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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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Selva de Prata

Selva de Prata

Selva de Prata

Selva de Prata    

(Flora Kidd) 

Copyright: Flora Kidd 
Título original: Night of the Yellow Moon  
Publicado originalmente em 1977 pela Mills & Boon Ltda.  
Londres, Inglaterra 
Copyright para a língua portuguesa: 1987 
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. 
Digitalizado: Polyana 
Revisado: Anicieli 
 

 

 

RESUMO:  Sons  sinistros  enchiam  a  noite,  em  plena  selva  amazônica,  fazendo 

Nancy  estremecer.  Ali  estava  ela,  pálikda  de  medo,  ouvindo  o  rugido  de  invisíveis 

feras e contemplando a luz intensa da Lua, refletida nas águas do rio.  
Por amor a Edmund, viera disposta a enfrentar todos os perigos da floresta. Tinha 

que reconquistar seu marido, o único homem que a fizera vibrar de paixão, mas que 

a  julgava  adúlteral.  Só  que,  em  contraste  com  o  calor  que  exalava  da  terra,  o 

coração de Edmund estava frio como o gelo... 
 

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 Selva de Prata   

 

 

 

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CAPÍTULO 1 

Com uma freada brusca, Brian Collins parou seu carro esporte logo atrás do 

Jaguar branco estacionado em frente à casa dos tios de Nancy. 

— Parece que seus tios estão com visitas hoje,  Nancy — comentou ele, sem 

desligar o motor. 

—  Provavelmente  alguém  da  Universidade  ou  algum  ex-aluno  do  tio  Roy. 

Lembro-me de tê-lo ouvido mencionar que um deles se encontrava na vila e talvez 

viesse passar o fim de semana conosco — disse Nancy, enquanto pegava a raquete 

de tênis e a cesta de bolinhas. — Obrigada pela carona e pela parceria no jogo. 

— Não quer sair conosco hoje à noite? — perguntou-lhe Sue Martin, a garota 

que  estava  sentada  ao  lado  de  Brian.  —  Vamos  todos  a  uma  discoteca  que  está 

sendo inaugurada em Southleigh. Vai ser espetacular. 

Nancy ficou indecisa por alguns instantes. As pessoas a quem Sue se referia 

eram outros dois casais, que também frequentavam o clube. Conhecia-os há muitos 

anos, desde que se habituara a vir passar os fins de semana e feriados com seus 

tios Roy e Marsha. 

Ao  que  tudo  indicava,  seria  novamente  a  única  garota  desacompanhada  — 

papel tedioso que a aborrecia cada vez mais. 

— Obrigada pelo convite, Sue. Mas acho que hoje, para variar, vou bancar a 

anfitriã — ela respondeu, afinal. 

—  Ora,  Nancy,  não  perca  seu  tempo.  Com  certeza  o  tal  visitante  é  um 

daqueles médicos velhos e chatos que vai ficar falando sobre seus clientes o tempo 

todo...  Ou  então  é  jovem,  mas  casado,  e  trouxe  a  esposa  com  dois  ou  três 

monstrinhos para conhecerem a praia. 

—  De  qualquer  forma,  pretendo  correr  o  risco.  Vejo  vocês  no  próximo  mês, 

durante minhas férias. Está bem? 

Ainda rindo das suposições malucas de Sue, Nancy caminhou até a porta de 

entrada da casa tentando imaginar qual dos dois tipos encontraria ao entrar. Esguia, 

de compleição delicada e graciosa, Nancy possuía cabelos lisos e longos num tom 

castanho, com reflexos aloirados que brilhavam sob os raios de sol. 

Do pequeno saguão de entrada, todo decorado com vasos de cobre cheios de 

plantas e vários estribos de latão nas paredes, Nancy podia ouvir a voz estridente de 

sua tia conversando animadamente na sala. Antes de subir para tomar um banho e 

tirar o short, ela resolveu ir até lá a fim de ser apresentada ao hóspede e avisar os 

tios de seu regresso. Frequentemente recebiam amigos nos fins de semana, quase 

sempre um professor ou algum conferencista da Universidade onde ambos trabalha-

vam: Roy era professor de fisiologia na Faculdade de Medicina, e Marsha, socióloga 

no Departamento de Ciências Sociais. 

Com  um  brilho  malicioso  nos  olhos  verdes,  Nancy  concluiu  que  a  visita  só 

poderia ser um homem, pois lá estava sua tia jogando charme e encanto para cima 

da pobre vítima, sem se importar com a presença de tio Roy. 

Abrindo uma pequena fresta da porta, Nancy sentiu um arrepio percorrer-lhe a 

espinha ao deparar com a figura atraente sentada no sofá. Usando uma calça jeans 

e  uma  camisa  azul-marinho  aberta  até  o  peito,  o  desconhecido  tinha  o  rosto  bem 

barbeado e queimado de sol, testa alta e larga, maçãs salientes e queixo quadrado. 

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Os  cabelos  aloirados  e  cheios  de  reflexos  mais  escuros  estavam  penteados 

displicentemente para trás. Resumindo: um homem de tirar o fôlego! Não era para 

menos que Marsha estivesse tão empolgada! 

Ele, porém, não parecia estar prestando muita atenção ao seu falatório. Sua 

expressão era de aborrecimento e seus olhos permaneciam fixos no copo em suas 

mãos, enquanto brincava com o gelo. 

Naquele  momento,  Marsha  acabara  de  lhe  fazer  uma  pergunta  e,  pela 

maneira assustada como ele lhe voltava os olhos muito azuis e expressivos, Nancy 

percebeu  seu  embaraço.  Depois  de  um  breve  momento  de  silêncio,  um  sorriso  se 

formou em seus lábios carnudos e sensuais. 

—  É  evidente  que  eu  só  posso  concordar  com  sua  opinião,  Sra.  Halton.  A 

selva  não  é  exatamente  o  lugar  apropriado  para  uma  mulher  acostumada  às 

comodidades da vida moderna. 

Roy Halton soltou uma sonora gargalhada e bateu as mãos nos joelhos em 

sinal de satisfação. 

— Ora, Edmund, sempre achei que você havia escolhido a profissão errada. 

Devia ser um diplomata em vez de médico. 

Sem ao menos se importar com o comentário do marido, Marsha continuou a 

tagarelar, provocando uma nova expressão de desagrado no rosto do visitante. 

Nesse instante, Nancy entrou na sala lentamente, atraindo sobre si a atenção 

de  todos.  Como  um  ímã,  seu  olhar  foi  atraído  pelos  olhos  penetrantes  daquele 

homem que parecia também dominado pelo mesmo magnetismo. 

—  Até  que  enfim  você  chegou,  querida  —  disse  Roy,  levantando-se  para 

fazer  as  apresentações.  —  Este  é  o  dr.  Edmund  Talbot,  um  dos  meus  melhores 

alunos alguns anos atrás. 

—  Muito  prazer  em  conhecê-lo,  dr.  Talbot  —  falou  Nancy,  subitamente 

corada, sentando-se ao lado de Marsha. 

—  Vou  servir-lhe  um  outro  drinque,  Edmund  —  disse  a  tia  rapidamente, 

levantando-se para pegar o copo vazio de Edmund. 

Alta,  cabelos  escuros  e  curtos,  ela  usava  um  vestido  amarelo  colado  ao 

corpo. E, ao retornar com a bebida, curvou-se com exagero para entregar o copo a 

Edmund,  exibindo,  através  do  decote  ousado,  os  seios  fartos  e  bem-feitos.  Em 

seguida,  sentou-se  ao  lado  dele,  cruzando  as  pernas  numa  atitude  provocante 

demais,  na  opinião  de  Nancy.  Estava  bastante  evidente  que  sua  tia  pretendia 

monopolizar toda a atenção do jovem doutor. Aliás, aquela não era a primeira vez. 

Agia  sempre  assim,  especialmente  quando  se  defrontava  com  alguém  do  sexo 

oposto que fosse atraente e mais jovem do que ela. 

Embora  já  passasse  dos  quarenta  anos,  Marsha  ainda  conservava  uma 

silhueta  esbelta  e  bem  conservada.  Dinâmica  e  cheia  de  vida,  provavelmente  ela 

considerava  um  tanto  monótono  seu  casamento  com  tio  Roy,  que  era  quase  vinte 

anos  mais  velho.  Por  várias  vezes  Nancy  suspeitara  de  seus  casos  amorosos,  e 

agora não tinha dúvidas: seu próximo alvo era o dr. Edmund Talbot! 

— Não há perigo em nadar nesta praia aqui em frente? — perguntou Edmund 

interrompendo uma discussão sobre doenças tropicais. 

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—  Ora, mas é claro que não — respondeu Marsha sorrindo. — Você gosta 

de nadar, Edmund? 

—  Muito,  principalmente  no  mar.  Vocês  se  importariam  se  eu  fosse  dar  um 

mergulho? 

—  Fique  à  vontade  e  faça  o  que  desejar  enquanto  estiver  aqui.  Nancy  lhe 

mostrará o caminho para a praia, não é mesmo querida? — disse Roy, passando o 

braço ao redor do ombro da sobrinha. 

No mesmo instante Marsha levantou-se e segurou a mão de Edmund. 
—  Venha  comigo.  Vou  mostrar-lhe  o  seu  quarto  para  que  possa  mudar  de 

roupa — prontificou-se ela. — Nancy espera por você aqui. 

Subindo logo atrás deles para vestir o biquini, Nancy dirigiu-se ao quarto do 

sótão,  onde  costumava  se  hospedar.  Pequeno,  mas  muito  aconchegante,  ele 

possuía  o  teto  inclinado,  o  que  lhe  proporcionava  um  aspecto  charmoso.  Embora 

Marsha o tivesse decorado com muito bom gosto, Nancy colocara ali alguns objetos 

pessoais que lhe davam a impressão de ser a dona daquele cantinho. 

Alguns  minutos  mais  tarde,  quando  saiu  para  o  corredor,  ouviu  a  voz  de 

Marsha  no  quarto  de  hóspedes  e  fez  uma  careta  de  reprovação.  Sua  tia  não 

precisava demonstrar tanta intimidade e nem permanecer tanto tempo conversando 

com Edmund em seus aposentos. 

Quase meia hora se passou antes que ele surgisse. Juntos, percorreram em 

silêncio as alamedas floridas do jardim até atingirem o barranco de acesso à praia, 

que ficava num nível bem mais baixo que o da casa. Pequena e bem pitoresca, era 

toda  rodeada  por  rochedos,  em  cujos  altos  se  podia  ver  a  vegetação  escura 

destacando-se sob o céu muito azul. 

Completamente descontraído, Edmund tirou a camisa e a calça e correu para 

a água, mergulhando o corpo atlético com charme e elegância. Embora desapontada 

por ter sido deixada para trás, Nancy o seguiu sem hesitar. Ele nadava muito bem, o 

que a incentivou a também mostrar suas qualidades de exímia nadadora. Em vão! 

Finalmente, cansada de ser tratada com indiferença, ela voltou para a praia, 

sentando-se na areia quente a fim de observá-lo. Em toda sua vida jamais se sentira 

tão  perturbada  por  um  homem  como  naquele  momento.  O  magnetismo  que 

emanava daqueles olhos azuis a deixava cada vez mais fascinada e confusa. Alguns 

instantes  depois  ele  voltou  e  deitou-se  de  costas  ao  seu  lado,  apoiando  a  cabeça 

sobre os braços. 

—  Ah,  agora  me  sinto  bem  melhor!  Sua  tia  me  preparou  uma  bebida  muito 

forte e eu não estou acostumado com álcool. 

— Não acha arriscado nadar nestas condições? 
—  Pelo  contrário,  a  água  fria me fez  bem. Para falar  a  verdade, estou bem 

melhor  do  que  alguns  instantes  atrás,  lá na  sala.  Houve  um momento em  que me 

senti  um  tanto  desorientado  —  ele  sorriu  e  encarou-a.  —  Então  você  é  a  filha  de 

Frank Fenwick? Acho difícil de acreditar! 

—  Por quê? 
— Nunca imaginei que ele fosse casado, quanto mais que tivesse uma filha! 
— Você o conheceu bem? 

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—  Sim.  Assisti  a  uma  série  de  palestras  dele,  dez  anos  atrás,  sobre  a 

necessidade  de  protegermos  os  povos  primitivos,  como  certas  tribos  isoladas  da 

Indonésia  e da América  do  Sul.  Na  verdade,  seu  pai foi o  responsável  pela minha 

decisão de especializar-me em doenças tropicais. 

— E você já se comunicou com esses povos de que ele falou? — perguntou 

Nancy,  entusiasmada pelo fato de Edmund ter  conhecido  seu  pai,  sobre  quem  ela 

própria sabia tão pouco. 

—  Sim,  acabo  de  chegar  da  África,  onde  trabalhei  para  uma  Organização 

Internacional de Saúde. 

— Pretende voltar para lá? 
— Só se for requisitado. Minha intenção é ficar em Londres por uns tempos e, 

preferivelmente, em companhia de alguma mulher atraente. Está interessada? 

Sem  esperar  por  uma  resposta,  ele  fechou  os  olhos.  Àquela  hora  a  praia 

estava  praticamente  deserta  e  silenciosa,  pois,  como  bons  ingleses,  os  banhistas 

não  dispensavam  o  chá  da  tarde,  nem  mesmo  num  dia  quente  como  aquele. 

Ouviam-se  apenas  o  quebrar  das  ondas  na  areia  e  o  pio  de  alguma  gaivota 

pousando sobre os rochedos. 

Intimamente,  Nancy  sentia-se  lisonjeada  com  o  elogio  indireto  de  Edmund. 

Embora estivesse tentada a aceitar a proposta dele, a inexperiência a impedira de 

responder com entusiasmo, pois não desejava dar a impressão de estar ansiosa por 

se atirar em seus braços. 

Por alguns instantes ela observou aquele corpo seminu e musculoso, coberto 

de  pequeninos  grãos  de  areia  cintilando  ao  sol,  como  minúsculos  diamantes.  Ali 

estava  um  homem  cuja  beleza  física  dava  asas  à  imaginação  de  qualquer  garota, 

quanto mais à uma mulher vibrante como sua tia... 

—  Acha  tia  Marsha  atraente?  —  perguntou  ela,  tentando  demonstrar 

indiferença. 

— Claro! É muito conservada para a idade que tem. 
— Ela já está com quarenta anos — observou Nancy, querendo mostrar-lhe o 

quanto Marsha era mais velha do que eles. 

— Dez anos a mais do que eu. E você, que idade tem? 
— Vinte e um. 
— Graças a Deus! Começava a pensar que ainda era uma colegial. 
— Talvez você prefira mulheres mais maduras... 
— Bem, admito que, em certas ocasiões, a experiência compensa a ausência 

de juventude — respondeu ele, com um sorriso irônico. 

— Foi o que pensou de tia Marsha quando ela lhe mostrou o seu quarto? Ouvi 

vocês conversando muito animados lá dentro... 

Ele  não  reagiu  de  imediato,  mas  quando  o  fez  pegou-a  totalmente 

desprevenida.  Num  movimento  rápido,  sentou-se  e  segurou-lhe  o  queixo  com  os 

dedos firmes, obrigando-a a encará-lo. 

— O que está tentando insinuar? 

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O coração de Nancy disparou, mas ela não desviou os olhos do olhar frio e 

penetrante de Edmund. 

— Ainda não percebeu nada? Ela está a fim de ter um caso com você. Para 

ser sincera, não é a primeira vez que a vejo agir desta forma. Daí os drinques tão 

fortes  que  preparou.  Sua  intenção  era  descontraí-lo  para  poder  seduzí-lo,  mais 

tarde, em seu quarto... 

— Chega! — disse ele com firmeza, sem no entanto erguer a voz. 
Estavam  tão  próximos  que  Nancy  sentia-lhe  a  respiração  morna  como  uma 

carícia em seu rosto. Deslizando a mão até sua nuca, Edmund segurou uma mecha 

de seus cabelos entre os dedos, e continuou suavemente: 

— Não aconteceu nada do que você está pensando em meu quarto. Além do 

mais,  sei  como  devo agir  e  não  sou  tão  ingênuo  a  ponto  de  não perceber  quando 

uma  mulher  pretende  me  seduzir.  Acho  bom  você  controlar  essa  sua  imaginação 

antes que acabe se envolvendo em encrencas, sua gata ciumenta! 

— Não estou com ciúmes! — protestou Nancy, tentando inutilmente livrar-se 

da mão que pressionava cada vez mais fortemente seus cabelos. 

— Se não está, então por que se perturbou tanto com a atitude de sua tia? 
— Eu... eu não gosto de vê-la se comportando dessa forma, principalmente 

diante de meu tio. Ele é um homem muito bom e não merece isso. 

— Será que o motivo é só esse? Talvez você não suporte a idéia de me ver 

com Marsha e gostaria de estar no lugar dela! 

— Oh, mas como você é convencido e presunçoso! — disse Nancy, irritada 

ao notar o quanto ele se divertia com a situação. — Por favor, solte-me! 

— O que é isso, sereia? A verdade dói tanto assim? 
— Pare! Você está me machucando! 
— Não diga! — murmurou, chegando ainda mais perto de Nancy. — Hum... 

você está com um perfume delicioso de sândalo. 

— E você está cheirando a rum! 
—  Talvez,  mas  para  ser  sincero  este  seu  aroma  está  me  deixando  mais 

perturbado  do  que  os  aperitivos  de  Marsha...  —  dizendo  isto,  ele  a  beijou 

inesperadamente.  A  princípio,  com  delicadeza,  no  canto  da  boca,  e  em  seguida, 

cobrindo-lhe os lábios totalmente, num beijo violento. 

Nancy tentou esquivar-se virando a cabeça de um lado para o outro, porém 

sua reação apenas contribuiu para aumentar o desejo que de repente se apossara 

de Edmund. Deitando-a sobre a areia, ele pressionou-lhe os seios macios e quase 

totalmente descobertos com o corpo forte. 

Aos poucos, ela foi cedendo, até entregar-se com abandono e prazer àquelas 

mãos que a acariciavam. Era como se flutuasse, ao sabor das ondas, num mundo 

desconhecido. Os lábios dele tocaram seu pescoço e seu ombro, e chegaram aos 

seios rijos de desejo. Era uma intimidade que nunca havia experimentado antes e a 

força das emoções provocadas atingiu-a com violência. 

—  Você  é  linda,  Nancy!  Doce  e  delicada  como  uma  flor  que  acaba  de 

desabrochar. E  seus olhos  são  verdes  como  o mar. Por  que eu desejaria  Marsha, 

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tendo você por perto? Quando nos veremos novamente? 

Nancy  mal  podia  acreditar  que  não  estava  sonhando.  Seria  mesmo  real 

aquela sensação de estar no paraíso? Como num passe de mágica aquele homem 

maravilhoso entrava em sua vida e queria vê-la de novo! 

— Eu moro e trabalho em Londres — murmurou, perturbada, acariciando de 

leve o rosto dele. 

— Isto é ótimo. E em que você trabalha, Nancy? 
— Numa agência de publicidade, na redação da revista Geografia Ilustrada. 
— Seguindo os passos de seu pai? 
— Gostaria muito, mas por enquanto estou apenas aprendendo a escrever. 
— Onde você mora? 
— Divido um apartamento com uma amiga em Kensington. 
— É longe de Knightsbridge? 
— Não muito. Por quê? 
— Vou morar lá enquanto estiver em Londres. Um amigo meu, Peter Manson, 

emprestou-me  seu  apartamento  por  um  mês  e  meio,  período  em  que  estará  em 

férias no Mediterrâneo. Mas... e você? Fale-me de sua família. 

—  Marsha,  irmã  de  minha  mãe,  é  minha  única  parente.  Mamãe  morreu 

quando  eu  tinha  apenas  doze  anos.  Como  papai  estava  sempre  viajando,  fui 

educada  num  colégio  interno,  mas,  durante  as  férias,  eu  vinha  para  cá. 

Provavelmente você deve saber que meu pai morreu num acidente de helicóptero na 

Etiópia, não é? 

— Sim, eu li nos jornais. 
— E você? Tem família? 
— Meu pai também faleceu há alguns anos. Minha mãe se casou de novo e, 

atualmente, mora na Itália. 

— Não tem irmãos? 
— Não. Mas tenho uma infinidade de tios e primos — depois de fixar o olhar 

ao  longe  por  alguns  momentos,  perguntou-lhe  subitamente:    —  Gostaria  de  voltar 

para Londres comigo amanhã? Se quiser, sairemos daqui bem cedo, para ficarmos 

longe dos olhares indiscretos de sua tia. Ela nos observa de binóculos, lá da janela, 

faz algum tempo! 

— Oh, não! — exclamou Nancy, levantando-se com rapidez ao constatar que 

ele tinha razão. 

Mais  tarde,  naquela  noite,  quando  Nancy  se  preparava  para dormir,  Marsha 

entrou em seu quarto. 

—  Parece  que  você  está  se  entendendo  bem  com  Edmund,  querida.  Só 

espero que não leve a sério esse súbito interesse dele por você. 

— E por que não? — perguntou  Nancy, irritada  com  a intromissão dela. 
— Escute, querida! — pediu Marsha, sentando-se à beira da cama. — Tentei 

substituir sua mãe desde que ela morreu, mas talvez eu não a tenha orientado com 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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franqueza sobre os homens. 

—  Tem  razão,  tia.  Mas  não  há  motivo  para  preocupações.  Sempre  soube 

tomar conta de mim mesma e não sou tão ingênua como você pensa. 

— Eu sei, querida, mas você ainda é muito inocente quando se trata de julgar 

as pessoas. Pode estar cometendo um terrível engano quanto a este doutor. Ele não 

é o que aparenta ser. Sob aquela máscara de simpatia e charme, existe um homem 

frio e rude. 

— Ora, você só está dizendo isso porque não conseguiu impressioná-lo como 

planejava, tia! 

— Não entendo suas insinuações maldosas. Apenas quero lhe avisar sobre o 

outro  lado  da  personalidade  de  Edmund.  Ele  jamais  se  prenderá  a  alguém  ou  a 

qualquer coisa além de seu trabalho. Por isso, seria bom você não se envolver com 

ele. Edmund adora viver em lugares selvagens, entre tribos primitivas. Agora, seja 

sincera, não é o tipo de homem que serve para você. É?! 

— Não me importo com o que ele faz ou deixa de fazer. Amanhã voltaremos 

juntos para Londres, onde pretendemos continuar nos vendo! 

Marsha levantou-se bruscamente e dirigiu-se até a porta, de onde lançou-lhe 

um olhar maldoso. 

—  Você  é  mesmo  uma  tola,  como  sua  mãe  sempre  foi.  Um  dia  se 

arrependerá de não ter me ouvido, e quando isto acontecer não adiantará nada vir 

correndo pedir a minha ajuda... 

 
CAPÍTULO II 
Nancy  jamais  estivera  tão  atraída  por  um  homem  quanto  por  Edmund. 

Embora, verdade seja dita, poucos tivessem sido os rapazes com quem saíra desde 

a  adolescência.  O  regime  rígido  e  severo  do  colégio  interno  não  lhe  permitira  e, 

quando  tivera  a  chance  de  morar  sozinha,  não  houvera  oportunidade  de  conhecer 

alguém assim tão charmoso. 

Em Londres, convencida de que os conselhos de tia Marsha eram fruto de um 

profundo  despeito,  Nancy  ignorou-os  por  completo.  Assim,  na  semana  seguinte 

encontrou-se  com  Edmund  todos  os  dias.  Numa  sexta-feira,  não  resistindo  mais, 

acabou lhe confessando todo o seu amor. 

Naquela  noite,  sentados  no  sofá  do  luxuoso  apartamento  de  Peter  Manson, 

Edmund a envolveu nos braços, murmurando com ternura: 

— Hoje você fica aqui comigo, sereia. 
—  Eu...  eu...  não  posso,  Edmund  —  respondeu,  embora  sentisse  cada 

centímetro de seu corpo ansioso por concordar. 

— E por que não, meu amor? 
— Não sei explicar o motivo, mas não posso. 
— Então mentiu sobre seus sentimentos por mim? — disse ele, erguendo-se 

bruscamente. 

—  Oh,  não,  não  é  isso!  Eu  te  amo  muito,  só  que  não  devo  me  entregar  a 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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você, a menos que... 

— A menos que haja uma aliança de ouro na sua mão esquerda e você use o 

meu sobrenome. Não é o que está tentando me dizer? Que tolo eu fui! Pensei que 

você fosse diferente das outras... 

Nancy  percebia  o  quanto  o  havia  desapontado  mas  era  incapaz  de  ceder, 

pois estava insegura com relação aos sentimentos e intenções dele. Levantou-se e 

pegou o casaco, jogando-o nervosamente sobre os ombros. 

— Se me amasse com a mesma pureza que eu o amo, Edmund, teria antes 

me pedido em casamento — falou com tristeza, enquanto caminhava em direção a 

porta. 

Mas,  antes  que  pudesse  alcançá-la,  Edmund  bloqueou-lhe  a  passagem, 

apoiando o corpo forte sobre o batente. 

— Aonde pensa que vai? 
— Eu não sei! Por favor, deixe-me passar! 
Ele se aproximou e, tomando-lhe o rosto entre as mãos, encarou-a por alguns 

instantes. Seus olhos estavam totalmente inexpressivos; não havia neles alegria ou 

frieza,  apenas  algo  indefinido  que  Nancy  não  conseguia  captar.  Então,  ele  sorriu. 

Um sorriso terno e ao mesmo tempo provocante. 

—  Tudo  bem,  sereia,  será  como  você  quer.  Mas  a  cerimônia  deverá  ser 

simples  e  rápida,  pois  quero  você  morando  comigo  enquanto  eu  permanecer  por 

aqui. 

— Oh, Edmund. 
No momento seguinte estavam um nos braços do outro como duas crianças 

perdidas na escuridão. 

— Oh, Nancy querida, o seu perfume e o seu corpo me perturbam tanto que 

eu já nem sei mais o que estou fazendo. Você me tirou a razão. 

Embora não compreendesse exatamente o sentido daquelas palavras, Nancy 

não  as  questionou.  Estava  feliz  demais  para  refletir  sobre  qualquer  coisa  que  não 

fosse o fato de que logo estaria casada com aquele homem adorável! 

As duas primeiras semanas do casamento de Nancy foram as mais felizes de 

toda  sua  vida.  Edmund  provou  ser  o  amante  que  ela  sempre  imaginara  em  seus 

sonhos mais românticos. Exigente, no entanto sempre consciente de seus mínimos 

desejos, ele a levou a descobrir um mundo novo de emoções e a realizar-se como 

mulher. 

No dia anterior à chegada de Peter Manson a Londres, Edmund foi a Oxford 

tratar de assuntos referentes ao seu trabalho junto às tribos primitivas. 

Nancy  voltou  mais  cedo  do  escritório  a  fim  de  encaixotar  suas  coisas,  pois 

pretendiam mudar-se para o apartamento que haviam alugado ali perto. Acabara de 

fazer  as  malas  quando  ouviu  o  barulho  de  alguém  entrando.  Certa  de  que  fosse 

Edmund,  correu  para  recebê-lo.  Com  uma  exclamação  de  espanto,  parou 

abruptamente  ao  deparar  com  um  homem  alto  e  atraente,  cabelos  muito  escuros, 

verificando a correspondência sobre a mesa da sala. 

Ele também se surpreendeu ao vê-la, mas, quando Nancy lhe contou quem 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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era e o porquê da sua presença ali, o estranho ficou simplesmente estarrecido. 

—  Edmund,  casado?!  Ora,  você  deve  estar  brincando!  Escute  aqui,  não  é 

preciso  inventar  toda  esta  história  de  casamento  só  para  encobrir  um  caso  entre 

vocês.  Não  fico  nem  um  pouco  ofendido  pelo  fato  de  estarem  morando  juntos  em 

meu apartamento. 

—  Mas  nós  estamos  casados!  —  protestou  Nancy  indignada.  —  Se  não 

acredita,  dê  uma  olhada  nisto.  —  Ela  levantou  a  mão  esquerda  e  mostrou-lhe  a 

aliança. 

— Incrível! — exclamou ele, atirando-se na cadeira mais próxima. — Você me 

desculpe,  mas  continuo  achando  tudo  isso  inacreditável!      Edmund  sempre  viveu 

única  e  exclusivamente  para  sua  medicina  tropical!  Há  quanto  tempo  você  o 

conhece? 

— Seis semanas. 
—  Oh  não!  Não  me  surpreenderia  nada  se  você  também  me  dissesse  que 

desconhece quase tudo a respeito da vida dele. 

Levantando-se,  Peter  Manson  caminhava  preocupado  de  um  lado  para  o 

outro. 

Aquela atitude estranha a irritava cada vez mais. 
— Ora, sei o que me interessa! Conheço os gostos de Edmund. Sei a idade 

dele, e acho isso o suficiente! 

—  Ah,  uma  garota  do  tipo  romântico!  Quer  dizer,  então,  que  ele  não  lhe 

contou nada? 

— Contou  o que? —  Nancy  começava  a   ficar  alarmada. Edmund já teria 

sido casado antes e não lhe dissera nada a respeito? Talvez fosse este o motivo de 

tanta hesitação em pedí-la em casamento. 

— Ele não lhe disse que é herdeiro de uma imensa fortuna desde a morte de 

seu pai? 

