer do que desobedecer-lhe ou à Samávia! 

Pegou então na mão de Loristan e, beijando-a, ajoelhou-se numa só perna. 

Qualquer  rapaz  inglês  ou  americano  não  teria  feito  isto  num  impulso  tão 
natural. Mas ele tinha o sangue quente do Sul. 

Um  súbito  ar  de  ternura  transpareceu  na  cara  do  pai,  ao  levantá-lo  e  ao 

pôr-lhe a mão no ombro. 

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- Companheiro - disse -, não sabes como gosto de ti, e qual a razão por que 

nos devemos amar! Não imaginas como te tenho vindo a observar e a agradecer 
a  Deus  por  cada  ano  que  possa  estar  aqui  a  formar-se  um  homem  para  a 
Samávia.  Sim,  porque  sei  que  és  um  “homem”,  embora  só  tenhas  doze  anos. 
Doze  anos  podem  fazer  crescer  um  homem  ou  provar  que  um  homem  nunca 
vai  crescer,  embora  possa  viver  noventa  anos.  Muitas  coisas  nos  podem 
acontecer. Não sabemos ainda o que “será necessário que eu tenha de pedir-te 
para fazeres por mim e pela Samávia”. Talvez seja uma coisa que um rapaz de 
doze anos nunca tenha feito. 

- Vou rezar todas as noites e todas as manhãs para que possa ser chamado 

para a fazer e para que consiga fazê-la bem. 

- Se fores chamado, companheiro, sei que a vais fazer bem; até podia jurar 

em como isso vai acontecer - respondeu-lhe Loristan.  

O  exército  tinha-se  juntado  atrás  da  igreja  quando  Marco  apareceu  ao 

fundo  da  passagem  em  forma  de  arco.  Os  rapazes  empunhavam  as  suas 
espingardas,  mas  tinham  um  ar  mal-humorado.  A  explicação  que  Marco 
encontrou para isso era que também o Rato devia estar de mau humor. Estava 
sentado  na  sua  plataforma  roendo  as  unhas  com  força,  com  os  cotovelos  nos 
joelhos e com cara de poucos amigos. Não olhava para lado nenhum a não ser 
para o pavimento onde mantinha os olhos fixos. 

Marco  avançou  num  passo  militar  e  parou  mesmo  atrás  dele,  com  uma 

saudação rápida. 

- Peço desculpa de vir tarde, senhor - disse, como se fosse um soldado raso 

a falar com o seu coronel. 

- É ele, Rato! Ele veio, Rato! - gritou o exército. 
- Olha para ele! 
Mas o Rato não olhou e nem sequer se mexeu. 
- O que é que aconteceu? - disse Marco, com menos cerimónia do que um 

soldado raso teria. - Não vale a pena vir aqui se tu não queres que eu venha. 

- Está de mau humor, porque vieste tarde! - gritou o cabeça de fila. - Não 

se pode fazer nada quando ele fica de mau humor. 

- Não vou fazer nada - disse Marco com um ar resoluto. - Não foi para isso 

que vim aqui. Vim fazer o treino. Estive com o meu pai, que está em primeiro 
lugar.  Posso  juntar-me  ao  exército,  mas  ele  estará  sempre  em  primeiro  lugar. 
Nós não estamos nem no activo, nem no quartel. 

Nessa altura o Rato virou-se de frente para ele. 
- Pensei que não vinhas mesmo! - resmungou. 
- O meu pai disse que não vinhas. Disse que tu eras um janota, apesar das 

roupas remendadas. Disse também que o teu pai não te ia deixar vir ter com um 

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vagabundo,  que  só  podia  trazer  aborrecimentos.  Ninguém  pediu  para  te  vires 
juntar a nós. O teu pai que vá para o inferno! 

- Não fales assim do meu pai - disse Marco calmamente -, porque te posso 

dar um murro. 

- Levantava-me e dava-te também! - respondeu o Rato, ficando branco de 

raiva. - Posso pôr-me de pé em dois paus. Levanto-me e dou-te! 

- Isso é que não dás - disse Marco. - Se queres saber o que disse o meu pai, 

posso  dizer-te.  Disse  que  posso  vir  tantas  vezes  quantas  quiser,  até  saber  se 
podemos ficar amigos ou não. Diz que eu é que tenho que descobrir. 

O Rato fez uma coisa estranha. Deve ter-se sempre em consideração que o 

seu  pai,  embora  cada  vez  mais  afundado  no  submundo  do  alcoolismo,  tinha 
sido em tempos um senhor com boas maneiras e hábitos de boa educação. Às 
vezes  estava  embriagado,  outras  vezes,  quando  parecia  estar  mais  ou  menos 
sóbrio,  falava  ao  Rato  de  coisas  que  ele  nunca  poderia  ter  sabido  de  outro 
modo. Era esta a razão por que ele era diferente dos outros vagabundos. Isto foi 
também a razão por que ele alterou a situação toda, ao fazer esta coisa estranha 
e inesperada. Modificou a expressão e a voz, fixando os seus olhos vivos nos de 
Marco. Era quase  como que um teste. Pelo menos era o que devia ter parecido à 
maioria  dos  companheiros  da  sua  antiga  classe  social.  Ver-se-ia  se  Marco 
resolvia, ou não, o teste. 

- Peço-te perdão - disse o Rato. 
Este  era  o  teste.  A  frase  era  a  que  um  oficial  e  cavalheiro  teria 

pronunciado, se achasse que tinha errado ou que tinha sido rude. Ouvira dizer 
isso ao seu pai, num momento de sobriedade. 

  - Eu é que te peço perdão por ter chegado tarde - disse Marco. 
  Era  a  resposta  certa  ao  teste!  Era  a  resposta  que  um  outro  oficial  e 

cavalheiro teria dado. Isto regularizou o diferendo imediatamente, e estabeleceu 
entre eles um entendimento que se veio a revelar mais forte do que se poderia 
prever na altura. 

Para  isso,  foi  decisivo  o  facto  de  Marco  ser  um  daqueles  que  sabem  as 

coisas  que  o  pai  do  Rato  tinha  conhecido  em  tempos,  coisas  que  os  senhores 
fazem,  dizem  e  pensam.  Não  pronunciaram  mais  qualquer  palavra.  Já  estava 
tudo  bem.  Marco  juntou-se  à  formatura  do  exército,  e  o  Rato  sentou-se  muito 
direito com o seu porte militar e começou imediatamente com o treino: 

-  Exército!  Atenção!  Perfilar!  Ombro,  arma  Formar  a  quatro!  Direita, 

volver!  Em  frente,  marcha!  Parar!  Esquerda,  volver!  Apresentar,  armas!  À 
vontade! Destroçar! 

Fizeram  aquilo  tudo  tão  bem  que  foi  uma  maravilha,  tendo  em 

consideração o espaço limitado de que dispunham. 

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-  Onde  é  que  tu  aprendeste  isto?  -  perguntou  o  Rato,  quando  baixaram 

novamente as armas e Marco se veio sentar ao pé dele como no dia anterior. 

- Com um antigo soldado. E gosto de observar, como tu fazes. 
- Há mais de um ano que tenho tentado incutir isto nestes tipos - disse o 

Rato. - Uma boa tarefa que eu arranjei! Bastante inglório! Ao princípio quase me 
pôs doente. 

O  semicírculo  à  sua  frente  ora  dava  umas  risadinhas  ora  ria  às 

gargalhadas.  Os  seus  membros  não  pareciam  ficar  muito  ofendidos  com  o 
tratamento pouco cavalheiresco. Claro que ele os entretinha o suficiente para se 
insinuar, apesar da sua tirania e indiferença. Meteu a mão num dos bolsos do 
casaco coçado e tirou um bocado de jornal. 

- O meu pai trouxe isto para casa a embrulhar um bocado de pão - disse. - 

Vê o que aqui diz! 

Entregou  o  pedaço  de  jornal  a  Marco,  apontando  para  algumas  palavras 

escritas  em  letras  grandes  ao  cimo  de  uma  coluna.  Marco  olhou  para  aquilo  e 
sentou-se muito sossegado. 

As palavras que ele leu eram: “O Príncipe Desaparecido”. 
“O silêncio continua a ser a palavra de ordem”, foi o primeiro pensamento 

que lhe ocorreu. 

- O que é que isto significa? - perguntou em voz alta. 
-  Não  sei  bem.  Gostava  que  dissesse  mais  -  respondeu  o  Rato  de  mau 

humor. - Lê e logo vês. Claro que dizem que pode não ser verdade, mas acho 
que é. As pessoas pensam que alguém sabe onde ele está, pelo menos onde está 
um  dos  seus  descendentes.  O  que  é  o  mesmo,  seria  o  rei  verdadeiro.  Bastava 
que ele aparecesse e podia ser que acabasse logo a luta toda. Vá, lê. 

Marco, ao ler, sentiu toda a pele arrepiar-se e o sangue a correr velozmente 

por  todo  o  corpo.  Mas  a  sua  cara  não  se  alterou.  Como  introdução,  havia  um 
pequeno resumo da história do Príncipe Desaparecido. O artigo dizia que isso 
devia  ser  encarado  como  uma  espécie  de  lenda.  Actualmente  circulavam 
rumores  que  afinal  não  era  lenda,  mas  uma  parte  da  história  da  Samávia. 
Dizia-se  mesmo  que  através  dos  séculos  tinha  existido  sempre,  secretamente, 
um partido leal à memória desse desaparecido Fedorovitch e que o juramento 
de fidelidade para com ele e seus descendentes tinha vindo de pais para filhos, 
de  geração  em  geração.  E  que,  embora  parecesse  romântico,  existia  uma 
convicção  do  povo,  em  que  algumas  pessoas  acreditavam,  de  que  o 
descendente tinha sido encontrado e que um certo partido secreto sustentava a 
tese de que se ele fosse chamado de novo para o trono da Samávia, as guerras e 
o derramamento de sangue acabariam. 

O Rato tinha começado a roer as unhas com toda a força. 

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- Acreditas que ele foi encontrado? - perguntou com ardor. - Eu acredito! 

Tu, não acreditas? 

-  Gostava  de  saber onde  está,  se  for  verdade  -  exclamou  Marco,  dando  a 

entender que se sentia desejoso de saber. 

-  Vamos  imaginar  que  somos  conspiradores  para  fazer  uma  revolução  a 

favor dele. Será um jogo esplêndido! Vamos fingir que somos o Partido Secreto! 

Estava muito excitado quando tirou um bocado de giz do bolso descosido. 

Depois  inclinou-se  para  a  frente  e  começou  a  desenhar  rapidamente  qualquer 
coisa no pavimento que estava ao pé da sua plataforma. O exército também se 
inclinou,  quase  sem  respirar,  bem  como  Marco.  O  giz  tinha  começado  a 
desenhar um mapa, e Marco já sabia qual era o mapa antes do Rato falar. 

- Isso é um mapa da Samávia - disse ele. - Estava naquele bocado de jornal 

de  que  te  falei,  que  tratava  do  Príncipe  Ivor.  Estudei-o  até  ficar  todo  rasgado. 
Nessa  altura  já  o  fixara,  por  isso  não  teve  importância.  Aí  é  a  capital  -  disse 
indicando  um  ponto.  -  Chama-se  Melzarr.  O  palácio  fica  lá.  Era  nesse  palácio 
que Ivor deambulava de manhã cedo, entoando a canção do pastor. É onde está 
o  trono  em  que  o  descendente  se  sentaria  para  ser  coroado,  isto  é,  onde  vai 
mesmo sentar-se. Acredito que é o que vai acontecer! Vamos jurar em como vai 
- atirou o giz ao ar e sentou-se. - Dêem-me dois paus. Ajudem-me a levantar. 

Dois elementos do exército puseram-se logo  em pé e vieram ter com ele. 

Cada  um  deles  agarrou  num  dos  paus  que  serviam  de  espingardas,  porque 
sabiam  exactamente  o  que  ele  queria.  Marco  levantou-se  também  e  observava 
tudo  com  curiosidade.  Tinha  pensado  que  o  Rato  não  se  podia  manter  de  pé, 
mas afinal até parecia que conseguia, indo mesmo fazê-lo, embora muito à sua 
maneira.  Os  rapazes  levantaram-no  pelos  braços,  encostaram-no  à  pedra  do 
muro  gradeado  que  circundava  o  largo  da  igreja,  e  colocaram-lhe  um  pau  em 
cada uma das mãos. Ficaram ao seu lado, apesar dele se conseguir manter de pé 
sozinho. 

- Ele podia andar por aí, se tivesse dinheiro para comprar umas muletas! - 

disse um, de nome Cad, e fê-lo com um certo orgulho. 

Uma coisa estranha em que Marco reparou foi que os maltrapilhos tinham 

muito orgulho no Rato e que o olhavam como o seu dono e senhor. 

- Ele podia andar por aí e manter-se de pé, como qualquer outra pessoa - 

acrescentou outro, dizendo isto num tom elogioso. O nome deste era Ben. 

-  Agora  vou  ficar  de  pé,  assim  como  vocês  -  disse  o  Rato.  -  Exército! 

Atenção!  Tu  aí:  coloca-te  à  frente  da  fila  -  gritou  para  Marco.  E  num  instante 
ficaram  todos  em  fila,  muito  direitos,  com  os  ombros  para  trás,  e  as  cabeças 
levantadas, com Marco à frente de todos. 

- Vamos fazer um juramento - disse o Rato. É um juramento de obediência. 

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Obediência  significa  ser  fiel  para  com  uma  coisa,  um  rei  ou  um  país.  O  nosso 
vai significar fidelidade para com o Rei da Samávia. Não sabemos onde é que 
está,  mas  vamos  jurar  ser-lhe  fiéis,  lutar  por  ele,  morrer  por  ele  e  levá-lo  de 
volta ao trono! - E levantou a cabeça com muita delicadeza, quando proferiu a 
palavra “morrer”. - Nós somos o Partido Secreto. Vamos trabalhar em segredo, 
tentando descobrir factos, e, correndo riscos, vamos juntar um exército sem que 
ninguém descubra nada, até este estar suficientemente forte e poder dar o sinal 
secreto  para  dominar  Maranovitch  e  Iarovitch  e  confiscar  os  seus  fortes  e 
cidadelas. Ninguém deve saber que nós existimos. Devemos ser uma realidade 
secreta e silenciosa que nunca se manifesta em voz alta! 

E como lhes pareceu uma grande ideia, essa do jogo, pela possibilidade de 

inúmeras travessuras, os elementos do exército desataram numa gritaria, apesar 
de terem de se manter sempre silenciosos e secretos. 

- Viva! - gritavam. - Viva o juramento de obediência! 
-  Calem-se,  seus  brutos!  -  gritou  o  Rato.  -  É  dessa  maneira  que  querem 

manter-se secretos? Assim, vão até atrair a polícia, seus parvos! Olhem para ele! 

e apontou para Marco. - Ele é que tem juízo. De facto, Marco não tinha 

feito qualquer ruído. 

- Vocês, Cad e Ben, venham cá e ponham-me de novo nas minhas rodas - 

gritou  o  comandante do  exército.  -  Nem  sequer  vou  iniciar  o  jogo.  Não  vale  a 
pena com este grupo de cabeças ocas e recrutas rafeiros, que é o que vocês são. 

A formação desfez-se e acercou-se dele para suplicar. 
- Oh Rato! Nós esquecemo-nos. Este é o primeiro jogo que planeaste, Rato! 

Não fiques de mau humor! Nós vamos ficar sossegados! Oh, Rato! Prometemos! 

- Prometerem, vocês! - resmungou o Rato. 
- Nenhum de nós podia fazer isso senão tu! Nem um! Ninguém era capaz 

de pensar nessas coisas. Foste tu que te lembraste do exército! E é por isso que 
és o capitão! 

Isto  era  verdade.  Era  ele  o  único  a  conseguir  inventar  entretenimentos 

para  estes  rapazes  da  rua  que  não  tinham  mais  nada.  Além  daquilo  que  ele 
criava, não tinham mais nada que os excitasse e que lhes preenchesse os dias de 
chuva ou de nevoeiro. Foi isso que fez dele o seu capitão e o seu orgulho. 

O  Rato  começou  então  a  ceder,  embora  de  má  vontade.  Apontava  para 

Marco, que não se mexia e continuava quieto com atenção. 

- Olhem para ele! - disse. - Ele sabe o suficiente para permanecer onde o 

mandaram ficar, até lhe darem ordem em contrário. Ele é um soldado, e não um 
reles recruta, que nem sabe marchar o passo de ganso. 

Todavia,  depois  de  ter  desabafado  deste  modo,  condescendeu  em 

continuar. 

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-  Aqui  vai  o  juramento  -  disse.  -  Juramos  preferir  suportar  qualquer 

tortura e submetermo-nos a qualquer morte, a trair o nosso segredo e o nosso 
rei.  E,  se  nos ordenarem,  seremos  capazes  de  nadar  em  mares  de sangue  e  de 
abrir  caminho  por  entre  lagos  de  fogo.  Nada  deve  impedir  o  nosso  caminho. 
Tudo o que fizermos, dissermos e pensarmos será pelo nosso país e pelo nosso 
rei.  Se  algum  de  vocês  tem  algo  a  dizer,  é  melhor  que  o  faça  antes  de  fazer  o 
juramento. 

Formaram  então  um  círculo  mais  fechado  e  puseram-se  a  falar  em 

segredo. 

-  Devia  ser  colocada  uma  sentinela  no  final  da  passagem  -  segredou 

Marco. 

- Ben, leva a tua arma! - ordenou o Rato. Ben levantou-se furtivamente e 

pondo a arma ao ombro encaminhou-se em bicos dos pés para a abertura. E aí 
ficou de guarda. 

- O meu pai diz que desde há cem anos tem havido um Partido Secreto na 

Samávia - murmurou o Rato. 

- Quem é que lhe disse? - perguntou Marco. 
- Um homem que tem estado na Samávia - respondeu o Rato. - O partido 

começou  com  alguns  pastores  e  mineiros  que  prestaram  o  juramento  de 
encontrar  o  Príncipe  Desaparecido  e  voltar  a  colocá-lo  no  trono.  Eram  ao 
princípio  muito  poucos  a  querer  fazer  alguma  coisa  contra  Maranovitch  e 
quando esses acharam que já estavam a ficar velhos, fizeram com que os seus 
filhos  prestassem  o  mesmo  juramento.  Assim,  em  cada  geração,  o  partido  foi 
crescendo.  Ninguém  sabe  actualmente  qual  é  a  sua  dimensão,  mas  diz-se  que 
há  pessoas  que  a  ele  aderiram  em  quase  todos  os  países  da  Europa,  e  que 
juraram ajudar quando para isso forem chamados. Estão só à espera. Uns, são 
ricos  e  têm  dinheiro  para  dar;  e  outros,  os  que  são  pobres  e  não  podem 
contribuir  financeiramente,  podem,  no  entanto,  escapar  pela  fronteira  para 
combater  e  ajudar  na  luta  armada.  Dizem  que  durante  todos  estes  anos  têm 
juntado armas nas caves das montanhas e que estas lá ficaram escondidas ano 
após ano. Existem uns homens, chamados Forjadores da Espada, que, tal como 
os  seus  pais,  avós,  e  bisavós  têm  feito  as  suas  espadas  e  as  armazenaram  em 
cavernas escondidas no subsolo, sem ninguém saber onde.  

Marco,  então,  exprimiu  em  voz  alta  o  pensamento  que  o  tinha 

preocupado, enquanto ouvia. 

-  Se  as  pessoas  na  rua  falam  disso,  não  vão  estar  escondidas  muito  mais 

tempo. 

-  O  meu  pai  diz  que  não  é  vulgar  ouvir  falar  nisso.  Só  alguns  pensam 

assim,  e  julgam  que  faz  parte  da  lenda  do  Príncipe  Desaparecido.  Até 

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Maranovitch  e  Iarovitch  troçam  disso.  Têm  sido  sempre  uns  grandes  idiotas. 
Estão tão senhores do seu poder que pensam que nada pode vir a interferir. 

-  Eu  acho  que,  se  gostas  um  pouco  dos  Samavianos,  era  melhor 

pedires-lhe para não falar do Partido Secreto, nem dos Forjadores da Espada - 
sugeriu Marco. 

O Rato sobressaltou-se um pouco. 
- Isso é verdade! - disse. - Tu és mais esperto do que eu. Não se deve andar 

a  falar  nisso  por  aí.  Vou  ver  se  o  consigo  fazer  prometer.  Há  uma  coisa  que  é 
estranha nele - acrescentou lentamente, como se estivesse a reflectir sobre isso. - 
Suponho  que  é  a  sua  faceta  de  senhor,  que  nele  ainda  subsiste:  se  faz  uma 
promessa, nunca a quebra quer esteja embriagado ou sóbrio. 

-  Pede-lhe  então  para  fazer  uma  -  disse  Marco.  E  a  seguir,  mudou  de 

assunto  porque  lhe  pareceu  melhor.  -  Vá  lá,  conta-nos  o  que  é  que  o  nosso 
Partido Secreto vai fazer. Estamos a esquecer-nos - segredou ele. 

E  o  Rato  retomou  o  seu  jogo  com  redobrado  vigor.  Era  um  jogo  que  o 

atraía imenso porque desenvolvia a sua imaginação e mantinha a sua audiência 
fascinada, além de o lançar nas coisas da guerra e nas suas estratégias. 

Fora  a  melhor  coisa  que  o  Rato tinha  inventado  até  então,  na  opinião  do 

exército. Foi uma maravilha, realmente! 

A luz está acesa! 
De  regresso  a  casa,  Marco  não  pensava  em  mais  nada  senão  no  que  ia 

dizer  ao  pai  sobre  a  história  que  o  estrangeiro  que  tinha  estado  na  Samávia 
contara  ao  pai  do  Rato.  Achava  que  devia  ser  verdadeira.  Os  Forjadores  da 
Espada  deviam  ser  homens  de  verdade,  e  de  viam  também  ser  autênticas  as 
cavernas  cheias  de  armas,  escondidas  durante  séculos.  E  se  tudo  isto  fosse 
assim, de certeza que o seu pai era um dos que sabiam o segredo. 

 Estava desejoso de chegar a casa e poder contar imediatamente ao pai o 

que tinha ouvido. 

Mas  quando  chegou  ao  n.o  7  da  Praça  Philibert,  encontrou  Loristan  e 

Lazarus  muito  ocupados  com  o  trabalho.  A  porta  da  sala  das  traseiras  estava 
trancada  quando  ele  bateu,  e  ficou  novamente  fechada,  depois  de  ter  entrado. 
Havia  muitos  papéis  em  cima  da  mesa  e,  claro,  eles  estavam  a  estudá-los. 
Alguns,  eram  mapas,  outros,  traçados  de  estradas,  e  outros  ainda,  planos  de 
cidades  vilas  e  de  algumas  fortificações,  todas  elas  localizadas  na  Samávia. 
Habitualmente estavam guardados num cofre forte e quando os tiravam de lá 
para os estudarem, a porta da sala estava sempre fechada. 

Antes do jantar, todos estes papéis voltavam novamente para o cofre, que 

a seguir era arrumado num canto, onde depois se colocavam jornais. 

-  Quando  ele  chegar  -  ouviu  o  pai  dizer  para  Lazarus  -,  podemos 

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mostrar-lhe claramente o que tem sido planeado. Poderá verificar com os seus 
próprios olhos.  

Durante  a  refeição  Loristan  mal  falou.  E  embora  não  fosse  hábito  de 

Lazarus falar nessas alturas, a não ser que lho pedissem, pareceu a Marco que 
nessa  noite  ele  ainda  estava  mais  silencioso  do  que  era  costume.  Estavam  os 
dois  certamente  a  pensar  em  coisas  muito  sérias.  E  Marco  achou  que  o 
momento  não  era  oportuno  para  contar  a  história  do  estrangeiro  que  tinha 
estado na Samávia. 

Loristan não disse nada até Lazarus ter tirado todas as coisas de cima da 

mesa  e  limpar  a  sala  o  mais  possível.  Durante  essa  operação,  esteve  sentado 
com a cabeça apoiada na mão, absorvido nos seus pensamentos. Só a seguir fez 
um gesto a Marco. 

- Vem cá, camarada - disse. 
Marco encaminhou-se então para ele. 
-  Pode  ser  que  esta  noite  venha  uma  pessoa  falar  comigo  sobre  coisas 

sérias - disse. - Temos que mandar alguém ao seu encontro pelo lado oposto da 
rua  onde  vai  aparecer.  Esse  alguém  terá  de  cruzar-se  com  ela,  como  que  por 
acaso, e dar-lhe a seguinte senha em voz baixa: “A luz está acesa!”. Em seguida 
deve afastar-se calmamente. 

A voz de Marco quase estremecia de excitação. 
-  Como  vou  reconhecê-la?  -  disse  imediatamente.  Sem  ter  perguntado, 

soube logo que era ele quem devia ir. 

- Já a viste - respondeu Loristan. - É o homem que ia na carruagem com o 

Rei. 

- Vou reconhecê-lo - disse Marco. - Quando devo ir? 
- Nunca antes da uma e meia. Vai para a cama e dorme até Lazarus te ir 

chamar - e acrescentou em seguida: - Olha bem para a sua cara antes de falares. 
Provavelmente ele não vai estar vestido como quando o viste da primeira vez. 

Marco  foi  para  a  cama  como  o  pai  lhe  disse,  mas  custou-lhe  imenso  a 

adormecer. Devia ser um assunto sério, relacionado com a guerra, o que levava 
um  homem  que  era  um  grande  diplomata  e  companheiro  de  reis,  a  vir  falar, 
sozinho  e  em  segredo,  com  um  patriota  Samaviano.  Quase  se  podia  ouvir  o 
coração  de  Marco  bater  debaixo  da  camisa,  enquanto  estava  ali  deitado  no 
colchão a pensar nisso tudo. Teria realmente de olhar bem para o desconhecido, 
antes de se dirigir a ele. Tinha que ter a certeza de que ele era o homem certo. 
Aquele  jogo  que  o  entusiasmava  já  há  tanto  tempo,  o  de  tentar  lembrar-se 
claramente e com todos os pormenores de retratos e de pessoas  bem como de 
locais,  havia  sido  um  óptimo  treino.  Se  soubesse  desenhar,  tinha  a  certeza  de 
que conseguiria fazer um esboço da cara esguia com olhos vivos e de boca bem 

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desenhada, capaz de guardar segredos. 

Saltou  da  cama  e  dirigiu-se  para  uma  mesa  ao  pé  da  janela,  onde  havia 

papel e lápis. Um candeeiro da rua, que ficava mesmo ao pé da janela, dava a 
luz suficiente para ele poder ver. E assim, meio ajoelhado, começou a desenhar. 
A  pouco  e  pouco,  conseguiu  que  a  parecença  se  tornasse  cada  vez  maior,  não 
tardando  mesmo  que  se  tornasse  evidente. Qualquer  pessoa  que  conhecesse  o 
homem  conseguiria  reconhecê-lo  ali.  Levantou-se  então,  dando  um  longo 
suspiro de alívio e de satisfação. 

Todas as luzes estavam apagadas, excepto a do quarto do seu pai, donde 

podia  ver-se  sair  uma  nesga  de  claridade.  Desde  pequeno  que  lhe  tinham 
ensinado  a  bater  na  porta  com  um  sinal  especial,  quando  queria  falar  com 
Loristan. Então, parou do lado de fora da sala das traseiras e bateu desse modo, 
com um arranhar ao de leve e uma suave pancadinha. Lazarus abriu a porta e 
pareceu preocupado. 

- Agora não são horas, senhor - disse numa voz muito baixa. 
- Eu sei - respondeu Marco. - Mas tenho uma coisa para mostrar ao meu 

pai. - Lazarus deixou-o entrar, ao mesmo tempo que Loristan se afastou da sua 
mesa de trabalho com um olhar inquiridor. 

Marco avançou na sua direcção e pôs-lhe o esboço à frente. 
- Olhe para aqui - disse. - Lembro-me tão bem, que consegui desenhar isto. 

Pensei logo que podia fazer um retrato. Acha que está parecido com ele? 

Loristan depois de o ter examinado bem de perto, disse: 
-  Está  efectivamente  muito  parecido  com  ele.  Dás-me  um  grande  alívio. 

Obrigado, camarada. Foi uma grande ideia. 

E ao dar um aperto de mão ao rapaz, sem ser por favor, fê-lo sentir uma 

enorme  alegria.  Marco  ia  retirar-se,  mas  quando  estava  já  perto  da  porta, 
Loristan chamou-o e disse-lhe: 

- Tens de desenvolver esse dom. Sim, porque isso é um dom. E também é 

verdade  que  tens  treinado  bem  a  tua  memória.  Quanto  mais  desenhares 
melhor, desenha tudo o que puderes. 

Quando Marco voltou para a cama, dormiu  profundamente como  só um 

rapaz consegue, e à uma hora em ponto acordou, verificando que o candeeiro 
de rua continuava aceso fazendo-lhe entrar a claridade pela janela. Levantou-se 
e  vestiu-se.  Levava  os  sapatos  na  mão,  para  os  calçar  quando  chegasse  à  rua. 
Tornou a fazer o sinal na porta do pai e foi Loristan que imediatamente a veio 
abrir. 

- Vou agora? - perguntou Marco. 
-  Sim,  atravessa  devagar  para  o  outro  lado  da  rua  e  olha  em  todas  as 

direcções, porque não sabemos donde é que ele vem. Depois de lhe teres feito o 

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sinal, vem outra vez para casa e volta para a cama. 

Marco fez uma saudação como se fosse um soldado a receber uma ordem, 

e logo a seguir saiu de casa sem fazer barulho. 

