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Título: Eterno Desencontro. 
Autor: Flora Kidd 
Título original: Beloved Deceiver. 
Dados da edição: Editora Nova Cultural, São Paulo, 1988. 
Género: romance. 
Digitalização: Dores Cunha. 
Correcção: Edith Suli. 
Estado da obra: corrigida. 
Numeração de página: rodapé. 
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à 
leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de 
direitos de autor, 
este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em 
parte, ainda que gratuitamente. 
 
Contracapa: Uma noite de mágica paixão, e um triste despertar... 
O sol já brilhava no céu azulclaro quando Glenda acordou na varanda da 
casa de praia. Ela se sentia ótima, nas nuvens... depois da excêntrica 
noite de amor vivida 
ali mesmo, na rede, que ainda balançava, discreta e harmoniosa... 
Toda essa felicidade dissipou-se como por encanto, ao descobrir que não 
se entregara ao homem Pelo qual se apaixonara Perdidamente, mas, 
sim, ao irmão gémeo dele 
(fim da contracapa)! 
 
Copyright: Flora Kidd 
Título original: Beloved Deceiver Publicado originalmente em 1987 pela 
Mills Boon L t da., Londres, Inglaterra 
Tradução: Aníbal Mari 
Copyright para a língua portuguesa: 1988 
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. 
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar CEP 01452 — São Paulo — 
SP — Brasil 
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda e impressa na 
Divisão Gráfica da Editora Abril S.A. 
 

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CAPÍTULO I 
 
Glenda  Thompson  parou  diante  de  uma  barraca,  entre  as  muitas 

enfileiradas  ao  longo  da  entrada  do  moderno  prédio  que  abrigava  o 
mercado,  em  Puerto  Plata.  Sobre  a  mesa,  forrada  com  uma  toalha 
branca,  havia  uma  grande  variedade  de  brincos  e  colares  em  prata  e 
âmbar.  Tomando  uma  das  peças  em  suas  mãos,  ela  a  examinava 
atentamente. 

Grande  número  de  pessoas  passava  pelo  local,  algumas 

esbarrando  em  Glenda,  que  concentrava  toda  a  atenção  no  brinco  de 
âmbar.  O  barulho  de  tantas  vozes  juntas  a  ensurdecia,  e  ela  teve  de 
inclinar-se  para  perto  da  proprietária  da  barraca  de  jóias,  uma  mulher 
roliça,  de  pele  e  olhos escuros,  a fim de poder  ouvi-la  dizer  o  preço  do 
brinco em pesos. 

Mentalmente, converteu o referido valor para dólares canadenses. 

Vinte dólares ao todo, pensou. Ficou em dúvida se deveria pechinchar o 
preço com a dona da barraca. 

Com  a  jóia  presa  por  entre  os  dedos,  soergueu-a,  dando  uns 

passos para trás para ver melhor o âmbar refletido contra o facho de luz 
que entrava pelo pórtico do mercado. 

A  denominação  "pedra  candente"  dada  ao  âmbar  era  bastante 

apropriada,  concluiu.  Não  só  podia  realmente  ser  queimado,  visto  se 
tratar  de  uma  resina  fóssil,  como  também  parecia  arder  em  chamas 
quando a luz era refletida através dele. 

Nisso,  um  certo  movimento  no  meio  da  lenta  massa  de 

compradores desviou Glenda de seus pensamentos. Ao erguer os olhos, 
ela  avistou  um  homem  que  estava  tentando  encontrar  desde  que 
chegara  à  República  Dominicana.  Era  alto,  usava  calças  folgada  e  uma 
camisa branca trabalhada com um belo bordado nas laterais. Os cabelos 
eram  grisalhos,  enrolando-se  em  densos  caracóis,  e  contrastavam 
estranhamente com o bronzeado da pele. Fora pela cor dos cabelos que 
ela o reconhecera. Era ele mesmo: César Estrada. 

Determinada a segui-lo, agora que finalmente o localiza- 
Glenda deixou cair os brincos sobre a mesa, pendurou as alças de 

sua  sacola  de  compras,  de  lona,  no  ombro  e,  sem  ouvir  os  apelos 
veementes  da  vendedora  tentando  vender  a  jóia,  partiu  no  encalço  de 
César.  Foi  esgueirando-se  por  entre  turistas  e,  nativos  do  lugar,  sem 
perder de vista aquela altiva cabeça de cabelos prateados. 

Ainda  bem,  pensava,  que  ele  não  estava  usando,  o  chapéu  que 

carregava na mão. 

Não era a primeira vez que Glenda perseguia uma pessoa no curso 

de  sua  carreira  como  redatora.  No  momento,  ela  estava  trabalhando 
comofree-lancer, escrevendo artigos sobre celebridades interessantes. 

Dentro  das  instalações  principais  do  mercado,  nada  estava  em 

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ordem.  Frutas  e  legumes,  trazidos  do  campo  naquela  manhã, 
esparramavam-se  de  dentro  de  enormes  cestos  e  caixas:  tomates 
vermelhos,  mangas,  pimentas  diversas,  bananas  maduras  e  abacaxis 
amarelinhos, além de ovos em profusão. 

Foi  por  causa  de  um  abacaxi  que  Glenda  interrompeu  a  marcha 

quando fazia uma curva. Um homenzinho de rosto enrugado, da cor da 
nogueira, segurando um na palma da mão ofereceu-lhe por apenas meio 
peso.  Embora  o  fruto  não  estivesse  totalmente  maduro,  ela  sentiu-se 
atraída  por  seus  gomos  amarelos,  em  forma  de  diamantes,  levemente 
tingidos de verde. Imaginou o sabor que teria quando amadurecesse por 
completo e sua boca se encheu d água. Agindo por impulso, concordou 
em comprá-lo. 

Na  barraca  ao  lado,  César  Estrada  também  estava  comprando 

frutas. 

A mente de Glenda trabalhava atívamente enquanto, distraída, ela 

consentia  em  adquirir  tudo  quanto  o  mercador  lhe  oferecia,  sem, 
contudo, tirar os olhos de César. 

Só  quando  lhe  foi  empurrado  um  grande  cartucho  de  papel 

marrom é que ela se deu conta da quantidade de frutas que comprara. 
com  incisivos  olhos  negros  piscando  para  ela,  o  comerciante  pediu  seis 
pesos. 

Glenda  riu  divertida  e,  ao  mesmo  tempo,  arrependeu-se  da 

própria extravagância. Deixara-se convencer facilmente e comprara dois 
quilos  de  tomates,  vinte  bananas,  um  punhado  de  pimentas  e  meia 
dúzia  de  laranjas,  além  do  abacaxi,  é  claro.  Perguntando-se  o  que  iria 
fazer com tudo aquilo quando voltasse ao hotel onde estava hospedada, 
ela  procurou,  dentro  da  bolsa,  pela  carteira  onde  guardava  o  dinheiro. 
Seis  pesos  não  era  muito;  possivelmente,  menos  de  dois  dólares 
canadenses, mas o fato é que ela não precisava de tanta coisa. 

Após apalpar várias vezes o interior da bolsa, Glenda verificou que 

não  havia  nem  sinal  da  carteira  quadrada  de  couro.  Alarmada,  pôs  a 
sacola  de  compras  no  chão  e  retirou  todos  os  pertences  de  dentro  da 
bolsa.  A  carteira  preta  de  couro  tinha  mesmo  desaparecido.  Ainda 
olhava,  atónita,  quando  ouviu  o  vendedor  de  frutas  interrogá-la  em 
espanhol.  Volveu  os  olhos  para  ele  e,  nesse  momento  de  aflição, 
fugiulhe da memória o domínio daquele idioma. 

—  Não  tenho  dinheiro!  Perdi  minha  carteira  —  explicou.  Ao  que 

parecia, o comerciante conhecia inglês o suficiente para entender o que 
Glenda  dissera.  Elevando  a  voz,  irritado,  estendeu-lhe  o  cartucho  com 
as compras e exigiu os seis pesos. 

— No íengo dinero, senor — repetiu ela em voz alta e pausada. — 

Perdi a carteira. Não posso pagá-lo já. 

Furioso,  o  homem  começou  a  reclamar,  chamando  a  atenção  dos 

transeuntes para a gringa que lhe comprara frutas sem ter dinheiro para 

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pagar. 

Embaraçada pelo estardalhaço que ele estava fazendo e aflita com 

a  perda  da  carteira,  Glenda  tentou  desculpar-se,  perante  o  grupo  de 
pessoas que a olhava, curioso. 

— Com licença! Talvez eu possa ajudá-la. 
Como que surgido do nada, César Estrada estava ali, ao seu lado, 

oferecendo-lhe ajuda com sua voz repousante e cálida, que conservava 
um leve sotaque espanhol. 

Aliviada, Glenda levantou os olhos para ele, e encontrou os olhos 

dele.  Quase  a  mesma  cor  de  âmbar  que  há  bem  poucos  minutos  ela 
namorara: castanhos e límpidos. 

Da  mesma  forma,  os  olhos  dele  cintilavam  através  das  pestanas 

negras. O rosto estava mais magro do que da última vez que o vira, as 
faces marcadas por linhas traçadas 

pela  experiência  ou  pelo  sofrimento.  Os  lábios,  entretanto, 

abriam-se no mais suave dos sorrisos. 

— Minha carteira sumiu e não posso pagar as compras — explicou 

ela, sentindo uma insólita falta de fôlego agora que estava, de fato, cara 
a cara com César Estrada novamente. 

Oito anos haviam se passado! Por alguns segundos, toda a afeição 

que tivera por ele veio-lhe à mente, afastando de súbito todos os outros 
pensamentos.  Fitou-o  fixamente,  expressando  sem  querer,  no  olhar, 
todos os seus sentimentos. 

César também a encarou, contraindo os olhos ligeiramente. 
Por  um  curto  espaço  de  tempo,  ambos  deram  a  impressão  de 

estarem sozinhos no mundo, alheios a tudo e a todos. Mas a voz irritada 
do  vendedor  de frutas trouxe  os dois  de volta  à  realidade.  César então 
voltou-se  para  o  comerciante  e  pronunciou  algumas  palavras  ásperas 
em espanhol. 

No  mesmo  instante,  o  vendedor  de  frutas  parou  de  esbravejar, 

assumindo  uma  atitude  servil  e  bajuladora  quando  César  enfiou  a  mão 
no bolso da calça e ofereceu-lhe algumas notas. 

Em  seguida,  César  ajeitou  o  chapéu  esporte  branco  na  cabeça  e 

apanhou o cartucho com as compras de Glenda. Colocou-o na dobra do 
braço  esquerdo,  pois  já  segurava  um  outro  semelhante  com  o  braço 
direito. 

— Agora não há mais problemas — de disse, sorrindo. — Podemos 

ir embora. — E pôs-se a caminhar com passadas largas. 

Glenda  o  seguiu  tentando  alcançá-lo  para  agradecer-lhe. 

Entretanto,  toda  vez  que  se  aproximava  dele,  alguém  se  interpunha 
entre  os  dois.  Apesar  disso,  enquanto  abria  caminho  por  entre  a 
multidão  de  compradores,  seu  coração  estava  radiante,  e  não  só  pelo 
triunfo  por  tê-lo,  afinal,  localizado.  Sentia  uma  felicidade  incrível  pelo 
simples fato de tê-lo reencontrado. 

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De todos os homens que já conhecera, César Estrada era o único 

que a fascinara  realmente. Seria capaz de qualquer coisa  para viver ao 
seu lado para sempre! Só que ele não sabia! 

Descendo  dois  lances  da  escada  que  conduzia  ao  mercado,  ela 

continuava  correndo  atrás  dele.  De  repente,  o  calor  dos  raios  de  sol 
atingiu-a em cheio e ela fez uma 

pausa,  lamentando  não  ter  trazido  um  chapéu  para  se  proteger. 

Ao pé da escada, ele esperava por ela, e não pôde deixar de observar as 
pernas bem torneadas, debaixo 

do vestido vaporoso de algodão. 
—  Obrigada!  Muito obrigada  por  ter  pago  as  frutas  apressou-se  a 

dizer quando finalmente o alcançou. 

— De nada. Estou a sua disposição. Mas, e quanto a sua carteira? 

Você deve tê-la esquecido em algum lugar... Numa outra banca, talvez. 

—  É  possível  que  eu  a  tenha  deixado  no  quarto  do  hotel  ela 

procurou se lembrar. — Eu troquei de  bolsa esta manhã e talvez tenha 
esquecido de tirá-la da que estava 

usando ontem. 
—  Neste  caso,  me  diga  onde  está  seu  carro.  Quero  ajudála, 

levando este pacote até lá — César se ofereceu, animado. 


—  Não  tenho  carro.  Subi  a  colina  a  pé,  da  praça  até  aqui.  Vim 

porque estive em sua casa e me informaram que você havia vindo até o 
mercado. Portanto, eu já esperava 

encontrálo aqui — explicou, respirando fundo, tomada de emoção. 
Glenda,  porém,  não  estava  preparada  para  aquele  olhar 

desagradável  de  desaprovação.  Por  um  breve  momento,  ela  olhou, 
atónita, para aquele rosto magro e moreno, expressando 

uma indisfarçável desconfiança. 
— Você me seguiu? — perguntou ele. — Por quê? 
— Oh, César, não se lembra de mim? Sou Glenda Thompson. Nós 

nos conhecemos em Montreal, na Concórdia. Naquela época, você fazia 
pós-graduação, e eu, o bacharelado 

em  língua  inglesa.  Fui  à  sua  casa  várias  vezes,  na  semana 

passada. Deixei um recado para você... 

—  Ah!  —  murmurou  ele,  começando  a  compreender.  Debaixo  da 

aba do chapéu, os olhos dele brilharam com graça 

e malícia. Ela o encarou surpresa e ao mesmo tempo intrigada. 
—  Quer  dizer  então  que  é  você  a  mulher  que  esteve  na  minha 

antiga casa! — exclamou ele, afinal. 

— Você não está se lembrando de mim, não é mesmo? 
—  ela  o  censurou.  —  Como  pôde  se  esquecer?  Eu  sei  que  faz 

muito tempo desde a última vez que nos vimos, mas não é possível que 
eu tenha mudado tanto assim... Reconheci 

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você  logo  que  o  vi  passar  no  mercado.  Não  estava  usando  o 

chapéu naquele instante e o identifiquei pelo cabelo. 

César  a  escutava,  impassível.  Glenda  fez  uma  pausa  e  depois 

continuou: 

— Certa vez, você me contou uma história sobre um antepassado 

seu.  Tratava-se  de  uma  mulher,  casada  com  um  outro  César  Estrada, 
que veio da Espanha em busca de fortuna 

nas minas e aqui permaneceu. Mais tarde, tornou-se governadora, 

mas foi seduzida por um pirata inglês e, por isso, a cada duas gerações, 
nasce alguém em sua família 

com cabelos e olhos claros. 
— Eu lhe contei tudo isso? Que memória fantástica a sua! 
— comentou ele, com um brilho de malícia nos olhos. — É.. Parece 

que  você  não  se  esqueceu  de  nenhum  detalhe  desta  minha  história 
incrível, depois desse tempo todo! 

— Riu, mostrando os dentes alvos, e ela se deixou contagiar pela 

alegria dele. — Eu devia estar tentando lhe causar boa impressão e acho 
que tive sucesso. — Depois 

retornou o tom sóbrio, 
desviando  o  olhar  e  franzindo  as  sobrancelhas  escuras.  —  Estou 

novamente  me  lembrando  de  tudo  agora...  Daqueles  tempos  em 
Montreal que passamos juntos... Nós nos 

divertimos muito, não é? — Tornou a olhar para da, observando-a 

curioso. 

—  É  verdade,  nos  divertimos  muito!  Lembro-me  que,  no  nosso 

último  encontro,  combinamos  que,  se  algum  dia  eu  viesse  a  seu  país, 
deveria fazer-lhe uma visita para 

que  você  pudesse  retribuir  a  hospitalidade  que  recebeu  durante 

sua  estada  em  Montreal.  Pois  bem...  Estou  aqui  numa  excursão 
programada para uma semana, e aproveitei 

a oportunidade para procurálo. Meu avião parte de volta a Toronto 

no domingo. 

—  Entendo.  —  Ele  examinou-lhe  o  rosto  minuciosamente, 

percorrendo com um olhar rápido e ardente como a luz do sol os olhos, 
as faces e os lábios, onde se deteve 

por  alguns  segundos,  voltando  em  seguida  a  fitá-la  dentro  dos 

olhos. 

—  Acho  incrível  que  você  esteja  aqui  e  que  nós  estejamos  agora 

conversando  um  com  o  outro,  tão  longe  do  Canadá,  após  todos  esses 
anos -disse ele com suavidade, e 

sua voz era terna e tão cálida quanto os olhos. — Espero que me 

perdoe  por  não  ter  me  lembrado  de  você  imediatamente.  Só  ontem  à 
noite é que retornei a Puerto Plata. 

Havia muitos recados para mim e não tive tempo de dar a devida 

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atenção  a  todos.  Você  disse  que  vai  partir  domingo?  Como  poderei 
retribuir toda a gentileza e a generosa 

hospitalidade que recebi em Montreal em tão poucos dias? 
—  Não  tem  importância  —  Glenda  acrescentou  logo.  -Não  quero 

que  pense  que  eu  estava  esperando  algo  especial.  Só  quero  conversar 
sobre o livro que você escreveu. 

Fiquei  tão  emocionada  ao  saber  que  ganhou  um  prémio  por  ele! 

Eul já o li. É maravilhoso e gostaria muito de entrevistá-lo, 

— Entrevistar-me? — indagou, olhando-a novamente desconfiado. 
— Sim. É esse o meu trabalho... Entrevisto pessoas interessantes 

e  famosas.  Depois,  escrevo  artigos  sobre elas  e  vendo  às revistas.  vou 
fazer uma matéria sobre 

este  país  e  pensei  também  em  escrever  um  artigo  sobre  você  e 

seu  último  romance.  Acho  que  interessaria  muito  aos  leitores 
canadenses, porque você fez pós-graduação 

numa universidade do Canadá. Quem sabe eu possa entrevistá-lo 

hoje ou amanhã? Mal tinha acabado 

de falar quando sentiu uma tontura repentina. 
10 
Viu  o  rosto  dele  flutuar  em  meio  ao  nevoeiro,  e  suas  pernas 

bambearam  por  um  instante.  Quase  desmaiou.  —  Desculpe  — 
murmurou, pondo a mão na testa. — Acho 

que é o calor. Não estou acostumada com este clima. 
Glenda  teve  a  impressão  de  que  César  a  olhava  com  um  certo 

ceticismo,  como  se  desconfiasse  de  uma  falsa  vertigem,  mas  no 
momento seguinte descartou essa possibilidade, 

pois  ele  depositou  os  dois  pacotes  de  frutas  num  degrau  e, 

segurando-a pelo braço, insistiu para que ela sentasse na escada. 

— Espere aqui — ordenou ele com voz firme e autoritária. 
— vou buscar meu caminhão e levar você de volta ao hotel. 
Enquanto  César  afastava-se  a  passos  largos,  Glenda  tirou  um 

lenço  da  bolsa  e  agitou-o  diante  do  rosto,  tentando  criar  assim  uma 
corrente de ar. Ora sentia um calor 

febril, ora um tremor de frio. De repente, deu-se conta de que um 

grupo de pessoas havia se formado a sua volta. Uma jovem de vestido 
estampado quis saber, em um 

inglês  carregado  de  sotaque,  se  ela  estava  bem.  Fazendo  esforço 

para  sorrir,  Glenda  respondeu-lhe  que  sim,  e  que  esperava  por  um 
amigo. 

Logo  o  grupo  se  dispersou,  como  que  carregado  por  um  vento 

forte, e César ressurgiu com aqueles olhos penetrantes, estendendo-lhe 
atmão para ajudá-la. 

No  interior  da  cabine  do  pequeno  caminhão  de  cor  cinza,  fazia 

muito  calor  e  o  revestimento  do  assento  queimava-lhe  a  pele,  através 

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do tecido fino da saia. Sufocada, 

ela baixou rapidamente o vidro da janela ao seu lado. A lufada de 

ar que entrou não foi suficiente para refrescá-la, mas o pior foi o ronco 
do veículo e o cheiro 

que  exalava  do  escapamento,  que  quase  a  asfixiou,  quando  o 

caminhão  disparou  como  uma  bala,  depois  de  uma  guinada  em 
semicírculo e entrou numa rua estreita. 

Descendo  a  colina  até  a  praça,  o  caminhão  continuava  rodando 

rápido,  passando  por  um  casario  antigo  com  sacadas  de  ferro  batido  e 
ornamentos de mau gosto na beirada 

dos telhados. Na praça, o tráfego movimentado era composto, na 

maior  parte,  por  motocicletas pilotadas  por  jovens.  As  paredes brancas 
da igreja de torres duplas 

faiscavam com a claridade do sol. No jardim da praça, o carmim e 

o  dourado  dos  viçosos  arbustos  tropicais  davam  um  tom  deslumbrante 
ao local, onde havia também um 

elegante e exótico coreto, pintado de branco. 
11 
— Estou hospedada no Playa Dorada — indicou Glenda, quando o 

caminhão  atravessou  um  cruzamento  e  seguiu  pela  rua  principal  do 
centro comercial, saindo da praça. 

A  tontura  havia  passado  e,  apesar  dos  solavancos  do  carro, 

Glenda sentia-se aliviada. 

— E quanto à entrevista? Você vai me concedê-la, não vai, César? 

Por  favor...  —  Ela  interrompeu-se  quando  o  veículo  desviou 
perigosamente a fim de evitar um outro 

carro  que  parecia  descer  desgovernado  de  uma  íngreme  rua 

lateral, atravessando-lhes o caminho. 

—  Não  sabia  que  você  dirigia.  —  Ela  ofegou,  procurando  à  sua 

volta pelo cinto de segurança, agarrando-o e afivelando-o rapidamente. 
— O que quero dizer é que você 

nunca  dirigiu  em  Montreal.  —  No  íntimo,  tinha  achado  isso  bom. 

Os motoristas de 

Quebec  eram  considerados  os  mais  negligentes  e  agressivos  do 

Canadá, mas nem se comparavam 

aos dominicanos. 
—  Isso  porque  eu  não  possuía  um  carro  —  retorquiu  ele, 

lançando-lhe um olhar oblíquo. — Está se sentindo melhor agora? 

—  Sim,  obrigada.  Muito  melhor  —  respondeu  Glenda.  De  fato,  a 

náusea e a tontura não a incomodavam mais, mas a maneira como ele 
dirigia sim. 

—  O  que  você  pretende  colocar  em  seu  artigo?  —  César  quis 

saber. 

—  Bem,  isso  depende  das  respostas  que  você  me  der.  Talvez  eu 

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relate sobre suas experiências e estudos aqui na República Dominicana, 
e também sobre a visão filosófica 

que existe por trás da ficção, além de mencionar os motivos que o 

levaram a escrever o seu livro em inglês, e não em espanhol. 

— E onde gostaria de fazer essa entrevista comigo? 
— Em sua casa, hoje à tarde, se for possível... 
— Não, hoje eu não posso. 
—  Então,  amanhã  de  manhã.  Sempre  trabalho  melhor  pela 

manhã, principalmente neste clima tropical. 

— Não estarei na cidade amanhã — justificou ele. — Agora mesmo 

vou  para  Samana.  Por  que  não  vem  comigo  e  me  dá  uma  chance  de 
retribuir a hospitalidade que desfrutei 

no Canadá? 
—  Samana  não  fica  longe  daqui?  —  objetou  ela,  embora  tivesse 

toda a intenção de aceitar o convite. 

12 
— Não muito. Poderemos chegar no começo da tarde. Na hora da 

siesta  —  acrescentou,  fitando-a  alegremente.  —  Então,  você  vem?  É  o 
único jeito de conseguir a entrevista 

comigo.  Tenho  uma  casa  lá,  no  litoral.  Vai  gostar  dela!  Tem  uma 

praia particular, ótima para nadar! A paisagem é esplêndida, e a paz e a 
privacidade são perfeitas. 

—  Eu  adoraria,  mas  antes  terei  de  passar  pelo  hotel  para  ver  se 

deixei  a  carteira  lá.  Não  é  a  que  guardo  os  dólares  e  os  cheques  de 
viagem, mas a outra, que só contém 

pesos, porém, mesmo assim, gostaria de ter certeza de que não a 

perdi por descuido e de que não foi roubada. 

—  Tudo  bem!  Nesse  caso,  aproveite  para  apanhar  um  maio, 

algumas  peças  de  roupas  e  uma  camisola.  —  Ele  deulhe  uma  olhada 
maliciosa. — Quer passar a noite comigo, 

Glenda?  Que  tal  duas  noites?  Se  quiser,  eu  a  trarei  de  volta  ao 

hotel  a  tempo  de  encerrar  a  conta,  no  domingo  de  manhã,  e  pegar  o 
voo de volta ao Canadá. 

Ela  o  fitou,  surpresa.  Será  que  ele  estava  brincando?  Ou  estaria 

realmente  sugerindo  que  passasse  uma  ou  até  duas  noites  com  ela? 
César jamais tomara liberdades 

com  ela  quando  o  conhecera  em  Montreal.  Nem  uma  só  vez 

haviam dormido juntos, mas teve de admitir que, no fundo, bem que o 
desejara! Entretanto, já havia notado 

algumas  mudanças  nele,  como,  por  exemplo,  uma  desagradável 

irritação e uma fria arrogância que não existiam em Montreal. 

A  verdade  era  que  César  estava  agora  oito  anos  mais  velho, 

possivelmente  com  trinta  e  seis  anos  de  idade,  e  alcançara  alguma 
realização: um livro maravilhoso, que 

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conquistara  o  sucesso  internacional,  e  um  prémio  literário  nos 

Estados  Unidos.  Além  disso,  ali  naquele  belo  país  tropical,  ?de  altas 
montanhas, vales profundos e 

largas  planícies  de  plantações  de  cocos  e  extensos  canaviais,  ele 

estava em seu próprio terreno. 

Ela  lera  certa  vez  que  o  clima  influenciava  o  comportamento  de 

uma pessoa. Na certa, no clima mais frio de Montreal, durante o inverno 
gélido, César teria se comportado 

de modo diferente de como se comportava vivendo ali. 
Pensando nisso, Glenda fixou os olhos rápida e instantaneamente 

no perfil moreno sob o elegante chapéu. Ele tinha o nariz convexo, típico 
dos espanhóis, lábios firmes, 

queixo 
13 
anguloso  e  bem  talhado.  Depois  de  avaliar  os  detalhes  do  rosto, 

os  olhos  dela  voltaram-se  para  as  mãos  magras  e  crestadas  de  sol, 
firmes sobre o volante, e, em seguida, 

para  as  longas  coxas  que  davam  forma  à  calça  de  fino  algodão. 

Será  que  a  memória  não  estava  lhe  pregando  uma  peça?  Lembravase 
dele um pouco mais gordo quando o conhecera 

em Montreal. Ou, talvez, as roupas fizessem alguma diferença. Ali, 

ele tinha que usar bem pouca. 

— Então, Glenda, vamos para Samana? — ele tornou a perguntar. 
— Eu gostaria. Haverá mais alguém na casa? 
— Sim, é claro! — Havia frieza no tom de voz dete. 
—  Sua  esposa?  —  ela  indagou.  —  Eu  soube  que  você  se  casou. 

Tem filhos? 

— Não vamos falar de meu casamento — ele cortou asperamente. 

—  Nem  agora,  nem  em  nenhuma  outra  ocasião.  Nada  de  perguntas 
sobre isso, por favor, quando me entrevistar. 

—  Está  bem  —  disse  Glenda,  sentindo-se  subitamente  tensa.  — 

Não tenho intenção alguma de bisbilhotar sua vida particular. Só estava 
tentando ser amável. Já fomos 

amigos  e  conversávamos  muito  um  com  o  outro.  —  Fez  uma 

pausa,  lembrando-se  daqueles  tempos  em  que  pareciam  mais  íntimos, 
em que imaginara que sempre trocariam confidências, 

compartilhando  sonhos  e  esperanças.  —  Você  se  lembra  daquela 

ocasião em  que fomos  à  casa  de  campo  de  meus  pais, na  região leste, 
pouco antes de você deixar Montreal? 

—  recordou  ela,  com  tranquilidade.  —  E  como  nos  divertimos 

velejando  no  lago  no  escaler  de  meu  irmão?  Quando  contei  a  papai  e 
mamãe que iria procurar você, ambos 

lhe mandaram lembranças. Ficaram felizes com o sucesso do livro. 
César  não  respondeu  e,  desta  vez,  parecia  se  concentrar  em 

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dirigir  o  carro  com  cuidado  pela  estrada  estreita  e  sinuosa,  cercada  de 
palmeiras. Logo depois, chegaram 

até  um  pátio  enorme  e  pararam  defronte  a  um  prédio  baixo  e 

extenso, com telhado de folhas de palmeiras. Era o centro do complexo 
hoteleiro, e abrigava a recepção, 

o  restaurante,  os  escritórios  e  a  cozinha.  Os  hóspedes  ficavam 

alojados em chalés individuais, espalhados por entre a plantação tropical 
que orlava a ampla e espetacular 

praia  de  areia  levemente  dourada.  O  mar  desaparecia  no 

horizonte com suas águas azul- 

14 
turquesa  e  esmeralda,  onde  uma  luz  faiscava  sob  os  reflexos 

prateados  do  sol  ardente.  Enormes  ondas  rolavam  e  arrebentavam  na 
praia, deixando atrás de si uma espuma 

abundante. 
—  vou  esperá-la aqui  —  disse  César,  depois  de  ter  estacionado  o 

caminhão  debaixo  da  sombra  refrescante  das  palmeiras,  próximo  ao 
prédio central. Virou-se para ela 

com  um  sorriso  tão  cálido  quanto  a  luz  do  sol.  —  Quanto  às 

recomendações  de  seus  pais,  são  muito  bem-vindas.  É  bom  ser 
lembrado por pessoas tão amáveis, e espero 

que  sua  breve  estada  comigo  em  Samana  seja  tão  agradável 

quanto  a  hospitalidade  que  recebi  na  casa  deles  durante  os  dias  que 
passei em Orford. 

Embora  as  palavras  dele  tivessem  um  tom  formal,  Glenda  sentiu 

suavizada a estranha sensação de angústia que vinha crescendo dentro 
dela, desde o momento em que ele 

a tratara com frieza, quando ela tocara no assunto do casamento. 

Novamente  César  se  mostrava  como  sempre  se  lembrara  dele:  polido, 
cordial e simpático. Feliz, ela 

retribuiu-lhe o sorriso. 
— Não vou demorar — prometeu, abrindo a porta do carro. 
Enquanto  percorria  a  alameda  até  o  chalé,  que  dividia  com  sua 

amiga Ida katin, redatóra de uma agência de publicidade, Glenda sentiu 
a cabeça latejar e um ligeiro 

enjoo  no  estômago.  Tomara  que  não  tivesse  pego  uma  insolação 

ou  contraído  algum  vírus  tropical,  ponderou.  Queria  ir  com  César  para 
Samana e se houvesse qualquer 

possibilidade  de  estar  doente,  deveria  permanecer  no  hotel  e 

repousar até ficar boa. 

Por outro lado, Glenda sabia  que não  teria outra oportunidade de 

fazer  uma  entrevista  com  ele,  e  não  podia  perder  essa  chance.  Além 
disso, o reencontro fizera renascer 

sentimentos  adormecidos  em  seu  coração.  Se,  pelo  menos, 

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naquela ocasião, não estivesse tão envolvida com Greg... 

Sacudindo  a  cabeça,  Glenda  expulsou  tais  ideias  e,  depois  de 

atravessar a varanda do chalé, abriu a porta. O espaçoso quarto-e-sala 
conjugado tinha sido limpo e 

arrumado.  A  roupa  das  duas  camas  de  solteiro  estava  esticada  e 

macia  ao  tato,  e  havia  no  ar  um  cheiro  forte  de  desinfetante  vindo  do 
banheiro. Ida estava ausente, 

e  Glenda  deduziu  que  sua  amiga  estivesse  na  praia  tomando 

banho de sol ou jogando volibol com outros turistas. 

15 
Foi direto ao guarda-roupa e removeu a mala de viagem. Colocou-

a sobre a cama e, ao abri-la, encontrou sua bolsa vermelha. Dando uma 
rápida busca na bolsa, achou 

a  carteira  contendo  pesos,  o  que  a  fez  suspirar  de  alívio.  Já  não 

precisaria mais comunicar a perda à polícia. Imediatamente transferiu a 
carteira para a outra bolsa, 

fechou a mala e recolocou-a no guarda-roupa. 
com  movimentos  apressados,  pegou  o  maio,  uma  toalha  e  a 

saída-de-banho.  Dobrou  as  peças  e  ajeitou-as  numa  frasqueira,  por 
cima do gravador e da máquina fotográfica. 

Decidiu não levar a camisola, nem qualquer outra peça, conforme 

César  tinha  sugerido,  pois  esperava  convencê-lo  a  trazê-la  de  volta 
ainda naquele mesmo dia. Não 

seria  tão  imprudente  a  ponto  de  passar  a  noite  com  ele,  sem 

saber se estava casado ou não. 

Rapidamente,  escreveu  um  bilhete  para  Ida,  explicando-lhe  que 

havia  encontrado  César  Estrada  e  que  estavam  indo  para  Samana 
juntos, mas que voltariam logo. Apoiou 

o  bilhete  contra  o  estojo  de  maquilagem,  em  cima  da  cómoda,  e 

em  seguida  examinou  a  própria  aparência  no  comprido  espelho  do 
guarda-roupa. 

Os  cabelos  loiros,  semilongos,  eram  Usos  e  brilhantes;  o  rosto 

ovalado, levemente tostado de sol, ganhara uma bela cor; e a camiseta 
com decote redondo combinava 

com  seus  olhos  verdes,  de  pálpebras  espessas,  característica  dos 

irlandeses. 

A  dor  de  cabeça  parecia  ter  sumido,  afinal!  Sorrindo  para  si 

mesma,  sentiu  uma  súbita  felicidade  pelo  fato  de  saber  que,  dali  a 
instantes, estaria perto de César 

Estrada novamente. 
Ainda sorridente, Glenda pôs o chapéu e os óculos de sol, pegou a 

bolsa e a frasqueira e correu ao encontro dele. 

16 
CAPÍTULO II 

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César  estava  encostado  na  porta  do  carro,  com  displicência,  o 

chapéu tombado cobrindo os olhos, os braços cruzados sobre o peito e, 
para surpresa de Glenda, tinha 

um charuto aceso entre os dentes. 
— Não sabia que você fumava — observou ela. 
—  Raramente,  e  só  quando  estou  em  casa  —  respondeu  ele, 

retirando  o  charuto  da  boca.  Sob  a  sombra  do  chapéu,  seus  olhos 
brilharam de um jeito maroto. — Os charutos 

dominicanos são tão bons quanto os cubanos — comentou. - 
Estimulamos  a  economia  do  vício  nesta  ilha:  rum,  tabaco  e  café. 

—  Baixou  os  olhos  para  a  frasqueira  de  Glenda.  Trouxe  tudo  o  que 
precisa aí dentro? 

— Sim — ela respondeu, lacónica. 
—  Então,  deixe-me  pôr  sua  bagagem  na  traseira  do  caminhão 

para que tenhamos mais espaço dentro da cabine. O que pretende fazer 
com as frutas que comprou? — Ele riu. 

—  Tudo  isso  dá  para  alimentar  uma  família  inteira  por  uma 

semana! Pôr que comprou tanto? 

—  Eu  pretendia  comprar  apenas  o  abacaxi,  mas  aí  vi  você  na 

barraca  ao  lado  e  fiquei  tão  ocupada  em  observá-lo,  que  concordei  em 
comprar tudo o que o vendedor me 

ofereceu — explicou-lhe. 
—  E  então  armou  aquela  cena  da  carteira  para  chamar  minha 

atenção, não é mesmo? Foi tudo fingimento! 

—  Eu  não  estava  fingindo  —  retrucou  ela.  —  Como  pode  pensar 

que eu seria capaz de 

uma coisa dessas? 
O sorriso dele fez com que ela sentisse de novo aquela repentina 

onda de 

atração. Lembrou-se dos velhos tempos, em que César costumava 

brincar. 

— Você ainda engole facilmente a isca — disse ele, alegre. — E eu 

adoro o jeito como seus olhos lampejam e suas faces ficam ruborizadas 
toda vez que fica zangada. 

Vamos 
17 
levar as frutas conosco? Caso não as queira, conheço uma família 

que ficará contente em aceitá-las. 

— Nesse caso, eu é que ficarei contente em oferecê-las... Por falar 

nisso,  já  posso  pagar,  o  que  lhe  devo.  Minha  carteira  estava  na  minha 
outra bolsa. Aqui está! 