—  Bem,  pelo  que  pude  observar,  dinheiro  não  lhe  falta.  Embora  ele  não 

possua muita coisa além de algumas roupas boas e o Jaguar, que aliás não é um 

carro barato... 

—  Para  ser  mais  exato,  ele  possui  uma  fortuna  bastante  razoável.  Nunca 

ouviu falar nos Caramelos Talbot? 

— É claro que sim, eu os adoro. Mas o que isso tem a ver com Edmund? 
— Ele é um dos donos. Na verdade, não sente o menor interesse pela fábrica, 

por  isso  quem  toma  conta  de  tudo  são  alguns  primos.  Edmund  é  considerado  o 

excêntrico da família e, para desgosto do pai, jamais quis assumir a empresa. Desde 

que se formou em medicina, ele só tem olhos para a profissão e, atualmente, é onde 

emprega parte do dinheiro herdado. Já imaginou o que vai fazer quando ele a deixar 

para  ir  viver  no  meio  das  tribos  primitivas,  infestadas  de  malária,  na  África  ou  no 

Brasil? 

— Irei com ele. 
Peter olhou-a com uma expressão de pena.  

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— Se o conheço bem, Edmund não a levará junto. Ele é de opinião de que 

quem vai sozinho chega mais depressa. 

— Mais uma vez você está enganado a respeito dele, sabe? Pensou que ele 

jamais se casaria e, no entanto, aqui estou eu. 

—  E  vem  daí  a  minha  preocupação  com  você.  Ainda  desconhece  a 

verdadeira personalidade de Edmund... Talvez tenha sido esta sua ingenuidade que 

o  tenha  enfeitiçado.  Ele  não  é  o  tipo  de  homem  caseiro,  e  talvez  deseje  a  sua 

companhia apenas enquanto estiver aqui em Londres. 

A  expressão  de  tristeza  no  olhar  de  Nancy  era  tão  profunda  que  Peter  se 

arrependeu de ter sido tão cruel. Aquela jovem parecia ainda muito iludida pelos dias 

românticos da lua-de-mel. 

—  Sinto  muito,  Nancy.  Não  pretendia  magoá-la.  Eu  deveria,  sim,    ter  lhe 

desejado  felicidades,  mas,  pode  estar  certa,  faço  isto  agora  com  a  maior 

sinceridade. Acredita em mim? 

Ela, porém, se sentia perturbada demais com as revelações que acabara de 

ouvir para conseguir responder. Meneou ligeiramente a cabeça, evitando embaraçá-

lo ainda mais. 

Quando  finalmente  Edmund  chegou,  a  paz  voltou  outra  vez  ao  coração  de 

Nancy,  e  todas  as  dúvidas  despertadas  por  Peter  foram  esquecidas  por  completo. 

Mudaram-se para um lugar só deles, onde ela se abandonou à convivência tranqüila 

e cheia de amor ao lado do marido. 

Por  três  meses  viveram  na  mais  completa  felicidade.  Nancy  continuou 

trabalhando  para  a  agência  de  publicidade,  enquanto  Edmund  viajava  diariamente 

para Oxford, onde se dedicava a uma pesquisa sobre doenças tropicais. 

Por  essa  ocasião,  Nancy  pôde  descobrir  um  pouco  mais  sobre  a 

personalidade  daquele  homem  tão  complexo.  Embora  gostasse  de  viver  com 

simplicidade, ele não hesitava em gastar somas enormes comprando-lhe presentes 

caros  sem  motivo  algum.  Porém  tornava-se  arredio  quando  ela  tocava  no  assunto 

relacionado à herança, que, em grande parte, era doada para algumas instituições 

de caridade dedicadas a povos mais carentes. Certa vez, criando coragem, Nancy 

perguntou-lhe  por  que  ele  nunca  havia  mencionado  o  fato  de  ser  herdeiro  dos 

Caramelos Talbot, mas surpreendeu-se com a frieza da resposta. 

— Não queria que você se casasse comigo apenas pelo meu dinheiro. Quase 

fui enganado uma vez e não pretendia correr esse risco novamente. 

— Esteve prestes a se casar com outra antes de me conhecer? 
—  Sim,  mas  tive  a  felicidade  de  descobrir  a  tempo  que  minha  ex-noiva  era 

uma interesseira. 

— Deve ter sido um choque terrível, querido! 
— E uma grande desilusão também. 
— Gostava muito dela? 
— Não tanto quanto de você, meu amor. 
Apoiando a cabeça no ombro dele, Nancy sentiu o coração bater mais forte. 

Como era  bom  ouvi-lo  dizer  que  a  amava!  Gostaria  de  poder  dizer  a  tia  Marsha o 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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quanto  ela  se  enganara  a  respeito  daquele  homem  tão  terno  e  maravilhoso,  e  de 

como estava feliz a seu lado. 

Um  dia  Edmund  chegou  em  casa  e,  sem  rodeios,  comunicou  a  Nancy  que 

havia sido requisitado pela Cruz Vermelha. Faria parte de uma equipe com destino à 

Indonésia, onde dariam assistência a milhares de pessoas vítimas de um terremoto. 

— Posso ir com você? — ela perguntou timidamente. 
— Não. 
— Mas por que não? 
—  Só  irão  médicos,  enfermeiros  e  alguns  assistentes  sociais.  Além  disso, 

ficarei  bem  mais  tranqüilo  deixando-a  segura  e  confortável  em  Londres,  longe  do 

perigo  de  contrair  alguma  doença  contagiosa.  Quero-a  esperando  por  mim  sã  e 

salva... 

Era terrivelmente doloroso vê-lo partir, mas Nancy concordou sem contestar. 

Enquanto Edmund esteve fora, Peter Manson mostrou-se amigo e solidário, levando-

a  algumas  vezes  ao  teatro  ou  para  jantar.  "Recomendações  de  seu  marido",  dizia 

ele, alegando estar cumprindo ordens. 

Para  desespero  de  Nancy,  Edmund  só  retornou  da  viagem  sete  meses 

depois. Estava bem mais magro e abatido e as poucas roupas que levara voltaram 

tão  estragadas  que  ela  as  jogou  no  lixo.  Embora  com  o  rosto  ainda  marcado  pela 

tristeza, em consequência da tragédia que havia presenciado, Edmund demonstrou 

muita alegria ao revê-la. Foi pessoalmente falar com o chefe de Nancy, Ben Davies, 

a  fim  de  pedir-lhe  para  dispensá-la  por  quinze  dias,  pois  queria  tê-la  a  seu  lado  o 

tempo todo. 

Seis  semanas  depois,  Edmund  foi  novamente  requisitado  para  uma  outra 

expedição. Desta vez para a América Central, onde outro terremoto havia destruído 

grande área na selva. 

 Novamente  Nancy  pediu  para  acompanhá-lo,  mas  ele  se  negou 

terminantemente.  E,  pela  primeira  vez,  tiveram  uma  discussão  séria,  desde  que 

haviam se casado. Quando ele partiu, ela sentiu um profundo aperto no coração, um 

medo estranho. E se ele não regressasse? 

Como da outra vez, Peter manteve-se fiel à solicitação do amigo no sentido 

de cuidar de Nancy, procurando distraí-la e inventando mil programas. 

Era um domingo e Peter havia sugerido que fossem ao litoral para mudarem 

um pouco de ares. De volta ao apartamento de Nancy, ele subiu para um drinque, 

como  geralmente  fazia  ao  levá-la  para  casa  depois  de  um  passeio.  Já  estava 

escurecendo  e  a  sala  se  encontrava  na  penumbra  quando  se  sentaram  no  sofá, 

exaustos pelo dia movimentado. 

—  Em  momentos  como  este,  eu  desejaria  que  você  não  fosse  casada  com 

Edmund... — ele disse. 

Nancy  não  se  surpreendeu  com  aquele  comentário.  Há  algum  tempo  vinha 

notando  o  interesse  crescente  demonstrado  por  Peter.  Entretanto,  com  receio  de 

que  ele  fosse  longe  demais,  preferiu  mudar-se  para  outra  cadeira.  Mas,  mesmo 

antes que pudesse levantar-se, sentiu suas mãos presas entre as dele. 

—  Já  deve  ter  percebido  o  que  está  acontecendo  comigo,  não?  Estou 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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apaixonado pela esposa do meu melhor amigo! Não posso calar meus sentimentos 

por mais tempo, Nancy... 

— Não, Peter, por favor, não faça isso — murmurou desesperada, tentando 

afastá-lo ao perceber que ele tencionava beijá-la. 

Respirando  com  dificuldade,  Peter  a  envolveu  num  abraço,  aproximando  o 

rosto dos lábios dela. Nancy virou rapidamente o rosto e o beijo tocou-lhe apenas os 

cabelos. Neste momento, olhando para o quarto, Nancy estremeceu! Viu a sombra 

de uma figura familiar parada na soleira da porta. Seria Edmund? Ou apenas uma 

alucinação  causada  por  aquela  situação  tão  embaraçosa?!  Na  semi-escuridão,  ela 

fixou os olhos novamente, mas a sombra já havia desaparecido. 

Percebendo o quanto Nancy estava trêmula, Peter a libertou, afastando uma 

mecha de cabelo que caíra em seu rosto. 

—  Sinto  muito  se a  assustei,  Nancy.  Você é  tão  linda  e  adorável,  mas  está 

sempre triste. Precisa urgentemente de um pouco de carinho. Por que não me deixa 

ficar aqui para confortá-la? 

—  Por  favor,  Peter,  não  diga  mais  nada!  Vá  embora,  sim?  —  ela  suplicou, 

desesperada. 

—  Está  bem,  eu  vou.  Mas  fique  certa  de  que  voltarei.  Eu  a  amo  e  a  quero 

para mim! 

— Está perdendo seu tempo. Eu sou casada e... 
—  Mas  esta  é  uma  situação  que  pode  ser  remediada,  você  sabe.  Não  se 

pode chamar de casamento uma união em que o marido passa mais tempo fora do 

que em casa. 

— Pare, Peter, não quero ouvir mais nada! Quer ter a gentileza de sair, sim? 

— disse ela, aflita, abrindo-lhe a porta. 

—  Você  é  mesmo  uma  tola  em  manter-se  fiel  a  Edmund!  Tem  alguma 

garantia de que ele age da mesma forma em relação a você? 

— Boa noite, Peter — ela dispensou-o, secamente. 
Uma  raiva  crescente  a  dominava,  embora  admitisse  que  a  insinuação  de 

Peter despertava-lhe uma certa intranqüilidade em relação a Edmund. Lembrando-

se da visão de momentos antes, correu para o quarto, ansiosa por verificar se teria 

sido real ou apenas fruto de sua imaginação. Abriu a porta lentamente e encontrou o 

quarto  às  escuras,  iluminado  apenas  pela  luz  da  rua.  Com  o  coração  acelerado, 

percebeu que havia alguém em pé junto à janela. 

— Edmund...? — ela perguntou, acendendo o abajur de cabeceira. 
Como que paralisado, Edmund fitou-a com um brilho de aço no olhar. Nancy 

também  não  ousou  aproximar-se  para  dar-lhe  boas  vindas.  Sabia  que  ele 

presenciara  parte  da  cena  ocorrida  na  sala  e  provavelmente  estava  fazendo  um 

conceito errado dela. 

— Há quanto tempo você chegou? — ela perguntou, sentindo-se culpada por 

não ter ficado em casa para recebê-lo depois da longa viagem. 

—  Faz  uma  hora  mais  ou  menos  —  respondeu  ele  friamente.  —  Estava 

tomando  banho,  por  isso  não  ouvi  quando  você  voltou.  Só  percebi  que  tinha 

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 Selva de Prata   

 

 

 

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chegado quando saí do banheiro e ouvi a voz de Peter na sala. 

— Sinto muito não estar aqui para recebê-lo! Não o esperava tão cedo, por 

isso fomos passar o dia na praia. 

— Ele já foi embora? Ou tem o hábito de ficar a noite toda com você, quando 

fazem algum programa? 

Mesmo ofendida com aquela acusação injusta, Nancy aproximou-se e tocou-

lhe o braço suavemente, numa tentativa de explicar o mal entendido. 

— Por favor, Edmund, não fique assim! Eu posso explicar o que aconteceu lá 

na sala. Não é o que você está pensando, nunca houve nada entre mim e Peter. 

— Como posso saber se está dizendo a verdade? Sabe-se lá como você se 

comporta quando eu não estou aqui... 

—  Não  faço  nada  demais.  Apenas  volto  do  trabalho  para  casa  e  fico 

esperando por você. Edmund, querido! Não pode nem imaginar como sinto sua falta! 

—  Não  foi  essa  a  impressão  que  me  deu  hoje.  Cheguei  em  casa  certo  de 

encontrá-la à minha espera. No entanto você estava se divertindo com Peter por aí... 

— Foi você quem disse a ele para cuidar de mim. 
— Sim, mas não para tomar posse do que é meu! 
— Como pode dizer uma coisa destas? Você me conhece e sabe muito bem 

como sou!  Jamais seria capaz de traí-lo. 

— Esta é uma certeza que eu nunca poderei ter! 
— E quanto a mim? Fico aqui sozinha esperando você voltar, nem ao menos 

saber  se  ainda  está  vivo.  Quem  me  garante  que  não  tenha  uma  mulher  em  cada 

canto do mundo? 

Assim  que  acabou  de  falar,  Nancy  percebeu  que  havia  cometido  um  grave 

erro.  Suas  palavras  causaram  a  Edmund  o  efeito  de  uma  explosão  num  barril  de 

pólvora. 

Movendo-se  como  um  animal  ágil  e  enfurecido,  ele  a  atirou  sobre  a  cama 

antes que tivesse tempo de fugir. Em seguida, deitou-se sobre ela e, segurando-lhe 

o rosto entre as mãos, beijou-a de modo insolente e violento. 

O peso do corpo viril a machucava, impedindo-a de mover-se. Amedrontada 

pela fúria crescente que o dominava, Nancy debatia-se desesperadamente querendo 

se libertar, mas sua resistência aumentava ainda mais a onda de raiva e o desejo 

desenfreado. Pela primeira vez, desde que haviam se casado, não houve nem um 

instante  de  ternura  ou  consideração  por  seus  sentimentos,  quando  ele  a  possuiu 

agressiva e arrebatadoramente. 

Quando tudo terminou, Edmund levantou-se e a olhou friamente antes de se 

retirar. 

— Agora acho que você já sabe a quem pertence. A mim, o seu marido! Na 

próxima  vez,  quando  eu  voltar,  espero  encontrá-la  em  casa  e  um  pouco  mais 

receptiva e amorosa! 

Mais tarde Edmund voltou ao quarto, trazendo-lhe uma xícara de chá. Nancy 

já se vestira, e estava sentada em frente à penteadeira, escovando os cabelos com 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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lentidão. Lágrimas de tristeza corriam por suas faces. Ele se aproximou e, tocando-

lhe o queixo com ternura, induziu-a a encará-lo. 

— Perdoe-me, Nancy. 
Entretanto, ainda muito perturbada e exausta face ao que acabara de ocorrer, 

Nancy reagiu violentamente àquele carinho. 

— Não me toque! 
—  Não  pretendia  magoá-la,  acredite!...  Isso  nunca  aconteceu  comigo!  Acho 

que  fiquei  desapontado  por  chegar  aqui  e  não  encontrá-la.  Consegui  um  jeito  de 

voltar  a  Londres  antes  do  tempo  só  porque  queria  estar  a  seu  lado.  Imaginei 

encontrá-la em casa, radiante com a supresa! 

Nancy não movia um só músculo da face. Sua expressão era de quem tinha 

diante de si um homem que lhe era totalmente desconhecido. 

— Por Deus, Nancy! Pare de me olhar como se eu fosse um monstro! Já lhe 

pedi desculpas! O que mais preciso fazer para você me compreender? — Ele tentou 

aproximar-se novamente mas ela recuou assustada. 

Nancy  só  conseguia  pensar  que  aquele  não  era  o  seu  Edmund,  o  homem 

maravilhoso por quem se apaixonara perdidamente. 

—  Oh!  Droga!  Você  precisava  voltar  justamente  hoje?  —  desabafou  ela, 

lembrando-se do quanto ansiava por aquele momento! — Você estragou tudo com 

esta maldita surpresa! 

Mais  uma  vez,  Nancy  havia  empregado  as  palavras  erradas!  Subitamente 

entrou em pânico, cobrindo o rosto com as mãos. 

—    Oh,  Deus,  não  pretendia  dizer-lhe  isto!  Não  aguento  mais,  estou  tão 

confusa! — Correu para o armário, de onde tirou uma jaqueta e vestiu. Queria sair 

dali o mais rápido possível, ficar sozinha por alguns instantes e colocar as idéias em 

ordem. 

— Aonde você vai, Nancy? 
— Não sei. Preciso ficar sozinha! Não percebe que estragou tudo?! 
Desta vez Edmund nada fez para impedí-la. 
Respirando  com  dificuldade,  Nancy  entrou  no  elevador,  e,  ao  chegar  à  rua, 

não sabia o que fazer. Por instantes pensou em voltar para o apartamento, mas uma 

força maior a impediu. No primeiro ônibus que viu passar, subiu sem ao menos ler o 

destino e, imersa em seus pensamentos, permaneceu sentada ali até o ponto final. 

Durante o percurso de volta, já se sentia bem mais calma. Quando retornou 

ao  apartamento,  Edmund não  se  encontrava  mais  lá.  Esperou-o até  o amanhecer, 

sentada no sofá da sala, mas ele não regressou. 

Na manhã seguinte Nancy seguiu para o trabalho, sentindo os olhos arderem 

pela noite mal dormida. Tinha esperanças de que Edmund lhe telefonasse para irem 

almoçar juntos. Pensando nisso, não conseguia se concentrar no trabalho, atenta à 

campainha  do  telefone.  Ligou  várias  vezes  para  o  apartamento,  não  obtendo 

resposta, e, numa atitude de desespero, discou o número de Peter. 

— Você sabe onde está Edmund? — ela perguntou, envergonhada por ter de 

admitir que ignorava o paradeiro de seu próprio marido. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— Sim, eu sei. Para dizer a verdade ele acabou de sair daqui. 
Nancy suspirou aliviada. 
— Oh, que bom! Então ele logo estará aqui.  
Peter respirou fundo e limpou a garganta. 
— Sinto desapontá-la, Nancy, mas não será possível! Ele viajou novamente e 

deixou um recado para você. Que tal eu lhe transmitir pessoalmente? Afinal, não é o 

tipo de coisa para se falar ao telefone. 

Nancy  não  pôde  ouvir  mais  nada!  Atirou  o  telefone  para  o  lado,  rompendo 

num choro convulsivo e interminável! 

 
CAPÍTULO III 
O sol brilhava com intensidade no céu azul, refletindo raios dourados sobre a 

asa do pequeno avião Cessna em que Nancy viajava. 

Lá embaixo, a floresta densa, onde as copas das castanheiras destacavam-se 

com  soberania,  estendia-se  como  um  infinito  manto  verde.  Sobrevoavam  o  alto 

Xingu,  uma  região  com  inúmeros  rios  de  águas  barrentas,  ao  redor  das  quais 

concentrava-se a fauna e flora brasileiras na sua mais esplendorosa exuberância. 

A viagem de Nancy ao Brasil era de caráter estritamente oficial. Fora recebida 

no  Aereoporto  do  Galeão,  no  Rio  de  Janeiro,  por  membros  da  Funai,  um  órgão 

governamental encarregado de assuntos indígenas. E, depois de ter passado a noite 

no  Copacabana  Palace,  seguiu  bem  cedinho  para  Brasília,  em  companhia  do 

professor  Cláudio  Rodrigues,  um  antropologista  muito  dedicado  ao  Serviço  de 

Proteção ao Índio. 

Naquele momento estavam  quase  chegando  ao  destino  pretendido: o Posto 

Diauarum,  no  Parque  Nacional  do  Xingu,  habitado  por  nove  tribos  indígenas.  Ao 

contrário da maioria das pessoas que se aventuravam àquela região, considerada a 

maior floresta tropical do mundo, Nancy não estava muito entusiasmada. Tinha sido 

uma decisão tomada às pressas e agora sentia-se pouco disposta a enfrentar aquela 

vida selvagem no meio de cobras, lagartos e escorpiões. 

—  É  melhor  colocar  o  cinto,  Nancy.  Desceremos  em  poucos  minutos  — 

avisou-a gentilmente o professor Rodrigues, um homem de meia-idade, que a olhava 

através das grossas lentes de seus óculos. 

Aos solavancos, o avião aterrissou na pista de terra, estreita e curta. Vista do 

alto, era apenas um traço vermelho na imensa floresta. Sem chances de arremeter, 

o  piloto  precisava  ser  muito  hábil  para  pousar  naquela  região,  e  os  passageiros, 

bastante corajosos! 

Assim  que  desceu,  Nancy  viu-se  cercada  por  inúmeros  índios  seminus, 

alegres  e  barulhentos.  Entre  eles,  chamou-lhe  a  atenção  um  senhor  de  cabelos  e 

barba grisalhos, trajando apenas um short e uma leve camisa de algodão. Ao lado 

dele,  um  jovem  muito  atraente,  vestido  da  mesma  forma,  e  uma  bela  mulher  de 

longos  cabelos  negros  presos  na  nuca.  O  tom  dourado  de  sua  pele  era  algo  que 

jamais vira antes. 

O  homem  mais  velho  aproximou-se,  segurou-lhe  a  mão  e,  num  gesto 

inesperado,  passou  os  braços  ao  redor  de  suas  costas,  dando-lhe  dois  ruidosos 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

17

beijos, um em cada lado da face. Era o famoso abraço brasileiro, recepção calorosa 

da qual Nancy muito ouvira falar! 

—  Bem  vinda,  Nancy!  Muito  bem  vinda!  É  um  grande  prazer  conhecer 

finalmente a filha do meu saudoso e velho amigo Frank Fenwick! Sou Luís Santos e 

este é meu sobrinho Manuel Santos. Ele é sociólogo e trabalha aqui conosco. Esta é 

sua esposa, Rita!  

Nancy  cumprimentou-os  amavelmente  e,  dirigindo  um  olhar  ansioso  à  sua 

volta, percebeu a ausência de Edmund. Não havia o menor sinal dele. 

—  Está  procurando  por  Edmund?  Ele  não  pôde  vir.  Ficou  na  enfermaria, 

cuidando de alguns doentes — explicou Luís. Aproximou-se, baixando o tom da voz 

com um ar cúmplice. — Tive todo o cuidado para manter o nosso segredo! Ele ainda 

não sabe que a jornalista encarregada de fazer a reportagem sobre o nosso trabalho 

é você. Não contei nem mesmo a Rita e a Manuel. 

Voltando-se para os sobrinhos, o simpático senhor explicou-lhes rapidamente 

que  Nancy  era  a  esposa  de  Edmund.  Os  dois  a  fitaram  com    uma  expressão 

divertida, deixando-a pouco à vontade. 

— Mas esta será uma bela surpresa para Edmund! Ainda outro dia estávamos 

imaginando como seria essa jornalista! — exclamou Rita, num inglês carregado de 

sotaque americano. 

—  Como  está  Edmund?  —  perguntou  Nancy,  não  conseguindo  conter  sua 

preocupação. 

— Vamos até a vila e no caminho eu lhe conto. Não é aconselhável você ficar 

sob este sol por muito tempo — preveniu Luís, tomando-lhe o braço. 

Entraram num jipe, rodeado por indiozinhos curiosos, onde se encontravam a 

bagagem de Nancy e diversas caixas com medicamentos e suprimentos destinados 

ao Posto. 

—  Edmund  já  está  bem  melhor  do  que  quando  lhe  escrevi  aquela  carta  — 

contou-lhe Luís. — Mas ainda está muito magro e se cansa facilmente. Talvez você, 

como esposa dele, tenha mais sucesso do que eu em convencê-lo a ir para Brasília 

ou para o Rio a fim de descansar um pouco. Ele é teimoso e insiste em permanecer 

aqui até concluir sua tarefa. 

Nancy  olhou-o  de  soslaio.  Realmente  Luís  não  tinha  a  menor  idéia  da 

verdadeira situação entre os dois. 

— Como foi que me descobriu, se Edmund não contou nada a ninguém sobre 

o nosso casamento? 

— Ah, isto foi fácil! Quando ele chegou aqui no Posto, depois de passar vários 

dias  caminhando  na  selva,  estava  muito  doente.  Por  isso  achei  melhor  comunicar 

seu estado à família. Procurei pelo passaporte dele, e o seu nome era o primeiro de 

uma lista de pessoas a serem avisadas em caso de emergência. 

A  carta  de  Luís  havia  sido  tanto  uma  surpresa  quanto  um  choque  para  ela. 

Era a primeira notícia que recebia de Edmund desde que ele a deixara, dezesseis 

meses antes. Ao sabé-lo doente, sua reação imediata foi querer voar para junto dele 

o mais de pressa possível. 

Sem  saber  o  que  fazer,  Nancy  passou  noites  e  noites  sem  poder  dormir, 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

18

caindo  numa  depressão  profunda.  Aquela  ansiedade  acabou  por  afetar  sua  vida 

profissional, até que um dia Ben Davies a chamou para alertá-la sobre alguns erros 

básicos em um de seus artigos. Nancy não resistiu e rompeu em prantos, desaba-

fando o seu tormento. 

Ele a ouviu pacientemente e, após ponderar por alguns instantes, perguntou-

lhe em tom paternal: 

— Gostaria de ir para perto do seu marido, não é mesmo, menina? 
— Oh, sim! Mas não vejo como isso seria possível. Além dos gastos com a 

viagem, receio que Edmund, quando souber da minha ida para o Brasil, desapareça 

outra vez. 

— Ele não precisa ficar sabendo. Ok? 
— Mas como...? 
Ben sorriu com carinho. 
— O objetivo de sua viagem será encontrar-se com Luís Santos e não com 

Edmund. A partir deste momento você será nossa correspondente. É sua chance de 

escrever reportagens sobre assuntos geográficos para nossa revista e assim seguir 

a mesma carreira de seu pai. 

— Mal posso acreditar! 
— Enviarei uma carta a Luís Santos avisando que você vai fazer uma série de 

artigos sobre o trabalho do governo brasileiro junto às tribos indígenas. De qualquer 

forma, seria bom você colocá-lo a par da situação e pedir-lhe para guardar segredo 

absoluto sobre sua verdadeira identidade. Você gostará muito dele. Foi um grande 

amigo de seu pai e ficará contente por você. 

—  E  com  relação  a  Edmund...  Sabe  que  tipo  de  trabalho  é  o  dele,  lá  no 

Brasil? 

— De acordo com o sr. Santos, Edmund faz uma espécie de avaliação para a 

organização  em  que  trabalha.  O  objetivo  é  arrendar  dinheiro  para  mandar 

medicamentos  e  outras  provisões  para  os  povos  mais  pobres.  O  avião  em  que 

Edmund  viajava  caiu  na  floresta  e  ele  ficou  perdido  por  várias  semanas.  Quando 

conseguiu chegar ao Posto  Diauarum estava fraco e muito doente. 

— Doente?! O que poderia ser? 
— Provavelmente malária. Mas não se assuste, menina. Com certeza ele já 

estará  curado  quando  você  chegar  lá.  Agora  deixe-me  pensar  qual  seria  essa  tal 

organização...  Já  sei!  Deve  ser  O.S.P.P.,  Organização  de  Socorro  aos  Povos 

Primitivos. — Ele pegou o telefone. — Entrarei em contato com eles agora mesmo 

para  confirmar.  Talvez  se  interessem  pelos  seus  artigos.  Agora  me  diga,  quando 

acha que poderá embarcar? 

Agora, ali estava ela, num campo de pouso em plena floresta Amazônica, o 

coração batendo acelerado diante do iminente reencontro com seu marido! 

Tudo indicava que a chegada de um avião da Força Aérea brasileira era um 

verdadeiro  acontecimento  social.  Reunidos  na  pequena  sala  de  um  barracão  de 

madeira, Rita e Luís serviram aos recém-chegados o tradicional cafézinho brasileiro. 

Nancy já havia experimentado durante o vôo e achara uma delícia. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

19

Depois de um longo bate-papo, Luís escoltou o piloto e o professor Rodrigues 

até o avião, enquanto Rita levou Nancy para conhecer o quarto onde iria dormir. 

—  Você  fala  um  pouco  da  nossa  língua?  —  perguntou-lhe  Rita  enquanto 

caminhavam. 

— Apenas algumas frases ensaiadas antes de vir para cá.  Entretanto, não fui 

capaz  de  compreender  uma  só  palavra  que  me  disseram  desde  que  cheguei.  A 

minha  sorte  é  que  vocês  sabem  falar  inglês,  senão  estaria  em  apuros.  Como 

aprendeu? 

— Em casa. Minha mãe nasceu nos Estados Unidos e nos ensinou desde que 

éramos bem pequenos. Mas fique tranqüila. Acabará aprendendo a nossa língua só 

de conviver conosco. Além disso, poderei traduzí-la para você sempre que tiver difi-

culdade. Edmund, por exemplo, já sabe conversar fluentemente. 

Chegaram  a  um  outro  rancho  todo  rodeado  por  uma  varanda  onde  havia 

várias portas. Subiram uma pequena escada de madeira e caminharam até a última 

delas. 