Loristan voltou para dentro e ali ficou de pé no meio da sala em silêncio. A 

figura  longilínea  do  seu  corpo  elegante  manteve  um  ar  muito  formal  e 
particularmente  erecto  e  os  seus  olhos  brilhavam  como  se  houvesse  alguma 
coisa que o tivesse tocado profundamente. 

-  Ali  cresce  um  homem  para  a  Samávia!  -  disse  ele  para  Lazarus,  que  o 

observava. - Louvado seja Deus! 

A voz de Lazarus fez-se ouvir em tom rouco e baixo ao mesmo tempo que 

fazia uma saudação com ar muito solene. 

- O seu homem, senhor! Deus proteja o Príncipe! 
- Sim - respondeu Loristan depois de um momento de hesitação -, quando 

ele for encontrado. 

E voltou para junto da mesa sorrindo feliz. 
É  quase  inacreditável  que,  depois  da  meia-noite,  uma  vez  desaparecido 

todo  o  barulho  e  tumulto,  se  possa  gozar  o  maravilhoso  silêncio  nas  ruas 
desertas  de  uma  grande  cidade.  Ainda  há  algumas  horas  havia  azáfama  por 
todos os lados; e dentro de pouco tempo tudo voltará a passar-se com a mesma 
pressa. Mas neste momento a rua não é mais do que uma coisa sem vida; até o 
passo distante de um polícia, a fazer a ronda pelos passeios, tem um som vazio 
e estranho. Foi o que Marco achou quando atravessou a rua. 

Tomou então atenção aos passos do polícia,  porque não queria que ele o 

visse. Havia uma reentrância na parede onde ele se podia esconder na sombra 
enquanto o homem passava. 

Em seguida fez-se silêncio novamente e, durante algum tempo, pareceu a 

Marco que não ia aparecer ninguém. 

Quando  voltou  para  a  claridade,  começou  a  desejar  que  todo  aquele 

tempo não parecesse demasiado a seu pai, que devia estar ainda mais ansioso 
do que ele. 

Loristan sabia que muita coisa dependia da vinda daquele grande homem. 
 “Pode  ser  alguma  coisa  de  que  toda  a  Samávia  está  à  espera;  ou,  pelo 

menos,  todo  o  Partido  Secreto”,  pensou  Marco.  “O  Partido  Secreto  é  a 
Samávia”, pensava ele, quando começou a ouvir uns passos. “Vem aí alguém! E 
é um homem”. 

Era um homem que vinha pelo passeio do mesmo lado em que ele estava. 

Marco começou então a andar calma mas rapidamente na sua direcção. Pensou 
que  seria  melhor  dar  a  entender  que  era  um  rapaz  que  tinha  sido  mandado 
fazer  um  recado,  talvez  chamar  um  médico.  Assim,  se  o  homem  fosse  um 

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estranho,  não  levantaria  quaisquer  suspeitas.  Seria  este  homem  tão  alto  como 
aquele  que  tinha  visto  com  o  Rei?  Sim,  parecia  ter  mais  ou  menos  a  mesma 
altura, mas estava ainda demasiado longe para se poder ter qualquer certeza. À 
medida que se aproximava, Marco reparou que ele parecia também acelerar o 
passo. Marco continuou a andar. Só um pouco mais perto poderia ter a certeza. 
Agora,  que  já  estava  suficientemente  perto,  verificou  que  na  realidade  era  da 
mesma altura e que a sua figura não era muito diferente da que lhe era familiar. 
Mas era muito mais novo. Decididamente não era o mesmo que tinha visto na 
carruagem com Sua Majestade. Este, que agora estava a ver, não tinha mais de 
trinta anos. E foi precisamente só depois de o polícia ter aparecido na sua ronda 
e  ter  desaparecido  novamente  que  Marco  ouviu  uns  passos  ecoarem  a  uma 
certa distância, ao fundo de uma rua transversal. Depois de ter escutado e de se 
ter certificado que se vinham a aproximar, é que ele se foi pôr numa ponta do 
passeio  donde  podia  ver  toda  a  extensão  do  quarteirão.  E  realmente  vinha 
mesmo  alguém.  Era  novamente  uma  figura  de  homem.  Marco  colocou-se  de 
novo  na  sombra,  de  modo  que  a  pessoa  não  pudesse  notar  que  estava  a  ser 
observada.  O  transeunte  solitário  conseguiu  atravessar  uma  distância 
considerável  em  apenas  dois  minutos.  Vinha  vestido  com  um  fato  vulgar,  já 
bastante  coçado.  O  seu  chapéu  estava  muito  dobrado,  de  modo  que  lhe  fazia 
sombra  na  cara.  Mas  apesar  disso,  mesmo  antes  de  ter  atravessado  para  o 
mesmo  lado  do  passeio  de  Marco,  o  rapaz  conseguiu  logo  reconhecê-lo.  Era 
exactamente o homem que tinha visto com o Rei! 

A  sorte  acompanhava  Marco.  O  homem  veio  atravessar  exactamente  no 

sítio que foi mais fácil para Marco aparecer junto dele; andou alguns passos a 
seu  lado  e  depois  de  lhe  passar  directamente  pela  frente,  olhou-o calmamente 
no rosto e disse-lhe numa voz baixa mas clara nas palavras: “A luz está acesa!”. 
Isto  tudo  sem  parar,  até  descer  a  rua.  E  antes  de  se  encontrar  a  uma  certa 
distância  não  abrandou  o  passo  nem  sequer  olhou  para  trás.  Só  depois  é  que 
olhou  por  cima  do  ombro  e  pôde  ver  que  a  pessoa  tinha  atravessado  a  rua  e 
estava agora já dentro do gradeamento. Estava tudo a correr bem. Seu pai não 
ia ficar desapontado. O tal homem importante, afinal, sempre tinha vindo. 

Ainda andou uns dez minutos pela rua e só depois voltou para casa. 

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Um jogo emocionante 

 
No dia seguinte, Loristan só se referiu uma vez ao que tinha acontecido. 
-  Foste  um  bom  mensageiro.  Não  te  mostraste  nem  apressado  nem 

nervoso - disse ele. - O Príncipe ficou muito satisfeito com a tua calma. 

Nada  mais  se  disse  sobre  o  assunto.  Marco  sabia  que  aquela  mera 

referência ao título do estrangeiro tinha sido feita unicamente como designação. 
Se  fosse  necessário  falar  nele  outra  vez  podia  chamar-lhe  “o  Príncipe”.  Marco 
foi para a Torre de Londres e passou parte do tempo a tentar reviver as histórias 
que se haviam passado dentro das suas paredes de pedra maciça. 

Nesse dia havia apenas um pequeno grupo de turistas acompanhado por 

um  guia.  Este  era  um  homem  alto  e  corpulento,  muito  parecido  até  com  os 
próprios  retratos  de  Henrique  VIII.  E  então,  quando  parou  junto  da  tabuleta 
que marca o sítio em que esteve o cepo no qual Lady Jane Grey colocou a sua 
jovem cabeça, ainda falou mais. Isto também porque um dos turistas, que sabia 
pouco da história de Inglaterra, tinha feito algumas perguntas sobre a razão da 
execução dela. 

- Se o sogro dela, o Duque de Northumbria, tivesse deixado o jovem casal 

sozinho, ela e seu marido, o Lord Guilford Dudley, teriam conseguido salvar as 
cabeças. Ele pretendia fazer dela uma rainha, mas Maria Tudor tinha decidido 
ela  própria  tornar-se  rainha.  E  o  Duque  não  fora  suficientemente  esperto  para 
manobrar  uma  conspiração  e  controlar  o  povo.  Estes  Samavianos,  de  quem 
agora tanto ouvimos falar nos jornais, teriam feito muito melhor. Mesmo sendo 
meio selvagens. 

-  Ontem,  até  travaram  uma  batalha  enorme  nos  arredores  de  Melzarr  - 

disse um turista, mesmo ao pé de Marco, para a rapariga que o acompanhava. - 
Foram mortos milhares deles. Estão só a matar-se uns aos outros, é o que estão 
a fazer. 

-  Nem  têm  tempo  de  enterrar  os  seus  mortos  -  disse  o  guia.  -  O  que  os 

países  civilizados  deviam  fazer,  era  obrigá-los  a  escolher  um  rei  decente  e  a 
portarem-se como deve ser. 

“Vou também contar isto ao meu pai”, pensou Marco. “Mostra que toda a 

gente anda a pensar e a falar na Samávia, e que até mesmo as pessoas vulgares 
sabem que deve haver um rei autêntico”. 

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Mas o pai tinha saído quando ele voltou para casa e Lazarus estava ainda 

mais silencioso do que era costume e, de pé, atrás da sua cadeira, guardava-lhe 
a frugal refeição, enquanto esperava por ele. Embora fosse simples e escassa a 
comida  que  podiam  ter,  não  deixava  de  ser  servida  com  tanto  cuidado  e 
cerimónia como se fosse um banquete. 

-  Há  aqui  algum  jornal  que  fale  da  batalha  em  Melzarr,  Lazarus?  - 

perguntou depois de se ter levantado da mesa. 

- Há, senhor - foi a resposta. - E o seu pai até disse que o devia ler. É uma 

história tenebrosa! - acrescentou, ao mesmo tempo que lhe passava o jornal. 

Era mesmo uma história horrível. E à medida que ia lendo, Marco sentia 

que mal a podia suportar. Era como se a Samávia nadasse num mar de sangue e 
como se os outros países ficassem estupefactos perante tão cruéis atrocidades. 

-  Lazarus  -  disse  ele,  pondo-se  por  fim  de  pé,  num  salto,  com  os  olhos  a 

flamejar -, algo tem de fazer parar isto! Tem de haver uma maneira. Chegou a 
altura.  -  E  andava  de  um  lado  para  o  outro  da  sala  demasiado  excitado  para 
poder estar sossegado. 

E como Lazarus o observava! Que forte e ardente sentimento havia na sua 

face contraída! 

- Pois claro, senhor. Com certeza que chegou a altura - respondeu ele. Mas 

foi tudo o que disse. Depois voltou-se e saiu imediatamente da sala. Foi como se 
tivesse achado que seria melhor ir-se embora, antes de perder o controle e dizer 
mais do que queria. 

Marco encaminhou-se então para o local de encontro do exército, ao qual o 

Rato tinha em tempos dado o nome de quartel. O Rato estava sentado entre os 
seus seguidores, a acabar de lhes ler o jornal da manhã, que trazia o assunto da 
batalha  de  Melzarr.  O  exército  tinha-se  tornado  no  Partido  Secreto  e  cada  um 
dos seus membros estava emocionado com o espírito de luta e aventura. Todos 
cochicharam quando eles falaram. 

-  Isto  agora  não  é  o  quartel  -  disse  o  Rato.  É  uma  caverna  subterrânea, 

onde estão escondidas milhares de espadas e espingardas, e que está cheia até 
ao  telhado.  Só  ficou  livre  um  pequeno  espaço  para  nos  podermos  sentar  e 
combinar  o  que  há  a  fazer.  Temos  de  rastejar  para  entrar  por  um  buraco,  que 
está escondido entre os arbustos. 

Para  o  resto  dos  rapazes  isto  era  unicamente  um  jogo  emocionante,  mas 

Marco  sabia  que  para  o  Rato  isto  era  mais  do  que  isso.  Embora  o  Rato  não 
soubesse  nenhuma  das  coisas  que  ele  sabia,  toda  a  história  lhe  parecia  muito 
real. As lutas da Samávia, tal como ele as tinha ouvido e como as tinha lido nos 
jornais,  tinham-no  absorvido  completamente.  A  sua  paixão  por  comandar 
soldados  e  enfrentar  guerras,  além  da  maturidade  curiosa  do  seu  cérebro, 

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tinham-no  levado  a  seguir  todos  os  pormenores  de  que  podia  dispor.  Ele 
lembrava-se de coisas que as pessoas mais velhas tinham esquecido depois de 
as terem contado. Ele não se esquecia de nada. Tinha desenhado nas pedras um 
mapa da Samávia, que Marco achava que estava bastante correcto e tinha feito 
um  pequeno  esboço  de  Melzarr  e  da  batalha  que  tinha  tido  resultados  tão 
desastrosos. 

- Acredito que serias um bom general se tivesses crescido - disse Marco. - 

Gostava  de  mostrar  os  teus  mapas  ao  meu  pai  e  de  lhe  perguntar  se  ele  não 
acha que o teu estratagema teria sido muito bom. 

- Ele sabe muito sobre a Samávia? - perguntou o Rato. 
-  Ele  precisa  de  ler  os  jornais  para  escrever  as  suas  coisas  -  respondeu 

Marco.  -  E  além  disso  toda  a  gente  anda  a  pensar  na  guerra.  Ninguém  pode 
deixar de pensar. 

O Rato tirou então do bolso uma folha de jornal, dobrada e desbotada, e 

pôs-se a olhar para ela com ar de reflexão. 

- Vou fazer um novo mapa - disse. - Gostava que um adulto o examinasse, 

e dissesse se está bem ou não. O meu pai estava mais do que meio embriagado 
quando  desenhei  este,  por  isso  não  lhe  pude  fazer  perguntas.  Vai  acabar  por 
morrer devido ao vinho. Ontem à noite teve uma espécie de desmaio. 

- Rato, diz-nos o que tu e o Marco vão fazer. Deixa-nos ouvir o que é que 

vocês  combinaram  -  sugeriu  Cad.  Ao  dizer  isto  aproximou-se  mais,  tendo  o 
resto do círculo feito o mesmo. 

- Isto é o que nós vamos ter de fazer - começou o Rato por dizer. - Temos 

de divulgar a mensagem do Partido Secreto: “Chegou a altura!”. Este sinal tem 
de ser levado a todos os elementos do Partido Secreto, na Samávia, assim como 
aos simpatizantes noutros países. E tem de ser levado por alguém de quem não 
possa suspeitar-se. Quem iria suspeitar de dois rapazes, sendo ainda por cima 
um  deles  um  aleijado?  A  melhor  coisa,  para  nós,  é  eu  ser  aleijado.  Quem  iria 
suspeitar de um aleijado? Quando o meu pai está embriagado e me bate, fá-lo 
porque  eu  não  saio  para  a  rua  a  pedir  esmola,  para  depois  lhe  entregar  o 
dinheiro.  Ele  diz  que  as  pessoas  dão  quase  sempre  dinheiro  a  um  aleijado. 
Marco  fingiria  ser  o  meu  irmão,  que  tomava  conta  de  mim.  Quer  dizer  - 
continuou, virando-se para Marco com uma súbita mudança de voz -, és capaz 
de cantar alguma coisa? Não importa como o faças. 

- Sim, sou capaz de cantar - retorquiu Marco. 
-  Então  o  Marco  vai  fingir  que  canta  para  fazer  com  que  as  pessoas  me 

dêem  dinheiro.  Vou  arranjar  um  par  de  muletas,  e  uma  parte  do  tempo  vou 
andar  com  elas  e  a  outra  parte  fico  no  estrado.  Viveremos  como  pedintes  e 
podemos ir onde quisermos. Podemos passar de um país para outro e instigar 

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toda a gente que pertence ao Partido Secreto. Vamos introduzir-nos na 

Samávia  e  seremos  apenas  dois  rapazes,  sendo  um  deles  aleijado,  e 

ninguém  vai  pensar  que  nós  andamos  a  fazer  alguma  coisa.  Vamos  pedir 
esmola tanto nas grandes cidades como na estrada. 

- E onde é que vão arranjar dinheiro para viajar? - perguntou Cad. 
- O Partido Secreto dar-nos-ia algum. Não precisaremos de muito. O resto, 

poderemos  obtê-lo  com  as  esmolas  que  nos  derem.  Vamos  dormir  ao  relento, 
debaixo das pontes, nos arcos ou em cantos escuros das ruas. Se estiver frio, é 
muito mau, mas se estiver bom tempo, ainda é melhor do que dormir no sítio 
onde costumo. “Camarada” - disse para Marco -, estás pronto? 

Ele disse “Camarada”, como Loristan costumava fazer, mas Marco não se 

ressentiu,  porque  estava  sempre  pronto  para  trabalhar  para  a  Samávia.  Era  só 
um jogo, mas tornava-os camaradas. Mas seria mesmo apenas um jogo? A voz 
excitada  do  Rato  e  a  sua  face  enrugada  tornavam-no  singularmente  original  e 
perturbador. 

Marco tinha os seus pensamentos num turbilhão. Não devia passar de um 

jogo. Mas estava a aquecer. Se o Partido Secreto pretendia enviar mensageiros, 
ninguém iria suspeitar de dois inofensivos rapazes vagabundos, tirando partido 
tanto  quanto  podiam  do  seu  modo  de  vida,  dando  a  entender  que  não 
dependiam  de  ninguém.  E,  ainda  por  cima,  sendo  um  deles  um  aleijado.  Era 
verdade, tal como o Rato tinha dito, que o facto de ele ser um aleijado o tornava 
ainda mais seguro do que qualquer outra pessoa. 

Marco levou as mãos à cabeça e comprimiu as têmporas. 
- O que é que foi? - exclamou o Rato. - Em que é que estás a pensar? 
-  Estou  a  pensar  no  bom  general  que  tu  darias.  Estou  a  pensar  que  tudo 

isso poderia ser real, cada uma dessas palavras poderia ser a própria realidade. 
Podia até nem ser um jogo - disse Marco. 

-  Pois  não  -  respondeu  o  Rato.  -  Se  eu  soubesse  como  contactar  o  tal 

Partido  Secreto,  iria  ter  com  eles  e  far-lhes-ia  esta  proposta....  -  parou 
subitamente,  e  disse:  -  O  que  é  esta  gritaria?  -  de  facto,  ouviam-se  ardinas  a 
apregoar jornais a plenos pulmões;  no círculo dos rapazes ninguém falava, na 
expectativa. Marco e o Rato escutavam com muita atenção, tal como o exército, 
todos espevitando bem os ouvidos. 

-  Novidades  sensacionais  sobre  a  Samávia!  -  apregoavam  os  ardinas.  - 

História extraordinária! Apareceu o descendente do Príncipe Desaparecido! 

-  Alguém  tem  dinheiro  para  se  comprar  o  jornal?  -  perguntou  o  Rato, 

encaminhando-se para o arco. 

- Tenho eu - respondeu Marco, seguindo-o. 
-  Então  vamos  -  disse  o  Rato.  -  Vamos  comprar  o  jornal.  E  deslizou  pela 

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passagem em arco, seguido por Marco e pelo exército, cujos elementos gritavam 
e gesticulavam de excitação. 

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Isto não é um jogo

 

 
Loristan andava de um lado para o outro, na sala das traseiras, ouvindo o 

que Marco, sentado junto da pequena lareira, dizia. 

- Continua - dizia, sempre que o rapaz parava. 
-  Quero  ouvir  tudo.  Ele  é  um  rapaz  muito  estranho  e  isso  é  um  jogo 

esplêndido. 

Um ano depois, Marco, ao lembrar-se dessa noite ainda se emocionava e 

pensava que aquela recordação nunca mais lhe sairia da memória ao longo de 
toda  a  sua  vida.  Seria  sempre  capaz  de  se  lembrar  de  tudo,  com  todo  o 
pormenor.  Daquela  sala  das  traseiras,  pequena  e  sombria,  da  pouca  claridade 
do  pobre  fogão  a  gás,  que  era  tudo  de  que  eles  podiam  dispor  para  se 
iluminarem,  do  cofre  de  ferro  empurrado  para  um  canto  com  os  mapas  e  os 
planos todos lá dentro, guardados em segurança, da postura muito direita e da 
beleza  da  figura  alta do  pai,  que  nem  mesmo  as  roupas  usadas  e  remendadas 
conseguiam esconder ou disfarçar. Os seus olhos pareciam ainda mais escuros e 
mais  maravilhosos  que  nunca,  ao  recordar-se  de  ouvir  com  todo  o  interesse 
aquilo que ele dizia. 

-  Continua  -  disse  ele.  -  É  um  jogo  esplêndido.  E  ele  imaginou-o  muito 

bem. Esse miúdo nasceu para ser soldado. 

- Para ele não é um jogo - disse Marco. - Assim como também não o é para 

mim. O exército anda só a brincar, mas com ele a coisa é diferente. Ele sabe que 
nunca  vai  conseguir  aquilo  que  quer,  mas  sente  que  isto  é  qualquer  coisa  de 
muito parecido. Disse-me até que lhe podia mostrar o mapa que tinha feito. Pai, 
olhe para isto. 

E  deu  a  Loristan  a  cópia  nova  do  mapa  da  Samávia,  feito  pelo  Rato.  A 

cidade de Melzarr estava marcada com certos sinais, que serviam para mostrar 
quais  os  pontos  donde  o  Rato,  se  tivesse  sido  um  general  Samaviano,  teria 
atacado a capital. À medida que Marco os apontava, ele ia explicando as razões 
do Rato para o seu plano. 

Loristan  segurou  no  papel  durante  alguns  minutos,  fixando-o  com 

curiosidade ao mesmo tempo que franzia as sobrancelhas pretas. 

- Isto está muito bom! - disse por fim. - Eles podiam ir para lá, pelas razões 

que ele apresentou. Como é que ele aprendeu isto tudo? 

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 - Ele agora não pensa em mais nada - respondeu Marco. - Aliás, pensou 

sempre em guerras e em planos para batalhas. Não é como o resto do exército. 
O  pai  dele  anda  quase  sempre  embriagado,  mas  apesar  disso  é  muito  bem 
educado, e quando está só meio bêbado, gosta muito de conversar. Nessa altura 
o  Rato  faz-lhe  perguntas  e  consegue  descobrir  muitas  coisas.  Depois,  lê  os 
jornais velhos e esconde-se pelos cantos a ouvir o que as pessoas dizem. Diz que 
à  noite  fica  acordado  a  pensar  em  tudo,  assim  como  de  dia  anda  também 
sempre a pensar no mesmo. Foi por isso que ele formou o exército. 

Loristan continuou a examinar o papel. 
- Diz-lhe - disse, enquanto dobrava o papel e o entregava novamente - que 

estudei  o  mapa,  e  que  ele  se  deve  sentir  orgulhoso  com  ele.  Podes  também 
dizer-lhe  -  e  sorria,  enquanto  falava  -  que  sou  de  opinião  que  ele  tem  razão. 
Iarovitch teria conquistado hoje Melzarr se tivesse conduzido as suas hostes de 
acordo com o plano que me mostraste. 

Marco exultava de alegria. 
- Pensei logo que o pai ia dizer que ele tinha razão. Tinha a certeza de que 

o faria. E isso leva-me a contar-lhe o resto - apressou-se a dizer. - Se pensar que 
ele  também  tem  razão  no  resto  de  repente  parou  de  falar,  por  lhe  ter  vindo  à 
ideia um pensamento súbito. - Não sei o que vai pensar - repetiu. - Talvez lhe 
pareça, como lhe deve ter parecido a outra parte, que só podia ser um jogo! 

E estava tão excitado ao dizer isto, apesar da sua hesitação, que Loristan 

começou a olhar para ele com respeito e atenção, como sempre fazia quando o 
rapaz tentava dizer alguma coisa de que não tinha bem a certeza. 

- Continua - disse ele outra vez. - Sou como o Rato e como tu. Até agora 

não me pareceu muito que fosse um jogo. 

Sentou-se  depois  à  mesa  de  trabalho  e  Marco  aproximou-se,  tendo-se 

mesmo encostado, apoiando-se nos braços e baixando o tom de voz. 

- É o plano do Rato para dar o sinal para a revolta - disse. 
Loristan esboçou um leve movimento. 
- Ele pensa que vai haver uma revolta? - perguntou a seguir. 
-  Até  diz  que  deve  ser  o  que  o  Partido  Secreto  tem  vindo  a  preparar 

durante todos estes anos. E que deve acontecer em breve. 

- E o Rato tem algum plano para dar o sinal? - perguntou Loristan. 
Marco deixou de hesitar. Começou a recordar o plano, tal como o Rato o 

tinha  concebido.  Conseguiu  até  enunciá-lo  de  uma  forma  mais  clara  do  que  o 
Rato o tinha feito. 

Respirava  profundamente  à  medida  que  prosseguia,  fazendo  desenhos 

cada vez mais pormenorizados e falando num tom tão baixo que mais parecia 
segredar. 

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Nessa  altura,  a  campainha  da  porta  da  rua  tocou,  e  Lazarus  foi  abri-la. 

Falou  com  alguém,  e  depois  eles  puderam  ouvir  passos  a  aproximarem-se  da 
sala das traseiras. 

- Abre a porta - disse Loristan. Marco abriu-a. 
- Está aqui um rapaz que é aleijado, senhor - disse o velho soldado. - Pediu 

para falar com o senhor Marco. 

- Se é o Rato - disse Loristan -, trá-lo aqui, porque quero vê-lo. 
Marco desceu o corredor que dava para a porta da rua. Era efectivamente 

o  Rato.  Mas  não  vinha  no  seu  estrado.  Estava  apoiado  num  par  de  muletas 
velhas,  o  que  fez  Marco  pensar  que  ele  parecia  estranho  e  desajeitado.  Estava 
muito  branco  e  de  algum  modo  os  traços  da  sua  cara  pareciam  ter-se 
modificado.  Marco  pensou  que  alguma  coisa  o  tivesse  assustado  ou  que  se 
sentisse doente. 

- Rato - começou ele por dizer -, o meu pai.... 
- Vim falar-te acerca do meu pai - apressou-se o Rato a dizer, sem sequer 

ouvir  o  resto,  e  a  sua  voz  parecia  estar  tão estranha  como  a  sua  cara  pálida.  - 
Não sei porque é que vim cá, mas apeteceu-me vir. O meu pai, morreu! 

- O teu pai!? - repetiu Marco. - Morreu? 
- Sim, está morto - respondeu o Rato a tremer. 
-  Eu  disse-te  que  ele  havia  de  morrer  por  causa  do  vinho.  Teve  outro 

desmaio e nesse momento morreu. Já sabia que isto ia acontecer um dia. Até lhe 
cheguei  a  dizer.  Ele  próprio  também  sabia.  Fiquei  com  ele  até  morrer,  mas  a 
seguir  tive  uma  dor  de  cabeça  enorme,  comecei  a  sentir-me  agoniado  e  só 
pensei em ti. 

Marco  correu  para  junto  dele,  porque viu  que  de  repente  ele  começara  a 

vacilar e parecia ir cair. Chegou mesmo a tempo, e Lazarus, que tinha estado a 
observá-los do fundo do corredor, correu também para ele. Juntos, conseguiram 
ampará-lo.  

-  Não  vou  desmaiar  -  disse  ele  com  voz  fraca  -,  mas  senti-me  como  se 

fosse.  Foi  um  mau  momento,  e  eu  tive  de  tentar  ajudar  a  segurá-lo.  Estava 
completamente  sozinho.  Os  vizinhos  do  outro  sótão  pensaram  que  ele  estava 
apenas  embriagado,  e  não  quiseram  entrar.  Agora  está  lá  deitado  no  chão, 
morto. 

- Anda até ao meu pai - disse Marco. - Ele pode dizer-nos o que havemos 

de fazer. Lazarus, ajuda-o. 

- Consigo ir sozinho - disse o Rato. - Não vês as minhas muletas? Ontem à 

noite fiz um favor a um penhorista e, em troca, ele deu-mas. 

Embora  tentasse  falar  despreocupadamente,  via-se  que  estava 

profundamente  abalado  e  completamente  exausto.  A  sua  cara  estranha  ainda 

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tinha um tom amarelado e continuava a tremer. 

Marco conduziu-o para a sala das traseiras. E no meio daquela atmosfera 

pobre,  iluminado  por  uma  luz  fraca,  Loristan  estava  de  pé  numa  das  suas 
atitudes calmas e atentas, esperando por eles. 

  - Pai, este é o Rato - começou o rapaz por dizer. 
O Rato parou logo a seguir e apoiando-se nas suas muletas ficou  a olhar 

com os olhos muito abertos para aquela figura alta e com ar calmo. 

- Esse é que é o teu pai? - perguntou para Marco. Depois, acrescentou num 

meio-sorriso como que soluçando: - Ele não é como o meu, pois não? 

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10 
O Rato e a Samávia

 

 
Quando Loristan começou a falar com o Rato, Marco interrogava-se sobre 

o  que  este  estaria  a  pensar.  De  repente  tinha-se  sentido  num  mundo 
desconhecido e foi Loristan que o fez pensar assim, porque a pobreza não tinha 
qualquer influência nele. Olhou para o rapaz com os seus olhos claros e calmos, 
começando  serenamente  a  fazer-lhe  perguntas  práticas,  e  era  evidente  que 
percebia  muitas  outras  coisas  sem  sequer  fazer  perguntas.  Marco  pensou  que 
talvez  ele  tivesse  visto,  em  determinada  altura  da  sua  vida,  homens 
embriagados  morrerem  em  sítios  estranhos.  Parecia  saber  como  tinha  sido 
horrível a noite que o Rato tinha passado. Fê-lo sentar-se e pediu a Lazarus para 
lhe trazer café quente e comida simples. 

- Não comeste nada desde ontem, pois não? 
O Rato, ainda muito admirado, respondeu: 
- Como sabe que não? 
- Tenho a certeza que não tiveste tempo para isso 
- disse Loristan. 
E depois mandou-o deitar no sofá. 
- Mas as minhas roupas.... - disse o Rato. 
-  Deita-te  e  dorme  -  replicou  Loristan,  pousando  a  mão  no  seu  ombro  e 

forçando-o a dirigir-se para o sofá. - Vais dormir durante bastante tempo. Mas 
antes, tens de me dizer onde moras e como se chega lá, e eu vou tentar notificar 
as autoridades competentes. 