— ela disse, oferecendo-lhe alguns pesos. 
com  um  encolher  de  ombros,  César  apanhou  as  notas  e 

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comprimiu-as  no  bolso.  Após  colocar  a  bagagem  na  traseira  do 
caminhão, ele abriu a porta da cabine e fez um gesto 

para que Glenda entrasse. 
Ela observou-o, satisfeita por vê-lo apagar o charuto antes de dar 

a  partida  no  motor,  pojs  talvez  não  conseguisse  suportar  o  cheiro  de 
fumaça na cabine pequena 

e  abafada.  Voltaram  para  a  rodovia  e  logo  estavam  rodando 

rápido, em direção ao leste, pelo asfalto liso. 

À  frente  deles,  a  estrada  se  aprofundava  por  entre  colinas 

íngremes  e  recobertas  de  coqueirais.  Os  troncos  eretos  e  as  folhas 
reclinadas das palmeiras brilhavam 

trémula e fracamente à luz do sol. À beira da estrada, cabanas de 

sapé,  que,  na  verdade,  não  passavam  de  barracos  encolhidos  no  meio 
da densa vegetação, completavam 

a  paisagem.  Próximo  àquelas  habitações  simples,  algumas 

crianças  brincavam  e  corriam.  De  quando  em  quando,  alguma  mulner, 
de lenço branco ou chapéu de palha na cabeça, 

acenava amigavelmente para o caminhão. 
Depois de percorrerem algumas milhas, César e Glenda chegaram 

a  um  pequeno  povoado.  Ele  contornou  uma  igrejinha  com  telhado  de 
estanho vermelho e um pequeno campanário, 

saindo  numa  estrada  mais  estreita  e  mais  acidentada.  Logo 

adiante,  alguns  homens  com  chapéus  de  palha  estavam  sentados 
tranquilamente nos degraus de um barracão, 

onde funcionava o armazém geral. Na fachada, um grande cartaz 

anunciava: "Temos Bermudez". Era o rum do local. 

A  estrada  prosseguia  íngreme,  numa  série  de  curvas  sinuosas, 

pela encosta de uma imensa montanha. 

—  Vim  por  aqui  para  lhe  mostrar  um  pouco  da  zona  rural  da 

península  de  Samana  —  explicou  César.  —  Talvez  você  veja  algo 
interessante para escrever sobre este país. 


? rodovia que acabamos de deixar vai até a ponta da baía de 
18 
Samana  e  segue  pela  costa  até  o  porto  de  Santa  Bárbara.  Esta 

estrada,  por  sua  vez,  acompanha  o  litoral  da  península,  antes  de 
atravessar as montanhas, até a baía. 

Daqui, vê-se o mar do Caribe e muitas plantações de coco. 
À  medida  que  o  caminhão  guinava  evitando  os  buracos,  dando  a 

impressão  de  que  a  qualquer  momento  iria  projetar-se  das  bordas 
escarpadas dos vales, Glenda desejava 

que  ele  tivesse  escolhido  outro  caminho.  As  fazendas  e  as 

paisagens  dos  vales  de  cor  azul-escuro,  que  rasgavam  as  montanhas 
recobertas de verdes florestas tropicais, 

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não amenizavam a impressão desconfortante de estar em cima de 

uma  montanha  russa.  Principalmente  quando  o  caminhão  subia  de 
arrasto a encosta para lançar-se vertiginosa 

e assustadoramente ao outro lado da montanha. 
Ela  sentiu  a  cabeça  e,  diversas  vezes,  seu  coração  darem  saltos, 

como  se  quisessem  pular  fora  do  corpo.  Esforçou-se  para  ouvir  o  que 
César estava dizendo sobre a 

extensão  das  fazendas,  a  quantidade  de  óleo  de  coco  que  cada 

uma  produzia.  Dizia  ele  que  o  desenvolvimento  recente  da  irrigação 
tinha ajudado no cultivo, ali na 

península. 
Glenda  sabia que  ele  estava  sendo  gentil em lhe  dar  informações 

sobre a história e O desenvolvimento daquele país, portanto não queria 
desapontá-lo. Ela fizera o 

mesmo  com  relação  à  região  da  província  de  Quebec,  onde  sua 

família morava, no passado. 

— Aqui, em Samana, você vai encontrar muitas pessoas que falam 

o  inglês.  São  descendentes  de  escravos  e  negros  emancipados  que 
escaparam dos Estados Unidos com a 

ajuda  dos  abolicionistas.  Daí  os  sobrenomes  Brown,  Green, 

Shepherd e até Thompson, de algumas famílias do local. Naquela época, 
por volta de 1824, toda a região 

estava sob o domínio dos haitianos. 
—  Quanto  tempo  durou  a  dominação  haitiana?.  —  quis  saber 

Glenda. 

—  De  1822  a  1844.  Eles  emanciparam  os  escravos  dominicanos, 

mas sob um regime despótico e cruel. O "fundador de nosso país", Juan 
Pablo Duarte, expulsou os haitianos 

e  criou  a  República  Dominicana  independente  tanto  da  Espanha 

quanto  do  Haiti.  Logo  depois,  ele  também  foi  deposto  e  criada  nova 
constituição. — César deu uma risada 

19 
irónica. — Desde então, já tivemos vinte e oito constituições e, até 

recentemente, a maioria dos governantes deste país foi déspota. Agora, 
graças à ajuda económica 

dos Estados Unidos, Canadá e outros países, estamos progredindo 

lentamente.  Mas  ainda  temos  problemas  :  alta  taxa  de  natalidade  , 
subnutrição, escassez de água e 

energia  elétrica,  desigualdade  racial,  doenças.  Por  Dios,  ainda  há 

muito o que fazer para ajudar os pobres... — Sua voz adquiriu um tom 
melancólico e ele calou-se. 

—  As  fazendas  parecem  muito  pobres  —  comentou  Glenda  ao 

passarem por outro agrupamento de cabanas. 

Galinhas corriam cacarejando à frente do caminhão, na estrada, e 

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escapavam  rapidamente  pelos  lados,  enquanto  crianças  pobremente 
vestidas acenavam e assobiavam, 

felizes. 
—  A  beleza  do  país  e  o  clima  quente  muitas  vezes  abrandam  o 

choque  da  pobreza  —  comentou  César.  —  Neste  país,  como  você  está 
vendo, não há muita necessidade de abrigo 

ou  de  roupas.  —  Olhou  para  ela  de  relance.  —  Não  é  como  o 

Canadá, onde se é forçado a gastar muito em aquecimento e em roupas 
quentes, durante o inverno. 

—  Isso  é  verdade  —  murmurou  Glenda,  agarrando-se  à  borda  da 

janela  quando  o  caminhão  deu  mais  uma  guinada.  A  estrada  mais 
parecia o leito seco de um rio, devido 

a grande quantidade de pedras e buracos existentes. 
No  topo  de  uma  outra  colina,  César  parou  por  alguns  minutos.  À 

esquerda,  a  terra  se  perdia  de  vista,  numa  alternância  de  cristas  e 
vales, oculta pela floresta tropical. 

Era um tecido delicado de vários tons de verde que se diluíam aos 

poucos  numa  névoa  azulada  riscada  por  uma  longa  faixa  de  luz 
prateada. 

—  Daqui  temos  uma  última  vista  do  oceano.  Está  vendo  a  luz  do 

sol  brilhando  na  água?  —  apontou  César.  —  Um  pouco  mais  adiante, 
vamos dobrar à direita e atravessar 

mais  aquela  montanha  e,  então,  você  poderá  ver  a  baía  de 

Samana.  —  Interrompeu-se  ao  perceber  nela  uma  repentina  falta  de 
interesse. — Você está se sentindo bem? 

—  É  só  uma  pequena  indisposição  por  causa  da  viagem,  apenas 

isso.  Esta  estrada  está  parecendo  um  tobogã  —  brincou  ela, 
conseguindo sorrir. 

— Nesse caso, vou dirigir mais devagar — ele prometeu. 
20 
Entretanto, o restante da viagem foi como um turbulento pesadelo 

para  Glenda.  Uma  nuvem  densa  pairava  diante  de  seus  olhos, 
ameaçando tragá-la totalmente. A cabeça 

lhe doía e a náusea lhe sufocava a garganta. Desesperada, ela se 

agarrava  cada  vez  mais  à  borda  da  janela,  lutando  contra  o  desmaio. 
Mas ondas alternadas de calor 

e frio percorriam seu corpo e, do lado de fora, árvores e arbustos 

sucediam-se como intermináveis borrões verdes. 

Subindo  e  descendo,  girando  e  girando,  o  caminhão  seguia  pela 

última curva  pedregosa, que culminava na rodovia que haviam deixado 
antes. À direita, o mar surgiu 

azul e dourado, estendendo-se majestoso até perder de vista. 
— Aí está a grande baía de Samana! — exclamou César orgulhoso 

da  paisagem.  —  Vários  galeões  espanhóis naufragaram  aí, colhidos por 

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furacões e arremessados sobre 

perigosos bancos de areia. Muitos mergulhadores têm vasculhado 

o local, e boa parte do tesouro recuperado se encontra no 

museu em São Domingo. 
Ao  divisar  os  distantes  prédios  brancos  de  uma  cidade,  Glenda 

relaxou um pouco, afundando o corpo para trás no assento, agora mais 
tranquila. Fechou os olhos, mas 

logo os reabriu, assustada. 
—  O  caminhão  desceu  bruscamente  uma  ladeira,  passou  por  um 

conjunto  de  lojas  e  por  um  mercado,  para,  em  seguida,  virar  à 
esquerda, num triângulo de relva empoeirada, 

alcançando uma larga avenida. 
À  direita,  tremeluziam  as  águas  azuis  de  um  porto  protegido  do 

movimento  das  ondas  da  baía  por  uma  ilha  juncada  de  palmeiras,  e  à 
esquerda, erguiam-se modernos edifícios 

de  cor  clara,  contrastando  com  o  verde  das  montanhas,  atrás  da 

cidade. 

No  porto,  junto  ao  cais  de  pedra,  um  barco  da  patrulha  costeira 

estava  ancorado.  Nele,  hasteada  na  popa,  a  bandeira  dominicana 
balouçava ao vento. Outros dois grandes 

iates à vela flutuavam nas águas. Para espanto de Glenda, ambos 

tinham içado bandeiras do Canadá e por alguns instantes ela se animou. 

— Olhe, iates canadenses! — exclamou. 
— Neste porto, há sempre iates de vários países. A cidade é uma 

zona turística e, se você olhar para trás, do outro 

21 
lado  do  porto,  na  direção  do  promontório,  poderá  ver  um  hotel, 

que pertence a uma companhia canadense — afirmou ele. 

Ela  fez  um  esforço,  girando  o  corpo  no  banco,  para  olhar  pela 

janela aberta, enquanto o caminhão percorria o bulevar. 

O promontório era alto e verdejante e o hotel 
ficava  bem  no  meio  dele,  todo  branco  com  arcos  no  estilo 

espanhol.  Logo  abaixo,  uma  bonita  ponte  ligava  a  ilha  de  palmeiras  ao 
continente. 

O  bulevar  terminava  abruptamente,  transformando-se  em  outra 

estrada  rústica  que  serpenteava  morro  acima.  Novamente,  o  caminhão 
saiu da estrada e entrou numa vereda 

que  descia  direto  por  entre  uma  plantação  de  infindáveis 

palmeiras, terminando numa clareira. Ao lado, havia uma casa pequena, 
com paredes pintadas de branco e telhas 

vermelhas.  Arbustos  e  árvores  exóticas  a  cercavam  por  todos  os 

lados. 

Uma  escada de  ferro  batido  acompanhava  a  lateral  da  casa  até a 

varanda, que ficava nos fundos, com vista para o mar. 

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—  Bem,  aqui  estamos  —  disse  César  com  um  tom  de  satisfação, 

depois  de  estacionar  o  carro  debaixo  da  sombra  de  uma  casuarina.  — 
Este é o meu esconderijo, onde costumo 

me  refugiar.  Espero  que  você  goste.  —  Abriu  a  porta  do  carro  e 

desceu. 

Glenda  estremeceu  levemente  com  o  barulho  da  porta  se 

fechando. A sensação de mal-estar e náusea tinha piorado, e, tonta, ela 
escorregou lentamente do banco, pondo 

as  pernas  para  fora.  Embaixo,  o  chão  arenoso  parecia  ondular 

assustadoramente. Teve a impressão de estar despencando para dentro 
de um abismo. Exatamente antes de 

tocar os pés no chão, ouviu um grito e sentiu que a tomavam nos 

braços. Depois, tudo escureceu e ela não viu mais nada. 

Quando  Glenda  voltou  a  si,  sentiu  a  cabeça  rodopiar  por  alguns 

segundos e a testa gelada. Alguém estava pingando água gelada no seu 
rosto. Teve arrepios, ofegou 

e  finalmente  abriu  os  olhos.  com  a  língua  ressecada  e  quente, 

lambeu sofregamente as gotas d água nos cantos da boca. Levantou os 
olhos para o rosto moreno, de cabelos 

prateados.  Os  olhos  castanhos  brilhantes  como  o  âmbar  fixaram-

se nela. 

Deu-se conta, então, de que estava confortavelmente deitada 
22 
numa cama e que César, sentado ao seu lado, molhavalhe o rosto 

com uma toalha umedecida com gelo. 

— O que aconteceu? — sussurrou ela. 
—  Você  desmaiou  quando  estava  saindo  do  carro.  A  sua  sorte  é 

que  eu estava  perto.  Amparei  você  e  a  trouxe  para  cá.  —  O  rosto  dele 
se endureceu. — Por que não me 

contou que estava passando mal? 
— Eu... eu achei que o mal-estar passaria logo. 
— Você começou a se sentir mal lá no mercado, não é mesmo? — 

ele falou zangado. 

Ela apenas confirmou com um tímido gesto de cabeça. 
—  Então,  por  que  concordou  em  vir  comigo?  Por  que  não  avisou 

logo? Eu a teria deixado no hotel, descansando... César a censurou. 

—  Já  disse!  Pensei  que  eu  fosse  melhorar...  Além  disso,  queria 

acompanhá-lo. Tenho que entrevistá-lo — ela replicou fracamente. 

— Você não está grávida, está? — foi a pergunta impertinente que 

ele fez, em seguida. 

—  Não,  claro  que  não!  —  Indignada,  ela  ergueu-se  dos 

travesseiros. Nesse exato instante, a náusea veio à tona. 

— Oh, ajude-me! — arquejou, tapando a boca com a mão. 
—  De  algum  modo,  tinha  saído  da  cama  e  César  estava  ao  seu 

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lado, guiando-a até o banheiro. 

Quando  saiu  de  lá,  sentiu-se  mais  aliviada  e,  imediatamente,  a 

mão de César enlaçou-a pela cintura para ajudá-la a retornar ao quarto. 
Ainda amparada por ele, Glenda 

deitou-se  no  leito,  e  sorriu  agradecida.  Depois,  fechou  os  olhos  e 

mergulhou num torpor febril... 

Só muito tempo depois, Glenda acordou com a luz suave  de uma 

lâmpada  que  acendeu-se  à  sua  cabeceira.  Ao  abrir  os  olhos,  viu  César 
sentado próximo a ela. Carinhosamente, 

ele pôs os dedos longos e frios na testa dela. 
—  Você  está  dormindo  há  horas...  E  teve  muita  febre  durante  o 

sono  —  disse  ele  brandamente.  —  O  que  fez  para  ficar  assim  tão 
doente? Bebeu água da torneira? 

—  Não.  —  Sua  voz  soava-lhe  estranha,  como  se  fosse  de  uma 

outra  pessoa.  —  Nós...  Ida  e  eu...  bebemos  apenas  água  engarrafada. 
Procuramos tomar muito cuidado, neste 

ponto. Mas ficamos muito tempo na fila do teleférico que vai 
23 
até o alto de Isabela de Torres. Talvez seja isso, pois fazia muito 

calor! 

César murmurou alguma coisa em espanhol que ela não entendeu. 

Sentia-se  fraca demais  para  pensar  sobre  isso,  e também  constrangida 
por se ver em tal situação. 

— É melhor você vestir sua camisola — sugeriu ele, levantando-se 

da cama. — vou mandar lavar sua roupa. 

— Mas eu não trouxe camisola! — Glenda lembrou-se, sem jeito. 
— Por que não? — Em pé junto ao leito, ele a olhava surpreso. — 

Eu lhe avisei para trazer uma e algumas roupas. 

—  Eu  sei,  mas  eu  não  trouxe.  Não  tinha  a  intenção  de  passar  a 

noite  aqui.  Achei  que  você  me  levaria  de  volta  ao  hotel,  se  eu  lhe 
pedisse. 

—  É  mesmo?  —  O  tom  de  sua  voz  era  zombeteiro.  —  Pois  se 

enganou completamente! Ouça, não tenho  a  menor  intenção de levá-la 
de volta. Portanto, se não trouxe nada 

para  trocar,  preciso  providenciar  alguma  roupa  para  você. 

Francamente, por esta eu não esperava! — exclamou César, impaciente 
e contrariado. 

Em  seguida,  ele  deu-lhe  as  costas  e  abriu  algumas  gavetas, 

procurando alguma coisa na cómoda. Glenda, por sua vez, observava-o 
confusa e constrangida, sentindo as 

lágrimas querendo  brotar de seus olhos. Nisso, ele voltou junto à 

cama, com uma camisa listrada de pijama nas mãos. 

Sentou-se novamente ao lado dela e dobrou o corpo 
para  a  frente  a  fim  de  examinar-lhe  o  rosto.  Ela  então  virou  a 

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cabeça para o outro lado, para que ele não pudesse ver-lhe as lágrimas. 

—  Você  não  precisa  se  preocupar  comigo.  Posso  muito  bem  dar 

um  jeito  nisso  sozinha.  Apenas  me  deixe  em  paz.  Estou  bem!  — 
obstinou-se em dizer. 

César segurou-lhe o queixo, obrigando-a a voltar o rosto para ele, 

a fim de ver-lhe a fisionomia. 

— Não, você não está bem! Ainda tem febre e está muito abatida! 

Agora,  deixe-me  ajudá-la  a  tirar  suas  roupas  e  a  vestir  esta  minha 
camisa — ele falou com firmeza. 

— Certamente vai cobri-la até os joelhos. — O riso fez-lhe tremer 

a voz. 

— Você vai ficar muito sensual nela, o que não será bom para nós 

dois, considerando-se o seu estado! Agora vamos, sente-se na cama. 

24 
—  Não.  Vá  embora,  por  favor.  Eu...  eu  mesma  vou  tirar  minhas 

roupas e vestir a camisa. Prometo! Mas vá embora! 

— pediu ela, num fio de voz. 
—  Tudo  bem!  —  Ele  se  levantou  e  saiu  do  quarto,  deixando  a 

camisa. 

Aliviada, Glenda sentou-se na cama. Ainda sentia vertigens, mas o 

enjoo  passara.  Trocou  a  blusa  pela  camisa  de  tecido  acetinado, 
reparando que era grande demais 

para ela. Mal teve tempo de abotoá-la e um súbito calor a invadiu 

toda.  Era  a  febre  que  estava  voltando.  Cambaleando,  atravessou  o 
corredor e molhou a testa no banheiro. 

Ao  retornar  ao  quarto,  ainda  mais  combalida,  desabotoou  a 

camisa,  deixando-a  escorregar  para  o  soalho  antes  que  ela  caísse  na 
cama, sucumbida pelo cansaço. 

Passadas  algumas  horas,  Glenda  percebeu  vagamente  que  César 

estava no quarto. Ao lado da cama, ele insistia para que ela se sentasse 
um instante a fim de tomar um 

remédio. 
Depois  de  ingerir  o  medicamento,  ela  voltou  a  deitar-se,  sem 

ânimo.  Pouco  a  pouco,  porém,  a  cabeça  parou  de  latejar  e  ela  foi  se 
sentindo melhor, apesar do suor 

que  lhe  encharcava  o  corpo.  Lentamente,  o  sono  foi  chegando  e 

ela,  virando-se  de  lado  em  busca  de  uma  posição  mais  confortável, 
constatou, com surpresa, que César 

também  estava  deitado  na  cama,  bem  próximo  dela.  Ele  havia 

virado  as  costas  largas  e  bronzeadas,  na  cama,  para  ela,  e  estava 
usando apenas um short. Chamou-o, mas 

não  obteve  resposta  e,  enquanto  se  perguntava  por  que  motivo 

ele estaria ali, adormeceu. 

Glenda  abriu  os  olhos  com  a  luz  do  sol  batendo-lhe  no  rosto.  Os 

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raios  solares  entravam  obliquamente  no  quarto,  Através  das  persianas 
abertas da janela. Olhou para 

o  teto,  pestanejando,  e  ouviu  o  som  de  ondas  do  mar  morrendo 

numa praia invisível, o farfalhar das folhas das palmeiras sopradas pela 
brisa suave, o grito agudo 

de um papagaio e o matraquear de um animal que poderia ser um 

macaco.  Todos  os  sons  penetravam  por  duas  janelas,  uma  diante  da 
outra, de modo que o ar circulava 

livremente  pelo  quarto.  Um  ventilador,  no  alto,  fazia  um  leve 

zumbido  que  não  chegava  a  perturbar.  Olhou  para  o  outro  lado  da 
cama. Não havia 

25 
nem sinal de César, mas lembrava-se perfeitamente de tê-lo visto 

ali, antes de adormecer. 

com  cuidado,  esforçou-se  para  se  sentar.  Tanto  a cabeça  como  o 

estômago  pareciam  normalizados,  sem  nenhum  sintoma  desagradável. 
O pesadelo tinha passado. Tudo que 

sobrara  era  um  sentimento  opressivo  de  culpa  pelo  trabalho  que 

involuntariamente dera a César. Logo ali, no seu doce refúgio! 

Consultando  o  relógio  de  pulso,  ela  verificou  que  já  eram  quase 

duas e meia da tarde. Tarde de sexta-feira. Tinha que levantar e achar 
César, entrevistá-lo e, depois, 

pedir-lhe que a levasse de volta ao hotel. Cautelosamente, Glenda 

ficou  em  pé,  sentindo-se  apenas  um  pouco  fraca.  Olhou  em  torno,  as 
paredes pintadas de branco e 

o piso de ardósia, sobre o qual havia tapetes de palha espalhados 

aqui e ali. As cadeiras também eram de palha e as almofadas da cama, 
fofas e coloridas. Um grande 

quadro  ornamentava  uma  das  paredes  e,  apesar  da  simplicidade 

do aposento, a mobília era da melhor qualidade. 

Sobre  a  cadeira  estavam  a  frasqueira  de  Glenda  e  um  roupão  de 

banho.  Ela vestiu-o por  cima  do  pijama, lembrandose,  subitamente,  da 
observação de César de que ficaria 

muito  sensual  dentro  da  camisa.  Intrigava-a  o  modo  como  ele  a 

tratara  na  véspera:  ora  amável  e  gentil,  ora  áspero  e  autoritário. 
Certamente, arrependera-se de tê-la 

convidado para o passeio. Que falta de sorte, lamentou-se Glenda. 

Ter ficado doente justamente quando reencontrara o homem que mais a 
fascinara em toda sua vida! 

Após deixar o quarto, ela cruzou um corredor estreito, passou pelo 

banheiro e atravessou o hall que dava acesso à sala de estar. Havia ali 
uma parede toda de vidro, 

com  portas  corrediças.  A  parede  oposta  tinha  divisórias  de 

persianas  de  madeira,  que  presumivelmente  moviam-se  para  frente  e 

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para trás, permitindo menor ou maior 

circulação de ar no aposento, conforme a necessidade. Através da 

porta  de  vidro,  podiase  ver  a  varanda  e  a  vista  da  baía  de  Samana, 
brilhando aos reflexos dourados 

do sol. 
Duas  rústicas  poltronas  de  bambu,  com  almofadas  forradas  do 

mesmo  tecido  usado  no  dormitório,  estavam  dispostas  uma  em  frente 
da outra. Entre ambas havia uma mesa 

26 

baixa e comprida, e outra, redonda e menor, próximo à cozinha. 
Glenda estava apreciando a paisagem quando ouviu uma voz atrás 

de si. 

— Sra. Thompson? 
Ela  voltou-se  e  olhou  surpresa.  Um  rapaz  estava  postado  no 

batente  da  porta.  Era  magérrimo  e  usava  bermuda  de  algodão  leve  e 
uma camiseta azul. Sua pele morena reluzia, 

o  cabelo  liso  era  preto  como  carvão  e  os  olhos,  grandes  e 

castanhos,  eram  doces  e  gentis.  Quando  sorriu  para  ela,  abrindo  os 
lábios grossos, exibiu dentes muito 

alvos. 
— Sou Alberto Jones — ele apresentou-se. — Cuido da casa para o 

patrão. 

— O patrão? Você está falando do senhor Estrada? — corrigiu ela. 

— Onde está 

ele? 
—  No  momento,  acho  que  está  em  La  Pasquale.  Vai  voltar  mais 

tarde. Recomendou para que ficasse à vontade aqui, senhora. Sente-se 
melhor agora? 

— Muito melhor, obrigada. 
—  Que  bom,  então  vou  preparar  alguma  coisa  para  a  senhora 

comer. 

— Você fala inglês muito bem, Alberto. Onde foi que aprendeu? — 

A curiosidade jornalística tinha despertado em Glenda. 

—  Toda  a  minha  família  fala  um  pouco  de  inglês,  senhora.  Meus 

parentes  vieram  da  América  há  muito  tempo.  Eram  escravos  lá.  Aqui 
são pessoas livres, embora pobres. 

Entretanto, sinto saudade da América. 
—  Você  também  fala  o  espanhol?  —  Ela  gostaria  de  entrevistá-lo 

com o gravador ligado a fim de captar a pronúncia de seu inglês arcaico. 

—  Sim,  senhora.  Aprendi  o  espanhol  na  escola.  Só  falamos  em 

inglês  entre  a  gente,  ou  com  os  turistas.  E  então?  Quer  comer  alguma 
coisa? 

— Sim, obrigada. Que tal ovos à pocherl — ela sugeriu. 

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27 
CAPÍTULO III 
 
Alberto  não  sabia  o  que  eram  ovos  à  pocher,  por  isso  Glenda 

ofereceu-se  para  ensinar-lhe  como prepará-los,  e  ambos  dirigiram-se  à 
ampla cozinha, onde os armários 

eram brancos, a pia, de aço inoxidável, e o fogão, a gás, além de 

oferecer uma excelente vista para a baía. 

Sob  o  olhar  interessado  de  Glenda,  quebrou  os  ovos  dentro  de 

uma panela com água fervente. Depois, ele lhe trouxe pão, manteiga e 
uma garrafa de água potável. 

Enquanto  saboreava  a  refeição,  sentada  à  mesa  da  cozinha, 

Glenda  conversava  com  Alberto.  O  rapaz  tinha  apenas  dezoito  anos  e 
ainda frequentava a escola. Estava de 

férias  naquela  semana,  por  causa  dos  festejos  de  Páscoa.  O  pai 

era  pescador,  a  mãe  cuidava  da  casa;  tinha  irmãos  e  irmãs,  e  todos 
moravam perto da praia particular, 

pertencente à casa de César. 
—  Papai  costuma  pescar  cavalinhos,  vermelhos  e  outros  peixes 

grandes  existentes  na  baía.  Ele  usa  redes,  que  joga  da  canoa.  É  um 
trabalho perigoso, às vezes, principalmente 

durante  as  tempestades.  Alguns  pescadores  já  morreram 

afogados,  por  isso  eu  não  quero  fazer  este  tipo  de  trabalho.  Alberto 
sacudiu a cabeça, inconformado. — Quero 

ir  para  a  universidade  e  me  formar advogado  ou  professor.  O  dr. 

Estrada diz que vai me ajudar se eu me esforçar e passar nos exames. 
Quero também ir para os Estados 

Unidos. Tenho um primo, Fernando, que vive lá. Ele joga beisebol 

em um time do Kansas. 

— É mesmo? Ele joga então para os Royals? 
— Isso mesmo — concordou Alberto. — A senhora é americana? 
— Não. Sou canadense. 
—  De  Toronto?  —  O  rosto  de  Alberto  brilhava  de  excitação  e 

entusiasmo. — Conhece o time dos Blue Jays? 

28 
— Claro que sim — respondeu, rindo da agitação do rapaz. 
— Dois amigos de Fernando jogam neste time. É um grande time. 

Um  dia  ainda  vou  ao  Kansas  e  depois  a  Tpronto  ver  Fernando  e  seus 
amigos jogarem. 

Conversaram  mais  um  pouco  sobre  beisebol  e  as  partidas  do 

campeonato  mundial  do  ano  anterior.  Depois,  Alberto  foi  buscar  as 
roupas de Glenda, que já estavam lavadas 

e secas. 
— Foi minha mãe quem passou a ferro — disse ele. 

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— Pois agradeça a sua mãe por mim. — Ela sorriu, prontificando-

se a lavar a 

louça que havia usado. Em seguida foi para o quarto. 
Era  ótimo  estar  bem  disposta  novamente,  pensou,  enquanto 

tomava  uma  boa  ducha  no  banheiro,  o  que  a  fez  sentir-se  ainda  mais 
confortável. No quarto, vestiu as roupas 

limpas e dobrou a camisa do pijama, colocando-a sobre a cómoda. 

Estava  pensando  em  arrumar  a  cama  quando  Alberto  entrou  trazendo 
lençóis e. fronhas limpos. 

—  —  Pode  deixar,  senhora.  O  patrão  falou  para  a  senhora 

descansar  lá  fora,  na  varanda,  até  ele  voltar.  Lá  tem  uma  sombra 
gostosa a esta hora. Ele recomendou também 

que a senhora evitasse o sol. 
—  Tudo  bem,  vou  fazer  o  que  o  seu  patrão  mandou  ela  brincou, 

achando  César,  de  repente,  muito  paternal.  No  entanto,  pelo  que  ela 
lembrava, ele não era nada disso 

em Montreal. 
Caminhou devagar até a sala, analisando detalhadamente a casa. 

Não  era  muito  grande:  tinha  um  único  quarto,  a  sala  de  estar,  o 
banheiro e a cozinha. Não possuía 

nenhum escritório onde César pudesse escrever seus livros. Onde 

será  que  ele  trabalhava  quando  estava  na  casa?  Deu  mais  alguns 
passos, atravessando as portas de 

vidro corrediças. Reparou, então, que num canto do quarto, atrás 

da  parede  divisória,  havia  uma  escrivaninha  e  uma  estante  no  alto  da 
parede. Esperando encontrar 

ali  algum  material  do  livro  de  César,  Glenda  examinou  os  papéis 

espalhados ao lado de uma máquina de escrever portátil. Contudo, não 
havia nada entre eles que se 

assemelhasse  a  um  romance  inédito.  Eram,  na  maior  parte, 

folhetos impressos em espanhol. 

29 
Deu  uma  olhada  na  estante.  Todos  os  livros  pareciam  relacionar-

se com assuntos médicos. Eram compêndios de anatomia, bioquímica e 
de doenças tropicais. Havia, além 

disso,  revistas  especializadas,  em  medicina,  empilhadas  nas 

prateleiras.  Os  livros  e  as  revistas,  sem  exceção,  estavam  escritos  em 
inglês. 

Lembrou-se de que Alberto lhe contara sobre o dr. Estrada ajudá-

lo na formação universitária se se esforçasse nos estudos. Logo, aqueles 
livros deveriam pertencer 

ao pai de César. Mas por que o dr. Estrada os teria deixado ali, no 

esconderijo do filho? Talvez ambos dividissem a casa. Era possível 

Levada pela curiosidade, Glenda tirou um dos livros da estante e o 

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abriu.  Havia  um  nome  rabiscado  nele:  Rafael  Estrada,  e,  abaixo  deste, 
um endereço em Chicago. 

Recolocou o  livro  no  lugar,  tentando  recordar-se  de  alguma  coisa 

que César pudesse ter lhe contado sobre o pai. Não se lembrava de tê-
lo ouvido mencionar que o pai 

era médico. Na verdade, estava certa de que o sr. Estrada era um 

alto  funcionário  do  governo.  Possivelmente,  fora  médico  antes  de 
tornar-se um executivo. 

Bem,  isso  ela  descobriria  quando  fizesse  a  entrevista  com  César. 

Por  enquanto,  seguiria  as  recomendações  dele:  sentaria  na  varanda  e 
relaxaria, aproveitando ao máximo  

a  beleza  dos  arredores.  Aquele  paraíso  tropical  era  um  delicioso 

sonho  que  se  tornara  realidade!  Ali  estava  ela  Cercada  de  palmeiras 
sussurrantes, numa praia particular, 

localizada  em  uma  isolada  baía  e  protegida  por  promontórios 

rochosos.  A  par  disso  tudo,  podia  usufruir  de  todas  as  comodidades 
modernas! 

Depois de contemplar a paisagem, desceu os degraus da varanda 

que conduziam a um cais amplo, todo de madeira, com espreguiçadeiras 
dispostas em torno de uma mesa 

quadrada. Àquela hora do dia, o cais era protegido pela sombra da 

casa. Estirando-se numa delas, Glenda suspirou extasiada. 

Sem  querer,  seus  pensamentos  vagaram  em  torno  de  César.  No 

dia  anterior,  quando  ela  lhe  perguntara  sobre  a  esposa,  César  irritara-
se. 

"Não vamos falar sobre o meu casamento", responderalhe áspero. 

Por quê? Por que negava-se a falar sobre o assunto? 

30 
Teria  sido  um  casamento  fracassado?  A  casa  fora  projetada  para 

uma única pessoa, e não havia sinais de que uma mulher vivia ou tinha 
vivido nela. Só havia 

algumas  peças  de  roupa  penduradas  no  guarda-roupa.  Apenas 

roupas masculinas, de César. 

O  som  de  um  veículo  se  aproximando  da  casa  fez  Glenda, 

instintivamente,  endireitar  o  corpo.  Esperou  ansiosamente  que  César 
viesse ao encontro dela. Efetivamente, 

ele  surgiu  pouco  depois.  A  passos  largos,  atravessou  a  varanda, 

ágil e esbelto, de camisa branca e calça jeans. Transpôs os degraus com 
um pulo e aproximou-se. 

O  prazer  em  vê-lo  foi  tão  intenso,  que  Glenda  surpreendeuse 

consigo  mesma.  Levantou-se  do  sofá,  estendendo-lhe  as  mãos  num 
gesto acolhedor. 

As mãos dele comprimiram as de Glenda com força, e, inclinando 

a cabeça, beijou-a nas faces: 

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—  Que  bom  vê-la  aqui,  tão  bem  disposta!  —  murmurou,  ainda 

segurando-lhe  as  mãos.  —  É  um  prazer  voltar  para  casa  e  encontrar 
você esperando por mim. Já está em forma 

agora? 
— Estou ótima! — afirmou, embora sentisse o pulso acelerado, e o 

coração  querendo  pular  do  peito  pela  simples  presença  de  César.  — 
Estou muito contente por você 

ter  voltado.  Há  tanta  coisa  que  eu  preciso  saber.  Mas,  antes, 

quero  lhe  pedir  desculpas  por  ter  lhe  dado  tanto  trabalho,  na  noite 
passada. Obrigada por ter cuidado 

de mim! 
— Não tem de quê. — Soltou suas mãos. — Eu é que fico contente 

por não ter sido nada de grave. Apenas um malestar provocado pelo sol 
ou algum alimento mal cozido. 

A  princípio,  fiquei  com  medo  de  que  tivesse  contraído  hepatite. 

Acontece  muito  disso  por  aqui,  apesar  do  cuidado  que  procuramos 
tomar e de todas as advertências 

que fazemos... 
—  Ele  se  interrompeu,  com  ar  preocupado,  e  depois  deu  de 

ombros. — Mas não importa. Você é forte, 

saudável!  Portanto,  será  difícil  contrair  alguma  doença.  Bem 

diferente 

das pessoas pobres que eu... — calou-se novamente, afastandose 

um pouco e repelindo a súbita melancolia. Forçando um sorriso, voltou-
se para ela e perguntou: — Você 

já comeu? Ela respondeu que sim e disse: 
— Eu ensinei Alberto a preparar ovos à pocher. 
31 
— Muito bem! Então será que agora gostaria de ir nadar comigo? 
—  Eu  adoraria...  —  afirmou  ela,  fitando  as  águas  tranquilas  do 

mar,  sob  a  luz  dourada  do  sol  quase  poente.  Mas  gostaria  .de 
entrevistá-lo antes de voltar para o 

balneário... 
— Mais tarde — cortou ele. — Agora quero dar um bom mergulho! 

Sempre faço isso quando volto de... — Deixou a frase no ar e afastou-se 
na direçâo das escadas. — Vamos! 

-.convidou. — Venha se trocar. Você trouxe seu maio, não é? Eu o 

vi dentro da frasqueira... 