— Este é o quarto de Edmund — disse Rita. — Havíamos planejado que você 

e eu dormiríamos juntas enquanto Manuel ficaria aqui com Edmund. Mas como você 

é  a  esposa  dele  a  troca  é  desnecessária,  não  é?  Tenho  certeza  de  que  não  fará 

nenhuma  objeção  em  dormir  com  seu  marido  —  acrescento  Rita,  sorrindo  com 

malícia. 

—  Não,  não,  é  claro  que  não  —  respondeu  Nancy,  pensando  se  Edmund 

gostaria da idéia. 

O quarto, simples, era escuro e abafado porque a janela, além de pequena, 

possuía uma grade fixa de madeira. A mobília era composta apenas de duas camas 

de campanha cobertas por cortinados para protegê-los contra pernilongos e outros 

insetos. Em um dos cantos havia uma porta que dava para um pequeno banheiro. 

Além da sua bagagem, que já se encontrava ali, havia apenas a mala de Edmund. 

Nenhum enfeite ou objetos pessoais.  

— Jamais deixamos nada à vista ou nossas malas destrancadas — explicou-

lhe Rita. — Não porque as pessoas aqui tenham o hábito de roubar, mas os índios, 

acostumados  a  repartir  seus  pertences,  simplesmente  não  entendem  o  direito  da 

propriedade. Viver na cidade é competir, mas numa aldeia é sentir, perceber, trocar 

e ser. Por isso, não espere, inclusive, muita privacidade. Dê uma olhada lá fora. 

Nancy  ficou  surpresa  ao  deparar  com  vários  índios,  sentados  na  varanda 

olhando para elas. Eram altos e fortes e intensamente bronzeados. Alguns usavam 

os cabelos lisos, soltos até os ombros, com uma faixa na cabeça, na altura da testa, 

para mantê-los no lugar; outros os haviam cortado muito curtos, em forma de cuia. 

Eles  mantinham  o  olhar  fixo  em  sua  mala  e  ela  assustou-se  quando  um  deles 

aproximou-se  e  tocou,  curioso,  o  tecido  de  sua  blusa,  seus  cabelos  e,  por  fim,  o 

cordão de ouro em seu pescoço. 

— Eles estão esperando pelos presentes — falou Rita, notando o ar atônito 

de Nancy. — Trouxe alguns com você? 

— Si... sim — respondeu Nancy, apressando-se em abrir a mala e retirar um 

saco de caramelos Talbot, distribuindo-os rapidamente entre eles. E, quando os viu 

afastarem-se, respirou aliviada. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

20

— Com certeza você deve estar querendo arrumar-se um pouco antes de ver 

Edmund — disse Rita — Dê uma batida na porta quando estiver pronta. Estarei no 

quarto ao lado. 

Nancy  sentiu-se  bem  melhor  após  ter  lavado  o  rosto  e  trocado  a  blusa  por 

uma  mais  leve,  de  algodão,  que  lhe  deixava  os  ombros  nus.  Olhou-se  no  espelho 

que havia sobre a pia, invejando o bronzeado da pele de Rita. 

Sua  palidez  a  fazia  sentir-se  nua  quando  ambas  dirigiram-se  para  uma 

espécie de quiosque coberto com folhas de palmeiras sustentado por grossas toras 

de  madeira,  onde  se  prendiam  várias  redes.  Ao  vê-las  aproximarem-se,  Luís  e 

Manuel,  que  ali  conversavam  e  fumavam  displicentemente,  levantaram-se  para 

recebê-las. 

— Trouxe seu livro de anotações? — perguntou-lhe Luís. — Vou levá-la para 

um primeiro reconhecimento do nosso centro. 

—  Uma  boa  redatora  jamais  anda  sem  lápis  e  papel  —  respondeu  Nancy, 

animada, mal podendo esperar o momento de encontrar-se com Edmund. 

—  Então  vamos  lá,  mas  não  se  apresse  ou  acabará  se  sentindo  mal  por 

causa do calor. A temperatura aqui gira em torno dos 25° o ano inteiro, o dia todo, e 

em quase todos os lugares. E, chove tanto que, às vezes, temos a impressão de um 

dilúvio! 

— Tanto assim? 
— Há um velho ditado amazônico que diz: "No verão chove todos os dias; no 

inverno, o dia todo". 

Nancy simpatizava cada vez mais com aquele homem que, por alguma razão 

desconhecida,  a  fazia  lembrar  seu  próprio  pai.  Talvez  fosse  pelo  fato  de  ambos 

terem  sido  amigos  e  de  haverem  lutado  pelas  mesmas  causas:  o  respeito  e  a 

preservação dos povos primitivos. 

—  Este  é  o  Posto  Diauarum,  um  dos  vários  no  Parque  Nacional  do  Xingu, 

uma  grande  reserva  criada  em  1961  —  continuou  ele,  entusiasmado.  —  Esse 

parque abrange uma área de mais de vinte mil quilômetros quadrados e foi fundado 

com  o  objetivo  de  reunir  diversas  culturas  aqui  existentes  há  muitos  séculos.  De 

costumes extremamente ricos, elas estavam em processo de extinção. O que seria 

uma  grande  perda,  não  só  para  os  brasileiros,  pois  há  muitos  estrangeiros  que 

também estão preocupados com o destino do nosso índio. 

Nancy  ouvia  tudo  com  atenção  e  tomava  notas  ocasionais  em  seu  bloco. 

Chegaram a uma pequena construção que Luís lhe explicou ser o hospital para onde 

os índios enfermos eram trazidos de suas aldeias às vezes até de avião. Dispunham 

de  uma  pequena  sala  de  cirurgia,  e  isso  os  tornava  orgulhosos  porque  podiam 

oferecer aos nativos um atendimento mais eficiente do que os outros postos. 

Entraram e, após Luís ter trocado algumas palavras com a enfermeira, ela os 

conduziu a um dos quartos de um comprido corredor. Aparentemente calma, Nancy 

tinha  as  palmas  das  mãos  suadas  de  nervoso.  Ao  entrar  no  aposento,  viu  duas 

fileiras de camas de ferro, quase todas ocupadas por pacientes. Curvado sobre um 

deles, uma figura muito familiar quase fez seu coração parar. 

O  sol  entrava  por  uma  das  janelas,  refletindo  os  raios  dourados  na  vasta 

cabeleira  clara  de  Edmund.  À  maneira  dos  índios,  ele  havia  amarrado  uma  fita 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

21

colorida  na  testa  a  fim  de  manter  os  cabelos  longe  dos  olhos.  Vestia  uma  camisa 

branca, de algodão e mangas curtas, e uma bermuda desbotada feita de uma velha 

calça jeans. 

— Olá, doutor! — saudou Luís ao se aproximarem. — Quero apresentar-lhe a 

nossa jornalista.                                                

Edmund  ergueu  a  cabeça  e  pousou  em  Nancy  os  olhos  muito  azuis,  em 

contraste com a pele bronzeada pelo sol tropical. 

Ela  sentiu as  pernas fraquejarem. Por  alguns  instantes  perma-  neceram em 

silêncio, hipnotizados pela emoção e pelo forte magnetismo de seus olhares. 

— Olá... Como vai? — perguntou Nancy por fim. — Bem — respondeu ele, 

sem despregar os olhos dos dela. 

— E você? 
— Eu estou ótima! 
Estranhando aquela maneira formal de se cumprimentarem, tão diferente da 

dos brasileiros, Luís os olhava atônito, sem entender nada. 

— E então, Edmund? Não foi uma bela surpresa? Sua esposa veio fazer uma 

reportagem sobre nós para a revista onde trabalha em Londres. 

— Verdade? — ele perguntou muito sério a Nancy. 
— Sim. 
— Parabéns! Sempre achei que você merecia uma oportunidade dessas! Isto 

pode significar um grande passo para sua carreira de jornalista. 

— Obrigada. 
Se havia algo de que Nancy jamais poderia se queixar em relação a Edmund 

era sua falta de interesse pelo trabalho dela. Pelo contrário, ele sempre incentivara 

seus propósitos de tornar-se uma escritora. 

—  Por  que  não  me  contou  que  Nancy  estava  vindo  para  cá?  —  perguntou 

Edmund friamente a Luís. 

—  Fui  eu  quem  pedi  a  ele  para  não  lhe  dizer  —  Nancy  apressou-se  em 

responder, percebendo o embaraço do outro. — Mas eu posso explicar tudo! 

Saíram  em  seguida  da  enfermaria,  deixando  Edmund  cuidando  de  seus 

pacientes. Nancy ficou tentada a olhar para trás a fim de verificar se ele a observava, 

porém o orgulho não lhe permitiu. Não queria demonstrar o quanto ficara perturbada 

ao vê-lo depois de tantos meses de separação. 

Do lado de fora, a claridade intensa obrigou-a a colocar os óculos escuros. 
— Não consigo entender — disse Luís, balançando a cabeça de um lado para 

o outro. — Vocês nem sequer se abraçaram! Não ficou feliz em rever seu marido? 

—  Oh  sim,  muito!  Mas  é  que...  nós  ingleses  não  costumamos  demonstrar 

nossos sentimentos com tanta espontaneidade quanto vocês brasileiros. 

— Ah!, entendo. As expansões de carinho estão reservadas para mais tarde, 

quando ficarem a sós. Cheguei a pensar que aquele reencontro não tinha significado 

nada para vocês. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

22

Nancy suspirou aliviada. Pelo menos não havia mentido ao admitir que ficara 

feliz em ver Edmund. Aliás, para ser mais exata, estava tão radiante que não sabia 

como pudera controlar-se para não se atirar em seus braços e beijá-lo com ardor. 

— Agora vou levá-la para conhecer um "tapíri" por dentro, liste que é um dos 

nomes  dados  pelos  índios  às  cabanas  onde  vivem.  Cada  tribo  tem  seus  próprios 

hábitos  e  costumes  e,  aqui  na  Reserva,  eles  convivem  em  paz  e  harmonia, 

respeitando e sendo respeitados por seus companheiros. 

Luís  a  conduziu  a  uma  pequena  cabana  em  forma  de  colméia, 

recomendando-lhe  que  abaixasse  a  cabeça  ao  passar  pela  abertura  estreita  e 

arredondada em que consistia a porta de entrada. 

Estava  muito  escuro  lá  dentro  e  Nancy  levou  alguns  segundos  para 

acostumar  os  olhos.  No  ambiente  fresco  e  agradável,  um  perfume  suave  e 

adocicado pairava no ar. Duas redes pendiam das paredes laterais, e um homem e 

uma  mulher  estavam  sentados  no  chão,  diante  de  uma  panela  de  barro  sobre  as 

brasas ardentes de uma fogueira no meio do tapíri. No centro do teto, leito de folhas 

de buriti apoiadas em grossos troncos, um buraco servia de chaminé para a fumaça 

que se desprendia da panela. 

Luís  conversou  com  o  casal  na  língua  nativa,  provocando  risos  em  seus 

rostos  redondos  e  morenos.  Desde  sua  chegada  ao  Posto,  Nancy  observara, 

achando bastante curiosa a facilidade com que os índios sorriam a todo momento, 

numa expressão quase infantil, a despeito de suas idades.                                                       

O caminho de volta foi penoso. O calor e a umidade a envolviam como uma 

grossa manta de lã entrepondo-se entre ela e o mundo ao seu redor. A cada passo, 

tinha  a  impressão  de  seus  pés  pesarem  uma  tonelada.  Por  isso,  quando  Luís 

sugeriu que ela descansasse um pouco numa das redes do quiosque, enquanto ele 

iria conversar com o chefe de uma das tribos, Nancy sentiu-se aliviada. 

Apoiou-se  numa  das  extremidades  daquela  estranha  tira  de  pano  e 

escorregou o corpo para dentro, quase caindo do outro lado. Sentiu vontade de rir 

enquanto  tentava  ajeitar-se  de  alguma maneira.  Foi  então  que  percebeu alguém a 

seu lado. 

—  Tire  os  sapatos  quando for  deitar-se  numa  rede  — disse-lhe Edmund  no 

seu habitual tom autoritário. 

Sentando-se  com  dificuldade,  Nancy  desamarrou  as  alpargatas  enquanto 

observava Edmund fazer o mesmo com as deles, antes de acomodar-se habilmente 

na  outra  rede.  Esticou-se,  preguiçosa,  e  uma  deliciosa  sensação  de  bem-estar  a 

envolveu. A brisa agradável soprava da direção do rio, que corria mansamente a uns 

dez  metros  dali.  Podia  vê-lo  por  entre  os  ramos  das  árvores,  formando  um  lindo 

parque.  Naquele  ponto  o  rio  alargava-se,  transformando-se  numa  pequena  lagoa 

contornada por bancos de areia, lembrando uma praia. O canto sonoro dos pássaros 

e  o  matraquear  de  bandos  de  periquitos  soavam  aos  seus  ouvidos  como  uma 

canção alegre, como se a natureza quisesse lhe prestar uma homenagem. 

—  Como  soube  que  eu  estava  aqui?  —  Edmund  perguntou-lhe,  depois  de 

longo silêncio. 

— Eu não tinha idéia de onde você se encontrava até que fui informada sobre 

seu  estado  de  saúde depois  de  ter  ficado  tantos  dias  perdido  na  floresta.  Por  que 

ficou tanto tempo sem me dar notícias? Por que não me contou sobre sua vinda para 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

23

o Brasil? 

Ele a olhou intrigado. 
—  Honestamente,  você  me  surpreende,  Nancy.  Da  última  vez  em  que  a  vi 

não parecia nada feliz com a rninha chegada. 

— Não foi bem assim. 
— Ah não?! Então por que foi embora depois de atirar na minha cara que eu 

havia estragado tudo ao lhe fazer uma surpresa? Eu a esperei por várias horas e, 

como você não voltava, deduzi que não queria mais me ver. 

Naquela  noite  Nancy  havia  ficado  realmente  muito  confusa  com  tudo  o  que 

acontecera.  No  entanto,  voltara  depois,  mais  calma,  e  querendo  fazer  as  pazes. 

Edmund, porém, tinha ido embora. Fora doloroso ter que acreditar em Peter, quando 

lhe dissera que Edmund a havia deixado. E, pior, ter que admitir sua culpa. Ah, se 

pudesse voltar atrás. 

Edmund interrompeu aquelas lembranças tristes. 
—  Estou  surpreso  por  ainda  estarmos  casados.  A  esta  altura  pensei  que  já 

tivesse solicitado o divórcio para se casar com Peter. 

—  Como  eu  poderia  me  divorciar  de  você,  se  nem  ao  menos  sabia  do  seu 

paradeiro? 

— Não por isso, minha cara. Peter é um hábil advogado e com toda certeza 

teria meios de resolver esta situação. 

— Realmente ele se ofereceu, mas eu... eu não quis. 
— Por quê? 
— Bem... não sei dizer. 
Nancy sentia-se a mais miserável das criaturas. Não esperava do marido um 

comportamento tão frio e tão distante. Voara ao Brasil para cair em seus braços e 

justificar-se por seu procedimento tão infantil naquela noite, mas a hostilidade dele a 

feria,  inibindo-a  de  qualquer  tentativa  de  aproximação.  O  som  alegre  de  risadas 

chamou sua atenção quando uma família de índios, todos seminus, passou correndo 

por  ali  em  direção  ao  rio.  Sentiu  inveja  deles,  desejando  poder  usufruir  a  mesma 

liberdade e despreocupação daquelas criaturas tão felizes! 

Edmund  levantou-se  e  calçou  os  sapatos,  enquanto  ela  o  observava 

disfarçadamente.  Ele  parecia  um  "hippie"  com  aquelas  bermudas  desbotadas,  a 

camisa aberta mostrando o peito forte e bronzeado, e os cabelos longos presos na 

faixa colorida. As palavras de sua tia Marsha ecoaram de repente em seus ouvidos: 

"Edmund gosta de viver em lugares selvagens, no meio de povos primitivos". Talvez 

ele tivesse encontrado neste lugar o que muitos ainda estão procurando: paz, uma 

vida simples e pureza no coração das pessoas. 

— Você está pálida por causa do calor. Não quer nadar um pouco? 
— Não há perigo? 
— Não. A correnteza é leve e a água muito limpa. Só precisa se lembrar de 

manter  os  pés  sempre  em  movimento,  pois  podem  haver  algumas  raias  no  fundo. 

Sabe onde está a sua bagagem? 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

24

Encabulada, Nancy respondeu baixando o olhar: 
— No seu quarto. Rita me disse que eu ficaria lá. Você se importa? 
— Por que eu me importaria? — ele disse dando de ombros — Agora vá se 

trocar, mas não tire os sapatos. O caminho até o rio é cheio de espinhos. 

Um grupo de índios estava sentado na varanda junto à porta do quarto. Nancy 

entrou em pânico quando eles a seguiram em alvoroço, apontando para sua mala e 

murmurando palavras indecifráveis. Lembrou-se então dos doces em sua sacola, o 

que,  provavelmente,  era  o  motivo  de  toda  aquela  algazarra.  Distribuiu-lhes  alguns 

deles e depois trancou a porta rapidamente enquanto todos se retiravam satisfeitos. 

— Pelo jeito você arranjou um bando de admiradores — brincou Edmund ao 

vê-la surgir, já de biquini, seguida pelos índios. 

—  Não é bem em mim que estão interessados. É nos caramelos Talbot! Por 

que eles gostam tanto assim de doces? 

— Na sua alimentação não há quase nada doce. Não conhecem o açúcar e 

muitos  não  possuem  frutas  frescas  na  região  em  que  moram.  Mas,  por  favor,  não 

lhes dê tudo, eu também gostaria de ganhar alguns. 

Aproximaram-se  do  rio.  Do  outro  lado  da  margem,  lindíssimas  borboletas 

amarelas coloriam os galhos das árvores, de onde ramos pendiam sobre a superfície 

da  água.  Na  pequena  praia,  Nancy  esperou  Edmund  tirar  a  bermuda  e  a  camisa, 

colocando-as ao lado de sua toalha sobre a areia. 

A agua estava muito fria, mas agradável. Ela se deitou de costas, flutuando 

por  alguns  momentos  ao  sabor  da  correnteza.  Como  era  bom  estar  ao  lado  de 

Edmund, partilhando do mesmo prazer. 

De  repente,  viu-se  cercada  por  um  grupo  de  meninos  queimados  do  sol, 

pulando  e  espirrando  água  por  todos  os  lados.  Pareciam  peixes  nadando  e 

brincando com uma bola de borracha que corria de mão em mão, em meio aos gritos 

de  alegria.  Quando  se  deram  conta,  Nancy  e  Edmund  entraram  na  brincadeira, 

participando da euforia dos indiozinhos. 

Meia hora depois, ofegante e feliz, Nancy deitava-se exausta na areia, sobre 

a sua toalha. Agora se sentia fresca e leve, livre do calor sufocante. 

Edmund sentou-se ao seu lado. 
—  Não  é  um  banho  tão  bom  quanto  no  mar,  mas  não  deixa  de  ser  uma 

delícia!  Quando  estive  perdido,  me  lembrava  das  nossas  praias.  Pensei  que fosse 

enlouquecer  com  tantos  insetos  me  mordendo  e  o  suor  cobrindo  meu  corpo  por 

causa  da  febre.  A  impressão  que  eu  tinha  era  de  que  só  o  sal  do  mar  me  traria 

algum alívio. 

— Deve ter sido uma coisa horrível! 
—  Os  piores  momentos  foram  quando  o  avião  caiu  e  constatei  ser  o  único 

sobrevivente. Tive muita sorte em encontrar a bússola ainda intacta. Sem ela jamais 

teria chegado ao posto. 

— Quantos dias ficou perdido? 
—  Luís  afirma  que  foram  três  semanas.  Perdi  a  noção  do  tempo  naquela 

ocasião, mas, de qualquer forma, me salvei! Isso é que importa. Algumas pessoas 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

25

levam até dois anos para conseguir escapar da selva! 

— Quem mais estava com você no avião? 
— O piloto e mais duas pessoas que, como eu, haviam vindo para o Brasil a 

serviço  da  O.S.P.P..  Voltávamos  da  ilha  do  Bananal,  onde  passamos  por 

experiências fantásticas junto a algumas tribos. Por isso, nenhum de nós queria sair 

de lá, o que tornou o acidente ainda mais dramático. Era como se fosse um aviso! 

— E quanto à sua pesquisa? Pretende dar continuidade? 
—  Sim.  Apesar  de  que,  com  Ingrid  e  Neil  mortos,  tenho  que  concluí-la 

sozinho. 

— Eles também eram especialistas em doenças tropicais? 
—  Não.  Neil  era  um  antropólogo formado  nos  Estados  Unidos  e  Ingrid  uma 

socióloga,  sueca.  Ela  era  a  pessoa  mais  surpreendente  que  já  conheci...  Até  hoje 

custo a acreditar na sua morte. 

Nancy sentiu uma pontada de ciúme diante da intensa emoção que havia na 

voz de Edmund. Embora nem tivesse conhecido a tal Ingrid, imaginava-a uma bela 

mulher  loira,  atraente  e  sensual  que,  caminhando  corajosamente  pela  selva, 

despertara a atenção de Edmund. 

Nancy olhou-o com ternura. Ele estava tão próximo que bastaria estender a 

mão  para  tocar  sua  coxa  musculosa  e  bronzeada.  Aquele  homem  sedutor  jamais 

deixara de exercer sobre ela uma atração irresistível. Fazendo um esforço extremo 

para controlar-se, ela se levantou subitamente. 

— O que houve? — indagou Edmund. 
—  Nada...  eu...  eu  estou  pensando  em  voltar  para  me  vestir.  Está  ficando 

muito quente aqui. 

Ele se ergueu, rápido, e entregou-lhe a toalha. 
— Vou com você. Também quero mudar de camisa. 
No  percurso  de  volta,  encontraram  Rita,  que  estava  justamente  à  procura 

deles para avisá-los de que o almoço já estava pronto. 

—  Por  que  não  nos  contou  que  era  casado  com  uma  mulher  tão  bonita, 

Edmund? — brincou ela antes de seguir para o refeitório. 

Para  alívio  de  Nancy  não  havia  nenhum  índio  nos  arredores  do  galpão.  No 

entanto, a situação tornou-se embaraçosa quando se viu sozinha com Edmund no 

quarto. Embora ele demonstrasse estar completamente à vontade trocando de roupa 

em sua frente com a mesma naturalidade dos primeiros meses de casados Nancy 

não ousou imitá-lo. Sabia que seria atentamente observada por ele. Preferiu pegar 

suas roupas e se trocar no banheiro. 

Ao  sair,  irritou-se  por  encontrá-lo  tranqüilamente  sentado  numa  das  camas, 

lendo o jornal que ela trouxera especialmente para ele. Afinal, por que ele mexia em 

seus  pertences  sem  pedir  permissão?  Refletindo  melhor,  resolveu  não  comentar 

nada.  Talvez  Edmund  estivesse  tão  integrado  à  maneira  de  viver  dos  índios  que 

tinha adotado suas mesmas atitudes. 

Edmund  ergueu  a  cabeça  e  a  fitou  por  um  momento,  enquanto  ela  se 

aproximava. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

26

— Rita tem razão, você é muito bonita. Eu já havia me esquecido o quanto... 

Ben Davies deve ser um louco mandando você para um lugar desses. 

Nancy olhou-o, inquieta. Talvez fosse melhor contar-lhe o verdadeiro motivo 

daquela viagem e sobre a carta que Luís lhe escrevera. No entanto, Edmund não a 

encorajava, sempre frio e hostil mesmo quando a elogiava. Precisava ter dito que já 

havia se esquecido do quanto ela era bonita? Não, aquele não era o momento para 

abrir seu coração... 

— Por que acha Ben Davies um louco? Trabalho para ele há tempo suficiente 

para  que  me  confie  essa  reportagem.  Afinal,  já  estava  na  hora  de  merecer  essa 

chance. 

—  Concordo  plenamente  e  fico  feliz  que  tenha  conseguido.  Ninguém  seria 

mais  competente,  mas  continuo  achando  que  Ben  deveria  tê-la  mandado  para um 

lugar mais civilizado. Você é frágil demais para aguentar a vida dura da selva. 

Nancy ficou furiosa. 
— Pois você está redondamente enganado! Muitas mulheres vivem aqui sem 

nenhum  problema.  Agora  mesmo  você  acabou  de  mencionar  a  socióloga  que  o 

acompanhou à ilha do Bananal! Posso lhe garantir que tenho condições de aguentar 

esta vida tanto quanto ela! 

O rosto de Edmund contraiu-se e ela percebeu que havia tocado num ponto 

sensível. 

— Ingrid era uma pessoa excepcional — ele disse, voltando  atenção para a 

leitura. 

— E eu? Quer dizer que não sou? 
— Não no mesmo aspecto. 
— Pois não acredito que essa sua opinião tenha alguma coisa a ver com a 

vida rude da selva. Você simplesmente não me quer aqui. 

— Isto não vem ao caso. — Edmund virou mais uma página do jornal. — De 

qualquer forma, você não devia ter vindo para cá. 

—  Não  entendo  você!  Nunca  me  deixou  fazer  parte  da  sua  vida.  Manuel 

Santos trouxe a esposa para cá, no entanto, você... jamais me desejou ao seu lado! 

Fui,  temporariamente,  alguém  para  você,  alguém  para  ficar  à  sua  espera  na 

Inglaterra porque simplesmente não gostava de dormir sozinho. Jamais desejou ter 

uma esposa de verdade e, por mais que eu me esforce, não consigo compreender o 

motivo de ter se casado comigo. 

Sentindo  que  as  lágrimas  estavam  prestes  a  saltar  de  seus  olhos,  Nancy 

mordeu o lábio inferior procurando a todo custo manter-se calma. Não conseguindo, 

pôs-se a chorar na frente de Edmund, odiando-se por sua fraqueza. 

Ele  ergueu-se  de  súbito  da  cama  e,  bruscamente,  caminhou  em  direção  a 

Nancy. Assustada, ela estremeceu e recuou instintivamente. 

— Pode ficar tranqüila — ele disse, ofendido com aquela atitude inesperada. 

—  Não  pretendo  tocá-la.  Não  me  lembrava  do  quanto  você  é  bonita,  mas  jamais 

poderei  me  esquecer  da  maneira  como  reagiu  na  última  vez  em  que  estivemos 

juntos.  Também  me  lembro  perfeitamente  do  por  quê  nos  casamos.  Tenho  a 

impressão  de  que  o  mesmo  não  ocorre  com  você...  E  agora,  se  já  está  pronta,  é 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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melhor nos apressarmos pois estão nos esperando. 

Quando Edmund retirou-se, apressado, Nancy enxugou o rosto rapidamente 

antes de correr atrás dele, pois não sabia onde ficava o refeitório. 

Sentindo-se a mais infeliz das criaturas, ela o seguia cambaleante, como se 

estivesse  bêbada,  pois  os  olhos,  ainda marejados de  lágrimas,  a  impediam  de  ver 

onde  estava  pisando.  Tropeçou  várias  vezes  sem  que  Edmund  tomasse  o  menor 

conhecimento!  Se  não  fosse  pelo  fato  de  parecer  indelicada  com  Luís,  Manuel  e 

Rita, teria permanecido no quarto. Detestava ter que andar atrás desse homem cruel 

e insensível como uma índia submissa. 

Durante  o  almoço,  sentou-se  ao  lado  de  Rita,  cujo  encanto  e  simpatia  a 

fizeram esquecer a tristeza e a raiva de minutos atrás. Acostumada com refeições 

leves  e  de  baixa  caloria,  Nancy  ficou  assustada  com  a  quantidade  de  comida  que 

fora  colocada  em  seu  prato.  Além  de  arroz  com  feijão,  que  ela  já  havia 

experimentado no Rio de Janeiro, conheceu o sabor da mandioca, uma raiz deliciosa 

considerada a base da alimentação dos índios, como lhe explicara Rita. 

— Procure dormir um pouco, Nancy — Rita recomendou, conforme um hábito 

que era indispensável ali. — Mais tarde, quando refrescar um pouco, iremos a uma 

aldeia, aqui perto, visitar um homem doente. Você vai achar interessante conhecer 

uma outra tribo, com hábitos diferentes das que moram aqui. 

Mas Nancy não conseguiu relaxar. Estava muito abafado e um redemoinho de 

idéias povoava sua cabeça. 

Edmund não viera para o quarto, como os outros, talvez para não ficar perto 

dela. Tinha sido uma loucura vir ao Brasil atrás dele! Como pudera ser tão ingênua a 

ponto  de  esperar  uma  recepção  calorosa?  O  tempo  passara  depressa,  colocando 

uma  enorme  distância  entre  eles.  Edmund,  agora,  era  quase  um estranho.  Mas, e 

ela? Será que também não havia mudado? 

 
CAPÍTULO IV 
Apesar  do  intenso  calor  daquela  tarde  e  do  tumulto  que  havia  em  seu 

coração,  Nancy  acabou  adormecendo.  Horas  depois,  acordou  assustada  ao  ouvir 

uma leve batida na porta. Confusa, levou algum tempo para se lembrar de onde se 

encontrava. Rita abriu a porta de mansinho e a chamou com delicadeza. 

— Nancy! Descansou bastante? Já está na hora de sairmos para ver aquele 

índio doente. 

—  Estarei  pronta  num  minuto.  Acha  que  devo  mudar  de  roupa  ou  posso  ir 

assim mesmo? 