-  Porque  é  que  faz  isso?  -  perguntou  o  Rato,  acrescentando  logo  em 

seguida: - Senhor. 

-  Porque  sou  um  homem  e  tu  és  um  rapaz.  E  isto  é  uma  fase  difícil  - 

respondeu-lhe Loristan. 

Depois foi-se embora sem dizer mais nada e o Rato ficou deitado no sofá a 

olhar  para  a  parede  e  a  pensar  em  tudo  aquilo,  até  que  adormeceu.  Tal  como 
Loristan tinha previsto, dormiu profundamente e durante muito tempo. 

Quando acordou era já manhã, e Lazarus estava de pé, ao lado do sofá, a 

olhar para ele. 

- Vai querer com certeza lavar-se - disse-lhe. Tem de ser. 
- Lavar-me! - exclamou o Rato, ao mesmo tempo que se ria aos guinchos. - 

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Eu não conseguia manter-me limpo quando tinha uma casa para viver, e agora, 
que nem sei onde estou, é que me vou lavar? - dizendo isto, sentou-se e pôs-se a 
olhar para ele. - Dê-me as minhas muletas - pediu. - Tenho de ir-me embora. 

Deixaram-me aqui dormir toda a noite e não me puseram na rua não sei 

porquê. O pai de Marco é como deve ser. Parece um cavalheiro. 

- O meu amo.... - disse Lazarus num tom rígido. 
- O meu amo é um grande senhor. Não ia atirar nenhuma criatura cansada 

para o meio da rua. Ele e o filho são pobres, mas são dos que dão aos outros. Ele 
deseja ver-te outra vez e falar-te de novo. Agora vais passar a comer com ele e 
com  o  jovem  senhor.  Mas  digo-te  que  não  te  podes  sentar  à  mesa  com  eles 
enquanto não te lavares. Vem comigo - ao dizer isto chegou-lhe as muletas. 

Tinha uns modos autoritários, como era habitual entre os soldados; assim 

como  também  eram  característicos  de  um  militar  os  seus  movimentos 
demasiado rígidos. E foi isto que fez o Rato gostar dele porque o fez sentir-se 
como  se  se  encontrasse  num  quartel.  Não  sabia  o  que  ia  acontecer,  mas 
levantou-se e seguiu-o com as suas muletas. 

Lazarus  levou-o  para  um  quarto  de  banho,  que  ficava  por  baixo  das 

escadas,  onde  estava  uma  banheira  já  cheia  de  água  quente,  que  o  velho 
soldado  tinha  transportado  em  baldes.  Havia  também  sabão,  uma  esponja  e 
toalhas  lavadas  numa  cadeira  de  madeira,  além  de  algumas  roupas,  muito 
usadas, mas limpas. 

-  Veste  estas  roupas  quando  tiveres  tomado  banho  -  ordenou  Lazarus.  - 

São do meu jovem amo e vão-te ficar grandes, mas são melhores que as tuas. - 
Após o que saiu do quarto de banho, fechando a porta. 

Foi uma experiência nova para o Rato. Tanto quanto se lembrava, só tinha 

lavado a cara e as mãos, e isso era quando as lavava, numa torneira de alguma 
parede duma rua das traseiras ou nalgum quintal dum bairro pobre. Ele e o pai 
tinham-se  afundado  num  mundo  onde  a  própria  limpeza  do  corpo  não  fazia 
parte da vida diária. Tinham vivido entre a sujidade e a imundície, e quando o 
pai se encontrava numa daquelas fases sentimentais, tinha falado muitas vezes 
dos  dias,  há  muito  idos,  em  que  se  barbeava  todas  as  manhãs  e  em  que 
costumava vestir uma camisa lavada. 

Quando, depois de se ter divertido ao máximo com a água e o sabão, saiu 

do quarto de banho, que ficava mesmo por baixo das escadas, vinha tão fresco 
como  se  fosse  o  próprio  Marco;  e,  embora  as  suas  roupas  tivessem  sido  feitas 
para  um  corpo  mais  forte,  dava-lhe  prazer  sentir  que  estavam  limpas. 
Perguntava a si próprio se conseguiria continuar assim limpo, por muito tempo, 
quando voltasse novamente para a rua e tivesse de dormir em qualquer buraco 
donde a polícia não o mandasse embora. 

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Lazarus esperava-o no corredor, mas o Rato recuou um pouco. 
- Talvez seja melhor eles não tomarem o pequeno-almoço comigo - hesitou 

ele  em  dizer.  -  Não  sou  como  eles.  Podia  engolir  o  café  mesmo  aqui  e  levar o 
pão lá para fora. E você podia agradecer-lhe por mim. Quero que ele saiba que 
eu agradeci. 

Lazarus  mantinha-se  impassível.  O  Rato  percebeu  que  ele  o  observava 

como se estivesse a fazer a sua avaliação. 

- Podes não ser como eles, mas podes ser de uma espécie que o meu amo 

acha boa. Se não visse alguma coisa em ti não te teria chamado para te sentares 
à sua mesa. Tens de vir comigo. 

O  Rato  ainda  resmungou  um  pouco,  tentando  perceber  o  significado  de 

tudo aquilo, enquanto seguia Lazarus até à sala das traseiras. 

Loristan  estava  sentado  à  lareira  e  Marco  estava  ao  pé  dele.  Esperavam 

pelo seu hóspede vagabundo, como se ele fosse um senhor. 

À  porta  ainda  hesitou  e  tentou  esquivar-se  por  um  momento,  mas  de 

repente ocorreu-lhe pôr-se de pé tão direito quanto possível e tentou fazer uma 
saudação.  Quando  se  viu  na  presença  de  Loristan,  sentiu  que  devia  fazer 
alguma coisa, embora não soubesse bem o quê. 

O facto de Loristan corresponder ao seu gesto e a expressão que mantinha 

no rosto à medida que avançava para ele, aliviou-lhe a tensão em que estava, e 
de que não se dera conta até esse momento. De algum modo sentia-se como se 
alguma coisa de novo lhe estivesse a acontecer, como se afinal ele não fosse um 
mero verme e como se não precisasse de estar sempre à defesa, ou de se manter 
sempre na escuridão, como um objecto para o qual não há lugar no mundo. 

O olhar profundo e franco deste homem parecia vislumbrar mais além do 

que a maioria das pessoas. E, todavia, o que dizia era muito simples. 

-  Agora  está  bem  -  disse.  -  Já  descansaste.  Vais  comer  alguma  coisa,  e 

depois  vamos  conversar.  Fez  em  seguida  um  ligeiro  gesto  na  direcção  da 
cadeira que ficava à sua direita. 

O  Rato  hesitou  outra  vez.  Mas  que  cavalheiro!  Com  aquele  gesto,  fazia 

sentir  uma  pessoa  como  se  fosse  igual  a  ele  e  lhe  estivesse  prestando  uma 
honra. 

-  Eu  não  sou....  -  e  ao  dizer  isto,  fez  uma  pequena  pausa,  inclinando  a 

cabeça  para  Marco.  -  Ele  sabe  acabou  por  dizer.  -  A  verdade  é  que  nunca  me 
sentei assim a uma mesa. 

- Não faz mal - Loristan fez novamente aquele gesto a indicar o assento à 

sua direita e sorriu, dizendo: 

- Sentemo-nos. 
O Rato obedeceu-lhe e a refeição começou. Havia só café, pão e um pouco 

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de manteiga à sua frente, em cima da mesa. Mas Lazarus trouxe as chávenas e 
os pratos numa pequena travessa japonesa, como se fosse uma salva em ouro. 
Quando não estava a servir, ficava de pé, atrás da cadeira do seu amo, como se 
estivesse vestido de libré bordada a ouro. Para o Rato, que só roía algum osso 
ou alguma côdea quando calhava, olhar para aquelas duas pessoas ao pé dele 
era uma grande novidade. Não sabia  nada acerca das etiquetas  do quotidiano 
das pessoas civilizadas. Gostava de olhar para elas, e até deu consigo a segurar 
na chávena como Loristan fazia e a sentar-se e movimentar-se para ir buscar o 
pão e a manteiga tal como Marco, ao que Lazarus se interpôs para o obrigar a 
esperar pela sua vez. Marco tinha sempre lidado com estas coisas toda a vida e 
por isso não se sentia desajeitado. O Rato sabia que o seu pai tinha em tempos 
vivido daquela maneira. Ele próprio poderia sentir-se também à  vontade, se a 
sorte o tivesse contemplado. Este pensamento fê-lo franzir o sobrolho. 

Mas, passados alguns minutos, Loristan começou a falar sobre a cópia do 

mapa da Samávia. Nessa altura, o Rato esqueceu-se de tudo o resto e começou a 
descontrair-se.  O  que  não  sabia  era  que  Loristan  Lhe  estava  a  abrir  caminho 
para ele poder explicar as suas teorias acerca do país, do povo e da guerra. Deu 
consigo a contar tudo o que tinha lido ou ouvido ler, ou até mesmo aquilo em 
que tinha pensado quando ficava acordado no seu sótão. 

Foi uma refeição maravilhosa, embora tivesse sido só de pão e café. O Rato 

sabia que nunca mais a esqueceria. 

A seguir, Loristan contou-lhe o que tinha feito na noite anterior referente à 

morte do seu pai. Fora ter com as autoridades paroquiais, e a segurança social 
trataria do funeral do pobre senhor. 

- Vamos acompanhá-lo - disse Loristan no fim. 
-  Tu  e  eu,  assim  como  Marco  e  Lazarus.  A  boca  do  Rato  abriu-se  de 

espanto. 

- O senhor, Marco e Lazarus! - exclamou, estarrecido. - E eu! Porque é que 

havemos de ir? Eu não quero ir! Ele não teria ido ao meu enterro! 

Loristan ficou calado por uns momentos. 
-  Quando  uma  vida  não  contou  para  nada,  o  seu  fim  torna-se  solitário  - 

disse  ele  por  fim.  -  Se  se  ti  ver  esquecido  todo  o  respeito  por  si  próprio,  a 
piedade  é  a  única  coisa  que  resta  para  se  poder  dar.  Há-de  haver  sempre 
alguém  a  minorar  essa  solidão!  -  disse  esta  última  frase,  depois  de  fazer  uma 
pequena pausa. 

- Claro que vamos - disse Marco de repente, ao mesmo tempo que pegava 

na mão do Rato. 

E  assim,  quando  aquele  abandonado  foi  conduzido  ao  cemitério,  para  o 

local onde pessoas anónimas daquela cidade eram lançadas à terra, havia uma 

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curiosa  procissão  fúnebre  a  acompanhá-lo.  iam  dois  homens  altos  como 
soldados e dois rapazes, um deles de muletas e atrás deles mais dez rapazes em 
grupos de dois a dois. Estes dez rapazes formavam um grupo muito estranho e 
andrajoso,  tendo  no  entanto  caras  bastante  sóbrias  e  mantendo  as  cabeças  e 
ombros muito direitos e andando com um passo de marcha incrivelmente certo. 

Era o exército; só que tinham deixado as suas espingardas em casa. 

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11 
Vem comigo

 

 
Quando  regressavam  do  cemitério,  o  Rato  veio  calado  todo  o  caminho. 

Pensava no que acontecera e no que se lhe depararia daí em diante. Vinha mais 
propriamente a pensar que não via nenhum futuro à sua frente. A certeza deste 
pensamento  enrugava  a  sua  face,  de  linhas  acentuadas,  e  tornava-a  mais 
sombria, o que o fazia parecer duro e atormentado. 

Foi  por  ali  fora  muito  bem  com  as  suas  muletas,  mas  quando  chegou  à 

esquina  da  rua,  que  ia  dar  ao  seu  antigo  antro,  sentia-se  já  muito  cansado.  O 
exército, quando chegou a essa esquina parou, porque era a partir daí que cada 
um se dirigia para as suas casas. Pararam em grupo, a olhar para o Rato, e este 
parou  igualmente.  E  inclinando-se  profundamente  diante  de  Loristan,  levou  a 
mão à testa. 

-  Muito  agradecido,  senhor  -  disse  ele.  Alinhem-se  e  façam  a  saudação, 

vocês aí! - E logo o exército se perfilou e fez a continência. 

- Muito agradecido, senhor. Muito obrigado, Marco. Adeus!  
- Onde vais? - perguntou Loristan. 
- Ainda não sei - respondeu o Rato, mordendo os lábios. 
Entreolharam-se por uns momentos. Ambos estavam a pensar. Nos olhos 

do  Rato  havia  uma  espécie  de  adoração:  não  sabia  o  que  iria  fazer  quando 
aquele  homem  se  fosse  embora  e  o  deixasse  ali.  Seria  como  se  o  próprio  Sol 
caísse do céu. Nunca tivera nenhuma sensação semelhante. 

Mas Loristan não se foi embora. Ficou ali a olhar para os olhos do rapaz 

como se procurasse certificar-se de alguma coisa. Depois, disse em voz baixa. 

- Sabes como sou pobre. 
- Eu não me importo! - disse o Rato. - O senhor é como um rei para mim. 

Seria capaz de fazer tudo por si, até à morte, se mo pedisse. 

-  Sou  tão  pobre  que  não  sei  se  te  posso  dar,  todos  os  dias,  pão  para 

comeres. Tanto Marco como Lazarus e até eu, muitas vezes passamos fome. E 
por vezes pode acontecer não teres nenhum outro sítio para dormir a não ser o 
chão. Mas pode ser que encontre um “lugar” para ti se te levar comigo - disse 
Loristan. E sabes o que entendo por um “lugar”? 

- Sim, sei - respondeu o Rato. - É aquilo que nunca tive, senhor. 
O  que  ele  sabia  era  que  significava  um  pouco  de  espaço  neste  mundo, 

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onde ele teria o direito de estar, por mais pobre e simples que fosse. 

- Não estou habituado a muito boas camas ou a comida suficiente - disse. 

Mas  não  ousava  insistir  no  tal  “lugar”;  parecia  demasiado  bom  para  ser 
verdade. 

Loristan agarrou-lhe no braço. 
-  Vem  comigo  -  disse  ele.  -  Não  nos  vamos  separar.  Acho  que  mereces 

confiança. 

O exército durante uns momentos mostrou um olhar de desânimo no qual 

Loristan reparou. 

- Vou levar o vosso capitão comigo - disse ele. 
- Mas ele vai voltar ao quartel. Assim como Marco também há-de ir. 
- E o jogo vai continuar ? - perguntou Cad, desejoso de saber. - Queremos 

continuar a ser o “Partido Secreto”. 

-  Claro  que  vai  -  respondeu  o  Rato.  -  Não  vou  desistir.  Hoje  vem  muita 

coisa nos jornais. 

Depois de terem ficado mais calmos, continuaram o seu caminho tal como 

Loristan, Lazarus, Marco e o Rato prosseguiram também o seu. 

À medida que iam andando, Loristan falava com ele. Descrevia a situação 

com muita simplicidade. Havia, no quarto de Marco, um sofá velho, estreito e 
duro,  tal  como  a  cama  de  Marco.  O  Rato  podia  dormir  nele.  Teriam  que 
partilhar  a  comida.  Havia  sempre  jornais  e  revistas  para  ler.  Quanto  a  lápis  e 
papel,  havia  também  quantidade  suficiente  para  fazer  mapas  e  planos  de 
batalhas. Havia também um mapa velho da Samávia que pertencia a Marco, por 
onde podiam estudar juntos sendo uma ajuda para o seu jogo. Nesta altura os 
olhos do Rato ganharam laivos de fogo. 

-  Quando  eu  tiver  tempo,  veremos  quem  é  que  consegue  desenhar  os 

melhores planos - disse Loristan. 

- Quer dizer que nessa altura vai olhar para os meus, quando tiver tempo? 

- perguntou o Rato, hesitando. - Por essa não esperava eu. 

- Sim - respondeu Loristan. - Vou olhar para eles e vamos discuti-los. 
Ao  prosseguirem  caminho  disse-lhe  ainda  que  ele  e  Marco  podiam  fazer 

muitas coisas juntos. 

-  O  meu  pai  disse-me  que  o  senhor  não  deixaria  Marco voltar  ao  quartel 

quando descobrisse que ele lá ia - disse o Rato, hesitando novamente, e ficando 
cada  vez  mais  emocionado  porque  se  estava  a  lembrar  dos  horríveis  dias 
passados. - Mas eu juro, senhor, que não lhe vou fazer mal nenhum. 

- Quando disse que tu merecias que acreditassem em ti, quis dizer muitas 

coisas com isso - respondeu-lhe Loristan. - Essa era uma delas. Tu és um recruta 
novo.  Tu  e  o  Marco  estão  agora  ambos  às  ordens  de  um  outro  oficial.  -  Disse 

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estas  palavras,  porque  sabia  que  elas  iriam  estimulá-lo  e  fazer  ferver  o  seu 
sangue. 

E,  realmente,  essas  palavras  estimularam-no,  fazendo  até  ferver  o  seu 

sangue  de  cada  vez  que  se  lembrava  delas.  Às  vezes  acordava  mesmo  do  seu 
sono profundo no sofá estreito e duro no quarto de Marco, e descobria que as 
estava a dizer em voz alta para si próprio. A dureza do sofá não perturbava o 
seu  repouso,  uma  vez  que  ele  nunca  tinha  verdadeiramente  descansado  na 
vida. 

Em  comparação  com  a  vida  que  tinha  levado  até  então,  esta  existência 

pobre tinha um conforto que chegava a parecer luxo. 

Todas as manhãs tomava banho na banheira, sentava-se à mesa, podendo 

olhar para Loristan, falar com ele e ouvir a sua voz. O seu problema maior era 
não conseguir desviar os olhos dele e ter medo que Loristan se aborrecesse. Mas 
custava muito perder um olhar ou qualquer dos seus movimentos. 

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13 
Loristan e o exército

 

 
O exército não estava esquecido. Foi o próprio Loristan que achou que não 

se deviam interromper os deveres. 

- Tens de te lembrar dos teus homens - disse dois ou três dias depois do 

Rato  se  tornar  um  membro  da  sua  família.  -  Deves  continuar  com  o  treino. 
Marco disse-me que era muito interessante. Não os deixes desleixarem-se. 

Quando  foram  ao  quartel,  o  exército  recebeu-os  com  agitados 

cumprimentos de boas-vindas que exprimiam um sentimento de alívio. Os seus 
membros tinham falado uns com os outros, em privado, chegando à conclusão 
que o pai de Marco era um senhor demasiado fino para deixar os dois virem de 
novo ter com eles, depois de ter visto a espécie de elementos de que o exército 
era  composto.  Podia  agora  ser  pobre  -  por  vezes  os  ricaços  perdem  o  seu 
dinheiro repentinamente - mas eles conseguiam perceber como ele era, porque 
pais assim não iam deixar os seus filhos ter amigos “como nós”, na expressão 
dos membros do exército. Ele tinha feito parar o treino e o jogo da “Sociedade 
Secreta”. Era o que tinha conseguido fazer! 

Mas  afinal  o  Rato  sempre  veio,  deslocando-se  com  as  suas  muletas, 

parecendo ter sido promovido a general. E com ele vinha Marco; e desta vez o 
treino do exército, foi ainda mais rigoroso do que o costume. 

- Gostava que o meu pai tivesse visto - disse Marco para o Rato. 
O  Rato  ficou  vermelho,  depois  branco  e  novamente  vermelho,  mas  não 

pronunciou uma única palavra. O simples pensamento disso foi como que um 
raio a trespassá-lo. Mas nenhum rapaz podia aspirar a uma coisa tão boa como 
essa. O Partido Secreto na sua caverna subterrânea e rodeado pelas suas armas 
empilhadas sentou-se para ler o jornal da manhã. 

As notícias da guerra eram péssimas. De momento, Maranovitch detinha o 

poder,  e  martirizava  o  povo  na  capital,  enquanto  Iarovitch  o  martirizava  nos 
campos.  O  relatório  era  tão  triste  e  sombrio,  que  toda  a  Europa  estava 
consternada. 

O  Rato  dobrou  o  jornal  quando  acabou  e  sentou-se  roendo  as  unhas 

durante  alguns  momentos.  Depois  começou  a  falar  no  seu  tom  dramático  e 
quase em segredo como era característico dos elementos do Partido Secreto. 

-  O  momento  chegou  -  disse  para  os  seus  seguidores.  -  Os  mensageiros 

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têm de avançar. Não sabem bem por que é que vão, sabem apenas que têm de 
obedecer.  E  se  forem  apanhados  e  torturados  não  podem  trair-se  em  nada, 
porque não saberão mais do que a senha que terão de passar em determinados 
locais.  Não  transportarão  quaisquer  papéis,  e  devem  decorar  todas  as  ordens 
que lhes forem dadas. Quando o sinal for transmitido, o Partido Secreto saberá 
o que tem a fazer, onde se deve reunir, e onde deve atacar. 

Desenhou  depois  os  planos  da  batalha  nas  lajes  e  traçou  uma  rota 

imaginária  que  os  dois  mensageiros  deviam  seguir.  Mas  como  o  seu 
conhecimento  do  mapa  da  Europa  não  era de  muita  confiança,  voltou-se  para 
Marco: 

- Sabes mais de geografia do que eu. Na verdade conheces melhor tudo - 

disse. - Eu  só sei que  a Itália fica no  fundo  e a Rússia se  situa de  um lado e a 
Inglaterra do outro lado. Como é que os mensageiros secretos deveriam ir para 
a Samávia? Consegues desenhar os países por onde eles teriam de passar? 

E Marco desenhou os países como qualquer outro rapaz em idade escolar 

teria feito. 

O  simples  esboço  do  trajecto  correcto,  pôs  a  imaginação  do  Rato  em 

delírio.  De  tal  maneira  ele  elaborou  a  história  de  aventuras  e  a  recheou  com 
perigos  e  mistérios,  que  por  vezes  o  exército  ficava  sem  respiração.  Na  sua 
versão,  os  dois  Mensageiros  Secretos  entravam  nas  cidades  depois  da 
meia-noite  e  punham-se  a  cantar  e  a  pedir  aos  portões  dos  palácios,  podendo 
acontecer então, que os reis ao passarem, parassem para ouvir, podendo assim 
ser-lhes dado o sinal. 

Estavam precisamente no meio de tudo isto, juntos, esticando os pescoços, 

inclinando-se para a frente e sustendo a respiração, cheios de excitação, quando 
Marco levantou por acaso a cabeça, levado por um impulso misterioso e gritou: 

- Vem ali o meu pai! 
O  Rato  deixou  cair  o  giz  e  tudo  se  desvaneceu,  até  mesmo  a  Samávia. 

Pôs-se de pé nas suas muletas como se uma força mágica o tivesse impelido e 
nem  se  deu  conta  de  ter  dado  qualquer  ordem.  Mas  o  que  é  certo  é  que  o 
exército fez a continência. 

Loristan  estava  parado  à  entrada  em  forma  de  arco,  tal  como  tinha 

acontecido  com  Marco  no  primeiro  dia  em  que  ali  fora.  Retribuiu  a  saudação 
com a sua mão direita e avançou para o grupo. 

- Ia a passar ao fundo da rua e lembrei-me de que o quartel ficava aqui - 

explicou. - E pensei que gostaria de ver os teus homens, capitão. 

Em seguida sorriu, mas este sorriso não era de modo nenhum um sorriso 

trocista. Depois pôs-se a olhar para o mapa desenhado a giz nas lajes do chão. 

- Conheces muito bem aquele mapa - disse ele. 

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-  Até  mesmo  eu  consigo  ver  que  é  a  Samávia.  O  que  é  que  o  Partido 

Secreto anda a fazer? 

- Os mensageiros estão a tentar descobrir um caminho para prosseguirem 

- respondeu Marco. 

-  Podíamos  entrar  por  aqui  -  disse  o  Rato  apontando  com  uma  muleta.  - 

Há aqui uma floresta onde nos podemos esconder e descobrir coisas. 

- Fazer um reconhecimento - disse Loristan, olhando para baixo. - Pois é. 

Dois  rapazes  perdidos  podiam  ficar  em  segurança  numa  floresta.  É  um  bom 
jogo. 

Mas  aquilo  em  que  o  Rato  pensava  era  que  ele  estava  ali,  a  encantá-los 

com os seus modos maravilhosos, e que ele se tinha mesmo preocupado em ir 
até  ao  quartel.  Eles  não  eram  nada  mais  do  que  um  grupo  de  esfarrapados  e 
apesar disso ele estava ali a olhar para eles com o seu fino sorriso. O coração do 
Rato saltava de alegria, embora um pouco intimidado. 

- Pai - disse Marco -, ficas a ver o Rato a treinar-nos? Gostava que visses 

como é tão eficiente. 

-  Capitão,  dá-me  essa  honra?  -  perguntou  Loristan,  num  ar  nem  muito 

sério nem muito jocoso. 

O  coração  do  Rato  vibrou  de  alegria.  O  treino  começou  e  Loristan  ficou 

maravilhado com o que via: o exército movia-se e manobrava com a precisão de 
uma  máquina.  O  modo  como  o  conseguiam  fazer  num  espaço  tão  curto  e  a 
correcção  de  todos  os  movimentos,  evidenciavam  as  qualidades  e  a  eficiência 
militar do seu comandante. 

-  Mas  isto  é  magnífico!  -  disse  o  distinto  espectador.  -  Eu  não  teria 

conseguido fazer melhor. Deixa-me felicitar-te. 

Tomou a mão do Rato e apertou-a; em seguida pôs-lhe a mão no ombro e 

aí  a  manteve,  enquanto  falava  com  os  outros  membros  do  exército.  Pouco 
depois  foi-se  embora,  deixando  os  improvisados  soldados,  encantados  com  a 
inesperada visita, a fazerem entusiásticos comentários sobre a sua pessoa. 

- Quando disseste que o teu pai queria ver o treino, nunca pensei que ele 

aqui viesse. Mas veio mesmo, e deixou-me sem fala! - disse o Rato. 

- Se veio, é porque queria mesmo ver – retorquiu Marco. 
Quando acabaram de falar, estava na hora de se retirarem. 
Loristan tinha pedido ao Rato para lhe fazer um recado, que consistia em 

ir a uma determinada hora, a uma determinada loja receber uma encomenda. 

- Deixa-o ir sozinho - havia dito Loristan a Marco. - Ele precisa de ganhar 

confiança em si próprio, e isto é uma maneira de o conseguir. 

Separaram-se  então  numa  esquina.  Marco  enveredou  por  uma  das  ruas 

que  costumava  percorrer  no  regresso  a  casa.  Não  era  uma rua  fina,  mas  tinha 

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algumas  boas  casas,  e  por  vezes  havia  janelas  com  anúncios  de  aluguer  de 
apartamentos. Quando Marco subia a rua, viu de repente uma porta abrir-se e 
sair uma senhora que começou a caminhar rapidamente pelo passeio. Era uma 
mulher jovem trajando um vestido elegante e sóbrio e um chapéu que parecia 
ter  sido  comprado  em  Paris  ou  Viena.  Na  realidade,  tinha  um  ligeiro  ar  de 
estrangeira e foi isto que fez com que Marco a fixasse o tempo suficiente para 
ver  que  era  também  uma  pessoa  atraente  e  fascinante.  Gostaria  de  saber  qual 
seria a sua nacionalidade; pensou que podia ser espanhola ou italiana, porque 
mesmo a uma certa distância, conseguia ver que tinha grandes olhos escuros e 
uma boca bem desenhada que parecia estar sempre a sorrir. 

Tentava  ainda  adivinhar  a  sua  nacionalidade,  quando  ela  se  aproximou. 

Mas de repente deixou subitamente de sorrir por ter metido o pé num buraco 
do  pavimento,  o  que  lhe  fez  perder  o  equilíbrio.  Teria  mesmo  caído  se  Marco 
não se tivesse lançado sobre ela e não a agarrasse. Ela era leve e esguia e ele era 
já  um  rapaz  forte,  conseguindo  por  isso  segurá-la;  não  evitou  todavia  que  na 
sua cara surgisse uma expressão de dor. 

- Espero que não se tenha aleijado - disse Marco. Ela, mordendo o lábio e 

esfregando o ombro com a sua mão elegante, respondeu: 

-  Torci  o  tornozelo.  Receio  mesmo  que  seja  grave.  Agradeço  muito  o 

ter-me ajudado. Senão podia ter dado uma queda ainda maior. 

- Consegue ao menos manter-se de pé? - perguntou-lhe. 
-  Agora  consigo  -  disse  ela  -,  mas  daqui  a  pouco  posso  já  não  conseguir. 

Tenho de voltar para casa en quanto consigo pôr o pé no chão. Sinto muito, mas 
penso que vou ter de lhe pedir para ir comigo. Felizmente que moro a poucos 
metros daqui. 

- Pois é - respondeu Marco. - Eu vi-a quando saiu de casa. Se se apoiar no 

meu  ombro,  ajudo-a  a  regressar.  Fico  muito  satisfeito  por  poder  auxiliá-la. 
Tentamos, então? 

Apoiou-se no ombro dele e no guarda-chuva, mas era mais que evidente 

que cada um dos movimentos lhe provocava uma dor intensa. Mordia o lábio 
com  os  dentes  e  Marco  até  achou  que  estava  a  ficar  pálida.  Era  tão  graciosa  e 
corajosa que Marco cada vez se sentia mais fascinado. Não conseguia suportar 
vê-la sofrer. 

- Sinto muito! - disse, enquanto a ajudava e na sua voz havia algo parecido 

com o maravilhoso tom da de Loristan. A própria senhora notou isso e pensou 
quão diferente era esta voz das dos outros rapazes. 