Sem  discutir,  Glenda  o  seguiu  na  direção  da  casa.  Afinal  de 

contas, não teria a chance de nadar junto com ele outra vez. Dali a dois 
dias, iria embora para o Canadá 

e  talvez  nunca  mais  o  visse.  Aquela  ideia  foi-lhe  desagradável,  e 

tratou  de  esquecê-la.  Seria  uma  tolice  estragar  aquele  momento  tão 
bom com pensamentos ruins. O 

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amanhã  seria o  amanhã...  O  importante  agora  era  viver o  hoje... 

E,  naquele  momento,  ela  queria  apenas  aproveitar  ao  máximo  a 
companhia de César. 

Na praia a água estava exatamente do jeito que Glenda esperava: 

gostosa  e  clara.  Nadou  ao  lado  de  César  até  um  dos  promontórios  e, 
depois do banho de mar, escalaram, 

divertidos,  os  rochedos  íngremes.  Pararam  num  pequeno  platô 

gramado,  sobre  o  qual  estava  montada  numa  estrutura  de  aço  que 
sustentava as luzes de navegação. Ao lado 

dessa, havia uma outra que fixava as pás de um moderno moinho 

de  vento,  que  giravam  lentamente,  movidas  pela  leve  brisa.  Era 
provavelmente a estação geradora de 

energia elétrica do farol. 
— Mas é óbvio, quando não há vento, não há luz —  riu César. — 

Isso é típico do país. Seria péssimo se você estivesse, por exemplo, num 
iate, aproximando-se do porto, 

e  este  farol  se  apagasse.  Não  demoraria  muito  para  o  iate 

encalhar nos bancos de areia e. afundar depressa. 

Quando  retornaram  a  nado,  o  sol  desaparecia  no  horizonte,  e 

formavam-se  no  céu  nuvens  purpúreas.  Do  outro  lado  da  baía,  as 
montanhas distantes projetavam uma sombra 

escura  delineada  contra  o  verde  profuso  da  vegetação.  Das 

janelas  da  casa,  uma  luz  amarelada  derramava-se  de  duas  candeias 
fixas à parede, debaixo da varanda. 

32 
Novamente  vestida de saia e  blusa  e  recém-saída do banho,  com 

os cabelos molhados, Glenda pegou o gravador, o bloco de anotações e 
uma caneta e retornou ao cais. 

César  já  estava  lá,  de  bermuda  branca  e  camisa  estampada. 

Estava em pé, junto à churrasqueira, observando a queima do carvão. A 
luz de velas ardia numa tigela de 

vidro,  sobre  a  mesa  posta  para  duas  pessoas.  Assim  que  Glenda 

desceu  as  escadas,  Alberto  apareceu  atrás  dela,  com  uma  travessa  de 
salada e uma cesta com pãezinhos 

frescos.  —  Preciso  começar  já  a  entrevista  com  você,  César  — 

disse  ela  decidida.  —  Vejo  que  está  cuidando  do  churrasco,  mas  acho 
que isso não o impede de me responder 

algumas perguntas. Depois, po-É demos usar o gravador. 
—  Gravador?  —  César  voltou-se  para  encará-la.  À  luz  ténue  das 

candeias, ela observou-lhe o rosto carregado. 

— Algum problema? 
— Sim. Por que quer gravar minhas declarações? 
—  Ora!  Isso é  muito  comum  durante  as  entrevistas!  É  beml  mais 

prático  e,  além  do  mais,  com  o  gravador,  é  mais  difícil  o  redator 

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cometer enganos. 

—  Mas  eu  não  quero!  —  retrucou  César  com  frieza,  enquanto 

erguia os bifes de um prato, na mesinha ao lado 

da churrasqueira, para dispo-los sobre a grelha. 
— Mas por quê? — indagou Glenda. 
—  Não  quero  que  nada  do  que  disser  fique  gravado  para  outras 

pessoas ouvirem — tornou ele, com ar de poucos amigos. — Terá que se 
satisfazer em me ouvir e anotar. 

E tome cuidado para não cometer equívocos. 
— Oh, realmente! Você está fazendo tempestade em copo d água 

—  Glenda  irritou-se.  —  Ninguém  mais  vai  escutar  a  gravação  da 
entrevista. A gravação será só para meu 

uso! 
— Você poderia perder o gravador, assim como perdeu a carteira. 

Você  mesma  admitiu  que  é  muito  distraída  —  gracejou  ele.  —  Quem  o 
encontrasse, iria ligá-lo e ouvir 

a gravação. 
—  Mas...  —  Ela  ia  protestar,  mas  logo  mudou  de  ideia.  Na 

verdade,  não  ganharia  nada  com  isso  e  ainda  podia  pôr  tudo  a  perder. 
Está bem — suspirou, por fim, sentando-se 

à mesa. Abriu o caderno de anotações, escreveu o nome dele 
33 
na  primeira  linha  de  uma  página  em  branco  e perguntou  em  tom 

informal: — Você nasceu nesta ilha, não foi? 

—  Eu  não  lhe contei  isso  em Montreal?  —  O  tom da  voz  dele  era 

zombeteiro  e  o  sorriso  provocante.  —  Ah,  Glenda,  assim  você  me 
desaponta! Eu estava certo de que você 

se  lembrava  de  tudo  que  nós  dissemos  anos  atrás.  Achei  que, 

naquela  época,  você  tivesse  se  apaixonado  por  mim,  e  uma  mulher 
apaixonada jamais se esquece do que seu 

amante  lhe  diz.  —  Havia  na  expressão  do  rosto  dele  uma 

suavidade mordaz. 

—  Não  éramos  amantes  em  Montreal.  —  Desta  vez  ela  protestou 

com veemência. 

—  Mas  bem  que  gostaríamos  de  ter  sido  —  recordou  ele  com 

malícia. 

Aquele  comentário  maldoso  tocou-lhe  num  ponto  sensível  e, 

cerrando os dentes, ela lançou-lhe um olhar desconfiado. César, porém, 
já havia voltado sua atenção para 

a churrasqueira. 
—  Acho  que  está  redondamente  enganado  —  defendeu-se.  —  Eu 

era noiva de Greg. Esqueceu? 

—  Casou-se  com  ele?  —  César  perguntou  sem  olhar  para  ela, 

enquanto virava um bife com a espátula. , 

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— Casei. 
—  É  mesmo?  Então,  por  que  não  usa  aliança?  —  Ele  fez  a 

pergunta  de  chofre,  estudando-lhe  bem  a  fisionomia  ao  esperar  pela 
resposta, o corpo ágil, viril e bronzeado 

voltado para ela. 
—  E  você,  por  que  não  usa?  —  ela  contra-atacou,  erguendo  o 

queixo, voluntariosa. 

— Nunca tive uma. 
— Eu não uso aliança porque me divorciei de Greg há quatro anos 

— respondeu com franqueza e um tanto desanimada. 

com  duas  largas  passadas,  César  aproximou-se  de  Glenda  e, 

apoiando-se  na  mesa,  inclinou-se  para  ela,  com  um  olhar  cheio  de 
curiosidade. 

— Quanto tempo esteve casada com ele? 
—  Oh,  uns  dois  anos.  —  Glenda  ergueu  o  ombro  num  gesto  de 

indiferença, mas não conseguiu encará-lo. 

Ele estava bem próximo, irradiando-lhe calor. O cheiro de sua pele 

e de seus cabelos perturbavam-na, fazendo-a 

desejar 
34 
estender a mão e tocar-lhe o joelho nu. e deslizar os de dos até o 

alto de suas coxas másculas. 

— Por que se divorciou? — inquiriu, suave. 
— Ele não queria que eu tentasse uma realização profissional. Ou, 

melhor, não valorizava o meu trabalho. Criticavame sempre que eu saia 
à cata de histórias para 

escrever.  Achava  que  eu  devia  ficar  em  casa,  cuidar  do 

apartamento,  e  queria  me  encontrar  toda  vez  que  ele  chegava  do 
trabalho... e nem sempre isso era possível. 

—  Era  demais  pedir-lhe  isso?  —  César  interveio  bruscamente.  A 

maioria  dos  homens  se  casa  para  que  suas  esposas  fiquem  em  casa 
esperando por eles. 

— Não devíamos ter nos casado!  Ou  melhor, ele é que não devia 

ter  se  casado  comigo.  Eu...  eu  não  podia  fazer  o  que  ele  queria.  Não 
devia ter concordado em me casar 

com ele. Devia, primeiro, seguir minha carreira e só depois ter-me 

casado. Eu sabia que era tão culpada pelo fracasso de nosso casamento 
quanto ele. Mas... jamais 

esperei  que  Greg  me  traísse.  —  Sua  voz  soou  trémula  e,  depois, 

extinguiu-se. 

— Ele conheceu uma outra mulher? — ele deduziu. 
— Sim — admitiu Glenda. 
— E você ficou surpresa? — pilheriou de novo. — Mesmo sabendo 

que você não era o tipo de esposa que ele queria? Quanta ingenuidade, 

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minha cara! Isso sempre acontece! 

—  Agora  sei  disso!  Fui  ingénua  em  pensar  que  ele, 

compreendendo os meus anseios, acataria e aceitaria minhas ausências, 
sem me trair. Afinal, muitas vezes tive que 

compreender as ausências dele, e nem por isso o enganei. Glenda 

estacou  de  súbito,  rabiscando  a  folha  do  caderno.  Estava  um  pouco 
surpresa consigo mesma. Era a primeira 

vez  que  contava  a  alguém  a  sua  grande  decepção  amorosa...  o 

fracasso  de  seu  casamento  com  Greg,  o  namorado  da  adolescência  e 
dos tempos de faculdade, que se tornara 

seu  marido  quase  que  naturalmente.  Talvez  porque  todo  mundo 

as famílias e os amigos — esperasse por aquele enlace. 

—  Estou  contente  por  ter  me  contado  —  murmurou  César, 

erguendo  o  corpo,  apoiado  na  mesa.  —  Isso  altera  muito  os  meus 
planos. Agora que você está aqui, devemos compensar 

todo o tempo que perdemos há oito anos atrás! 
35 
Simplesmente  porque  você  era  noiva  de  Greg.  —  E  afastouse  na 

direção da churrasqueira. 

Perplexa pelo  que acabara  de  ouvir,  Glenda  continuou  rabiscando 

a esmo. De repente, não conseguia se lembrar das perguntas referentes 
à entrevista que queria lhe 

fazer.  Irritada,  percebeu  que  a  entrevistada  fora  ela!  Confusa, 

endireitou  o  corpo  na  cadeira,  arrumou  os  cabelos  por  detrás  das 
orelhas e tentou começar: 

— Você ainda não me respondeu... Nasceu aqui nesta ilha? 
—  O  churrasco  já  está  no  ponto  —  anunciou  ele,  impassível.  — 

Espero que você aprecie. 

— Oh, é claro que sim! Nadar me deixou faminta. Posso ajudar em 

alguma coisa? 

— Ajudar? — zombou ele, trazendo para a mesa dois pratos onde 

colocara os bifes fumegantes. — Pelo que me contou, suponho que você 
não seja muito dada ao serviço 

doméstico. 
—  Não  seja  mal-agradecido!  —  retrucou.  —  Sei  cozinhar  muito 

bem!  Só  não  vejo  por  que  uma  mulher  não  possa  ter  outras  aptidões, 
depois de casada. Greg achava que 

eu devia substituir a mãe dele. 
—  Não  diga!  —  César  colocou  um  dos  pratos  diante  de  Glenda  e 

sentou-se à sua frente. — Quer dizer, então, que não dormiam juntos? 

—  Claro  que  sim!  O  que  estou  tentando  dizer  é  que  Greg  queria 

que  eu  o  tratasse  como  a  mãe  dele  sempre  o  fizera,  além  de  dividir  a 
cama com ele, é claro! — respondeu 

impaciente,  enquanto  pegava  a  travessa  de  salada  que  ele 

background image

oferecia. 

— Greg só estava se comportando como a maioria dos homens — 

disse ele, arrastando as palavras. 

— Você... está querendo dizer que também acha que uma esposa 

deve ser sempre uma serviçal? 

— Para mim, não interessa o que uma mulher faz com seu tempo, 

desde que ela me faça sentir  bem quando vou para a cama com ela — 
sugeriu. 

Subitamente  seus  olhos  se  encontraram,  e  um  estranho  e  leve 

calafrio percorreu o corpo  de Glenda,  apesar da noite tépida. Ao longe, 
ouvia-se o murmúrio suave das 

ondas,  na  praia,  e,  em  algum  lugar,  havia  alguém  tocando  um 

violão. Ela abaixou os olhos depressa, incapaz de encarar os dele 

36 
por  mais  tempo,  e  apanhou  o  garfo,  mecanicamente.  De  algum 

modo,  precisava  mudar  de  assunto.  A  chegada  de  Alberto  com  dois 
copos e uma garrafa de vinho foi providencial. 

Assim que o empregado se foi, César perguntou, sem cerimónia: 
— Você gosta de Alberto? Acha-o interessante? 
—  Conversamos  sobre  beisebol  —  disse  ela,  sorrindo.  Ele  me 

contou que seu pai vai ajudá-lo a cursar uma universidade. 

— Meu pai? — César parecia confuso. - 
— Sim, o dr. Estrada, como ele me disse. Seu pai não é médico? 

Notei que existem muitos livros de medicina na estante. 

César  não  fez  nenhum  comentário,  pois  estava  mastigando.  Em 

seguida, tomou um gole de vinho. 

—  Pensei  já  ter  lhe  falado  sobre  minha  família  quando  estive  em 

Montreal — disse César por fim, enquanto se servia de mais vinho. 

—  Tudo  o  que  você  me  contou  foi  que  seu  pai  trabalha  para  o 

governo dominicano. Não me disse que ele também era médico... 

—  E  não  é!  Minha  mãe  é  médica,  mas  meu  pai  é  advogado  — 

explicou, e logo em seguida esbravejou: — O que está fazendo? 

Glenda  estava  simplesmente  ligando  o  gravador.  O  micro—  fone 

ficara  no  meio  da  mesa,  apontado  para  ele,  de  modo  a  registrar-lhe  a 
voz. 

—  Não  posso  escrever  enquanto  estou  comendo  —  explicou, 

tranquila. — E o que você vai contar sobre sua família é importante para 
o meu artigo. 

—  Não!  —  César  deu  um  berro,  jogando  o  pequeno  microfone 

longe! 

—  O  que  você  pensa  que  está  fazendo?  —  protestou  Glenda, 

levantando-se,  ligeira,  a  fim  de  procurar  o  microfone  que  caíra  na 
escuridão por entre as moitas e os arbustos. 

—  Já  lhe  disse  que  não  quero  gravações!  Anote  ou  guarde  na 

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memória  o  quê  eu  disser  —  ralhou,  cerrando  os  dentes.  —  Está 
entendendo? 

— Não, não estou. Não pensei que você fosse tão temperamental! 

— Ela dobrou um joelho para procurar o microfone 

37 
no  chão,  mas  ele  se  antecipou,  e  suas  mãos  se  encontraram  no 

escuro. Ele estava ajoelhado como ela. 

—  Eu  sinto  muito!  —  desculpou-se.  —  Mas  você  me  deixou 

nervoso.  Além  disso,  não  gosto  de  entrevistas,  e  preferia  que  não 
insistisse mais... Se soubesse o que têm 

sido estes últimos meses... — hesitou por uma fracão de segundo, 

mas, depois, completou: -... para mim... 

— O que quer dizer? Do que está falando? — indagou ela confusa. 
O  fato  de  estar  junto  dele,  em  circunstâncias  tão  íntimas, 

obscurecia  seu  raciocínio  normalmente  frio.  Aquele  tom  doce  com  que 
ele lhe falava induzia-a a entregar-se 

e fazer tudo o que ele queria... 
com  medo  daquele  súbito  impulso,  Glenda  libertou-se  das  mãos 

dele, desistiu de procurar o microfone e pôs-se de pé. 

— O que está acontecendo com você nestes últimos meses? — ela 

perguntou, dirigindo-se a César, também já de pé. 

-Gostaria de poder dizer-lhe — respondeu misterioso. 
— Retornando ao seu lugar à mesa, ele retomou o copo de vinho e 

pediu-lhe: — Sente-se, por favor. Termine sua refeição... 

Ainda  desconcertada,  Glenda  obedeceu,  tentando  entender  o 

motivo  pelo  qual  César  se  recusava  a  ser  entrevistado  com  tanta 
obstinação. 

Por que me convidou a vir até aqui, se você não pretendia deixar-

me entrevistá-lo? — perguntou. 

—  Está  se  esquecendo  de  que  você  é  uma  velha  amiga,  Glenda? 

Além  disso,  queria  que  você  viesse  e  ficasse  aqui  comigo...  Queria 
retribuir-lhe a hospitalidade de oito 

anos atrás. 
Quando terminou de comer, Glenda cruzou o garfo e a faca sobre 

o prato, e olhou para ele. 

—  Você  tem  medo  que  sua  privacidade  seja  invadida,  não  é?  — 

brincou. — Sei que alguns jornalistas não têm cuidado com as perguntas 
que fazem e muitas vezes distorcem 

a verdade. Mas este é o preço que as celebridades têm de pagar, 

e  você  agora  é  uma  delas,  quer  goste,  quer  não.  As  pessoas  querem 
saber tudo a seu respeito, querem 

saber  o  que  o  levou  a  escrever  este  romance.  É  uma  curiosidade 

natural.  Não  é  malevolência.  Eu  gostaria  que  mudasse  de  ideia  e  me 
concedesse a entrevista, ao menos 

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pela nossa velha amizade. Agora 
38 
não  posso  usar  o  gravador,  pois  não  consegui  achar  o  microfone 

no escuro, mas ainda posso anotar suas 

respostas. Por favor, César! 
César  curvou-se  sobre  ela,  o  rosto  iluminado  pela  luz  das  velas. 

Glenda  também  inclinou  o  corpo  para  á  frente,  com  um  sorriso 
provocante e um olhar matreiro. 

—  Cuidado,  linda  mariposa  —  ele  murmurou.  —  Você  pode  se 

queimar. — César, fale sério! 

—  Eu  falo  sério.  Você está  linda  com  essa  pele  branca  levemente 

rosada e esses olhos verdes brilhantes. Prefiro fazer amor com você do 
que responder suas perguntas. 

Estendeu  o  braço  e  tocou-lhe  a  mão.  Os  olhos  dele  novamente 

brilhavam como o âmbar. — Vamos fazer amor, eu e você, esta noite? 

Os  lábios  de  Glenda  umedeceram,  o  desejo  despertou  em  seu 

corpo febril e o coração pareceu ter disparado... InstinI tivamente seus 
dedos finos entrelaçaram-se 

nos  dele,  e  ela  o  olhou  bem  dentro  dos  olhos.  Sua  cabeça 

começou  a  girar  como  se  tivesse  bebido  vinho  demais.  Em  toda  a  sua 
vida, nunca sentira o desejo pulsar 

tão  forte  dentro  de  si  como  naquele  momento.  Mais  do  que 

qualquer outra coisa no mundo, queria responder-lhe: "Sim, quero fazer 
amor com você". 

Mas...  "Tem  sempre  um  mas  na  vida  da  gente...",  pensou.  Mas 

César era casado. E essa amarga lembrança teve o efeito de um jato de 
água fria em sua cabeça. De repente, 

tensa, Glenda retraiu a mão. 
— Não! — disse-lhe com frieza. 
— Você não está sendo sincera — ele murmurou. 
— Estou — assegurou ela. 
— vou provar a você que não. — Empurrou a cadeira para trás. — 

Mas agora está na hora da sobremesa. Salada de frutas! Gosta? 

Depois  da  sobremesa,  tomaram  um  saboroso  café  dominicano  e 

um licor. 

Após juntar os pratos usados, César subiu de um salto os degraus 

que  levavam  à  varanda.  Embora  a  distância,  GlenI  da  ouviu-o  chamar 
por Alberto... 

39 
CAPÍTULO IV 
 
Glenda  deixou-se  ficar  estática  na  cadeira,  não  acreditando  nas 

próprias emoções. Tudo aquilo não podia ser real. Devia ser uma ilusão, 
uma alucinação provocada 

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por  aquela  noite  suave  e  tropical.  A  música  romântica  de  um 

violão,  ao  longe,  o  sussurro  sensual  das  palmeiras,  o  murmúrio  das 
ondas batendo languidamente nos rochedos, 

a luz do luar sobre a superfície do mar, toda aquela atmosfera era 

um convite ao amor! 

Uma  mulher  vivida  como  ela,  desapontada  com  um  casamento 

prematuro e frustrado, fruto de um namoro de adolescentes, não podia 
ser tão idiota assim! Estava sendo 

irracional...  quase  a  ponto  de  entregar-se  à  sedução  sutil  de  um 

homem  experiente  e  sofisticado  como  César.  Oito  anos  atrás, 
apaixonara-se perdidamente por ele. 

Entretanto, oito anos era muito tempo! 
Agora  só  poderiam  curtir  uma  boa  e  maravilhosa  amizade.  Mas  o 

que fazer, se o sangue fervia em suas veias? Se tudo que desejava era 
abandonar-se aos prazeres da 

paixão... . Não era a primeira vez, desde que seu casamento com 

Greg  se  dissolvera,  que  tinha  recebido  a  proposta  de  um  homem  para 
irem para a cama, mas havia sido 

muito  fácil  recusálas,  pois  nenhum  dos  candidatos  despertara  a 

menor atração... 

Agora  era  diferente!  Naquela  noite,  se  César  a  convidasse  outra 

vez  para  dormir  com  ele,  talvez  ela  não  resistisse  ao  calor  da  paixão 
sufocada em seu íntimo, momentos 

atrás.  Fisicamente,  ele  a  atraía  como  nenhum  outro  homem 

jamais  o  fizera  nem  mesmo  Greg.  Desejava ardentemente tocar César, 
acariciá-lo e estar junto dele. Esse 

mesmo  desejo  Glenda  experimentara-o  anos  atrás,  no  último 

encontro com César. Entretanto, havia prometido casar-se com Greg. 

Naquela noite, porém, aquele sonho do passado poderia 
40 
se  transformar  em  realidade.  Só  que,  agora,  o  empecilho  era,  a 

esposa de César. 

Parecia  um  jogo  cruel  do destino,  uma  armadilha  que  a  vida  lhes 

preparara, um desencontro sem fim... 

Como  poderia  tomar  um  homem  de  outra  mulher,  assim  como 

Antoinette  tomará-lhe  Greg?  Jamais!  Seu  sonho  de  amor  continuaria 
sendo apenas um sonho. 

Suspirando,  Glenda  voltou  a  atenção  para  o  seu  caderno  e 

começou  a  anotar  as  poucas  informações  que  César  lhe  havia  dado. 
Nascido na República Dominicana. Pai: um 

advogado, funcionário público. Mãe: formada em medicina. Parou, 

indecisa, com a caneta no ar, franzindo a testa, ao se lembrar dos livros 
médicos na estante e do 

nome escrito em um deles: Rafael... 

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César voltou trazendo uma bandeja que pôs em cima da mesa. O 

aroma do café recém-preparado exalava de um pequeno bule. 

Solicito, colocou um prato com salada de frutas diante de -Glenda 

e encheu duas xícaras de café. 

—  Em  que  ano  você  nasceu?  —  ela  foi  logo  perguntando, 

determinada a ocultar seus pensamentos por detrás de um frio interesse 
profissional. E pretendia partir tão 

logo obtivesse os dados necessários. 
—  Mas  Glenda,  você  sabe  minha  idade!  Eu  devo  ter  lhe  contado 

em Montreal. 

"Por que ele insiste em evitar minhas perguntas?", indagou-se ela. 
"Talvez realmente não goste de ser entrevistado. Ou..." A suspeita 

surgiu e se espalhou rápida em sua mente... 

"tallvez esteja me escondendo algo..." 
— Tudo bem — exclamou Glenda, sem se alterar. — Se você não 

quer  me  dizer,  vou  tentar  adivinhar.  Está  com  trinta  e  seis  anos. 
Acertei? 

— Se é o que acha... — respondeu irónico. 
Glenda comprimiu os lábios com firmeza, recusando-se a se deixar 

vencer. 

— E seu pai? Ainda trabalha para o governo? 
—  Não.  Aposentou-se.  —  Ele  encolheu  os  ombros,  como  se 

considerasse a informação sem importância. 

41 
— E quanto a sua mãe? Ainda está viva? Estudou medicina neste 

país? 

—  Sim,  ainda  está  viva.  Meu  pai  também.  Estão  casados  há 

tempos  e  se  dão  muito  bem.  Minha  mãe  não  estudou  aqui.  Ela  é  de 
origem americana, nasceu em Milwaukee, no 

Estado  de  Wisconsin.  Veio  para  cá  com  um  grupo  de  jovens 

médicos para trabalhar como voluntária num hospital recém-construído, 
isso já faz tempo! Recebeu ajuda financeira 

dos  Estados  Unidos.  Então,  conheceu  meu  pai,  se  gostaram  e 

casaram.  —  César  lançou-lhe  um  outro  olhar  zombeteiro  e  passou  a 
mão pelos cabelos. — vou simplesmente 

acrescentar  um  detalhe  para  os  seus  leitores  mais  românticos. 

Minha mãe é tão responsável pela cor de meu cabelo como aquele pirata 
inglês do qual já lhe falei. 

Ela é alta e loira, com aparência  de escandinava. Seus ancestrais 

emigraram da  Suécia para a América,  no século passado.  vou lhe dizer 
inclusive o nome dela: Ingrid 

Jensen.  Por  aí  você  vê  que  sou  uma  mistura  de  norte  e  sul,  de 

claro e escuro, e minha crença está na livre expressão do pensamento e 
no amor livre. É uma herança 

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de  meus  antepassados  escandinavos,  sempre  em  conflito  com  a 

possessividade  ardente,  herdada  de  meus  antepassados  espanhóis.  É 
difícil conviver com esse temperamento. 

Mas chega,  por enquanto. Pare de  rabiscar e coma sua salada de 

frutas. Seu café já está frio... 

Glenda  fez  o  que  ele  disse:  pôs  a  caneta  de  lado  para  pegar  a 

colher  de  sobremesa.  A  salada  de  frutas,  com  pedaços  de  abacaxi, 
laranja e banana, estava deliciosa, 

e o café, apesar de morno, era estimulante. 
Comia  e  bebia  em  silêncio,  refletindo  sobre  o  que  acabara  de 

ouvir.  Aqueles  detalhes  a  respeito  da  mãe  dele  e  o  temperamento 
descrito não transpareciam no livro 

de  César.  O  romance  que  escrevera  não  revelava  absolutamente 

nada sobre si mesmo, limitando-se apenas a fazer uma análise objetiva 
dos tipos latino-americanos mais 

comuns. Intrigada, ela tornou a pegar a caneta. 
—  Você  não  me  falou  do  tempo  em  que  sua  mãe  viveu  em 

Montreal. Tem irmãos ou irmãs? 

— Só um irmão — respondeu, lacónico. 
—  Morou  em  Santo  Domingo,  quando  menino?  Frequentou  a 

escola local? 

42 
— Amanhã, talvez. 
— O que disse? — Olhou para ele, confusa. 
César estava recostado na cadeira e acendia um charuto entre os 

lábios com a mão direita. 

— Talvez eu lhe conte mais amanhã — esclareceu. — Agora já não 

tenho  vontade  de  responder  mais  nenhuma  pergunta.  Para  dizer  a 
verdade, acho que todo esse interrogatório 

está  sobrecarregando  demais  minha  imaginação.  Inventar 

histórias não é realmente meu forte. — Deu uma risada gostosa. 

—  Mas  você  é  um  romancista  —  argumentou  Glenda.  Inventar 

histórias,  ou  melhor,  transformar  os  fatos  em  ficção  é  a  sua  profissão. 
Não pare, por favor, responda o 

resto  das  perguntas  agora.  Eu...  eu  não  posso  ficar  até  amanhã. 

Preciso voltar ao hotel esta noite. 

—  Responderei  o  restante  das  questões  amanhã,  com  a  condição 

de que passe a noite aqui comigo. É este o preço que terá de pagar se 
quiser me entrevistar. - 

César  inclinou-se  para  ela  e  acrescentou  com  voz  suave:  —  Você 

vai ficar, Glen da, e vamos tornar real aquele sonho do passado, quando 

éramos  jovens  e  honestos  demais  para  praticar  o  amor  livre... 

Mais uma vez aquela excitação lhe 

fervia  o  sangue.  Aquela  chama  tranquila  no  olhar  de  César  e  a 

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ligeira curva ascendente 

no  canto  de  sua  boca  incomodavam-na.  Eram  uma  tentação  para 

que  concordasse  em  passar  a  noite  com  ele  e,  quem  sabe,  atingir 
alturas vertiginosas de um êxtase 

desconhecido.  A  educação  que  recebera  e  a  experiência 

desapaixonada  com  Greg  haviam-na  levado  a  crer  que  o  êxtase 
proporcionado no ato do amor fosse apenas um 

mito, criado pelos românticos. 
—  Não  posso  ficar.  E  nem  fazer  o  que  você  quer  que  eu  faça  — 

respondeu ela, lutando contra o desejo de amá-lo e possuí-lo com todos 
os sentidos. — Também não estou 

disposta  a  pagar  o  preço  que  me  pede  pela  entrevista.  vou  me 

arranjar com as informações que já tenho e basear-me no conteúdo do 
seu livro. — Empurrou a cadeira 

para  trás  e  levantou-se.  —  Deixei  um  bilhete  para  minha  amiga 

Ida, dizendo que se eu não voltasse ontem à noite, eu estaria em casa 
hoje, sem falta. Se eu não aparecer, 

ela  vai  ficar  preocupada.  Agora,  por  favor,  seja  gentil  e  leve-me 

para o hotel. César, 

peço-lhe pela nossa amizade! 
43 
Ele  também  ficou  de  pé  e  esmagou  o  charuto  no  cinzeiro. 

Lentamente, contornou a mesa. Alto e ereto, postou-se diante dela, com 
aquele brilho de âmbar nos olhos. 

— Nossa amizade não é suficiente para me convencer a levá-la de 

volta ao  hotel.  —  Ele  estava  aparentemente tranquilo, mas  seu  tom  de 
voz era enérgico. — Você vai 

ficar aqui esta noite. Não desejo ser seu amigo, apenas. Quero ser 

seu amante também. Era o que eu queria, da última vez que nos vimos, 
mas não houve tempo, nem 

oportunidade.  Agora  temos  ambos!  E  não  vou  permitir  que  volte 

para o hotel ou mesmo para o Canadá sem primeiro fazermos amor. 

— Mas... mas Ida... — balbuciou Glenda. 
—  Esqueça  Ida  —  insistiu,  segurando-lhe  as  mãos  e  tocando-lhe 

com  os  lábios  as  palmas  febris.  —  Sua  amiga  não  vai  ficar  preocupada 
com você. Hoje cedo, enquanto 

você dormia, peguei o carro e fui até o hotel avisar a gerência que 

você  só  retornaria  no  domingo  de  manhã,  antes  de  seguir  para  o 
aeroporto e embarcar no voo para 

Toronto.  Pedi  permissão  para  ir  até  seu  quarto  e,  por  sorte,  Ida 

estava lá. Ela prontificou-se a arrumar a mala para você, quando eu lhe 
contei sobre o seu mal-estar 

imprevisto.  Mandou-lhe  um bilhete  dizendo  para você  se  cuidar  e 

aproveitar ao máximo sua estada aqui comigo. 

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Dito  isso,  César  começou  a  atraí-la  para  si,  e,  completamente 

atónita com o que acabara de ouvir, Glenda nem percebeu. 

—  Portanto  —  prosseguiu  ele  -,  vamos  aproveitar  ao  máximo 

esses  dois  dias,  juntos.  Vamos  ter  um  caso...  Um  caso  complicado, 
difícil, cheio de desencontros, adiado, 

ansiosamente esperado... mas o melhor caso de amor! 
—  Não,  não  vou  ter  caso  algum!  —  exclamou  ela,  irritada, 

desprendendo-se dele abruptamente. 

—  Não  acha  que  já  perdemos  muito  tempo?  —  O  hálito  dele 

envolvia-lhe  os  lábios,  tentadoramente.  —  Beije-me,  Glenda!  — 
murmurou. — Sei que você quer me beijar... 

Beije-me  e  mostre-me,  assim,  que  perdoa-me  por  ter  planejado 

prendê-la  comigo,  esta  noite.  Confesse  que  também  me  deseja  tanto 
quanto eu! 

Não  era  um  apelo.  Na  verdade,  César  ordenava-lhe,  doce  e 

gentilmente, que ela o beijasse. Instintivamente, Glenda entreabriu 

44 
os  lábios,  deixando-se envolver  por  aqueles  braços fortes.  Queria 

sentir  o  contato  excitante  da  língua  dele,  e,  então,  cingiu-lhe  o  rosto 
com as mãos, trazendo 

os lábios de César para junto dos seus. Assim que sentiu o contato 

firme  e  quente  daquela  boca  sensual,  ela  deixou  transbordar  toda  a 
paixão que reprimira e guardara 

dentro  de  si  por  tanto  tempo!  Impulsivamente,  seus  dedos  finos 

foram subindo até os cabelos grisalhos espessos e rijos. 

Abrasado  por  aquele  fogo  inesperado,  César  ofegou,  entregando-

se àquele beijo avassalador. Abraçou-a com mais força, comprimindo o 
corpo másculo contra o outro, 

macio e curvilíneo, até fazê-la sentir a rija virilidade dele, através 

do tecido fino da saia. 

Por um momento sublime, Glenda se perdeu naquele redemoinho 

de  estranhos  desejos,  apenas  envolta  nas  sensações  sutis  que 
percorriam todo seu corpo. O calor físico 

que  transbordava  dele  transpassava-lhe  a  finura  da  saia, 

irradiavase  através  de  sua  blusa,  queimando-a.  O  gosto  doce  de  sua 
boca mesclava-se ao travo do tabaco. 

Sua  língua  infiltravase,  impertinente,  demorando-se  ali,  num 

duelo  terno  e  torturante.  Agarrou-se  nos  cabelos  encaracolados,  os 
seios endurecidos colados ao peito 

largo. 
Entretanto,  lento  e  insidioso,  um  pensamento  insinuou-se  na 

mente  de  Glenda:  César  era  casado.  Pertencia  a  outra  mulher,  assim 
como um dia Greg havia pertencido 

a ela. Até aparecer Antoinette Lavallée. 

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Toda  a  paixão  esfriou  por  completo.  Afastou  os  lábios  dos  dele, 

abriu os olhos e desprendeu-se daquele abraço, dando um passo atrás. 

Ereto e imóvel, César a fitava com ar inquiridor. O cabelo prateado 

formava um halo sobre o rosto ensombreado, à luz das velas. 

— O que houve? — perguntou, franzindo a testa. 
— Nada — mentiu Glenda, recuando em direção à mesa. 
—  Não  minta!  Não  pense  que  sou  tão  insensível  a  ponto  de  não 

perceber  que  você  ficou  fria  de  repente.  Talvez  não  tenha  apreciado  o 
jeito como retribuí aos seus beijos... 

Ou  será  que  você  gostou,  mas  se  arrependeu,  com  medo  de  se 

comprometer, de ir até as últimas consequências? 

— Não. Não é isso! Eu... eu só me lembrei de uma coisa... 
45 
— — murmurou sem refletir. Mas, na realidade, estava com medo 

de  se  comprometer,  sim,  com  medo  de  ir  até  o  fim  e,  depois,  se 
machucar. 

—  O  quê?  —  Ele  tomou-lhe  o  braço  com  rudeza,  forçandoa  a 

encará-lo. Os olhos dele tinham um brilho penetrante; 

— Do que foi que se lembrou? 
Ela  respirou  fundo,  engolindo  em  seco.  Precisava  dizerlhe  a 

verdade. Não conseguia mentir quando ele a olhava assim. 

— Lembrei-me de que você é casado — desabafou com franqueza. 
—  E isso  faz  diferença para  você? —  Havia  na voz  dele um  misto 

de desdém e surpresa, como se não acreditasse nas palavras .dela. 

— Faz muita diferença, sim! 
Subitamente,  César  afrouxou  a  pressão  sobre  o  braço  de Glenda, 

e  seus  dedos  recomeçaram  a  acariciar  sedutoramente  a  pele  macia, 
enviando-lhe suaves mensagens eróticas 

e, fazendo-a estremecer involuntariamente de um doce prazer. 
— Por favor, pare com isso! — ela sussurrou, retraindose. — Não 

quero  que  me  toque.  Não  posso  fazer  amor  com  o  marido  ou  o 
namorado de uma outra mulher. É... é um 

principio que tenho. 
— Mesmo quando está apaixonada por esse marido ou namorado? 

— ele desafiou. 

—  Mesmo  assim  —  assegurou,  de  cabeça  erguida.  —  Além  do 

mais, não estou apaixonada por você. 