— Você está ótima, o importante é sentir-se confortável. Procure usar sempre 

roupas leves e velhas enquanto estiver por aqui, e não se esqueça de levar o seu 

caderno de notas e a máquina fotográfica. Ah, seria bom, também, alguns presentes 

para distribuir entre os índios. 

— O que você sugere? 
— Eles gostam de qualquer coisa: cigarros, doces ou algum sabonete. Tudo é 

recebido com muita alegria. 

— Há quanto tempo está aqui no Posto, Rita? — indagou Nancy, enquanto se 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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dirigiam ao jipe. 

— Quase seis meses. Manuel adora o trabalho dele com o tio, porém sinto-

me  dividida  entre  permanecer  aqui  com  ele  ou  ficar  com  nossos  filhos,  no  Rio  de 

Janeiro. 

— Você tem filhos?! 
— Três meninos: um com oito, outro com seis e o menor com quatro anos. 
— Mas com quem estão eles? 
— Com minha mãe e minha irmã. Mesmo sabendo que estão em boas mãos, 

fico aflita por estar longe deles. 

— Por que eles não vêm para cá, durante as férias? 
— Manuel adoraria, mas acho arriscado. Muitas pessoas acabam contraindo 

malária. Luís já adoeceu várias vezes, e até mesmo Manuel e eu não escapamos. 

Para uma criança, isso poderia ser fatal. 

—  Mas  agora  já  existem  meios  de  combater  a  malária.  Trouxe  um  vidro  de 

comprimidos e os tenho tomado desde que cheguei ao Brasil. 

— Sim, eu sei, mas, às vezes, ficamos mais tempo do que planejamos e os 

remédios  acabam.  Como  você  sabe,  estes  me-dicamentos  custam  caro,  e  é 

justamente por isso que seu marido está aqui. Ele está fazendo um levantamento de 

fundos  necessários  para  nos  abastecer.  E  pretende  levar  um  relatório  da  nossa 

situação quando voltar para a Inglaterra, a fim de conseguir ajuda junto à O.S.P.P..  

Infelizmente,    não  temos  muitas  esperanças  quanto  a  esse  objetivo,  pois  outros 

grupos já estiveram aqui, com essa mesma finalidade, sem resultado algum. 

— Tenho certeza de que Edmund não permitirá que isso aconteça novamente 

— disse Nancy, surpreendendo-se pelo tom enfático de suas próprias palavras. 

No  jipe  Rita  sentou-se  ao  lado  de  Manuel,  no  banco  da  frente,  enquanto 

Nancy  e  Edmund  acomodaram-se  atrás,  ao  lado  de  Jekaro.  O  índio  usava  um 

chapéu  de  palha  com  abas  largas  e  mantinha  entre  os  joelhos  uma  espingarda  e 

uma pequena bolsa de couro cheia de balas. Além de jovem e bastante simpático, 

sabia falar português. 

— Para que o rifle? — Nancy perguntou, curiosa, a Edmund. 
—  Uma  das  regras  básicas  aqui  na  floresta  é  jamais  sair  sem  uma  arma. 

Você pode se perder e, nesse caso, precisará matar para comer. 

Nancy  olhou-o  meio  assustada  mas,  ao  notar  o  olhar  tranqüilo  de  Edmund, 

achou que não havia motivo para alarme. Ele estava usando um chapéu semelhante 

ao de Jekaro e, apesar das roupas descoradas, conservava aquele ar elegante que 

o diferenciava dos demais. 

— Você tinha uma arma quando se perdeu na selva? 
— Sim, havia uma no avião. Coloque seu chapéu, Nancy. Há muitos insetos 

nas árvores e algum deles pode cair sobre sua cabeça. 

Nancy obedeceu e eles penetraram na mata densa, sombreada pelas copas 

das  árvores  gigantescas  e  envoltas  por  cipós  entrelaçados.  A  trilha  por  onde 

seguiam,  um  estreito  caminho  sinuoso  e  escuro  por  entre  as  folhagens,  mal  dava 

para passar o jipe. O ar fresco e agradável tinha um forte aroma de terra molhada 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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que a deixava encantada. Havia ouvido falar de histórias apavorantes sobre aquele 

mundo  misterioso,  traiçoeiro  e  tão  ameaçador.  No  entanto,  inexplicavelmente  não 

estava nem um pouco amendrontada. 

De repente, percebeu alguma coisa sobre sua perna. Com uma expressão de 

repulsa, soltou um grito agudo e agarrou-se a Edmund, tremendo, apavorada. 

— Pelo   amor   de   Deus,   fique   calma,   e   não   toque   nela. — berrou 

Edmund ao vê-la tentar fazer um gesto para se livrar da enorme taturana coberta de 

pêlos. — Ela é muito venenosa e poderá causar-lhe queimaduras horríveis. 

Tirando uma faca da bainha, Edmund, cuidadosamente, desprendeu a lagarta 

da calça de Nancy, jogando-a depressa para fora do jipe. 

Rita e Manuel, no banco da frente, caíram na risada, fazendo Nancy corar de 

vergonha. 

— Eu sabia que você acabaria se assustando aqui na mata — disse Edmund 

—, mas não acha que exagerou um pouco ao gritar daquela maneira? 

— Desculpe-me, eu não pude evitar. Tenho pavor de taturanas. 
— Eu também não as aprecio, mas daí a fazer uma cena... 
—  Não  foi  uma  cena.  Além  do  mais,  acho  que  você  está  sendo  indelicado. 

Afinal, é a primeira excursão que eu faço à floresta, e ainda não houve tempo para 

provar que posso me sair bem. 

—  Pois,  se  depender  de  mim,  você  não  terá  esta  chance!  Amanhã  mesmo 

pedirei a Luís para mandá-la de volta a Brasília, ou para qualquer outro lugar. Eu lhe 

direi que você não tem condições para permanecer aqui. 

—  Pois  vai  perder  seu  tempo!  Estou  em  plena  forma.  Aliás,  como  médico, 

você  já  deveria  saber  que  as  mulheres  são  muito  mais  resistentes  do  que  os 

homens. 

— Algumas são, mas isto não quer dizer que você seja uma delas. Pode ter 

uma disenteria ou até mesmo contrair malária, apesar dos comprimidos. 

— Até parece que você se importa... — murmurou Nancy, lutando contra as 

lágrimas. 

— Aí é que você se engana, eu me importo e muito! A equipe daqui do Posto 

já  tem  trabalho  demais  cuidando  dos  índios  doentes.  Não  queremos  mais  um 

paciente na enfermaria. 

— Se quer saber, pode dizer o que bem quiser a Luís. Eu não vou embora 

daqui enquanto não tiver material suficiente para minha matéria. Não vai ser assim 

tão fácil livrar-se de mim, Edmund, porque Luís está do meu lado. 

Ele  nada  disse.  Apenas  olhou-a  por  alguns  instantes  antes  de  voltar  sua 

atenção para a paisagem. Naquele momento chegaram a uma clareira no meio da 

mata, cujo solo havia sido cultivado e o milho crescia desordenadamente. Edmund 

explicou-lhe  que  ali  era  a  roça  pertencente  aos  índios,  o  lugar  onde  faziam  suas 

plantações. Mudavam de local todo ano a fim de aproveitarem melhor a fertilidade da 

terra. 

Um pouco mais adiante, surgiu uma nova clareira com três grandes cabanas 

redondas dispostas em torno de uma outra, em formato retangular. À medida que o 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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jipe  se  aproximava,  três  cachorros  bem  magros  começaram  a  latir,  atraindo  a 

atenção  de  algumas  crianças  que  vieram  correndo  para  recebê-los.  Logo  depois, 

chegaram os índios adultos, homens fortes e musculosos, usando tangas e adornos 

de  penas  nos  braços.  Tinham  o  rosto  todo  pintado  com  tinta  vermelha  e  preta  e 

pequenos espetos de madeira enfiados na orelha. 

— Eles estão preocupados com um velho índio doente — explicou-lhe Rita, 

quando Manuel e Edmund os acompanharam a uma das cabanas. — Venha comigo. 

Jekaro vai nos levar para conhecer os arredores. 

Nancy lembrou-se dos presentes que trouxera consigo e os distribuiu entre as 

crianças e mulheres, emocionando-se com a alegria com que os receberam, apesar 

de  serem  coisas  simples  e  corriqueiras.  Lágrimas  vieram  aos  seus  olhos  quando 

recebeu  de  uma  das  índias,  em  retribuição,  uma  cesta  confeccionada  por  suas 

próprias mãos com folhas de palmeira buriti. Aquele gesto espontâneo de carinho a 

fez compreender os sentimentos que Edmund nutria em relação àquela gente pura e 

meiga. 

Quando  entraram  numa  das  cabanas,  algumas  mulheres  trabalhavam 

sentadas  no  chão.  Duas  jovens  índias  balançavam-se  suavemente  nas  redes, 

enquanto  amamentavam  seus  bebês.  O  ambiente  fresco  e  arejado  transmitia  uma 

tranquilidade quase irreal aos olhos de Nancy. 

— Em cada cabana moram mais ou menos vinte pessoas —explicou-lhe Rita, 

traduzindo  as  palavras  de  Jekaro.  —  Cada  família  tem  sua  própria  área  e  suas 

provisões,  e  apetrechos  de  caça  são  armazenados  naquele  galpão,  no  centro  da 

aldeia. 

—  Estou  impressionada  com  as  crianças,  Rita.  São  tão  quietinhas,  não  as 

vejo chorar. 

—  Você  tem  razão.  O  som  de  um  choro  raramente  é  ouvido  por  aqui.  Os 

índios têm uma maneira muito especial de tratar suas crianças. Geralmente, não as 

punem, apenas as amam e lhes dedicam quase todo o seu tempo. 

— Que maravilhoso! Sinal de que temos muito que aprender com eles. 
— É o que Manuel costuma dizer, e eu lhe dou toda razão. Oh, Nancy, não 

pode  imaginar  quanta  falta  sinto  dos  meus  filhos!  Não  sei  o  que  fazer!  Se  deixo 

Manuel  aqui  e  volto  para  junto  deles,  ou  se  os  trago  para  cá,  mesmo  correndo  o 

risco de vê-los contrair alguma doença. Este tem sido o meu maior dilema. 

Nancy ficou com pena da amiga. Talvez o problema de Rita fosse ainda mais 

grave do que o seu. Pelo menos, ela e Edmund não possuíam filhos. A felicidade em 

jogo, no seu caso, restringia-se apenas ao casal. 

Ao voltarem, Manuel e Edmund conversavam com um índio perto do jipe. 
—  Aquele  é  o  chefe  da  tribo  —  informou  Rita,  enquanto  aguardavam  pela 

hora da partida. — Sabe, Nancy, estive refletindo sobre você e Edmund. Acho que 

você se encontra numa situação semelhante à minha. 

— Como assim? Nós não temos filhos. 
—  Eu  sei  disso,  mas  nossos    maridos    estão    lutando    pelo  mesmo  ideal. 

Ambos amam essa gente, à qual pretendem dedicar-se. O serviço de proteção aos 

índios, do governo, tem encontrado dificuldades em conseguir médicos capacitados 

e  que  estejam  dispostos  a  abandonar  o  conforto  da  cidade  por  essa  vida.  E,  ao 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

31

mesmo tempo, também não têm dinheiro para pagá-los. Por isso, a maior parte dos 

que  vêm  aqui  são  voluntários  jovens  e  inexperientes.  Há  muito  poucos  com  a 

experiência e capacidade de Edmund. 

Nancy sentiu uma ponta de orgulho. 
— Ouvi dizer  que o professor Rodrigues pediu a Edmund para considerar a 

hipótese de ficar permanentemente aqui no Posto Diauarum — continuou Rita. — Se 

Edmund concordar, você terá que escolher entre voltar para a Inglaterra ou ficar a 

seu lado, não é mesmo? 

—  Sei  disso  —  respondeu  Nancy,  ciente  de  que  Rita  a  observava 

atentamente. Intimamente, porém, sabia que na verdade não tinha escolha, já que 

Edmund demonstrara claramente que não a desejava ali nem para uma breve visita. 

No percurso de volta para o Posto Diauarum, Nancy sentiu-se mais deprimida 

do que nunca. A esperança de reacender a chama do amor que existira entre ela e 

Edmund  tornava-se  cada  vez  mais  remota.  Agora,  como  se  não  bastasse  a  frieza 

com que a recebera, Edmund acomodara-se no banco da frente, ao lado de Manuel, 

como se não lhe interessasse nem mesmo sentar-se a seu lado. 

Melancolicamente,  Nancy  ficou  observando  um  grupo  de  índios  caçadores 

que  retornavam  à  aldeia  trazendo  o  sustento  de  suas  famílias.  Eles  vinham  com 

suas  bordunas,  arcos,  flechas  e  rifles  pendurados  nos  ombros.  Pareciam  figuras 

românticas  e  misteriosas,  que  sumiam  quase  tão  subitamente  quanto  haviam  sur-

gido, confundindo-se com as sombras da floresta. 

Durante o jantar, Luís anunciou a Nancy: 
— Amanhã iremos até o Posto Leonardo pelo rio. Você vai conhecer uma das 

mais  belas  paisagens  que  a  natureza  nos  oferece.  Levaremos  uns  dois  dias  para 

chegar, por isso durante o trajeto dormiremos acampados. 

— E por quanto tempo ficaremos lá? — ela perguntou-lhe, entusiasmada. 
— Outros dois dias. Voltaremos para cá de avião, a tempo de você pegar o 

próximo  vôo  para  Brasília.  Enquanto  estivermos  no  Posto  Leonardo,  você  e  seu 

marido  terão  oportunidade  de  voar  para  um  local  fantástico  da  região  e  conhecer 

uma tribo selvagem muito interessante. O primeiro contato com ela foi muito difícil, 

pois  são  muito  belicosos.  —  Ele  olhou  para  Edmund  e  sorriu.  —  E,  quando 

voltarmos, meu caro amigo, será tempo de planejar o seu retorno à civilização a fim 

de preparar aquele relatório pelo qual estamos todos ansiosos. 

Edmund  acendeu  um  cigarro  e  inalou  a  fumaça  com  calma  antes  de 

responder: 

— Ainda não resolvi se quero ou não voltar para Londres. Pela primeira vez 

em minha vida estou próximo do que sempre desejei: viver com simplicidade, junto à 

natureza.  —  Ele  deu  uma  longa  tragada  e  ficou  observando  os  anéis  de  fumaça 

saindo  de  sua  boca.  —  Em  várias  ocasiões,  principalmente  na  ilha  do  Bananal, 

pensei estar vivendo num paraíso terrestre. 

—  Ah,  não!  —  discordou  Luís  com  um  sorriso  nos  lábios.  —  O  verdadeiro 

paraíso  você  verá  quando fizer  a  viagem  de  barco  até  o  Posto Leonardo e  depois 

quando forem à aldeia de que lhes falei. Será uma segunda lua-de-mel para vocês 

dois.  E  agora,  Nancy,  sugiro  que  vá  para  a  cama  porque  amanhã  sairemos  de 

madrugada. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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Embora relutasse em deixá-los a sós, temendo que Edmund persuadisse Luís 

a mandá-la de volta, Nancy foi vencida pelo cansaço. Disse um boa-noite a todos e 

atravessou  o  pátio  calmamente,  sob  o  clarão  da  lua  cheia,  cujo  brilho  intenso 

dispensava o uso de lanternas. 

O pequeno quarto, iluminado apenas pela luz fraca de uma luminária presa na 

parede,  ainda  estava  quente  e  abafado,  devido  ao  calor  do  dia.  Antes  que  ela 

tivesse  tempo  de  se  preparar  para  dormir,  as  luzes  do  galpão  apagaram-se, 

fazendo-a  supor  que  alguém  havia  desligado  o  gerador.  Deitou-se  rapidamente, 

mas, apesar da exaustão, não conseguiu dormir. Lembrou-se das palavras de Luís: 

"Uma  segunda  lua-de-mel!"  Que  chances  teria  de  ter  uma  segunda  lua-de-mel  ao 

lado  de  Edmund?  Aqueles  meses  de  separação  haviam  criado  um  abismo  entre 

eles, tornando quase impossível uma reconciliação. 

Calculou  mentalmente  o  tempo  de  convivência  com  seu  marido:  apenas 

quatro  meses  em  dois  anos  e  meio  de  casados!  Talvez  por  este  motivo  o 

conhecesse tão pouco. Mas teria alguma vez se esforçado para isso? Não. Tinha de 

admitir  a  si  mesma  que  esta  fora  uma  falha  imperdoável  de  sua  parte.  Em  todo  o 

tempo em que estiveram juntos, jamais tentara uma aproximação maior. Para ela, tê-

lo  a  seu  lado  era  suficiente.  Bastava  que  ele  voltasse  para  casa  depois  de  suas 

viagens e que fizessem amor todas as noites. Nada mais parecia importante! 

A  primeira  vez  em  que  Edmund  a  tratara  com  aspereza,  ou  demonstrara  o 

lado  violento  de  sua  personalidade, fora  tola  o  bastante  para fugir  dele  como  uma 

criança imatura. Nem ao menos lhe dera uma chance para explicar o motivo daquele 

comportamento incompreensível. 

Entregue a seus pensamentos, Nancy assustou-se quando o marido entrou. 

Tateando no escuro, ele procurou uma vela e, depois de acendê-la, foi ao banheiro, 

de onde saiu pouco depois. 

Nancy ouviu-o despir-se antes de se deitar, sentindo uma vaga      ansiedade 

ao notar que ele acendera um cigarro. 

Por  alguns  momentos,  nenhum  dos  dois  ousou  falar.  Na  calada  da  noite, 

apenas o coaxar dos sapos e o ruído estridente dos grilos lá fora quebrava o silêncio 

que reinava no quarto. 

— Nancy! — sussurrou ele por fim — está acordada? 
— Sim. 
— Por que pediu a Luís para não me contar sobre a sua vinda para cá? 
Nancy umedeceu os lábios subitamente secos. Gostaria de ter coragem para 

contar-lhe toda a verdade, no entanto, sentia-se insegura. Tinha medo de irritá-lo e 

de ser rejeitada. 

— Bem, eu... eu achei que você partiria daqui se soubesse da minha vinda. 
— E isto faria alguma diferença? 
—  Acredito  que  sim.  Há  muitas  pessoas  dependendo  da  conclusão  da  sua 

pesquisa para a O.S.P.P. 

De fato, Nancy não estava mentindo. Antes de deixar a Inglaterra tivera uma 

entrevista com o presidente da organização para a qual Edmund estava trabalhando. 

Ele lhe dissera que, de maneira alguma, Edmund poderia ser perturbado ou persua-

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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dido a interromper seu trabalho junto às tribos brasileiras. E contava com o apoio de 

Nancy para convencer Edmund, assim que ele terminasse a pesquisa, a voltar para 

Londres o mais breve possível e apresentar os relatórios. No entanto, Edmund não 

se convencia. 

— Tem certeza de que é só por este motivo? 
— Mas é claro! Eles precisam do seu relatório o mais breve possível. 
—  Entendo. Já estou providenciando para que o recebam dentro do tempo 

combinado. 

— Então não pretende voltar para a Inglaterra?! 
— Não, se eu puder evitá-lo. 
Ela não conteve seu desapontamento. 
— Mas você precisa, Edmund! 
— Ora! Preciso por que? 
— Para expor o seu trabalho. 
— Posso perfeitamente enviá-lo pelo correio. 
Aflita,  Nancy  sentou-se  na  cama,  procurando  dar  maior  ênfase  às  suas 

palavras. 

— Não seria a mesma coisa e você forçosamente tem que concordar comigo! 

Haverá maior impacto se você levá-lo pessoalmente a Londres, e foi o que sr. Tyson 

me pediu para dizer-lhe. 

— Psiu! Fale mais baixo, as paredes são muito finas. Manuel e Rita poderão 

nos ouvir no quarto ao lado. 

— Pois que ouçam! — irritou-se, abaixando a voz de qualquer forma. — Por 

que não quer voltar para Londres? 

—  Não  vejo  nenhuma  razão  para  isso.  Não  há  nada  me  esperando  na 

Inglaterra, ao passo que aqui sinto-me útil, posso trabalhar no que gosto. E, o que é 

mais importante, tenho condições de fazê-lo sem precisar ser pago para isso. 

Nancy caiu num silêncio profundo, fechando os olhos como se acabasse de 

ser  atingida  por  um  punhal.  Lágrimas  de  tristeza  rolaram  por  suas  faces  e  ela 

mordeu  os  lábios  para  abafar  um  soluço  de  desespero.  Não  havia  nada  à  espera 

dele na Inglaterrra... Como podia ser tão cego? Nem ao menos se lembrava de que 

tinha uma esposa que ainda o amava.  

— Ah, a propósito — disse ele com voz sonolenta —, pedi a Luís para levá-la 

de volta a Brasília mas, sabe-se Deus por que, ele se recusou. Não tive coragem de 

dizer-lhe que nenhum de nós está interessado numa segunda lua-de-mel — Ele deu 

uma  breve  risada.  —  Você  já  imaginou  quanta  ironia,  Nancy?  Nós  nem  sequer 

tivemos a primeira! Boa noite. 

Nancy  não  conseguiu  dormir  logo.  Atormentada  por  um  sentimento  de 

rejeição,  rompeu  num  choro  convulsivo,  abafando  os  soluços  sobre  o  travesseiro, 

com medo de que Edmund a ouvisse. Depois de rolar na cama por quase uma hora, 

decidiu tomar um tranquilizante que trouxera consigo. Despiu a camisola e deitou-se 

nua sob o lençol, numa tentativa de aliviar o calor intenso e sufocante. Aos poucos 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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foi se  libertando da  angústia e em pouco tempo mergulhou num sono profundo até 

o dia seguinte. Com grande esforço Nancy abriu os olhos devagarinho ao perceber 

que Edmund a sacudia, tentando acordá-la. Num gesto inesperado, ele puxou-lhe o 

lençol, provocando sua reação imediata. Lembrando-se de sua nudez, ela se cobriu 

rapidamente, olhando-o irritada. 

— Por que fez isso? 
—  Foi  a  única  maneira  de  acordá-la.  Lembre-se  de  que  temos  um 

compromisso  hoje,  por  isso  é  melhor  levantar-se  e  arrumar  sua  mala.  —  Ele  se 

inclinou sobre ela e a olhou bem nos olhos. — Você estava dormindo pesadamente, 

e parece que está meio tonta... Andou tomando algum remédio? 

— Sim. Estava com dor de cabeça e não conseguia dormir.  
— Costuma tomá-los sempre?   
— Às vezes, quando tenho insônia. 
Ele olhou para o vidro sobre o criado-mudo e, sem dizer nada, segurou-lhe o 

pulso com um ar preocupado. 

O suave toque daqueles dedos causou-lhe uma sensação deliciosa. Estavam 

tão próximos um do outro, que bastava estender os braços e puxá-lo de encontro a 

si  para  sentir-lhe  o  calor  do  corpo  viril  e  sensual.  Estremecendo  de  forma 

incontrolável,  Nancy  puxou  a  coberta  até  o  pescoço,  tentando  afastar  aquela  peri-

gosa tentação. 

— O que há agora? — ele perguntou, notando que ela se esquivava. 
— Na... nada — respondeu Nancy com a voz lânguida. 
—  Está  se  comportando  como  se  nunca  tivesse  sido  examinada  por  um 

médico antes — comentou ele com um sorriso irônico. 

— Ora!... Eu estou ótima, dr. Talbot. Não se atreva a dizer o contrário a Luís! 
Ele a olhou fixamente enquanto lhe tomava o pulso. 
— Suas pulsações estão lentas, mas isso é natural depois de ter tomado esse 

calmante.  Cuidarei  para  que  não  faça  mais  esse  tipo  de  loucura  —  avisou  ele, 

enquanto lia a bula do remédio. — De quem é a receita? 

— De um médico, em Londres. 
— Por que motivo? Esteve doente?! 
— De uma certa forma, sim. 
— Não estou entendendo. Esteve ou não?! 
— Não importa. De qualquer maneira não pretendo mesmo contar a você. 
— Mas vai. Vamos, diga logo. 
— E por que eu deveria? Você nunca me conta nada a seu respeito, qual o 

motivo  desse  seu  interesse  por  mim  agora?  É  de  origem  profissional  ou  porque  é 

meu marido? 

Ele  exitou  por  alguns  momentos  com  um  olhar  enigmático,  mas  o  queixo 

cerrado denunciava sua tensão. 

— Esteve doente recentemente?  

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— Não vou lhe contar. 
A  obstinação  de  Nancy  criou  um  clima  desagradável  entre  ambos. 

Permaneceram  calados  durante  alguns  minutos,  avaliando-se  em  silêncio  como 

duas  feras  prontas  a  se  atracarem.  Edmund  por  fim  levantou-se,  dirigindo-se  ao 

banheiro. 

— Muito bem. Faça como quiser, mas estas pílulas você não tomará mais. 
Antes que Nancy tivesse tempo de impedí-lo, jogou-as todas fora e atirou o 

vidro na cesta de lixo. 

— Oh, seu monstro prepotente! Você não tinha o direito de fazer isto comigo! 
Ignorando-a  por  completo,  ele  pegou  a  valise  de  Nancy  e  despejou  todo  o 

conteúdo sobre a cama. 

— Vejamos se trouxe mais alguma... 
— Não! Apenas comprimidos contra febre amarela! — gritou Nancy; sem se 

importar que Rita ou Manuel a ouvissem. 

Impassível, Edmund continuou vasculhando cuidadosamente seus pertences, 

desdobrando peça por peça. 

— Olhe o que você fez! Droga! Amassou todas as minhas roupas! 
—  Poderá  arrumá-las  depois  do  café.  Agora  vamos,  e  não  se  esqueça  de 

calçar suas botas! Jamais vá a parte alguma sem elas! 

— Nunca imaginei que pudesse ser tão prepotente e arrogante! 
—  Pois  agora  já  sabe.  Aliás,  eu  também  desconheço  muitas  coisas  sobre 

você. Quem sabe esses próximos dias juntos não possam ser interessantes? Afinal, 

teremos  a  oportunidade  de  descobrir  muito  a  respeito  um  do  outro.  Agora  venha, 

vamos tomar nosso café da manhã antes que acabe. 

Indignada, Nancy seguiu-o através do pátio. Devia ter chovido muito naquela 

noite, pois o chão se achava coberto de poças de lama, de onde a neblina branca se 

dispersava sob o calor do sol já quente àquela hora da manhã. Araras e periquitos 

no madeirume do galpão emitiam sons estridentes, num matraquear incessante. Não 

havia porém o menor sinal de Rita,Manuel ou Luís. 

— Pensei ter ouvido Luís dizer que sairíamos de madrugada — disse Nancy, 

sentando-se à mesa. 

—  Então  será  daqui  a  umas  quatro  ou  cinco  horas.  Se  você  fosse  uma 

brasileira, não se espantaria tanto! Aqui na selva não há horário para nada... Não há 

trem ou ônibus para nos fazer correr. Tenho a impressão de que estes dias no Brasil 

farão  muito  bem  a  você.  Pelo  menos  não  precisará  mais  tomar  aqueles 

tranqüilizantes para diminuir essa sua tensão tão evidente. 

Nancy irritou-se. Se Edmund tivesse idéia do que originara essa tensão... A 

preocupação quanto à saúde dele e a angústia causada por aquela separação eram 

motivos suficientes para ficar nervosa. 

— Mudou de opinião, então? Ontem, queria que eu fosse embora... 
— Isto foi ontem, hoje eu penso diferente. Você está aqui, vamos viajar juntos 

e não há nada que eu possa fazer para mudar os planos. — Ele deu de ombros e 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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sorriu para ela. — Seja o que Deus quiser! 

Era a primeira vez que o via sorrir tão espontaneamente desde que chegara, 

e Nancy sentiu uma emoção indescritível. 

— Trouxe uma camisa de manga comprida? — perguntou ele gentilmente. — 

O barco no qual viajaremos não possui abrigo de proteção, por isso será preferível 

sentir um pouco de calor do que expor-se ao sol durante tantas horas. 

Que homem mais contraditório! Ele não a desejava ali, no entanto mostrava-

se preocupado com seu bem-estar como se isso fosse algo de sua responsabilidade, 

pensou ela, fitando-o longamente. 

Era incrível como a vida na selva acentuara ainda mais os traços marcantes 

do  rosto  dele.  Parecia  mais  maduro  e  sábio,  porém  também  mais  triste.  Sim,  era 

isso! Enfim conseguira definir a mudança sutil que vinha observando nele desde que 

o vira! Era a mesma expressão de tristeza que havia também no semblante de Luís. 

Qual  seria  a  causa?  O  convívio  com  aqueles  povos  primitivos,  despojados  de  sua 

cultura e de suas terras pelos homens brancos? Ou o trágico acidente com o avião 

no  qual  perdera  seus  companheiros?  Ou  o  principal  motivo  teria  sido  a  morte  de 

Ingrid? 

— Onde fica a ilha do Bananal? — indagou ela, distraidamente. 
— A leste daqui. É a maior ilha fluvial do mundo; fica no meio do rio Araguaia. 

Aliás, ela é maravilhosa! 

— O paraíso terrestre? 
— Talvez um dos lugares mais bonitos que conheci. Morar lá significa estar 

totalmente  isolado  do  resto  do  mundo.  Não  há  vôos  regulares  ou  rádios  de 

comunicação. O tempo perde todo o significado... 