- Tenho aqui a chave - disse ela quando chegaram ao degrau da entrada. 
A casa era característica de Londres no começo da época vitoriana. Havia 

um  vestíbulo  na  frente  do  lado  direito  e  um  outro  atrás,  donde  partia  uma 

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escada para a cozinha da cave. A sala de estar dava para um pátio sombrio, nas 
traseiras,  cercado  de  muros  altos.  A  própria  sala  era  também  sombria,  mas 
estava  mobilada  com  algumas  coisas  luxuosas  entre  outras  bastante  vulgares. 
Havia uma poltrona com uma pequena mesa ao lado, em cima da qual estava 
um  candeeiro  prateado  e  outros  adornos  bastante  elegantes.  Marco  ajudou  a 
senhora  a  chegar  até  à  poltrona  e  colocou-lhe  uma  almofada  do  sofá  debaixo 
dos pés. 

Fez tudo isto muito gentilmente e, quando se levantou, reparou que ela o 

olhava duma maneira curiosa com os seus ternos olhos escuros. 

- Agora tenho de me ir embora - disse ele -, apesar de não gostar nada de 

ter de a deixar. Quer que chame um médico? 

- Que simpático que é! - exclamou ela. - Mas não quero nenhum médico, 

obrigada. Sei exactamente o que há a fazer com um tornozelo deslocado. E até 
talvez nem esteja deslocado. Vou tirar o sapato e ver o que tem. 

Marco ajudou-a a desapertar o sapato e a tirá-lo do pé. 
-  Não  -  disse  ela,  quando  se  levantou.  -  Afinal,  agora  depois  de  tirar  o 

sapato  e  de  ter o  pé  a  repousar  na  almofada  mais  confortavelmente,  não  acho 
que esteja deslocado. Mais uma vez muito obrigada. Se você não fosse a passar 
eu podia ter dado uma grande queda. 

- Sinto-me satisfeito por ter podido ajudar - respondeu Marco com um ar 

de alívio. - Agora que acha que já está bem, tenho mesmo de me ir embora. 

- Não vá ainda - disse ela, segurando-lhe na mão. 
- Gostava de o conhecer um pouco melhor, se pudesse. Estou-lhe tão grata, 

que gostava de conversar consigo um pouco mais. Tem tão boas maneiras para 
um rapaz ainda tão jovem como é - concluiu ela com um riso bonito e amável -, 
que acho que sei como é que as aprendeu. 

-  É  muito  amável  -  respondeu  Marco,  corando  um  pouco.  -  Mas  agora 

tenho de ir por causa de meu pai. 

-  O  seu  pai  iria  deixá-lo  ficar  a  conversar  comigo  -  disse  ela  com  uma 

delicadeza  maior  do  que  anteriormente.  -  Foi  dele  que  herdou  essas  maneiras 
tão  bonitas.  Ele  foi  meu  amigo  em tempos. Espero  que  ainda  seja  meu  amigo, 
embora talvez já me tenha esquecido. 

- Não acho que o meu pai esqueça alguma vez alguém - respondeu ele. 
-  Não,  com  certeza  que  não  -  disse  ela  delicadamente.  -  Ele  tem  ido  à 

Samávia durante estes últimos três anos? 

Marco parou um instante. 
- Talvez eu não seja o rapaz que pensa que sou - disse. - O meu pai nunca 

foi à Samávia. 

- Não foi? Mas você é o Marco Loristan! 

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- Sim. Esse é o meu nome. 
Subitamente, ela inclinou-se para a frente, e disse com um brilho no olhar 

e uma súbita familiaridade: 

-  Então  tu  és  um  Samaviano  e  sabes  das  desgraças  que  nos  oprimem. 

Deves  saber  como  é  horrível  e  bárbaro  tudo  o  que  nos  está  a  ser  feito.  Sendo 
filho de quem és, tens de saber isto tudo! 

- Toda a gente sabe isso - disse Marco. 
- O que é que o teu pai pensa disso? Eu sou uma Samaviana e penso nisso 

dia  e  noite.  Qual  é  a  opinião  dele  sobre  os  rumores  acerca  do  descendente  do 
Príncipe Desaparecido? Ele acredita nisso? 

Marco  raciocinou  muito  rapidamente.  Via-se  na  cara  dela  uma  grande 

emoção  e  a  sua  voz  tremia.  Tudo  lhe  fazia  crer  que  ela  era  Samaviana  e  que 
amava a sua pátria, porque o seu sentimento era bem visível, mesmo para um 
rapaz  como  ele.  Mas  mesmo  que  fosse  levado  a  acreditar,  devia  continuar  a 
lembrar-se de que a discrição e o silêncio eram uma ordem. 

- Pode não passar de uma história de jornal - disse ele. - O meu pai diz que 

não se pode acreditar nessas coisas. Se o conhecesse, veria como ele é calmo. 

- Se eu, em vez de ser mulher, fosse um milhão de Samavianos saberia o 

que fazer! - gritou ela. - E, da mesma maneira, o teu pai também saberia o que 
fazer! Iria descobrir o descendente de Ivor, se é que ele existe, e iria acabar com 
este horror! 

Ao  mesmo  tempo  que  falou,  virou  a  cabeça  para  o  lado  donde  vinha  o 

barulho de alguém a utilizar a chave da porta e a abri-la. E logo em seguida esse 
alguém entrou caminhando pesadamente. 

-  É  um  dos  hóspedes  -  disse  ela.  -  Acho  que  é  o  que  mora  no  terceiro 

andar. 

- Então já não fica sozinha, quando eu me for embora - disse Marco. - Fico 

satisfeito por já ter vindo alguém. Posso dizer o seu nome a meu pai? 

Ela tirou um cartão de uma caixa de prata, que estava em cima da mesa, e 

entregou-lho. 

- O teu pai vai lembrar-se do meu nome - disse. 
-  Espero  que  me  deixe  ir  vê-lo  e,  entretanto,  conta-lhe  como  trataste  de 

mim. 

Depois  apertou-lhe  a  mão  calorosamente  e  deixou-o  ir-se  embora.  Mas 

quando ele ia a chegar à porta, ela falou de novo. 

-  Posso  pedir-te  mais  uma  coisa  antes  de  me  deixares?  -  perguntou  de 

repente. - Espero que não te importes. Era para ires lá acima à sala de visitas e 
trazeres-me um livro roxo que está em cima da mesa pequena. Se tiver alguma 
coisa para ler, já não me sinto sozinha. 

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- Um livro roxo que está em cima da mesa? - perguntou Marco. 
- Sim, entre as duas janelas altas - disse ela, sorrindo. 
Em  casas  como  estas,  a  sala  de  visitas  fica  logo  ao  cimo  de  um  pequeno 

lanço de escadas. 

E Marco subiu-as a correr. 

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13 
Marco não responde

 

 
Logo que ele subiu as escadas, a senhora levantou-se do seu lugar na sala 

das traseiras e foi à sala de jantar da parte da frente. Ali, esperava-a um homem 
bem constituído e com uma barba preta. 

-  Não  consegui  nada  dele  -  disse  ela  imediatamente,  na  sua  voz  doce, 

falando muito amavelmente, como se o que dizia fosse a coisa mais natural do 
mundo. 

-  Utilizei  aquele  pequeno  truque  do  pé  torcido  e  ele  trouxe-me  a  casa.  É 

um  rapaz  muito  amável,  com  uns  modos  muito  delicados,  e  pensei  que  seria 
fácil  surpreendê-lo  e  forçá-lo  a  revelar  qualquer  coisa.  Normalmente 
consegue-se fazer isso com jovens. Mas, ou ele não sabe nada, ou está treinado 
para ser discreto. Não só não é estúpido, como raciocina bem. Representei uma 
pequena  cena  patética  sobre  a  Samávia,  porque  percebi  que  ele  se  iria 
emocionar  com  isso.  E  assim  foi.  Depois  sondei-o  sobre  o  Príncipe 
Desaparecido; mas ele, ou não acredita nessa história, ou, se acredita, não o deu 
a perceber. 

Falava  muito  depressa  sustendo  quase  a  respiração.  O  homem  falou 

também rapidamente: 

- Onde é que ele está? - perguntou. 
-  Mandei-o  lá  acima  à  sala  de  visitas  procurar  um  livro.  Vai  levar  algum 

tempo. Mas ouve, ele é um rapaz ingénuo. Vê-me como um anjo bom. Nada o 
abalará mais do que ouvir-me repentinamente dizer-lhe a verdade. Vai ser um 
choque tão grande para ele, que talvez tu, depois, consigas obter alguma coisa 
dele. Pode ser que perca a segurança em si próprio. 

- Tens razão - disse o homem da barba. - E quando ele descobrir que não 

se pode ir embora, talvez se alarme e, então, pode ser que consigamos tirar-lhe 
alguma coisa que valha a pena. 

-  Se  conseguíssemos  descobrir  o  que  é  verdade,  ou  o  que  Loristan  pensa 

que é verdade, já teríamos uma pista para trabalhar - disse ela. 

- Não dispomos de muito tempo - murmurou o homem. - Temos de ir para 

Bosnia imediatamente. Antes da meia-noite temos de ir a caminho. 

- Vamos para a outra sala. Ele já aí vem.  
Quando  Marco  entrou  na  sala,  o  homem  bem  constituído  e  de  barba 

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escura e ponteaguda estava de pé ao lado da poltrona. 

- Tenho muita pena, mas não consegui encontrar o livro - desculpou-se. - 

Procurei em cima das mesas todas. 

- Tenho de ir eu procurá-lo - disse a senhora. Levantou-se então da cadeira 

e pôs-se de pé, sorrindo sempre. 

Logo que ela se moveu, Marco viu que afinal ela não estava magoada. 
- O seu pé! - exclamou ele. - Está melhor? 
- Não estava nada aleijado - respondeu ela com a sua voz meiga e bonita e 

sempre com um lindo sorriso. - Foi só para te fazer crer que estava. 

Fazia parte do plano dela não o poupar nada com o choque que iria sofrer, 

ao  ver  a  sua  transformação  repentina.  E  Marco,  realmente,  ficou  quase  sem 
respiração por alguns momentos. 

- Fiz-te pensar que estava magoada porque queria que viesses comigo cá a 

casa  -  acrescentou.  -  Queria  descobrir  umas  certas  coisas,  que  tenho  a  certeza 
que sabes. 

- Eram coisas sobre a Samávia - disse o homem. 
- O teu pai tem conhecimento delas e tu também deves saber pelo menos 

alguma coisa. Precisamos de saber o que tens para nos contar. Não te deixamos 
ir embora, enquanto não responderes a certas perguntas, que te vou fazer. 

Nessa altura Marco começou a perceber. Já tinha ouvido o seu pai falar em 

espiões políticos. E sabia que o trabalho deles era descobrir segredos, e que se 
disfarçavam  e  viviam  entre  as  pessoas  inocentes  como  se  fossem  simples 
vizinhos. 

Na  cabeça  de  Marco  estavam  a  passar-se  coisas  estranhas.  Eles  eram 

espiões, mas isso não era tudo! A Criatura Bonita tivera razão, ao dizer que ele 
teria um choque. O seu peito jovem enchia-se de arrogância. Porque em toda a 
sua vida nunca enfrentara uma pura traição. Não conseguia compreender. Esta 
criatura,  com  voz  meiga,  agradecida  e  olhos  ternos,  tinha-o  “atraiçoado”. 
Parecia-lhe  impossível  acreditar  nisso  e,  contudo,  o  sorriso,  que  se  via  na  sua 
boca bem delineada, dizia-lhe que era verdade. 

Depois  de  passados  os  primeiros  momentos,  sentiu  crescer  dentro  de  si 

um sentimento muito elevado, como que um desdém estranho. 

Sentiu o corpo como que a crescer. 
- Vocês são muito espertos - disse lentamente. E em seguida, depois de uns 

segundos  de  pausa,  acrescentou:  -  Eu  era  demasiado  jovem  para  saber  que 
existia gente tão esperta neste mundo! 

A  Criatura  Bonita  riu-se,  mas  não  sem  alguma  dificuldade,  e  depois, 

virando-se para o seu companheiro, disse: 

- Que grande senhor! Quando se olha para ele, quase se acredita que o é! 

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O homem da barba estava muito zangado. Tinha um olhar feroz, e a sua 

tez  escura  tornara-se  avermelhada.  Fitava  Marco  com  ódio,  como  se  a  sua 
simples presença o enfurecesse. 

- Dois dias antes de vocês deixarem Moscovo - disse -, foram ter com o teu 

pai três homens, que pareciam camponeses, e falaram com ele, durante mais de 
uma hora. Levavam com eles um rolo de pergaminho, não é verdade? 

- Não sei - disse Marco. 
- Antes de teres ido para Moscovo, estiveste em Budapeste. Foste de Viena 

para lá. Viveste lá durante três meses e o teu pai viu muitas pessoas, algumas 
que até iam lá a casa a meio da noite. 

- Não sei nada - disse Marco. 
O homem enrolou a barba ponteaguda e encolheu os ombros. 
- Temos uma pequena e boa cave, muito escura, lá em baixo - disse ele. - 

Vais  para  lá,  e  com  certeza  ficarás  durante  algum  tempo  se  não  decidires 
responder  às  minhas  perguntas.  Deves  pensar  que  nada  te  pode  acontecer 
dentro  de  uma  casa  numa  das  ruas  de  Londres,  onde  andam  constantemente 
polícias  de  um  lado  para  o  outro.  Mas  estás  enganado.  Se  gritasses  agora, 
mesmo  que  por  acaso  alguém  ouvisse,  iria  apenas  pensar  que  eras  um  miúdo 
que estava a levar o castigo que merecia. Podes gritar o que te apetecer, dentro 
da  pequena  cave  escura,  que  ninguém  te  vai  ouvir.  Nós  só  ficámos  com  esta 
casa por três meses e vamos deixá-la esta noite sem dizer nada a ninguém. Se 
decidirmos  fechar-te  na  cave,  vais  lá  ficar  à  espera  até  que  alguém  comece  a 
reparar  que  a  casa  parece  vazia  e  vá  por  acaso  dizer  ao  senhorio;  e  poucas 
pessoas se dariam a esse trabalho. Vieste para aqui vindo de Moscovo? 

- Não sei nada - disse Marco. 
-  És  bom  demais  para  a  pequena  cave  escura  -  interrompeu  a  Criatura 

Bonita. - Gosto de ti. Não queiras ir para lá! 

- Não sei nada - respondeu Marco. Mas os seus olhos, que eram como os 

de  Loristan,  lançaram-lhe  um  olhar  como  Loristan  o  faria.  Ela  apercebeu-se 
disso, e sentiu-se desconfortável. 

- Não acredito que nunca tenhas sido maltratado ou que nunca te tenham 

batido  -  disse  ela.  -  Deixa-me  dizer-te  que  a  cave  é  horrorosa.  Não  queiras  ir 
para lá! 

E desta vez Marco não disse nada, mas continuou a olhar para ela como se 

fosse um jovem nobre muito orgulhoso. 

Sabia que todas as palavras que o homem de barba tinha proferido eram 

verdadeiras. De nada serviria gritar. Se eles se fossem embora e o deixassem lá 
ficar,  não  se  podia  saber  quantos  dias  passariam,  antes  das  pessoas  da 
vizinhança começarem a suspeitar de que o local tinha ficado desocupado. 

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E, entretanto, nem o seu pai nem Lazarus ou o Rato fariam a mais pequena 

ideia  onde  ele  estaria.  E  ali  ficaria,  sozinho,  sentado,  às  escuras  na  pequena 
cave. Não sabia como é que resolveria a situação em que se encontrava. A única 
coisa que sabia era que o silêncio era uma ordem. 

- Ele não vai dizer nada - disse a Criatura Bonita. - E tenho pena por ele. 
-  Pode  ser  que  diga  depois  de  estar  na  pequena  cave  escura  durante 

algumas horas - disse o homem da barba em bico. - Vem comigo! 

Pôs a mão forte no ombro de Marco e empurrou-o à sua frente. 
Marco não fez qualquer esforço para se opor. Lembrou-se do que o seu pai 

dissera sobre um jogo que afinal não era bem um jogo. 

Agora  não  estava  a  ser  jogo  nenhum,  mas  de  qualquer  modo  sentia-se 

forte e não tinha medo. 

Levaram-no através do pátio da entrada, em direcção às traseiras e depois 

desceram  os  degraus  já  gastos  que  iam  dar  à  cave.  Em  seguida  fizeram-no 
percorrer uma passagem estreita e mal iluminada que ia dar a uma porta que 
estava  um  pouco  entreaberta.  O  seu  acompanhante  empurrou-a  e  pôde  ver-se 
uma  parte  da  cave,  que  era  tão  escura  que  Marco  mal  conseguiu  ver  as 
prateleiras  que  estavam  mais  perto  da  porta.  O  seu  captor  atirou-o  lá  para 
dentro  e  depois  fechou  a  porta.  O  buraco  era  realmente  tão  escuro  como  ele 
descrevera. 

E  Marco  ali  ficou  de  pé,  no  meio  da  escuridão,  ouvindo  o  homem  dar  a 

volta à chave. 

-  És  um  jovem  tolo  -  disse-lhe.  -  O  teu  pai  vai  ficar  muito  preocupado, 

quando  não  voltares  para  casa.  Venho  cá  ver-te  daqui  a  umas  horas,  se  for 
possível.  Digo-te  no  entanto  que  tenho  recebido  notícias  desconcertantes  que 
podem tornar necessário termos de partir à pressa. Posso até não ter tempo de 
poder voltar cá abaixo outra vez. 

Marco encostou-se à parede e manteve-se calado. Durante alguns minutos 

ficou tudo muito silencioso e depois ouviu-se o som de passos a afastarem-se. 
Pouco depois, o silêncio era total e Marco respirou fundo. 

- Não vou sentir medo - disse Marco em voz alta. 
- Não vou ter medo, porque vou sair daqui de qualquer maneira. 
Não  deixou  de  continuar  a  pensar  sempre  nisto,  para  não  se  lembrar  do 

pai, que devia estar à espera que ele voltasse. Sabia que isso só iria causar-lhe 
preocupação  e  enfraquecer  a  sua  coragem.  Começou  então  a  deslocar-se  ao 
longo  da  parede  e  conseguiu  descobrir  algumas  coisas.  Afinal  a  cave  não  era 
assim  tão  pequena.  Foi  apalpando  à  sua  volta,  gradualmente,  e  depois 
atravessou-a, mantendo sempre as mãos estendidas à sua frente e colocando os 
pés  com  cuidado  à  medida  que  ia  avançando.  Por  fim,  sentou-se  no  chão  de 

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pedra,  pondo-se  a  pensar  de  novo.  E  aquilo  em  que  pensou,  foi  que  haveria 
uma saída, e que ele havia de a encontrar e que passado pouco tempo já a teria 
descoberto e poderia caminhar de novo na rua. 

Enquanto  pensava  assim,  sentiu  uma  coisa  surpreendente,  algo  que 

parecia tocar-lhe. Isto fê-lo saltar e encostar-se à parede outra vez. 

Tentou ver através da escuridão, e descobriu uma luz, da qual não podia 

ter  dúvidas.  Era  mesmo  uma  luz;  na  realidade,  até  eram  duas  luzes,  duas 
grandes bolas de um verde fosforescente. Eram dois olhos a olharem para ele. 

Em seguida ouviu um outro som. Desta vez não era um guincho, mas algo 

mais  familiar  e  confortável  que  o  fez  rebentar  a  rir.  Afinal  era  uma  pequena, 
doce e quente gatinha! Estava aninhada e enroscada numa das prateleiras mais 
baixas, ronronando para uns gatinhos recém-nascidos. 

A  presença  destas  pobres  criaturas  era  uma  forma  de  companhia. 

Sentou-se então perto da baixa prateleira e pôs-se a escutar o ronronar materno 
e, de vez em quando, ia falando e levantando a mão até chegar a tocar naquele 
pêlo quente. Aquela luz fosforescente dos seus olhos verdes era só por si uma 
coisa reconfortante. 

-  Vamos  sair  daqui,  os  dois  -  disse  ele.  -  Não  vamos  ficar  aqui  muito 

tempo, gatinha. 

O tempo ia passando, lentamente, mas ele já sabia que passaria devagar, e 

tinha  decidido  não  reparar  nisso  nem  se  preocupar.  Não  era  um  rapaz 
impaciente,  e,  tal  como  o  pai,  conseguia  estar  de  pé  ou  sentado  ou  mesmo 
deitado.  De  vez  em  quando  ouvia  sons  distantes  de  carroças  e  camionetas  a 
passar na rua. 

Talvez fosse a calma ou a escuridão ou até o ronronar da gata que fizeram 

com que os seus pensamentos começassem a passar cada vez mais lentamente 
na sua mente. Por fim, pararam completamente e ele adormeceu. 

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14 
Um som num sonho

 

 
Marco  dormiu  calmamente  durante  várias  horas.  Não  houve  nada  que  o 

acordasse durante todo aquele tempo. Mas, já no final do sono, foi perturbado 
por um som definido. Sonhava que ouvia uma voz ao longe, e quando, no seu 
sonho, tentava ouvir o que essa voz dizia, o som metálico de uma campainha a 
tocar  acordou-o  repentinamente.  Na  altura  em  que  ficou  completamente 
consciente,  a  campainha  já  tinha  parado  e  pôde  compreender  imediatamente 
que a voz do seu sonho tinha sido real e que ainda estava a falar. Era a voz da 
Criatura  Bonita,  que  ele  ouvia  através  da  porta  e  muito  rapidamente  como  se 
estivesse com muita pressa. 

- Tens que a procurar - foi tudo o que conseguiu ouvir. - Não tenho mais 

tempo!  -  E  ao  mesmo  tempo  que  ouviu  os  seus  passos  afastarem-se,  ainda 
conseguiu  distinguir  algumas  palavras  que  ecoavam  à  medida  que  ela  se 
afastava à pressa: - És bom demais para ficar na cave. Gosto de ti! 

Ele  correu  para  a  porta  e  experimentou  abri-la,  mas  continuava  fechada. 

Os passos desapareceram na escada, depois passaram para o pátio da entrada e, 
por  fim,  ouviu-se  a  porta  da  frente  a  fechar-se  com  grande  estrondo.  As  duas 
pessoas tinham-se ido embora, como tinham ameaçado. A voz dela estava tão 
excitada como apressada. Devia ter acontecido alguma coisa que os  assustara  e 
tiveram de deixar a casa à pressa. 

- Porque é que ela veio cá? Veio com certeza por causa de alguma coisa - 

disse para consigo próprio.  

 

- O que é que ela terá dito? Só consegui ouvir uma parte, porque estava a 

dormir. A voz, no sonho, em ela a falar. O que ouvi foi: “Tens que procurá-la. 
Eu não tenho tempo. És bom de mais para ficar na cave. Gosto de ti”.  

 

Continuou  a  repetir  estas  palavras  vezes  sem  conta,  tentando  lembrar-se 

exactamente de como elas tinham sido ditas e também da voz que parecia ser 
parte de um sonho, mas que afinal tinha sido uma realidade.  

  

“Vais  ter  de  a  procurar”.  De  a  procurar!  Procurar  o  quê?  Ou  procurar 

quem? Pôs-se a pensar: O que é que devia procurar?   

Sentou-se no chão da cave e segurou na cabeça com as mãos, apertando os 

olhos com tanta força que começou a ver pequenas e curiosas luzes. 

E  em  poucos  minutos  conseguiu  lembrar-se  de  algo,  mas  fazia  de  tal 

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maneira  parte  do  seu  sono  que  nem  tinha  a  certeza  se  não  teria  sonhado  com 
isso. O som da campainha a tocar. Parecia o som de um objecto de metal a cair 
no chão. Qualquer coisa de metal podia ter feito aquele som. Ela tinha atirado 
qualquer  coisa  de  metal  para  dentro  da  cave,  através  da  brecha  dos  tijolos, 
mesmo ao pé da porta. Ela tinha-lhe atirado a única coisa que o podia libertar: a 
chave da porta da cave. 

Os pensamentos que lhe vieram à ideia durante alguns minutos eram tão 

exaltantes, que puseram a sua cabeça a andar à roda. A chave estava dentro da 
cave, e tinha de a encontrar no escuro. 

- Vou-me ajoelhar e andar de gatas no chão - disse. - Rastejo de um lado 

para o outro e apalpo o chão todo com as mãos até que a hei-de descobrir. Se 
procurar em todo o lado, de certeza que a encontro. 

Começou  então  a  rastejar  desde  a  porta  até  à  parede  do  lado  das 

prateleiras, e depois voltou novamente para trás. Mas não encontrava a chave. 
Se, ao menos, tivesse uma pequena luz! Mas não tinha nenhuma. Tão absorvido 
estava na sua busca, que nem notou que isso o ocupou durante várias horas, e 
que já ia agora a meio da noite. Por fim, achou que devia parar para descansar 
um  pouco,  porque  os  seus  joelhos  estavam  já  a  ficar  magoados  e  a  pele  das 
mãos ferida por andar a roçar nas lajes. 

Quando  por  fim  se  pôs  de  pé,  tinha  o  corpo  dorido  e  estava  muito 

cansado. Teve de se esticar e exercitar os braços e as pernas. 

- Estou tão cansado, que acho que vou adormecer outra vez. Pensamento 

que sabes tudo, mostra-me como fazer outra tentativa! 

E depois adormeceu novamente. 
Dormiu  o  resto  da  noite  toda.  Quando  acordou,  já  era  dia,  e  nas  ruas 

ouviam-se  as  carroças  do  leite  a  chiarem  enquanto  os  carteiros  da  manhã 
batiam às portas com força. 

A  gata  devia  ter  ouvido  as  carroças  do  leite;  tinha  fome  e  queria  ir  à 

procura de comida. 

Isto fez com que Marco se lembrasse da chave. 
- Já te ajudo, quando encontrar a chave - disse. 
- Está aqui na cave.    
A  gata  tornou  a  miar  e  desta  vez  ainda  mais  ansiosamente.  Os  gatinhos 

ouviram-na e começaram a mexer-se e a guinchar tanto que metiam dó.    

Marco  levou  a  mão  em  direcção  dos  gatinhos  e  tocou  em  algo  que  não 

estava  muito  longe  deles.  Devia  ter  estado  ali  perto  do  seu  cotovelo,  durante 
toda a noite, enquanto dormia. 

Era a chave! Tinha caído na prateleira! 

 

A seguir tentou encontrar o caminho para a porta.  

 

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Procurou  desajeitadamente  até  encontrar  o  buraco  da  fechadura,  onde 

finalmente meteu a chave. Deu a volta à chave, abriu a porta para trás, e logo a 
gata correu à sua frente pelo corredor fora.  

 

Marco atravessou a porta e dirigiu-se para a parte onde estava a cozinha 

da cave. As portas estavam todas fechadas e eram muito sólidas. Subiu a correr 
os  degraus  já  gastos  e  encontrou  a  porta  do  cimo  também  fechada.  Os  seus 
carcereiros  tinham-se  certificado  bem  de  que,  mesmo  depois  de  ele  se  libertar 
da  cave,  ainda  levaria  um  certo  tempo  a  conseguir  finalmente  chegar  ao 
exterior.  

 

Nessa altura viu uma outra porta mais pequena ao lado. Era com certeza a 

entrada  para  a  cave  onde  se  guardava  o  carvão,  que  ficava  por  debaixo  do 
passeio. Portanto, concluiu, o alçapão do carvão era a única coisa que o podia 
ajudar!  Por  cima  da  porta  havia  uma  pequena  janela  que  servia  para  deixar 
entrar alguma luz. 

Ele  não  conseguia  lá  chegar  e,  mesmo  se  conseguisse,  não  seria  possível 

abri-la.  Podia,  isso  sim,  atirar  bocados  de  carvão  ao  vidro  e  tentar  parti-lo  e 
depois  pedir  socorro  às  pessoas  que  passavam.  Agarrou  então  num  grande 
bocado  de  carvão  e  atirou-o  com  toda  a  força  contra  os  vidros  da  janela, 
partindo-os quase todos e deixando um grande buraco. 

Ninguém o podia ver, mas se fizesse com que as pessoas abrandassem o 

passo e ouvissem, então, nessa altura, já podia gritar que estava na cave da casa 
com a janela partida. 

- Socorro - gritou. - Socorro! Socorro!  
Mas os carros continuavam a passar na rua e as pessoas que caminhavam 

iam  absorvidas  com  os  seus  próprios  pensamentos.  Mesmo  que  ouvissem  um 
barulho, não iam parar para investigar o que era. 

-  Socorro!  Socorro!  Estou  aqui  fechado  -  gritou  Marco,  com  tanta  força 

quanto os seus pulmões lhe permitiam. - Socorro! Socorro! 

Depois de gritar durante meia hora, pensou que se estava a esforçar para 

nada. 

Teve então outra ideia. 
-  Vou  começar  a  cantar  uma  canção  samaviana  em  alto  e  bom  som.  As 

pessoas  que  passarem  por  perto,  hão-de  parar  para  ouvir  a  música  e  tentar 
descobrir donde é que ela vem. E se algum dos meus passar nas proximidades, 
vai  parar  imediatamente.  E,  de  vez  em  quando,  vou  na  mesma  gritar  por 
socorro. 

Recuou um passo e colocando as mãos nas ancas começou a cantar, virado 

com  a  cara  para  cima,  de  modo  a  que  a  sua  voz  pudesse  passar  através  da 
vidraça  partida.  Tinha  uma  esplêndida  voz,  jovem  e  vibrante,  embora  o 

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ignorasse. Nesse momento, o que queria era unicamente fazer-se ouvir. Lá fora, 
na rua, iam poucas pessoas a passar. Um velhote irritadiço e meio inválido, que 
ia a dar um passeio, quase que tropeçou por se ter assustado com o repentino 
soar da canção. 