—  Aposto  que  sim  —  ele  retrucou,  e  seu  sorriso  ameaçou  pôr  a 

perder o controle que ela estava tentando impor a si mesma. 

Gentilmente,  César  tocou  numa  mecha  dos  cabelos  dela, 

enrolando-a em seus dedos. 

—  Acontece  que  eu  estou  apaixonado  por  você,  minha  doce  e 

deliciosa puritana. 

—  Oh,  não!  Não  acredito!  —  gritou.  —  Não  sente  remorsos  com 

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relação à sua mulher? Se eu tivesse adivinhado que isso iria acontecer, 
não teria aceitado seu convite 

para  vir  aqui.  Também  pensei  que  houvesse  outros  convidados  e 

que não ficaríamos a sós. 

46 
— Tem Alberto! — Ele estava se divertindo com a situação. 
— Você precisa entender que não posso e não vou ficar aqui com 

você.,Deixe-me ir. 

Um  golpe  rápido  no  pulso  com  o  lado  da  mão  o  fez  soltarlhe  o 

cabelo.  Em  seguida,  Glenda  subiu  às  carreiras  os  degraus  da  escada. 
Não estava realmente certa do que 

estava fazendo, mas tinha de escapar da forte atráção que sentia 

por  ele.  Atravessou  a  varanda  e  precipitou-se  pela  sala  adentro.  No 
corredor, à direita, correu 

com uma flecha até chegar ao quarto. Ali, a escuridão era cortada 

pela  luz  de  um  dos  lampiões  da  varanda.  Entrou  rápido  e,  tropeçando 
em um objeto largado no chão, 

perdeu o equilíbrio. Ao estatelarse no chão, feriu o tornozelo. 
Ainda  estava  tentando  levantar-se  quando  uma  luz  repentina 

dispersou  as  trevas.  Era  César  que  estava  ali,  parado  à  porta,  e  que 
acabara de acender a luz. 

—  O  que  foi  isso?  —  ele  gritou,  aproximando-se  e  ajoelhando-se 

ao lado dela. 

—  Eu  tropecei  nisso!  —  explodiu  com  raiva,  apontando  para  a 

frasqueira que deixara cair bem no meio do caminho. 

— Você se machucou? 
— Levei uma pancada no tornozelo. 
— Deixe-me ver. 
—  Não!  —  ela  recusou  com  veemência,  erguendo-se  sozinha. 

Pondo-se também de pé, ele sorria irónico. 

— Ah! Você não quer que a toque... Mas, então, por que veio para 

o quarto? 

— Vim buscar minhas coisas. Quero ir embora agora mesmo! 
— Quer ir realmente embora sem terminar a entrevista? .Mas que 

tipo de jornalista é você? 

—  Infelizmente,  tenho  que  interromper  meu  trabalho  porque  não 

estou disposta a dormir com o entrevistado — ironizou ela, agressiva. 

—  E  como  pretende  voltar  agora  à  noite  para  o  hotel?  indagou, 

avançando furtivamente para ela, corri um olhar maldoso. 

—  Eu...  eu  vou  a  pé  para  a  cidade  —  ela  respondeu  sem  pensar, 

retraindo-se. — A menos que você seja gentil e me 

47 
leve  de  carro  até  o  hotel  mais  próximo,  no  promontório.  Posso 

pernoitar lá. 

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—  Só  que  eu  não  sei  ser  gentil.  —  Ele  sorriu,  manhoso  como  um 

gato, e ainda avançando para ela. — Sei apenas que estou apaixonado, 
ardendo de desejo por você... 

— Oh, não seja tolo — ela balbuciou. — Não é verdade! 
— Mas eu lhe garanto que é. Deixe-me mostrar-lhe o que sinto. — 

Ele se moveu ligeiro, estendendo os braços e agarrando-a. 

Quando  os  lábios  de  César  cobriram  os  dela  com  arrogância, 

Glenda  não  se  sentiu  ofendida.  Nem  mesmo  quando  a  língua  dele 
explorou, com possessividade, a maciez de 

sua boca de forma cada vez mais atrevida. 
Na  verdade,  ela  estava  gostando  do  jeito  como  César  a  beijava, 

como se a desejasse mais do que a tudo no mundo. As mãos calorosas 
percorreram-lhe a espinha com sofreguidão, 

até chegar nas nádegas. Sentindo-o ficar cada vez mais excitado, 

ela  também  se  excitou,  retribuindo-lhe  os  beijos,  toda  entregue  àquele 
prazer alucinante. 

— Não devemos fazer isso — disse ela, ofegante, mas seus lábios 

a  traíram,  pois  retribuíram  aos  beijos  dele  com  intensidade  cada  vez 
maior e com igual carinho. 

—  Pôr  que  não,  se nós dois  queremos?  —  insistiu César,  calmo e 

seguro. 

—  Você  é  casado!  —  disse  Glenda  fracamente,  tentando  livrar-se 

dos  braços  fortes  e  abrasadores.  —  Por  favor,  pense  em  sua  esposa... 
Como ela se 

sentiria se soubesse 
que estou aqui com você? 
— Não acredito  que você realmente se importe com o que minha 

mulher  sentiria...  Você  também  me  quer!  Então,  por  que  se  importar 
com ela? 

— Porque eu sei o que é estar numa situação dessas. Sei o quanto 

é  duro  uma  traição...  Foi  por  isso  que  eu  me  divorciei  de  Greg.  Não 
quero o que eu passei para ninguém! 

Uma  expressão  de  impaciência  anuviou  o  rosto  de  César. 

Deixando cair os  braços  ao  longo  do  corpo,  ele  abriu  a  boca  para  dizer 
alguma coisa, mas mudou de ideia. E, 

sacudindo a cabeça, desanimado, virou as costas e caminhou para 

a porta. 

Trémula  e  confusa,  Glenda  oscilou  entre  o  alívio  e  o 

desapontamento. 

48 
Sentou-se  depressa  na  cama,  sentindo-se  profundamente  infeliz. 

Queria  ir  atrás  dele,  atirar-se  em  seus  fcraços  e  convidá-lo  a  fazer 
amor... Por um 

instante, César hesitou no umbral da porta e voltou-se para olhá-

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la mais uma vez. Novamente, quis dizer fcualquer coisa, mas não disse. 
Apenas ficou parado, 

olhando... 
Depois, lentamente, retrocedeu e veio sentar-se na cama, ao lado 

dela.  Tomou-lhe  a  mão  delicada  e  a  beijou.  A  expressão  do  seu  rosto 
era sombria e séria, quando 

ele ergueu a cabeça para fitá-la. 
—  Acreditará  em  mim  se  eu  lhe  disser  que  meu  casamen  to 

significa tão pouco quanto o seu? E que, se fizer amor 

comigo, não  estará  magoando ninguém?  —  Então seu  casamento 

acabou? — ela indagou, esperancosa, estudando as feições dele. 

—  Na  verdade,  ele  nunca  começou.  —  Ele  fez  um  trejeito 

engraçado  com  o canto  dos  lábios,  e  a sombra  do  desprezo velou  seus 
olhos. 

— Está querendo dizer... — Ela se interrompeu, embaraçada, mas 

corrigiu-se em tempo. — Lamento que seu 

casamento não tenha dado certo... 
—  Não  tem  do  que  se  lamentar.  Apenas  achei  que  devialhe  uma 

explicação.  Isso  faz  alguma  diferença  para  você?  Ele  ergueu  lenta  e 
pesadamente as pálpebras e olhou-a 

bem 
dentro dos olhos. 
,  Uma  onda  de calor  invadiu  o  corpo de  Glenda. Parecia  possuída 

de um outro acesso de febre, mas uma febre diferente, inebriante! Todo 
o seu corpo pulsava e doía 

de desejo sexual. Lambeu os lábios ainda úmidos dos beijos dele, 

e os ofereceu a César. 

— Sim. Isso muda tudo... — murmurou. 
—  Você  ainda  está  apaixonada  por  Greg?  Não  tem  nenhum 

namorado a sua espera no Canadá? 

— Não, não tenho nenhum namorado — afirmou Glenda, cedendo 

ao impulso de tocá-lo outra vez. Suavemente, ela delineou com o dedo 
o formato dos lábios, a linha do 

seu  queixo  viril.  Depois  escorregou  a  mão  delicada  pelo  pescoço, 

insinuando-a  por  dentro  da  camisa.  Percebeu-lhe  as  batidas  rápidas  do 
coração. 

— Você é muito bonita para viver sozinha, Glenda. Precisa 
49 
ter alguém. Eu quis ser seu namorado, anos atrás, e teria sido, se 

você me olhasse desse jeito uma única vez... sussurrou ele, mordendo-
lhe de leve o lóbulo 

da orelha. 
— Oh, eu desejei tanto isso! — ela gemeu. 
Agora  nada  mais  importava...  Passou  os  braços  em  volta  dele, 

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acariciou-lhe  a  nuca,  enredando  os  dedos  nos  cabelos  grisalhos  e 
brilhantes. 

Ardendo de paixão, ele tocou os bicos palpitantes e excitados dos 

seios redondos de Glenda, por cima da blusa. 

—  Então,  vai  me  deixar  fazer  amor  com  você,  agora?  perguntou 

César, esfregando o rosto levemente áspero na face delicada. 

—  Sim,  sim!  —  Foi  só  o  que  Glenda  disse,  completamente 

desarmada. 

Ela  teve  um  rápido  vislumbre  da  expressão  do  rosto  dele 

carregado  de  desejo,  antes  que  César  a  beijasse  novamente,  enquanto 
a deitava sobre as almofadas da cama. 

—  Senor!  —  Do  lado  de  fora,  Alberto  chamou  em  voz  alta.  — 

Venha depressa! 

Pego de surpresa, César ergueu a cabeça e, num segundo, pôs-se 

de pé, saindo apressado. Glenda  não viu Alberto e supôs  que estivesse 
no corredor. Ainda aturdida, 

ouviu  a  voz  metálica  de  César  perguntar  alguma  coisa  em 

espanhol. 

Em seguida, ele desapareceu... 
50 
CAPÍTULO V 
 
Ao ver-se sozinha em seu quarto, Glenda pulou para fora da ama, 

ajeitou os cabelos para trás e espiou o corredor. 

Cesar estava voltando, com uma expressão preocupada. 
— Oh! O que há? O que está acontecendo? — ela perguntou. 
— Nada de grave! — respondeu ele com frieza, mas segurando-lhe 

as mãos. — Tenho de sair um instante, mas 

você Promete que vai ficar, Glenda! Promete que não... 
— ão vou fugir. Estarei aqui quando você voltar. 
— Gracias — falou com ardor, beijando-lhe as mãos antes de sair. 
Pouco epois Glenda ouviu o ruído do motor do caminhão dando a 

partida. Não viu nem sinal de Alberto, o que a fez acreditar que ele tinha 
saído com César. 

De  repente,  a  casa  parecia  muito  vazia  sem  a  presença  dinâmica 

de César. E, para espantar a monotonia, ela 

resolveu dar uma volta até o cais. O ar quente a envolveu, 
acariciando-lhe  a  pele.  No  entanto,  apesar  do  calor,  sentia 

arrepios de frio. Alberto tinha arrumado e empurrado a 

meSa para um canto. Glenda sentou numa espreguiçadeira 
e se encostou no espaldar. Bem no alto, no céu a lua brilhava, 
bainhando  tudo  com  sua  luz  diáfana.  De  longe,  do  outro  lado  da 

praia, ouvia-se o som de uma musica romântica. 

"Onde  teria  ido  César,  e  por  quê?",  Glenda  perguntou  se  Alguma 

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coisa importante devia ter ocorrido para 

arrancá-lo dela. Justamente quando estavam prestes a fazer 
amor...  Teria  algo  a  ver  com  a  família  dele,  ou,  então  com  a 

esposa? Respirou com dificuldade, aturdida por mil 

ideias. Talvez ele estivesse mentindo, ao dizer-lhe 
que  não  era  mais  casado  Na  verdade,  César  não  tinha  dito  nada 

de concreto... Oh, 

Deus! Ele apenas dera a entender que não pertencia a outra 
51 
mulher,  e  que  seu  casamento  nunca  acontecera,  realmente...  Daí 

ela havia concluído que ele estava livre. 

Lembrou-se  do  sorriso  um  tanto  cínico  de  César,  como  se 

estivesse  se  divertindo  com  o  que  estava  lhe  contando.  A  suspeita  foi 
crescendo no coração de Glenda e dilacerando-a 

por dentro. 
com o semblante expressando tristeza infinita, Glenda endireitou-

se  na  cadeira.  Arqueou  os  joelhos,  rodeou-os  com  os  braços  e 
descansou o queixo sobre eles. Não 

havia nem sombra do desejo sexual que experimentara momentos 

antes no quarto... Só sentia um latejar nos pulsos e uma dor aguda bem 
profunda. 

Por  que  César  tinha  aparecido  em  sua  vida?  Para  frustrála 

eternamente, negando-lhe o seu amor... lamentava-se. Mas, ao mesmo 
tempo, ela ansiava por que ele retornasse 

logo,  a  tomasse  em  seus  braços  e  a  beijasse  com  todo  aquele 

ardor. Nem Greg, nem qualquer outro homem fora capaz de excitá-la a 
tal ponto! Pois, se houvesse um outro 

homem  capaz  de  tanto,  ela  não  estaria  agora  ali,  naquele  cais, 

esperando por ele com tamanha aflição. 

Ainda  ficou  muito  tempo  sentada  pensando  em  César.  Ele 

representava  uma  espécie  de  enigma...  Quanto  mais  misterioso,  mais 
tentador! A princípio ela o imaginara um 

homem  discreto  e  tímido.  Mas,  depois,  percebeu  que  as 

lembranças  que  tinha  dele  há  oito  anos  eram  bastante  obscuras. 
Estavam sempre cercados de outras pessoas, em 

festas  e  bailes,  e  só  por  duas  vezes  haviam  conseguido  ficar 

sozinhos.  Esses  momentos  eram  os  mais  nítidos  na  sua  memória.  Os 
únicos que ela conservara na lembrança 

durante anos  e  anos...  Via-o,  então,  como uma pessoa  dinâmica, 

sempre seguro de si, abjetivo e um tanto sonhador. Exatamente como o 
César atual. 

De  repente,  Glenda  se  apercebeu  que  fazia  duas  ideias 

completamente  distintas  a  respeito  da  personalidade  de  César.  Seriam 
dois homens fisicamente iguais? com os 

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mesmos olhos castanho-claros e os mesmos cabelos cor de prata? 

Não era possível! A menos que fossem gémeos... 

Glenda  riu,  sozinha,  do  seu  excesso  de  imaginação.  Se  houvesse 

irmãos gémeos na família Estrada, ela saberia, claro! Além disso, ambos 
não poderiam ter o mesmo nome. 

Afinal, 
52 
o próprio César havia admitido que possuía uma espécie de dupla 

personalidade  pelo  fato  de  seu  pai  ter  origem  espanhola  e  a  mãe, 
escandinava. Isso explicava 

perfeitamente várias facetas do comportamento dele. Sem dúvida! 
Já  passava  das  onze  horas,  quando  César  finalmente  voltou  para 

casa.  Glenda  estava  deitada,  no  escuro,  com  o  ventilador  ligado,  por 
causa do calor. Não conseguia 

conciliar  o  sono.  Viu-o  entrar  no  quarto  como  o  vento  que  ela 

estivera esperando. 

Calmamente, ele aproximou-se da cama e sentou-se ao lado dela. 
— Você estava dormindo? — ele perguntou. 
—  Não!  Estava  apenas  tentando  pegar  no  sono,  mas  está  tão 

quente! Mesmo com o ventilador... 

— Então, por que não tira essa roupa? — Bateu os dedos de leve 

na  camisola  curta,  de  algodão.  -;  Numa  noite  dessas,  melhor  é  dormir 
sem nada... — Ergueu-se da cama 

e,  com  movimentos  ligeiros,  tirou  a  camisa,  jogando-a  para  o 

lado. Depois  deixou  cair  o  short,  mostrando a  cueca  sexy.  E,  voltando-
se para ela, estendeu-lhe a mão. 

Quando se tocaram, uma corrente elétrica transpassou pelo corpo 

de ambos e ele a envolveu em seus braços. Então, famintos, seus lábios 
se buscaram em beijos ardentes. 

—  Sinto  muito  por  ter  sido  obrigado  a  deixá-la....  ele  murmurou, 

com o rosto colado ao dela. — Você ainda me quer? 

— Sim, quero — respondeu tímida. 
Debaixo  das  suas  mãos,  Glenda  sentia  o  calor  de  sua  pele 

máscula,  molhada  de  suor,  e  o  cheiro  de  mato  que  desprendia  de  seu 
corpo. 

— E eu quero você — disse ele sofregamente, e mais uma vez os 

seus lábios se apossaram dos dela. 

Quando o beijo terminou, César tomou-a pela mão e a levou para 

o banheiro. Persuadiu-a, entre caricias, a desfazer-se da camisola para, 
juntos, entrarem no chuveiro. 

Debaixo  da  água  morna,  ensaboou-a  gentilmente  com  um 

sabonete  de  essência  de  flores,  caçoando  da  timidez  dela  diante  de 
tanta intimidade. Propositalmente, ele prolongava 

o  contato  das  mãos  em  pontos  mais  vulneráveis,  de  preferência 

background image

em seus seios. 

53 
—  Agora  é  a  sua  vez  —  pediu,  com  voz  suave  entregando  o 

sabonete a 

Glenda— — NeSte jogo sensual do amor, você precisa aprender a 

receber, a acariciar e ser 

acariciada,  numa  deliciosa  trocade  prazer.  Sabe,  apesar  de  ter 

sido  casada,  percebe-se  quevocê  é  inexperiente.  Sua  ingenuidade  me 
excita tanto que tenho vontade 

de  possuí-la  aqui  mesmo,  neste  momento.  Masquero  mUito  mais 

do que isso... Quero que você também me seduza Mas, agora, mostre-
me o que sabe fazer! 

Glenda sentia todo seu corpo ardendo de desejo, provocado pelas 

carícias 

dele e também estimulado pela ducha do chuveiro. Contemplou o 

físicO de César quando ele 

lhe  voltou  as  costas  largas  e  reluzentes.  Nos  quadris  magros,  as 

nádegas 

nuas.  Então,  pos-se  a  esfregar-lhe  o  sabonete  na  pele,  surpresa 

consigo mesma por se encontrar 

numa situação tão íntima. 
—  Use  sua  imaginção  querida  —  murmurou  César,  voltando  a 

cabeça e falando 

por  cima  do  Ombro.  —  Faça  por  nós  dois  uma  experiência 

inesquecível! 

Enquanto  as  mãos  se  moviam  ritmadamente  pelo  dorso  dele, 

Glenda sentiu 

uma  reação  intensa  bem  no  fundo  de  seu  próprio  corpo.  Estava 

tão excjtada que nem percebeu 

quando o sabonete escorregou de suas mãos. Apenas continuou a 

tocar nele, deslizando os dedos finos pelo corpo másculo à vontade. 

Lentamente çésar foi se virando para ela. 
— Continue! — ele suplicou, deliciado. 
Daí  em  diante,  Gleada  sentia-se  submersa  pela  esmagadora 

torrente de desejo. Suas mãos tornaram-se cada vez mais audaciosas e 
exigentes. Encorajada pelas palavras 

carinhosas  que  César  murmurava  em  seu  ouvido  e  pelas  carícias 

que  ele  lhe  fazia,  ela  perdeu  toda  a  timidez  e  começou  a  beijá-lo, 
inteirinho. Ele gemia, sufocando 

os gritos de prazer em sua garganta. 
No auge do prazer, ela entregou-se toda quando ele a tomou nos 

braços, 

como a uma sereia escorregadia, e a possuiu. Enquanto moviam-

se um de encontro ao outro, 

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não pensaram em  mais nada, além do gozo intenso que  estavam 

sentindo. 

Os dois em pé ali Debaixo do chuveiro chegaram afinal ao clímax 

delicioso, 

pleno e total... Quando seus corpos se separaram, 
54 
um  pensamento  triste  veio  perturbar  a  mente  de  Glenda:  no 

domingo ela voltaria ao Canadá, e César ficaria para trás, para sempre! 

Mais tarde, vestindo apenas um robe, Glenda dirigiu-se com César 

até a varanda, onde havia uma ampla rede de dormir, de tecido grosso, 
e sobre a qual havia almofadas 

macias. ali lua brilhava no céu azul-escuro e ouvia-se, ao longe, o 

sorri de violões e tambores. 

—  É  a  banda  de  discoteca  do  hotel  —  disse  César,  olhanB  do  a 

baía tranquila. 

—  Lembra-se  da  discoteca  na  rua  St.  Paul,  na  parte  velha  de 

Montreal, onde íamos todos dançar? — ela indagou, quando se deitaram 
lado a lado, na perigosa intimidade 

da  rede  de  balanço.  —  Eu  achava  você  o  melhor  dançarino  do 

lugar. 

Na  verdade,  nunca  havia  dançado  com  ele,  mas  se  lembrava  de 

tê-lo admirado, dançando, na pista. 

—  Se  você  me  achava  bom,  os  outros,  então,  deviam  ser  muito 

ruins — ele replicou, num tom de zombaria. Acaricioulhe o rosto, depois 
deu-lhe um beijo rápido e carinhoso. 

Não  vamos  pensar  no  passado.  Vamos  pensar  que  estamos 

finalmente juntos, aqui e agora. 

—  Você...  você  não  se  lembra  daquela  discoteca?  —  ela  insistiu 

num murmúrio. Aquele pensamento maluco 

sobre haver mais de um César, de repente, voltava-lhe à mente. 
Teria notado um certo embaraço nele? Ou era apenas imaginação? 
Mas, no instante seguinte, ele falou, com toda naturalidade: 
—  É  realmente  importante  para  você  se  eu  me  lembro  ou  não? 

Não é o momento presente o que nos interessa agora? Nós fomos feitos 
um para o outro, querida. Você é 

a  única  mulher  a  quem  amei,  a  única.que  eu  desejei  que  fosse 

minha para sempre. 

. — Então, por que se casou com outra? 
Como  resposta  ele  a  beijou  novamente,  enquanto  a  rede 

balançava  mansamente  para  lá  e  para  cá.  Sem  pensar  em  mais  nada, 
Glenda agarrou-se a César sem pudores, apalpandoo, 

atrevida.  Rindo,  ele  foi  mudando  de  posição,  até  ficar  debaixo 

dela. A rede continuava no seu balanço doce e excitante. 

— Nós vamos cair! — ela exclamou, arquejando. 

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55 
Habilidosamente,  César  abriu-lhe  os  botões do  robe e  deslizou  as 

mãos furtivamente pela pele macia e cheirosa, detendo-se na altura dos 
seios. 

Uma agradável excitação reacendeu todos os sentidos de Glenda, 

acrescida  pelo  clima  romântico  que  os  envolvia.  Seus  olhos  refletiam  a 
luz do luar quando César lhe 

sorriu, roçando depois os lábios nos bicos dos seios. 
Agora a sensação era de estar sendo devorada pelas chamas. com 

a  respiração  entrecortada,  Glenda  não  conseguia  mais  resistir.  A. 
necessidade dê possuir e ser mais 

uma vez possuída queimava-lhe as entranhas. 
Pela primeira vez na vida, ela queria amar sem se preocupar com 

as  consequências.  Apertou-se  contra  César,  correspondendo  à  volúpia 
dele e às suas carícias, cada 

vez mais estimulantes. Docemente, ele lhe sussurrava palavras de 

amor ao ouvido. 

Quando  César  a  penetrou  ternamente,  ela  deu  um  grito  súbito  e 

abafado  de  prazer.  O  balanço  da  rede  os  excitava  ainda  mais,  mas  os 
movimentos de César eram brandos 

e  sem  pressa.  com sutil  delicadeza,  ele  esperou  que  ela  atingisse 

o clímax para, depois, gozar de igual delírio. 

com ternura, ambos sussurraram um para o outro a felicidade que 

sentiam, bendizendo a sorte de terem se reencontrado. Lá embaixo, as 
ondas batiam nas pedras mansamente, 

e a lua brilhava, serena, no céu de anil. 
Discreta e harmoniosa, a rede balançava... 
56 
CAPÍTULO VI 
 
Na  mata,  ouviam-se  os  gritos  dos  macacos  e  papagaios.  O  céu 

estava azul-claro e o sol brilhava. As ondas lambiam as areias da praia, 
enquanto o vento soprava as 

folhas verdes das palmeiras. 
Glenda  acordou  na  rede,  que  balançou  primeiro  para  um  lado, 

depois para o outro. Ainda sonolenta, ela esfregou os olhos com a palma 
da mão e fez um esforço para 

endireitar  o  corpo.  Tinha  a  impressão  de  ter  despertado  com  o 

chamamento de uma mulher. 

A  lembrança  da  noite  passada  veio-lhe  de  súbito  à  mente,  e  ela 

sorriu, divertida, com a ideia excêntrica de fazer amor na rede. Por duas 
vezes, ela e César tinham 

sido lançados para fora do precário leito, ou caído um por cima do 

outro.  Tinha  sido  uma  maravilhosa,  se  bem  que  hilariante,  noite  de 

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amor. 

Reparou, porém, que havia mesmo alguém na casa chamando em 

espanhol.  com  o  robe  semi-aberto,  Glenda  pulou,  rápida,  para  o  chão, 
procurando se recompor. Sentia-se 

ótima  nas  nuvens,  e  não  via  a  hora  de  estar  novamente  com 

César,  para  irem  nadar  juntos,  com  equipamentos  de  mergulho,  talvez 
depois da entrevista, era claro! 

Passou  os  dedos  pelos  cabelos  emaranhados  e,  quando  já  estava 

na entrada do pátio, viu uma jovem se aproximar. 

—  Ao  ver  Glenda,  a  mulher  estacou,  surpresa,  arqueando  as 

sobrancelhas negras e arregalando os olhos castanhoescuros, 

—  Quem  é  você?  —  perguntou  em  espanhol.  Passado  o  impacto 

inicial,  os  olhos  se  estreitaram  e  a  boca,  vermelha  como  uma  papoula, 
abriu-se num sorriso generoso. - 

E onde está Rafael? — acrescentou. 
—  Eu...  sou  Glenda  Thompson  —  respondeu  ela,  afastando,  com 

um certo nervosismo, os cabelos da testa. 

57 
A  outra  mulher  era  alguns  anos  mais  jovem  do  que  Glenda.  Era 

esbelta e espigada como uma haste de salgueiro. Vestia 

uma túnica que Glenda achou espalhafatosa com 
grandes flores vermelhas salpicadas sobre um fundo verde-escuro, 

decote em V e mangas compridas, que lhe realçava o porte. Tinha 

pele clara, e seus cabelos longos 
e  exuberantes,  penteados  para  trás  chegavam  até  o  meio  das 

costas.  Ah  é  americana,  então?  Bem,  eu  falo  inglês.  Sou  Rosário 
Revês— Vim procurar Rafael para saber 

se  ele  vai  ao  hotel  esta  noite,  vou  estar  lá  dançando.  A  dança  é 

minha profissão — E numa atitude espontânea, Rosário esboçou alguns 

passos de dança, tamborilando 
no  piso  com  os  sapatos  pretos  de  salto  alto.  com  os  braços 

levantados  sobre  a  cabeça,  estalou  os  dedos  à  maneira  da  dança  com 
castanholas. — Gostou? — perguntou, 

sem modéstia. — Mas, afinal, onde está? 
— CNão sei. Acabei de acordar e... 
— Ele esteve aqui, com você, a noite passada — Rosário insistiu — 

Você não estava 

sozinha? 
— Não evidentemente. Mas não estava com Rafael. Nem sequer o 

conheço!  —  exclamou  Glenda,  perguntando  a  si  mesma  se  deveria  dar 
alguma satisfação àquela mulher fogosa 

e atraente. Olhou-a, intrigada. 
Rosário  trazia  presa  aos  cabelos  negros  uma  flor  vermelha  de 

hibisco,  como  se  fosse  a  coisa  mais  natural  do  mundo  uma  espessa 

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camada de sombra verde nas pálpebras 

e nmel preto nos cílios acentuavam-lhe os olhos. — Mas você está 

na casa de Rafael! Ele vive aqui quando está na ilha. — Rosário apertou 
os olhos, numa expressão 

hostil  —  Você  não  quer  me dizer  onde  ele  está,  não é?  Acha  que 

porque  dormiram  juntos  a  noite  passada,  ele  é  de  sua  DroDriedade. 
Pensa, como todas as mulheres da 

América  do  Norte  que  só  porque  um  homem  é  seu  amante,  ele 

não deve 

mostrar interesse por nenhuma outra mulher? 
— Não, não penso assim — Glenda se defendeu, dando um passo 

para  trás.  —  Apenas  eu  não  estava  aqui  com  esse  Rafael.  Não  o 
conheço. 

— Nesse caso, como veio parar aqui? Quem foi que a trouXe — A 

voz de Rosário se alterou. — Ah, não pense você que pode me enganar 
com mentiras — continuou, sibilando 

58 
as palavras. — Você conheceu Rafael em algum lugar, ficou caída 

por ele e  convenceu-o a  trazê-la  aqui  para  divertir-se  um pouco,  antes 
de retornar ao seu país. 

—  Eu  não  o  convenci  a  me  trazer  para  cá  —  protestou  Glenda, 

irritada  com  as  insinuações  da  outra.  —  Já  disse  que  não  conheço 
nenhum Rafael. Vim aqui com César Estrada, 

a  convite  dele.  Somos  velhos  amigos.  Eu  o  conheci  há  oito  anos 

em Montreal e vim fazer uma entrevista com ele... 

—  Mas  César  nunca  vem  aqui  —  Rosário  interveio,  a  surpresa 

dissipando  a  crise  de  ciúmes.  —  Ele  prefere  ficar  numa  velha  casa  de 
estilo espanhol em Puerto Plata, 

quando  não  está  em  Nova  York.  Dizem  que  possui  um 

apartamento  em  Greenwich  Village,  onde  escreve  seus  romances.  Por 
que razão ele a traria aqui? — A expressão de 

surpresa  deu  lugar  a  outra,  divertida  e  sarcástica.  —  Ah,  estou 

começando  a  entender...  —  Rosário  prosseguiu,  piscando  um  olho.  — 
César trouxe você aqui para que 

a esposa não saiba a seu respeito. 
— Não é nada disso -. Glenda tomou a defensiva, mas emudeceu 

logo,  quando  compreendeu  que  o  raciocínio  da  outra  fazia  sentido.  Um 
calafrio percorreu todo o seu 

corpo. 
—  Não  se  preocupe.  Não  vou  contar  a  ninguém  —  disse  Rosário, 

com  um  sorriso  cúmplice.  —  Desde  que  não  seja  com  Rafael,  não  me 
importa saber com quem você esteve. 

Mas se ele não está aqui, onde estará e por que não foi ao hotel a 

noite passada para me ver dançar? Prometeu que iria. 

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—  Não  sei.  Já  disse  que  não  conheço  nenhum  Rafael.  Glenda 

achou que estava se tornando repetitiva. — Quem é ele? 

—  Dr.  Rafael  Estrada.  Se,  como  você  mesma  diz,  conhece  bem 

César, já deve ter ouvido falar de Rafael. É o irmão gémeo de César. 

O  choque  fez  Glenda  gelar.  Ficou  olhando  pasma  para  o  bonito e 

malicioso rosto de Rosário, enquanto o caos se instalava em sua mente. 

— César tem um irmão gémeo? — Sua voz saiu rouca e medrosa. 
—  Si.  Todo  mundo  aqui  conhece  os  irmãos  Estrada,  ou,  pelo 

menos, já ouviu falar deles. Não são idênticos, mas parecidos o bastante 
para confundir quem não os conhece 

bem. 
59 
Ambos têm a mesma cor de pele e cabelo. Mas, olhando de perto, 

percebe-se  que  são  muito  diferentes.  —  Fez  uma  pausa  e  olhou  bem 
para Glenda. — Você está bem? Ficou 

tão pálida! 
—  Sim,  está  tudo  bem  comigo  —  Glenda  apressou-se  a  dizer.  — 

Foi  só  uma  leve  tontura,  acho  que  é  porque  não  me  alimentei.  Ainda 
não tomei o café da manhã. Vamos lá 

para dentro. Gostaria de comer alguma coisa? Ou tomar um café, 

talvez? 

— Não, obrigada. Apenas queria saber o paradeiro de Rafael, mas 

já que você não sabe... 

As  duas  entraram  pela  sala  e  dirigiram-se  à  cozinha.  Glenda  deu 

uma  olhada  para  fora,  através  da  janela. O  caminhão  cinza  não  estava 
estacionado ao lado da casa. 

Em vez dele, havia um pequeno carro preto. 
— Aquele é seu carro? — indagou Glenda à outra, que estava em 

pé no meio da cozinha. 

Subitamente,  Rosário  achou  um  pedaço  de  papel  sobre  a  mesa, 

junto a uma xícara de café vazia. 

— Aqui diz que ele voltará ao meio-dia — murmurou Rosário, sem 

despregar, os olhos do bilhete. 

— O quê? 
— Veja! — disse Rosário, entregando-lhe a mensagem. 
—  O  bilhete  é  para  você.  Está  sem  assinatura,  mas  é  de  Rafael. 

Reconheço a letra. No entanto, você diz que não o conhece, que ele não 
se encontra aqui. Finge, afirmando 

que se trata do irmão dele. 
— Não, juro que não menti. Foi César quem me trouxe aqui... no 

caminhão  cinza,  modelo  Hyundai.  —  Glenda  tirou  os  olhos  do  bilhete, 
que dizia simplesmente:" Glenda, 

estarei  de  volta  ao  meio-dia".  Não  conseguia  se  lembrar  da 

caligrafia  de  César,  por  isso  não  tinha  como  discutir  a  questão  com 

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Rosário. 

—  Rafael  dirige  um  Hyundai  cinza  —  disse  Rosário,  sentando-se 

bruscamente em uma cadeira. com a cabeça entre as mãos, pronunciou 
alguns palavrões em espanhol. 

Glenda teve a impressão de que a atraente dançarina não confiava 

em  Rafael.  Julgava-o  um  trapaceiro,  um  homem  perverso  e  astucioso, 
que havia despedaçado o coração 

de muitas mulheres. 
60 
— Vivem me avisando do caráter dele, mas eu custo a acreditar — 

gemeu  Rosário,  e  as  lágrimas  deslizaram  pelo  rosto,  estragando  a 
maquilagem. Ergueu os olhos para 

Glenda, com um ar de piedade. — Ele enganou você também. Está 

se fazendo passar por César. Disseram-me que eles costumam trocar de 
identidade, só por divertimento. 

Foi Rafael quem a 
; trouxe aqui, e não César. Ele a enganou, e a mim também. Ah, 

se ele estivesse aqui agora, eu lhe arrancaria os olhos! 

— E soltou um palavrão. 
Lentamente,  Glenda  também  se  sentou.  Lembrou-se  do  livro  de 

medicina  que  abrira  na  tarde  anterior  com  o  nome  de  Rafael  Estrada 
escrito na guarda. A caligrafia era 

igual  à  do  bilhete  que  estava  em  suas  mãos:  obscura  e  quase 

ilegível.  Em  vão  tentou  recordar  se  alguma  vez  tinha  visto  a  letra  de 
César em algum lugar. Certa vez, 

ele  havia  lhe  mandado  um  cartão  de  Natal.  A  assinatura  era 

pequena, caprichada, quase impressa. O endereço no envelope também 
fora escrito com esmero. 

Seria  possível  que  ela  estivesse  sendo  tapeada  e  que,  na  noite 

anterior,  tinha  feito  amor  com  um  estranho?  Pensou  na  dupla 
personalidade que notara naquele homem 

tão  excêntrico...  Olhou  para  Rosário,  que  continuava  a  fungar. 

Seria possível o que estava pensando? 

—  Talvez  César  tenha  tomado  emprestado  o  carro  e  a  casa  de 

Rafael — disse Glenda, não acreditando nas próprias palavras. 

— César não dirige — retrucou Rosário, enxugando as lágrimas. 
— Como é que você sabe? Por acaso o conhece? 
— É claro que sim — Rosário respondeu com desdém. Meu irmão 

mais  velho  estudou  com  os  gémeos.  Os  dois  sempre  apareciam  lá  na 
nossa casa, em Santo Domingo, quando 

eu era menina. 
— Quando foi a última vez que viu César? 
—  Não  me  lembro  bem.  Acho  que  há  duas  semanas,  quando 

retornou  dos  Estados  Unidos,  onde  foi  visitar  a  família,  na  capital,  e 

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participar de uma recepção de honra 

oferecida  pelo  Presidente.  Todo  mundo  tem  muito  orgulho  dele 

pelo fato de ter escrito aquele romance que conquistou um 

prêmio 
61 
na  América.  Mas  gosto  muito  mais  de  Rafael...  César  é  gordo  e 

preguiçoso. 