— Ingrid também pensava como você? 
—  É  provável  que  sim  —  ele  respondeu,  estranhando  aquela  pergunta.  — 

Embora eu nunca a tenha ouvido falar sobre isso. 

— Como era ela? — perguntou Nancy num impulso. 
—  Que  diferença  faz  para  você?  Ou  será  que  você  tem  ciúmes  de  uma 

pessoa que já morreu? 

Totalmente  desprevenida,  Nancy  sentiu  as  faces  corarem  diante  do 

comentário sarcástico de Edmund. Não pretendia deixar transparecer seu interesse 

pela pessoa de Ingrid. E muito menos o seu ciúme. 

— Muito bem, se quer mesmo saber, vou lhe contar tudo sobre essa moça — 

Edmund  resolveu,  notando  o  embaraço  de  Nancy.  —  Ingrid  era  do  tipo  mignon,  e 

muito delicada. Seus cabelos eram curtos, mas uma mecha sobre a testa obrigava-a 

a jogá-los constantemente para trás. Esse gesto lhe era muito peculiar, e se tornava 

mais  repetitivo  quando  ela  estava  excitada.  Seus  olhos  castanhos  enormes 

possuíam  um  brilho  especial  de  ternura  e  bondade.  Os  dentes  muito  brancos 

estavam  sempre  à  mostra,  num  sorriso  largo  e  franco.  —  Ele  se  interrompeu  por 

alguns instantes, cobrindo o rosto com as mãos, e depois murmurou suavemente. — 

Ela era bonita em todos os sentidos. Neil e eu a amávamos. 

Nancy sentiu o mundo desabar sobre si. Com as mãos trêmulas, pegou um 

cigarro e levou-o à boca sem acendê-lo. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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—  Era  o  que  você  desejava  saber,  não  era?  —  indagou  ele  riscando  um 

fósforo. — Como aconteceu uma vez com Marsha. Bem, agora você já sabe que eu 

amava  Ingrid,  assim  como  todos  os  que  conviveram  com  ela.  Isto  não  significa, 

contudo, que tivemos um caso de amor. Muito pelo contrário, nosso relacionamento 

foi de uma amizade muito pura, num clima de trabalho e cooperação. Além disso, ela 

era  doze  anos  mais  velha  do  que  eu.  Está  satisfeita  ou  ainda  está  imaginando 

coisas? 

— Minha imaginação não é muito maior que a sua. Certa vez você me acusou 

de o estar traindo com Peter. Lembra-se? 

— O que, ainda hoje, pode muito bem ser verdade. O que você não sabe é 

que  eu  tive  provas  para  fazer  as  minhas  deduções.  Vi  vocês  dois  prestes  a  fazer 

amor... 

— O quê?!... Este é o maior absurdo que já ouvi! 
— Ah, é? Então me diga, o que faziam vocês dois juntos no sofá, numa sala 

praticamente às escuras?! 

— Eu ia explicar-lhe tudo naquele dia, mas você não quis me ouvir! 
— Ouvir o que? Seu "amiguinho" me fez um relatório completo da relação de 

vocês. 

— Peter?! 
— Sim, ele mesmo. Fui vê-lo mais tarde para saber se ele tinha alguma idéia 

de  onde  você  se  encontrava.  Pareceu-me  surpreso  e  ao  mesmo  tempo  satisfeito 

com  a  minha  pergunta.  Sugeriu  que  tivéssemos  uma  conversa  civilizada  e  fez-me 

ver  que  o  nosso  casamento  havia  sido  um  erro  desde  o  começo.  Não  tive  outra 

alternativa  a  não  ser  concordar  com  ele,  pois  sempre  soube  que  o  meu 

temperamento livre e sem raízes não condizia com um compromisso mais profundo. 

— E isso foi tudo? 
— Não. Peter me falou que você estava infeliz. 
— E você acreditou nele?! Oh, Edmund, como pôde?! 
—  Não  foi  difícil  depois  do  que  houve  entre  nós  no  apartamento.  Você  me 

tratou  como  se  eu  fosse  um  estranho  e  não  seu  marido.  Mesmo  depois  de  ter 

passado  quase  um  mês  longe,  convivendo  com  uma  tragédia  horrorosa,  jamais 

pensei em traí-la. Fui fiel nas duas vezes em que me ausentei. No entanto, de que 

adiantou tudo isso? Em troca, recebi apenas a sua desconfiança e o seu desprezo. 

— Você  parecia  tão enfurecido  que  eu  fiquei  apavorada. Nunca o havia 

visto  assim!  —  Ela  se  defendeu,  pensando  que  possivelmente  não  estariam 

separados agora se tivessem conversado com calma, quinze meses atrás. 

— Naquela época, senti-me no pleno direito de ficar zangado. — Ele deu um 

sorriso amargo. — Sabe, talvez aquela tenha sido a primeira vez em minha vida que 

agi de uma forma tão convencional, ou seja, a clássica reação do marido traído que 

chega em casa e encontra a esposa nos braços do amante. 

— Peter não era meu  amante!  — ela  protestou  com  veemência. 
— Segundo o que ele me disse, sim. 
— É  mentira! Jamais houve nada entre nós, Edmund. Saí com Peter algumas 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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vezes,  é  verdade,  rnas  porque  ele  me  garantiu  ter  sido  você  quem  lhe  pediu  para 

que tomasse conta de mim. 

— Talvez eu lhe tenha dito casualmente para cuidar de você, mas não para 

tomar o meu lugar ao seu lado. Quando estive na Indonésia não me importei muito 

com  as  saídas  de  vocês  porque  confiava  nele  e  em  você.  De  repente,  me  vi 

envolvido  numa  situação  muito  traumatizante  para  mim.  —  Ele  a  fitou  seriamente 

através da mesa. — Vi meu pai passar pela mesma situação duas vezes. 

— Você quer dizer que... sua mãe?! Eu não sabia... 
— É evidente. Jamais lhe falei a respeito. 
— O que foi uma pena, porque talvez eu tivesse compreendido melhor a sua 

reação. De qualquer forma, Peter fez muito mal em dizer-lhe que eu estava infeliz. 

Sabe por que ele chegou a essa conclusão? 

— Bem, ele me disse que você esperava bem mais de um casamento do que 

o  que  eu  podia  lhe  oferecer.  Disse  ser  o  tipo  de  marido  ideal  para  você:  estaria 

sempre a seu lado, compraria uma linda casa com jardim e teriam muitos filhos. Não 

imagina que belo discurso! Quando terminou, eu estava convencido de ter cometido 

um  pecado  casando-me  com  você.  Portanto,  sumi  da  sua  vida  para  não  torná-la 

ainda mais infeliz. 

—  Peter  não  tinha  esse  direito.  Como  pôde  acreditar?!  Por  que  foi  embora 

sem me avisar, Edmund?! 

Ele deu um sorriso sarcástico. 
— Eu a abandonei, minha querida. Peter não lhe falou a respeito? A idéia era 

tornar  as  coisas  mais  fáceis  para  que  você  conseguisse  o  divórcio.  —  Ele  se 

levantou,  impaciente. —  Preciso  ir  até  à  enfermaria  ver  alguns  pacientes  antes  de 

partirmos. Acho melhor você arrumar suas malas antes que Luís apareça. 

Nancy serviu-se de mais uma xícara de café, enquanto observava Edmund se 

afastar.  Agora  ela  sabia  o  verdadeiro  motivo  do  seu  abandono.  Peter,  o  melhor 

amigo dele, o havia envolvido num emaranhado de mentiras e intrigas, nas quais ele 

acreditara  piamente.  Mas  Peter  não  era  o  único  responsável  por  Edmund  tê-la 

deixado.  Tinha  plena  consciência  de  que  Edmund  não  teria  sido  tão  facilmente 

ludibriado se ela não o tivesse deixado naquela noite. 

Nancy cobriu o rosto com as mãos, numa atitude de desespero e remorso. Se 

ao  menos  pudesse  voltar  atrás...  Se  houvesse  se  mostrado  mais  amorosa,  mais 

compreensiva... Se, ao invés de ficar amedrontada... Se... se... Droga! Lá estava ela 

se lamentando, quando deveria criar coragem e tomar uma atitude. 

O  que  fazer?  Como  mostrar  a  Edmund  o quanto  já  sofrera  culpando-se  por 

aquela separação? Como aproximar-se dele, quando tudo a fazia crer que Edmund 

não  a  amava  mais?  E,  por  fim,  como  desfazer  a  trama  maldosa  arquitetada  por 

Peter? De uma coisa estava certa: amava-o e tinha que lutar por ele! 

—  Como  é  Nancy,  já  está  pronta?  —  perguntou-lhe  Luís,  que  acabava  de 

entrar acompanhado de Manuel. 

Ela estremeceu, assustando-se com a chegada de ambos. 
— Quase. É só um minuto... 
—  Traga  pouca  roupa  e  não  se  esqueça  de  deixar  o  restante  trancado. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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Mandarei Jekaro ajudá-la a levar sua bagagem para o barco. 

 
CAPITULO V 
O  barco,  que  viajava  rio  acima, embora  tivesse  dez  metros  de  comprimento 

dava a impressão de ser pequeno nas curvas largas do rio. O motor de centro ficava 

protegido por um teto de madeira sustentado por quatro grandes esteios, dando um 

aspecto antigo à embarcação. A impressão era de um passeio de domingo, e não de 

uma  viagem  de  trabalho.  Na  cabine,  além  de  dois  bancos  para  passageiros, 

encontravam-se a bagagem e algumas caixas de remédio destinadas à enfermaria 

do Posto Leonardo. 

Cansadas  de  ouvirem  as  conversas  de  seus  respectivos  maridos  sobre 

antropologia,  Nancy  e  Rita  resolveram  aproveitar  o  espaço  sobre  o  abrigo  para 

admirar a paisagem. Enquanto isso, Manuel, Jekaro e Mejai se revezavam entre o 

timão e a observação de bancos de areia submersos. 

Nancy usava um chapéu de palha com abas largas para proteger-se do sol, 

ao  qual  ainda  não  se  acostumara,  e  trazia  à  mão,  como  sempre,  sua  máquina 

fotográfica  e  o  caderno  de  notas.  Rita  vestia  um  short  de  náilon  e  uma  camiseta 

amarela bem cavada, deixando à mostra a pele bronzeada e já curtida pelos raios 

solares. 

—  Olhe  que  curioso,  Rita!  Quando  passamos  por  aquele  afluente,  a  água 

mudou de marrom-claro e transparente para turva e embarrada. Você sabe por quê? 

— Existem dois tipos de rios na selva. Este em que estamos navegando, mais 

esverdeado, contém maior número de parasitas e insetos transmissores de doenças 

do  que  o  outro.  O  perigo  de  contrair  malária  se  torna  maior,  por  isso  é  bom  não 

esquecer de tomar seu remédio todos os dias. 

— Ainda bem que você me lembrou. Está em minha bolsa. 
—  Daqui  a  pouco  Jekaro  fará  um  cafezinho  bem  brasileiro,  e  então  poderá 

tomar o remédio. Mas... não acha uma delícia deslizar tão suavemente na água? 

— Você tem razão. Nem parece que estamos navegando contra a correnteza! 
Também  era  agradável  ver  a  paisagem  repleta  de  árvores  com  grossos 

troncos  e  a  infinidade  de  nuances  verdes  que  tingiam  a  água  do  rio  com  seus 

reflexos. Em alguns lugares, as margens tornavam-se barrancos de terra vermelha 

formando  manchas  carmesim.  Nas  regiões  onde  o  rio  se  alargava,  era  comum 

aparecerem  bancos  de  areia,  onde,  cintilando  como  jóias,  enxames  de  borboletas 

dançavam, incansáveis. Preguiçosos jacarés aqueciam-se estáticos ao sol, mas, ao 

ouvirem  a  aproximação  do  barco,  arrastavam-se  indolentemente  para  dentro  da 

água.  Martins-pescadores  voavam  de  galho  em  galho,  e  garças  brancas,  com  seu 

pescoço curvo, planavam em longos vôos pelo céu azul. 

Apesar do calor, Nancy sentia-se bem, dentro das calças compridas e camisa 

com mangas, pois sua pele, muito sensível, não suportaria as queimaduras do sol, 

apesar dos cremes protetores. Ali, sem nada a fazer, e fascinada por aquela beleza 

natural,  ela  mergulhava  numa  calma  incrível!  Mas  logo  o  calor  tornou-se  in-

suportável, obrigando-a a resguardar-se na cabine. Entretanto, o barulho do motor e 

o  cheiro  de  óleo  queimado  deixaram-na  enjoada.  Luís  e  Edmund  tiravam  uma 

soneca  tranqüilamente,  estirados  nos  bancos.  Ela  resolveu  não  incomodá-los, 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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voltando para a companhia de Rita com a ideia agradável de nadar na convidativa 

água fresca do rio. 

Naquele  exato  momento,  o  motor  do  barco  começou  a  tossir,  parando  de 

funcionar  em  seguida.  Manuel  destampou-o  para  examinar  as  velas  e  esvaziar  o 

carburador,  e  o  barco  foi  lentamente  arrastado  pela  correnteza,  tornando  a 

temperatura ainda mais sufocante. 

— Não podemos nadar, Edmund? 
— Aqui não. Esta água ferve de piranhas — respondeu Luís, escutando-a de 

longe. 

—  Mas  elas  somente  mordem  quando  sentem  cheiro  de  sangue  — 

argumentou  Edmund. — Em Bananal costumávamos nadar em rios infestados por 

elas. 

—  Escute,  meu  amigo,  enquanto  estiverem  sob  minha  responsabilidade, 

ninguém entrará na água! 

— Muito bem, mas então o que fazemos? Rita e eu estamos mortas de calor! 
— Nancy, por  que não vestimos nossos maiôs e pegamos água do rio com 

uma vasilha? 

— Que idéia maravilhosa! 
Com a ajuda de uma lata arranjada por Manuel, as duas moças jogavam água 

fresca  uma  na  outra,  aliviando-se  do  calor  infernal.  Depois,  comeram  com  muito 

mais  apetite  o ensopado feito  com  carne  seca  e mandioca  cozida.  De  sobremesa, 

tiveram goiabada caseira e o café adocicado de Mejai. 

Finalmente,  o  motor  reiniciou  sua  batida  compassada  e  a  marcha  foi 

retomada.  Decidida  a  arriscar-se,  Nancy  espalhou  bronzeador  sobre  sua  pele,  na 

esperança  de  adquirir  o  bonito  tom  moreno  de  Rita.  Nesse  momento  ouviu  seu 

nome. — Nancy! Sobressaltada por aquele chamado, abriu os olhos e viu Edmund. 

— Vista depressa suas roupas ou vai se arrepender! Não sabe que pode até 

ficar  com  desidratação?  Onde  está  seu  bom  senso?  Será  que  preciso  dizer-lhe  a 

todo instante o que fazer, como a uma criança desmiolada! 

Nancy tentava entender o motivo daquele comportamento hostil pois, além de 

lhe jogar farpas, num gesto de mau humor, ele a encarou fria e duramente sob a aba 

do surrado chapéu de palha, com aqueles olhos tão azuis. Toda paz de espírito que 

a  envolvera  durante  o  agradável  passeio  subitamente  desapareceu,  dando  lugar  à 

depressão!  Farta  de  ser  tratada  como  se fosse  uma  criança,  Nancy  vestiu-se  com 

gestos bruscos e raivosos, desabafando: 

—  Alguém  lhe  pediu  para  fazer  alguma  coisa  por  mim?  Posso  muito  bem 

cuidar  de  minha  vida  sozinha!  Tenho  plena  consciência  de  seu  horror  à 

responsabilidade... pelo menos, este tipo de responsabilidade! Esta é uma razão por 

que não queria se casar, não é? Tinha medo de um compromisso mais sério, de ter 

que zelar por outra pessoa que não fosse você mesmo! Que grande corajoso! 

—  Puxa...  até  que  enfim  você  entendeu!  Pena  não  tê-lo  feito  antes  de  se 

casar comigo. Realmente, fez uma péssima escolha, pois, embora eu tenha tentado 

me adaptar, nunca fui do tipo caseiro. 

— Viajando para lugares distantes, sem ao menos me mandar notícias?! Foi 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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assim que você tentou se adaptar? 

— Apenas faço o trabalho para o qual nasci e fui treinado: ajudar a resolver 

os problemas de pessoas necessitadas. Esperava que você, mais do que ninguém, 

pudesse  me  compreender.  Afinal,  seu  próprio  pai  levava  essa  espécie  de  vida, 

também viajava, passando muito tempo longe. 

—  Esqueceu-se  de  acrescentar  que  minha  mãe  o  acompanhava  sempre, 

mesmo após o meu nascimento. 

—  Por  isso  morreu  de  uma  febre  desconhecida,  contraída  nas  selvas  do 

Congo. 

— Quem lhe contou?! 
—  Marsha  comentou  comigo,  naquele  dia  em  que  nos  conhecemos.  Disse 

mais ainda: que a selva não é lugar para mulheres, culpando seu pai pela morte da 

irmã. 

—  Marsha  o  odiava!  Costumava  dizer  que  ele  sacrificava  mamãe  com  seu 

idealismo louco. 

—  Consciente  da  minha  maneira  de  viver,  jurei  a  mim  mesmo  jamais  dar 

motivo para uma acusação semelhante. 

Nancy  ficou  pensativa,  observando  o  movimento  da  correnteza  com  seus 

redemoinhos  assustadores  em  meio  às  águas  barrentas.  De  repente,  bandos  de 

papagaios  e  maritacas  cruzavam  o  rio,  procurando  o  aconchego  de  uma  árvore 

frondosa  para  descansar.  A  tarde  caiu  e  o  céu  inteiro  incendiava-se  como  uma 

enorme labareda. Fogo semelhante ardia no íntimo de Nancy, ao desabafar: 

— Pelo menos meu pai amava tanto minha mãe que lhe permitia tomar suas 

próprias decisões. Jamais tive esta chance! 

Estavam  sentados  tão  próximos  um  do  outro  que  Nancy  pôde  senti-lo 

estremecer sob o impacto de suas palavra. 

— Está querendo dizer que não a amo?! Que nunca a amei? 
— É isso mesmo! — suspirou ela, ansiando intimamente que ele contestasse 

aquela dolorosa afirmação. 

—  Então,  pode  me  explicar  por  que  ainda  está  casada  comigo?  Pois  se 

acredita mesmo num absurdo desses, devia ter se divorciado de uma vez e não ter 

vindo até aqui para me ofender — disse Edmund, com voz trêmula de ódio. 

Uma bofetada teria doído menos do que aquelas palavras pronunciadas com 

tanto desprezo. 

Incapaz  de  conter  as  lágrimas,  Nancy  deixou  escapar  um  soluço.  Naquele 

instante, Mejai, para sua sorte, gritou algo de seu posto de observação, desviando a 

atenção de Edmund sobre ela. Jekaro girou o timão, alterando o curso do barco, até 

colocá-lo de frente para a baía apontada por Mejai. Aqueles poucos segundos foram 

suficientes para que Nancy se recuperasse e pudesse enfrentar o homem enfurecido 

bem à sua frente. 

— Estou aqui exclusivamente porque Ben mandou-me fazer uma reportagem, 

lembra-se? Não tenho culpa se você não suporta minha presença! Não espera que 

eu me afogue no rio, não é mesmo? Mas pode ficar tranqüilo que saberei muito bem 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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me cuidar sem a sua ajuda! 

Felizmente  os  óculos  escuros  impediam  que  Edmund  pudesse  ver  as 

lágrimas teimosas rolando-lhe pelas faces. Com o coração cheio de ódio e mágoa 

Nancy afastou-se dali, aproximando-se de Mejai. 

O  colorido  brilhante  do  pôr-do-sol  desaparecera  rapidamente;  minúsculas 

estrelas  pontilhavam  o  céu  escuro  e  uma  enorme  lua  dourada  brilhava!  A 

aproximação do barco mostrava a baía, muito maior do que se podia imaginar, vista 

de longe. Jekaro chegou com a embarcação o mais perto possível da terra e Mejai 

saltou para a praia, atando a corda de proa a um enorme tronco de jatobá. De três 

em  três,  os  passageiros  foram  levados  à  praia  na  canoa  que  viera  rebocada, 

carregando consigo somente os objetos mais necessários para passarem a noite. 

Enquanto  os  índios  limpavam  a  área  do  acampamento  com  um  facão  e 

amontoavam  a  lenha  para  as  fogueiras,  Luís,  Manuel  e  Edmund  penduravam 

diversas  redes  entre  as  árvores  mais  próximas.  Concluídos  os  primeiros 

preparativos,  Jekaro  retornou  ao  barco  para  pescar  alguns  peixes  para  o  jantar. 

Curiosa,  Nancy  o  seguiu  entusiasmada,  pois  nunca  tivera  oportunidade  de  pre-

senciar  uma  pescaria  à  noite.  Da  praia,  podia  vê-lo  colocando  a  isca  na  ponta  do 

anzol e atirá-lo na água. Passados alguns segundos, a linha esticou-se e Jekaro deu 

um  puxão  brusco,  fazendo-a  sibilar,  sinal  de  que  o  peixe  fora  fisgado.  Ele,  então, 

recolheu-o devagar. Preso ao anzol, um peixe, de forma arredondada e não muito 

grande,  debatia-se  na  tentativa  desesperada  de  escapulir.  Deixava  à  mostra  uma 

carreira de dentes pontiagudos, assustando Nancy. 

— Que peixe é este, tão furioso? — indagou ela a Edmund, que estava a seu 

lado. 

—  Uma  piranha.  Já  imaginou  se  aqueles  dentes  encontrassem  suas pernas 

embaixo  da  água?!  Elas  devoram  tudo  com  uma  rapidez  impressionante!  —  disse 

ele apenas para provocá-la e, em seguida, entrou na canoa. 

Nancy ficou ali, sozinha, na praia, contemplando a paisagem que surgia como 

se fosse um lindo quadro: a lua cheia com seus raios prateados refletidos na água e 

aqueles  dois  homens  eretos  sobre  a  canoa,  pescando  concentrados  e 

silenciosamente.  Homem  e  natureza  pareciam  integrados  numa  perfeita  e  sublime 

harmonia. 

—  Olá,  Nancy,  admirando  o  luar?  —  perguntou-lhe  Rita,  que  acabava  de 

chegar. — Não quer pegar um pouco de água para nós? Vou preparar um arroz para 

comer com o peixe. 

Mergulhando a vasilha que Rita lhe trouxera, Nancy observava alguns troncos 

escuros flutuando suavemente à sua volta nas águas rasas. Num movimento brusco, 

um  deles  avançou  em  sua  direção,  retrocedendo  em  seguida.  Instintivamente,  ela 

deu um salto para trás, jogou a vasilha na areia e ficou a observá-lo atentamente. Ao 

constatá-lo imóvel, achou estar imaginando coisas. Retomou a vasilha, afundando-a 

na água novamente. Desta vez, aquilo que parecia ser apenas um tronco atacou-a 

com violência. Horrorizada, Nancy gritou, quase caindo de costas, pois sem sombra 

de dúvidas tratava-se de um jacaré enorme, bem à sua frente! 

Jekaro  e  Edmund,  que  voltavam  da  pescaria  com  a  fieira  carregada  de 

peixes, largaram tudo imediatamente e correram até o acampamento para buscar a 

espingarda. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

43

— O que vão fazer? — perguntou Nancy apavorada. 
— Matá-lo, é claro! — respondeu Edmund irritado. — Não quer ver? 
Nancy  não  estava  bem  certa  se  teria  coragem  de  assistir  à  matança  do 

animal, mas, se pretendia escrever artigos emocionantes para sua revista, teria de 

prestar  atenção  a  tudo.  Embora  bastante  assustada,  correu  atrás  de  Edmund  em 

direção à canoa. No instante seguinte Jekaro a soltava. 

— Pegue depressa a lanterna e ajude-nos — ordenou  Edmund rispidamente. 
Seguindo as instruções dele e contagiada por sua excitação, Nancy movia o 

facho  de  luz  lentamente,  de  um  lado  para  outro.  A  finalidade  da  caça  era  obter 

comida,  à  maneira  primitiva  dos  índios,  por  isso  não  era  hora  para  sentir  pena  do 

animal. Pela primeira vez percebeu a importância da caça para os silvícolas.  

—  Lá  está  ele!  —  gritou  Edmund  apontando  na  direção  de  dois  faroizinhos 

vermelhos que cintilavam no rio. — Mantenha a luz sobre a cabeça dele, Nancy! 

Ela ouviu trêmula o clique da arma, a seguir a forte explosão do tiro. 
— Acertei-o bem no meio da testa! — exclamou Edmund, exultante. Depois, 

sem perder tempo, pegou um dos remos para ajudar Jekaro na difícil tarefa de remar 

contra a correnteza. 

Mais tarde, Edmund contou a Nancy que o jacaré afunda com rapidez quando 

é atingido, por isso fora necessário resgatá-lo rapidamente. Chocada, ela procurava 

auxiliá-lo sem queixar-se. Enquanto os dois homens uniam suas forças para içar o 

jacaré para dentro da canoa, conservava a luz diretamente sobre seus movimentos. 

Emitindo um grito de euforia, Jekaro externava seu contentamento como um garoto. 

Na  volta  dos  caçadores  ao  acampamento,  houve  uma  verdadeira  festa  em 

comemoração ao tiro certeiro de Edmund! Passada a euforia, Mejai se ocupou em 

limpar o jacaré, retirando sua pele cuidadosamente e temperando-o em seguida. 

O jantar estava sendo preparado em duas fogueiras. Enquanto as cebolas e 

os  tomates  assavam  numa  espécie  de  grade  de  metal  colocada  sobre  algumas 

brasas, os peixes, enfiados em espetos improvisados e fincados no chão, próximo 

ao fogo, exalavam um aroma delicioso. 

Exausta e ainda um pouco atordoada pela emoção da caçada, Nancy sentou-

se sobre uma tora, aguardando o jantar. 

—  Levante-se  rápido!  —  gritou-lhe  Edmund  no  mesmo  instante.  —  Esta 

madeira está cheia de formigas venenosas. 

Nancy deu um salto e, ao iluminar a tora com a lanterna, percebeu milhares 

de criaturinhas ferozes correndo nervosas de um lado para outro. 

—  Antes  de  sentar-se  em  algum  lugar,  é  bom  dar  uma  olhada,  primeiro!  — 

alertou  Edmund.  —  E,  caso  haja  formigas,  mantenha  os  pés  em  constante 

movimento para evitá-las. 

Com  um  simples  gesto  de  cabeça,  Nancy  concordou  irritada.  Ainda  não  se 

esquecera da maneira ríspida como ele a tratara no barco. Não ignorava ter muito 

que  aprender  sobre  como  se  comportar  na  selva,  porém  estava  decidida  a 

demonstrar-lhe ser bastante esperta. A exemplo da mãe, saberia como provar sua 

capacidade  de  absorver  tudo  o  que  fosse  necessário.  Talvez  assim  Edmund 

compreendesse o quanto desejava ficar a seu lado. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

44

Jantaram  rapidamente  e  o  peixe  grelhado  foi  a  refeição  mais  deliciosa  que 

haviam feito até então. Saciada a fome, o cansaço do dia transparecia nas feições 

abatidas  de  todos.  Luís  atirou-se  na  rede,  de  roupa e  tudo,  dormindo  de  imediato. 

Manuel  e  Rita  seguiram  caminhando  abraçados  pela  margem  do  rio,  ansiosos  por 

alguns  momentos  a  sós.  Aquela  visão  dos  dois,  enlaçados  com  tanto  carinho, 

despertou inveja em Nancy, que procurou localizar Edmund. Mas, com certeza, ele 

preferia ficar sozinho pois não o encontrava em parte alguma! 

Uma sensação de desamparo a invadiu. Não tinha com quem dividir alegrias 

e  tristezas,  por  isso  estava  melancólica.  Reduzida  à  solidão,  restava-lhe  apenas 

deitar-se e tentar conciliar o sono. Porém não conseguiu dormir com aquele cheiro 

de peixe nas mãos e o corpo melado pelo calor! 

 
Pegando  de  dentro  da  sacola  a  toalha  e  a  bolsinha  com  os  objetos  de  uso 

pessoal,  Nancy  caminhou  para  o  rio  em  direção  oposta  àquela  tomada  por  Rita  e 

Manuel. Levava consigo uma varinha, que ia balançando à sua frente para espantar 

possíveis cobras e outros animais rastejantes, seguindo o conselho de Edmund. Mas 

os sinistros sons noturnos da selva ao seu redor amedrontavam-na. O pio triste da 

coruja,  o  exército  de  insetos  com  seus  insistentes  zumbidos,  grilos  com  seu 

cricrilado  estridente  e  o  coaxar  das  rãs  e  sapos  compunham  as  mais  diversas 

melodias características da floresta! Outros sons ainda se ouviam e, como moça da 

cidade, ela não os identificava. Ao deparar com a luz prateada da lua, refletida sobre 

as  águas  do  rio,  esqueceu  seus  temores  para  contemplar  deslumbrada  aquele 

cenário maravilhoso!  

Tranqüilamente, aproximou-se até a beira da água, tirando a calça e a blusa. 