Duas  ou  três  pessoas  olharam  para  cima,  intrigadas,  mas  não  tinham 

tempo  a  perder.  Alguns  outros  escutavam  com  prazer,  quando  passavam 
próximo, mas depois continuavam o seu caminho. 

Mas por fim, passou um jovem que era professor  de  música  e  ia  dar  uma 

lição. Parou e hesitou olhando em redor. A canção nesta altura tomava uns tons 
agudos  muito  fortes.  O  jovem  não  conseguia  perceber  donde  vinha  o  som,  e 
começou a perscrutar à sua volta. 

O facto dele ter parado, fez com que outras pessoas também parassem. 
Quando  já  se  tinha  juntado  uma  pequena  multidão,  apareceu  ainda  uma 

outra  pessoa  a  dobrar  a  esquina  da  rua.  Era  um  rapazito  de  muletas  com  ar 
desvairado. 

Marco ouviu o barulho das muletas e disse para si próprio: 
-  Será  possível?  Não  pode  ser!  -  E  começou  a  cantar  com  quanta  força 

podia.  

 

O Rato juntou-se ao grupo e começou, aos gritos, a perguntar às pessoas: 
- Onde está ele? Onde está ele? Procurámo-lo desesperadamente durante 

toda  a  noite.  Marco!  Marco,  onde  estás?  Só  podes  ser  tu,  porque  só  tu  é  que 
cantas essa canção!   

Então, pareceu ouvir-se uma voz vinda debaixo do chão. 
- Estou aqui fechado numa cave, Rato! - E viu-se um bocado de carvão ser 

atirado  através  da  janela  partida  junto  ao  chão.  O  Rato  precipitou-se  para  a 
porta gritando: 

- Marco, estou aqui! Quem é que te fechou? Como é que se abre a porta? 
Marco  chegou-se  mais  para  a  porta,  pensando:  “É  mesmo  o  Rato.  Sendo 

assim, não tardará nada que esteja na rua”. 

-  Chama  um  polícia  -  gritou  ele  através  do  buraco  da  fechadura.  - 

Fecharam-me aqui de propósito e levaram as chaves. 

Então o grupo de pessoas começou a agitar-se e a perguntar como é que 

tinha  sido,  e  o  que  é  que  tinha  acontecido.  Não  conseguiam  perceber  qual  a 
razão por que alguém fecharia um rapaz numa cave. A face do Rato mostrava 
simultaneamente terror, espanto e alívio. Correu a chamar um polícia e, quando 
encontrou  um,  numa  rua  próxima,  persuadiu-o  a  ir  de  imediato  abrir  a  porta 
daquela casa vazia, libertando desta maneira o improvisado cantor. 

O  polícia  ficou  muito  mais  zangado  do  que  excitado  com  a  ideia. 

Desconhecia o que Marco ou o Rato sabiam. Achava que um rapaz qualquer se 

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fechara  numa  casa,  e  agora  alguém  tinha  de  ir  ao  senhorio  pedir  uma  chave. 
Não  fazia  tenção  de  forçar  a  entrada  duma  casa  particular,  como  o  Rato 
esperava que ele fizesse. 

- Ele entrou lá para dentro nalguma das suas travessuras, e agora vai ter 

de  esperar  para  sair,  sem  que  seja  preciso  rebentar  fechaduras  -  resmungou  o 
polícia, ao mesmo tempo que abanava a porta. - Como é que entraste para aí? - 
gritou. 

Não foi nada fácil para Marco explicar através de um buraco da fechadura, 

que tinha vindo ajudar uma senhora que sofrera um acidente. O polícia pensou 
que  se  tratava  apenas  duma  mentira  de  rapaz.  Quanto  ao  resto  da  história, 
Marco sabia que não podia ser contada sem dizer coisas, que não deveriam ser 
explicadas a mais ninguém senão ao pai. Logo, achou que devia fazer acreditar 
que ficara fechado devido a um estranho acidente. Devia dar a entender que, na 
pressa de saírem, as pessoas não se tinham lembrado que ele ficara lá dentro. 

Quando  o  jovem  empregado  da  agência  de  aluguer  da  casa  veio  com  as 

chaves, ficou muito perturbado e confuso logo que entrou.    

-  Eles  desapareceram  -  disse.  -  Isto  acontece  por  vezes,  mas  aqui  há 

qualquer  coisa  de  estranho.  Porque  é  que  fecharam  estas  portas  na  cave  e  a 
outra  nas  escadas?  O  que  é  que  lhe  disseram?  -  perguntou  a  Marco,  olhando 
para ele desconfiado. 

-  Disseram  que  tinham  sido  obrigados  a  sair  de  repente  -  respondeu 

Marco. 

- E o que é que estava a fazer aqui na cave? 
- Foi o homem que me trouxe. 
-  E  depois  deixou-o  ali  fechado  e  trancado?  Devia  realmente  estar  com 

muita pressa.  

 

- A senhora disse que não tinham nem um minuto.  

 

-  O  tornozelo  dela  deve  ter  ficado  bom  muito  depressa  -  disse  o  jovem 

empregado.    

-  Eu  não  sabia  nada  acerca  deles  –  respondeu  Marco.  -  Nunca  os  tinha 

visto.   

O Rato não esperara que as chaves chegassem. 
Lançara-se  por  aquelas  ruas  fora  tão  depressa  quanto  podia.  As  pessoas, 

ao  verem-no  passar  por  elas  tão  depressa,  viravam-se  para  trás  e  ficavam 
espantadas por ele ir tão pálido. 

Deixou contudo ficar algum fôlego para conseguir falar quando chegou a 

casa, depois de ter batido à porta com a muleta para não perder tempo. 

Vieram abrir Loristan e Lazarus. 
O Rato encostou-se à porta, ofegante. 

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- Encontraram-no! E está bem! - disse arfando. 
-  Foi  alguém  que  o  fechou  numa  casa  e  o  deixou  lá  ficar.  Foram  agora 

buscar as chaves. Vou voltar para lá, para esta morada: Brandon Terrace n.º 10. 

Loristan  e  Lazarus  olharam  um  para  o  outro,  e  nesse  momento  ambos 

estavam tão pálidos como o Rato. 

- Manda-o entrar - disse Loristan para Lazarus, indicando o Rato. - Ele tem 

de ficar a descansar. Nós é que vamos. 

O  Rato  sabia  que  isto  era  uma  ordem.  Não  gostou  muito,  mas  teve  de 

obedecer. 

- Isto é mau sinal, meu amo - disse Lazarus, quando os dois saíram. 
- É mesmo muito mau sinal - respondeu Loristan. 
- Deus nos defenda! - resmungou Lazarus. 
- Amen! - disse Loristan. 
Quando chegaram, a pequena multidão que se formara ao princípio, tinha 

engrossado consideravelmente. Não tinha sido nada fácil para Marco sair dali, 
por causa das perguntas que o polícia e o empregado da agência lhe faziam. 

O aparecimento de Loristan produziu o efeito do costume. O empregado 

da  agência  tirou  o  chapéu,  e  o  polícia  pôs-se  de  pé  muito  direito  fazendo 
continência.  Loristan,  então,  pôs  a  mão  no  ombro  do  Marco  e  segurou-o  ali 
naquela posição, enquanto falou. 

- O meu filho não conhecia essas pessoas - disse. 
-  Isso  posso  eu  garantir.  Nunca  tinha  visto  antes  nenhuma  delas.  Ficou 

fechado neste sítio durante quase vinte e quatro horas sem comer. Agora tenho 
de o levar para casa. Aqui tem a minha morada - disse, entregando um cartão 
ao jovem empregado. 

Em  seguida  foram  para  casa  juntos  e  durante  todo  o  caminho  a  mão  de 

Loristan  manteve-se  firme  no  ombro  do  rapaz,  como  se  não  conseguisse 
suportar que ele o deixasse. Mas nesse intervalo de tempo falaram muito pouco. 

-  Pai  -  disse  Marco,  um  pouco  rouco,  enquanto  se  iam  afastando da  casa 

situada na encosta -, não consigo falar aqui na rua. Mas há uma razão por que 
estou  muito  contente:  é  por  estar  consigo  outra  vez.  Parecia-me  que  as  coisas 
iam correr mesmo mal. 

-  Meu  querido  -  disse  Loristan  na  sua  própria  língua,  o  Samaviano  -,  até 

comeres e descansares um pouco, não deves falar. 

Mais  tarde,  quando  já  se  sentia  recomposto  e  lhe  foi  permitido  que 

contasse o que acontecera, Márco entregou a Loristan o cartão que a senhora lhe 
tinha dado. 

- Ela disse que o pai se ia lembrar do nome. Loristan olhou para a letra do 

cartão com um sorriso meio irónico. 

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- Nunca ouvi falar nele - respondeu. - Ela não me ia mandar um nome que 

eu já conhecesse. Com certeza que nunca vi nenhum deles. Mas sei o que fazem. 
São  espiões  de  Maranovitch  e  suspeitam  que  sei  alguma  coisa  acerca  do 
Príncipe Desaparecido. Acharam que te podiam meter medo e que podias dizer 
coisas que lhes serviriam de pista. Homens e mulheres da sua laia, usam todos 
os meios para alcançar os fins. 

O olhar que viu nos olhos do pai, enquanto falava, e a pressão da sua mão 

ao tocá-lo, fizeram com que o seu coração batesse forte. Tinha passado a gostar 
mais do pai e a confiar ainda mais nele. E quando naquela noite conversaram os 
dois, estavam mais ligados que nunca. 

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15 
Cidades e caras

 

 
A  partir  desse  dia,  o  Rato  passou  a  ser  julgado  com  mais  consideração. 

Passou a gozar da intimidade que anteriormente só envolvia os outros três. 

Loristan falava com ele como falava com Marco, e fazia-o sentir-se como 

se fizesse parte da família. 

-  Senhor  -  disse  ele  uma  vez  em  que  estavam  sozinhos,  e  a  sua  voz  era 

muito baixa -, acha que algum dia pode confiar em mim, tanto como em Marco? 
Poderá isso acontecer alguma vez? 

- Esse dia já chegou - disse Loristan, e a sua voz era quase tão baixa como a 

do  Rato,  embora  mais  calma  e  mais  forte,  denunciando  a  sua  convicção.  - 
Chegou  o  momento  em  que  posso  confiar  tanto  em  ti  como  no  Marco.  Conto 
contigo para seres seu companheiro, para o ajudares e estares com ele, sempre 
que possível. 

- Que bom! - disse o rapaz muito entusiasmado. 
- Mande-me com ele, como seu criado numa missão. As muletas não vão 

atrapalhar nada. Já viu como consigo movimentar-me bem com elas, treinei-me 
muito. 

-  Eu  sei,  eu  sei,  companheiro.  O  Marco  já  me  contou  -  e  continuou 

sorrindo,  misteriosamente.  –  Irás  com  ele,  como  seu  ajudante  de  campo.  Isso 
fará parte do jogo. 

Ele  tinha  encorajado  sempre  o  jogo,  e  durante  as  duas  últimas  semanas 

tinha  mesmo  disposto  de  algum  tempo  para  os  ajudar  a  planear  a  missão 
secreta.  Com  todas  estas  conversas  e  planos,  o  Rato  ficou  a  conhecer  o  país, 
quase  tão  bem  como  Marco.  Nesses  planos,  um  dos  objectivos  de  Marco  era 
fixar caras e fazer o esboço das mesmas. 

Ainda não tinha passado uma semana quando 
Marco  trouxe  para  o  quarto  e  deu  ao  Rato  um  saco  contendo  um  certo 

número de tiras de papel, cada uma delas com qualquer coisa escrita. 

- É uma outra parte do jogo - disse com ar grave. 
- Vamos sentar-nos à mesa e estudar isto. 
   Os  rapazes  estiveram  ocupados  com  a  sua  tarefa  durante  todo  o  dia, 

tentando  concentrar  todas  as  suas  energias  naquilo.  Escreveram,  tornaram  a 
escrever  e  depois,  repetiram  um  ao  outro  o  que  tinham  decorado,  como  se 

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estivessem a estudar uma lição. 

- Vai ser o que os mensageiros do Partido Secreto  terão de fazer, quando 

forem enviados para dar o “Sinal da Revolta” - disse o Rato. - Percebi isso logo 
no primeiro dia em que inventei o partido, não foi? 

- Sim - respondeu Marco. 
Depois de três dias de concentração, já sabiam de cor tudo o que lhes tinha 

sido  dado  para  aprenderem.  E  naquela  noite  Loristan  fez-lhes  uma  espécie  de 
exame. 

- Conseguem escrever tudo o que aprenderam? - perguntou ele, depois de 

cada um ter conseguido sair-se bem de toda a espécie de perguntas. 

Naquela  noite  ele  estava  muito  pálido  e  tinha  uma  grande  tristeza  no 

olhar. Nos seus olhos via-se uma enorme saudade quando olhava para Marco. 
A sua face exprimia um desejo e, ao mesmo tempo, uma espécie de pavor. 

-  O  jogo.  -  começou  ele  por  dizer,  ficando  depois  silencioso  por  alguns 

momentos, enquanto Marco sentiu o seu braço apertar com força. Tanto Marco 
como o Rato sentiram o coração bater forte; e por causa disso e também porque 
a pausa lhe pareceu demasiado longa, Marco decidiu falar. 

- O jogo.... sim, pai? - disse. 
- O jogo é acerca de lhes dar trabalho para fazer, a vocês dois - respondeu 

Loristan. - Dentro de dois dias, vão para Paris. Vão transmitir as instruções que 
aprenderam.  Não  têm  mais  nada  a  fazer  senão  tentarem  aproximar-se  o  mais 
possível  de  certas  pessoas,  de  modo  a  conseguirem  transmitir-lhes  certas 
palavras. 

-  Tal  como  se  fossem  apenas  dois  jovens  viajantes  de  quem  ninguém 

pudesse suspeitar! - acrescentou Lazarus, numa voz extraordinariamente rouca 
e fraca. - O jovem amo e nesta altura a sua voz ficou tão rouca que teve de tossir 
novamente. - O jovem amo deve comportar-se com menos finura. Até seria bom 
que  arrastasse  os  pés  um  pouco  e  andasse  relaxadamente  como  se  fosse  uma 
pessoa vulgar. 

-  Pois  -  disse  o  Rato  apressadamente.  -  Ele  tem  de  fazer  isso.  Eu  posso 

ensiná-lo. Ele costuma erguer a cabeça e manter os ombros muito direitos como 
um senhor, e agora tem de parecer um rapaz da rua. 

- Vou parecer um deles - disse Marco com determinação. 
- Confio em ti, para o lembrares disso - disse Loristan gravemente para o 

Rato. - Vai ser essa a tua responsabilidade. 

Quando, nessa noite, Marco finalmente deitou a cabeça na sua almofada, 

achou que lhe tinha saído um peso do coração, que fora a incerteza e o estar à 
espera. 

Quando o comboio de ligação com o barco, que fazia a travessia de Dover 

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para Calais, apitou na barulhenta estação de Charing Cross, transportava numa 
carruagem de terceira classe dois pobres rapazes mal vestidos. Um deles podia 
até ser um bonito rapaz, se não caminhasse tão desajeitadamente e não tivesse 
aquele ar tão pouco cuidado de rapaz da rua. O outro, era um aleijado, que se 
movimentava vagarosamente com as suas muletas e, aparentemente, com certa 
dificuldade. Não havia nada neles que atraísse as atenções.    

Iam  sentados  num  canto  da  carruagem  e  nem  falavam  muito,  nem 

pareciam  particularmente  interessados  na  viagem  ou  um  no  outro.  E  quando 
entraram  a  bordo  do  navio,  em  breve  se  misturaram  e  se  perderam  de  vista 
entre os outros passageiros.  

 

Ao  fim  da  tarde  chegaram  a  Paris  e  Marco  encaminhou-se  para  um 

pequeno  café,  numa  rua  traseira,  onde  arranjaram  comida  barata.  E,  nessa 
mesma  rua,  conseguiram  encontrar  por  cima  de  uma  padaria,  um  pequeno 
quarto com uma cama, que podiam perfeitamente partilhar por uma noite. 

O  Rato  estava  demasiado  excitado  para  se  querer  deitar  cedo.  Assim, 

pediu  a  Marco  que  o  conduzisse  por  todas  aquelas  ruas  tão  brilhantemente 
iluminadas e cheias de vida. 

-  É  tudo  mais  brilhante  e  mais  claro  do  que  em  Londres  -  disse  para 

Marco.  -  As  pessoas  até  parecem  estar  a  divertir-se  mais  do  que  acontece  em 
Londres. 

Antes de voltarem para o quarto, seguiram por um caminho que ia dar a 

uma  casa  enorme  que  ficava  ao  fundo  de  um  pátio.  E  nos  bonitos  portões  de 
ferro trabalhado que a vedavam, podia ver-se um brasão dourado. Os portões 
estavam fechados e a casa não estava muito bem iluminada. 

Passaram por ela e deram a volta, sem falar, mas quando se aproximaram 

pela segunda vez da porta da entrada, o Rato disse em voz baixa: 

-  Ela  mede  um  metro  e  cinquenta  e  sete,  tem  o  cabelo  preto,  um  nariz 

curvado, e as sobrancelhas são pretas e quase se juntam uma à outra, tem uma 
pele pálida, cor de azeitona, e mantém a cabeça sempre muito direita. 

- É essa mesmo - respondeu Marco. 
Ficaram uma semana em Paris e todos os dias passavam pela casa grande. 
Então, um dia, quando eles se encontravam a uma pequena distância dos 

portões de ferro, passou por eles uma carruagem que foi parar diante da porta 
da entrada, que estava aberta de par em par e ladeada por dois criados de libré. 

- Ela vai sair - disse o Rato. 
Puderam  vê-la  perfeitamente  quando  saiu,  porque  as  luzes  da  entrada 

eram muito fortes. 

O Rato deu um grande suspiro. 
- É ela - disse ele, acenando afirmativamente. 

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- Pois é - disse Marco. 
Quando  já  estavam  em  segurança,  fechados  no  seu  quarto  por  cima  da 

padaria, começaram a tentar descobrir as possibilidades de passar por ela, de tal 
maneira que pudesse parecer acidental. 

Aconteceu que, na tarde seguinte, a senhora saiu numa altura em que eles 

não  estavam  a  vigiar.  Iam  ainda  a  caminho,  traçando  o  seu  plano,  quando  de 
repente o Rato tocou subitamente no braço de Marco. 

- A carruagem está parada à porta daquela loja - disse ele. 
Marco olhou e reconheceu-a logo. Esta era uma oportunidade melhor do 

que  esperavam,  e  quando  se  aproximaram  da  carruagem,  viram  que  ainda 
tinham  outro  ponto  a  seu  favor.  Dentro,  estavam  três  cãezinhos  de  raça 
Pekinois-Spaniard,  que  pareciam  gémeos.  Tinham  os  focinhos  encostados  à 
janela, e empurravam-se uns aos outros. Eram tão pequeninos e tão bonitos que 
as pessoas paravam para os ver. Quem iria reparar, se eles parassem também? 

Através da montra da loja, Marco conseguiu ver a senhora. 
- Ela vem aí - avisou Marco. E começou a rir, vendo que os cães, sentindo a 

aproximação da dona, começaram aos saltos e a ladrar com alegria. 

A dona vinha também a sorrir e sorriu para Marco quando se aproximou. 
-  Posso  vê-los,  minha  senhora?  -  perguntou  ele  em  francês;  e  quando  ela 

concordou  com  um  gesto  amistoso,  Marco  chegou-se  ao  pé  dela  e,  em  voz 
baixa, mas muito distintamente, disse em russo: 

- O caminho está aberto! 
O Rato, que estava a observar, não viu qualquer modificação na cara dela. 

Era  uma  coisa  que  já  tinha  notado  várias  vezes,  nas  pessoas  a  quem  davam  o 
sinal. Todas tinham um domínio completo sobre si próprias, e nunca se traíam 
com uma mudança de expressão, ao ouvirem aquelas palavras. 

A  senhora  continuou  a  sorrir  e  falou  apenas  para  os  cães,  deixando  que 

Marco  e  o  Rato  os  observassem  à  vontade  através  da  janela  da  carruagem, 
enquanto o cocheiro abria a porta para ela entrar. 

- São muito bonitos - disse Marco, tirando o seu boné. 
Quando  o  cocheiro  se  afastou,  ele  murmurou  mais  uma  vez  aquelas 

palavras em russo e depois retirou-se sem olhar para trás. 

- Um já está! - disse ele para o Rato, nessa noite, antes de adormecerem. 

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16 
A viagem continua

 

 
A viagem seguinte foi para Munique. 
Uma das coisas que sabiam sobre a próxima personagem, era a sua paixão 

pela  música.  Passava  muito  tempo  em  Munique,  porque  gostava  do  ambiente 
musical e da movimentação entusiástica dos frequentadores de ópera. 

- A banda militar toca ao meio-dia. Quando se trata de um concerto muito 

bom,  às  vezes  as  pessoas  param  as  suas  carruagens  para  poderem  ouvir.  Nós 
vamos até lá - disse Marco. 

- É uma hipótese - disse o Rato. - Não nos podemos dar ao luxo de perder 

qualquer hipótese. 

O  dia  estava  magnífico  e  as  pessoas  passeavam  na  rua  com  ar 

descontraído,  gozando  o  sol.  O  Rato  atravessava  pelo  meio  da  multidão, 
apoiado  nas  suas  muletas,  cheio  de  interesse  e  entusiasmo.  Tinha  começado  a 
crescer, e isso notava-se na sua cara e na sua expressão, que agora mostrava um 
ar  mais  maduro.  Sempre  tinha  conseguido  o  seu  “lugar”  no  mundo  e  um 
trabalho para fazer, o que justificava plenamente o seu ar mais compenetrado. 

Ninguém  poderia  suspeitar  que  eles  eram  portadores  de  um  segredo 

estranho e vital quando os viam caminhar juntos. 

Pareciam  dois  rapazes  vulgares  a  observarem  as  montras  e  a  falarem  do 

que viam. De tal maneira o Rato estava encantado com os novos sítios e as suas 
maravilhas, que, por vezes, até esquecia que tinha uma missão para cumprir. 

Como  o  dia  estava  óptimo  e  também  porque  o  programa  da  banda  era 

excepcionalmente  bom,  havia  muito  mais  gente  na  praça  do  que  era  costume. 
Estavam parados muitos veículos, entre os quais alguns particulares. 

Um  destes  chegara  com  certeza  muito  cedo,  porque  se  encontrava  numa 

posição privilegiada. Era uma grande carruagem aberta, com luxuosos estofos 
verdes. 

Dentro,  estava  a  pessoa  que  procuravam.  Não  havia  qualquer 

possibilidade  de  engano.  Cada  um  deles  sabia  de  memória  todos  os  detalhes 
daquela face e o desenho daquele bigode grisalho. 

Decidiram  então  que  só  Marco  iria  até  à  carruagem.  Um  rapaz  sozinho, 

nas imediações, despertaria menos a atenção do que dois. O Rato regressaria ao 
quarto. 

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- Pois é - disse o Rato. - As muletas chamariam a atenção. Vou-me manter 

afastado,  a  não  ser  que  precises  de  mim.  Ainda  não  chegou  a  altura  de  eu 
actuar. Mesmo que nunca chegue, acabo por cumprir a minha missão, que é ser 
teu ajudante de campo. 

Marco  começou  a  passear  descontraidamente  por  entre  as  pessoas, 

tentando parecer o mais natural possível. 

Subitamente  ouviu  uma  grande  gargalhada  e  logo  a  seguir  sentiu  uma 

mão pousar-lhe no ombro. 

- Como apareceste aqui? - perguntou alguém com uma voz suave. 
A  pessoa  que  se  tinha  dirigido  a  ele  e  que  lhe  sorria  com  os  seus  ternos 

olhos grandes vinha envolta num bonito véu violeta. 

Era a senhora que o tinha atraído ao n.º 10 de Brandon Terrace. 
Naquele preciso momento viu o Chanceler aproximar-se lentamente. 
A  mão  delicada  estava  de  novo  pousada  no  seu  ombro,  mas  sentiu  que 

desta vez o agarrava com força. 

-  Seu  maroto!  -  disse  a  voz  doce.  -  Vou  levar-te  para  casa  comigo.  Se  te 

opuseres  e  começares  a  debater-te,  digo  a  estas  pessoas  que  és  um  filho  mau, 
que está aqui sem ter autorização. 

Sentiu então que as palmas das  mãos se humedeciam.  Se ela tivesse esse 

atrevimento,  o  que  é  que  ele  podia  dizer  às  pessoas  a  quem  ela  iria  mentir? 
Como  é  que  podia  apresentar  provas  ou  explicar  quem  era,  e  que  história 
poderia contar? Os seus protestos e esforços para se libertar, só divertiriam os 
mirones, que iriam achar que a sua fúria não passava de raiva impotente de um 
jovem insubordinado. 

Veio-lhe  à  memória  a  recordação  das  horas  que  passara  na  cave, 

completamente  às  escuras,  encostado  à  parede  fria.  Recordou-se  do  momento 
em que o homem o fechara lá dentro tão vivamente como se estivesse a vivê-lo 
de  novo.  Sentiu-se  um  pouco  apreensivo:  se  uma  coisa  do  género  lhe 
acontecesse agora, só um milagre o podia salvar, visto que estava longe da sua 
terra e do seu pai. 

Manteve-se  silencioso  e  a  mulher  que  o  segurava  apenas  notava  os  seus 

olhos a chisparem.   

Hesitou, invocando a sua força interior, para lhe dar uma ideia. 
O Chanceler passava por perto. Talvez se tentasse...? 
- Podes esbracejar e gritar - disse a mulher. As pessoas até se vão rir. 
Marco  voltou-se  para  a  sua  captora,  como  se  fosse  dizer  qualquer  coisa. 

Mas  não  disse  nada.  Nesse  momento  percebeu  que  a  sua  força  interior  tinha 
respondido  ao  apelo.  Viu  o  Chanceler  aproximar-se  também  do  sítio  onde 
estavam. Pensou então que podia simultaneamente dar o sinal e salvar-se, visto 

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que o Chanceler perceberia imediatamente a situação. 

Nesse  momento,  talvez  por  distracção,  ela  afrouxou  um  pouco  a  pressão 

da mão no seu ombro, o que ele aproveitou para se libertar. 

Pouco  depois,  o  velho  aristocrata  encontrou-se,  espantado,  escutando  o 

discurso  que,  de  um  só  fôlego,  Marco  lhe  dirigia  em  alemão  e  de  tal  maneira 
depressa que nem sequer parava para respirar. 

-  Senhor  -  dizia  ele  -,  a  mulher  de  violeta  ao  pé  daquela  escada  é  uma 

espia.  Aprisionou-me  uma  vez  e  prepara-se  para  fazer  a  mesma  coisa  agora. 
Senhor, posso pedir-lhe para me proteger? 

Fez  este  discurso  em  voz  baixa.  Mais  ninguém  conseguiria  ouvir  as  suas 

palavras. 

- O quê? - perguntou o Chanceler, com ar incrédulo. 
Então  Marco  aproximou-se  um  pouco  mais  e  pronunciou  em  voz  baixa, 

mas clara, as quatro palavras: 

- O caminho está aberto. 
Percebeu  imediatamente  que  o  velho,  que  agora  olhava  para  a  mulher, 

compreendera tudo. 

- E esta! - exclamou o Chanceler, esboçando um movimento em direcção à 

mulher, enquanto afagava o seu grande bigode. 

Marco  assistiu  então  a  uma  coisa  curiosa.  A  Criatura  Bonita  vira  esse 

movimento e o bigode grisalho, e nesse mesmo instante o sorriso desapareceu 
da sua face, e ficou tão branca que pareceu ir desmaiar. Não estava nada bonita 
agora.  Começou  a  escapar-se  por  entre  a  multidão.  Como  era  uma  criatura 
delgada  e  elegante  conseguia  mover-se  sinuosamente  por  entre  as  pessoas, 
dirigindo-se com rapidez para a saída. Foi um desaparecimento em beleza. Em 
dois minutos tinha-se evaporado. 

Marco estava um pouco atrapalhado. 
- Não lhe quero tomar mais tempo, senhor. Muito obrigado! 
O  Rato  tinha  adormecido  a  ler  o  jornal  e  estava  agora  com  a  cabeça 

apoiada  nos  braços  cruzados  em  cima  da  mesa.  Mas  acordou  quando  Marco 
entrou no quarto e sentou-se logo, piscando os olhos. 

- Viste-o? Chegaste ao pé dele? - perguntou. 
- Sim - respondeu Marco. - Cheguei suficientemente perto. 
O Rato endireitou-se na cadeira. 
- Não deve ter sido fácil. Com certeza que aconteceu qualquer coisa. 
-  Quase  que  me  iam  apanhando  -  disse  Marco.  E  tirando  o  esboço  do 

Chanceler  da  manga,  começou  a  queimá-lo  com  um  fósforo,  dizendo:  -  Mas 
cheguei suficientemente perto, para fazer o que devia. E, assim, já foram dois. 

Na  semana  seguinte,  viajando  para  Viena,  deram  o  sinal  a  três  pessoas 

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diferentes, em lugares que ficavam no caminho. 