— César gordo? Glenda sentiu-se estranhamente deprimida. 
—  Isso  mesmo!  Ele  deve  pesar  uns  dez  quilos  a  mais  do  que 

Rafael,  e  não  é  tão  alto.  —  Nos  olhos  de  Rosário  brilhou  uma  centelha 
de compreensão. — Não foi César quem 

a trouxe aqui. Você sabe disso, não sabe? 
— Ele... ele poderia ter aprendido a dirigir recentemente 
— Glenda argumentou, sem muita convicção. 
— Então, por que é que a esposa dele o leva de carro a todos os 

lugares  quando  estão  visitando  Santo  Domingo?  Rosário  interpelou, 
tornando a pôr a cabeça entre as  

mãos. 
— Por Dios! — lamentou-se. — Não sei se dou risada ou se choro! 

— Meio soluçando, meio rindo, Rosário enterrou o rosto nas mãos. 

— Eu sinto a mesma coisa — suspirou Glenda, cabisbaixa, fitando 

a  outra.  Todavia,  por  baixo  da  compaixão,  ia  surgindo  um  outro 
sentimento, o desejo de vingança. 

Queria  vingar-se  do  homem  que  a  enganara  e  a  seduzira.  Toda 

paixão que sentira por ele agora se 

transformava em rancor. Empurrou a cadeira para trás e se pôs de 
pé.  —  vou  para  Puerto  Plata  imediatamente  —  anunciou.  —  Pode 

me  dar  uma  carona  em  seu  carro  até  Samana  e  me  dizer  como  posso 
chegar até a cidade? 

Rosário levantou os olhos, surpresa. As lágrimas tinham removido 

a  pintura  verde  e  preta  dos  olhos,  e  seu  rosto  estava  todo  borrado. 
Glenda precisou conter a vontade 

de rir. 
—  Mas  não  prefere  esperar  aqui  até  que  Rafael  volte?  disse 

Rosário,  estranhando  a  atitude  de  Glenda.  —  Ou  por  César?  Se  é  que 
ainda acha que foi ele quem a trouxe 

aqui? 
— Não foi César. O homem que me trouxe não era gordo e sabia 

dirigir...  até  certo  ponto...  e  não  quero  vê-lo  nunca  mais  —  Glenda 
explicou, tensa, apanhando o bilhete 

que  lhe  era  endereçado,  e  rasgando-o  em  pedacinhos.  —  Acho, 

porém,  que  você  deve  estar  aqui  quando  Rafael  retornar.  Respirou 
fundo, trémula. — E se ele perguntar 

aonde  fui,  não  diga  nada.  Diga  apenas  que  fui  ver  César  em 

background image

Puerto Plata 

— acrescentou. Sabia perfeitamente de que modo poderia 
62 
se  vingar  do  dr.  Rafael  Estrada.  Tinha  certeza  de  que  ele  não 

gostaria que o irmão descobrisse a sua tramóia. 

Rosário ficou intrigada por um instante. Depois, quando entendeu, 

seus olhos se encheram de alegria e bateu palmas, satisfeita. 

—  Terei  o  maior  prazer  em  lhe  dizer  isso.  —  Riu,  levantando-se 

bruscamente. — Mas vá se arrumar depressa! Eu a levarei até Samana. 
Lá, tem um coletivo que parte 

do porto para Puerto Plata daqui a pouco. 
Quinze  minutos  depois,  Glenda  já  estava  no  pequeno  automóvel 

preto,  sentada  ao  lado  de  Rosário,  rodando  pela  estrada  principal.  Sua 
bagagem fora colocada no banco 

de  trás  e  ela  comia  uma  banana,  a  única  coisa  que  conseguira 

arranjar, para quebrar o jejum. 

Nem  sequer  olhou  para  trás,  para  a  bela  casa  de  praia,  onde 

passara  duas  noites,  pois  o  arrependimento  pelo  que  havia  acontecido 
ali já começava a atormentá-la. 

Fora  enganada.  Não,  isso  não  era  correto.  Fizera  amor  com  um 

homem que se parecia fisicamente com César Estrada, de quem julgara 
lembrar-se bem. Compreendia agora 

que  tinha  romantizado  as  recordações  que  guardara  de  César,  e 

que  o  homem  que  havia  encontrado  no  mercado,  há  dois  dias, 
alimentara suas fantasias, aproveitando-se 

da  situação.  Ávida  de  amor  ela  se  entregara  facilmente, 

permitindo que o coração governasse a cabeça. 

Como tinha sido boba! 
Rafael,  agora,  devia  estar  rindo  a  valer  da  sua  ingenuidade,  das 

confidências de amor que lhe fizera, do seu 

comportamento atrevido durante o ato sexual. 
Os edifícios brancos de Samana, ofuscando a luz do sol, passavam 

turvos  diante  de  seus  olhos  marejados  de  lágrimas.  Lágrimas  de 
arrependimento e humilhação por ter 

se  comportado  como  uma  adolescente  tola  e  romântica,  se 

deixando corromper por um trapaceiro sedutor e experiente. 

Subitamente,  ela  lançou  um  olhar  rápido  e  oblíquo  para  o  belo 

perfil de Rosário. 

— Há quanto tempo está apaixonada por Rafael? 
— Desde os dezesseis anos penso em tê-lo como marido 
— confessou a dançarina. — Mas ele partiu para os Estados 
63 
Unidos a fim de estudar medicina e, quando voltou, disse que não 

estava preparado para o casamento, que precisava continuar estudando 

background image

para se tornar um especialista, 

não  sei  em  que  área.  —  Rosário  encolheu  os  ombros,  com 

indiferença. — Assim, retornou aos Estados Unidos e, desde então, vem 
todo verão trabalhar como voluntário 

em  clínicas  populares  aqui  na  península.  É  isso  que  está  fazendo 

atualmente. — Suspirou. -Mas quando terminou sua especialização, não 
veio diretamente para cá. Partiu 

para  a  América  Central,  a  fim  de  dar  assistência  médica  aos 

pobres.  Eu  acho  que  a  maior  vontade  dele  é  se  dedicar  a  esse  tipo  de 
trabalho social, depois de ganhar 

muito dinheiro tratando de gente rica. 
— Mas você ainda quer se casar com ele? — quis saber Glenda. 
Já estavam se aproximando do cais do porto. Na baía, a água azul 

do mar 

estava agitada, fazendo os barcos à vela, ali atracados, oscilarem. 

Os dois iates canadenses 

ainda se encontravam lá, as bandeiras fustigadas pelo vento forte-

— Sim. Ainda quero me casar com Rafael. É por isso que estou tão 

contente  por  você  ter  resolvido  partir  —  admitiu  Rosário.  Estacionou  o 
carro no meio-fio, atrás 

de  um  outro  veículo.  Desligou  o  motor,  depois  virou-se  para 

Glenda  com  um  olhar  sombrio  e  provocativo.  —  Simpatizo  com  você, 
mas não quero vê-la por perto. Entendo 

por que Rafael acha você atraente. É bonita, elegante, mas é fria 

demais.  Ele  queria  conquistá-la.  Imagino  que  tenha  tentado  a  noite 
passada e gostado. Por isso 

deixou o bilhete avisando que voltaria. Quer repetir a dose. — Deu 

uma  gargalhada.  —  Vai  ficar  maluco  quando  chegar  e  não  encontrar 
você lá, e eu terei a chance 

de confortá-lo, de me colocar em seu lugar. Mas, vamos depressa, 

o ônibus está esperando Ali! 

Assim  que  Glenda  e  Rosário  desceram  do  carro,  um  bando  de 

crianças cercou-as, oferecendo amendoim torrado em canudos de papel, 
e pedindo uns trocados. Rosário enxotou-as 

com  palavras  ásperas,  mas  Glenda  parou  para  procurar  algumas 

moedas na carteira. Acabou comprando vários pacotinhos de amendoim. 

.—  O  ônibus  já  vai  sair  -Rosário  agarrou  o  braço  de  Glenda  e 

puxou-a até o veículo -, e está cheio. Você terá que viajar em pé. Adios, 
Glenda! Espero nunca mais 

nos encontrarmos. 
64 
com  a  bolsa  e  a  frasqueira  na  mão,  Glenda  subiu  os  degraus  do 

ônibus. O motorista, com uma cara feia e sombria, exigiu o pagamento 

background image

da tarifa no ato, obrigando-a 

a  atrapalhar-se  com  a  pequena  bagagem,  enquanto  procurava  o 

dinheiro.  Neste  ínterim,  deu-se  conta  de  que  os  passageiros  do  ônibus 
haviam cessado o falatório e a 

fitavam com atenção. Quando se virou de frente, após ter pagado 

a passagem, enfrentou os olhares desconhecidos. 

As  portas  do  ônibus  se  fecharam  com  um  zumbido  mecânico.  O 

veículo  partiu  do  cais  com  um  solavanco,  com  Glenda  correndo  o  risco 
de perder o equilíbrio. Rapidamente, 

agarrou-se  à  borda  do  assento  mais  próximo.  Em  poucos 

segundos  o  ônibus  ganhou  velocidade  ao  longo  da  alameda,  e  todos 
começaram a relaxar e a conversar outra vez. 

Na  traseira,  dentro  de  um  engradado  de  arame,  ouvia-se  o 

cacarejar de galinhas. 

De  repente,  Glenda  percebeu  um  certo  movimento  no  corredor. 

Alguém avançou, vindo do fundo, abrindo caminho por entre a fila dupla 
de passageiros em pé. O ônibus 

fez uma curva fechada ao entrar na estrada, deixando para trás a 

alameda,  onde  sobressaíam  o  mercado  e  o  shopping  center.  A  pessoa 
que atravessara penosamente o 

corredor surgiu à sua frente com um sorriso amigável. 
—  Olá,  srta.  Thompson  —  cumprimentou  Alberto.  Guardei  um 

lugar lá no fundo para a senhora. Deixe que eu levo sua bagagem. Para 
onde vai? Puerto Plata? 

Nunca ficara tão contente em ver um rosto familiar como naquele 

momento, pensou Glenda, enquanto caminhava atrás de Alberto, que ia 
abrindo o caminho, pedindo licença 

e  dizendo  obrigado.  Ninguém  parecia  se  importar  em ter  de  abrir 

espaço para que eles passassem. Eram, na maioria, jovens em clima de 
festa, que sorriam, simpáticos, 

e, por vezes, exclamavam: "Tudo bem". 
Por  fim,  Glenda  alcançou  o  banco  vazio,  zelosamente  guardado 

por  um  amigo  de  Alberto.  Ficava  próximo  ao  ocupado  por  uma  mulher 
negra, dona do engradado de galinhas. 

Glenda sentou-se, agradecida, enquanto Alberto ficou de pé, junto 

dela. O ônibus saiu da rodovia principal e começou a subir a montanha. 

— Muitas pessoas moram em fazendas, de modo que o 
65 
ônibus pára em vários pontos. Outros sobem para passar a Páscoa 

na  cidade  —  explicou  Alberto.  —  Leva  horas  para  se chegar  em  Puerto 
Plata. 

— Quanto tempo? 
—  Mais  ou menos quatro horas.  Estaremos lá antes do anoitecer. 

—  Os  olhos  castanhos  examinaram-na  com  curiosidade.  —  Por  que  a 

background image

senhora não esperou o dr. Estrada 

voltar? 
Se havia tido alguma dúvida sobre a identidade do homem que a 

hospedara  em  Samana,  agora  havia  se  dissipado.  Alberto  conhecia-o 
como dr. Estrada, chamava-o assim 

sem  hesitação.  O  dr.  Estrada  que  o  ajudaria  a  frequentar  a 

universidade; o dr. Estrada que não se casara porque preferia trabalhar 
para a população pobre de seu 

país. 
—  Como  sabe  que  ele  me  pediu  para  que  o  esperasse?  Glenda 

contra-argumentou,  não  querendo  mentir  para  Alberto,  mas  também 
não querendo contar-lhe toda a história. 

—  Sei  disso  porque  vi  ele  deixar  um  bilhete  para  a  senhora.  Fui 

chamá-lo  para  ver  minha  avó  que  ficou  doente  durante  a  noite  — 
respondeu Alberto. — Por que não o 

esperou? 
—  Tenho  algumas  coisas  para  fazer  em  Puerto  Plata,  hoje,  antes 

de viajar amanhã para o Canadá. 

O  rapaz  acenou  com  a  cabeça,  num  gesto  de  compreensão,  e 

depois disse: 

— Espero que tenha deixado um outro bilhete avisandoo disso. Se 

não, ele ficará preocupado. 

Mordendo  o  lábio,  Glenda  abaixou  os  olhos  para  o  busto 

avantajado  da  mulher  negra  e,  depois,  desviou  o  olhar  para  a  densa 
floresta úmida à margem da estrada que 

subia,  tortuosa.  Não  tinha  deixado  bilhete  algum.  Em  vez  disso, 

pedira a Rosário para transmitir o recado a César... Não, decididamente 
aquele homem não era César. 

Era, sim, Rafael, mais magro e mais alto do que César, que sabia 

dirigir razoavelmente. 

O  ônibus  atingiu  o  topo  da  montanha,  demorando-se  aí  por  um 

instante,  e,  em  seguida,  mergulhou  do  lado  contrário,  chacoalhando  e 
balançando. As galinhas fizeram 

um  grande  alarido,  alvoroçadas;  os  jovens,  em  pé  no  corredor, 

caíram  uns  sobre  os  outros,  dando  risadas.  Alberto  chocou-se  contra 
Glenda e pediu 

desculpas, desmanchando-se 
num sorriso. 
66 
—  Não  foi  nada  —  disse  ela,  também  sorrindo.  Mas,  conte-me,  o 

que aconteceu com sua avó? 

—  Ela  costuma  se  queixar  de  dores  aqui  —  Alberto  cutucou  o 

estômago com o polegar. — A noite passada, 

sentiu-se muito mal, e eu tive que chamar o dr. Estrada. Ele 

background image

acha que ela tem uma úlcera. Esta manhã, logo cedo, ele a levou 

de carro ao hospital para fazer uma operação. 

Nesse  ponto,  a  mulher  negra  entrou  na  conversa,  fazendo  a 

Alberto  perguntas  diretas,  no  inglês  arcaico  e  limitado  da  península.  O 
nome Estrada veio à tona muitas 

vezes. Glenda lançou um olhar curioso para Alberto. 
— O que ela está dizendo? — cochichou. 
—  Que  conhece  o  dr.  Estrada.  Diz  que  é  um  excelente  médico  e 

uma  pessoa  bondosa.  Ele  salvou  a  vida  da  filha  dela,  que  teve 
problemas 

na hora do parto. Diz também 
que  tem  muito  prazer  em  nos  conhecer  e  garante  que  o  dr. 

Estrada vai fazer o melhor por minha avó. 

Glenda se voltou para a mulher, que se apresentou como Victoria 

Jones, cumprimentando-a. 

— Yanqui? — a passageira perguntou. 
— Não, canadense. — Glenda respondeu. 
A  mulher pareceu  confusa,  e Alberto  teve  de explicar. Ela  fez  um 

gesto de compreensão com a cabeça, abriu um sorriso largo e disparou 
a falar. Novamente Alberto 

serviu de intérprete. 
—  Diz  que  a  senhora  é  bem-vinda  a  este  país.  Que  todos  os 

canadenses  são  bem-vindos  em  Samana.  Costumam  gastar  muito 
dinheiro aqui, e possuem um grande barco em 

Puerto Plata. 
Nisso,  o  ônibus  fez  uma  parada num  vilarejo  pobre. Houve  muito 

empurra-empurra  e  gritaria  quando  alguns  passageiros  desceram, 
enquanto outros embarcavam. O 

banco  detrás  de  Glenda  ficou  vago,  de  modo  que  Alberto  e  seu 

amigo  puderam  sentar-se.  A  conversa  acabou  e  o  ônibus  recomeçou  a 
viagem, montanha acima. 

Glenda  fechou  os  olhos,  recostou  a  cabeça  no  assento  e  seu 

pensamento  voou  para  Rafael  Estrada.  Por  que  ele  havia  feito  aquilo? 
Por que se fizera passar pelo irmão? 

Por  simples  brincadeira  de  mau  gosto,  ou  por  espírito  de 

aventura? Será que ele era uma espécie de maníaco sexual, que 

67 
se  satisfazia  em  seduzir  uma  mulher  usando  outra  identidade? 

Nesse caso, como conseguia ser um homem tão respeitado e um médico 
de fama? 

A lembrança dos cuidados que Rafael tivera para com ela durante 

sua  primeira  noite  em  Samana  veio-lhe  à  mente  num  relâmpago.  Se 
não tivesse passado tão mal, certamente 

ficaria intrigada com o comportamento tão prático de César. Teria 

background image

se  perguntado  por  que  ele  comentara  sobre  a  incidência  frequente  de 
hepatite entre as pessoas 

pobres. Mas, se o tivesse interrogado, ele admitiria então não ser 

César  Estrada,  o  escritor,  mas  sim  Rafael  Estrada,  o  médico?  E  a 
pergunta mais importante de todas: 

Rafael teria, ainda assim, feito amor com ela na noite anterior? E 

ela? Consentiria, se tivesse a certeza de que ele era outro? 

O  ônibus  parou,  e  a  mulher  negra  avisou  que  ia  descer.  Após 

muita  confusão,  conseguiu  atravessar  o  corredor  com  o  engradado  de 
galinhas. Glenda sentou-se do lado 

da  janela  e  Alberto  veio  lhe  fazer  companhia.  Mais  passageiros 

subiram,  e  o  veiculo  logo  se  pôs  em  movimento.  Fazia  um  calor 
sufocante e havia um cheiro fétido no 

ar, que não se dissipou nem mesmo com todas as janelas abertas. 
Entretanto,  sob  um  límpido  céu  azul,  iam  se  sucedendo  belas 

paisagens.  De  um  lado,  as  encostas  das  montanhas  recobertas  de 
vegetação tropical, frente ao mar ensolarado 

do  Caribe;  de  outro,  as  cordilheiras  escarpadas  que  protegiam  os 

vales luxuriantes. 

—  Onde  quer  descer  em  Puerto  Plata?  —  perguntou  Alberto, 

levantando  a  voz  para  que  ela  o  ouvisse,  pois  o  ruído  do  motor  era 
ensurdecedor, além do falatório geral. 

— vou para a casa de César Estrada. Sabe onde fica? 
— Claro! Descemos na avenida. vou com a senhora, para ensinar-

lhe  o  caminho  —  tornou  ele,  com  um  simples  mas  encantador 
cavalheirismo. 

Apesar  do  mau  cheiro,  do  calor  e  do  barulho,  Glenda  não  teria 

perdido esta viagem de ônibus por nada! Só assim tinha se aproximado 
mais do verdadeiro povo daquele 

país exótico e descoberto sua simpatia e cordialidade. 
— Você conhece bem César Estrada? — ela perguntou. 
— Não, ele não costuma vir a Samana. E a senhora, conhece? 
68 
— Sim. Eu o conheci, mas isso já faz muito tempo! 
— Ele é um escritor famoso. Milhares de cópias de seus livros são 

vendidas  e  rendem  muito  dinheiro.  O  doutor  me  disse  que  ele  vive  a 
maior parte do tempo em Nova 

York. Só vem para  cá durante as férias, mas vai passar a Páscoa 

em Puerto Plata. — Alberto falava com segurança, como se desfrutasse 
da intimidade de César. 

Bem,  pelo  menos  alguma  coisa  batia  com  a  informação  que 

Glenda recebera da governanta  da casa de César quando  telefonara no 
começo da semana. Agora podia ter a certeza 

de  que  César  estava  em  casa,  suspirou  Glenda.  Se  conseguisse 

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chegar  viva  daquela  viagem,  faria  uma  entrevista  com  ele.  Pensando 
nisso, revistou a frasqueira à procura 

do gravador, mas não o encontrou. com um gemido, deuse conta 

de  que  não  o  vira  mais  desde  aquele  dia,  no  cais.  Provavelmente, 
esquecera-o na casa da praia. 

—  A  senhora  está  bem?  —  indagou  Alberto,  percebendo-lhe  a 

ansiedade. 

—  Sim,  estou.  É  que  me  esqueci  de  algo  na  casa  do  dr.  Estrada. 

Será  que  você  viu  um  gravador  ontem  à  noite,  quando  limpou  a  mesa 
no cais? 

—  Vi  sim.  Eu  o  deixei  na  cozinha.  A  senhora  não  o  viu  hoje,  de 

manhã? 

Glenda  não tinha  reparado. Ficara  tão  confusa  com a  chegada  de 

Rosário e com a descoberta incrível que fizera sobr 

re César, que nem sequer havia se lembrado do gravador. 
— Não, eu não o vi — e deu um suspiro. 
—  Não  se  preocupe!  Quando  o  doutor  o  encontrar,  mandará 

alguém  entregá-lo,  ou,  então,  ele  mesmo  irá  à  casa  do  irmão  levá-lo 
pessoalmente. Quando a senhora vai embora 

do pais? 
— Amanhã de manhã. 
— Gostaria de poder ir para o Canadá com a senhora. 
—  Você  não  diria  isso,  se  tivesse  passado  um  só  inverno  lá  — 

disse Glenda. — Faz frio demais. Além disso, não existem palmeiras. 

—  Eu  sei.  Mas  lá  há  trabalho  e  muito  beisebol  —  ele  respondeu, 

tranquilo.  —  Um  dia  eu  irei.  Pode  deixar  seu  endereço  para  que  eu 
possa visitá-la? 

— Ah, claro que sim! — Glenda pegou sua agenda e arrancou 
69 
uma  folha  em  branco  onde  anotou  seu  endereço  e  telefone.  —  E 

se você achar o gravador, diga ar Estrada para onde enviá-lo. Fará isso 
para mim, Alberto? 

— com todo o prazer. Pode ficar tranquila. — Ele apanhou a folha 

e,  em  seguida,  leu  o  endereço  em  voz  alta,  com  certa  dificuldade. 
Depois perguntou: — Li corretamente? 

— Claro, Alberto! É isso mesmo. 
Enquanto  ele  guardava  o  endereço  numa  carteira  que  tirou  do 

bolso de trás, Glenda tornou a olhar pela janela. O assunto do gravador 
trouxera à tona as recordações 

da noite anterior, quando ela insistira na entrevista. Compreendeu 

que, dali em diante, ela perdera todo o controle da situação. Deveria ter 
sido mais forte e, crivando-o 

de  perguntas  diretas  e  pessoais,  que  o  levassem  a  confessar  que 

não era o mesmo homem que ela conhecera em Montreal. 

background image

Em vez disso, Rafael a seduzira com palavras românticas e olhares 

ardentes. Habilmente, a levara a concretizar um caso de amor, frustrado 
oito anos atrás. Na verdade, 

ele  lhe  havia  fornecido  .alguns  dados  pessoais  para  suas 

anotações,  mas  tudo  o  que  ele  dissera  servia  tanto  para  o  próprio 
Rafael, como para César. E assim que ela 

começara  a  pressioná-lo,  a  entrevista  foi  adiada  para  o  dia 

seguinte. 

Oh,  devia  ter  percebido  as  intenções  dele,  mas  não  percebera 

mesmo! Nunca poderia adivinhar que ele era um impostor. Um impostor 
fascinante e maravilhoso, que a 

conquistara num abrir e fechar de olhos... 
Enquanto 

ônibus 

rodava 

montanha 

abaixo, 

pegando 

rapidamente a rodovia para Puerto Plata, Glenda mantinhase calada, de 
mau humor e perplexa com o próprio comportamento... 

70 
CAPÍTULO VII 
 
O  sol  poente  era  uma  enorme  bola  de  fogo  no  céu  quando  o 

coletivo,  finalmente,  chegou  na  longa  avenida  de  Puerto  Plata.  O 
entusiasmo dos jovens passageiros contagiou 

Glenda,  sacudindo-a  de  seu  profundo  torpor.  Lá  fora, as  calçadas 

estavam apinhadas de gente, a maioria dos rapazes e moças vestiam-se 
a rigor. 

Eles estavam fazendo uma coleta de fundos na avenida, disse-lhe 

Alberto, para o espetáculo de dança e música que iria se realizar à noite, 
e também para comprar 

doces e prendas nas barracas da quermesse. 
—  Somos  pobres,  mas  sabemos  nos  divertir  sem  problemas  — 

continuou  ele.  —  Todos  vão  se  comportar  direitinho.  Caso  contrário,  a 
polícia agirá rápido, levando o desordeiro 

a passar a noite na cadeia. Veja ali, aqueles policiais, no meio da 

multidão, munidos de walkie-talkies. Em caso de briga ou arruaça, eles 
chamam, num piscar de 

olhos,  uma  viatura.  A  polícia  dominicana  é  muito  rápida  e 

eficiente. É por isso que aqui não tem baderna, nem agitações. 

O entusiasmo dele em relação à força policial surpreendeu Glenda 

momentaneamente.  Imaginou  uma  certa  agressividade  por  parte  dos 
guardas para manterem a ordem, 

mas  não  teve  tempo  de  refletir  sobre  o  assunto,  nem  fazer 

perguntas, pois Alberto já se preparava para descer, insistindo para que 
ela o seguisse pelo corredor, 

em direção à porta. 
Após combinar um encontro com seu amigo, no mesmo lugar, dali 

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a  meia  hora,  Alberto  conduziu  Glenda  por  um  terreno  baldio.  Subiram 
um morro até chegarem a um beco 

sem  saída  onde  havia  pequenas  casas  em  ruínas,  que  não 

passavam  de  barracos.  A  seguir,  entraram  numa  rua  que  Glenda  logo 
reconheceu. Era ladeada por casas maiores, 

muitas  delas  em  estilo  vitoriano,  com  altos  frontões  e  amplas 

varandas. 

71 
Em poucos minutos estavam parados do lado de fora da residência 

de  César  Estrada.  A  casa  compunha-se  de  três  pavimentos,  e  as 
paredes, de blocos de concreto, eram 

pintadas  de  branco.  Os  ornatos  em  relevo  que  decoravam  os 

frontões e as varandas eram pintados de creme. 

Acompanhada  de  Alberto,  Glenda  subiu  os  degraus  da  imponente 

entrada. 

— Agora me vou, senhora — disse Alberto no topo da escada. 
Glenda  remexeu  dentro  da  bolsa,  tirou  algumas  notas  em  peso e 

entregou-as a ele. 

— Obrigada, Alberto. Você foi muito gentil. Adeus! 
—  Obrigado,  senhora,  muito  obrigado:  —  Os  olhos  grandes  de 

Alberto  brilharam  ao  ver  o  punhado  de  cédulas.  Volte  logo  a  este  país. 
— Ele desceu os degraus aos pulos 

e saiu correndo pela rua. 
Por  alguns  instantes,  Glenda  ficou  parada,  quieta,  acalmando-se. 

Precisava  se  preparar  para  o  que  iria  dizer  em  espanhol  quando  a 
governanta abrisse a porta. A rua 

estava silenciosa, sem nenhum movimento de tráfego. 
Do  lado  oposto,  as  brancas  fachadas  das  casas  adquiriam  uma 

tonalidade  colorida  sob  os  últimos  raios  de  sol.  As  sombras  se 
adensavam a seus pés, e o som de música 

— o dedilhar monótono de violões e a batida erótica de tambores 

vinha  da  avenida,  dando  certo  encanto  ao  anoitecer.  Sem  querer, 
lembrou-se da noite anterior, quando 

se encontrou nos braços de um homem ao balanço de uma rede... 
Ansiosa,  Glenda  voltou-se  para  a  porta  e  comprimiu  o  botão  da 

campainha. 

As  luzes  das  casas  começavam  a acender,  iluminando as janelas. 

Nisso, ela percebeu, indistintamente, do outro lado da rua, os contornos 
de um caminhão cinza estacionado 

com displicência, entre a calçada e o meio-fio. Seria um Hyundai? 
A porta se abriu e ela teve um sobressalto. 
O rosto enrugado, cor de nogueira, da governanta abriuse em um 

sorriso amistoso. 

— Buenos noches, senorita — cumprimentou. 

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— Buenos noches. O senhor César Estrada está em casa? 
— Si, senorita. Entre, por favor. 
72 
Glenda  passou  pela  governanta  e  entrou  no  vestíbulo.  A  porta  se 

fechou e a criada a conduziu por um corredor até um salão que ocupava 
toda a largura da casa. 

—  Por  favor,  espere  aqui  —  disse  a  governanta  com  polidez.  — 

vou avisar o senor César que a senoriía está aqui. 

— Ela se afastou na direção de uma escadaria, num dos cantos do 

salão. 

Uma  magnífica  balaustrada  de  madeira  entalhada  curvavase, 

acompanhando  a  subida  dos  degraus,  e  desaparecia  no  pavimento 
superior. Pondo a frasqueira no chão, Glenda 

olhou ao redor com interesse. 
As paredes do salão eram revestidas de uma madeira dourada e o 

teto  alto,  decorado  nos  cantos  com  desenhos  de  rosas  entalhadas.  No 
seu centro havia uma pintura de 

querubins  adejando  em  torno.  O  olhar  de  Glenda  passou  rápido 

para  o  soalho  de  azulejos,  um  mosaico  de  ardósia  colorido,  formando 
um desenho geométrico. 

Subindo do piso, seus olhos detiveram-se numa cadeira antiga de 

mogno  avermelhado,  em  cujas  costas  estava  gravada  a.figura  de  um 
guerreiro, empunhando uma espada. 

No assento da cadeira havia um chapéu de sol masculino, de copa 

alta  e  abas  largas.  Glenda  estava  fitando  aquele  chapéu  de  aspecto 
familiar quando ouviu a voz de 

uma mulher atrás de si. 
— Quem é você e o que deseja? — O espanhol era carregado e a 

entonação  forçada,  destruindo  a  melodia  ritmada  da  língua,  dando-lhe 
um tom gutural. 

Glenda  se  voltou  bruscamente.  Bem  no  centro  de  uma  porta 

envidraçada,  na  parede  fronteira  ao  vestíbulo,  havia  surgido  uma 
mulher de meia-idade. Os cabelos loiros, 

cortados à  altura  do  ombro  e um  tanto  opacos, cobriam  parte  do 

rosto comprido e magro. Os olhos azul-claros, aumentados por lentes de 
contato, fitavam, agressivos, 

por  debaixo  de  sobrancelhas  finamente  depiladas.  Ao  lado  da 

mulher  encontravase  uma  menina  morena  de  uns  seis  anos  de  idade. 
Seus olhinhos castanho-escuros piscaram, 

cheios  de  curiosidade,  para  Glenda,  antes  de  se  esconderem 

timidamente atrás da saia da mãe. 

—  Sou  Glenda  Thompson  e  vim  do  Canadá  para  ver  o  sr.  César 

Estrada — disse em inglês, certa de que seria 

compreendida. 

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73 
O tom de voz era agradável, e Glenda sorriu sem prever a reação 

grosseira da mulher. 

—  Como  se  atreve  a  vir  aqui?  —  a  outra  respondeu,  ríspida,  em 

inglês. 

Imediatamente,  Glenda  reconheceu,  surpresa,  que  estava  diante 

de uma compatriota. Entretanto, a mulher deu uns passos à frente com 
um olhar gélido. Quanto à garotinha, 

aproveitou a oportunidade para sair correndo, passando pela porta 

envidraçada,  em  direção  a  um  pátio  ajardinado,  onde  as  sombras  da 
noite já começavam a descer sobre 

as árvores. 
— Vá-se embora — ordenou a mulher, com frieza. — César não a 

quer  nesta  casa,  nem  eu,  tampouco.  Saia  imediatamente,  ou  chamo  a 
polícia. 

— Mas eu sou uma grande amiga de César. Eu o conheci há anos, 

em Montreal — Glenda replicou calma, sem se deixar intimidar. Já havia 
enfrentado resistência muito 

mais  violenta  no  passado  e,  agora  que  se  achava  tão  perto  de 

encontrar  o  verdadeiro  César  e  entrevistá-lo,  estava  determinada  a 
manter sua posição. 

—  Sei  quem  você  é,  o  que  faz  e  por  que  veio  aqui,  e  estou  lhe 

dizendo que saia. Tenho esse direito, pois esta é minha casa. Sou Janice 
Estrada, esposa de César. 

—  Estou  muito  contente  em  conhecê-la.  —  Ignorando  o  olhar 

penetrante e hostil de Janice, Glenda estendeu a mão. 

—  Saia!  Vá-se  embora!  —  com  o  pescoço  vermelho  de  raiva, 

Janice deu um tapa na mão de Glenda. — Volte para o Canadá e deixe-
nos em paz! 

—  Mas  eu  gostaria  de  vê-lo  apenas  uma  vez  antes  de  ir.  Parto 

amanhã  de  manhã,  de  modo  que  você  não  vai  me  ver  mais  rondando 
por aqui e incomodando vocês. Por favor, 

deixe-me vê-lo — Glenda insistiu. 
Os  passos  na  escada,  no  fim  do  salão,  e  o  som  de  uma  voz 

masculina a fizeram deduzir que logo César iria aparecer, livrando-a das 
garras hostis de Janice. 

— Saia, vamos, antes que eu bata em você! — Janice esganiçou a 

voz  e  levantou  a  mão,  como  que  para  dar  uma  bofetada  no  rosto  de 
Glenda, que deu um passo para trás, 

quase  perdendo  o  equilíbrio.  Tinha  a  impressão  de  que  Janice 

estava psicologicamente desequilibrada, e gostaria de saber por quê. 

74 
—  Ah,  querida,  finalmente  você  chegou!  Espero  que  a  viagem  de 

ônibus não tenha sido muito cansativa. 

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Espantada  com  o  som  daquela  voz  profunda  e  carinhosa  que  a 

seduzira  durante  a  noite, mas  que agora  dirigia-se a  ela  num  leve  tom 
de troça, Glenda voltou-se bruscamente. 

Dois  homens  aproximavam-se  delas,  idênticos  e,  no  entanto, 

diferentes.  Ambos  usavam  calças  e  camisas  brancas.  Ambos  tinham 
cabelos grisalhos, puxados para trás da 

testa,  e  a  pele  morena.  Ambos  possuíam  aristocráticas  feições 

espanholas: nariz empinado e altivo, e lábios sensualmente curvos. 

Um deles — o que estava ligeiramente à frente do outro 
—  sempre  fora  o  líder,  pensou  Glenda. Era  um pouco mais  alto e 

magro e ágil como um gato. O outro possuía formas mais arredondadas 
e, na verdade, já estava criando 

barriga.  Usava  óculos  escuros  e  sorria,  tímido,  para  ela.  Glenda 

não  teve  dúvidas  de  que  era  o  pai  da  garotinha  que  estava  há  pouco 
com Janice. 

De  repente,  as  mãos  de  Glenda  foram  seguras  por  outras  mãos, 

magras  e  fortes.  O  homem  que  era  a  causa  de  seus  tormentos  estava 
diante dela, puxando-a para si, encostando 

o rosto levemente áspero no seu. 
Ao simular um beijo, ele murmurou rápido ao ouvido dela: 
— Pelo bem de César, faça o que eu lhe disser! Janice está fora de 

si.  Ela  tem  ciúme  de  qualquer  mulher  que  olhe  oi  converse  com  ele. 
Deixe-a acreditar que você 

é minha namorada, e tudo dará certo. Não lhe será difícil, após a 

noite 

passada. Eu explicarei mais tarde. Meu nome é Rafael. 
— Eu sei disso, desgraçado! — ela também murmurouB furiosa. 
Mas  um  beijo  inesperado  na  boca  pôs  fim  às  suas  palavras.  O 

beijo  não  demorou  muito,  mas  a  deixou  sem  fôlego  e  incapaz  de 
qualquer protesto. 

Enlaçando-a pela cintura, Rafael a fez voltar-se e encarar César. 
— Lembra-se  de Glenda, César? Nós a conhecemos em Montreal! 

— A voz dele soou agradável. — Ela passou os últimos dois dias comigo, 
em Samana. 

— Claro que me lembro! Olá, Glenda, É bom ver você de novo — 

César  falou  devagar  e  com  sobriedade,  franzindo  um  pouco  a  testa, 
como se estivesse repetindo palavras 

75 
que  lhe  haviam  mandado  dizer.  Entretanto,  não  lhe  estendeu  a 

mão. 

—  Vocês  dois  conheceram  esta  moça  em  Montreal?  —  perguntou 

Janice,  que  estivera  observando  o  desempenho  de Rafael  em  silêncio e 
estupefata. O tom de voz era alto 

e brusco. 

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— Nunca soube que você esteve em Montreal, Rafael. Pensei que 

só estudasse medicina nos Estados Unidos. 

—  É  verdade  —  socorreu  Rafael.  —  Mas  eu  costumava  visitar 

César quando ele vivia em Montreal, e lá conheci Glenda. Tivemos bons 
momentos juntos, não foi mesmo, querida? 