Hesitou um instante antes de livrar-se do maiô, mas conservou a bota de borracha. 

Afinal,  estava  na  selva.  E  ela  precisava  usufruir  dos  seus  prazeres,  apesar  dos 

perigos ao redor. Deu um passo indeciso, molhando somente as pernas. Após um 

dia  tão  quente,  a  água  estava  tépida,  mas  deliciosamente  refrescante.  Não 

conseguindo resistir a tal prazer, ela se ensaboou lentamente com uma calma vinda 

da serenidade da noite. Como não se entregar à sensação relaxante que o banho 

lhe  proporcionava?  Deliciada,  mergulhou  todo  o  corpo,  mantendo  unicamente  a 

cabeça acima da superfície. O movimento natural da correnteza tirou a espuma de 

sua pele e ela levantou os braços sobre a cabeça como se estivesse participando de 

algum  ritual  pagão  em  homenagem  à  lua.  Durante  alguns  instantes,  permaneceu 

parada, a face iluminada pelo luar, os seios pequenos enrijecidos numa oferenda de 

si própria. Percebeu, então, que seus instintos primitivos começavam a desabrochar. 

De  repente, a  lembrança  de  que  estava  só,  impossibilitada de partilhar  com 

alguém  a  beleza  repousante  do  lugar,  encheu  seus  olhos  de  lágrimas.  O  banho 

perdeu todo o seu encanto e Nancy resolveu voltar para o acampamento. 

Foi  quando  sentiu  alguma  coisa  roçando  em  sua  perna  e,  aproveitando  a 

claridade esmaecida da lua, viu milhares de peixinhos grudados em sua pele alva, 

como sanguessugas. Sacudindo o pé, desesperada, tentou livrar-se deles e subir o 

barranco liso e escorregadio, mas não conseguiu. Muito nervosa, procurou firmar-se 

na  terra  mole,  entretanto  seu  corpo  deslizava  novamente  para  dentro  da  água  a 

cada  vez  que  se  aproximava  da  margem.  Ainda  esforçando-se  para  erguer-se, 

Nancy pressentiu uma sombra longa e sinistra atrás de si. Em pânico, tentou galgar 

o  barranco,  mas  escorregou  mais  uma  vez.  Os  cabelos  caíram  sobre  a  testa, 

obscurecendo-lhe  a  visão  e,  subitamente,  o  terror  a  impedia  de  raciocinar. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

45

Respirando fundo, procurou acalmar-se até que, afinal, conseguiu firmar o pé. Mas, 

de novo, seu coração começou a bater descompassado no peito, quase explodindo: 

uma  outra  sombra  ameaçadora  destacava-se,  em  pé,  na  praia  enluarada.  Era  de 

alguém que a estivera observando esse tempo todo!  

— Quem está aí?! — perguntou tremendo de medo. 

—  Sou  eu!  O  que  pensa  que  está  fazendo?!  —  Edmund  respondeu-lhe 

rispidamente. 

O  som  daquela  voz  trouxe-lhe  conforto  imediato.  Pelo  menos  tinha  sido  ele 

quem a vira banhando-se nua, e não um outro qualquer. 

— Estava acabando de tomar um banho quando escorreguei do barranco — 

ela explicou, caminhando com dificuldade em direção ao marido. 

—  Você ficou  louca?!  Precisava  tomar  banho  a  essa  hora  e  ainda  por  cima 

nua? — ele repreendeu-a enquanto estendia a mão para ajudá-la. 

— Estava morrendo de calor e, além do mais, não pretendia demorar muito 

tempo.  Fiquei  nervosa  quando  apareceram  alguns  peixinhos  grudando  em  minhas 

pernas. 

— Peixinhos?! Você os viu?! Tem certeza de que não eram sanguessugas?! 

— exclamou ele, passando as mãos pelas pernas de Nancy. 

Ela arrepiou-se dos pés à cabeça. O toque tão familiar daquelas mãos fortes, 

percorrendo-a do tornozelo ao quadril, causava-lhe um efeito delirante. 

—  Pronto,  não  há  mais  nenhuma  —  disse  ele  calmamente.  —  Eu  estava 

vigiando você, pois já esperava alguma loucura de sua parte. 

— Há quanto tempo está aqui?! — quis saber Nancy, aparentemente irritada 

mas no fundo lisonjeada com a curiosidade de Edmund. 

— Pode estar certa de que adorei sua reverência à lua! Vi quando se afastou 

da clareira e como não voltava, resolvi seguí-la a fim de protegê-la. 

— Mas quanta gentileza... Muito obrigada. 
— Em vez de me agradecer, aprenda de uma vez por todas que não se pode 

andar  por  aí  sozinha,  num  lugar  como  esse,  principalmente  à  noite!  Não  podia  ter 

deixado o banho para o dia seguinte? 

Uma  sensação  de  cansaço  invadiu  Nancy.  Por  que  tudo  que  fazia  dava 

errado?  A  tentativa  de  provar  que  podia  viver  na  selva  tão  bem  quanto  ele  falira 

desde o início. 

—  Me  desculpe,  Edmund  —  murmurou  ela  aproximando-se  para  abraçá-lo, 

completamente esquecida da sua nudez. Ansiava por aquele corpo másculo contra o 

seu. Desejava-o com tal urgência e intensidade que esqueceu suas mágoas. 

Alheio aos sentimentos de Nancy, Edmund afastou-se, iluminando ao redor à 

procura  das  roupas  espalhadas  pela  margem.  —  Vamos,  vista-se  —  ordenou  ele 

jogando-lhe a blusa. O impacto daquelas palavras fez com que ela quase perdesse o 

equilíbrio,  mas  Edmund,  largando  a  lanterna,  amparou-a  rapidamente.  Assustada, 

agarrou-se à camisa dele, sentindo-a rasgar-se em suas mãos. Pôde, então, sentir o 

contato da pele cálida. O corpo inteiro de Nancy respondeu intensamente àquele to-

que  inesperado  e  delicioso.  Aos  poucos  sentiu  as  mãos  vigorosas  perderem  a 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

46

rigidez,  os  dedos  relaxarem,  acariciando  sensualmente  sua  pele  sedosa.  Mais  e 

mais  ele  explorava-lhe  as  curvas  até  alcançar  o  seio  rijo,  pressionando-lhe  as 

costas, para prendê-la junto a si. 

Numa ânsia incontida, Nancy tocou o peito másculo, afundando os dedos no 

cabelo espesso e ondulado. Levantou o rosto para o marido, os lábios entreabertos, 

num pedido mudo. 

—  Você  me  enlouquece  —  murmurou  ele,  beijando  a  boca  de  Nancy  com 

ardor. 

Envolvidos  numa  espécie  de  magia  causada  pelo  ambiente  selvagem  e 

primitivo, entregaram-se àquele abraço com sofreguidão. 

Subitamente  Edmund  separou-se  dela  com  violência,  rompendo  aquele 

momento sublime. Ao vê-la cambalear, apenas ajudou-a a firmar-se e, com os lábios 

cerrados e a respiração ofegante, explodiu furioso: 

—  Droga!  Vista  logo  esta  roupa  e  vamos  embora  senão  acabaremos 

devorados  pelos  insetos!  Não  poderia  ter  escolhido  um  lugar  pior  para  extravasar 

seu romantismo? 

— Não fui à única a ser romântica...! 
— Não comece a fazer deduções precipitadas! Foi apenas um momento de 

fraqueza,  muito  compreensível.  Desafio  qualquer  homem  com  sangue  nas  veias  a 

manter-se  impassível  quando  alguém,  como  você,  nua  ao  luar  se  joga  em  seus 

braços! 

—  Não  tente  pôr  a  culpa  só  em  mim,  Edmund!  Não  me  atirei  sobre  você... 

Apenas  queria...  Oh!  Por  que  é  tão  maldoso  e  cruel  comigo?  —  gritou  ela, 

exasperada.

  

— Em defesa própria, minha querida, uso todas as armas ao meu alcance. 

Não cometa o erro de ver algum significado no que aconteceu aqui esta noite. 

A  zombaria  feriu-a  profundamente,  como  uma  faca  tocando  o  centro 

sensível  de  uma  ferida  aberta.  Ela  estremeceu  agoniada  diante  de  tanta 

agressividade. 

 Por  que  insiste  em  se  defender  de  mim,  Edmund?  Por  que 

não podemos voltar a ser como éramos no início do nosso casamento? Fomos 

tão felizes! 

 Felizes  enquanto  tudo  corria  às  mil  maravilhas,  não  é  o  que  quer 

dizer? A realidade agora é outra, Nancy. Nós nos ferimos demais e isso leva 

tempo  para  ser  esquecido  e  perdoado  —  disse  ele  num  tom  de  mágoa, 

mantendo no olhar uma expressão fria e calculista. 

Nancy não ousou dizer mais uma só palavra. 
— Venha! — tornou Edmund. — Aqui neste lugar não há condições para 

discutirmos nosso relacionamento. Vamos dormir que é melhor, amanhã teremos 

um dia cansativo. E cuidado para não acordar os demais! 

Nancy pegou a toalha e o seguiu em silêncio. Um frio estranho percorria-

lhe  o  corpo,  e  suas  pernas  e  mãos  começavam  a  tremer  incontrolavelmente. 

Apertando os lábios com força, esforçava-se para não chorar,  pelo menos não 

na presença dele. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

47

Na  clareira,  o  fogo  crepitava  de  mansinho,  mantido  assim  apenas  para 

evitar  a  aproximação  dos  animais.  O  clarão  alaranjado  das  brasas  iluminava 

ligeiramente  as  redes  penduradas  entre  as  árvores,  e  as  duas  únicas 

desocupadas eram as mais afastadas. 

 O  ideal  é  conseguir  entrar  na  rede  por  baixo  do  mosqueteiro sem 

levar junto um exército de insetos — cochichou-lhe Edmund apressadamente. 

 Posso me trocar? — ela perguntou simplesmente, com apatia. 

 Claro, dormirá melhor sem estas roupas grossas e incômodas. Voltarei 

num instante para ajudá-la a deitar-se, 

Nancy  escondeu-se  atrás  da  rede  para  vestir  sua  camisola  leve  de 

algodão, pois escutara o ruído de Mejai levantando-se para reaviver o fogo. 

— Conserve as botas no pé até estar dentro da rede e depois as passe 

para mim. Vou pendurá-las junto às outras roupas. E, lembre-se, nunca deixe 

nada no chão, pois as aranhas saem à noite! Já está pronta? 

Nancy  assentiu  com  a  cabeça,  sentindo  as  mãos  quentes  de  Edmund 

através do tecido fino da camisola, enquanto a ajudava a subir na rede. 

 Se  deitar  de  atravessado,  o  balanço  da  rede  diminuirá  um  pouco. 

Tem um cobertor, não? Costuma esfriar durante a madrugada. Boa noite. 

 Boa  noite  e  obrigada  —  despediu-se  ela  com  um  sussurro  enquanto 

as lágrimas há tanto contidas, fluíam livremente. 

Não  foi  fácil  arrumar  o  cobertor,  mas,  depois  de  muita  luta,  ajeitou-o  de 

maneira confortável. Olhando para as estrelas que brilhavam por entre os galhos 

escuros da árvore, Nancy tentava impedir que lembranças amargas do passado 

viessem à tona e estragassem sua noite. 

No entanto, como poderia dormir se as emoções de momentos antes ainda 

tumultuavam  seu  coração?  Edmund  a  rejeitara,  da  mesma  forma  como  ela  o 

repelira  há  dezesseis  meses.  Haviam  se  ferido  demais,  dissera-lhe  ele,  e  só 

agora  ela  percebia  o  quanto  o  magoara  deixando  o  apartamento  naquela  tarde 

distante. Ele, porém, bem poderia ter impedido sua partida. Mas por que não o 

fizera?!  Se  ao  menos  Edmund  não  tivesse  procurado  Peter,  ou  lhe  dado 

ouvidos.  Ela  própria  fora  vítima  do  charme  persuasivo  daquele  homem  falso  e 

por  isso  entendia,  perfeitamente  que  Edmund  também  se  deixasse  enganar. 

Humilhado e rejeitado, como devia ter sofrido! Pois não fora difícil acreditar nas 

maldades que a língua venenosa e ferina de seu amigo de tantos anos falara a 

respeito dela, apesar de conhecê-la há tão pouco tempo! 

Nancy  tolamente  também  havia  acreditado  em  Peter  quando  lhe 

afirmara  que  o  mais sensato  seria  divorciar-se,  já  que Edmund convencido do 

enorme erro daquele casamento, pedia-lhe que desse andamento no divórcio. 

 Quando  tudo  terminar,  você  estará  livre  para  se  casar  comigo  — 

Peter concluíra uma tarde, ao visítá-la. 

 Mas não quero me casar com você! Para mim, só existe Edmund! Eu 

o  amo  e  lhe  darei  a  liberdade,  mas  isso  não  significa  que  eu  queira  me  casar 

com você, 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

48

Por  alguns  segundos,  ele  parecera  surpreso  e  confuso,  e  recobrando  a 

maneira educada, sentara-se a seu lado, tornando-lhe as mãos entre as suas. 

— É  natural  que  pense  assim,  Nancy.  Afinal,  não  faz  muito  tempo  que 

Edmund  partiu  e  o  divórcio  é  uma  experiência  traumatizante  para  a  maioria 

das  mulheres,  mesmo  quando  casadas  há  tão  pouco  tempo  como  você.  Tenho 

presenciado  diversos  casos  iguais  ao  seu  em  minha  profissão.  Edmund  está 

decidido e nada o fará voltar atrás para tentar uma reconciliação. Como vê, está tudo 

em suas mãos. 

— Tem idéia de onde ele possa estar? — perguntou-lhe Nancy esperançosa. 
— Sim, mas ele me pediu para não revelar a ninguém e não posso trair sua 

confiança. Está de partida para outra expedição e talvez fique longe por um ano. Isto 

vai se repetir sempre, Nancy, ele a deixará sem o menor remorso. 

Tia Marsha tinha razão ao dizer que Edmund era do tipo de homem que não 

assume um relacionamento. 

— Oh!, se ao menos tivesse certeza de tudo. Se ao menos pudesse falar-lhe 

ou escrever-lhe — suspirou Nancy desanimada. 

—  Esqueça,  fato  consumado  —  insistira  Peter  com  paciência.  —  Edmund 

arrependeu-se  de  ter  casado  com  você  e  quer  reparar  a  falta  tão  rápido  quanto 

possível.  Não  tolera  ver  ninguém  sofrer  e  reconhece  que  é  culpado  do  seu 

sofrimento. Siga o meu conselho, Nancy, pelo seu bem, por sua paz interior. 

Entretanto, ela adiara aquela decisão ao tomar consciência das mudanças em 

seu  físico.  Contara  as  semanas  em  que  Edmund  estivera  em  casa  entre  os  dois 

períodos  de  ausência,  o  primeiro  na  Indonésia  e  depois  na  América  Central... 

Haviam se passado três meses! Temendo a possibilidade de estar grávida, marcara 

uma consulta, na qual o médico lhe confirmara suas suspeitas: carregava no ventre 

uma criança de Edmund e a idéia do divórcio teria de ser descartada! 

A  rede  balançava  de  um  lado  para  o  outro  enquanto  ela  se  relaxava, 

procurando  afastar  essas  lembranças  amargas.  As  pílulas  para  dormir  lhe  faziam 

muita falta. Se ao menos Edmund não as tivesse jogado fora! 

Aqueles comprimidos haviam sido prescritos para os momentos insuportáveis 

de  ansiedade,  como  quando  perdera  o  bebê.  Qual  seria  a  reação  de  Edmund  se 

soubesse  a  razão  pela  qual  os  tomara?  Ele  nem  imaginava  o  quanto  ela  havia 

sofrido durante aquela época, sem poder se abrir com ninguém. 

Agora,  naquela  cama  exótica  e  desconfortável,  no  meio  da  selva,  precisava 

meditar sobre o desgosto passado e encará-lo de frente. Desejou subitamente estar 

de volta ao quarto protegido e quente do Posto Diauarum, com Edmund deitado na 

mesma cama, a seu lado. Poderia quem sabe falar-lhe sobre a experiência daqueles 

meses de solidão, abrir-se com o marido no escuro e talvez encontrar alívio para sua 

dor. Superar, com a ajuda dele, o profundo trauma causado pela perda do menino 

nascido prematuramente e que morrera logo após o parto. 

A satisfação de estar carregando um filho de Edmund teria sido bem maior se 

tivesse  tido  a  chance  de  lhe  dar  a  feliz  notícia.  Não  confiando  em  Peter,  preferira 

manter  a  gravidez  em  segredo,  alimentando  sempre  a  esperança  de  localizar  o 

marido. 

Perguntara a Peter sobre o paradeiro de Edmund e ele lhe respondera com 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

49

voz suave, fingindo solidariedade: 

— Não faço a menor idéia de onde ele se encontra agora, mas, por você, vou 

tentar me informar. 

Depois disso, ela própria começou a investigar sobre o país aonde Edmund 

fora. 

Na  sede  da  Cruz  Vermelha,  para  a  qual  talvez  ele  estivesse  trabalhando 

como  voluntário,  ninguém  soube  dar-lhe  qualquer  informação.  No  Instituto  de 

Investigação,  onde  ele  também  trabalhara,  tudo  que  conseguiu  foi  o  endereço  de 

seu  tio  avô  Justin  Talbot,  de  quem  Nancy  jamais  ouvira  falar.  Enviou  então  uma 

carta  a  Edmund,  aos  cuidados  do  tio,  e,  após  quinze  dias,  recebeu-a  de  volta 

juntamente com uma do velho tio, na qual ele manifestava sua surpresa em saber 

que Edmund havia se casado e que infelizmente, não sabia informar onde estava o 

sobrinho... 

Vencida pelo cansaço, Nancy acabou afinal adormecendo, entretanto foi um 

sono  intranqüilo  e  agitado.  Acordou  de  manhã,  quando  os  outros  já  estavam  em 

plena atividade na claridade mística da alvorada. 

Apenas  uma  xícara  de  café  morno,  peixe  e  arroz  frio  restavam  para  seu 

desjejum. Ela olhou enjoada para a comida, mas, dominando-se, comeu um pouco 

para  não  ficar  faminta  mais  tarde.  Em  seguida,  a  exemplo  dos  outros,  levou  seus 

pertences de volta ao barco, que pacificamente reiniciou seu percurso no rio. 

Uma brisa agradável batia na proa da embarcação e uma névoa branca como 

neve, envolvendo tudo, subia da água aquecida pelos primeiros raios de sol. Nancy 

sentou-se ao lado de Luís com o bloco de anotações sobre os joelhos. Ia tomando 

notas  ocasionais,  à  medida  que  ele  lhe  contava  de  sua  dedicação  às  tribos 

indígenas.  Era  um  trabalho  que  lhe  exigiu  um  esforço  contínuo  para  receber  e 

despertar segurança no índio, assim como entrosá-lo no mundo moderno, pelo qual, 

lenta e quase impiedosamente, tinha sido surpreendido. 

—  Forneço  aos  índios  ferramentas  úteis  como  machado  de  aço  para  que 

substituam os de pedra; espingardas e apetrechos de pesca, para serem usados no 

lugar do arco e flecha. Quanto à comida e às vestimentas, só lhes dou quando me 

pedem. No passado, essa gente foi desmoralizada e repudiada pelo homem branco 

que  invadiu  suas  terras  tomando-lhe  tudo,  até  mesmo  a  cultura  e  a  religião.  Meu 

principal objetivo é encorajá-los a manterem os costumes tribais — danças, rituais e 

artesanatos. 

A  sinceridade  de  Luís  expressa  em  suas  palavras  e  gestos,  despertou  em 

Nancy uma admiração profunda. Conversaram durante muito tempo, inclusive sobre 

o pai dela, que em muito tinha colaborado com as tribos, publicando artigos e livros a 

respeito dos índios. Falaram também sobre Edmund... 

— Gostaria muito que seu marido se decidisse a ficar aqui para nos ajudar. 

Ele não comentou nada com você, Nancy? 

— Não, ainda não. 
—  É  uma  decisão  difícil  e,  só  agora  que  a  conheci,  posso  compreender.  — 

Seus  olhos  escuros  piscaram  num  gesto  brincalhão.  —  Um  homem  solteiro,  como 

eu,  não  tem  com  quem  se  preocupar,  mas  espero  que  vocês  firmem  um 

compromisso conosco, da mesma forma que Rita e Manuel. Ambos assumiram um 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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casamento, amam um ao outro e, unidos no mesmo ideal, entregam-se de corpo e 

alma ao bem da comunidade. 

Como no dia anterior, o calor da atmosfera e o brilho ofuscante do sol sobre a 

água tornaram-se insuportáveis, e Nancy agradeceu o fato de ter o abrigo da casa 

do motor para ficar, apesar da fumaça. Encostando-se à bagagem amontoada, ora 

cochilava,  ora  escrevia.  Rita  viera  conversar  diversas  vezes,  mas  Edmund,  como 

sempre, continuava indiferente, ignorando-a por completo. 

No  meio  da  tarde,  um  aguaceiro  desabou  do  céu.  Os  pingos  grossos 

estalavam  nos  arvoredos  e  na  madeira  do  barco,  produzindo  um  ruído 

ensurdecedor.  Navegavam  às  cegas  pois  uma  cortina  cinzenta  de  água  obstruía-

lhes totalmente a visão. Foi uma pancada rápida, mas forte — a famosa chuva-de-

verão —, encharcando tudo com fúria. De repente, as nuvens desapareceram, como 

por encanto, e a terra se iluminou outra vez. O barco fez uma curva larga, na direção 

de um aglomerado de cabanas de palha, dispersas no alto de uma colina verdejante, 

em  pleno  coração  da  selva.  Destacando-se  na  infindável  floresta,  a  aldeia  surgia 

como um borrão colorido quebrando a monotonia verde das imensas árvores. 

Jekaro  necessitava  de  ajuda  na  luta  contra  a  correnteza  que  os  empurrava 

para longe. Por isso, Edmund e Manuel, munidos de longas varas, giraram o barco 

na  direção  certa.  Próximos  o  suficiente  da  terra,  Mejai  atirou  a  corda  para  um 

homem  alto,  que,  puxando-a,  arrastou  a  embarcação  até  um  pequeno  cais  de 

madeira. 

Vários  indígenas,  a  maioria  de  short  e  camisa,  olhavam  da  praia, 

misteriosamente silenciosos. De repente, um grito agudo e forte quebrou o silêncio e 

uma mulher idosa, usando um vestido simples de algodão, apareceu. Aos berros, ela 

batia  com  as  mãos  no  peito,  enquanto  as  lágrimas  corriam  de  seus  olhos 

embaçados. Jekaro, então, deu um salto até a praia. A mulher, parando de chorar, 

pegou-o  pelo  braço  e  conduziu-o  devagar  em  direção  à  aldeia  e  os  índios, 

expandindo uma alegria esfuziante, abraçaram Luís e carregaram Manuel no colo. 

— O que significa tudo isso? — quis saber Nancy. 
—  A velhinha é a mãe de Jekaro e chorava todos os dias em que o filho ficou 

ausente  da  vila.  Todos  deviam  permanecer  em  silêncio  até  que  o  ritual  de  boas-

vindas terminasse. Podemos descer, agora. 

Nancy  adorou  pisar  em  terra  firme,  e  depois  de  um  dia  inteiro  flutuando  ao 

balanço do barco o chão duro parecia mover-se. Desequilibrando-se, teria caído se 

não  fosse  aquele  estranho  segurar  em  seu  braço.  Era  um  rapaz  alto  e  magro,  de 

traços perfeitos, e que corria para ela murmurando palavras incompreensíveis. Devia 

ter pouco mais que trinta anos. Com seus olhos escuros, quase negros, examinava-

a com admiração. Atordoada, Nancy tentou balbuciar uma palavra de agradecimento 

na língua nativa. 

Notando o embaraço da moça, ele se adiantou num inglês cheio de sotaque. 
— O prazer foi todo meu. 
Naquele instante, Luís surgiu saudando o rapaz: 
—  Olá,  Carlos,  não  esperava  encontrá-lo  por  aqui.  Quero  lhe  apresentar 

nossa  nova  companheira:  Nancy  Talbot.  É  a  jornalista  que  veio  fazer  uma 

reportagem sobre nossas tribos. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— Talbot?! — perguntou ele, surpreso, estendendo a mão para Nancy. 
— Sim. 
— É inacreditável!  Há quanto tempo está casada com Edmund? 
— Dois anos e meio. 
— Olhem, vejam só!... Tenho transportado Edmund a diversos lugares todos 

esses  meses  e  ele  nem  sequer  mencionou  que  era  casado.  Meu  nome  é  Carlos 

Silveira e eu sou piloto nessa região. 

Mal  o  rapaz  se  apresentara,  com  um  sorriso  largo  nos  lábios,  e  uma  jovem 

esguia e elegante aproximava-se em sentido contrário ao deles, pela trilha estreita. 

Aparentava  ter  somente  alguns  anos  mais  do  que  Nancy,  e  o  conjunto  safári  lhe 

assentava graciosamente. Numa olhada rápida, Nancy reparou nos longos cabelos 

pretos que emolduravam o seu rosto moreno. Parando perto de Carlos, ela começou 

a lhe falar no idioma deles, gesticulando o tempo todo de forma bastante calorosa. 

Respondendo na mesma língua, ele pronunciou o nome completo de Nancy com um 

sorriso irônico nos lábios. 

— Não sabia que Edmund tinha uma esposa! — disse a jovem, desconfiada. 

— Sou a dra. Sônia Meirelles. Cuidei de Edmund quando pegou malária, depois de 

ter se perdido na selva. 

— Muito prazer — disse Nancy, estendendo a mão com simpatia. 
Após um frio cumprimento, Sônia murmurou algumas palavras e depois saiu 

apressada  em  direção  ao  barco,  deixando  Nancy  sem  ação  e  sem  saber  aonde  a 

outra iria com tanta pressa. 

De  maleta  na  mão,  Edmund  vinha  subindo  distraído  quando  Sônia  o 

atropelou.  Imediatamente,  ele  parou  e,  num  sorriso  franco,  murmurou-lhe  alguma 

coisa  que  Nancy  não  pôde  ouvir.  Em  resposta,  a  brasileira  envolveu  seu  pescoço 

com os dois braços e beijou-lhe as faces três vezes. Rindo muito, Edmund apoiou a 

maleta no chão a fim de melhor corresponder ao abraço caloroso. 

Nancy  pensou  que  fosse  desmaiar  de  tanto  ciúme.  Desviando  o  olhar, 

deparou com o de Carlos, que parecia estar achando muita graça naquela cena. Daí 

para a frente, caminharam em silêncio, até chegarem ao topo da colina. 

—  Vocês  dividirão  esta  cabana  com  Manuel  e  Rita  —  Luís  explicou  para 

Nancy,  mais  tarde.  —  Aqui,  não  temos  as  mesmas  comodidades  do  Posto 

Diauarum. Dormiremos em redes e, se quiserem tomar um banho, o chuveiro fica na 

cabana ali ao lado. 

A  cabana  na  qual  passariam  a  noite  era  grande  e  arejada.  No  centro,  um 

enorme  esteio  sustentava  o  telhado,  feito  de  folhas  de  palmeiras  trançadas,  num 

belo  trabalho  artesanal.  Duas  paredes  de  meia  altura  erguidas  de  forma  oposta 

deixavam  um  vão  livre  para  facilitar  a  penetração  do  oxigênio.  E  uma  única  lam-

parina a querosene, feita de lata e pavio, clareava ligeiramente o ambiente. 

Quando  Nancy  entrou,  dois  índios  penduravam  as  redes  e,  ao  vê-la, 

apontaram para sua sacola, fazendo sinais com a mão. Ela deu-lhes então algumas 

balas e cigarros, que eles receberam felizes, saindo apressadamente. 

Nancy aproveitou a oportunidade para trocar de roupa, colocando uma blusa 

limpa e refrescante. Naquele momento apenas um pensamento a atormentava: onde 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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estaria Edmund?! 

A lua brilhava no céu e um leve perfume de laranja enchia o ar enquanto Rita, 

Manuel  e  Nancy  seguiam  pela  trilha  que  os  levava  ao  refeitório,  perto  do  rio.  No 

fogão a lenha, pedaços grandes de carne eram cozidos em panelas de ferro. 

— Que delícia! Hoje passaremos bem! Os caçadores da tribo tiveram sorte, 

mataram vários porcos-do-mato. 

Na  imensa  sala  onde  fariam  a  refeição,  alguns  índios,  sentados  ao  lado  de 

Luís, narravam com grande entusiasmo e mímica as proezas da caçada. Na outra 

cabeceira da mesa, comprida e estreita, estavam sentados Edmund e Sônia. 

— Alguém já lhe apresentou a dra. Sônia? — sussurrou Rita ao tomarem os 

lugares em frente a Luís. 

— Sim — respondeu Nancy. — Aliás, ela me pareceu muito jovem para ser 

médica. Ela é voluntária? — perguntou, tentando disfarçar a curiosidade. 

—  Sim,  veio  de  São  Paulo  especializar-se  em  doenças  tropicais.  A  família 

dela é muito importante. 

Nancy sentiu um aperto no estômago. O que mais teria Edmund em comum 

com esta jovem doutora? 