Numa  vila,  ao  pé  da  fronteira  com  a  Bavária,  encontraram  um  homem 

velho, muito alto, sentado num banco debaixo de uma árvore, em frente à sua 
hospedaria; quando as quatro palavras foram pronunciadas, levantou-se logo e 
descobriu a cabeça. De outra vez, ao darem também o sinal a um homem que se 
encontrava  sozinho  num  local  isolado,  Marco  reparou  que  ele  se  comportou 
como todos os outros e disse: “Deus seja louvado”, muito devotadamente como 
se  se  tratasse  de  alguma  cerimónia  religiosa.  Uns  quilómetros  mais  adiante, 
numa  pequena  cidade,  tiveram  de  procurar  durante  algumas  horas,  até 
encontrar um jovem sapateiro com o cabelo arruivado e uma cicatriz em forma 
de ferradura na testa. 

Estranhos  foram  os  lugares  por  onde  passaram  e  muito  diferentes  as 

pessoas  a  quem  levavam  a  mensagem.  Mas  a  mais  original  de  todas  foi  uma 
velhota, que vivia num lugar tão longínquo, que a estrada tinha de contornar a 
montanha durante quilómetros para se chegar lá. 

A  cara  dela  tinha  milhares  de  rugas.  Todavia,  o  perfil  era  ainda 

esplêndido, e devia ter sido uma beleza no seu tempo. Os olhos eram como os 
de uma águia, mas não uma águia velha. E o seu pescoço comprido sustentava 
uma cabeça muito direita. 

Quando  chegaram  a  Viena,  estava  a  decorrer  nma  parada.  O  Imperador 

deslocara-se  à  região  para  assistir,  na  catedral,  à  celebração  duma  vitória 
ocorrida  há  séculos.  Os  passeios  estavam  apinhados  de  gente  aplaudindo  o 
esplendor marcial, que se podia observar tanto na parada como no desfile dos 
cavalos e ainda no brilho das espadas. 

O Rato estava muito espantado com o palácio imperial. Predominavam os 

espaços enormes, os pátios e os jardins. 

A  multidão  avançou  numa  ânsia  de  ver  a  parte  mais  importante  do 

cortejo:  a  carruagem  com  o  Imperador.  E  o  Rato  chegou-se  também  para  a 
frente, com os outros, para a ver passar. 

Uma  personagem  de  cabelo  branco,  com  um  esplêndido  uniforme 

decorado com ordens cravejadas de jóias e com um penacho de plumas verdes 
abanando no seu capacete militar, saudava a multidão, que gritava de ambos os 
lados  da  avenida.  Ao  seu  lado  ia  sentado  um  homem,  também  de  uniforme 
decorado e capacete emplumado, mas um bocado mais novo. 

O braço de Marco tocou no do Rato, quase ao mesmo tempo que o deste 

tocava o seu. Debaixo daquela plumagem, tinham reconhecido o Príncipe, o seu 
contacto. 

Na manhã seguinte, o tempo estava lindo e o sol brilhava através da janela 

do quarto, enquanto tomavam o pequeno-almoço. A seguir, debruçaram-se no 

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parapeito  da  janela  e  conversaram  acerca  do  jardim  do  Príncipe,  que  estava 
aberto  ao  público,  e  por  onde  tinham  passeado  no  dia  anterior.  O  palácio 
erguia-se no meio deste jardim. 

-  Quando  lá  estivemos  reparei  em  duas  coisas  -  disse  Marco.  -  Há  uma 

varanda  de  pedra  que  sobressai  do  lado  do  palácio,  que  dá  para  o  jardim  da 
fonte. Perto dela existe um grande arbusto, e vi que tinha um espaço vazio no 
meio.  Se  um  de  nós  quisesse  ficar  toda  a  noite  nos  jardins,  para  observar  as 
janelas  quando  elas  estivessem  acesas  e  ver  se  alguém  vinha  para  a  varanda, 
podia esconder-se nesse buraco e ficar lá até de manhã. 

- Caberemos os dois nesse buraco? - perguntou o Rato. 
- Não, tenho de ir sozinho - disse Marco. 
Naquele  fim  de  tarde,  passeavam  pelos  jardins  dois  rapazes  bem 

comportados,  mas  pobremente  vestidos.  Estava  um  dia  soalheiro  e 
excepcionalmente  quente,  havendo  por  isso  mais  visitantes  do  que 
habitualmente, e essa talvez tenha sido a razão pela qual o porteiro, que estava 
à entrada, não reparou que entraram dois rapazes, mas que só um saiu. 

Aconteceu que, quando o Rato passou, o porteiro estava mais interessado 

no  aspecto  do  céu  que  se  mostrava  muito  ameaçador.  Durante  todo  o  dia 
tinham pairado nuvens no céu e, para o fim, tinham mesmo tapado o sol. Nesse 
momento  elas  tinham-se  aglomerado  e  formado  tenebrosas  montanhas  que 
escondiam o Sol. 

À noite, as nuvens começaram a afastar-se e daí a pouco tempo apareceu 

uma brilhante lua cheia, iluminando tudo. Algumas partes do jardim pareciam 
de  prata,  e  as  sombras  das  árvores  assemelhavam-se  a  veludo  preto.  Um  raio 
prateado penetrou no interior do arbusto e veio bater na cara de Marco, que se 
encontrava há muito escondido no buraco. 

Talvez  tivesse  sido  esta  súbita  mudança  de  tempo  que  atraísse  os que  se 

encontravam no interior da sala da varanda. Uma figura de homem apareceu a 
uma  das  janelas  altas.  Marco  pôde  ver  então  que  era  o  Príncipe.  Este  abriu  as 
janelas e saiu para a varanda. 

- Já acabou - disse calmamente, ficando a olhar a grande lua branca. 
Estava  muito  quieto  e,  por  momentos,  pareceu  querer  alhear-se  de  tudo, 

até mesmo de si próprio. Mas algo o fez regressar à terra. Uma voz baixa, mas 
forte e nítida, chegou até ele, vinda do caminho sob a varanda. “O caminho está 
aberto, o caminho está aberto”, dizia a tal voz e tais palavras pareceram atraí-lo. 

Quando,  na  manhã  seguinte,  os  jardins  foram  abertos  e  as  pessoas 

começaram a entrar e a sair, Marco retirou-se. Apressou o passo, depois de ter 
atravessado a rua, porque tinha pressa de falar com o Rato. 

Quando  chegou  ao  quarto,  o  sol  batia  na  janela  do  sótão,  e  ambos  se 

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recostaram  no  peitoril,  enquanto  Marco  contava  a  sua  história.  Levou  algum 
tempo a contar e, quando acabou, tirou um envelope do bolso e mostrou-o ao 
Rato. Tinha dentro algum dinheiro. 

- Deu-mo, depois de eu lhe dar o sinal - explicou Marco. - E disse-me: “Já 

não  falta  muito.  Depois  da  Samávia,  volta  para  Londres  o  mais  depressa  que 
puderes “. 

- O que seria que ele queria dizer? - perguntou o Rato lentamente. 
-  Não  sei.  Penso  que  há  qualquer  motivo,  que  não  é  suposto  eu  saber  - 

disse Marco. 

-Vamos fazer como ele nos disse, o mais rapidamente possível. 
E começaram a ler os jornais, como faziam todos os dias. Mas a única coisa 

que conseguiram deduzir de cada um deles, foi que os partidos em oposição na 
Samávia  pareciam  ter  chegado  à  exaustão.  Era  impossível  prever  qual  dos 
partidos tinha ainda a força suficiente para conseguir a vitória. Nunca nenhum 
país tinha atravessado tal crise. 

- Está na altura! - disse o Rato, olhando furiosamente para o mapa. - Se o 

Partido  Secreto  de  repente  se  destaca,  pode tomar Melzarr  quase  sem  esforço. 
Pode  mesmo  percorrer  o  país  todo  e  aniquilar  os  dois  exércitos,  que  estão 
enfraquecidos, famintos, quase mortos e que desejam o fim da luta. Só Iarovitch 
e Maranovitch continuam a lutar, porque qualquer deles apenas quer o poder, 
para impor taxas às pessoas e escravizá-las. Se o Partido Secreto não aparece, o 
povo  entrará  pelos  palácios  dentro  e  matará  todos  os  Maranovitch  e  Iarovitch 
que encontrarem. O que será muito bem feito 

- Vamos passar o resto do dia a estudar o mapa das estradas novamente - 

disse Marco. - Hoje à noite mesmo, devemos estar já a caminho da Samávia. 

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17 
Para lá da fronteira

 

 
Dois  rapazes  cansados  a  atravessarem  a  fronteira  entre  a  Jiardasia  e  a 

Samávia,  uma  semana  mais  tarde,  com  passos  lentos  e  entorpecidos,  não  era 
coisa que chamasse à atenção. A guerra, a fome e a angústia tinham tornado o 
país destroçado e, sobretudo, indiferente. 

Os dois rapazes, um deles de muletas, tinham sem dúvida andado muito a 

pé. E com as roupas cheias de pó e sujas da viagem, pararam logo, ao atravessar 
a  fronteira,  na  primeira  barraca  que  encontraram,  para  beberem  água.  O  que 
andava sem muletas tinha algum pão duro na saca, que pendurava ao ombro, e 
então sentaram-se à beira da estrada a comê-lo, como se estivessem esfomeados. 

A viagem era dura e cheia de privações. Tinham de a fazer toda a pé, e não 

conseguiam encontrar muita comida. Mas cada um deles sabia como viver com 
provisões  escassas.  Bebiam  água  e  tomavam  banho  nas  nascentes.  Musgo  e 
fetos prestavam-se a camas fofas e bem cheirosas, e as árvores serviam-lhes de 
tecto. Às vezes passavam muito tempo deitados e aproveitavam para conversar 
enquanto  descansavam.  E  chegou  finalmente  o  dia  em  que  souberam  que  se 
estava a aproximar o fim da viagem. 

-  Agora  está  quase  a  acabar  -  disse  Marco,  pouco  depois  de  se  terem 

embrenhado na floresta, nas primeiras horas de uma fresca manhã. - Ele disse: 
“Depois da  Samávia,  volta para Londres o mais depressa que puderes”. Disse 
isto duas vezes, como se alguma coisa estivesse para acontecer. 

-  Talvez  aquilo  que  ele  queria  dizer,  aconteça  mais  depressa  do  que 

pensamos - respondeu o Rato. 

De repente sentou-se, apoiou-se no ombro e inclinou-se para Marco. 
-  Estamos  na  Samávia!  -  gritou.  -  Nós  os  dois  estamos  na  Samávia! 

Estamos quase no fim! 

Marco apoiou-se também no cotovelo. Estava muito magro em resultado 

da viagem dura e da fraca alimentação. A magreza tinha-lhe tornado os olhos 
enormes e escuros como buracos. Mas brilhavam e eram lindos. 

- Sim - disse ele, respirando apressadamente. E embora não saibamos qual 

será o fim, obedecemos às ordens. O Príncipe deu a penúltima. Agora só falta 
uma, a do velho padre. 

- Tenho desejado conhecê-lo mais do que a qualquer outro - disse o Rato. 

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- Também eu - respondeu Marco. - A sua igreja está construída na encosta 

desta montanha. O que é que ele nos irá dizer? 

Ambos  tinham  a  mesma  razão  para  o  quererem  ver.  Quando  era  jovem, 

tinha  prestado  serviço  religioso  no  mosteiro  que  ficava  para  lá  da  fronteira: 
aquele  que,  até  ser  destruído  numa  revolta,  guardava  como  um  tesouro  a 
história de uma criança de ascendência real, que fora levada por um pastor para 
ser  escondida  pela  Confraria.  O  jovem  padre,  que  nesse  tempo  lá  prestava 
serviço, deve ter ouvido lendas maravilhosas. Mas o mosteiro ardeu e o jovem, 
anos  mais  tarde,  tinha  atravessado  a  fronteira,  tornando-se  padre  de  alguns 
montanheses, numa pequena igreja que se encontrava implantada na encosta da 
montanha. 

-  Ele  pode  decidir  não  nos  dizer  nada  -  disse  Marco.  -  Quando  lhe 

tivermos  dado  o  sinal,  pode  ir-se  embora  e  não  dizer  nada,  como  os  outros 
fizeram.  Pode  não  querer  nada  connosco  ou  pode  ter  ordens  para  manter  o 
silêncio. 

Subir a encosta rochosa, até à pequena igreja, não parecia nem difícil nem 

demorado.  Podiam  dormir  ou  descansar  todo  o  dia  e  iniciar  a  subida  só  ao 
crepúsculo. 

Conseguiram ter um sono longo e profundo que nada perturbou. 
Foi um pássaro que ao fim do dia se pôs a chilrear e os acordou. 
- As estrelas já estão a aparecer. Podemos começar a subir - disse Marco. 
Levantaram-se e olharam um para o outro. 
- Este é o último! - disse o Rato. - Amanhã já iremos a caminho de Londres, 

para a Praça Philibert. E depois de termos estado em todos estes lugares, como 
nos parecerá ela? 

- Será como acordar de um sonho - disse Marco. 
- Não é um sítio nada bonito, a Praça Philibert. Mas ele vai lá estar. - E foi 

como se uma luz se acendesse sobre o seu rosto e atenuasse o seu ar sombrio. 

Também a face do Rato se iluminou do mesmo modo. 
- Obedecemos às ordens - disse ele. - Não nos esquecemos de ninguém e 

conseguimos  que  ninguém  desse  por  nós.  Passámos  pelos  países,  como  se 
fossemos grãos de pó. 

O rosto de Marco ainda brilhava. 
- Deus seja louvado! - disse ele. - Vamos então subir. 
Foram  abrindo  caminho  através  dos  fetos  e  deambularam  por  ali,  pelo 

meio  das  árvores,  até  que  encontraram  o  estreito  caminho.  A  colina  estava 
coberta  de  densa  vegetação  e  o  caminho  era  por  vezes  escuro  e  íngreme;  mas 
eles já sabiam isso e calculavam também que, ao prosseguirem, iriam dar a um 
local onde quase não havia árvores e onde encontrariam a pequena igreja sobre 

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um penhasco, esperando por eles. 

Havia já muitas estrelas no céu quando, por fim, numa curva do caminho, 

a igreja surgiu por cima deles. 

- Vem - disse Marco. E continuaram a andar. Como as estrelas brilhavam e 

o ar estava tão límpido, o padre pôde ouvir os passos deles no caminho e vê-los 
quase simultaneamente. 

- Quem serão estes? - murmurou o velho padre para si próprio. - Quem? 
Marco  parou  junto  dele  e  fez-lhe  uma  respeitosa  reverência.  Em  seguida 

levantou  a  cabeça,  endireitou  os  ombros  e  proferiu  a  mensagem  pela  última 
vez. 

- “O caminho está aberto”, Padre - disse. “O caminho está aberto”. 
O velho padre permaneceu imóvel a olhar fixamente para a sua cara. Daí a 

momentos baixou a cabeça, para poder vê-lo melhor. Parecia estar assustado e 
querer certificar-se de alguma coisa. 

-  Sou  um  velho  -  disse.  -  Os  meus  olhos  já  não  estão  muito  bons.  Se  eu 

tivesse uma luz.... - e olhava na direcção da casa. 

Foi  o  Rato  quem,  num  movimento  rápido,  entrou  pela  porta  e  agarrou 

numa vela, segurando-a de modo que a sua luz incidisse na cara de Marco. 

O padre aproximou-se mais, respirando com dificuldade, e gritou: 
- És o filho de Stefan Loristan! E é o seu filho que traz o sinal.  
- Sim, Padre - disse. - Sou o filho de Stefan Loristan e já dei o sinal a todos. 

O Padre é o último. “O caminho está aberto”. 

- Andaste de país em país a levar a mensagem? 
-  perguntou  ele.  -  Andaste  a  dizer  estas  quatro  palavras,  cumprindo 

ordens?  

- Sim, Padre - respondeu Marco. 
- E isso era tudo? Não tinhas mais nada a dizer, nem te perguntaram mais 

nada? 

-  Não  sei  mais  nada.  O  silêncio  foi  um  princípio  que  me  esforcei  por 

sempre  seguir,  desde  que  fiz  o  meu  juramento  em  criança.  Não  tinha  ainda 
idade suficiente para combater, servir ou raciocinar sobre grandes coisas. Tudo 
o que podia fazer era permanecer silencioso, ir treinando a memória e aprender 
a  estar  pronto,  para  quando  fosse  chamado.  Quando  o  meu  pai  viu  que  eu 
estava  pronto,  confiou  em  mim  para  poder  partir  e  dar  o  sinal.  Disse-me  as 
quatro palavras, nada mais. 

O velho padre olhava para ele com um certo ar inquiridor. 
- Se não for Stefan Loristan a saber o que é melhor fazer-se - disse -, quem 

há-de ser? 

-  Ele  sabe  sempre  -  respondeu  Marco  com  orgulho.  -  Sempre!  -  apontou 

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depois  para  o  Rato  como  um  jovem  rei;  queria  que  cada  pessoa  que 
encontrassem,  desse  o  devido  valor  ao  Rato.  -  Escolheu-me  ele  também  este 
companheiro - acrescentou. - Não teria feito nada sozinho. 

-  Deixou  que  eu  me  apelidasse  de  seu  ajudante!  -  interrompeu  o  Rato.  - 

Ter-me-ia deixado cortar em pedaços por ele! 

-  Como  soube  que  eu  era  filho  do  meu  pai  ?perguntou  Marco.  -  Já  tinha 

visto alguma vez o meu pai? 

-  Não  -  foi  a  resposta.  -  Mas  já  vi  uma  fotografia,  que  se  dizia  ser  a  sua 

própria imagem, e tu és tal e qual essa fotografia. É realmente uma coisa muito 
estranha,  duas  criaturas  de  Deus  serem  tão  parecidas.  Deve  haver  qualquer 
desígnio mistério por detrás disso. 

Conduziu-os então para a sua pobre casa, fê-los descansar, beber leite de 

cabra  e  comer  alguma  coisa.  E  enquanto  andava  de  um  lado  para  o  outro, 
dentro daquela cabana, a sua face mostrava um ar misterioso e excitado. 

-  Vocês  têm  de  se  refrescar,  antes  de  partirmos  -  disse  por  fim.  -  Vou 

levá-los  a  um  lugar  escondido  na  montanha,  onde  estão  uns  homens  cujos 
corações  baterão  com  força  ao  ver-vos,  ganhando  assim  mais  coragem  e  nova 
determinação.  Vão-se  encontrar  hoje  à  noite,  como  os  seus  antepassados  têm 
feito há séculos; só que agora a sua espera está já perto do fim. E vou levar-lhes 
o filho de Stefan Loristan, que é o portador do sinal! 

Comeram o pão com queijo e beberam o leite de cabra que ele lhes deu e a 

seguir  Marco  explicou  que  não  precisavam  de  descansar,  porque  tinham 
dormido  todo  o  dia.  Estavam  preparados  para  o  seguir,  quando  ele  estivesse 
pronto. 

O padre pegou num bordão de madeira cheio de nós e indicou o caminho, 

que era escarpado e íngreme sem quaisquer bermas para o delimitar. 

Tinham andado a bom passo durante quase duas horas quando chegaram 

a uma clareira rodeada de densa vegetação e que tinha no meio uma gigantesca 
árvore,  possivelmente  caída  durante  alguma  violenta  tempestade.  Não  muito 
longe  da  árvore  havia  uma  rocha,  da  qual  só  se  via  a  parte  que  ficava  acima 
daquele denso emaranhado. 

Tinham seguido todo o caminho através da mata cheia de arbustos sempre 

conduzidos  pelo  seu  companheiro.  Não  sabiam  onde  seriam  conduzidos  a 
seguir,  e  por  isso  ainda  estavam  preparados  para  continuar,  quando  o  padre 
parou  ao  pé  da  tal  rocha,  meio  à  vista.  Ficou  parado  e  silencioso  durante  uns 
minutos, como se estivesse a escutar a floresta e a noite. Mas não havia sequer 
uma brisa para fazer mexer uma folha, nem um pássaro a chilrear. 

Bateu na rocha com o seu bordão, primeiro duas vezes e mais duas vezes a 

seguir. 

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Marco e o Rato ficaram parados, contendo a respiração. 
A  rocha  movia-se!  Sim,  era  verdade,  não  havia  sombra  de  dúvida; 

movia-se.  O  padre  chegou-se  para  o  lado  e  ela  deslocou-se  lentamente,  como 
que  movida  por  uma  alavanca.  Gradualmente  foi  mostrando  uma  fenda  com 
uma escuridão levemente iluminada, e então o padre disse para Marco: 

-  Existem  esconderijos  como  este,  espalhados  por  toda  a  Samávia.  Neles 

têm residido a paciência e a miséria. São as cavernas dos Forjadores da Espada. 
Venham! 

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18 
O Príncipe Desaparecido

 

 
Desde que tinham começado a viagem, os rapazes sentiram muitas vezes 

os seus corações baterem de excitação. A história de que as suas próprias vidas 
faziam  parte,  era  uma  experiência  excitante.  Mas,  à  medida  que  desciam 
aqueles  degraus  enormes,  que  pareciam  conduzir  às  entranhas  da  terra,  tanto 
Marco como o Rato receavam que o padre ouvisse o bater dos corações, tal era a 
sua emoção. 

-  Os  Forjadores  da  Espada.  Tenta  lembrar-te  de  cada  palavra  que  eles 

disserem - segredou o Rato -, para depois me poderes contar. Não te esqueças 
de nada! Quem me dera saber samaviano. 

Ao fundo das escadas estava a sentinela, que manobrava a alavanca, que 

movia a rocha. Era um camponês grande e com ar pitoresco. O padre saudou-o 
ao mesmo tempo que lhe dava a bênção e lhe tomava das mãos a lanterna que 
ele empunhava. 

A passagem arqueada por onde se encaminharam devia ter levado tantos 

anos a ser talhada como a construção daquelas paredes sólidas e ásperas. Mas o 
Rato lembrou-se da história dos pastores da montanha que se tinham unido por 
um  juramento  há  várias  gerações.  Os  Samavianos  eram  um  povo  de  grande 
determinação  e  o  facto  da  sua  paixão  ter  sido  abafada,  ainda  a  fez  arder  mais 
encarniçadamente.  Tinham  feito  pela  primeira  vez  o  seu  juramento  há 
quinhentos  anos;  governaram  muitos  reis  e desapareceram  muitos  outros,  por 
terem morrido ou sido assassinados; dinastias sucederam-se, mas os Forjadores 
da  Espada  nunca  tinham  esquecido  nem  vacilado  na  sua  crença  de  que  o  seu 
Príncipe  Desaparecido  voltaria  a  estar  entre  eles  de  novo,  mesmo  a  seguir 
àqueles anos longos e sombrios. 

O  velho  padre  sabia  quão  ansiosamente  eles  esperavam  e  também  o  que 

lhes estava a trazer. Marco e o Rato não tinham ainda idade suficiente para se 
aperceberem de como a esperança dos homens pode ser impaciente e violenta. 
Esses homens sentiam agora toda a expectativa da eminência do aparecimento 
dos portadores do sinal. O Rato sentia calor e frio, e roía as unhas à medida que 
avançava. Podia até ter gritado, tal era a intensidade da sua excitação, quando o 
padre  parou  diante  de  uma  porta  negra!  Marco  não  emitiu  qualquer  som.  A 
excitação ou o perigo tornavam-no mais pálido e esguio. Era assim que estava 

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agora. 

O  padre  tocou  na  porta  e  esta  abriu-se.  Encontraram-se  então  numa 

enorme caverna revestida das paredes ao tecto por pistolas, espadas, baionetas, 
dardos,  punhais,  espingardas  e  toda  a  espécie  de  armas  que  um  homem 
desesperado  possa  utilizar.  O  local  estava  cheio  de  homens,  que  se  voltaram 
para  a  porta  quando  esta  se  abriu.  Todos  saudaram  o  padre  com  reverência, 
mas Marco percebeu logo que notaram que o padre não vinha sozinho. 

Aquele grupo de gente tinha um ar estranho à luz daqueles archotes e com 

aquele  enquadramento  de  armas  por  todo  o  lado.  Marco  viu  logo  que  eram 
homens de todas as classes sociais, embora todos estivessem mal vestidos. Eram 
montanheses  e  homens  da  planície,  uns  jovens  outros  mais  velhos.  Alguns, 
tinham cabelo branco, mas corpos de gigantes e grande determinação nos seus 
queixos voluntariosos. Tinham sido derrotados, oprimidos e saqueados muitas 
vezes,  mas  nos  olhos  de  cada  um  existia  aquela  chama  que,  através  dos  anos, 
tinha passado de pais para filhos. 

O  padre  pousou  a  mão  no  ombro  de  Marco,  e,  cautelosamente,  levou-o 

diante de si, através da multidão que se afastava, formando um círculo, para os 
deixar  passar.  Só  parou  quando  se  encontraram  no  meio  do  círculo,  que 
entretanto  se  alargara,  tal  era  o  espanto  e  a  curiosidade.  Marco  olhou  para  o 
velho padre, e verificou que ele não conseguia falar devido à emoção. Mesmo 
entreabrindo  os  lábios,  a  voz  parecia  faltar-lhe.  Mas,  fazendo  um  esforço, 
conseguiu  falar  bem  alto,  de  maneira  que  todos  o  puderam  ouvir,  mesmo  os 
que se encontravam nas últimas filas do círculo. 

- Meus filhos - disse -, este é o filho de Stefan Loristan, que vem trazer-nos 

o sinal. Finalmente, a mensagem tão desejada. Meu filho - disse, dirigindo-se a 
Marco -, fala! 

Nessa  altura  Marco  compreendeu  o  que  ele  pretendia  e  também  o  que 

sentia. Ele próprio sentia aquela satisfação grandiosa, crescendo à medida que 
falava, mantendo a cabeça bem direita e levantando a mão direita. 

- Irmãos, o caminho está aberto - gritou. O caminho está aberto! 
Nesse momento, o Rato, que se tinha mantido afastado observando tudo, 

pensou que aquela gente estranha dentro da caverna tinha enlouquecido! Uns, 
soltavam  gritos  selvagens,  outros,  abraçavam-se  afectuosamente  ou  então 
ajoelhavam-se,  apertavam-se  as  mãos  ou  pulavam  de  satisfação.  Era  como  se 
não  pudessem  suportar  a  alegria  de  ouvirem  dizer  que  o  final  da  sua  espera 
tinha  chegado  ao  fim.  Precipitaram-se  para  Marco  e  caíram  aos  seus  pés.  O 
círculo selvagem inclinou-se e fechou-se sobre Marco, de tal maneira que o Rato 
teve medo. 

Não se tinha apercebido de que, tomado por aquele frenético alvoroço, a 

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sua  própria  excitação  o  fazia  tremer  da  cabeça  aos  pés,  e  que  as  lágrimas  lhe 
corriam pela cara abaixo. A multidão, ao mover-se, tinha escondido Marco, e o 
Rato  teve  de  se  debater,  para  abrir  caminho  na  sua  direcção,  sentindo-se 
apreensivo com o desenrolar dos acontecimentos. Marco era ainda um jovem, e 
eles pareciam não perceber que o podiam asfixiar com tanto entusiasmo. 

- Não o matem! Não o matem! - gritou o Rato, lutando por chegar à frente. 

- Cheguem-se para trás, seus loucos! Deixem-me passar! 

E  embora  ninguém  percebesse  o  seu  inglês,  lembraram-se  de  o  ter  visto 

entrar  com  o  padre  e  cederam.  Precisamente  nesse  instante,  o  padre  ergueu  a 
mão sobre a multidão e disse com uma voz firme de comando: 

-  Cheguem-se  para  trás,  meus  filhos!  -  gritou.  A  loucura  não  é  a  melhor 

homenagem  que  podem  prestar  ao  filho  de  Stefan  Loristan.  Obedeçam! 
Obedeçam!  -  e  a  sua  voz  tinha  um  tal  poder,  que  atingiu  mesmo  o  mais 
ardoroso dos lavradores. 

Aquela  massa  de  gente  delirante  recuou  e  deixou  espaço  para  Marco,  a 

quem  o  Rato  conseguiu  por  fim  ver  a  cara,  branca  de  emoção,  e  de  olhos 
aterrorizados. 

O  Rato  foi-se  chegando  sempre  para  a  frente  até  ficar  ao  seu  lado.  Fixou 

depois aquele círculo de gente que os rodeava, como se eles fossem inimigos. O 
padre, ao vê-lo, tocou no braço de Marco. 

- Diz-lhe que não precisa ter medo - disse. - Foi só ao princípio. A paixão 

das suas almas tornou-os selvagens, mas agora são teus escravos. 

- Aquele entusiasmo todo, era pela Samávia e pelo meu pai - disse Marco. 

- Eu também senti o mesmo. 

Seguiu-se  depois  um  estranho  cerimonial.  O  padre  foi  falar  com  os 

homens da multidão, um a um, e formou-se então um círculo ainda maior. 

Ao  fundo  da  caverna  estava  um  grande  bloco  de  pedra,  como  se  de  um 

altar  se  tratasse.  Cobria-o  um  pano  branco,  e  por  cima  dele  encontrava-se  um 
enorme  quadro,  também  tapado  com  uma  cortina.  Do  tecto  pendia  um  antigo 
candeeiro  de  metal,  suspenso  por  correntes.  Defronte  do  altar  havia  uma 
espécie  de  trono,  onde  o  padre  convidou  Marco  a  sentar-se.  Um  grupo  de 
homens  retirou-se,  e  voltou  pouco  depois  empunhando  cada  um  deles  uma 
grande  espada.  Dispuseram-se  então  em  duas  filas,  de  cada  lado  de  Marco,  e 
ergueram as espadas de modo a formar um túnel. O Rato estava tão excitado, 
que batia com a mão no peito e olhava para Marco, o qual mantinha um grande 
aprumo, esperando o que viria a seguir, visto que se sentia ainda sob as ordens 
do pai, e em sua representação. 