—  Eu...  ahn...  sim.  Porém,  realmente  esperava  rever  César 

também, quando vim aqui. 

— Para dar-lhe os parabéns, é claro, pelo novo romance 
— Rafael apressou-se em explicar à desconfiada Janice. 
—  Correto.  —  Glenda  conseguiu  se  desvencilhar  do  braço  de 

Rafael  e  deu  um  passo  na  direcão  de  César.  —  É  ótimo  ver  você  de 
novo. — Sorriu para ele, mas se sentiu 

embaraçada.  Tinha  conhecido  aquele  homem  em  Montreal,  não 

tinha?  Mas  conhecera  também  o  outro,  o  que  estava  postado 
exatamente atrás dela? — Passei para vê-lo quase 

todos  os  dias  desde  que  cheguei  aqui  —  continuou.  —  Deixei  um 

recado para você. Você o recebeu? 

— Um recado? — César fez uma cara de espanto. 
—  Deixei  com  a  governanta  pá  quarta-feira.  Ela  me  disse  que  o 

esperava naquela mesma tarde. Deixei meu nome e o endereço do hotel 
onde estou hospedada. Fiquei aguardando 

que você entrasse em contato comigo e, depois, liguei novamente 

na  manhã  de  quinta.  A  governanta  disse  que  você  havia  chegado,  mas 
tornara a sair. 

—  Você  recebeu  o  recado  dela,  César?  —  perguntou  Janice. 

Aproximou-se do marido e deu-lhe o braço, num gesto possessivo. 

César parecia constrangido. Começou a suar na testa e seus olhos 

resvalaram do rosto de Glenda, a quem fitava como que fascinado, para 
o do irmão. Glenda compreendeu, 

de  súbito,  que  ele  havia  recebido  seu  recado,  mas  não  contara 

nada a Janice, porque ficara com medo da 

reação da esposa. 
Tudo,  em  parte,  esclarecido,  Glenda  decidiu  não  levar  adiante  o 

assunto, para não criar mais dificuldades para o casal. 

76 
—  Oh,  bem,  não  faz  mal  se  não  o  recebeu  —  disse 

despreocupadamente,  encolhendo  os  ombros.  —  Aposto  que  a 
governanta não entendeu o meu espanhol. E deu tudo certo 

no fim, não é mesmo? Tive afinal a chance de vê-lo e... 
—  Como  soube  que  estávamos  em  Puerto  Plata?  Onde  descobriu 

que  retornaríamos  à  República?  —  disse  Janice,  ainda  irritada  e 
desconfiada. — Você lhe contou, Rafael? 

— Sou inocente — replicou ele. 
—  Ninguém  me  contou.  Simplesmente  tinha  esperança  de 

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encontrar César aqui. Estou aqui, de férias, e me lembrei de que, certa 
vez, César sugeriu que eu o visitasse, 

se algum dia viesse a este país. — Glenda sorriu novamente para 

César,  que  a  fitava,  desconcertado,  enquanto  mordia  nervosamente  o 
canto do lábio superior. — Não 

se lembra de ter me convidado? — ela indagou. 
—  Glenda,  querida  —  Rafael  disse,  tranquilo,  pondo  a  mão  no 

ombro  dela.  —  Você  já  conseguiu  o  que  queria,  já  reviu  meu  irmão. 
Agora vamos embora! Eu a levarei de 

carro para o hotel. 
—  Ainda  não!  —  Ela  libertou  o  braço.  —  Gostaria  de  fazer  uma 

entrevista  com  você,  César.  É  para  a  revista  onde  trabalho.  Todos  os 
seus amigos e conhecidos canadenses 

ficarão  contentes  em  ler  uma  reportagem  a  seu  respeito. 

Conversei com o professor Redman pouco antes de sair do Canadá. Ele 
está impressionado com o seu sucesso 

e acha que deu uma mãozinha na elaboração de seu romance por 

ter  lhe  ensinado  criação  literária  em  inglês.  Você  se  importaria  em  me 
conceder meia hora a sós para 

conversarmos sobre o seu trabalho? 
— Não. — Foi Janice quem respondeu rispidamente. César já deu 

muitas  entrevistas.  Estamos  cansados  do  assédio  de  repórteres.  Vá-se 
embora! Rafael acompanhará você. 

—  Mas  não  tomarei  muito  tempo.  Prometo  não  fazer  perguntas 

sobre sua vida particular. Quero apenas escrever sobre o romance e os 
motivos que o levaram a criá-lo. 

— Glenda apelou para César e notou que ele mordia ainda mais o 

lábio. 

— O livro fala por si mesmo — interferiu Janice, que parecia ter se 

transformado em porta-voz do marido. — César não precisa explicar por 
que o escreveu, nem para 

você, nem para ninguém. Agora é melhor que se retire. 
77 
— Sinto muito, Glenda. — César, enfim, parecia ter acordado para 

a vida, e ela reparou quão diferente ele falava de Rafael. Seu modo era 
hesitante e o sotaque muito 

mais  carregado  de  espanhol.  —  Janice  tem  razão.  Já  estou 

cansado de dar entrevistas. Também acho melhor que se vá com Rafael. 
— Voltou os olhos para ela, como que 

lhe implorando compreensão. 
—  Eu  também  lamento  —  disse  Glenda,  retirando-se  com  toda  a 

dignidade  possível.  —  Não  tive  a  intenção  de  causar  aborrecimentos. 
Adeus, César. Adeus, sra. Estrada. 

—  Adeus  —  respondeu  Janice,  como  quem  queria  dizer  "já  vai 

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tarde". 

— Adeus! — César parecia pesaroso. — Faça uma boa viagem. 
Depois,  de  braços  dados,  marido  e  mulher  deram  as  costas  e 

saíram para o jardim. 

—  Se  você  tivesse  aguardado  minha  volta  na  hora  do  almoço, 

conforme  lhe  pedi,  Glenda,  teria  evitado  esta  cena  desagradável.  —  O 
tom de Rafael era áspero. 

Ela  rodopiou,  encarando-o.  com  o  chapéu  numa  das  mãos  e  a 

frasqueira de Glenda na outra, ele a observava, os lábios contraídos de 
sarcasmo. 

— Trapaceiro!  Mentiroso! — desabafou ela, dando afinal vazão às 

emoções 

confusas 

violentas 

que 

lhe 

agitavam 

íntimo. 

Completamente fora de si, investiu contra 

ele,  batendo  com  os  punhos  em  seu  peito  rijo.  —  Você  nunca 

esteve em Montreal oito anos atrás! 

—  Sim,  estive.  Todavia,  você  nunca  percebeu  a  diferença  entre 

mim e César. Naquela ocasião, estava muito ocupada com o seu namoro 
com Greg. Além disso, você morria 

de  medo  de  se  apaixonar  por  mim...  —  Ele  se  interrompeu, 

hesitante  e,  em  seguida,  enfiou  o  chapéu  na  cabeça.  —  Olha,  prefiro 
explicar tudo em um outro lugar. — E 

olhou,  cauteloso,  para  o  local  por  onde  Janice  e  César  haviam 

sumido. 

— Vamos a algum lugar onde Janice não esteja por perto. Que tal 

jantarmos  juntos?  Não  comi  nada,  desde  a  manhã.  Quando  voltei  para 
casa, soube por Rosário que você 

viria para cá e saí correndo ao seu encalço. Como vê, cheguei aqui 

antes...  —  Entreabriu  os  lábios  num  sorriso  irónico.  —  Você  também 
deve estar faminta. 

78 
Realmente. Sentia-se fraca e  um pouco tonta. Mas  não estava só 

com fome. Estava também desnorteada e infeliz porque ele lhe mentira 
descaradamente, demonstrando 

um sentimento falso, inexistente... E, pior, porque ele, o César de 

quem se lembrava, não era aquele homem casado com Janice. 

— Pôr quê? Por que fez isso? Por que fingiu ser César? 
— perguntou, desconsolada. 
—  Para  ajudar  meu  irmão.  É  o  que  sempre  tenho  feito.  Sou  o 

primogénito.  Ele  quase  morreu  ao  nascer  e precisou muito  de  cuidados 
para sobreviver. Mamãe sempre me 

pedia para tomar conta dele na escola, e, desde então, isso virou 

um  hábito.  Na  situação  atual,  estou  tentando  salvar  seu  casamento,  já 
quase desfeito. Em Montreal, 

tive de ajudálo a sair de uma grande confusão em que se meteu. 

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No  fundo,  ele  não  é  um  mau  sujeito,  tem  até  um  coração  mole...  A 
verdade é que não sabe dizer "não" 

a  ninguém.  Às  vezes  quer  ajudar  as  pessoas,  mas  acaba 

magoando-as quase sempre. — Uma expressão de tristeza anuviou seu 
rosto. — Ouça, não posso contar-lhe o que 

ele  fez  a  Janice,  aqui.  Venha!  Vamos  jantar.  vou  explicar-lhe  por 

que  muitas  vezes  tive  que  passar  por  César,  a  fim  de  livrá-lo  de 
situações difíceis. Talvez, então, 

possa me perdoar, Glenda. Por favor! 
Aquela voz profunda e aqueles olhos meigos a estavam seduzindo 

novamente.  Quando  se  deu  conta,  Glenda  já  atravessava  o  vestíbulo, 
levada pela mão de Rafael, que 

não  lhe  dera  nem  tempo  de  dizer  não.  Saíram  apressados,  pela 

porta de entrada, e desceram os degraus. 

Na rua, ele caminhou, sem hesitação, até o caminhão, estacionado 

do  outro  lado  da  calçada.  Glenda  não  conseguiu  alcançá-lo 
imediatamente, pois dois carros que passavam 

obrigaram-na  a  esperar.  Quando  chegou  ao  caminhão,  sua 

frasqueira já  estava  no  bagageiro  e  Rafael ocupava o  volante.  O  motor 
fora ligado e os faróis, acesos. 

Glenda  o  enfrentou,  ali  parada  ao  lado  do  veículo,  pela  janela 

aberta: 

—  Não  quero  jantar  com  você!  Não  quero  vê-lo  nunca  mais. 

Guarde para si suas mentiras. Acho você desprezível! Adeus, vou voltar-
para o hotel. 

— Como? 
79 
— vou pegar um táxi em algum lugar. — Um carro passou veloz, e 

ela  teve  de  espremer-se  contra  a  porta  do  caminhão  para  não  ser 
atropelada. O hálito morno de Rafael 

bafejou-lhe o rosto quando ele falou: 
— Sua tola! Você vai morrer se continuar parada aí. Entre! Eu levo 

você para o hotel,  se é o que quer.  Quando chegarmos lá, porém, eles 
já terão terminado de servir 

o jantar. 
— Um outro veículo passou perto, buzinando. — Entre, Glenda! — 

ele berrou. 

Glenda deu a volta, contornando a frente do caminhão. A porta já 

estava aberta e ela subiu, sentando-se ao lado dele. O caminhão, então, 
partiu como uma bala, executou 

um semicírculo e desceu a rua ruidosamente. 
— Vamos comer primeiro e, depois, iremos para o hotel 
—  anunciou  Rafael  com  arrogância,  agora  que  conseguira  impor 

sua Vontade. 

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O caminhão ia desviando de outros veículos. Era como descer uma 

pista de esqui em ziguezague, pensou Glenda, agarrando-se à maçaneta 
dá porta. De repente, veio-lhe 

à recordação uma pista de esqui perto da cidade de Quebec, onde 

anos  atrás  fora  esquiar  com  Greg  e  César.  Naquela  ocasião,  César 
estava aprendendo a esquiar e levara 

um  tombo.  Ela  voltara-se  para  acudi-lo.  Entre  risadas,  ele  a 

puxara para junto dele. Os dois haviam rolado pela neve e os abraços e 
beijos tinham sido inevitáveis. 

Horas  depois,  retornaram  à  estação  de  esqui,  onde  um  grupo  de 

estudantes  havia  alugado  dois  quartos  para  o  fim  de  semana.  Fora  um 
dos momentos em que se sentira 

mais  atraída  por  César,  a  ponto  de  desejar  desfazer  o  noivado 

com  Greg.  Mas,  agora,  compreendia  que  o  homem  com  quem  estivera 
naquele distante fim de semana não 

era César, mas sim Rafael. 
Depois de um cruzamento, o caminhão desceu em disparada uma 

rua  sinuosa,  lá  para  os  lados  do  porto,  e  freou  bruscamente.  Haviam 
parado diante de duas casas antigas. 

No  meio,  havia  uma  passagem apertada, iluminada  por  candeias, 

que levava a um jardim. 

—  Quando?  —  perguntou  Glenda,  voltando-se  nervosa  para 

Rafael. — Quando foi que você esteve em Montreal, fingindo ser César? 

— Está lembrada da viagem a Quebec, no fim da semana 
80 
de carnaval, em fevereiro? — disse ele, dando uma risada 
alegre  e  contagiante.  —  Eu  era  o  sujeito  que  não  sabia  esquiar. 

Pela  primeira  vez  na  vida,  fui  pior  que  César  em  um  esporte.  —  Ele 
pegou-lhe a mão direita sobre 

o colo e levoua aos lábios. — Foi nessa ocasião que me apaixonei 

pela 

primeira e única vez na vida — murmurou. 
— Por favor, não minta mais — ela implorou, agoniada, 
soltando a mão. 
Sem responder, ele abriu a porta do carro e saiu. A porta tornou a 

se fechar com um estrondo. Sozinha na semiobscuridade, Glenda ainda 
estava com os nervos abalados 

pelos acontecimentos dramáticos daquela tarde. As luzes do porto 

ofuscavam-lhe a vista, e sentia-se péssima, como se tivesse levado uma 
surra. A porta ao seu lado 

abriu-se,  mas  ela  permaneceu  imóvel.  Dedos  longos  se  fecharam 

em torno de seu braço esquerdo. 

— Venha! — convidou a voz doce de Rafael. — Deixeme ajudá-la. 

Foi um dia péssimo para você e para mim também. Precisamos de uma 

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bebida forte e uma refeição bem 

gostosa.  Vamos  relaxar  e  conversar  sem  o  fantasma  de  César 

entre nós. Prometo que não haverá mais mentiras daqui por diante. 

Mediante  aqueles  argumentos,  Glenda  acabou  concordando. 

Estava com muita fome e tensa demais para continuar brigando. Assim, 
permitiu que ele a ajudasse a descer 

da cabina e a conduzisse até o alto das escadas, onde havia uma 

sacada ampla, de madeira. Duas palmeiras enormes que se erguiam do 
jardim serviam de abrigo e decoração. 

As mesas estavam recobertas com  toalhas brancas e guarnecidas 

com baixelas de prata e copos brilhantes. Em algumas delas 

viam-se casais de namorados ou pequenos grupos 
de pessoas comendo e bebendo, num bate-papo tranquilo. 
Uma mulher esbelta, de cabelos negros e vestida de branco, veio 

cumprimentá-los. Sorria, satisfeita, para Rafael, enquanto lhe oferecia a 
face para um beijo. 

—  Esta  é  minha  prima,  Ana  Maria  Hernandez.  Ela  é  espanhola  e 

veio para cá há alguns anos com seu marido, Paço. Aqui eles instalaram 
um bom restaurante — contou Rafael, 

fazendo as apresentações. — Providencie uma mesa 
81 
para  nós,  Ana.  De  preferência  em  um  canto  onde  possamos 

conversar sossegados. 

— vou lhes mostrar. Por aqui! — indicou Ana, conduzindo-os até o 

extremo da sacada. 

A  mesa  redonda  ficava  perto  do  parapeito.  Era  separada  das 

demais  pela  folhagem  inclinada  de  uma  das  palmeiras,  além  de 
proporcionar uma bela vista para as luzes 

do  porto  e  para  os  contornos  escuros  das  montanhas,  sob  o  céu 

estrelado. 

A  pedido  de  Glenda,  Ana  ensinou-lhe  onde  era  o  toalete.  Ali,  no 

espelho  sobre  a  pia,  Glenda  olhou-se,  com  desagrado.  Estava  horrível, 
pensou, e tentou melhorar a 

aparência. 
Ao  retornar  à  mesa,  Rafael  conversava  com  um  homem  de 

cabelos  pretos  e  lustrosos.  Era  o  marido  de  Ana,  que  havia  trazido  as 
bebidas: dois cálices longos com rodelas 

de  limão,  na  borda,  e,  no  interior,  uma  espécie  de  ponche.  Após 

ter  sido  apresentado,  Paço  os  deixou  a  sós,  à  luz  dos  candelabros,  na 
noite cálida e densa. 

—  Agora  beba  tudo  —  ordenou  Rafael.  —  Como  seu  médico, 

recomendo-lhe um cálice de ponche. 

— Ora, você não é meu médico. 
— Mas fui anteontem à noite. E poderia ser sempre assim, se você 

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quisesse. 

—  Por  favor,  pare  com  essas  brincadeiras.  Até  agora,  fui  apenas 

um divertimento para você. Você... você me seduziu, fazendo-se passar 
por César. Não posso lhe perdoar... 

— Eu não a seduzi, Glenda. Você me queria... Glenda engasgou ao 

tomar precipitadamente um gole do 

ponche. Largou o cálice depressa e olhou para Rafael com raiva. 
— Se quer saber, não estou apaixonada por você. 
—  Então  você  mentiu  na  noite  passada  —  ele  disse  com  ironia, 

apanhando  o  cálice  e  esvaziando-o  de  um  trago.  Humm,  está  bom! 
Justamente o que eu precisava depois 

de  um  dia  agitado.  Primeiro,  levei  uma  velhinha  para  o  hospital; 

depois,  tive  de  vasculhar  a  cidade  toda  atrás  de  você;  e,  por  fim, 
precisei salvar César da fúria 

da esposa. Sirva-se. de pão com patê. — Apontou para a tigela de 

patê  e  a  cestinha  de  pão.  —  A  bebida  poderá  lhe  fazer  mal,  se  não 
comer alguma coisa. 

82 
—  Não  se  preocupe  comigo!  —  Glenda  limitou-se  a  dizer,  com 

altivez,  pegando  um  pãozinho.  Estava  quente  e  macio  e,  quando  o 
cortou ao meio, a massa ainda estava branca 

e  fofa.  A  manteiga  cremosa  derreteu-se  imediatamente  dentro 

dele. Glenda deu uma mordida, morta de fome. 

— com o tempo, você se acostumará comigo. — Rafael levantou-

se com o cálice vazio na mão. 

— Chauvinista! — praguejou ela, enquanto Rafael deixava a mesa 

e desaparecia por detrás da palmeira frondosa. 

Quando  retornou,  trazendo  mais  dois  ponchesvGlenda  já  havia 

comido três pãezinhos com manteiga e patê e esvaziado o cálice. O rum 
adicionado ao ponche deixara-a 

um pouco tonta, mas, por outro lado, a fazia sentir-se melhor. 
O tom sarcástico de Rafael parecia ter amenizado e sua expressão 

era quase melancólica quando ele se serviu de um pãozinho e o comeu 
em silêncio. Uma jovem de pele 

negra  e fina, cabelos  trançados  e  avental  colorido veio  colocar  os 

pratos na mesa. Numa voz melodiosa, sugeriu que se servissem no 

bufê. 
"  Em  silêncio,  Glenda  e  Rafael  dirigiram-se  até a  mesa  comprida, 

arrumada  diante  de  duas  grandes  portas-janelas  que  davam  acesso  ao 
interior da casa. Havia ali pratos 

variados: travessas de saladas, legumes e carnes assadas, tenras 

e suculentas. 

Solícitas,  as  garçonetes,  todas  negras  e  esbeltas,  com  seus 

aventais  vistosos,  trinchavam  as  carnes  a  pedido  dos  fregueses, 

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colocando, depois, as porções em seus 

pratos.  Complementavam  os  pratos  quentes,  na  maioria  legumes 

cozidos. 

Glenda  encheu  o  prato  com  uma  mistura  de  salada,  carne  de 

vitela  e  batata  doce  cozida  e,  depois,  voltou  para  a  mesa.  Estava  com 
muito apetite e, assim que Rafael 

sentou-se diante dela, começo a comer. 
Por  longo  tempo  mantiveram-se  calados.  Quando  o  prato  de 

Rafael  estava  quase  vazio,  ele  deixou  o  garfo  e  a  faca  descansando  e 
recostou-se na cadeira. 

—  Você  não  reconheceu  Janice  quando  a  viu,  não  é  mesmo?  — 

perguntou ele, tomando um gole de ponche. 

— Não. Por quê? — Glenda indagou, espantada. 
—  Ela  trabalhava  na  biblioteca  da  universidade  que  você  e  César 

frequentaram, mas mudou muito de lá para cá. 

Tingir 
83 
os  cabelos  e  usar  lentes  de  contato  pode,  facilmente,  alterar  a 

aparência de uma mulher. 

— Ou de um homem — ela rebateu, secamente. — Por que você, 

ou  César,  não  mudou  a  cor  do  cabelo  para  não  serem  confundidos  um 
com o outro? 

—  Ora!  Tem  sido  uma  brincadeira  tão  divertida!  Mas  não 

poderemos  brincar  por  muito  tempo.  Ele  está  engordando  por  falta  de 
exercício. À medida que o tempo passa, 

vamos ficando menos parecidos, e as diferenças de temperamento 

vão  se  sobressaindo  cada  vez  mais.  —  Seus  olhos  cor  de  âmbar 
brilharam quando ele acrescentou: — No 

entanto,  você  pensou  que  eu  fosse  ele,  outro  dia,  no  mercado. 

Mas  é  de  mim  e  não  de  César  que  você  tem  se  lembrado  todos  esses 
anos, não é, Glenda? 

com  muita  relutância,  ela  admitiu  que  Rafael  estava  certo.  Era 

dele  que  se  lembrava,  do  homem  que  a  conquistara  durante  aquela 
excursão, na pista— de esqui, e, num 

outro fim de semana, na casa de campo dos pais, pouco antes que 

o outro, ou melhor, César... partisse para Montreal. 

—  Por  que  fez  isso  comigo?  —  Glenda  tomou  a  perguntar.  —  Por 

que fingiu ser César em Quebec? Por acaso foi ele quem lhe pediu para 
tomar o seu lugar? 

— Não, na verdade não. — Rafael tomou mais um gole de ponche. 

Depois, afastou o prato vazio e, cruzando os braços sobre a mesa, olhou 
fixamente para Glenda. — É 

uma  longa  história!  Você  não  gostaria  de  comer  alguma  coisa 

enquanto escuta? 

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— Sim, eu gostaria. A comida está deliciosa! — Ela se levantou e, 

com o prato na  mão, contornou a mesa. Ao passar por ele, perguntou: 
— Quer que pegue alguma coisa 

para você? 
— Não, obrigado. 
Aquela  era  uma  boa  oportunidade  para  fugir,  pensou  Glenda, 

enquanto  caminhava  até  o  bufe.  Poderia  abandonar  o  prato  vazio  em 
algum lugar e correr para a saída, apanhar 

sua bagagem na boleia do caminhão, depois subir a pé até a praça 

e  pegar  um  táxi.  Entretanto,  queria  saber  por  que  Rafael  se  deixara 
passar por César, tanto no passado, 

como 
84 
no presente. Talvez, sabendo o motivo, ela não se sentisse assim 

tão infeliz... 

Quando  retornou  à  mesa,  Rafael  ergueu-se  polidamente, 

aguardando  que  ela  se  sentasse.  Se  havia  uma  coisa  que  sempre 
chamara a sua atenção era a boa educação dos 

gémeos. Ambos eram bastante gentis com as mulheres. 
—  Como  está  se  sentindo  agora?  —  indagou  Rafael,  sentando-se 

outra vez. — Já esqueceu aquela cena desagradável com Janice? Isso é 
típico dela! Está sempre fazendo 

escândalo,  pois  tem  ciúme  doentio  de  César...  Já  em  Montreal, 

tinha ciúme de você. 

—  Engraçado...  Não  me  lembro  de  Janice.  Nem  sequer  havia 

ouvido falar de seu nome. 

—  César  envolveu-se  com  ela,  antes  de  conhecer  você,  logo  que 

chegou a Montreal, e ela o agarrou. — Rafael riu, cínico. 

— Esse é um comentário machista de sua parte... 
—  Confesso  que  sou  machista  com  certas  mulheres...  E  Janice  é 

um  exemplo.  Ela  armou  uma  cilada  para  César,  e  ele  caiu  direitinho. 
Quando voei de Chicago até Montreal 

para visitá-lo, naquele inverno, encontrei-o metido numa confusão 

danada.  Janice  estava  grávida,  e  usou  esse  fato  para  impedi-lo  de  ir  a 
Quebec com você e seus amigos, 

conforme o combinado. Foi então que ele me pediu para substituí-

lo, pois já havia pago sua parte na excursão. Concordei. Quando apareci 
na estação rodoviária para 

juntar-me  ao  grupo,  todos  acreditaram  que  eu  fosse  César.  Isso 

me divertiu, e levei adiante a brincadeira. — Encolheu os  ombros. — O 
resto você já sabe. 

Mas então... Então era por Rafael que ela havia se apaixonado oito 

anos  atrás,  e  não  por  César!,  concluiu  Glenda,  lembrando-se  daquele 
beijo maravilhoso que ele 

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lhe  roubara  sobre  o  gelo,  quando  praticavam  esqui.  Seus 

pensamentos,  misturados  às  lembranças,  tumultuavam-lhe  a  mente  e 
seu coração pulsava comovido... 

Olhou  para  Rafael,  incapaz  de  articular uma  só  palavra...  incapaz 

de confessar suas emoções. 

—  César  era  tão  tímido,  tão  gentil  e  sonhador!...  Pelo  menos  é 

assim que eu me lembro dele — ela mentiu, por fim. 

85 
—  César,  tímido?  Sonhador?  —  Rafael  ironizou.  —  Dà  licença  um 

instante!  —  disse,  levantando-se  da  mesa.  —  Volto  já  para 
continuarmos essa conversa interessantíssima 

sobre os seus verdadeiros sentimentos a respeito de meu irmão... 
86 
CAPÍTULO VIII 
 
Sozinha  à  mesa,  sob  a  luz  dos  candelabros,  Glenda  permaneceu 

absorta, com o olhar perdido em algum ponto qualquer. As recordações 
ainda afluíam à sua mente, num 

turbilhão  de  imagens  confusas.  Deduziu  que  todas  as  vezes  em 

que  estivera  com  o  verdadeiro  César  havia  sempre  outras  pessoas  por 
perto — nas discotecas, nos concertos 

no Place dês Arts, nas partidas de hóquei, no Fórum, nas festas de 

outono e inverno. E, após a viagem à 

estação de esqui, tinham se visto raramente... Nessas ocasiões, 
notou-o  frio  e  distante,  mas  julgou  que  ele  estivesse  ocupado 

demais em escrever sua tese. 

Então, um ano depois, no dia da formatura — ela havia assistido à 

cerimónia  -,  quando  saia  do  anfiteatro,  César  aparecera  à  sua  frente. 
Ainda podia visualizar a 

figura  alta,  de  aparência  distinta,  o  rosto  moreno,  cabelos 

espessos, e os olhos brilhantes como o âmbar, olhando-a com atenção. 

Nos lábios, um leve sorriso. 
— Podemos almoçar juntos em algum lugar agradável? 
— Ela havia se espantado com o convite. 
—  Faz  tempo  que  a  gente  não  se  vê  —  tentará  pilheriar  sem 

resultado, não querendo que ele a considerasse fácil demais. 

— Tenho andado muito ocupado. — Ele se justificara com um dar 

de ombros, e ela entendera. 

Haviam  almoçado  em  um  restaurante  francês,  recentemente 

inaugurado.  Glenda  não  podia  se  lembrar  sobre  o  que  haviam 
conversado, mas sim do que havia sentido: uma 

enorme  alegria!  Lembrava-se,  e  como,  daquele  olhar  intenso  e 

persistente que a envolvera estranhamente... 

Um  leve  ruído  a  alertou,  trazendo-a  de  volta  ao  presente,  para 

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aquele  canto  escuro  daquele  romântico  restaurante.  Do  outro  lado  da 
mesa, o olhar ardente de Rafael 

a fitava. 
87 
— Na última vez em que nós almoçamos juncos, após a cerimónia 

de formatura, foi a pedido de 

César. 
—  Não.  Fui  assistir  à  formatura  do  meu  irmão  e,  por  acaso,  vi 

você  na  saída.  Aí  você  disse:  "Olá,  César!"  Convideia  então,  para 
almoçar, com a intenção de lhe revelar 

quem  eu  era,  mas  você  parecia  tão  feliz,  julgando  estar  na 

companhia  de  César,  que  desisti  da  ideia.  Não  quis  estragar  aquele 
momento tão bonito. — Fez uma pausa 

e sorriu. — Você teria me convidado para ir à casa de seus pais se 

soubesse que eu não era César? 

—  Não  sei.  Realmente,  não  sei  —  ela  murmurou,  confusa, 

evitando o olhar dele. Tentou recordar aquele restaurante em Montreal, 
onde, percebia agora, começara a se 

apaixonar por Rafael, -— Óh, como fui boba em não perceber que 

você  não  era  César.  Na  verdade,  mesmo  naquela  época,  as  diferenças 
eram evidentes. Você era mais... 

mais... 
— Mais agressivo, mais machista, mais chauvinista? ele completou 

zombeteiro. 

— Tudo isso! — ela brincou, dando uma risada gostosa. Ao mesmo 

tempo apenas pensou: 

"Mais  bonito,  mais  charmoso,  mais  parecido  com  o  homem  que 

sempre quis ter para companheiro". 

—  E  então?  Por  quem  foi  que  você  realmente  se  apaixonou?  Por 

mim, ou por César? 

O  rosto  de Glenda  ardia,  e  ela  não  conseguia encará-lo.  Apanhou 

o cálice de ponche e sorveu o resto do conteúdo de uma só vez. Havia 
um travo forte de rum na bebida, 

que  lhe  deu  a  coragem  necessária  para  ignorar  a  pergunta 

atrevida de Rafael. 

À  garçonete  veio  retirar  os  pratos  e  os  convidou  a  serviremse  da 

sobremesa no bufe: frutas da estação, queijos variados e doces. Glenda, 
então, aproveitou a oportunidade 

para mudar de assunto. 
— Está muito quente esta noite! 
— Quente o bastante para dormir na varanda, balançando na rede 

—  Rafael  comentou,  malicioso.  Por  que  você  veio  a  Puerto  Plata?  Para 
entrevistar César, ou ter um 

aventura com ele? — perguntou. 

background image

—  Claro  que  foi  para  entrevistá-lo!  —  Irritada  com  aquela 

insinuação maliciosa, Glenda respondeu ríspida: — Nunca 

88 
me  passou  pela  cabeça  ter  um  caso  com  ele.  Soube  que  estava 

casado  através  de  uma  revista  americana.  Só  não  me  lembrava  da 
esposa dele... 

— Janice sabia que César gostava de você em Montreal e procurou 

impedi-lo  de  se  relacionar  com  você  e  com  o  grupo  de  estudantes  que 
eram seus amigos. Sempre foi 

extremamente  possessiva.  e  você  sempre  foi  mais  bonita  do  que 

ela... 

— Ora, isso é ridículo! 
—  Janice  pensa  que  você  é  a  escritora  com  quem  ele  está  tendo 

uma  relação  amorosa  em  Nova  York  —  Rafael  explicou  em  poucas 
palavras. 

—  Ele  está  tendo  uma  relação,  extraconjugal?  —  Glenda 

perguntou surpresa. 

—  Eu  também  fiquei  surpreso  quando  soube.  Talvez  César  não 

tivesse  a  intenção  de  envolver-se  com  outra  mulher.  Mas,  como  você 
mesma diz, ele é sonhador, gentil e 

possui um coração generoso. Essa mulher parece tê-lo encantado 

pelos  conhecimentos  que  tem  de  língua  e  literatura.  Assim  como  você, 
ela é repórter de uma revista, 

escreve artigos sobre celebridades... 
— Então é por isso que Janice não quer que eu entreviste César — 

ela murmurou. 

—  Exatamente.  Quando  descobriu  o  caso  dele  em  Nova  York, 

Janice  ficou  furiosa.  Depois,  vieram  para  cá,  tentar  uma  reconciliação, 
por causa dos filhos: Janetta e 

Juan.  Quando  César  recebeu  seu  recado  na  última  quarta-feira, 

ele  entrou  em  pânico.  Felizmente,  quando  você  apareceu  naquela 
manhã de quinta-feira, foi a empregada 

quem  atendeu  à  porta.  Eu  estava  lá,  com  César,  e  pedi  à 

governanta  que  dissesse  a  você  que  meu  irmão  tinha  ido  ao  mercado. 
Como eu esperava, você foi procurá-lo. 

Peguei o carro em seguida e também fui para lá, a fim de explicar-

lhe a situação. Mas você me confundiu com ele, e parecia tão contente 
em me ver... ou a ele... 

que  não  tive  coragem  de  lhe  dizer  a  verdade.  —  Ele  deu  uma 

outra risada, caçoando de si mesmo. Naquele momento, recordei todo o 
passado... Lembrei de quanto gostei 

de você e de quanto a desejei... Foi então que me veio a ideia de 

me  fazer  passar  por  César.  Só  assim  conseguiria  convencê-la  a  me 
acompanhar até Samana. 

background image

89 
— Você fez de propósito — ela exclamou, irritada. 
—  Confesse  que  você  gostou  da  troca!  Ontem  a  noite,  me  queria 

tanto quanto eu a você. 

—  Não,  eu  não  queria!  —  ela  negou,  furiosa.  —  Oh,  você  está 

apenas tentando se justificar de um erro... 

—  Erro?  —  ele  a  interrompeu,  enraivecido.  — Acha  mesmo  que o 

que  nós  dois  fizemos  foi  um  erro?  Que  mal  há  em  um  homem  e  uma 
mulher se amarem? Somos adultos e estamos 

apaixonados um peto outro. 
— Foi um erro porque... porque eu pensei que você fosse César... 
—  Você  não  teria  feito  amor  com  César,  sabendo-o  casado,  mas 

comigo sim! Não se envergonhe do que fizemos disse Rafael, sereno. — 
O que nós dois fizemos, a noite 

passada,  foi  algo  muito  bonito!  Nos  entregamos  um  ao  outro 

porque  nos  queríamos,  nos  desejávamos,  independentemente  do  meu 
nome, ou do seu... Fiz amor com você porque 

te quero... .porque te amo! 
— Oh, por favor, pare. Não diga mais nada. Não minta mais. 
— Mas não estou mentindo! — gritou Rafael, de repente alterado. 
Nisso,  Ana  Maria  aproximou-se  da  mesa,  com  uma  expressão 

preocupada  no  rosto  fino  e  jovem.  Ao  falar  com  Rafael,  sua  voz  era 
apressada e queixosa. Ele respondeu-lhe 

em espanhol, em tom de brincadeira, e Ana sorriu. 
—  Si,  eníiendo  —  ela  disse,  lançando  um  olhar  de  compreensão 

para  Glenda.  —  Quer  que  eu  lhe  traga  a  sobremesa?  Temos  morangos 
frescos com creme chantily. E um bom 

café para completar. 
Rafael  aceitou,  e  a  mulher  desapareceu  por  entre  as  folhas  das 

palmeiras.  Sorrindo  para  Glenda,  ele  comentou:  Eu  disse  a  Ana  que  a 
nossa briga é de namorados. 

— Nós não somos namorados — protestou Glenda. 
—  Então,  o  que  somos?  —  ele  interpelou,  exaltado,  seu 

temperamento passional rompendo qualquer controle 

que, porventura, tivesse, os olhos fulminando à luz das velas. 
Se  não  somos  namorados,  então  somos  amantes!  É  assim  que 

você prefere? 

Glenda escondeu o rubor do rosto entre as mãos. 
90 
— Por que você está me atormentando assim? Você fingiu ser um 

outro  homem,  e  jamais  vou  perdoá-lo  por  isso.  Você...  você  se 
aproveitou de mim! 

—  Você  se  sente  indigna  e  enganada  só  porque  descobriu  que  o 

homem  a  quem  se  entregou  ontem  à  noite  não  se  chama  César?  — 

background image

perguntou ele, inconformado. — Pois então, 

tente imaginar como eu me sinto, sabendo que era em outro que 

você  estava  pensando,  enquanto  fazíamos  amor.  Foi  você  quem  me 
usou! 

— Eu não fiz isso! 
—  Não?  Quem  você  beijou  e  tocou?  Que  nome  murmurou  em 

meus braços? César! Sempre César... Acha que foi fácil para mim? 