— Você a conhece há bastante tempo? 
—  Mais  ou  menos.  Escute,  Nancy,  sou  sua  amiga  há  apenas  alguns  dias, 

mas  gosto  de  você.  Por  isso  quero  ser-lhe  sincera  e  espero  que  você  não  fique 

chateada: tenho a impressão de que Sônia está apaixonada por seu marido. 

Uma raiva intensa tomou conta de Nancy e ela olhou para os dois. Com os 

braços cruzados sobre a mesa e um cigarro entre os dedos, Edmund escutava Sônia 

bastante interessado. Vendo-os conversarem tão animados como se mais ninguém 

existisse no mundo, era de se supor que a Medicina era o assunto mais delirante do 

mundo!... E até mesmo engraçado. 

Durante o dia inteiro Nancy se sentira ignorada por Edmund e, agora, tinha de 

agüentá-lo desdobrando-se em atenções para com aquela doutora, que o recebera 

como se ele fosse seu grande amor! Nancy estava determinada a não demonstrar o 

quanto se magoara e, quando ia retomar a conversa com Rita, viu Carlos a seu lado, 

com uma expressão maliciosa nos olhos escuros. 

—  Sabe  que  estou  surpreso?  Como  é  que  Edmund  pôde  vir  para  o  Brasil 

agüentando  ficar  tanto  tempo  longe  de  você?  Ele  não  deve  estar...  digamos, 

regulando bem da cabeça — disse Carlos. 

Nancy não pôde deixar de rir. 
— Oh! Não brinque! 
—  Ora,  somente  um  doido  deixaria  uma  esposa  tão  bonita  sozinha  e  tão 

distante! Mas, perdoe-me a indiscrição, por que permitiu que ele viesse? 

— Não pude detê-lo. 
—  Não  mesmo?!  Olhe,  garanto  que,  se  realmente  desejasse,  o  teria 

segurado. Ou será que o seu é um desses casamentos modernos, cada qual para o 

seu  lado  e  encontros  ocasionais,  quando  nenhum  dos  dois  estiver  muito  ocupado 

consigo mesmo? 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— E, por acaso, você é contra?! 
— Na verdade, não. Mas... se fosse casado, minha mulher teria de ficar em 

casa, cuidando de mim e dos filhos. 

— Suponhamos que seu trabalho o obrigasse a viajar sempre. 
—  Bem,  aí  ela  me  esperaria  de  braços  abertos  e  me  cobriria  de  carinho 

quando eu chegasse. 

Carlos  olhou  de  relance  para  Edmund  e  Sônia  e,  inclinando-se  até  quase 

encostar sua cabeça à de Nancy, cochichou-lhe no ouvido. 

— Ela está sempre falando de si própria, que é uma ótima profissional e não 

sei mais o quê. Com esse falatório todo, não deve lhe sobrar tempo nem para beijar! 

Nancy  deu  uma  gargalhada  gostosa.  Sem  dúvida,  Carlos  a  divertia  muito! 

Enquanto saboreava a carne macia e cheia de torresminhos, distraiu-se ouvindo-lhe 

os casos, ora gozados, ora arrepiantes, ligados à sua profissão de piloto na selva. 

Ele absorvera de tal forma sua atenção que ela até se esquecera do aborrecimento 

pelo qual passara poucos minutos antes. 

Logo após a refeição, todos os visitantes sentaram-se ao ar livre para assistir 

a uma demonstração de dança dos índios. Com cocares e colares feitos de penas 

de  pássaros,  pintados  de  diferentes  maneiras  e  cores,  seus  corpos  nus  pareciam 

vestidos de uma estamparia exótica. Formando um meio círculo, carregavam lanças 

e batiam um pé só, todos ao mesmo tempo, marcando o ritmo. 

Carlos  explicou-lhe  que  aquela  era  uma  dança  de  guerra  e  que  estavam 

bravos por causa da estrada em construção que atravessava a selva, prejudicando 

algumas tribos. No desenrolar da dança, os guerreiros empunharam as lanças, num 

gesto  agressivo  que  atemorizou  Nancy.  Quando,  finalmente,  se  dispersaram,  ela 

voltou à sua cabana em companhia de Carlos. Uma brisa suave soprava as folhas 

das  árvores  molhadas  de  orvalho  e  enormes  morcegos  voavam  na  noite  clara  de 

luar. A temperatura baixara bastante e o ar tinha um cheiro de terra molhada. 

Influenciado, talvez, pelo romantismo que os cercava, Carlos tomou-lhe a mão 

e, levando-a até os lábios, beijou-a ternamente. 

— Boa noite, e obrigado pela sua companhia, Nancy. Amanhã nos veremos 

— ele murmurou roucamente, sumindo depois na escuridão. 

No  interior  da  cabana,  a  lamparina  ainda  queimava,  formando  sombras 

ameaçadoras na parede branca. Nancy vestiu a camisola e deitou-se na rede com 

dificuldade.  Balançava-se  gentilmente  enquanto  ouvia  as  vozes  de  Rita  e  Manuel, 

que  conversavam  no  outro  canto  da  cabana.  Fechou  os  olhos  tentando  dormir, 

embora soubesse que não o conseguiria enquanto Edmund não chegasse. 

Quando,  por  fim,  escutou  seus  passos  lentos  e  percebeu  os  movimentos 

cuidadosos  enquanto  ele  tirava  a  roupa  e  se  deitava  respirou  aliviada.  Queria  ter 

coragem suficiente para perguntar-lhe onde tinha estado e o que estivera fazendo. 

Estavam muito próximos, mas Nancy sentia-se a quilômetros de distância. O abismo 

entre eles aumentava cada vez mais. Principalmente agora que sabia o verdadeiro 

motivo que levava Edmund a querer permanecer no Brasil: a dra. Sônia Meirelles! 

 
CAPÍTULO VI 

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 Selva de Prata   

 

 

 

54

Nancy tinha acabado de sair da rede para procurar uma toalha a fim de tomar 

um banho quando, de repente, Edmund perguntou-lhe num tom impessoal: 

— Há um homem muito doente numa aldeia isolada no meio da selva. A tribo 

dele  enviou  um  mensageiro  para  pedir  um  médico.  Carlos  vai  me  levar  até  lá. 

Gostaria de vir comigo? 

Ela  parou  instantaneamente,  como  se  tivesse  levado  um  choque.  Será  que 

ouvira  bem?  Estaria  mesmo  sendo  convidada  para  acompanhá-lo  numa  viagem?! 

Virou-se  e  o  olhou  intrigada.  Os  cabelos  dele  estavam  molhados,  e  deduziu  que 

Edmund  já  havia  tomado  uma  ducha  ou  estivera  nadando  no  rio.  O  rosto  recém 

barbeado  e  muito  moreno  ganhara  um  aspecto  mais  saudável  depois  daquele 

passeio de barco sob o sol escaldante, e seus olhos azuis a fitavam cheios de vida. 

Mas  as  olheiras  que  os  circundavam  denunciavam  uma  grande  verdade:  ele  não 

havia dormido bem naquela noite! 

— Gostaria que eu fosse? — perguntou-lhe, mal disfarçando a ansiedade. 
—  Não  sei  por  que  você  é  sempre  tão  complicada!  Eu  apenas  lhe  fiz  uma 

pergunta e você me responde com outra. Luís avisou-me que a viagem seria muito 

interessante  para  sua  reportagem  e,  como  está  sobrando  um  lugar  no  avião,  vim 

avisá-la. Quer ir ou não? 

Nancy deu um suspiro profundo diante da impaciência de Edmund. Acordara 

com dor de cabeça e pontadas no estômago e teria dado tudo para voltar à rede e 

ficar dormindo até sentir-se melhor. Contudo, o desejo de estar perto dele e provar-

lhe  que  tinha  condições  de  acompanhá-lo  a  qualquer  lugar  a  fez  esquecer 

rapidamente o mal-estar. 

— Eu adoraria ir junto, Edmund. Quem mais irá além de Carlos, você e eu? 
— A dra. Meirelles. Para ela também será uma ótima experiência. Muito bem, 

direi a Carlos que você irá conosco. Esteja no refeitório dentro de quinze minutos. 

Edmund  afastou-se  antes  que  ela  tivesse  tempo  de  perguntar-lhe  se  não 

estava  nervoso  por  causa  da  viagem  de  avião, afinal, fazia  bem pouco  tempo  que 

sofrera  um  acidente.  De  qualquer  forma,  mesmo  que  estivesse,  dificilmente  o 

admitiria. Dando de ombros, pegou suas roupas e dirigiu-se à cabana onde ficava o 

chuveiro. No teto do pequeno cubículo havia um tambor e, quando Nancy puxou a 

cordinha  abrindo  o  registro,  uma  agradável  chuva  de  água  fresca  caiu  sobre  seu 

corpo.  Embora  o método fosse  um  tanto  precário,  proporcionou-lhe  uma  sensação 

agradável.  Bem  mais  disposta,  devorou  com  apetite  o  farto  café  da  manhã  com 

saborosos pãezinhos de milho, ovos frescos mexidos e mamão da Amazônia. 

A calorosa recepção de Carlos, assim que a viu, demonstrou o quanto ficara 

contente  ao  saber  que  os  acompanharia.  Passando  o  braço  ao  redor  dos  seus 

ombros,  ele  falava  sem  parar,  fornecendo  detalhes  sobre  a  viagem  enquanto 

caminhavam até a pista. Nancy achou-o bastante atraente, com calça e camisa de 

brim cáqui e botas de cano longo. À cinta ele levava um revólver e sobre o ombro 

esquerdo um rifle. 

— Sempre levo este arsenal em caso de haver um acidente — ele apressou-

se  em  explicar,  notando  o  olhar  assustado  de  Nancy.  —  Pelo  menos  não 

passaremos fome. 

— Você está me deixando com medo... 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

55

—  Oh!  Por  favor,  não  se  preocupe.  Na  verdade,  essas  armas  nunca  foram 

usadas! Olhe, quero que você vá a meu lado, na frente. Além de mais confortável, 

poderá  ter  uma  visão  melhor  da  paisagem.  —  Ele  exibiu  um  largo  sorriso.  —  Isto 

sem falar no prazer da sua companhia... 

Naquele momento, chegaram Sônia, Edmund e Luís, acompanhados por um 

grupo  de  índios.  Enquanto  entrava  na  cabine,  Edmund  perguntou  a  Nancy, 

secamente: 

— Por que vai na frente? 
— Fui eu quem a convidou, Edmund — respondeu Carlos antes de Nancy. — 

Fique tranqüilo, ela estará bem aqui comigo. Assim, você poderá conversar mais à 

vontade com a dra. Meirelles. 

Edmund  lançou  um  olhar  resignado  para  a  jovem  médica,  já  instalada  toda 

sorridente  no  banco  de  trás.  Mas  logo  depois  procurou  disfarçar  seu 

desapontamento. 

— Tudo bem! Como queiram... 
Carlos  pilotava  o  avião  com perícia  e  segurança.  Como  um  grande  pássaro 

planando  ao  sabor  do  vento,  ora  mergulhavam  em  vôos  rasantes  sobre  o  rio, 

surpreendendo o descanso indolente dos sinistros jacarés, ora arremetiam acima de 

árvores  gigantescas.  Do  alto,  podiam  ver  as  araras  coloridas,  como  pequenas 

manchas azuis e vermelhas destacando-se no verde intenso da selva. 

— Como vai fazer para achar a vila? — perguntou Nancy, deslumbrada com 

aquela paisagem formidável. 

—  Este  é  um  mistério  que,  como  sempre,  preciso  desvendar.  É  como  estar 

num  labirinto.  Vamos  por  um  lado,  depois  por  outro,  com  os  olhos  sempre  na 

bússola.  Quando  finalmente  avistamos  um  anel  de  fumaça  saindo  do  meio  das 

árvores,  a  conclusão  é  uma  só:  onde  há  fumaça,  há  vida.  —  Ele  se  inclinou  para 

perto de Nancy, baixando o tom de voz. — Esta é a primeira vez que Edmund entra 

num avião depois do acidente. Gostaria de saber como ele está reagindo. 

Nancy  aguardou  alguns  instantes  antes  de  olhar  discretamente  para  trás. 

Edmund e Sônia mantinham-se calados. Ela apreciava distraída a paisagem através 

da  janela,  enquanto  ele,  ao  seu  lado,  olhava  fixamente  para  a  frente  com  uma 

expressão muito séria. Nancy sentiu uma sensação de desconforto. Edmund parecia 

zangado. 

Voltando-se  para  a  frente,  Nancy  aguardou  uma  aproximação  de  Carlos, 

ciente de que Edmund ainda a observava. 

— Como está ele? — perguntou-lhe Carlos, depois de algum tempo. 
— Parece bem. 
—  Melhor  assim.  Isto  significa  que  ele  superou  a  crise  com  naturalidade. 

Agora, olhe lá para baixo. Vé uma fumaça? É a nossa aldeia. 

Dirigindo o olhar para o local apontado por Carlos, Nancy  viu uma pequena 

clareira  no  imenso  verde  e  percebeu  que  o  avião  preparava-se  para  pousar.  À 

medida que inclinava, fazendo uma curva longa e aberta, ela avistou um grupo de 

índios  correndo  para  a  pequena  pista  improvisada  no  meio  das  árvores;  curta  e 

estreita,  não  atingia  mais  do  que  duzentos  metros,  o  que  obrigou  Carlos  a  fazer 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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outra volta de aproximação antes de pousar. 

Tão  logo  a  porta  da  cabine  foi  aberta,  várias  mãos  rudes  e  bronzeadas 

estenderam-se,  oferecendo  ajuda  para  que  a  equipe  descesse.  Nancy  já  se 

acostumara  à  recepção  festiva  dos  índios  toda  vez  que  chegavam  a  uma  aldeia, 

mas,  desta  vez,  notava  um  certo  exagero  na  maneira  excitada  com  que 

gesticulavam e falavam ao redor dos recém-chegados. 

Irritado  com  aquela  algazarra  e  sem  conseguir  entender  uma  só  palavra  do 

que diziam, Edmund acabou perdendo a paciência:  

—  Por  que  eles  estão  gritando  dessa  forma?  Não  irei  a  parte  alguma 

enquanto não souber o motivo de tanto alvoroço. 

Sob  o  sol  escaldante  e  com  todas  aquelas  pessoas  falando  à  sua  volta, 

Nancy  sentiu  as  pernas  fraquejarem  e  a  vista  escurecer.  Apoiou-se  no  avião 

enquanto Carlos lhe traduzia a complicada explicação de um jovem índio. 

— Todos estão muito contentes com a nossa presença, mas o chefe da tribo 

deseja logo a presença do doutor na cabana do homem doente. 

— E onde fica? — perguntou Edmund. 
— Lá do outro lado da aldeia. Ele lhe mostrará o caminho. 
— Está certo, mas não posso ir sozinho. Preciso de um intérprete — lembrou 

Edmund. 

— Tenho certeza de que Sônia sentiria um prazer enorme em ajudá-lo, não é 

mesmo, doçura? 

— Mas é claro — respondeu ela com um sorriso amarelo nos lábios. 
Edmund não desprendia os olhos de Nancy, deixando-a aflita. Conhecendo a 

capacidade dele adivinhar tudo o que se passava com ela, Nancy procurou disfarçar 

com um ligeiro sorriso as dores cada vez mais intensas no estômago e na cabeça. 

— Você está bem? — indagou ele com uma suavidade inesperada. 
—  Oh!  sim!  —,  respondeu  Nancy,  exultante.  —  Talvez  eu  até  tire  algumas 

fotos por aí. 

— Fique tranqüilo, Edmund. Levarei Nancy para conhecer a aldeia e cuidarei 

bem dela — prontificou-se Carlos, indiferente à expressão de desagrado do médico. 

— Muito bem. Voltarei o mais rápido possível. — Ele se voltou para o chefe, 

disse algumas palavras e em seguida ambos seguiram para ver o doente. 

— Não vai com eles?! — perguntou Carlos rispidamente a Sônia, vendo que a 

médica não se movia do lugar. 

—  Ora,  não  me  aborreça!  Você  está  sempre  querendo  me  dar  ordens.  — 

Contrariada,  pegou  a  maleta  preta  com  os  instrumentos  e  seguiu  ao  encalço  de 

Edmund, batendo os pés. 

—  Vamos  nos  sentar  um  pouco  à  sombra  —  sugeriu  Carlos  conduzindo 

Nancy a uma grande castanheira, a única árvore bem no meio da clareira. 

Assim que se acomodaram no banco rústico, ao lado do alto tronco de quase 

dois  metros  de  diâmetro,  foram  rodeados  por  um  grupo  de  nativos  curiosos. 

Lembrando-se  dos  presentes  que  trouxera  em  sua  valise,  Nancy  os  distribuiu, 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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achando  uma  graça  enorme  nas  expressões  felizes,  quase  infantis,  daquelas 

criaturas  ingênuas.  Já  havia  aprendido  como  era  importante  para  eles  o  contato 

físico, e, com muita paciência, permitiu que algumas índias lhe tocassem os cabelos, 

as  mãos,  sua  aliança  de  casamento  e  a  medalha  de  ouro  pendurada  no  pescoço. 

Sorriu, e elas retribuíram o sorriso timidamente. De repente, as mulheres trocaram 

algumas  palavras  entre  si  e  logo  após  ofereceram  a  Nancy  uma  cuia  cheia  de 

castanhas. 

Agradecendo, Nancy provou algumas, apesar de estar um pouco indisposta, 

para não lhes fazer uma desfeita. 

—  Elas  gostaram  de  você!  —  disse  Carlos.  —  Isso  é  muito  bom,  pois  esta 

tribo é considerada das mais arredias. 

— Por outro lado, soube que são bastante criativos. Será que poderíamos ver 

alguns de seus trabalhos? 

— Sem dúvida! — Ele se levantou, olhando em direção à cabana do doente 

— Olhe só!... não é possível! Sônia já desistiu! 

Nancy olhou através da clareira e viu que a médica saía às pressas de dentro 

da  cabana.  Carlos  tentou  bloquear-lhe  o  caminho,  mas,  em  disparada,  ela  passou 

direto, com o rosto pálido, os olhos arregalados e a mão comprimindo a boca. 

— O que há com ela? — indagou Nancy assustada. 
— Com certeza não gostou muito do que viu lá dentro — respondeu ele com 

sorriso  maldoso  —  Ora,  ora,  que  utilidade  pode  ter  essa  doutora  se  passa  mal 

quando vê um doente? Sendo assim, jamais deveria ter vindo para cá, pois, pelo que 

se vê, está longe de ter a mesma dedicação de Edmund. Sabe, a princípio eu não 

simpatizava muito com seu marido.   Julgava-o um desses ricaços que, cansado de 

uma  vida  sofisticada, estivesse  à  procura  de  emoção  aqui  na  selva.  Com  o tempo 

aprendi a admirá-lo. É um homem sensível, preocupado com o destino dos menos 

favorecidos. Demonstra ter muita fibra, senão não teria sobrevivido ao acidente na 

floresta. 

— Veja! Ali está ele, na porta da cabana, acenando para nós — disse Nancy 

começando a caminhar em direção ao marido. 

—  Onde  está  a  dra.  Meirelles?  —  perguntou  Edmund  asperamente,  assim 

que se aproximaram. 

— Passando mal atrás de algum arbusto por aí — respondeu-lhe Carlos. — 

Precisa de ajuda? 

— Não consigo entender a língua deles. Parecem querer dizer alguma coisa 

relacionada com um certo pássaro. É melhor você não entrar, Nancy. 

— Mas eu quero. 
— Pode se impressionar. 
— Não me importo. 
— Pois então, vamos. 
Dentro da cabana estava muito escuro. Ouvia-se apenas o choro abafado de 

algumas  mulheres  em  torno  de  uma  rede,  onde  Nancy  percebeu  a  frágil  figura  de 

uma  criança.  Contudo,  chegando  mais  perto,  constatou  bastante  chocada  que  se 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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tratava de um adulto. 

—  O  que  aconteceu?!  —  murmurou  ela  consternada.  Carlos  traduziu  as 

palavras do cacique. 

—  Ele  é  um  índio  jovem  que  saiu  para  caçar  e  ficou  sem  suas  armas.  Em 

busca  de  água,  embrenhou-se  pela  mata  e  acabou  se  perdendo.  Com  sede  e 

faminto, foi finalmente encontrado pelo pássaro Ananu, que o carregou para o topo 

de uma árvore, e, ontem, trouxe-o de volta para sua aldeia. 

— Mas, afinal, o que é este tal pássaro Ananu? — sussurrou Edmund com o 

olhar fixo no pobre homem doente. 

— Existe uma crença entre o povo desta tribo segundo a qual sempre que um 

índio sai para caçar e se perde na floresta surge Ananu, um animal metade homem, 

metade  pássaro,  que  o  carrega  para  seu  ninho,  mantendo-o  lá  por  algum  tempo. 

Quando  por  fim  o  pássaro  se  aborrece  com  a  presença  do  índio,  costuma  picá-lo 

com seu bico enorme e o trás de volta à sua gente. 

—  Entendo!  — disse Edmund.  — É  um mito  criado  por eles à fim  de  poder 

explicar  aquilo  que  não  conseguem  compreender.  Sem  dúvida,  este  homem  está 

desnutrido e com desidratação. Precisamos levá-lo o mais depressa possível para o 

Posto Diauarum. — Edmund refletiu alguns instantes antes de prosseguir. — Carlos, 

diga-lhes que você é o Ananu e vai levá-lo embora outra vez, para depois trazê-lo de 

volta completamente curado. 

— É uma boa idéia, meu amigo! Mas não tenho condições de executá-la: meu 

avião está meio velho, não aguentará levantar vôo numa pista tão precária se estiver 

mais carregado do que já veio... 

— Ora, Carlos! Aquele índio pesa menos que uma criança. 
—  Sei  disso,  mas  tem  mais  um  detalhe:  ele  não  írá  sozinho.  Seu  irmão,  o 

cacique, e sua mãe com certeza desejarão acompanhá-lo. É o costume dos índios. 

Edmund enxugou o suor de sua testa, aborrecido. 
— Droga! Vamos sair deste lugar abafado e discutir isso lá fora. Não há nada 

para a gente beber? 

Carlos  trocou  algumas  palavras  com  o  cacique  antes  de  encontrar-se  com 

Nancy e Edmund à sombra da castanheira onde Sônia estava. 

Enciumada,  Nancy  irritou-se  ao  ver  Edmund  perguntando  gentilmente  à 

doutora se ela havia melhorado. Logo depois, algumas mulheres vieram trazer-lhes 

suculentos  maracujás  e,  por  alguns  instantes,  todos  ficaram  em  silêncio,  apenas 

sorvendo o suco fresco e agradável da fruta. 

— Temos que decidir quem de nós ficará aqui. Carlos com certeza não será, 

pois precisará pilotar o avião — falou Edmund com voz autoritária. 

— Há duas alternativas: ou ficam as duas mulheres, ou você, Edmund, e uma 

delas — sugeriu Carlos olhando para Nancy e Sônia. 

Depois de um breve silêncio, Nancy prontificou-se a ficar, percebendo que os 

dois esperavam delas algumas manifestação. 

—  Eu  não  me  importo.  Seria  até  uma  oportunidade  para  conseguir  uma 

excelente matéria para meus artigos. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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A  reação  de  Sônia  deixou  todos  atônitos.  Inconformada  com  a  decisão  de 

Edmund, ela se pôs a gritar e a gesticular como uma louca, deixando até os índios 

assustados. 

— O que deu nela agora? — perguntou Nancy a Carlos. 
— Quer ficar com Edmund e está dizendo para você vir comigo. Ela é mesmo 

uma tola! 

— Por mim tudo bem... — falou Nancy, sem muita convicção. 
— De forma alguma! Cabe a Edmund decidir — disse Carlos, olhando para o 

médico com um sorriso malicioso. — Ou, então, as duas ficam e você volta comigo, 

Edmund. 

—  Não!   Sou  o mais pesado, portanto ficarei.  Sônia  vai  com  você  porque o 

paciente poderá precisar de cuidados médicos durante o vôo.           

— E quem lhe dirá isso?! 
—  Deixe  comigo!  Como  seu  superior,  ela  terá  de  me  obedecer.  Conseguirá 

estar de volta para nos apanhar antes do anoitecer? 

— Duvido. É melhor se prepararem para passar a noite aqui. Falarei com o 

cacique para acomodar vocês. 

— Então está combinado. Só falta locomover o rapaz para o avião. Peça ao 

chefe uma rede para que possamos transportá-lo. 

— Está bem — concordou Carlos, afastando-se. 
Edmund  foi  conversar  com  Sônia  enquanto  Nancy  sentou-se  num  banco  ali 

perto, pensativa, observando algumas crianças jogarem bola. A situação que estava 

passando  chegava  a  ser  cômica,  concluiu  ela.  A  poucos  passos  dali,  estava 

Edmund,  seu  marido,  desdobrando-se  em  explicações  para  com  uma  estranha, 

tentando fazê-la entender por que era necessário que ela embarcasse enquanto ele 

permaneceria  ao  lado  de  sua  própria  esposa.  Não  pôde  deixar  de  sorrir  diante  de 

tamanha incongruência. 

Carlos voltou pouco depois, em companhia do cacique, da esposa dele e de 

um homem cheio de adornos no pescoço, que lhes foi apresentado como sendo o 

pajé da tribo: 

—  Já  está  tudo  arranjado  —  disse-lhes  Carlos.  —  Eles  têm  uma  cabana 

especial para convidados e que está à disposição de vocês. Agora vamos buscar o 

nosso doente. 

— Ótimo! — exclamou Edmund, erguendo-se rápido. — Você espere aqui na 

sombra, Nancy. 

— Não posso ajudá-los? — indagou ela suavemente. Edmund  fitou  aqueles 

olhos por alguns instantes e, num gesto inesperado, estendeu a mão, quase tocando 

seu rosto. Nancy sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, aguardando ansiosa por 

aquele gesto de carinho que, no entanto, não chegou. 

— Por enquanto não — respondeu ele, antes de seguir atrás de Carlos e do 

chefe. 

Sentada  na  outra  ponta  do  banco,  a  médica  também  observava  Edmund 

afastar-se. Subitamente aproximou-se de Nancy e, num péssimo inglês, perguntou-

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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lhe abruptamente: 

—  Por  que  você  tinha  de  vir  para  o  Brasil?  Precisava  seguir  Edmund  até 

aqui? 

— Eu não o segui! — protestou Nancy, indignada por ter de dar satisfações 

àquela criatura irritante, que a olhava como se ela fosse a amante de Edmund e não 

sua esposa. 

Arrependida pela resposta intempestiva que dera, Nancy resolveu ser sincera 

e desabafou: 

— Vim para ficar ao lado de Edmund, porque ele é meu marido e eu o amo! 
— Mas ele não a ama! Caso contrário não teria ocultado de nós o fato de ter 

uma  esposa.  Se  quer  saber,  ouvi-o  apenas  uma  vez  pronunciar  o  seu  nome:  foi 

quando esteve doente e delirava por causa da febre!  Chamou também por um tal de 

Peter,  provavelmente  seu  amante.  Pobre  Edmund!  Se  não  fossem  os  meus 

cuidados, ele não teria sobrevivido... 

Com as mãos crispadas de encontro aos joelhos e os dentes cerrados, Nancy 

sentia  o  sangue  ferver-lhe  nas  veias.  Num  esforço  supremo,  procurava  conter  o 

ímpeto  de  atirar-se  sobre  aquela  doutorazinha  atrevida,  arranhar-lhe  o  rosto, 

arrancar-lhe os cabelos, enfim, esganá-la! Que criatura petulante e insuportável! 

Como se não bastasse tentar descaradamente conquistar Edmund, ainda se 

vangloriava pelo fato de ter sido a responsável por sua cura. 

—  Eu  lhe  agradeço  muito  essa  sua  dedicação  a  Edmund  —  respondeu 

Nancy, controlando seu ódio. 

Sônia soltou uma gargalhada estridente. 
— Não precisa agradecer. Não fiz isso por você, minha querida, mas por mim! 

Conheci  Edmund  no  Rio  de  Janeiro,  durante  um  jantar  em  casa  de  meus  pais,  e 

depois  encontrei-o  mais  uma  vez  em  Brasília.  Decidi  então  me  oferecer  como 

voluntária  ao  Serviço  de  Proteção  ao  Índio,  na  esperança  de  reencontrá-lo.  Estou 

apaixonada por Edmund e sei que ele também está por mim! É por isso que me sinto 

no direito de permanecer aqui, ao lado dele. Eu o amo mais do que você. 

— Pode até ficar, se quiser. Mas não espere que eu vá embora. Sou a esposa 

dele, lembra-se? Quanto a você... 

Deixando que a outra deduzisse o resto, Nancy afastou-se, embora soubesse 

estar desobedecendo às ordens de Edmund para manter-se na sombra. No entanto, 

era  impossível  suportar  por  mais  tempo  a  companhia  daquela  mulher.  Caminhou 

sem rumo através da clareira, atormentada pelas palavras de Sônia martelando em 

seu cérebro: "Eu o amo mais do que você... e ele também me ama". Talvez aquilo 

fosse  verdade  e,  como  ela  já  suspeitava,  era  Sônia  a  verdadeira  razão  pela  qual 

Edmund desejava permanecer no Brasil. Mas não tinha motivo para se surpreender. 