O  padre  dirigiu-se  depois  para  o  princípio  do  túnel  e  fez  um  sinal  aos 

homens. Então, um de cada vez, os homens percorreram o túnel e, ao chegarem 

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junto  de  Marco,  ajoelhavam-se  e  beijavam-lhe  a  mão  com  fervor,  voltando 
depois para os seus lugares. Marco falou em samaviano com alguns deles, o que 
lhes causou grande alegria. Tanto Marco como o Rato, já se tinham apercebido 
que havia muitos que não eram camponeses: alguns deles tinham mesmo o ar 
de  pessoas  da  alta  nobreza  ou,  pelo  menos,  de  pessoas  de  grande  gabarito. 
Levou muito tempo até todos terem prestado a sua homenagem a Marco, mas 
nenhum  se  esquivou  a  ela.  Quando  a  cerimónia  finalmente  acabou,  fez-se  um 
grande silêncio na caverna, enquanto eles olhavam uns para os outros com os 
olhos  humedecidos  de  emoção.  O  padre  foi  então  para  junto  de  Marco  e, 
bruscamente, puxou a cortina que tapava o quadro. 

- Filho de Stefan Loristan - disse o padre, com voz emocionada -, este é o 

Príncipe Desaparecido. 

Toda a multidão se ajoelhou. Marco avançou um pouco, de boca aberta e 

respiração suspensa, e observou a pintura. 

- Mas. - balbuciou -, é parecido com o meu pai quando era novo. 
- Também tu te hás-de parecer com ele quando fores mais velho - disse o 

padre, ao mesmo tempo que voltava a tapar o quadro. 

O Rato olhava do quadro para Marco e deste para o quadro. Estava cada 

vez  mais  emocionado,  mas  não  pronunciava  uma  palavra.  Não  o  teria 
conseguido, mesmo que tivesse tentado. 

Marco  levantou-se  então  do  trono,  como  se  acordasse  dum  sonho  e, 

acompanhado  pelo  velho  padre,  passou  por  sua  vez  por  baixo  do  túnel,  que, 
entretanto, os homens tinham formado de novo. 

Agora todos os olhos se fixavam em Marco, que, ao atravessar a porta por 

onde tinham entrado,  parou e voltou-se para trás procurando os seus olhares. 
Marco tinha uma aparência muito jovem, era magro e pálido, mas, de repente, 
surgiu-lhe  no  rosto  um  sorriso  como  o  do  seu  pai.  Proferiu  claramente  e  com 
certa gravidade algumas palavras em samaviano, depois despediu-se e saiu. 

- O que é que lhes disseste? - perguntou o Rato, cambaleando atrás dele, 

assim que a porta se fechou. 

-  Só  havia  uma  coisa  a  dizer  -  foi  a  resposta.  Eles  são  homens,  eu  sou 

apenas  um  rapaz.  Agradeci-lhes  em  nome  do  meu  pai,  e  disse-lhes  que  ele 
jamais esqueceria. 

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19 
Extra! Extra! Extra!

 

 
Chovia  copiosamente  em  Londres.  Já  chovia  há  duas  semanas,  uns  dias 

mais,  outros  menos,  mas  sempre  com  grande  intensidade.  Quando  o  comboio 
de  Dover  chegou  a  Charing  Cross,  o  tempo,  que  até  ali  achara  ser  demasiado 
brando, desatou a mostrar-se ainda muito mais rigoroso. Assim, reuniu todas as 
energias  e  verteu-as  num  dilúvio  que  surpreendeu  mesmo  os  londrinos.  A 
chuva  batia  tão  fortemente  nas  janelas  e  escorria  tão  abundantemente  pelos 
vidros daquela carruagem de terceira classe onde viajavam Marco e o Rato, que 
eles nem conseguiam ver para fora. 

A viagem de regresso foi muito mais breve do que a que os levara para as 

longínquas  paragens  por  onde  tinham  andado.  Claro  que  tinham  levado  um 
certo tempo até chegarem à fronteira, mas depois de terem apanhado o comboio 
não pararam mais. Quando estavam cansados, dormiam nos bancos de madeira 
das carruagens. 

O  seu  único  desejo  era  regressarem  a  casa.  O  n.º  7  da  Praça  Philibert 

comparado com toda aquela imundície, parecia-lhes o lugar mais apetecível da 
terra. 

Para Marco isso estava relacionado com o seu pai. E o Rato era também só 

Loristan  que  via  quando  pensava  nisso,  e  o  modo  como  Loristan  olharia  para 
ele quando o visse entrar na sala com Marco e como ele lhe diria ao saudá-lo: 

- Trouxe-o de volta, senhor. Ele cumpriu, tal como eu, todas as ordens que 

lhe destes. 

E,  na  verdade,  assim  acontecera.  Ele  fora  enviado  como  companheiro  e 

ajudante, e tinha-lhe sido fiel em tudo. Se Marco lhe permitisse, tê-lo-ia servido 
como  um  criado  e  sentir-se-ia  orgulhoso  do  seu  serviço.  Mas  Marco  sempre 
dissera  que  eles  eram  apenas  dois  rapazes,  e  que  nenhum  deles  era  mais 
importante do que o outro. Tinha aceite esta atitude com um pouco de mágoa. 
Podia  ter-se  parecido  mais  com  um  jogo,  se  um  deles  fosse  mero  servidor  do 
outro, e se esse outro gritasse um pouco mais, desse ordens ou pedisse mesmo 
sacrifícios.  Se  o  fiel  vassalo  tivesse  sido  ferido  ou  lançado  num  calabouço  por 
causa  do  seu  jovem  chefe,  a  aventura  teria  sido  muito  mais  completa.  Mas  a 
viagem  decorrera  maravilhosamente  e  ficara  na  memória  do  Rato  como  um 
fundo  de  tapeçaria  bordado  em  todos  os  tons  da  terra  e  com  todos  os  seus 

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esplendores,  não  havendo  nem  masmorras  nem  feridas  a  recordar.  Depois  da 
aventura  em  Munique,  a  sua  ingenuidade  despreocupada  nunca  mais  fora 
atingida  pelos  perigos  que  a  podiam  ter  ameaçado.  Como  o  Rato dissera,  eles 
tinham “voado como grãos de pó” através da Europa, como se nada fosse. Tal 
como  Loristan  planeara.  Se  eles  fossem  homens,  provavelmente  não  se  teriam 
saído tão bem. 

Desde  que  tinham  deixado  o  velho  padre  na  encosta  da  montanha,  para 

iniciarem  a  viagem  de  regresso  à  fronteira,  pouco  falaram,  quer  caminhassem 
lado a lado ou se deitassem no musgo das florestas. Agora, que tinham acabado 
o seu trabalho, começaram a cair em si. Não era preciso fazer mais planos nem 
prever mais incertezas. Iam regressar à Praça Philibert. Cada um deles pensava 
em  imensas  coisas.  Marco  estava  cheio  de  vontade  de  ver  a  cara  do  pai  e  de 
ouvir de novo a sua voz. Queria sentir a pressão da sua mão no ombro, para ter 
a certeza de que era verdade e não um sonho. Isto, porque durante a viagem de 
regresso, tudo o que tinha acontecido parecia muitas vezes ser um sonho. Fora 
tudo tão maravilhoso: o Príncipe na varanda a olhar para a Lua; o velho padre, 
ajoelhado, a chorar de alegria; a caverna enorme com a luz amarela a iluminar 
aquela  multidão  de  rostos  emocionados.  Mas  ele  não  tinha  sonhado;  estava 
agora a recordar-se de tudo, para depois contar ao pai. 

O Rato roía as unhas, porque os seus pensamentos, mesmo sem ele querer, 

lhe assaltavam a memória e eram mais duros e agitados do que os de Marco. 

Não  valia  a  pena  tentar  controlar-se,  e  dizer  para  si  próprio  que  era  um 

louco. Agora que tudo terminara, tinha muito tempo para ser tão louco quanto 
desejasse  ser.  Ah,  como  ele  desejava  chegar  a  Londres  e  dar  de  caras  com 
Loristan!  O  sinal  fora  dado,  o  caminho  estava  aberto.  O  que  iria  acontecer  a 
seguir? Antes mesmo do comboio ter chegado à estação, já as muletas estavam 
colocadas sob os seus braços. 

- Chegámos! Chegámos! - gritava ele impacientemente para Marco. 
Como  não  era  preciso  esperar  pela  bagagem,  agarraram  nos  sacos  e 

seguiram  a  multidão  ao  longo  da  plataforma  de  desembarque.  A  chuva  batia 
contra a clarabóia de vidro, com um ruído semelhante ao disparo de balas. As 
pessoas  viravam-se  para  olhar  para  Marco,  ao  verem  o  seu  ar  radiante. 
Pensavam  que  era  um  rapaz  que  vinha  de  férias  e  que  se  preparava  para  ir 
visitar um sítio de que gostava muito. 

Quando  eles  chegaram  à  porta  da  estação,  a  água  da  chuva  alagava  os 

passeios. 

- Um táxi não deve ser muito caro - disse Marco - e, assim, chegamos mais 

depressa. 

Chamaram  um  e  entraram.  Tinham  as  faces  afogueadas  e  Marco  olhava 

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fixamente para um ponto perdido no espaço. 

-  Voltámos!  -  disse  o  Rato,  com  uma  voz  hesitante.  -  Fomos  e  viemos.  - 

Depois virou-se subitamente para Marco e disse: - Não te parece ainda mentira? 

- Sim - respondeu Marco. - Mas é verdade. Terminámos o nosso trabalho. - 

E depois de uma pausa acrescentou o que o Rato já tinha pensado antes para si 
próprio. - O que virá a seguir? 

A distância até à Praça Philibert não era grande. Quando, ao voltar de uma 

esquina,  entraram  na  rua  barulhenta,  cheia  de  movimento  de  camionetas  com 
as  suas  cargas  e  de  pessoas  com  as  suas  caras  cansadas,  em  passo  apressado, 
olharam  para  tudo  isso  com  a  sensação  de  que  o  sonho  ficara  para  trás.  Mas, 
finalmente, estavam em casa. 

Foi  muito  agradável  ver  Lazarus  abrir-lhes  a  porta  e  esperar  que  eles 

saíssem  do  táxi.  Era  tão  raro  pararem  táxis  às  portas  na  Praça  Philibert  que, 
quando  isso  acontecia,  os  moradores  acorriam  logo  para  verem  quem  era. 
Quando Lazarus viu aquele táxi parar, teve imediatamente um pressentimento 
de  quem  seria.  Tinha  andado  quase  todos  os  dias  de  volta  das  janelas,  na 
esperança  de  os  ver  chegar,  mesmo  quando  ainda  era  cedo  demais  para  isso 
poder acontecer. 

Saudou  Marco  com  ar  mais  militar  do  que  lhe  era  habitual  mas,  mesmo 

assim, com grande entusiasmo. 

- Deus seja louvado! - disse ele com grande alegria. - Deus seja louvado! 
Quando Marco lhe estendeu a mão, ele segurou-a e beijou-a com devoção, 

baixando um pouco a cabeça grisalha. 

- Deus seja louvado! - disse de novo. 
- O meu pai? - perguntou Marco. - Não está fora, pois não? 
Ele  sabia  que  se  o  pai  estivesse  em  casa,  com  certeza  que  não  ficaria 

sentado na sala sem vir ao seu encontro. 

- Quer-me acompanhar ao quarto dele, senhor? - disse Lazarus. - O senhor 

também  -  disse,  voltando-se  para  o  Rato.  Nunca  tinha  tratado  o  Rato  por 
“senhor”. 

Abriu-lhes  a  porta  que  lhes  era  tão  familiar  e  eles  entraram.  O  quarto 

estava  vazio.  Nem  Marco  nem  o  Rato  pronunciaram  uma  palavra.  Ficaram 
parados no meio do tapete já gasto, fitando o velho soldado. Tiveram ambos a 
sensação de que o chão lhes fugia debaixo dos pés. Lazarus apercebeu-se disso 
e  falou  então  rapidamente,  com  uma  voz  ligeiramente  trémula.  Estava  quase 
tão emocionado como eles. 

- Deixou-me ao vosso serviço, às vossas ordens - disse ele. 
- Deixou-te ? - perguntou Marco. 
- Ficámos os três com uma só ordem: esperar - disse Lazarus. 

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O  Rato  sentiu  as  lágrimas  virem-lhe  aos  olhos,  mas  limpou-as  antes  de 

olhar  para  Marco.  O  choque  tinha-lhe  mudado  completamente  a  expressão.  A 
alegria  desaparecera-lhe  do  rosto,  e  agora  estava  pálido  e  franzia  as 
sobrancelhas. Durante uns momentos não disse nada e, quando falou, fê-lo com 
uma voz tão calma e pausada, que o Rato percebeu logo que ele estava a tentar 
manter um grande autodomínio. 

- Se se foi embora, é porque tinha seguramente uma razão forte. Também 

ele cumpria ordens com certeza. 

- Ele disse que vocês perceberiam - respondeu Lazarus. - Foi chamado tão 

à  pressa,  que  só  teve  tempo  de  vos  escrever  algumas  palavras.  Deixou-as  em 
cima da secretária. 

Marco  dirigiu-se  à  secretária  e  abriu  o  sobrescrito  que  lá  se  encontrava. 

Eram apenas algumas linhas, escritas muito à pressa, que diziam o seguinte: “A 
minha vida pela Samávia”. 

-  Foi  chamado  para  a  Samávia  -  disse  Marco.  E  este  pensamento  fez-lhe 

correr o sangue mais depressa nas veias. - Foi para a Samávia! 

Lazarus passou a mão pela testa e disse com voz rouca: 
-  Parece  haver  grande  insatisfação  nas  hostes  de  Maranovitch.  E  o  que 

resta  do  seu  exército,  tornou-se  incontrolável.  O  silêncio  continua  a  ser  a 
palavra  de  ordem,  senhor,  mas  quem  sabe  se  não  será  este  o  momento  que 
esperamos? 

Ainda não tinha acabado de falar quando se voltou para a janela, como se 

algum  barulho  especial  lhe  tivesse  chamado  a  atenção.  De  facto,  ouviam-se 
gritos de ardinas apregoando notícias sensacionais dos jornais. 

O Rato, que já tinha ouvido antes, correra logo para a porta. Acabava de a 

abrir quando passou um ardina gritando a plenos pulmões: 

-  Extra!  Extra!  O  Rei  Michael  Maranovitch  foi  assassinado  pelos  seus 

próprios soldados! Assassinato de Maranovitch! 

Quando o Rato entrou com o jornal, Lazarus interpôs-se entre ele e Marco, 

dizendo com ar muito respeitoso: 

- Senhor, estou às vossas ordens, mas o meu amo deixou-me instruções no 

sentido de não vos deixar ler os jornais até que ele vos torne a ver. 

Os dois rapazes ficaram estupefactos. 
- Não ler os jornais! - exclamaram ambos simultaneamente. 
Lazarus nunca tinha sido tão cerimonioso. 
-  As  minhas  desculpas,  senhor  -  disse  ele.  Posso  lê-los,  se  me  ordenar,  e 

fazer-lhe um resumo das notícias que deve saber. Tem havido muitos rumores e 
muitos boatos sinistros. Por isso é que me foi pedido que não vos deixasse ler. 
Se  se  tornarem  a  ver,  isto  é,  quando  se  voltarem  a  encontrar  -  emendou  ele 

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imediatamente -, compreenderá a razão. Eu sou o vosso servo. Lerei os jornais e 
responderei a todas as perguntas que puder. 

O Rato entregou-lhe o jornal e voltaram todos outra vez para o quarto das 

traseiras. 

- Tens de dizer-nos o que é que ele gostaria que nós soubéssemos - disse 

Marco. 

E a notícia foi-lhe logo contada. A história não era muito grande, visto que 

os pormenores ainda não tinham chegado a Londres. Em resumo, sabia-se que 
o  chefe  do  partido  de  Maranovitch  tinha  sido  assassinado  por  soldados 
enfurecidos  do  seu  próprio  exército.  Era  um  exército  formado  principalmente 
por camponeses que não apreciavam os seus chefes nem pretendiam combater, 
mas  que,  por  estarem  a  sofrer  um  tratamento  brutal,  se  tinham  finalmente 
sublevado e iniciado uma revolta selvagem. 

- E a seguir? - perguntou Marco. 
-  Se  eu  fosse  Samaviano.  -  começou  o  Rato  a  dizer,  mas  parou  logo  em 

seguida. 

Lazarus ficara de pé, a morder os lábios, olhando fixamente para o tapete. 

Não só o Rato mas também Marco notaram que ele se tornara mais austero. Isso 
acontecia porque tinha imposto a si próprio uma disciplina férrea. Era como se, 
mesmo  sentindo  grande  ansiedade,  tivesse  resolvido  não  o  dar  a  entender,  o 
que  levava  a  que  o  seu  semblante  se  tornasse  rígido  e  se  formassem  vincadas 
rugas na sua testa. Foi o que cada um dos rapazes pensou, mas não ousou dizer. 
Se  ele  estava  assim  ansioso,  só  podia  ser  por  uma  razão,  e  ambos 
compreenderam  logo  qual  seria.  Loristan  partira  para  a  Samávia,  para  aquele 
país  dividido  e  torturado,  cheio  de  perigos  e  agitação.  Se  ele  tinha  partido,  só 
poderia ser porque sentira o apelo do perigo e resolvera ir enfrentá-lo, mesmo 
no seu auge. Lazarus tinha ficado para tomar conta deles. Mas não lhes podia 
contar  tudo o  que  sabia  e  que,  provavelmente,  não  seria  muito  mais  do  que  a 
hipótese de se vir a perder uma vida muito importante. 

Uma  vez  que  o  seu  amo  se  encontrava  ausente,  o  velho  soldado  parecia 

sentir-se  mais  reconfortado  por  passar  a  ter  com  Marco  uma  reverência  mais 
cerimoniosa do que dantes. Manteve-se sempre às ordens de Marco, como era 
seu  costume  com  Loristan.  Estendia  mesmo  este  serviço  cerimonioso  ao  Rato, 
achando  até  que  passara  a  ter  uma  outra  opinião  dele;  parecia-lhe  agora  ser 
uma pessoa merecedora de deferência e a quem se devia falar com dignidade e 
respeito. 

Quando o jantar foi servido, Lazarus puxou a cadeira de Loristan  para a 

cabeceira da mesa e colocou-se atrás dela com um ar majestoso. 

-  Senhor  -  disse  para  Marco  -,  o  amo  pediu  que  tomasse  o  seu  lugar  à 

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mesa, enquanto ele não estivesse. 

Marco sentou-se nesse lugar em silêncio. Às duas horas da manhã, quando 

tudo ainda estava calmo lá fora, a luz da lâmpada da rua, entrando no quarto, 
veio  iluminar  aquelas  duas  faces  pálidas.  O  Rato  sentou-se  no  sofá  que  lhe 
servia de cama, com as mãos à volta dos joelhos, como costumava fazer dantes. 
Marco  permanecia  estendido  no  duro  colchão.  Nenhum  deles  conseguira 
dormir, mas apesar disso também  não tinham falado muito. Cada um tentava 
adivinhar os pensamentos do outro. 

-  Há  uma  coisa  de  que  nos  devemos  lembrar  sempre  -  dissera  Marco  ao 

princípio da noite. - Não de vemos ter medo. 

-  Pois  não  -  respondeu  o  Rato,  quase  com  orgulho  -,  não  devemos  ter 

medo. 

-  Estamos  cansados,  voltámos  e  esperávamos  poder  contar-lhe  tudo. 

Desejámos sempre poder fazer isso. Nunca pensámos que ele se pudesse ter ido 
embora. Mas o certo é que foi. Não sentiste - disse virando-se para o sofá - como 
que um baque no peito? 

- Sim - respondeu o Rato, com ar grave -, senti. 
- Nós não estávamos preparados - disse Marco. 
-  Ele  nunca  se  tinha  ido  embora,  mas  devíamos  ter  previsto  que  alguma 

vez  podia  ser  chamado.  E  foi  realmente  o  que  aconteceu.  Disse-nos  para 
esperarmos  e  mesmo  ignorando  o  que  esperamos,  sabemos  que  não  devemos 
ter medo. 

O Rato levantou a cabeça e olhou de lado para a cama. 
- Já alguma vez pensaste - disse devagar - que talvez ele soubesse onde se 

encontrava o descendente do Príncipe Desaparecido? 

Marco respondeu ainda mais devagar. 
- Se alguém soubesse, de certeza que ele também teria conhecimento. Ele 

sabe sempre tanto! - disse. 

-  Escuta!  -  interrompeu  bruscamente  o  Rato.  Penso  que  ele  foi  para  a 

Samávia  para  “dizer”  às  pessoas.  E  se  conseguir  dizer-lhes,  todo  o  país  ficará 
louco de alegria. Não seria apenas o Partido Secreto, mas toda a Samávia que se 
levantaria e seguiria a bandeira que ele escolhesse erguer. Eles rezaram durante 
quinhentos anos pelo Príncipe Desaparecido, e se acreditassem que o tinham de 
volta,  novamente  lutariam  como  loucos  por  ele.  Mas  até  agora  não  havia 
aparecido  ninguém  por  quem  combater!  Todos  pretendiam  o  mesmo!  Se 
pudessem  ver  o  homem  com  o  sangue  de  Ivor  nas  veias,  até  pensariam  que 
tinha voltado para eles, mesmo depois de morto. Eles acreditariam nisso! - batia 
palmas  no  auge  da  excitação.  -  Chegou  a  altura!  Chegou  a  altura!  -  gritou.  - 
Ninguém podia deixar passar tal oportunidade! Ele tem de lhes dizer! Deve ter 

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sido  por  isso  que  ele  foi.  Ele  deve  ter  sabido  sempre!  -  disse  atirando-se  para 
trás, no sofá, tapando a cara com as mãos. 

- Se chegou a altura - disse Marco em voz baixa 
com certo esforço -, se for a altura e ele souber, diz-lhes com certeza. 
Ao pronunciar isto levou as mãos à cara e ficou muito quieto. 
Nenhum  deles  falou  mais.  A  luz  da  rua  entrava  pelo  quarto, 

iluminando-os, como se esperasse que algo acontecesse. Mas não sucedeu nada. 
E daí a pouco adormeceram. 

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19 
Da noite para o dia

 

 
Depois  disto,  puseram-se  à  espera.  Não  sabiam  bem  de  quê,  nem 

conseguiam mesmo prever como é que a espera terminaria. Tudo o que Lazarus 
lhes podia dizer, já o tinha dito. Por vontade dele teria estado durante horas a 
contar respeitosamente a Marco, tudo o que se tinha passado com ele e com o 
amo, durante a sua ausência. 

Sentiam  aquela  espera  tão  intensamente,  que  os  dias  passavam  sem 

qualquer outro significado. Quando se ouvia o carteiro bater à porta, todos se 
esforçavam por não começar a correr. Havia de chegar o dia em que uma carta 
viesse dizer-lhes não sabiam bem o quê. Mas não veio carta alguma. E se saíam, 
davam  consigo  a  regressar  apressados  para  casa,  mesmo  sem  quererem.  Mas 
alguma  coisa  tinha  que  acontecer.  Lazarus,  que  lia  os  jornais  todos  os  dias, 
relatava à noite para Marco e para o Rato, as notícias “que eles podiam ouvir”. 
Todavia,  a  desordem  da  Samávia  tinha  deixado  de  ocupar  tanto  espaço. 
Tornara-se  uma  história  antiga,  e  depois  de  toda  aquela  excitação  sobre  o 
assassinato de Michael Maranovitch ter passado, parecia que os acontecimentos 
tinham acalmado. O filho de Michael não ousara tomar o lugar do pai, e havia 
até rumores de que ele também tinha morrido. Iarovitch proclamara-se rei a si 
próprio, mas não tinha sido coroado por causa das desordens no interior do seu 
próprio  partido.  O  país  parecia  viver  num  pesadelo  de  sofrimento,  fome  e 
ansiedade. 

Para ajudar a passar o tempo decidiram reunir o exército e foram passar 

uma  manhã  à  “caserna”,  por  detrás  do  pátio  da  igreja.  O  grupo  de  “homens” 
armados fitou o seu comandante com uma grande e curiosa incerteza. Sentiram 
que  algo  lhe  acontecera.  Não  sabiam  o  que  fora,  mas  tinha  sido  qualquer 
experiência  que  o  tinha  tornado  diferente  e  misterioso.  Não  se  assemelhava  a 
Marco, mas ao mesmo tempo, por qualquer razão estranha, estava ainda mais 
parecido  com  ele.  A  única  coisa  que  eles  sabiam  era  que  algum  motivo  nos 
negócios  de  Loristan  os  levara,  aos  dois,  para  longe  de  Londres  e  do  “jogo”. 
Agora tinham regressado e pareciam mais velhos. 

Ao  princípio,  o  exército  sentia-se  embaraçado  e  arrastava  os  pés  com 

desconforto.  E  a  seguir  à  fase  dos  cumprimentos  não  sabiam  o  que  dizer.  Foi 
Marco quem salvou a situação. 

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- Treina-os primeiro - disse para o Rato -, depois podemos conversar sobre 

o jogo. 

-  Formar!  -  gritou  o  Rato,  com  autoridade.  Imediatamente  esqueceram 

tudo  o  resto  e  alinharam-se.  Depois  do  treino  ter  terminado,  sentaram-se  em 
círculo sobre as bandeiras rasgadas, e o jogo tornou-se ainda mais brilhante do 
que alguma vez fora. 

- Tenho tido tempo para ler e para aprender novos conceitos - disse o Rato. 

- Ler é como viajar. 

Até mesmo Marco se sentou a ouvir, encantado com a habilidade com que 

ele dava largas à imaginação. 

Sem  revelar  um  único  pormenor  que  pudesse  comprometer  a  segurança 

da missão em que tinham estado envolvidos, fez um relato tão empolgante das 
suas  viagens  e  experiências,  que  faria  inveja  a  qualquer  grupo  de  jovens  com 
espírito aventureiro. 

Podia  descrever  à  vontade  as  pessoas  e  lugares  sem  perigo  de 

inconfidências, e descreveu-os de tal maneira que o exército no auge do prazer 
já se sentia a marchar num desfile, esperando o Imperador em Viena; perfilado 
em frente dos palácios; subindo estradas em montanhas íngremes com mochilas 
bem  apertadas;  defendendo  fortalezas  situadas  nas  montanhas;  atacando 
castelos samavianos. O exército exultava de alegria. O Rato também vibrava de 
satisfação.  Marco  observava  com  admiração  a  sua  face  de  traços  irregulares  e 
olhos  brilhantes.  Este  estranho  poder  de  tornar  as  coisas  vivas  era,  como  ele 
sabia, aquilo a que o seu pai chamaria de “génio”. 

Quando  Marco  e  o  Rato  os  deixaram,  puseram-se  primeiro  em  sentido  e 

depois terminaram com um grito de saudação. 

Ao  chegarem  a  casa,  aconteceu  exactamente  o  mesmo  que  no  dia  do  seu 

regresso da viagem. Começou a ouvir-se lá fora, na rua, o barulho dos ardinas a 
gritar.  Desta  vez  os  gritos  pareciam  ainda  mais  excitados  do  que  antes.  Os 
ardinas  corriam  e  gritavam  e  pareciam  ser  ainda  em  maior  número  que  o 
habitual. E, além de outras palavras, ouvia-se: “Samávia! Samávia!”. Mas, desta 
vez, o Rato não se precipitou para a porta logo ao primeiro grito. Foi Lazarus o 
primeiro a sair da sala, e logo o Rato e Marco o seguiram. 

Um dos inquilinos de cima tinha saído a correr para ir comprar jornais e 

fazer  perguntas.  Os  rapazes  dos  jornais  estavam  no  auge  da  excitação  e 
dançavam ao mesmo tempo que gritavam. A notícia que eles apregoavam tinha 
evidentemente um cariz popular. 

O inquilino comprou dois jornais e deu uma gorjeta a um rapaz que falava 

muito alto. 

-  Aqui  vai!  -  dizia  ele.  -  Surgiu  um  tal  Partido  Secreto  e  conquistou  a 

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Samávia!  Fizeram-no  da  noite  para  o  dia!  E  parece  que  o  descendente  do 
Príncipe Desaparecido apareceu e eles o coroaram; fizeram isso da noite para o 
dia! Colocaram a coroa na sua cabeça, assim sem perderem tempo - e retirou-se 
a gritar: O Descendente do Príncipe Desaparecido! O Descendente do Príncipe 
Desaparecido feito Rei da Samávia! 

Foi então que Lazarus, esquecendo-se de toda a cerimónia, deu um salto e 

voltou para a sala, fechando a porta atrás dele. 

Marco  e  o  Rato  encontraram-na  fechada,  quando  depois  de  terem 

comprado  um  jornal,  voltaram  a  entrar  no  corredor.  No  interior  da  sala 
ouviam-se  soluços  convulsivos,  palavras  ardorosas  em  samaviano,  e  orações 
mostrando gratidão. 

- Vamos esperar aqui - disse Marco, tremendo um pouco. - Ele não deve 

querer que ninguém o veja. 

- Marco! Marco! - murmurou em forma de grito. 
- Foi por isso que ele foi para lá. Porque ele sabia! 
- Sim - respondeu Marco -, foi por isso que ele foi. - E ao dizer isto, a sua 

voz tremia tal como todo o seu corpo. 

Nessa  altura  Marco  deu  a  volta  ao  puxador  da  porta,  entrou  no  quarto, 

fechou a porta atrás de si e ficaram ali, os três juntos. 