— Oh! — Ela rompeu em soluços, completamente desnorteada. 
— Vamos! Não é preciso chorar por causa disso... Ele acariciou-lhe 

os  cabelos  como  se  ela  fosse  uma  criança.  Não  vamos  mais  falar  de 
César. Vamos começar tudo de 

novo. Vamos pensar apenas em nós dois, você e eu... 
Nesse instante, Ana Maria aproximou-se mais uma vez, trazendo a 

sobremesa  e  o  café,  num  bule  de  prata,  duas  xícaras  e  os  pires.  Ao 
colocar tudo sobre a mesa, comentou, 

sobre os festejos de Páscoa: . 
—  Vocês  vão  assistir  as  cerimónias  religiosas?  Glenda  informou 

que não poderia ir. 

— Infelizmente, tenho que retornar amanhã ao Canadá! 
— respondeu Glenda, no mesmo tom afável da jovem, 
— Você precisa convencê-la a ficar — disse Ana Maria dirigindo-se 

a Rafael. . 

—  Estou  tentando,  pode  estar  certa  disso  —  ele  respondeu,  com 

um sorriso enigmático. 

com um gesto silencioso de aprovação, Ana Maria afastou-se. 
Disposta  a  encerrar  a  discussão  com  Rafael,  Glenda  pegou  a 

colher  de  sobremesa  e  mergulhou-a  no  creme  batido.  Por  um  curto 
período de tempo, os dois apreciaram a 

sobremesa,  calados.  Depois,  Rafael  serviu-lhe  o  café,  e  ela 

agradeceu sem olhá-lo. A curta conversa com Ana servira para preveni-
la. Não iria se deixar convencer 

a permanecer mais 
91 
tempo no país, muito menos a ficar com ele, para ser apenas sua 

amante... 

—  E  então,  Glenda?  Está  mais  calma  agora?  —  ele  falou 

docemente.  —  Nos  demos  bem  em  Montreal  e  podemos  nos  dar  bem 
agora. Não negue isso — acrescentou depressa quando 

Glenda  tentou  contradizê-lo.  —  Fomos  feitos  um  para  o  outro,  e 

eu  gostaria  de  me  casar  com  você. Na  verdade,  você é a  única  mulher 
que eu gostaria de ter como esposa. 

Surpresa,  ela  deixou  a  colher  cair  das  mãos.  Aquilo  só  podia  ser 

mais uma brincadeira de Rafael, refletiu, incrédula. 

—  Você  ficou  maluco?  —  perguntou  num  tom  de  zombaria,  a  fim 

background image

de disfarçar a emoção intensa que estava sentindo. 

-Acho que sim — ele respondeu rindo. — Até hoje eu pensava que 

quando  um  homem  pedia  uma  mulher  em  casamento  era  porque  tinha 
ficado doido. — Encolheu os ombros. 

—  Bem...  acho  que  hoje  eu  faço  parte  dessa  turma...  pois  estou 

doidinho por você! Case-se comigo, Glenda! Eu a amo... 

Na semi-escuridão, as poucas luzes existentes dançavam em torno 

dos olhos de Glenda. Não estaria sendo enganada outra vez? Não seria 
mais um sonho lindo? Mas, se 

era um sonho, não queria mais despertar. 
— Mas e Rosário? Você prometeu se casar com ela! 
—  O  quê?  —  perguntou  Rafael.  Uma  ligeira  irritação  turvou  seu 

rosto. — Quem lhe disse isso? 

— Ela mesma. Ontem. Disse que um dia vocês vão se casar. 
— Ela está fantasiando! Nunca lhe prometi nada. 
— Ela o ama. 
— Não, não me ama. Ela ama uma fantasia que ela mesma criou. 

Ela vai se casar com outro homem, com o jovem Pedro, seu parceiro de 
dança. Ela é muito jovem para mim 

e muito ingénua. Além disso, eu não a quero. Quero você, Glenda. 

E então? Quer se casar comigo? 

Um pouco tonta pelo efeito da bebida e pelas surpresas deliciosas 

daqueles  últimos  instantes,  Glenda  sentia  a  cabeça  rodopiar.  Ao  longe, 
via as lâmpadas no porto 

dançarem, numa festa de luzes. As folhas das palmeiras, agitadas 

pela 

92 
brisa, sombreavam a mesa, formando desenhos... De repente, ela 

voltou  o  olhar  para  Rafael.  Os  olhos  dele  tinham  um  brilho  dourado  e 
pareciam sinceros. 

— Como posso me casar com você, Rafael? Eu mal o conheço, e o 

pouco  que  sei  a  seu  respeito  não  me  agrada.  Sentia calor  agora,  como 
se estivesse queimando por dentro. 

Desejava-o, 

mas 

precisava 

reprimir 

esse 

sentimento, 

rapidamente. 

—  Que  existe  em  mim  que  não  lhe  agrada?  —  Rafael  perguntou, 

ansioso. . 

— Você é um mentiroso! Prometeu a Rosário que iria se casar com 

ela... Prometeu vê-la dançar no hotel de Samana, ontem à noite, e não 
foi... 

—  Não  prometi  nada!  E  não  fui  vê-la  dançar  porque  estava  com 

você. 

— Você fingiu ser César — Glenda não conseguia se esquecer. 
—  Pare  de  pensar  nele!  Pense  apenas  em  mim.  —  Rafael  se 

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inclinou  para  a  frente.  —  É  a  mim  que  você  ama!  Demonstrou  isso  em 
Montreal, e ontem à noite também! Vamos, 

admita-o para você mesma... 
Glenda  balançou  a  cabeça  de  um  lado  para  o  outro,  como  se 

quisesse  se  livrar  de  toda  aquela  confusão  de  ideias,  temores  e 
perguntas. 

—  Eu...  eu  não  sei.  Depois  de  tudo  que  aconteceu,  eu  não  posso 

confiar  em  você...  —  murmurou.  Sentia  um  aperto  no  peito.  A  recusa 
lhe doía fundo, pois o queria mais 

do  que  tudo  no  mundo.  —  Gostaria  de  voltar  para  o  hotel  agora. 

Estou cansada e preciso levantar cedo amanhã e ir para o aeroporto. 

— Então vamos! vou levá-la de carro. 
Glenda deu uma olhada rápida para Rafael. Ele já estava se pondo 

de pé, não lhe dando tempo de ver a expressão de seu rosto. 

Ana e Paço os acompanharam até as escadas, insistindo para que 

voltassem  logo  ao  restaurante.  Rafael  desceu  primeiro  e,  num  gesto 
polido, abriu a porta do caminhão 

para Glenda. 
Seguiram 

em 

silêncio 

enquanto 

caminhão 

avançava, 

serpenteando, 

93 
por  entre  o  tráfego,  em  direção  à  rodovia.  Ele  dirigia  com  a 

mesma  imprudência  de  sempre,  mas  isso,  agora,  não  tinha  a  menor 
importância para Glenda. 

Na verdade, não queria voltar para o hotel, e sim para a casa dele 

em Samana. 

Quando ele diminuiu a marcha e manobrou o caminhão para pegar 

o  atalho  estreito,  margeado  de  palmeiras,  Glenda  ficou  profundamente 
decepcionada porque ele não queria 

sequestrá-la  e  levá-la  à  força  para  seu  esconderijo,  como  fazem 

os heróis dos romances. 

Os  reflexos  prateados  do  luar  incidiam  sobre  o  mar,  uma  massa 

mole,  móvel  e  escura.  Rafael  parou  o  caminhão  no  estacionamento. 
Embora as luzes do prédio da administração 

do hotel estivessem todas acesas, o local estava quieto. 
— Que estranho! O hotel parece vazio — Glenda comentou. 
—  Provavelmente,  todos  foram  passar  o  sábado  de  Aleluia  na 

cidade — ele respondeu, desinteressado. 

—  Você  não  precisa  vir  comigo  até  o  chalé  —  Glenda  disse, 

tomando a frasqueira da mão dele. 

— Prefiro ir. Quero ter certeza de que você chegará sã e salva — 

ele teimou, dando-lhe o braço livre. 

As  sandálias  de  Glenda  enchiam-se  de  areia  enquanto  eles 

caminhavam pela praia até o chalé. Ouviam-se o dope murmúrio do mar 

background image

e o farfalhar das folhas das palmeiras. 

Quando  chegaram  no  chalé,  Glenda  vasculhou  a  bolsa  à  procura 

da chave. Depois de abrir a porta, ela se voltou para Rafael. Chegara o 
momento da despedida. No entanto, 

Glenda  não  encontrava  palavras  para  lhe  dizer.  Não  queria 

separar-se dele... Não queria perdê-lo. 

O  quarto  estava  iluminado  pela  luz  ténue  do  luar.  Mesmo  assim 

Rafael  entrou,  tateando  o  interruptor,  junto  à  porta.  A  lâmpada  se 
acendeu, dissipando as trevas. Glenda 

entrou  logo  a  seguir.  Ele  então  largou  a  frasqueira  em  cima  da 

cama,  fechando  a  porta  com  uma  pancada.  Depois,  virou-se  e,  antes 
que Glenda pudesse dizer qualquer 

coisa, segurou-a pelos ombros, puxou-a para si e beijou-a. 
O contato quente dos lábios de Rafael em sua boca fez com 
94 
que  ela  esquecesse  todos  os  seus  receios,  e  o  fogo  da  paixão 

reacendeu  em  seu  corpo.  Os  lábios  se  abriram  ávidos  para  deixar  a 
língua 

dele penetrar, firme e quente. 
Acariciou-lhe  os  cabelos  cor  de  prata,  rebeldes  e  encaracolados, 

com ânsia incontrolável. 

Excitado, Rafael explorava o corpo de Glenda com os de dos ágeis 

e experientes. 

Sobre  o  fino  tecido  de  sua  blusa,  tateou-lhe  os  bicos  dos  seios 

enrijecidos.  Porém,  alguma  oisa  a  impedia  de  se  entregar  a  Rafael 
completamente. 

— Oh, por favor, vá embora! — ela gemeu. 
—  Ainda  não  —  ele  pediu,  levantando  a  cabeça  e  fitando-a  com 

olhos brilhantes de desejo. — Não, enquanto eu não lhe der algo que a 
faça lembrar-se de mim para sempre... 

—  ,  Erguendo-a  nos  braços,  ele  a  carregou  para  a  cama, 

deitandoa carinhosamente. 

Quando  Rafael  tirou  a  camisa,  Glenda  contemplou  sua  pele  E 

queimada de sol, e o anseio de tocá-lo a incendiou. Contudo, ainda tinha 
medo, ao vê-lo aproximar-se 

do  leito,  completamente  nu  e  sem  pudor,  os  olhos  brilhantes, 

cobiçando-a, querendo-a urgentemente. 

—  É  melhor  que  você  vá  embora,  Rafael!  Ida  pode  chegar  a 

qualquer momento. 

Rindo, Rafael segurou-a pelos punhos e sentou-se ao seu lado, na 

cama. Havia uma mescla de crueldade e ternura em seu rosto. 

—  Ida  não  vai  chegar  agora,  não  se  preocupe!  —  disse  ele, 

curvando-se  sobre  Glenda.  Sua  voz  era  suave  e  seus  lábios  quase 
tocavam os de Glenda. 

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—  Como  sabe?  —  ela  perguntou,  sem  fazer  resistência  enquanto 

seus dedos finos acariciavam os pêlos do peito forte e tentador. 

—  Passei  hoje  por  aqui,  a  caminho  da  cidade,  achando  que  você 

talvez  tivesse  vindo  para  cá,  e  encontrei  sua  amiga.  Pediu-me  para 
avisá-la de que passaria a noite 

fora,  junto  com  o  grupo  da  excursão.  Pretendiam  ir  ao  baile  de 

Aleluia, na cidade, e, ao amanhecer, passear perto das montanhas para 
ver o sol nascer. — Os lábios 

dele desceram até a curva de seu pescoço.— Como vê, meu amor 

— murmurou -, 

temos 
95 
a noite toda para ficarmos juntos. Eu, Rafael, e você! 
— Oh, tenho tanto medo... eu... 
—  Não  tenha  medo!  Sou  Teu,  Rafael,  quem  está  beijando  você, 

tocando-a,  excitando-a...  Glenda,  querida,  diga  meu  nome...  diga  que 
você me ama! — Apossando-se novamente 

dos lábios dela, apertou-a contra si, fazendo-a sentir a rigidez de 

seu sexo. 

Glenda  aspirou  o  hálito  quente  e  retribuiu  seus  beijos 

apaixonadamente. 

—  Rafael,  meu  bem...  Rafael!  —  Sem  ter  consciência  do  que 

estava fazendo, ela arrancou suas próprias roupas e experimentou uma 
extraordinária sensação de prazer 

ao  sentir  na  própria  pele  o  contato  do  corpo  dele,  másculo  e 

macio. 

Por um instante apenas, Rafael afastou-se para poder contemplar 

a nudez de Glenda, e seus olhos brilharam de luxúria. Em seguida, seus 
corpos fundiram-se ávidos 

e trémulos de volúpia e paixão. 
No  alto,  o  ventilador  zumbia,  quando  ambos  sucumbiram  ao 

clímax do prazer, . 

—  Foi  bom  para  você?  —  Rafael  indagou,  quase  sem  fôlego, 

descansando ao lado dela. 

—  Sim.  E  para  você?  -ela  sussurrou,  dando  um  fraco  gemido  de 

satisfação. 

— Agora diga: -quem eu sou? 
—  Você  é  Rafael  e...  eu  amo  você.  Oh,  meu  amor,  faça  amor 

comigo outra vez! Por favor, por favor... 

Ele deitou-se novamente sobre Glenda, que percorreu suas costas 

largas  com  as  unhas,  num  instante  de  rreflexâo.  Em  seguida,  Rafael 
mergulhou bem dentro dela, dizendo-lhe 

palavras de amor em espanhol. 
Glenda  se  movia  contra  ele  com  tal  premência,  que  o 

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surpreendeu.  Cada  vez  mais  excitado,  Rafael  correspondia  aos 
movimentos dela, desejoso de satisfazê-la, antes 

de entregar-se ao gozo pleno e total. 
—  Acredita  agora  que  me  ama?  —  ele  perguntou,  suave  e 

tranquilo, depois de terem feito amor. 

— Acredito... 
—  Isso  é  muito  bom!  Estou  feliz  agora  —  ele  murmurou, 

acariciando-lhe os cabelos. 

96 
Glenda  estava  feliz  também.  Um  maravilhoso  torpor  foi  tomando 

conta  de  seu  corpo.  Nada  mais  importava  a  não  ser  aquela  confortável 
sensação de amar e se saber 

amada.  "Rafael",  murmurou,  sonolenta.  "Eu  amo  você!"  Em 

seguida, adormeceu nos braços dele. 

97 
CAPÍTULO IX 
 
—  Acorde,  acorde,  Glenda!  Já  é  de  manhã...  E  está  na  hora  do 

café!  Não  se  esqueça  de  que  partimos  hoje,  daqui  a  exatamente  duas 
horas e quarenta e cinco minutos. 

Glenda  endireitou  o  corpo,  abruptamente.  Deu  uma  olhada 

cuidadosa  pelo  quarto,  procurando  sinais  da  presença  de  Rafael.  Em 
vão! Ele não deixara nenhum vestígio. 

Só  aquele  sentimento  profundo  que  chegava  a  ser  dor  no  seu 

íntimo.  Jamais  voltaria  a  ser  a  mesma  mulher,  que  viera  à  República 
Dominicana para entrevistar César 

Estrada.  Rafael  lhe  dera  realmente  algo  que  a  faria  lembrar-se 

dele  para  sempre.  Mas  junto  a  essa  lembrança  dera-lhe  também  uma 
profunda decepção. Ele se fora antes 

que  ela  pudesse  dizer-lhe  que  o  perdoava  e  que  aceitava  sua 

proposta de casamento. 

—  Você  se divertiu  ontem à  noite?  — Glenda  perguntou  à  amiga, 

disfarçando o desânimo. 

Ida estava ocupada em retirar as roupas do armário e arrumá-las 

na mala de viagem. 

—  Sim.  Pode  crer!  —  Alta,  graciosa,  de  cabelos  pretos,  Ida  deu 

uma  olhada  para  Glenda.  —  E  você?  Aproveitou  bem  sua  estada  com 
César, em Samana? Ele esteve aqui, 

ontem, procurando por você... 
—  Aquele  não  era  César  —  disse  Glenda  sem  rodeios,  achando 

melhor contar logo a verdade a Ida. — Era seu irmão gémeo, Rafael. 

—  Sério?  —  Os  olhos  claros  de  Ida  piscaram  curiosos  quando  ela 

se voltou. — Você já o conhecia? 

— De certa forma, sim. Ele visitou César em Montreal. 

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— Glenda afastou o lençol, pulou da cama e enfiou a saia fina de 

algodão.  Ida  estava  entretida  em  colocar  suas  roupas  de  baixo  num 
canto da mala, negligentemente 

arrumada. 
98 
— Mas você viu César também? — indagou despreocupada. 
—  É,  também...  —  respondeu  Glenda,  observando  seu  reflexo  no 

espelho  oval  do  armário.  Seus  cabelos  estavam  desgrenhados,  suas 
faces, tostadas de sol e rosadas. Sentia-se  

diferente:  menos  séria,  menos  fria,  mais  mulher.  E  seu  gelo 

parecia ter sido derretido pelo sol tropical. 

— César também estava em Samana? 
— Não, não estava. Por isso é que voltei para a cidade ontem de 

manhã. Eu fui à casa dele em Puerto Plata. 

— E conseguiu entrevistá-lo? 
— Não. Sua esposa não deixou. — Glenda deu uma risada, — Ela 

é terrivelmente ciumenta. 

—  Ora,  que  pena!  —  disse  Ida,  demonstrando  solidariedade.  — 

Mas,  pelo  menos,  você  se  divertiu  com  Rafael,  em  Samana?  —  Ela  fez 
uma pausa e se voltou, com um olhar 

maroto para Glenda. — E aqui, a noite passada? 
Glenda, que estava indo para o banheiro, parou, gelada. Virou-se 

lentamente. Ida sorria, maliciosa. 

— O que está querendo dizer? . 
— Ele... Rafael... você esteve com ele, aqui, ontem à noite? — Ida 

insinuou. 

— Como sabe? 
—  Eu  o  vi  saindo  daqui  hoje  cedo.  Passou  por  nós  no  seu 

caminhão  e  pegou  o  atalho  para  sair  na  rodovia.  Seguiu  na  direção 
leste. Imagino que estava voltando para 

Samana. Por que você não foi com ele? 
— Eu... ahn... Porque vamos retornar hoje ao Canadá 
— Glenda retorquiu, mal-humorada, e entrou no banheiro. 
Enquanto  tomava  uma  ducha,  Glenda  pensava  em  Rafael. 

Lembrou-se do 

banho  que  haviam  tomado  juntos.  De  como  ele  a  beijava  e 

acariciava, ensinando-a a compartilhar 

do  seu  prazer.  Excitada,  ela  desligou  o  chuveiro  e  rapidamente 

começou a enxugar-se. 

O que fazer agora? Como esquecê-lo? Ela havia descoberto o céu 

nos braços dele. Como se acostumar de novo com a solidão? Então, por 
que não aceitara seu pedido de 

casamento? 
"A  esta  hora,  ele  já  deve  ter  se  arrependido",  pensou, 

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desanimada, 

99 
enquanto  saía  do  banheiro  com  a  mesma  pressa  com  que  havia 

entrado. 

Meia  hora  depois,  Glenda  já  estava  junto  ao  grupo  de  turistas 

canadenses no  estacionamento do  hotel.  Observava  distraída  as  malas, 
dentro do bagageiro do ônibus 

que levaria os passageiros para o aeroporto. A tristeza que sentia 

em  deixar  o  país  onde  aprendera  a  ser  feliz  era  imensa!  Nem  sequer 
percebia o calor forte do sol, 

que resplandecia num céu límpido, sem nuvens. 
—  É  bom  aproveitar  esses  últimos  minutos  de  calor  —  comentou 

Ida, tirando o chapéu e erguendo o rosto para o sol. 

—  As  últimas  notícias  sobre  o  tempo  em-Toronto  são  de  que  a 

primavera  ainda  não  começou.  Houve  até  uma  nevasca  lá  ontem  à 
noite. — De repente, ela examinou Glenda 

com os olhos. — Deus, o que há com você, Glenda? 

—  Desculpe  —  respondeu  Glenda  friamente  e,  dando-lhe  as 

costas, caminhou até a praia a passos lentos. 

As  ondas  espumavam  e  arrebentavam  com  força,  mas  ela  nem 

sequer  as  via.  Fora  até  ali  apenas  porque  não  podia  suportar  a  alegria 
espontânea de Ida. 

Naquele  momento,  tudo  que  Glenda  queria  era  ir  até  o  ônibus, 

remover  sua  bagagem  e  dizer  a  todo  mundo  que  iria  ficar  porque, 
estava apaixonada por Rafael e queria 

casar-se com ele. 
Subitamente, contemplou o mar azul-turquesa. 
"Esta praia, esta ilha tão bonita...", pensou. Estava simplesmente 

enfeitiçada por aquele lugar, por aquela areia, suas  palmeiras incríveis, 
e por aquele despreocupado 

estilo de vida. Voltaria à rotina assim que retornasse ao seu país e 

recomeçasse a escrever... 

—  Glen,  Glen!  —  A  voz  estridente  de  Ida  cortou  o  ar.  Glenda  se 

virou, impaciente. Por que Ida não a deixava em paz? 

— O que é agora? 
—  Chegou  um  rapaz  com  um  recado  para  você  —  Ida  gritou  de 

longe,  apontando  para  um  homem  magro,  moreno,  a  poucos  passos-
dela. 

Uma esperança nasceu dentro do coração de Glenda. Só 
100 
podia  ser  um  recado  de  Rafael,  naturalmente.  De  quem  mais 

seria? Caminhou, apressada, ao encontro do mensageiro. 

— É a sra. Thompson? — ele perguntou. 

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A  magreza  dele,  seu  rosto  escuro  e  luzidio  e  os  dentes  alvos 

fizeram-na  lembrar-se  de  Alberto.  Mas  o  outro  era  mais  velho  que  o 
rapaz que estava à sua frente. 

— Sim, sou Glenda Thompson. 
— O senor Estrada deseja vê-la. Mandou entregar à senhora este 

bilhete. 

— Senor — estranhou. — O sr. César Estrada? — Glenda percebeu 

que Ida não poderia ouvi-la. 

— Si, senorita. 
Ela pegou o bilhete e, antes de abri-lo, deu uma rápida olhada ao 

redor, a fim de certificar-se de que não havia ninguém observando-a. A 
caligrafia era miúda e nítida, 

completamente  diferente  dos  rabiscos  do  dr.  Rafael.  O  bilhete 

dizia: 

"Glenda,  desculpe  não  tê-la  recebido  adequadamente,  ontem  à 

tarde.  Gostaria  muito  de  dar-lhe  a  entrevista  que  você  queria.  Venha, 
por favor, no meu carro, com o 

portador  desta  mensagem.  Vamos  a  um  local  onde  possamos 

conversar à vontade. Mais tarde, eu próprio a levarei até o aeroporto a 
tempo de pegar o avião. César". 

—  Onde  está  o  carro?  —  ela  indagou,  dobrando  o  bilhete  e 

enfiando-o no bolso da saia. 

—  Lá  atrás.  —  O  rapaz  apontou  com  um  sinal  de  cabeça  para  a 

direção do atalho que levava à rodovia. — Está estacionado debaixo das 
árvores. O sr. Estrada não quis 

vir aqui. Não quer que o vejam com a senhora. Por favor, pode vir 

comigo, 

senorita? 
— Sim, claro! Mas, primeiro, preciso avisar a minha amiga. 
— Tudo bem, eu espero. 
Glenda  alcançou  Ida,  tocando-lhe  no  ombro.  A  amiga  voltou-se 

com um brilho de curiosidade no olhar. 

—  E  então?  O  bilhete  era  de  Rafael?  Afinal  de  contas,  você  vai 

ficar aqui? 

— Não, não. — Glenda sacudiu a cabeça. — O bilhete é de César. 

Ele  vai  me  conceder  a  entrevista  antes  da  minha  partida.  Está 
esperando por mim no carro, logo ali, 

no  atalho.  Depois,  vai  me  deixar  no  aeroporto.  Quer  fazer  a 

gentileza 

101 
de  avisar  ao  guia  turístico  que  eu  não  vou  com  os  demais  no 

ônibus?  Vejo  você  mais  tarde  no  portão  de  embarque.  Estou  com  a 
passagem. A bagagem pode seguir 

sem mim. Tudo o que preciso é do meu bloco de anotações. 

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— E o seu gravador? 
—  Eu  o  deixei  em  Samana  —  disse  Glenda,  fazendo  uma  careta 

engraçada, de auto-recriminação. — Pura distração! 

— Oh, entendo — Ida gracejou. — Mas, e se você não aparecer a 

tempo de pegar o avião? Como vou explicar? 

— Mas eu vou aparecer, esteja certa disso. O avião só parte daqui 

a uma hora e meia, e não vou demorar mais do que trinta minutos com 
a entrevista. Estarei no aeroporto 

com tempo de sobra para passar pela alfândega e pela segurança. 

Até mais tarde! 

— Adiós, Glenda. Mande-me um cartão postal, se resolver ficar. , 
Bastante  irritada  com  a  irreverência  da  amiga,  Glenda 

acompanhou  o  rapaz  até  o  atalho,  tentando  se  lembrar  de  todas  as 
perguntas que queria fazer a César. Finalmente, 

tinha a chance de realizar o trabalho que a trouxera àquele país, e 

não queria desperdiçar nenhum minuto 

de seu encontro com César. 
O  automóvel  era  comprido,  de  cor  cinza,  e  com  vidro  fume  nas 

janelas. Por  isso,  não conseguiu  ver quem  estava  no  seu  interior, mas, 
quem quer que estivesse dentro 

do  carro  podia  vê-la  perfeitamente.  Ao  se  aproximar,  a  porta  de 

trás  se  abriu  e  César,  vestido  de  branco,  apareceu.  Através  das  lentes 
dos óculos escuros, ele sorriu 

para Glenda, um tanto apreensivo. 
— Obrigado por ter vindo, Glenda — ele disse, polido. 
— Entre, por favor. 
Assim  que  ela  se  acomodou  no  assento  de  couro, ao  lado  dele, o 

motorista fechou a porta. 

— Ainda bem que você chegou a tempo. Minha bagagem já estava 

dentro do ônibus. 

—  Caso  eu  não  a  encontrasse  aqui,  pretendia  procurá-la  no 

aeroporto. .Precisava falar com você, Glenda — ele explicou, sério. — E 
é muito importante. 

—  O  avião  sai  às  dez  e  quarenta  e  cinco.  Logo,  só  temos  meia 

hora para conversarmos. Preciso realmente estar no 

aeroporto 
102 
para a vistoria uma hora antes da decolagem, mas já avisei minha 

amiga que talvez eu me atrase um pouco. 

—  Eu  sei  a  hora  do  voo  —  ele  respondeu,  enquanto  o  automóvel 

começava a rodar macio pelo atalho, em direção à rodovia. 

Andar  naquele  carro  era  bem  diferente  de  andar  no  caminhão 

Hyundai. 

— Em primeiro lugar, espero que não tenha ficado muito ofendida 

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com o que aconteceu na minha casa. — César tirou um lenço branco do 
bolso e enxugou o suor do rosto. 

No entanto, a temperatura ali dentro era agradável, por causa do 

ar-condicionado. — Por 

Dios!  —  exclamou,  perdendo  a  calma  de  repente.  —  Tive  uma 

noite péssima pensando 

em você. — Voltou-se para ela, com uma expressão de desculpas 

nos  olhos.  —  Você  não  pretende  se  vingar  pelo  que  aconteceu, 
pretende? Por favor, Glenda, diga que 

não. 
—  Vingar-me,  eu?  O  que  está  querendo  dizer?  Como  é  que  eu 

poderia fazer uma coisa dessas? 

— Fiquei a noite toda preocupado com a possibilidade de você se 

vingar,  escrevendo  um  artigo  sobre  mim  e  Janice,  nos  criticando  — 
explicou ele, enxugando novamente 

a testa. Você entende? Foi isso o que ela fez — acrescentou num 

sussurro, olhando para fora da janela. 

— Ela quem? — Glenda indagou, ciente de que o carro chegara ao 

fim do atalho. 

O  automóvel  deu  uma  parada,  então.  Visto  que  nenhum  veiculo 

passava  pela  rodovia,  fez  uma  conversão  e  entrou  à  esquerda.  Glenda 
afundou no banco, suspirando aliviada. 

Já estavam a caminho do aeroporto. 
— Quem é elal — Glenda retomou o fio da conversa, abrindo seu 

caderno e localizando a página onde  havia anotado as informações que 
Rafael lhe fornecera. 

O  tempo  estava  passando  rápido  e  a  entrevista  ainda  não  tinha 

começado.  De  algum  modo  tinha  que  fazer  César  se  apressar,  mas 
antes queria muito descobrir quem havia 

escrito um artigo crítico e maldoso a respeito dele. 
—  Paula  Van  Druten  —  ele  citou.  —  Será  que  você  já  ouviu  falar 

dela? — Glenda fez um gesto negativo com a cabeça, anotando, porém, 
aquele nome no caderno. — Ela 

era nossa vizinha em Nova York e tinha planos de escrever um 
103 
grande  romance.  Eu  a  estava  ajudando,  mas  aí  Janice  ficou  com 

ciúme e a proibiu de entrar em nosso apartamento, assim como minhas 
-visitas a ela. Dios, que situação! 

—  E  seu  irmão  gémeo  não  estava  por  perto  para  ajudálo?  — 

Glenda perguntou, secamente. 

César girou a cabeça e arregalou os olhos. Ela não pôde ver-lhe a 

expressão do rosto, pois a luz do sol refletia em seus óculos, mas teve a 
nítida impressão de que 

ele ficara surpreso. 

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Então, ela explicou: — Rafael me contou, a noite passada. Muitas 

vezes  fingiu  ser  você,  para  tirá-lo  de  encrencas,  não  é?  Agora,  por 
favor, conte-me o que Paula 

Van  Druten  fez  para  se  vingar  de  você  e,  depois,  vamos 

prosseguir com a entrevista. 

Mais  tranquilo,  com  a  naturalidade  de  Glenda,  César  suspirou 

longamente. 

—  Ela  escreveu  um  artigo  em  que  ridicularizava  Janice  e  eu; 

expondo nossa vida particular ao conhecimento público. 

Dios, foi horrível! Tive medo de que você fizesse 
o  mesmo.  Por  isso,  resolvi  procurá-la.  Queria  lhe  pedir  desculpas 

pelo  incidente  de  ontem  e  conceder-lhe  a  entrevista.  Desde  que  você 
prometa não escrever nada sobre 

o meu casamento com Janice. 
— Sei muito pouco sobre a vida particular de vocês, portanto.seria 

difícil para mim fazer qualquer comentário — ela replicou, com frieza. — 
Sei apenas o que Rafael 

me contou. Janice descobriu sobre a nossa amizade em Montreal e 

ficou com ciúme. Certo? 

— É isso mesmo. 
—  Agora  diga-me:  Por  que  me  julgou  capaz  de  prejudicálo. 

Conhece-me tão pouco assim? 

—  Eu  realmente  conheço  muito  pouco  a  seu  respeito  —  ele  se 

defendeu.  —  É  verdade  que  fazíamos  parte  da  mesma  turma  em 
Montreal, mas nunca fomos íntimos. Rafael 

deve tê-la conhecido melhor, quando foi me visitar em Montreal. 
— Alguma vez ele lhe contou que eu o confundi com você quando 

fomos esquiar em Quebec? 

— Sim, contou. — Os lábios dele se crisparam num sorriso irónico, 

que o fez parecer-se ainda mais com o irmão. 

—  Naquela  época,  éramos  mais  parecidos  do  que  hoje.  De  certa 

forma foi divertido, mas a verdade é que ele se 

apaixonou 
104 
por você. O sorriso se extinguiu. — Ele ainda a ama, sabia? Quer 

se casar com você... 

Glenda  baixou  os  olhos  para  o  caderno.  As  palavras  na  página 

aberta ficaram embaçadas. 

— O que foi? 
— Mas eu me recusei — ela apressou-se em dizer, assumindo uma 

postura  ereta.  —  Mas  o  tempo  está  se  esgotando  e  eu  gostaria  de 
anotar alguns dados. Possuo informações 

sobre onde iasceu e foi educado, mas quero saber por que decidiu 

ir para uma universidade canadense para fazer seu mestrado em Inglês. 

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— Ora, isso é fácil — ele respondeu. — Eu conheci outras pessoas 

que  estudaram  em  Montreal,  e  gostaram  muito...  É  mais  barato 
frequentar uma universidade lá do que 

nos  Estados  Unidos  ou  na  Inglaterra.  O  curso  oferecia  todas  as 

matérias que me interessavam, além de uma sólida formação literária. 

— Na sua opinião, qual é a melhor literatura? 
—  A  inglesa.  Eu  tenho  preferência  pela  inglesa.  Já  se  escreveu 

mais  em  inglês  do que  em  qualquer  outra  língua,  mas  também  aprecio 
outras. No Brasil, por exemplo, 

existem  grandes  talentos.  Como  você  deve  saber,  o  Português  é 

um idioma que possui um vocabulário riquíssimo! 

Consequentemente, o escritor brasileiro dispõe desse 
recurso  para  dar  vazão  à  sua  criatividade  da  forma  que  lhe 

parecer mais original. 

Enquanto  o  automóvel  rodava  macio,  Glenda  ia  anotando  as 

respostas  rapidamente,  erguendo  a  cabeça  somente  para  fazer  a 
pergunta seguinte. 

—  Por  que  não  aceitou  se  casar  com  Rafael?  Não  gosta  dele?  — 

César a interrompeu quando ela ainda escrevia. 

— Eu... Por que quer saber? — Ela tomou uma posição defensiva e 

continuou a escrever. 

. — Porque me preocupo com ele. Sempre nos entendemos bem e 

nos ajudamos mutuamente. Ele, principalmente, que é mais ajuizado. — 
César riu, bem-humorado. Eu sou 

mais sonhador e ele, mais realista. Você gosta dele, não é? 
—  Gosto.  —  Glenda  respondeu  friamente.  —  Agora,  voltemos  à 

nossa  entrevista,  por  favor!  Só  temos  alguns  minutos...  Quanto  tempo 
você precisou para escrever seu 

livro? 
105 
—  Não  sei  dizer  com  precisão,  mas  levei  anos!  Sou  um  pensador 

lento e demorei para elaborar o enredo e criar os personagens. 

— Uns oito anos, mais ou menos? 
— Mais do que isso. Comecei a pensar nele antes de ir estudar no 

Canadá.  É  uma  fusão  de  impressões  e  ideias  sobre  meu  próprio  povo. 
Você já o leu? 

— Não ousaria entrevistá-lo se não o tivesse lido. 
— Ótimo! E o que achou? 
— Achei um pouco triste. 
—  Mas  somos  um  povo  triste!  Muitos  foram  trazidos  para  o 

hemisfério  ocidental  por  conquistadores  espanhóis.  Depois,  despejados 
nessas ilhas ou no continente, abandonados 

à  própria  sorte.  —  César  entusiasmou-se  com  o  assunto, 

obrigando Glenda a escrever mais depressa. Estava tão concentrada no 

background image

trabalho, que nem prestou atenção no 

percurso.  Ouviu-o,  em  seguida,  discorrer  sobre  os  problemas 

encontrados ao escrever seu romance e sobre os planos para o próximo 
livro. Enquanto rabiscava às pressas 

as informações, Glenda percebeu que escrever era, para César, a 

coisa mais importante do mundo. 

E, como todo escritor, vivia sempre com a cabeça nas nuvens! 
Quando  a  entrevista  terminou,  Glenda  espiou  para  fora,  pela 

janela.  O  carro  diminuíra  a  marcha,  prestes  a  parar;  entretanto,  não 
haviam chegado ao aeroporto, conforme 

esperava. Estavam, sim, numa praia tranquila... 
Nisso, o carro deu um arranco na estreita pista litorânea e entrou 

numa  estrada  secundária,  entre  árvores  e  arbustos.  Depois,  passou 
sobre uma superfície desigual, 

com  suavidade,  e  parou  em  um  pátio,  em  frente  a  um  comprido 

bangalô de telhado vermelho. 

—  Oh!  Onde  estamos?  —  Glenda  perguntou  assustada, 

consultando  rapidamente  o  relógio  de  pulso.  Constatou,  desolada,  que 
já passará mais de meia hora. — O avião vai 

decolar daqui a trinta minutos! Peça ao motorista para ir direto ao 

aeroporto, imediatamente. Senão vou perder o avião! 

—  Você  já  o  perdeu  —  César  respondeu  calmo  e,  por  um 

momento, ela achou que era Rafael quem estava falando. 