Quando  um  Samaviano  dá  largas  à  sua  emoção,  fica  realmente  muito 

exaltado. Lazarus tinha o aspecto de quem passou por uma tempestade. Tinha 
controlado os soluços, mas as lágrimas ainda lhe corriam pela cara.   

- Senhor - disse com a voz rouca - peço perdão! Foi como se tivesse sido 

tomado por convulsões. 

Esqueci  tudo,  até  mesmo  o  meu  dever.  Perdão,  mil  vezes  perdão  -  e  ali, 

naquele tapete já gasto na sala de  estar  situada  nas  traseiras  da  Marylebone 
Road, dobrou um joelho até ao chão e beijou a mão do rapaz com adoração.  

- Não tens de pedir perdão - disse Marco. – Já esperaste tanto, meu bom 

amigo. Dedicaste toda a tua vida, tal qual o meu pai.... - a voz embargou-se-lhe 
e ficou a olhar para ele como que pedindo-lhe que se lembrasse da sua infância 
e  compreendesse  o  resto.  Não  te  ajoelhes  -  disse  a  seguir.  -  Não  te  deves 
ajoelhar. 

E Lazarus, beijando-lhe a mão novamente, levantou-se. 
- Agora, vamos saber! - disse Marco. - A espera vai acabar em breve. 
- Pois, senhor, agora vamos receber ordens! - respondeu Lazarus. 
O Rato pegou nos jornais e perguntou: 
- Já os podemos ler? 
-  Até  novas  ordens,  senhor  -  disse  Lazarus  precipitando-se  como  que 

pedindo desculpa -, talvez seja melhor que eu os leia primeiro. 

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20 
O jogo chegou ao fim

 

 
Enquanto  a  história  da  Europa  for  escrita  e  lida,  a  revelação  ímpar  do 

aparecimento  do  Partido  Secreto  na  Samávia  deve  destacar-se  como  um  dos 
seus  factos  mais  surpreendentes  e  românticos.  Mesmo  só  um  resumo  pode 
esclarecer sobre o crescimento do Partido Secreto - embora pareça quase deixar 
de  ser  um  conto,  ao  relatar  que  a  passagem  do  sinal  fora  entregue  a  dois 
rapazes, lançados através da Europa como se fossem dois insignificantes grãos 
de pó, mas que, no entanto, acenderam a luz, cuja chama tanto se alastrou e fez 
aparecer  milhares  de  Samavianos  prontos  para  a  alimentar.  Iarovitch  e 
Maranovitch  foram  afastados  para  sempre,  e  só  ficaram  Samavianos  para 
agradecer  bem  alto,  em  preces  ardentes,  e  adorar  o  Deus  que  lhes  tinha 
devolvido  o  seu  Príncipe  Desaparecido.  Todas  as  batalhas  tinham  cessado  ao 
ouvir-se gritar o seu nome. As espadas foram postas de lado, por já não serem 
precisas.  Iarovitch  fugiu  aterrorizado;  quanto  a  Maranovitch,  desapareceu  e 
nunca mais foi encontrado. Da noite para o dia, como dizia o rapaz dos jornais, 
o estandarte de Ivor foi içado e ondulava nos palácios e nas cidadelas. Os seus 
seguidores, vindos das montanhas, florestas, planícies, quer fossem da capital, 
da  cidade,  da  vila  ou  da  aldeia,  reuniram-se  para  prestar  obediência; 
seguiam-nos  mulheres  e  crianças,  chorando  de  alegria  e  entoando  hinos  de 
louvor.  Os  Governos  reconheceram  de  novo  o  velho  país  anteriormente 
prostrado e ignorado. Começavam a atravessar a fronteira comboios carregados 
de  comida  e  fornecimentos  de  todas  as  coisas  necessárias;  foi  concedida  ajuda 
de outras nações. A história da coroação do Rei tinha sido a mais fantástica de 
todas. 

“A  história  da  destruição  na  catedral  destruída,  cujo  telhado  tinha  sido 

estilhaçado  por  fragmentos  de  bombas”,  segundo  disse  um  importante  jornal 
londrino “pode entender-se como uma lenda da Idade Média. Há ainda algo de 
medieval no carácter nacional da Samávia. “ 

Passou-se o dia seguinte, e outro ainda, até que chegou uma carta. Vinha 

da  parte  de  Loristan,  e  Marco  ficou  pálido  quando  Lazarus  lha  entregou. 
Lazarus  e  o  Rato  saíram  imediatamente  da  sala,  deixando-o  só,  a  ler  a  carta. 
Não era certamente uma carta longa, porque passados alguns minutos, Marco 
chamou-os para entrarem de novo na sala. 

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- Dentro de dias, mensageiros amigos do meu pai, virão buscar-nos para 

nos levarem para a Samávia. Vamos todos: tu, eu e Lazarus - disse para o Rato. 

- Deus seja louvado! Deus seja louvado! 
O  fim  de  semana  chegou  antes  dos  mensageiros  aparecerem.  Lazarus 

tinha feito uma trouxa com os seus poucos haveres e, no sábado, quando Marco 
e  o  Rato  saíram  da  sala,  Mrs.  Beedle,  a  senhoria,  andava  de  um  lado  para  o 
outro no cimo das escadas da cave. 

- Jovem senhor Loristan, gostava de saber se já ouviu dizer quando é que o 

seu pai volta? 

- Ele não volta - disse Marco. 
-  Não  volta,  pois  não?  Então  e  a renda  da  próxima  semana?  -  perguntou 

Mrs. Beedle. - Reparei que o seu criado tem estado a arrumar tudo. Ele não tem 
muito para levar, mas não passará aquela porta da rua, até eu receber o que me 
devem.  As  pessoas  que  fazem  as  malas  depressa,  pensam  que  também  se 
podem  ir  embora  facilmente,  sem  ninguém  dar  por  isso.  A  semana  termina 
hoje. 

Lazarus virou-se e encarou-a com um gesto furioso. 
-  Mulher,  volta  para  a  tua  cave  -  ordenou.  Volta  lá  para  baixo  e  fica  lá. 

Olha só para o que está a parar diante do teu portão miserável! 

Acabava de parar uma magnífica carruagem castanha-escura. O cocheiro e 

o lacaio vestiam também de castanho escuro, com librés em dourado, e o lacaio 
tinha saltado para o chão e abria a porta com entusiasmo e respeito. 

- Eles são amigos do meu amo e vêm prestar cumprimentos ao seu filho - 

disse Lazarus. - Terão os seus olhos de suportar a tua presença? 

- Não há problema com o dinheiro - disse Marco. 
- É melhor agora deixar-nos. 
Mrs. Beedle lançou um olhar curioso para os dois cavalheiros que tinham 

entrado  pelo  desconjuntado  portão.  Eram  pessoas  de  uma  categoria  que  não 
pertencia à Praça Philibert. Tinham o ar de quem está habituado a andar todos 
os dias de carruagem, acompanhado dos seus lacaios de libré.  

 

Os dois visitantes tinham passado o limiar da porta.  Eram ambos homens 

de grande dignidade e, por isso, quando Lazarus abriu a porta de par em par, 
eles entraram para aquele átrio miserável como se não  tivessem  reparado  nele. 
Atravessaram toda aquela  imundície, e passaram por Lazarus, pelo Rato e por 
Mrs. Beedle, por assim dizer, “através deles”, para se  dirigirem  directamente  a 
Marco. Este também avançou para eles imediatamente. 

- Vêm da parte do meu pai - disse ele, estendendo a mão primeiro ao mais 

velho e depois ao mais novo. 

- Sim, vimos da parte do seu pai. Eu sou o Barão Rastka e ele é o Conde 

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Vorversk - disse o mais velho, curvando-se. 

-  Se  eles  são  barões  e  condes,  amigos  do  seu  pai,  bem  podem  ser 

responsáveis por si - disse Mrs. Beedle, dum modo bastante agressivo, que era 
consequência  do  seu  ligeiro  amedrontamento.  -  É  por  causa  da  renda  da 
próxima semana, meus senhores. Quero saber quem a paga. 

O  homem  mais  velho  olhou  para  ela  com  um  olhar  frio  e  rápido.  E  não 

falou com ela, mas para Lazarus. 

- O que faz ela aqui? - perguntou. 
Marco respondeu-lhe. 
- Ela tem medo que nós não possamos pagar-lhe a renda - disse. - É muito 

importante para ela ter a certeza que a recebe. 

-  Leve-a  daqui  -  disse  o  cavalheiro  para  Lazarus,  sem  sequer  olhar  para 

ela.  Tirou  qualquer  coisa  do  bolso  do  casaco  e  entregou-a  ao  velho  soldado. 
Leve-a  daqui  -  repetiu  ele.  E  reduzida  à  sua  insignificância,  Mrs.  Beedle 
desapareceu pela passagem que dava para os degraus da cozinha, na cave. 

Quando um grupo constituído por dois rapazes escoltados por um criado 

militar,  acompanhado  de  dois  homens  mais  velhos  com  boa  aparência  e  com 
tipo de estrangeiros, apareceu na plataforma da estação de Charing Cross, com 
certeza que atraiu todas as atenções. Na verdade, a boa aparência e o facto do 
bonito rapaz ter um corpo forte e bem constituído, além de uma farta cabeleira 
escura,  devia  atrair  os  olhares  para  ele,  mesmo  se  para  aqueles  que  estavam 
com ele não fosse nada de especial. 

Lazarus procedia como um granadeiro, e acompanhava Marco como se só 

deixasse alguém aproximar-se dele por cima do seu cadáver. 

- Até chegarmos a Melzarr - disse com ardor para os dois cavalheiros -, até 

estar perante o meu amo, imploro que me seja possível tomar conta dele dia e 
noite. Peço que me permitam viajar armado, sempre ao seu lado. Mas, como seu 
criado, não tenho o direito de ocupar um lugar na mesma carruagem e por isso 
podem pôr-me onde quiserem. Serei cego surdo e mudo para todos menos para 
ele. Só peço que me permitam estar suficientemente perto dele para poder dar 
até  a  minha  própria  vida,  se  tal  for  preciso.  Deixai  que  possa  afirmar  para  o 
meu amo: “eu nunca o deixei”. 

- Vamos tentar descobrir um lugar para si - disse o homem mais velho. - E 

se está assim tão ansioso pode mesmo dormir na soleira da porta, enquanto nós 
passamos a noite num hotel. 

- Não vou dormir! - disse Lazarus. - Vou ficar à espreita. Suponha que há 

por aí pela Europa demónios de Maranovitch perdidos e furiosos? Quem sabe! 

-  Maranovitch  e  Iarovitch  morreram  nos  campos  de  batalha  sem  terem 

prestado  vassalagem  ao  rei  Ivor.  Os  que  ficaram,  são  agora  por Fedorovitch  e 

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rezam a Deus pelo seu Rei - foi a resposta que o Barão Rastka lhe deu. 

Mas  Lazarus  mesmo  assim  não  afrouxou  a  sua  atenção.  Na  viagem, 

quando  ocupava  o  compartimento  ao  lado  daquele  em  que  Marco  viajava, 
permanecia de pé no corredor sempre a vigiar. 

Se  a  viagem  dos  jovens  portadores  do  sinal  tinha  sido  estranha,  esta 

também  o  era  pelo  contraste  que  fazia.  Desta  vez  eram  dois  rapazes  bem 
vestidos  que  iam  acompanhados  por  dois  cavalheiros  de  classe,  viajando  em 
compartimentos  reservados  e  com  todo  o  conforto  que  o  luxo  pode 
proporcionar. 

Na  noite  anterior  à  chegada  a  Melzarr,  dormiram  numa  cidade  a  pouca 

distância  da  capital.  Chegaram  à  meia-noite  e  foram  logo  para  um  hotel 
sossegado. 

- Amanhã! - disse Marco quando se despediu do Rato ao deitar. - Amanhã 

vamos finalmente vê-lo, Deus seja louvado! 

-  Deus  seja  louvado!  -  disse  também  o  Rato.  E  depois  despediram-se  um 

do outro. 

De manhã, Lazarus entrou no quarto com um ar tão solene que até parecia 

que as roupas que trazia nas mãos faziam parte de alguma cerimónia religiosa. 

- Estou às suas ordens, senhor - disse. - Trago-lhe o seu uniforme. 
De facto, trazia um uniforme samaviano ricamente decorado, e a primeira 

coisa  que  Marco  notou,  quando  ele  entrou  foi  que,  também  ele,  vestia  um 
uniforme. Era um uniforme de um oficial da Guarda Real. 

- O meu amo - disse -, pede que vista isto ao entrar em Melzarr. Também 

tenho um uniforme para o seu ajudante de campo. 

Quando Rastka e Vorversk apareceram, também vinham de uniforme. Era 

um uniforme que tinha um to que oriental, no seu esplendor. Um manto curto, 
debruado a pele, pendia dos ombros, preso por uma corrente de grande valor, 
sendo todo o resto bordado em várias cores e a ouro. 

-  Senhor,  temos  de  ir  rapidamente  para  a  estação  -  disse  o  Barão  Rastka 

para Marco. - Estas pessoas são muito excitáveis e patrióticas e Sua Majestade 
deseja  que  permaneçamos  incógnitos  e  evitemos  qualquer  oportunidade  de 
demonstração pública até que cheguemos à capital. 

Saíram à pressa do hotel e foram para uma carruagem que já estava à sua 

espera.  O  Rato  notou  que  qualquer  coisa  fora  de  vulgar  se  estava  a  passar. 
Criados a espreitarem às esquinas dos corredores e hóspedes a saírem dos seus 
quartos e mesmo a debruçarem-se na balaustrada. 

Quando Marco entrou para a carruagem viu um rapaz mais ou menos da 

sua  idade  a  espreitar  atrás  de  um  arbusto;  de  repente  desatou  a  correr  tão 
depressa  quanto  as  pernas  lhe  permitiam,  aparentemente  com  a  intenção  de 

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chegar à estação ao mesmo tempo que eles. 

Mas os cavalos eram mais rápidos. Assim que o grupo chegou à estação, 

foi  imediatamente  conduzido  para  uma  carruagem-salão  especial.  Quando  o 
comboio ia a sair da estação, Marco viu o rapaz, que tinha corrido à frente deles, 
dirigir-se para a plataforma, acenando com os braços e a gritar qualquer coisa 
num grande delírio. As pessoas que estavam ao pé viraram-se para ele e logo a 
seguir tiraram os seus bonés lançando-os ao ar e começaram também a gritar, 
não sendo todavia possível ouvir o que diziam. 

- Chegámos mesmo a tempo - disse Vorversk e o Barão Rastka concordou, 

acenando com a cabeça. 

O comboio partiu e só pararam uma vez antes de chegarem a Melzarr. Foi 

numa  pequena  estação,  em  cuja  plataforma  se  encontravam  pessoas  com 
grandes cestos de coroas de flores e ramos de sempre-vivas. Colocaram- nos no 
comboio  e  pouco  depois  tanto  Marco  como  o  Rato  notaram  que  algo  fora  do 
normal se estava a passar. Ao mesmo tempo podia ver-se um homem de pé na 
estreita  parte  de  fora  da  plataforma  a  segurar  coroas  de  flores  e  entregando 
bandeiras aos homens que trabalhavam no telhado. 

-  Estão  a  fazer  qualquer  coisa  com  bandeiras  samavianas  e  uma 

quantidade de flores e coisas verdes! - gritou o Rato muito excitado. 

-  Senhor,  eles  estão  a  decorar  a  parte  de  fora  da  carruagem  -  disse 

Vorversk.  -  Os  aldeãos  que  moram  nesta  linha  tiveram  licença  de  Sua 
Majestade. O filho de Stefan Loristan não podia passar pelas suas casas sem que 
lhe prestassem homenagem. 

-  Compreendo  -  disse  Marco,  com  o  coração  a  bater  forte  contra  o 

uniforme. - É por causa do meu pai. 

Por  fim,  o  comboio  todo  coberto  com  folhagem,  engalanado  e  com 

bandeiras a esvoaçar, chegou à estação principal de Melzarr. 

- Senhor - disse Rastka, quando eles iam a chegar -, é melhor levantar-se 

para  que  as  pessoas  o  possam  ver  bem.  Os  que  estão  por  detrás  da  multidão, 
vão  ficar  só  com  uma  breve  visão,  mas  será  suficiente  e  nunca  mais  a 
esquecerão. 

Marco levantou-se. Os outros agruparam-se atrás dele. Ouviu-se um ruído 

de  vozes,  que  terminou  como  que  num  grito  de  alegria  que  mais  parecia  o 
estrondo do desencadear de uma tempestade. A seguir irrompeu o som forte de 
instrumentos metálicos tocando o hino nacional da Samávia, a que se juntaram 
vozes entusiasmadas. 

Se  Marco  não  fosse  um  rapaz  bastante  treinado  no  autocontrolo,  podia 

ter-se  perturbado  com  o  desenrolar  dos  acontecimentos.  Quando  o  comboio 
parou finalmente e a porta foi aberta, até mesmo a voz digna de Rastka parecia 

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insegura ao dizer: 

- Senhor, queira abrir o caminho, para nós o seguirmos. 
E  Marco,  muito  direito  à  entrada  da  porta,  ficou  por  momentos  a  olhar 

para  aquela  multidão  barulhenta,  aclamadora,  que  cantava,  chorava  e  o 
saudava  tal  como  ele  próprio  tinha  saudado  o  exército,  parecendo 
simultaneamente  um  rapaz  e  um  homem,  mas,  mais  ainda,  um  jovem  ser 
humano emocionado. 

Então, de repente, ao vê-lo ali daquela maneira, a multidão enlouqueceu, 

tal como também tinha acontecido com os Forjadores da Espada naquela noite 
na  caverna.  O  tumulto  foi  aumentando,  a  multidão  agitava-se  e  avançava  no 
auge da sua emoção, ameaçando mesmo esmagá-lo até à morte. Mas as filas de 
soldados não davam qualquer hipótese de que alguém chegasse perto dele. 

“Sou o filho de Stefan Loristan”, disse Marco para si próprio, a fim de se 

manter seguro. “E vou ter com o meu pai. “ 

Daí a pouco, passando através de uma fila de soldados da guarda, estava 

já a dirigir-se para a entrada, onde se encontravam duas enormes carruagens da 
corte;  e  onde,  do  lado  de  fora,  esperava  uma  multidão  ainda  maior  e  mais 
delirante  do  que  a  que  tinham  deixado  anteriormente.  Ali  tornou  a  saudar, 
repetidamente,  para  todos  os  lados.  Era  o  que  eles  tinham  visto  o  Imperador 
fazer em Viena. Ele não era um Imperador, mas era o filho de Stefan Loristan, 
que tinha trazido o Rei de volta. 

-  Tu  também  deves  saudá-los  -  disse  para  o  Rato,  quando  entraram  na 

carruagem da corte. - Talvez o meu pai lhes tenha dito alguma coisa. Parece que 
eles já te conhecem. 

O  Rato  tinha-se  sentado  ao  lado  dele  na  carruagem,  e  estremecia 

interiormente  com  um  arrebatamento  de  alegria  que  ao  mesmo  tempo  se 
assemelhava  a  angústia.  As  pessoas  olhavam  e  gritavam  para  ele,  ou  pelo 
menos era o que lhe parecia, quando vislumbrava as suas caras mais de perto 
no meio de toda aquela multidão. Talvez Loristan.... 

- Escuta! - disse Marco de repente, à medida que a carruagem prosseguia o 

seu  caminho.  -  Eles  estão  a  dirigir-se-nos  em  samaviano:  “Os  portadores  do 
sinal!”. É o que eles estão a dizer agora: “Os portadores do sinal “. 

Eles  estavam  a  ser  conduzidos  para  o  palácio.  Isso  já  o  Barão  Rastka  e  o 

Conde Vorversk tinham explicado no comboio. Sua Majestade queria recebê-los 
e Stefan Loristan estava lá também. 

A  cidade,  outrora,  tinha  sido  nobre  e  majestosa.  Tinha  qualquer  coisa  de 

oriental,  tal  como  os  uniformes  e  os  trajes  nacionais.  Havia  construções 
abobadadas, com pilares de pedra branca e mármore, e igrejas, além de grandes 
arcos  e  portões  enormes,  às  suas  portas.  Mas  muitos  deles  estavam  meio  em 

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ruínas,  devido  à  guerra,  à  negligência  e  à  decadência.  Passaram  pela  catedral, 
meio  destelhada,  brilhando  ao  sol  no  meio  da  grande  praça  e  que,  apesar  de 
todo aquele desastre, era ainda uma das mais bonitas de toda a Europa. 

O  palácio  era  tão  imponente,  à  sua  maneira,  como  a  branca  catedral.  Os 

larguíssimos  degraus  de  pedra  estavam  ladeados  por  soldados,  e  a  enorme 
praça,  em  que  se  situava,  estava  cheia  de  pessoas,  que  os  soldados  tentavam 
controlar. 

“Sou seu filho”, dizia Marco para si próprio, ao descer da carruagem real e 

ao encaminhar-se para os degraus, que lhe pareciam tão largos que eram quase 
como uma rua. E lá subiu ele, degrau a degrau, com o Rato sempre atrás dele. À 
medida  que  se  ia  voltando  para  um  e  outro  lado  para  saudar  aqueles  que  lhe 
faziam  reverência  quando  ele  passava,  começou  a  perceber  que  já  tinha  visto 
anteriormente as suas caras. 

-  Estes,  que  estão  na  guarda  de  honra  da  escadaria  -  disse  rapidamente, 

sustendo a respiração, para o Rato -, são os Forjadores da Espada! 

Quando  ele  entrou  no  palácio,  viu  ricos  uniformes  por  todo  o  lado  e 

pessoas que se curvavam quase até ao chão quando ele passava. Ele era ainda 
muito  jovem  para  se  ver  confrontado  com  uma  tal  cerimónia  real;  esperava 
todavia que ela não fosse muito longa e que, depois de se ter ajoelhado aos pés 
do Rei e beijado a sua mão, pudesse ver o seu pai e ouvir a sua voz. 

Foi conduzido por fim, depois de ter passado por 

 

corredores  abobadados,  às  portas  de  uma  sala  magnífica,  que  estavam 

abertas  de  par  em  par.  Quando  entrou  pareceu-lhe  ter  à  sua  frente  um  longo 
corredor  de  que  não  via  o  fim.  À  medida  que  ia  avançando  em  direcção  ao 
estrado  adornado,  pôde  ver  muitas  pessoas  ricamente  vestidas,  dispostas  em 
fila. Sentia-se empalidecer com o esforço de toda aquela excitação, e começava a 
achar que tudo se estava a passar num sonho, quando as pessoas colocadas de 
um  e  outro  lado  se  inclinavam  profundamente  e  lhe  faziam  reverências  quase 
até ao chão. 

Apercebeu-se  vagamente  de  que  o  próprio  Rei,  de  pé,  aguardava  a  sua 

chegada.  Mas,  à  medida  que  avançava  e  mais  perto  se  encontrava  do  trono, 
cada  vez  se  sentia  mais  aturdido  com  toda  aquela  grandeza  e  esplendor.  As 
aclamações e alegria da população, que se ouvia de fora do palácio, fizeram-no 
sentir  tal  deslumbramento  que  mal  conseguia  distinguir  as  caras  das  pessoas 
por quem passava. 

- Sua Majestade espera por si - disse uma voz nas suas costas, que parecia 

ser a do Barão Rastka. – Vai desmaiar, senhor? Está muito pálido. 

Ele  controlou-se  e  levantou  os  olhos.  E  nesse  mesmo  momento,  ao 

erguê-los de novo, encontrou-se na presença do Rei. Ajoelhou-se imediatamente 

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e  beijou  as  mãos  que  se  estendiam  para  ele,  com  todo  o  ardor  e  adoração 
próprios de um adolescente.  

 

E  então,  maravilha  das  maravilhas,  os  olhos  do  Rei  eram  afinal  aqueles 

que  ele  tão  ardentemente  tinha  desejado  ver  quando  estava  em  Londres  à 
espera  de ordens;  as mãos  do  Rei  eram  as que  ele  tantas  vezes tinha  desejado 
sentir no seu ombro durante essa espera. 

O Rei era afinal o seu pai! Stefan Loristan, que tinha sido o último dos que 

esperaram e trabalharam pela Samávia durante quinhentos anos; o último dos 
que tinham nascido reis, mas que nunca reinaram. O seu pai era o Rei! 

O relato da história não ficou completo naquela noite, nem nas que se lhe 

seguiram.  As  pessoas  sabiam  que  o  Rei  e  o  seu  filho  estavam  ligados  por 
grandes laços de uma afeição forte e sentida, e que a esta se vinha juntar o amor 
que sentiam pelo seu povo. 

Tudo o que se sabia da história, foi contado e recontado milhares de vezes, 

quer em cabanas, à lareira nas montanhas, ou nos campos e nas florestas, sob as 
estrelas. 

Mas  ninguém  sabia  exactamente  como  ela  foi  contada  num  certo  quarto 

real, mas sossegado, do palácio. 

A  história  que  relata  todas  as  atribulações  relativas  à  divulgação  do 

perigoso segredo apenas às pessoas certas, era emocionante e maravilhosa. De 
todos os que sabiam que havia um patriota que trabalhava a favor da Samávia, 
utilizando  todo  o  seu  poder  de  persuasão  e  inteligência  para  conseguir  obter 
amigos para esta nação infeliz, apenas um sempre soubera que Stefan Loristan 
era um pretendente ao trono que, no entanto, nunca fizera qualquer exigência: 
ele não queria a coroa, mas sim a libertação final do seu país. 

- Não era a coroa! - disse ele aos dois jovens portadores do sinal. - Não era 

o  trono,  mas  a  vida  da  minha  vida  pela  Samávia.  Foi  por  isso  que  eu  lutei,  e 
pelo  que  nós  todos  trabalhámos.  Se  tivesse  aparecido  um  homem  inteligente 
nos tempos de crise da Samávia, não seria eu que lhe iria lembrar que havia um 
Príncipe  Desaparecido.  Ter-me-ia  posto  de  parte.  Mas  não  apareceu  ninguém 
assim.  E  quando  o  momento  crucial  chegou,  o  único  homem  que  sabia  o 
segredo, revelou-o. Então a Samávia chamou-me e eu respondi. 

E dizendo isto pousou a sua mão na farta e escura cabeleira do filho. 
- Houve uma coisa de que nunca falámos - disse ele. - Sempre pensei que a 

tua  mãe  morreu  por  causa  das  suas  grandes  preocupações  a  meu  respeito,  e 
pelo esforço que fazia para as não mostrar. Ela era nova e adorável e sabia que 
não havia dia nenhum em que nos separássemos, que tivéssemos a certeza de 
que nos tornaríamos a ver, ainda com vida. Quando ela morreu, pediu-me que 
lhe  prometesse  que  a  tua  infância  e  juventude  não  seriam  atormentadas  pelo 

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conhecimento  do  que  ela  achou  ser  tão  terrível  de  suportar.  Eu  ter-te-  ia,  de 
qualquer modo, ocultado o segredo, mesmo que ela não mo tivesse implorado. 
Nunca quis que soubesses a verdade, até seres homem. Se por acaso eu tivesse 
morrido, ser-te-ia entregue um documento que deixaria o meu trabalho nas tuas 
mãos  e  que  te  teria  esclarecido  acerca  dos  meus  planos.  Terias  sabido,  então, 
que também tu eras um Príncipe Ivor, que devias tomar a teu cargo o teu país e 
estar  preparado  para  quando  a  Samávia  te  chamasse.  Tentei  treinar-te  para 
poderes desempenhar qualquer tarefa. Nunca me desiludiste. 

-  Majestade  -  disse  o  Rato  -,  eu  comecei  a  perceber,  e  acho  que  soube  a 

verdade  naquela  noite  em  que  estivemos  com  a  mulher  velha  no  cimo  da 
montanha. Foi a maneira como ela olhou para Sua Alteza. 

- Chama-me Marco - emendou o Príncipe Ivor. 
-  É  mais  fácil.  Ele  foi  o  meu  exército,  pai.  Os  olhos  profundos  de  Stefan 

Loristan ficaram cheios de lágrimas. 

- Chama-o pelo  seu nome - disse ele. - Foste o seu exército e muito mais 

quando foi preciso. Foste tu que inventaste o jogo! 

- Muito obrigado, Majestade - disse o Rato. - Presta-me uma grande honra! 

A  minha  cabeça  estava  sempre  a  trabalhar  para  que  não  houvesse  nada  que 
pudesse acontecer sem ser na altura exacta. Quando descemos à caverna e vi os 
Forjadores da Espada lançarem-se como loucos sobre ele, soube então que devia 
ser verdade. Mas não ousei dizer nada. Sabia que Vossa Majestade queria que 
esperássemos, e assim fiz, esperei. 

- Tu és um amigo fiel - disse o Rei - e obedeceste sempre a todas as ordens! 
A  luz  clara  daquela  noite  conduziu-os  a  uma  larga  varanda  de  mármore 

branco  que  parecia  neve.  A  intensidade  radiosa  da  Lua  cheia  iluminava  tudo 
que se estendia para lá da sua vista, a cidade maravilhosa, mas meio destruída, 
a praça do enorme palácio com os seus arcos e estátuas partidas, a catedral sem 
telhado, cujo altar se encontrava aberto para o céu. . . 

Ali  ficaram  a  olhar  tudo  isso.  Havia  uma  tal  calma  que  parecia  que  o 

tempo tinha parado. 

- E agora? - perguntou o Príncipe Ivor por fim e em voz baixa. - E agora, 

pai? 

- Grandes coisas vão acontecer, mas cada uma por sua vez - disse o Rei. - 

Assim estejamos preparados! 

 
Fim 
 
 
 

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