— Estamos muito longe, a quase cinquenta milhas do aeroporto. 
106 
Eu fiz de propósito! Quería que você perdesse o avião, e consegui. 
— Mas por quê? Não estou entendendo. Oh, seus truques são tão 

sujos quanto os de Rafael! — Ela se enfureceu. O que vou fazer agora? 
De que jeito vou voltar a Toronto? 

Eu  estava  em  um  voo  fretado  e  será  muito  difícil  trocar  a  minha 

passagem por outra, num voo normal. Isso vai custar muito mais caro e 
não tenho dinheiro suficiente. 

Além disso, terei que passar mais uma noite, ou duas, num hotel. 

Oh, por que fez isso, César? 

— Você poderia economizar, se ficasse na casa de praia de Rafael 

—  César  retrucou,  sem  se  perturbar.  —  E,  nesse  caso,  Rafael  não 
poderia retornar à Nicarágua. - 

Ele deu um longo suspiro. — Meu irmão lhe contou que pretendia 

voltar para lá? 

—  Não.  Não  me  contou  nada.  —  A  voz  de  Glenda  era  baixa  e 

trémula. — Por que ele quer voltar à Nicarágua? 

— Para continuar o trabalho que vem realizando lá nesses últimos 

anos.  Como  médico  voluntário.  Primeiramente,  trabalhou  em  El 
Salvador e, depois, na Nicarágua, cuidando 

background image

da  população  pobre  que  sofre  os  efeitos  da  guerra  civil.  Costuma 

ir de aldeia em aldeia a pé, com a mochila de suprimentos médicos nas 
costas, para acudir essa gente. 

Há  alguns  meses  atrás,  Rafael  foi  ferido  a  bala,  acidentalmente 

disparada  por  uma  metralhadora  em  poder  dos  guerrilheiros.  Ele  foi 
obrigado a automedicar-se, voltando 

para casa a fim de se recuperar. Aqui, ele retomou o atendimento 

médico às pessoas carentes. Precisamos da presença dele nesta cidade. 
Mas acho que ele só permaneceria 

aqui  se  constituísse  uma  família.  —  César  fez  uma  pausa,  para 

tomar fôlego. 

—  Rafael  me  falou  sobre  seus  planos  de  casamento  com  você, 

ontem  à  noite.  Não  temos  segredo  um  com  o  outro  quando  estamos 
juntos. E eu esperava que você aceitasse 

a proposta dele. Gostaria de saber por que recusou, Glenda. 
—  Rafael  me  pediu  em  casamento,  logo  após  eu  ter  descoberto 

que ele se fazia passar por você, entende? 

— Eu entendo, é claro. Mas você não o ama? 
—  Amo.  Mais  do  que  a  qualquer  outra  pessoa  —  ela  admitiu, 

desesperadamente. — Eu... eu me apaixonei por ele 

107 
há oito anos atrás, mas pensei que se tratava de você. Quando o 

reencontrei, no mercado, compreendi que ainda o amava. 

—  Sim,  era  ele  que  estava  lá  no  mercado.  Era  ele  usando  meu 

nome. Eu nunca me apaixonei por você, Glenda. Rafael sim. Ele a ama! 
Você é que não o ama. Se amasse, 

saberia  perdoá-lo.  Afinal  de  contas,  o  que  é  um  nome?  O  que 

importa é o que vai dentro da gente. 

—  Foi  Rafael  quem  pediu  para  você  me  fazer  perder  o  avião?  — 

Glenda perguntou, cabisbaixa, enquanto rabiscava no caderno, a esmo. 

—  Não,  não  foi  ele.  Eu  é  quem  tive  a  ideia.  Como  já  lhe  disse, 

passei  uma  noite  péssima,  pensando  em  vocês  dois.  Tive  uma  forte 
intuição de que vocês tinham brigado 

por causa da troca de nomes. Eu precisava fazer alguma coi 
para ajudálo. Ele é imprudente, não liga a mínima para o risco que 

poderá correr, se 

retornar  à  Nicarágua.  Pensa  apenas  em  auxiliar  as  pessoas  mais 

pobres. Mas nós nos preocupamos. 

Meus  pais  e  eu.  E  eu  espero  que  você  também  se  preocupe, 

Glenda. 

— Eu me preocupo — ela murmurou. — Eu me preocupo, e muito. 

Más Rafael simplesmente fugiu de mim... 

— Ele é orgulhoso demais! O próximo passo tem que ser seu, se é 

que  se  preocupa  com  ele  realmente.  E  agora,  já  que  perdeu  aquele 

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avião, por que não tenta? 

— O que eu posso fazer? 
—  vou  descer  aqui  para  visitar  um  amigo  que  mora  nesta  casa. 

Carlos levará você para Samana, se quiser. — César deu uma olhada no 
relógio. — Você poderá chegar lá 

a tempo, 
— A tempo de quê? 
—  De  impedi-lo  de  sair  do  país  hoje.  Foi  isso  que  decidiu  fazer, 

depois que você se recusou a casar com ele. 

A  luz  do  sol  batia  na  janela,  ao  lado  de  Glenda,  parecendo 

queimar  a  sua  pele. Ideias  fugidias  revolviam-lhe  a  mente. Pensava  no 
avião que decolará há pouco rumo 

ao  Canadá  e  em  sua  bagagem.  Estaria  dentro  do  avião,  ou  fora 

deixada  no  aeroporto?  Lembrava  do  tom  irónico  de  Ida  quando  se 
despediram. Pensava em Rafael. Sobretudo, 

nele... 
—  Está  bem  —  decidiu-se.  —  Pode  pedir  ao  motorista  para  me 

levar até Samana; 

com  um  sorriso  parecido  com  o  de  Rafael,  César  curvouse  para 

beijá-la no rosto. 

108 
— Bueno, desejo-lhe muita sorte! Se tiver, terei imenso prazer em 

vê-los  amanhã.  Caso  contrário,  volte  a  Puerto  Plata  e  vá  para  minha 
casa. Pode ficar lá o tempo 

que precisar... Adias, por enquanto. 
—  Após  ter  dado  as  instruções  a  Carlos, César  desceu  do  carro  e 

fechou  a  porta.  Imediatamente,  o  motor  voltou  a  funcionar  e  o  carro 
seguiu na direção oposta. Ela 

só  teve  tempo  de  acenar  para  César  antes  que  o  carro 

arrancasse... 

Cansada, Glenda recostou-see fechou os olhos. Seu coração batia 

mais  rápido  do  que  o  normal.  Estava  excitada  e  ao  mesmo  tempo 
confusa. Em pouoo mais de uma hora, 

sua  vida  sofrera  uma  tremenda  reviravolta.  Agora,  em  vez  de 

pegar um avião para o Canadá, estava retornando a Samana, para junto 
de Rafael. . , - 

De  repente,  abriu  os  olhos  e  endireitou  o  corpo  no  assento, 

deixando o caderno escorregar dos joelhos para o piso do carro. Rafael 
não merecia que ela fosse procurá-lo... 

Ele a enganara, e ela conseguia esquecer-se disso... Por quê? Por 

que o amava.e o queria? 

O  carro  fez  um  desvio,  saindo novamente  na  rodovia e  virando a 

esquerda, e ela inclinou-se para falar com Carlos. 

— Quanto falta para chegarmos a Samana? 

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—  Nesta  velocidade,  chegaremos  lá  daqui  a  uma  hora.  Fique 

tranquila — o motorista respondeu, sorrindo por sobre o ombro. 

Glenda  recostou-se  novamente,  com  um  suspiro.  Passado  o 

aborrecimento inicial por ter sido mais uma vez ludibriada, desta vez por 
César, teve vontade de rir. Ele 

a  sequestrara  da  maneira  mais  gentil  possível:  mantendo-a 

ocupada em anotar os dados da entrevista. 

Silenciosamente,  o  carro  continuava  a  rodar,  deixando  para  trás 

os altos coqueiros e os barracos humildes do vilarejo, que fazia a junção 
entre a estrada que atravessava 

as  montanhas  e  a  rodovia.  Passaram  pela  cidade  de  Sanchez  e 

seguiram  pela  costa  da  ampla  baia  de  Samana,  que,  agora,  apesar  do 
sol forte, estava coberta de névoa, 

prejudicando a visão das montanhas distantes. O automóvel subiu 

e desceu a encosta, passou pelo shopping center, pelo mercado e entrou 
numa alameda larga. Brancos 

edifícios  retangulares  sobressaíam-se  na  vegetação  tropical.  O 

mar azul cintilava. Os 

iates, 
109 
ancorados, flutuavam, com suas bandeiras tremulando ao vento. 
"Não  tinha  sido  ela  àquela  hora,  no  dia  anterior,  que  tomara  o 

ônibus  para  Puerto  Plata?",  Glenda  se  perguntou  quando  o  carro 
passava pelo cais. O local estava 

apinhado de gente, devido ao feriado. Todos esperavam a barcaça 

que os levaria à ilha de Sabana de Ia Mar. 

Pouco  depois,  o  carro  afastou-se  da  cidade,  subindo  a  estrada 

sinuosa que margeava os rochedos íngremes. 

Apesar  de  um  tanto  ocultas  pelas  árvores  e  arbustos,  Glenda 

avistou  as  paredes  do  refúgio,  que  refletiam  os  raios  do  sol.  O 
automóvel, então, parou, rangendo os 

pneus no espaço arenoso reservado ao estacionamento. 
A  ideia  de  fazer  uma  surpresa  a  Rafael  deixou-a  imediatamente 

excitada.  O  que  diria  ele?  O  que  faria?  Mas,  o  mais  importante,  era 
saber o que ela iria dizer-lhe. 

Como  iria  explicar  a  repentina  visita  àquela  casa,  quando  todos 

supunham que ela viajara para Toronto? 

Assim  que  desceu  do  automóvel  cinza,  Glenda  notou  que  o 

caminhão Hyundai encontrava-se estacionado no lugar habitual. Ao lado 
dele, havia um outro veículo, um pequeno 

automóvel preto. Seria de Rosário? Era só o que faltava! 
Enciumada, Glenda quase entrou no automóvel para dizer a Carlos 

que  queria  ir  para  Puerto  Plata.  Não  pretendia  rebaixarse,  a  ponto  de 
disputar o amor de Rafael com 

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outra mulher. 
— Carlos, por favor, espere. — Quero voltar a Puerto Plata. Carlos 

fez  apenas  um  sinal  de  cabeça,  assentindo.  Nisso,  alguém  surgiu  ao 
longe, correndo na direção 

de 
Glenda.  Era  uma  mulher  esbelta,  de  cabelos  negros,  usando  um 

vestido extravagante. 

— Você? O que está fazendo aqui? — exclamou Rosário assim que 

alcançou Glenda. 

A  mulher  estava  em  prantos  e  o  rímel  escorria-lhe  dos  olhos, 

manchando seu rosto. 

Mesmo  assim,  Glenda  ergueu  a  cabeça  arrogantemente,  e 

respondeu: 

— Voltei para buscar meu gravador. 
110 
CAPÍTULO X 
 
Rosário  colocou  a  mão  nos  seios  para  estancar  os  soluços, 

exibindo  uma  corrente  grossa  de  ouro  em  volta  do  pescoço,  e  deu  um 
passo para trás, os grandes olhos negros 

molhados de lágrimas. 
—  Não  acredito  em  você  —  ela  retrucou  mordaz,  meneando  a 

cabeça. 

— Mas é verdade. Vim para buscar meu gravador. Glenda repetiu 

com  obstinação.  Eu  o deixei  aqui ontem  e  não  posso partir sem  ele. — 
Pôr nada deste mundo Glenda iria 

admitir que estava ali por causa de Rafael. 
—  Mas  você  disse  que  iria  viajar  para  o  Canadá  hoje  cedo  — 

Rosário  argumentou,  recuperando,  rapidamente,  sua  impetuosidade 
habitual. 

—  Eu  sei,  mas  no  momento  exato  em  quê  estava  indo  para  o 

aeroporto,  me  lembrei  do  gravador.  Por  isso  resolvi  voltar  aqui  para 
apanhá-lo — Glenda continuou insistindo. 

Logo  estaria  acreditando  no  seu  próprio  argumento,  pensou  com 

ironia. 

—  Rafael  pensa  que  você  já  foi  —  disse  Rosário,  enxugando  as 

lágrimas  do  rosto.  Ele  também  vai  partir  para  a  Nicarágua,  à  tarde. 
Tentei demovê-lo desta ideia e propus 

me  casar  com  ele,  caso  ficasse,  mas  ele  riu  na  minha  cara.  E 

ainda sugeriu que eu me casasse com Pedro. 

— 

por 

que 

não? 

— 

Glenda 

perguntou, 

gentil. 

Surpreendentemente,  o  ciúme  que  ela  sentia  de  Rosário  sumira.  Não 
conseguia vê-la como uma espécie defemmefatale,ou 

a sedutora morena, prestes a conquistar o amor de Rafael. Glenda 

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a via agora, nitidamente, tal qual como era: uma mulher jovem, simples 
e ingénua, que não sabia 

ao certo o que queria da vida. 
—  Você  também  acha  que  devo  me  casar  com  Pedro?  Rosário 

ergueu  as  sombrancelhas,  surpresa.  —  Mas  você  nem  o  conhece!  Ele 
nunca olhou para mim, a não ser quando estamos 

111 
dançando  e,  quando  não  estamos  trabalhando,  ele  desaparece. 

Nunca ficamos juntos. 

—  Talvez  pense  que  você  só  se  interesse  por  ele  como  seu 

parceiro  de  dança.  Ou  ache  que  você  não  o  vê  como  alguém  que  tem 
sentimentos e ideias, além de saber dançar. 

Tente  seguir  o  conselho  de  Rafael  e  se  interessar  pelo  rapaz.  É 

possível que Rafael saiba que Pedro gosta de você como pessoa e como 
dançarina, não é mesmo? 

—  É,  talvez...  —  murmurou  Rosário,  franzindo  a  testa.  Em 

seguida, deu um sorriso que iluminou todo o seu rosto. 

— vou agora mesmo procurar por Pedro e dizer-lhe que, apesar de 

tudo,  prefiro  me  casar  com  ele  e  não  com  Rafael.  Ela  lançou-lhe  um 
olhar vingativo em 

direção à porta 
envidraçada  e,  atirando  a  cabeça  para  trás,  resmungou  algumas 

palavras em espanhol. 

Glenda  só  entendeu  pouca  coisa  do  que  Rosário  dizia:  não 

pretendia  ficar  a  vida  inteira  esperando  por  Rafael,  até  que  ele  ficasse 
de cabelos mais brancos ou usasse 

bengala... 
— Pronto! — exclamou Rosário quando parou de resmungar. — Eu 

me  sinto  muito  melhor  agora.  Pode  ficar  com  Rafael.  Eu  não  o  quero 
mais, nem que ele venha me pedir 

de  joelhos.  Ele  está  à  sua  disposição.  Adiós,  Glenda.  —  Em 

seguida, Rosário escapuliu pela varanda e desapareceu. 

Por  alguns  instantes,  Glenda  deixou-se  ficar  ali,  divertida  com  o 

comportamento da 

moça.  Ouviu  o  ronco  do  motor  do  carro  preto  e  os  pneus  como 

que triturando o cascalho. 

O  ruído  foi  sumindo  gradualmente  à  medida  que  o  carro  subia  a 

montanha. 

Pouco  depois,  tudo  ficou  silencioso.  Glenda  olhou  para  a  casa  de 

praia, na esperança de que Rafael surgisse à porta.  O sol estava muito 
quente e seria um alívio 

ficar com ele à sombra da varanda. Mas ele não apareceu. 
Os minutos se arrastaram enquanto ela hesitava em se aproximar. 

O  orgulho  induzia  a  dar  meia-volta  e  ir  embora.  Por  outro  lado,  queria 

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entrar na casa e surpreendê-lo. 

Confessarlhe que o amava e abrir-lhe os braços... 
Lentamente, Glenda caminhou para a porta  de entrada. Espiou lá 

dentro,  na  sala  de  estar.  Tudo  parecia  igual  ao  dia  anterior,  mas  não 
havia ninguém. Relutante, entrou, 

fazendo  uma  pausa,  à  escuta  de  sons  que  lhe  dessem  uma  pista 

de Rafael. 

112 
Mas  só  ouviu  a  água  fungando  de  uma  torneira,  na  cozinha.  Lá, 

Rafad também não estava, porém o gravador ehcontrava-se em cima da 
mesa.. Sobre de havia um envelope 

e  uma  folha  de  papel  de  carta.  Talvez  Rafael  pretendesse 

despachar  o  gravador  pelo  correio,  pois,  ao  lado,  achou  também  o 
pedaço de papel onde anotara o endereço 

dela para Alberto. 
Glenda pegou o gravador e instintivamente olhou para a porta. Ao 

ver Rafael, parado ali, em pé, observando-a, levou um choque que a fez 
estremecer toda... 

— Oh, que susto você me deu! — exclamou, com a voz abafada. -

Por que não me avisou que estava aí? 

—  Eu  é  que  pergunto  por  que  não  me  avisou  que  você  havia 

chegado — ele retrucou friamente. Depois, encostou o ombro no batente 
da porta, enfiando as mãos nos bolsos 

do short azul, combinando com a camisa branca. O cabelo estava 

despenteado,  e  os  olhos,  melancólicos, demonstravam  cansaço.  Todo o 
seu brilho e vivacidade pareciam 

ter  se  apagado.  —  O  que  está  fazendo  aqui?  Seu  voo  deve  ter 

saído há mais de uma hora. 

—  Eu...  eu...  —  Glenda  baixou  os  olhos  para  o  gravador  que 

segurava  nas  mãos.  Era  difícil  vencer  o  orgulho  diante  da  calma 
enervante de Rafael. — Lembrei-me de 

que deixei isto aqui... — ela balbuciou, confusa. 
— Você perdeu o voo só para vir atrás disto? 
O  desprezo  que  havia  na  voz  dele  mexeu  com  seus  nervos,  e 

Glenda levantou os olhos rapidamente, sem saber o que dizer. 

— Não há nada gravado na fita — preveniu ele. 
— Como sabe? 
—  Eu  liguei  o  gravador  pára  ter  certeza  disso  —  respondeu, 

irónico. 

.  —  Ah!  Sim!  Ainda  bem...Afinal,  você  não  era  o  escritor  César 

Estrada. Portanto, seria pura perda de tempo! — ela revidou, sarcástica. 

—  Você  acreditou  mesmo  que  eu  era  César?  Ou  fingia  acreditar 

nisso? 

—  Eu  não  estava  fingindo  —  ela  se  exaltou,  mas  logo  se 

background image

interrompeu. — Ora, de que adianta? Isso sempre ficará entre nós! Você 
me ludibriou. 

-, Somente em relação ao meu nome, mas fui sincero sobre meus 

sentimentos — disse Rafael calmamente. 

113 
Sem  coragem  de  encará-lo,  temendo  ceder  ao  impulso  de  atirar-

se nos braços 

dele Glenda baixou os olhos, timidamente. 
— De que maneira você veio aqui? — ele quis saber. 
—  Vim  de  carro.  O  mesmo  que  está  esperando  para  me  levar  de 

volta. - 

Por  que  motivo  ambos  estavam  tão  tensos?  Por  que  ela  não 

conseguia  dizer-lhe  que  O  perdoava,  que  o  amava  e  que  gostaria  de 
viver com ele para sempre? Seria capaz 

de qualquer coisa para impedi-lo de partir para a Nicarágua. 
Rafael foi até a janela e deu uma olhada no estacionamento. 
— Qual é o carro? 
— Um automóvel grande, de cor cinza. Não sei a marca. 
— Não está lá. 
—  Tem  de  estar!  —  Ela  se  postou  ao  lado  dele,  na  janela,  para 

espiar  o  estacionamento.  Só  viu  o  caminhão  Hyundai  debaixo  das 
casuarinas. Totalmente iluminado pela 

intensa  luz  solar-,  o  resto  da  área  se  encontrava  vazio.  -Ele... 

Carlos, o motorista, deve ter ido procurar uma sombra, para estacionar, 
talvez no atalho mais acima 

— ela disse, indecisa. 
— vou dar uma olhada. 
Dando meia-volta,  ela saiu apressada da cozinha, atravessando a 

sala. Percorreu a varanda, quase correndo, e desceu as escadas. Parada 
no chão de cascalho, crestado 

de  sol,  examinou  o  atalho.  Não  viu  nenhum  carro  estacionado  à 

sombra  das  árvores.  Carlos  tinha  ido  embora.  Mais  uma  vez  precisaria 
recorrer a Rafael para transportá-la. 

Mas  não  tinha  dúvidas  de  que  fora  César  que  dera  instruções  a 

Carlos. 

Guardando  o  gravador  dentro  da  bolsa,  Glenda  retomou  o 

caminho  de  volta,  lentamente.  A  afobação  em  localizar  o  carro  parecia 
ter exaurido suas energias, e o calor 

do  meiodia  fazia-a  sentir-se  sonolenta.  Gostaria  de  poder  deitar 

em  algum  lugar  e  dormir.  Agora  compreendia  por  que  os  hispano-
amerícanos gostavam tanto da siesta! 

Como,  porém,  poderia  descansar,  se  ainda  tinha  que  enfrentar 

Rafael? César estava certo: o irmão era orgulhoso. 

Ao passar  pela varanda, algo lhe chamou a atenção. A rede onde 

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fizera  amor  com  Rafael  balançava  suavemente.  Era  Rafael  que  estava 
espichado nela, com uma perna para 

fora. 
com  o  coração  batendo  forte,  Glenda  caminhou  até  ele.  Sob  os 

cabelos grisalhos e em desalinho, a testa era lisa, e 

114 
seu  rosto,  jovem.  Seus  olhos  estavam  fechados,  mas  os  cílios 

negros  se  moviam,  enquanto  a  linha  firme  dos  lábios  desmanchara-se 
num quase sorriso. Teria ele adormecido? 

—  Rafael!  —  ela  o  chamou  baixinho.  Queria  poder  deitar  na  rede 

ao lado dele, mas ficou sem jeito. 

—  Mmm?  —  Ele  abriu  os  olhos  cor  de  âmbar.  —  Você  ainda  está 

aqui? — A voz se arrastou, preguiçosa. 

—  O  motorista  se  foi...  —  ela  falou  medrosa.  —  César  deve  ter 

pedido a Carlos que, retornasse a Puerto Plata depois de me deixar aqui. 

— César mandou você aqui? — Rafael a encarou, espantado. 
—  Não,  ele  não  mandou.  Apenas  facilitou  as  coisas.  Glenda  se 

colocou  na  defensiva.  —  Ele  foi  ao  hotel  pela  manhã  para  pedir-me 
desculpas pelo incidente de ontem 

à  tarde  e  conceder-me  a  entrevista  que  eu  queria,  no  carro. 

Prometeu  levar-me  ao  aeroporto.  César,  então,  pediu  a  Carlos  que  me 
trouxesse aqui... 

Rafael  olhava  para  Glenda  atentamente.  Era  um  olhar  nítido  e 

penetrante,  como  o  de  uma  águia,  que  a  estava  fazendo  perder  o 
controle. De repente, ela sentiu uma 

vontade enorme de virar as costas e sair correndo. 
—  E  você  concordou?  —  perguntou  ele,  ajeitando  as  almofadas 

nas  costas  e  fechando  novamente  os  olhos,  como  se  estivesse 
subitamente desinteressado. 

— Claro! Eu precisava vir buscar meu gravador. 
Ele abriu os olhos e sentou-se na rede. Depois, estendeu a mão e 

arrancou-lhe o gravador, arremessando-o longe. Felizmente caiu sobre a 
maciez dos arbustos. 

—  Oh,  por  que  você  fez  isso?  —  Glenda  perguntou,  furiosa. 

Erguendo-se da rede, Rafael postou-se cara a cara com ela, 

os olhos brilhando de raiva, os lábios atrevidos desafiando-a. 
—  Foi  só  o  gravador  que  você  veio  buscar?  Se  foi  só  por  causa 

disso  que  veio,  tudo  bem.,  ali  está  ele!  Mas  saiba  que  eu  não  acredito 
em nada do que está dizendo. 

— Estou falando a verdade. César foi até o hotel, me fez perder o 

avião  e  sugenu...  —  ela  interrompeu-se,  achando  melhor  deixar  as 
coisas no ponto em que se achavam. 

Afinal, ele só estava tornando tudo mais difícil, pensou irritada. 
— César sugeriu que você viesse aqui — Rafael adivinhou. 

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— Então você não veio por vontade própria... 
115 
— Mas eu também queria vir, para... 
— Já sei... para reaver seu gravador — e a interrompeu, tenso. 
— Não, não exatamente... 
O  fato  de  Rafael  deliberadamente  interpretá-la  mal,  somado  à 

decepção de ser recebida tão friamente, era frustrante. Glenda sentia-se 
como se sua cabeça fosse explodir 

a  qualquer  momento.  "Será  que  não  poderiam  conversar  de  um 

modo racional?", pensou. Mas fazia calor demais para raciocinar. Então, 
para que deixar que a razão prevalecesse? 

Por  que  não  permitir  que  a  paixão  assumisse  o  comando?  Ela  o 

amava, não amava? Pois então? Por que continuar hesitando? 

Olhou na direção do seu pescoço forte e bronzeado, contrastando 

com  o  colarinho  branco  da  camisa,  e  um  súbito  desejo  cresceu  dentro 
dela. Todo 

o senso de pudor desapareceu 
diante  da  emoção  forte  e  transbordante.  Involuntariamente,  seus 

dedos  finos  tocaram  aquela  garganta  e,  contemplando-lhe  o  rosto, 
murmurou: 

—  Vim  porque o  amo  e  não  pude  suportar  a ideia  de me  separar 

de você. Queria dizer-lhe isso, mas, quando acordei, de manhã, você já 
havia ido embora... 

Glenda não conseguia dizer mais nada, pois Rafael a envolveu nos 

braços,  exigindo-lhe  os  lábios  ávida  e  arrebatadoramente.  Como 
resposta, ela acariciou-lhe a nuca 

e entranhou os dedos delicados nas mechas encaracoladas do seu 

cabelo. As mãos dele insinuaram-se por debaixo da sua blusa à procura 
dos seios. Depois de acarinhá-los 

com doçura, ele a ergueu em seus braços, deitando-a na rede. Em 

seguida, deitou-se também. Seus corpos colaram-se desesperadamente 
atraídos um para o outro e suas 

bocas buscaram-se entre risadas e beijos. 
De repente, como se fosse a reprise de um filme, tudo aconteceu 

outra vez, enquanto a rede balançava suavemente... 

— Você falou sério quando disse que não suportaria a ideia de se 

separar  de  mim?  —  Rafael  indagou,  depois  de  terem  se  amado,  na 
tranquilidade da rede. 

— Falei sim — ela respondeu langorosa. 
A  cabeça  dele  descansava  sobre  seus  seios,  e  o  contato  leve  e 

quente dos lábios em sua pele nua ainda a excitava. Eu... eu quero me 
casar com você! — confessou, 

afinal. 
— Acha que pode confiar outra vez em mim e me perdoar? 

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116 
— perguntou ele, com um brilho de felicidade iluminando os olhos. 
—  Acho  que  sim...  —  ela  respondeu,  tocando-lhe  o  rosto, 

carinhosa. 

—  Então,  vamos  esquecer  tudo  e  começar  vida  nova.  Depois  que 

nos  casarmos,  você  poderá  retornar  ao  Canadá  e  eu  seguirei  para  a 
Nicarágua. 

—  O  quê?  —  Atónita  com  os  planos  de  Rafael,  Glenda  olhava-o 

sem entender. 

—  É  isso  mesmo!  —  ele  confirmou,  tranquilo,  enquanto  lhe 

acariciava  os  cabelos.  —  Você  não  disse  agora  que  confiava  em  mim, 
querida? 

— Eu  quero  confiar em você.  Só não compreendo por que deseja 

voltar  à  Nicarágua.  César  me  disse  que  você  desistiria  dessa  ideia 
depois de casado. 

—  Você  veio  até  aqui  porque  me  ama,  ou  para  me  impedir  de 

voltar  à Nicarágua?  — Afastou-se  de Glenda  e  bruscamente  pulou  para 
fora da rede. — Afinal, quem está enganando 

quem agora? 
— Não estou enganando você! — ela retrucou, exasperada. — Vim 

porque  realmente  o  amo  e  quero  ficar  com  você.  Mas  não  vejo  muito 
sentido em nos casarmos, para depois 

você desaparecer nas selvas da América Central! 
—  Eu  tenho  um  ideal!  Será  que  você  não  compreende?  Sou 

médico e tenho meus planos! Não posso ficar o tempo todo amarrado à 
sua saia... 

— Se é assim, vamos esquecer toda essa conversa de casamento 

— ela replicou, nervosa. 

Ele deu uma olhada no relógio de pulso. 
— Não há tempo de pegar o avião para a Nicarágua agora, mas se 

eu sair imediatamente, poderei embarcar no voo para Cuba ainda hoje e 
de lá pegar um avião até Manágua. 

Girando 
nos calcanhares, Rafael afastou-se a passos largos e entrou dentro 

da casa. 

Desnorteada  com  aquela  mudança  brusca  de  planos,  Glenda 

defrontou-se  novamente  com  o  orgulho  e,  afinal,  chegou  a  uma 
conclusão. Pulou fora da rede e foi atrás dele. 

Encontrou-o no quarto, acabando de arrumar uma mochila. 
— Eu o amo! Quero me casar com você — ela falou, emocionada. 

— É... é difícil para mim aceitar sua partida, mas 

117 
prefiro  qualquer  coisa  a  perder  você...  —  A  voz  lhe  falhou  e  ela 

não pôde prosseguir. 

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Rafael  deixou  o  que  estava  fazendo  e  olhou  fixamente  para  ela. 

Depois  aproximou-se  e  passou  os  braços  em  torno  da  sua  cintura, 
aconchegando-a junto de si. 

—  Eu  sei.  Eu  entendo  —  murmurou.  Acho  que  eu  devia  me 

explicar melhor antes de lhe propor casamento. No entanto, o desejo de 
tê-la como esposa foi tão forte que 

me  fez  agir  impetuosamente.  Devia  ter-lhe  avisado  que  o 

casamento não  vai  me  impedir de  fazer  o que  minha  consciência pede. 
Não vai me impedir de voltar à Nicarágua. 

O  semblante  dele  estava  bastante  sério.  Glenda  olhou  para  ele 

como  se  o  estivesse  vendo  pela  primeira  vez.  Rafael  não  era  apenas 
médico, ou um homem apaixonado... 

Era um idealista, um sonhador! E ela não tinha nenhum direito de 

impedi-lo  de  correr  atrás  dos  seus  sonhos.  Ele  era  um  homem 
maravilhoso, humano, dono de uma forte 

personalidade, e ela o amava! 
—  Não...  não  é  muito  perigoso?  —  ela  perguntou  baixinho, 

deslizando a mão pelo peito másculo e insinuando os dedos pelo interior 
da camisa semi-aberta. — César me 

contou que certa vez você se feriu seriamente lá e eu já reparei na 

cicatriz  em  seu  ombro.  Tenho  muito  medo  que  aconteça  algo  de  mal 
com você. Acho que eu morreria... 

—  Não  deve  ter  medo...  Não  vai  me  acontecer nada!  Além  disso, 

você gostaria de mim se eu fosse covarde? Perigo existe em todo lugar! 
Até ao atravessar a rua, por 

exemplo.  —  Ele  sorriu.tentando  animá-la.  —  Eu  prometi  que 

voltaria,  para  ajudar  as  pessoas  que  conheci  lá.  Muitas  delas 
sobreviveram graças ao meu tratamento. Preciso 

resolver  mil  problemas...  mas,  se  você  quiser  se  casar  comigo 

assim mesmo, poderei adiar a viagem por alguns dias, para fazermos a 
nossa lua-de-mel. 

— Mas, e depois? O que farei? 
—  Você  poderá  voltar  ao  Canadá  e  terminar  seu  trabalho  sobre 

César.  Provavelmente  deve  haver  alguns  probleminhas  seus  a  serem 
resolvidos também... ou outros projetos 

por  concluir.  Não  faço  nenhuma  objecão  à  sua  carreira.  Pelo 

contrário, faço questão que prossiga! — Ele deu um outro sorriso, cheio 
de malícia. — Além disso, pode 

ser que você fique tão ocupada, nos próximos meses, esperando o 

nascimento 

118 
de nosso filho, que não tenha nem tempo de pensar em mim! 
— 

Um 

filho? 

— 

ela 

quase  gritou, 

colocando 

mão 

involuntariamente sobre o ventre. À ideia de engravidar não lhe passara 

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pela cabeça. Agora sentia uma espécie de 

pânico mesclado a um sentimento agradável. — Por que você acha 

que vou ter um filho? 

—  Depois  do  que  nós  andamos  fazendo  ultimamente,  acho  muito 

natural que isso aconteça! — de replicou, rindo. — Aliás, já é tempo de 
termos um filho... — com um brilho 

matreiro  nos  olhos,  Rafael  a  estreitou  mais  em  seus  braços, 

aproximando  os  lábios  dos  dela.  —  Bem,  mas  você  ainda  não  me 
respondeu: Ainda quer casar comigo? Ou já 

mudou de ideia? 
—  Você  está  muito  ansioso  por  ter  esse  filho,  não  é?  Glenda 

indagou, aninhando-se em seus braços. 

—  É  verdade!  Mas  também  estou  ansioso  para  tê-la  como  minha 

mulher para sempre... Mas, afinal, quer responder a minha pergunta? 

—  Não  existe  nada  que  eu  queira  mais  neste  mundo  do  que  me 

casar  com  você  —  ela  respondeu,  enfim.  —  Nem  que  eu  tenha  que 
esperá-lo a minha vida inteira! 

Glenda  e  Rafael  casaram-se  alguns  dias  mais  tarde,  numa 

cerimónia simples. César e 

Janice,  acompanhados  dos  filhos,  Rosário  e  Pedro,  todos 

assistiram à cerimónia. 

Os  pais  de  Glenda  e  os  de  Rafael  enviaram  telegramas, 

felicitando-os pelo casamento. 

Os  sete  dias  seguintes  foram  de  plena  felicidade  para  Glenda  e 

Rafael,  usufruída  a  dois na  casa  de praia, com  longas  caminhadas  pela 
areia e o amor compartilhado 

na rede. 
Conforme  haviam  combinado,  após  a  lua-de-mel,  Rafael  partiu 

para  a  Nicarágua  e  Glenda  para  Toronto.  César  acompanhou  a  ambos 
até o aeroporto. 

A  reportagem  sobre  o  escritor  César  Estrada  foi  publicada  na 

íntegra  e  Glenda  recebeu  vários  convites  de  outras  revistas.  Mesmo 
envolvida com seu trabalho, ela morria 

de  saudade  de  Rafael.  Finalmente  chegou  o  dia  em  que  pôde 

escrever ao marido contando-lhe que estava grávida. 

Rafael chegou um pouco tarde. Atrasara-se por causa do 
119 
mau 

tempo, 

que  ocasionou  o  cancelamento  dos  voos. 

Desembarcou  num  dia  frio  do  mês  de  janeiro,  um  dia  depois  que  os 
meninos nasceram... Ele estava com a pele ainda 

mais morena, queimada do sol, e o cabelo mais curto, quando se 

curvou  sobre  o leito de  Glenda, na  maternidade,  para  beijála  com  todo 
amor... 

Os bebés dormiam tranquilos no berço ao lado. Eram igúaizinhos e 

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parecidos com o pai. 

. — Tinham que ser gémeos — Glenda brincou, os olhos refletindo 

toda sua felicidade. 

— Vai precisar tomar muito cuidado para não confundi-los um com 

o outro — Rafael replicou, bem-humorado e orgulhoso dos garotos. 

— Sentiu falta de mim? — ela perguntou, levemente enciumada. 
— Tanta, que não vou deixá-la tão cedo — ele afirmou, beijando-

lhe a mão com carinho. 

Mais  uma  vez  os  olhos  dele  lembravam  o  âmbar  que  um  dia 

Glenda  quisera  comprar  num  certo  mercado.  Agora  estavam 
especialmente brilhantes e muito mais bonitos... 

— O que quer dizer? — ela perguntou esperançosa. 
—  Quero  dizer  que  já  terminei  meu  trabalho  na  Nicarágua  e  que 

voltei para ficar. Estou pronto para trabalhar no meu próprio país. Quer-
vir comigo para Samana? 

Samana!  Um  paraíso  tropical,  cheio  de  luz  e  calor  do  sol! 

Palmeiras sussurrantes e um mar turquesa... 

— Você ainda pergunta se eu quero? Oh, meu amor, eu te amo! 
— Eu também te amo. 
Depois  de  um  longo  beijo,  Glenda  desprendeu-se  dos  braços  de 

Rafael  e  contemplou  os  gémeos  que  ainda  dormiam  ao  seu  lado.  Em 
seguida, olhando o marido com ternura, 

disse-lhe: 
— Não vou confundi-los nunca... Prometo! 
120 
Fim