Afinal, ambos possuíam  tanta coisa em comum... Além disso, ela salvara a vida de 

Edmund! 

Sem  se  dar  conta  do quanto  já  se  afastara da  aldeia,  Nancy  embrenhou-se 

por um atalho, contornando as frondosas árvores, cujas folhas cintilavam ao brilho 

do  sol.  A  seu  redor,  bandos  de macacos  barulhentos  saltavam  de  galho  em  galho 

fazendo alarde, mas ela parecia ignorá-los. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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O suor lhe escorria pelas costas e pernas, e a cabeça latejava cada vez mais 

quando percebeu que nem ao menos sabia onde se encontrava. E isso por acaso 

importava? Nada mais fazia sentido agora que sabia do amor de Edmund por outra 

mulher. Talvez Sônia estivesse blefando, mas o estranho comportamento do marido 

eliminava  tal  hipótese.  A  maneira  como  a  rejeitava,  a  tentativa  de  convencê-la  a 

voltar  a  Brasília,  o  repúdio  dele  quando  a  beijara  na  noite  anterior  e,  enfim,  a 

indiferença com que a vinha tratando todo esse tempo... Tudo isso comprovara que 

Sônia lhe dissera a verdade. 

Cega pelas lágrimas, Nancy tropeçou na raiz de uma árvore, estatelando-se 

no  chão  e  sem  forças  para  levantar-se.  No  mesmo  instante,  uma  dúzia  de  mãos 

vieram em seu socorro e ela se viu rodeada por um grupo de jovens índias, todas 

nuas,  que  a  olhavam  com  uma  expressão  de  ansiedade.  Uma  delas  tocou-lhe  o 

braço  suavemente,  procurando  chamar  sua  atenção  para  algum  ponto  entre  as 

folhagens. Nancy percebeu então o reflexo do sol nas águas do rio. 

Gesticulando sem parar, a índia tentava transmitir-lhe o convite para que se 

banhasse,  em  companhia  delas,  naquelas  águas  tranqüilas.  Nancy  balançou  a 

cabeça concordando e, pouco depois, também se despia. Por sorte lembrara-se de 

vestir o biquini por baixo da roupa, embora aquelas duas minúsculas tiras de pano 

causassem nas mulheres um espanto maior do que se estivesse nua. 

Por  algum  tempo  Nancy  esqueceu-se  completamente  de  seus  problemas. 

Nadou e brincou alegremente, cativada pela espontaneidade daquelas criaturas tão 

naturais. Sentou-se com elas na areia da praia e ensinou-as a desenhar castelos e 

outras figuras, no chão úmido, com um pedaço de galho seco. Depois, unindo-se a 

um  grupo  de  crianças,  participou  de  suas  brincadeiras,  exultando  com  elas  por 

aquele  contato  alegre  e  descontraído.  De  repente  ficou  imóvel  e  seus  olhos 

arregalaram-se  ao  notar  uma  enorme  sombra,  parecida  com  um  peixe,  próxima  a 

seus pés. Ainda paralisada pelo medo, abriu a boca para gritar por socorro quando, 

de  repente,  o  monstro  emergiu  espirrando  água  por  todos  os  lados  e,  quase  ao 

mesmo tempo, Edmund surgiu à sua frente. 

— O que está fazendo aqui?! — indagou ela, perplexa. 
— Estava procurando por você — respondeu ele, esfregando os olhos para 

eliminar  o  excesso  de  água  —  Você  está  louca?  Por  que  se  afastou  sem  avisar 

ninguém? Faz um tempão que estou tentando encontrá-la! 

—  Eu...  eu...  não  pude  agüentar  mais  os  absurdos  que  Sônia  estava  me 

dizendo. Pensei melhor e... Bem, decidi voltar para o Posto Diauarum com Carlos. 

Ela pode ficar aqui com você, se é o que deseja. 

Edmund franziu as sobrancelhas, olhando-a com um ar divertido. 
— O que deu em você agora? O avião já partiu há mais de uma hora. Carlos 

não podia esperar que a encontrássemos pois precisava levar logo o índio enfermo. 

Mas o que Sônia lhe disse para deixá-la assim tão furiosa? 

— Desejava ficar aqui com você no meu lugar. Ela acabou indo embora? 
— Mas é claro! Seria inútil continuar insistindo em ficar. Além disso, ela está 

acostumada  a  obedecer  ordens.  Não  é  como  você...  Cheguei  a  pensar  que  você 

estivesse perdida na mata. 

— Eu... 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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—  Não se atreva a repetir uma loucura dessas, está entendendo? 
— Pelo que vejo, esse privilégio é só seu, não é mesmo? Você pode sumir 

por semanas, meses ou até mais de um ano sem me dar a menor notícia, ao passo 

que  eu,  alguns  minutos  que  desapareça  das  suas  vistas,  torno-me  imediatamente 

motivo  para  confusão!  —  retorquiu  ela,  quase  afundando  na  areia,  por  ter  se 

esquecido de movimentar os pés. 

—  Que  lugares  estranhos  você  escolhe  para  discutir!  —  zombou  ele 

afetuosamente. 

—  Foi  você  quem  veio  aqui  atrás  de  mim,  lembra-se?  E  eu  não  estava 

discutindo,  apenas  expondo  o  meu ponto  de  vista.  Agora  pode entender  como me 

senti  quando  desapareceu?  Pode  imaginar  o  quanto  fiquei  preocupada  e  ansiosa, 

sem  ter  a  menor  idéia  de  onde  você  se  encontrava?  E  não  foi  só  por  uma  hora, 

não... Mas por dezesseis longos meses! 

— Era só ter perguntado a Peter. Ele sabia — afirmou Edmund, deitando-se 

de costas para boiar. 

— Foi o que fiz várias vezes! Mas ele sempre se esquivava, garantindo que 

você pedira para não me contar. Algum tempo depois, disse ignorar seu paradeiro 

tanto quanto eu. 

Ela começou a nadar de volta à praia. Edmund fez o mesmo, mantendo-se a 

seu  lado  até  atingirem  a  areia.  As  índias  então  aproximaram-se  de  Nancy  e, 

tomando-lhe  gentilmente  a  mão,  conduziram-na  para  trás  de  uma  árvore. 

Tranqüilamente ela se deixou levar pois pressentia algum tipo de homenagem. De 

fato, com humildade, as mulheres a enfeitaram com alguns colares e pulseiras feitos 

de sementes e penas coloridas. Em seguida, trouxeram-na novamente para o lado 

de Edmund, formando um círculo em volta deles. 

— Acho que elas estão esperando alguma manifestação da minha parte. 
— Talvez devesse pintar o rosto com tinta preta e vermelha e colocar penas 

nos cabelos — brincou Nancy, encabulada com aquela situação. 

— Gostaria mais de mim, assim?  
Surpresa  com  o  tom  suave  da  voz  de  Edmund  e  com  aquela  pergunta 

inesperada, Nancy sentiu o coração acelerado. 

— Não. Gosto de você desse jeito, como sempre foi! 
Edmund  inclinou-se  e  beijou-a  longamente  nos  lábios.  Pelo  resto  do  dia 

Nancy sentiu-se flutuando no mundo encantado dos sonhos! 

Voltaram  para  a  aldeia  acompanhados  pelas  índias  e  suas  crianças;  que 

caminhavam excitadas como se exaltassem um casal de noivos através da floresta 

fascinante. 

Um  dos  chefes,  que  falava  um  pouco  da  língua  deles,  conduziu-os  até  as 

cabanas, e Nancy teve a oportunidade de conhecer a maravilhosa arte daquela tribo. 

Conhecidos como "fazedores de potes", trabalhavam o barro com muita habilidade, 

produzindo peças de linhas harmoniosas e bastante decorativas. Alguns potes eram 

enormes  e  neles  serviam  mandioca  e  milho.  E  os  graciosos  cântaros  bojudos 

serviam  para  transportar  água.  Esculpiam  também  no  barro  algumas  figuras 

decorativas  como  jacarés  e  onças.  Fascinada  com  tanta  beleza,  Nancy  não 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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conseguia conter uma exclamação de surpresa a cada peça que lhe mostravam.  

—  Não  se  entusiasme  em  levar  muita  coisa  ou  vai  acabar  tendo problemas 

com a alfândega quando voltar à Inglaterra. — Apesar do aviso de Edmund, não foi 

possível  recusar  a  enorme  quantidade  de  presentes  que  haviam  recebido.  Depois 

apreciaram  um  suculento  peixe  assado  na  brasa  e  por  fim  foram  homenageados 

com uma demonstração de dança executada no terreiro, sob o clarão da lua cheia. 

Sentados  num  velho  tronco  de  árvore,  Nancy  e  Edmund  admiravam  os 

movimentos cadenciados dos incansáveis dançarinos ao som do tambor. Eram seis 

homens  vestindo  tangas  feitas  de  palha  amarela  e  usando  cocares  de  penas 

coloridas. Pulavam e batiam os pés no chão sob os olhares de admiração da platéia. 

Não resistindo àquela dança frenética e contagiante, uma criança juntou-se a eles, 

provocando  o  riso  dos  demais,  até  que  sua  mãe  a  pegou  no  colo  e  a  levou  para 

longe. 

Nancy estava tão hipnotizada pela beleza daquela apresentação que só bem 

depois  tomou  consciência  da  proximidade  de  Edmund:  a  coxa  forte  e  musculosa 

pressionava  a  sua  e,  subitamente,  aquele  contato  criava  um  clima  de  mistério  e 

magia.  Seu  coração  quase  explodiu  quando  ele  passou  o  braço  ao  redor  de  sua 

cintura, provocando-lhe uma deliciosa sensação. Num gesto extremamente sensual, 

ele pressionou os dedos em seu corpo, de maneira sugestiva, puxando-a para perto 

de si, para a cama — ele sussurrou com a voz rouca de desejo. 

— Sim, aliás, onde fica a cabana que nos foi oferecida? Você sabe qual é?  
—  Sim, fica do outro lado da clareira. 
—  Não  acha  melhor  avisá-los  de  que  vamos  nos  recolher?  Podem  ficar 

ofendidos se sairmos antes da dança terminar. 

—    Não  se  preocupe,  o  chefe  já  sabe  que  não  ficaremos  até  o  fim.  —  

Edmund sorriu com malícia, provocando em Nancy um arrepio de prazer. 

 — Ele foi muito compreensivo. Venha, vamos!                                                                                 
Segurando-a  pela  mão,  Edmund  a  conduziu  por  entre  as  cabanas, 

escolhendo os locais mais escuros para não serem vistos retirando-se. 

Estava  quente  e  abafado  dentro  da  cabana,  iluminada  apenas  pela  débil 

chama da lamparina à querosene. 

 — Oh!, só há uma rede! —  exclamou Nancy, desapontada ao olhar para a 

cama de tecido sob o cortinado de tule — É melhor voltarmos e pedirmos duas. 

— Não há necessidade — disse ele tirando a camisa — Esta aqui é grande o 

suficiente para nós dois. 

— Você quer dizer... 
Percebendo que ela estava indecisa, Edmund aproximou-se com um sorriso 

tentador e perguntou suavemente: 

— Pretende se deitar com estas roupas ou quer que eu a ajude a tirá-las? 
— Você tem certeza? - indagou ela desabotoando a blusa. 
— De quê? 
— De que deseja dormir comigo. A noite passada você... 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— Esqueça a noite passada — disse ele, bruscamente, enquanto pendurava 

as  roupas  de  Nancy  na  corda  da  rede  —  Nossa  maior  dificuldade,  como  sempre, 

será  deitar  neste  ninho  sem  deixar  entrar  esses  malditos  pernilongos.  Já  está 

pronta? 

— Estou. 
Com  movimentos  rápidos  e  precisos  Edmund  abriu  uma  pequena  fresta  do 

cortinado e ajudou-a a acomodar-se na rede. Para sua surpresa havia duas cobertas 

macias, feitas de algodão. Uma para forrar o leito e outra para se cobrirem. 

— Tire as botas e passe-as para mim — ordenou Edmund.  
De  repente,  como  se  não  tivesse  vontade  própria,    Nancy  obedecia, 

completamente  submissa,  às  instruções  que  Edmund  lhe  dava  com  calma  e 

naturalidade. 

Instalada  confortavelmente,  Nancy  sentia  a  maciez  do  tecido  de  encontro  à 

pele. Sua impressão era de que as batidas rápidas de seu coração ecoavam dentro 

da  cabana  como  o  som  dos  tambores  lá fora.  Ainda  doía-lhe  um pouco  a  cabeça, 

mas preferiu ignorar o ligeiro mal-estar. 

A rede era de fato bastante larga para acomodar duas pessoas bem juntas, 

uma  nos  braços  da  outra.  O  simples  pensamento  de  que  dormiria  ao  lado  de 

Edmund fez seu coração bater mais forte e sentir um desejo intenso queimando-lhe 

a pele. 

A  lâmpada  de  querosene  se  apagou,  deixando  no  ar  um  cheiro  acre  de 

fumaça, fazendo-a espirrar. 

—  Espero  que  esta  coisa  toda  não  despenque  no  meio  da  noite  —  disse 

Edmund rindo. 

Nancy  sentia  o  calor  das  pernas  fortes  de  encontro  as  suas,  e  um  arrepio 

percorreu-lhe o corpo todo quando ele passou os braços ao redor de seus ombros, 

aninhando-a no aconchego do peito másculo. 

— Está confortável? — sussurrou ele com ternura em seu ouvido. 
— Sim, obrigada. 
—  Sim,  obrigada!  Não,  obrigada.  Você  tem  sempre  que  ser  tão  educada 

assim? 

—  Não  posso  evitá-lo.  É  um  hábito  que  me  foi  incutido  na  escola  desde 

pequena. E por tia Marsha também. 

— Você a tem visto ultimamente? 
—  Não.  Ela  me  qualificou  de  um  caso  perdido  quando  não  dei  ouvidos  aos 

conselhos que me deu sobre você. 

— Ela a preveniu contra mim?! Quando? 
—  Naquele  dia  em  que  nos  conhecemos  em  Southleigh.  Tia  Marsha 

aconselhou-me a não me envolver com você e, quando me recusei, chamou-me de 

tola. 

Houve um breve silêncio antes que Edmund falasse novamente. 
— Talvez ela estivesse com a razão. Você estaria mais feliz agora se tivesse 

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 Selva de Prata   

 

 

 

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se  casado  com  um  homem  como  Peter.  Ele  faria  tudo  por  você,  estaria  sempre  a 

seu  lado,  construiria  um  verdadeiro  lar...  Não  compreendo  por  que  não  pediu  o 

divórcio ainda! 

— Eu não podia. Não sem vê-lo antes, Edmund. 
— Peter garantiu-me não ser necessário, uma vez que eu havia concordado 

com a separação. Prometeu manter-me informado sobre o andamento do processo. 

No entanto, não me mandou nenhuma notícia. 

— Escreveu a ele?! 
— Poucas vezes. Você sabe como sou quando se trata de correspondência... 
— E por que não me escreveu? 
Ele demorou alguns instantes para responder. 
—  Achei  que  não  queria  mais  saber  de  mim,  depois  do  que  aconteceu  — 

murmurou,  enrolando  entre  os  dedos  uma  mecha  dos  cabelos  de  Nancy.  —  Oh, 

Deus, se soubesse o quanto me sentia miserável... 

A sinceridade dele comoveu Nancy. 
— A culpa foi minha, Edmund. Confesso que estava amedrontada, mas não 

devia ter me comportado daquela forma. Não fiz nenhum esforço para me aproximar 

de você, para entendê-lo. Nós nos conhecíamos tão pouco e depois...  depois, Peter 

me fez acreditar que você provavelmente não me era fiel quando viajava. 

—  Peter.  Peter,  Peter!  Parece  que  ele  está  sempre  entre  nós.  Nós  nos 

comunicávamos  sempre  através  dele,  em  vez  de  falarmos  diretamente  um  com  o 

outro. 

—  Sei  disso.  Naquela  noite,  voltei  ao  apartamento  bem  mais  calma,  para 

dizer-lhe  o  quanto  estava  arrependida,  mas  você  não  voltou.  E  no  dia  seguinte 

também não... Oh! Edmund, foi horrível.  

As  lágrimas  rolavam  livremente  por  seu  rosto.  De  repente,  sentia-se  mais 

leve.  A  angústia  e  o  sofrimento  causados  por  tantos  meses  de  solidão  e  remorso 

pareciam  ter  desaparecido  como  por  encanto.  Enfim,  podia  falar  com  toda 

sinceridade, abrir seu coração, admitir sua culpa por ter agido tão imaturamente. 

Aquele era um momento mágico, o tempo havia parado e nada mais existia. 

Edmund a estreitava nos braços, murmurando palavras de ternura e compreensão. 

Beijou-a carinhosamente a princípio, para em seguida tornar-se mais exigente, cheio 

de desejo e paixão. Os lábios dele desciam-lhe pelo pescoço, sugando-o, enquanto 

as  mãos  deslizavam  pela  pele  macia  de  suas  coxas.  Fechando  os  olhos,  Nancy 

limitou-se a gozar aquelas carícias ardentes que reavivavam cada centímetro de seu 

corpo. 

 — Nancy... você sabe que eu a quero, mas tem certeza de que também me 

deseja? Não pretendo assustá-la novamente.  

Nancy apertou-se contra ele, queimando de desejo.  
—  Oh,  sim,  por favor,  Edmund, faça  amor comigo.  Agora, meu  bem! Tenho 

esperado  tanto  por  esse  momento...  Há  muito  tempo!  Foi  por  isso  que  vim  para  o 

Brasil, porque quero ficar a seu lado, amá-lo e ser amada.  

Edmund  então  não  esperou  mais.  Com  uma  ânsia  febril,  buscou  os  seios 

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 Selva de Prata   

 

 

 

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macios,  aprisionando  os  bicos  duros  e  eretos  em  sua  boca,  fazendo-a  gemer  de 

prazer. Pouco a pouco, foi percorrendo os lábios por todo o corpo macio de Nancy, 

que se debatia, suplicando que ele a possuísse. 

Num movimento rápido, Edmund puxou-a para cima dele. Os longos cabelos 

de Nancy formavam uma cortina de seda sobre seu rosto. Segurando-a firmemente 

pelas  nádegas  redondas  e  sensuais,  ele  a  penetrou  com  sofreguidão,  levando  ao 

delírio aquele corpo ardente. 

Naquela noite ela amou e foi amada de uma maneira diferente. O balanço da 

rede com seu ritmo indolente, o soar dos tambores numa cadência perfeita, os sons 

misteriosos  que  ecoavam  da  floresta...  tudo  os  envolvia  numa  sinfonia  mágica  e 

exótica, acompanhando-os naquela dança febril cujos passos, jamais ensaiados mas 

plenos de harmonia, os conduziam ao clímax do prazer. 

 
CAPÍTULO VII 
Sem  entender  o  que  estava  acontecendo,  Nancy  despertou  com  terríveis 

pontadas  no  abdome,  que  a  faziam  contorcer-se  e  encolher  as  pernas  de  dor.  Lá 

fora,  o  estrondo  de  um  trovão  anunciava  uma  tempestade.  Tentando  ignorar  a 

ambos,  movimentou  o  corpo  suavemente,  procurando  distrair-se  com  o  vaivém  da 

rede. A seu lado, Edmund dormia, com a cabeça apoiada em seu peito, totalmente 

relaxado e entregue a um sono profundo. Nancy sorriu para si mesma. Ah, que noite 

maravilhosa! Valia a pena o braço adormecido e doído só pelo prazer de ter Edmund 

junto a si. Apesar do pouco espaço, tinha de admitir que aquele reencontro, pleno de 

harmonia  e  prazer,  não  deixara  nada  a  desejar.  Pena  não  ter  sido  sempre  assim, 

desde  o  primeiro  dia  em  que  chegara  ao  Posto  Diauarum.  Mas...  Edmund  estava 

certo.  Precisaram  de  tempo  para  esquecer  e  perdoar  os  erros  de  ambos.  Haviam 

sido  ingênuos  em  acreditar  em  Peter,  cujo  ciúme  doentio  quase  destruíra  aquele 

casamento. Era preciso que, dali para frente, tivessem um relacionamento baseado 

na confiança mútua, removendo os possíveis obstáculos que sur-gissem. 

Um novo clarão iluminou o interior da cabana e Nancy estremeceu de pavor. 

A  dor  continuava  intensa,  mas,  agora,  vinha  acompanhada  de  náuseas 

insuportáveis.  Tinha  de  levantar-se,  e,  não  querendo  acordar  Edmund,  retirou  o 

braço com cuidado. Ergueu-se lentamente, procurando sair da rede sem movimentá-

la.  Não  houve  tempo  para  vestir-se  ou  calçar  as  botas,  e  apenas  jogou  a  camisa 

sobre os ombros e correu descalça para fora da cabana. 

Um raio iluminou o caminho e ela divisou facilmente uma árvore sob a qual se 

escondeu.  Bem  mais  agradável  seria  se  estivesse  no  Posto  Diauarum  com  o 

conforto de um banheiro, coisa que mais necessitava naquele momento. 

Tremendo  de  frio  e  de  fraqueza,  segurou-se  num  galho  para  não  cair.  Sua 

cabeça  latejava  tanto  que  ela  mal  conseguia  ver  ou  raciocinar.  Um  pouco  mais 

aliviada,  pensou  em  voltar  para  junto  de  Edmund,  mas  foi  outra  vez  invadida  por 

uma onda de enjôo. 

Depois  de  várias  tentativas,  retornou  cambaleante  sob  a  chuva  forte  que 

enfim desabava. 

—  Onde  esteve?!  —  perguntou  Edmund,  assustado,  quando  a  viu  toda 

molhada e muito pálida. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

67

— Eu... eu estou mal. 
Ele  se  levantou  rapidamente,  pegou  um  dos  cobertores  para  aquecê-la  e 

deitou-se com ela, envolvendo-a nos braços. 

— Esteve indisposta o dia todo, não é? 
— Sim. Acordei muito enjoada e com dor de cabeça. 
— Então, por que insistiu nesta viagem?! 
— Eu... eu queria estar com você. Foi a primeira vez que me convidou e... eu 

não podia recusar só por causa de uma indisposição à toa. 

—  De  qualquer  forma  foi  uma  imprudência  de  sua  parte.  Só  a  convidei 

porque, caso contrário, Carlos o faria. Aliás, para ser sincero, eu tinha pressentido 

alguma coisa errada em você há muito tempo. 

— Por outro lado, se eu não estivesse aqui, nós não... Ai, a dor está voltando! 
Edmund a estreitou mais procurando confortá-la. 
— Foi um erro não ter deixado você ir embora com Carlos, em vez de Sônia. 
— Ela está apaixonada por você. 
— Como sabe?! 
— Ela mesma me confessou. E mesmo que não o fizesse, qualquer um teria 

percebido pela maneira como o recebeu no Posto Leonardo. 

—  Ora,  que  bobagem!  Aquilo  foi  apenas  um  abraço.  As  pessoas  daqui 

sempre se cumprimentam desta forma quando se encontram. 

—  E  o  que  me  diz  do  jantar  no  Rio  de  laneiro,  em  casa  dos  pais  dela?  E 

também não sou cega:  vi o seu entusiasmo ao conversar com ela ontem à noite. 

— Quis apenas ser educado. Na verdade, mal ouvia o que ela falava. — Ele 

deu  uma  risadinha.  —  Estava  ocupado  demais  observando  você  e  Carlos.  Pela 

maneira  como  ele  a  monopolizou  até  pareciam  velhos  amigos  se  reencontrando. 

Teve até a petulância de beijar a sua mão ao dizer-lhe boa-noite! 

— Como sabe? Você nem estava lá. 
— Pois está enganada. Eu me encontrava bem atrás de vocês. 
— Pensei que tivesse saído com Sônia. 
— Não. Fiquei conversando com Carlos depois que você foi se deitar. 
— Ele é muito gentil. 
— Está insinuando que eu não sou? 
—  Para  falar  francamente,  com  os  outros  você  é,  mas  comigo  não.  É  por 

causa de Sônia que não quer voltar para a Inglaterra, não é? Responda, Edmund, 

eu preciso saber... 

Ele pousou a mão sobre a testa de Nancy. 
— Você está com febre. 
—  Minha  pele  está  ardendo  e  sinto  a  boca  seca.  Por  favor,  arranje-me  um 

pouco d’água e me diga o que deseja de mim. Por favor, por favor... diga-me! 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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— Você está delirando e não sabe o que diz, Nancy. 
— Sei sim — afirmou ela, desesperada. Era preciso fazê-lo entender o conflito 

em  que  estava  vivendo.  —  A  verdade  é  muito  importante  para  mim,  Edmund! 

Preciso saber antes de voltar à Inglaterra. 

— Saber o quê? Não estou entendendo. 
—  Se  quer  realmente  o  divórcio  para  casar-se  com  Sônia.  Ah,  Edmund, 

aonde vai? — perguntou ela, aflita, sentando-se na rede. 

—  Arranjar  um  remédio  para  abaixar  a  sua  temperatura  e  outro  para  aliviar 

essa dor. Não me demoro. 

Extenuada,  ela  se  deitou  novamente.  Tudo  girava  à  sua  volta,  e  ela  não 

enxergava mais nada. Sentiu alguém segurar o seu braço mas, apesar do esforço, 

não  conseguiu  identificar  quem  era.  A  cabeça  tombou  para  trás  e  perdeu  a 

consciência. 

Quando  voitou  a  si,  estava  sendo  carregada  numa  improvisada  maca,  feita 

com uma rede presa a duas hastes de madeira. Ao seu redor o luxuriante verde das 

bananeiras  desenhava  figuras  exóticas  sob  o  azul  do  céu.  No  momento em  que a 

colocaram no chão, um rosto surgiu à sua frente, exibindo um par de olhos negros e 

um largo sorriso afetuoso. Era Carlos. 

— Bom dia, Nancy, está melhor? Pena ter ficado doente, mas ainda bem que 

acordou. Está em condições de subir no avião com a minha ajuda? 

— Onde está Edmund? 
— Estou aqui — respondeu ele, segurando-lhe a mão. 
Ela  o  olhou  com  ternura.  Apesar  da  pele  bronzeada,  Edmund  tinha  um 

aspecto  abatido,  com  olheiras  profundas.  Luís  havia  lhe  contado  que  ultimamente 

ele se cansava com facilidade e que estava precisando de umas férias. 

— Edmund, você devia dormir um pouco. Está muito pálido. 
— Não se preocupe, Nancy, farei isso quando chegarmos ao Posto Diauarum. 

Aliás, você também irá para a cama. Agora deixe-me ajudá-la a levantar-se. 

Mover-se  exigia  tamanho  esforço  que  Nancy  jamais  o  teria  conseguido  sem 

os braços fortes do marido. 

— Estou péssima, Edmund. Vejo tudo rodando à minha volta. 
— Está dopada, querida. Dei-lhe uma injeção ontem à noite para aliviar a dor. 

Mas  você  logo  ficará  boa,  não  se  preocupe.  Agora  vou  erguê-la  e  passá-la  para 

Carlos. Ele a acomodará no banco de trás. 

Dentro do avião, Edmund sentou-se ao lado de Nancy. Mesmo sob o efeito do 

remédio, ela pôde ver vagamente os índios acenando-lhes em despedida. Gostaria 

de ter se despedido pessoalmente daquele povo tão simpático e acolhedor, porém 

mal  conseguia  erguer  a  mão  para  lhes  responder.  Ao  se  distanciarem  da  clareira, 

seus olhos se turvaram e ela mergulhou novamente num estado de inconsciência. 

Quando Nancy acordou estava deitada em sua cama, no pequeno quarto do 

Posto  Diauarum.  A  luz  estava  acesa  e  já  havia  escurecido.  Aninhando-se  no 

aconchego  dos  lençóis  limpos  e  macios,  uma  deliciosa  sensação  de  conforto  a 

invadiu. Alguém a vestira com uma das camisolas de algodão que deixara em sua 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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mala antes de partir para o Posto Leonardo. Subitamente um ruído de papel chamou 

sua atenção para a pequena mesa na qual Edmund escrevia, muito concentrado. 

— O que está fazendo, Edmund? — ela perguntou. 
— Olá! Finalmente acordou. Estou redigindo o resultado da minha pesquisa. 

— Ele se levantou e foi sentar-se à beira de sua cama. — Como se sente? 

— Tenho a impressão de ter emagrecido uns dez quilos. É como se estivesse 

vazia por dentro, como naquele dia em que perdi o bebê. 

Ele ficou pálido e a olhou incrédulo. 
—  Que  bebê?!  —  perguntou,  segurando-a  pelos  ombros.  Assustada  com 

aquela reação inesperada, Nancy não conseguia responder. 

— Vamos, Nancy, me diga! Que bebê?! 
— O... o nosso. 
— Não posso acreditar... 
—  Oh,  Edmund,  sinto  muito  não  ter  lhe  dito  antes.  Ele  nasceu  prematuro, 

viveu apenas algumas horas. 

— Mas por que diabos não me contou? Vamos, fale por que não contou, eu 

preciso saber!   

— Eu tentei, juro. Deus sabe como eu o procurei para lhe contar tudo, mas 

ninguém sabia me informar sobre seu paradeiro! Recorri à Cruz Vermelha e àquele 

Instituto  para  o  qual  você  trabalha,  entretanto  também  nada  sabiam.  Deram-me 

apenas um endereço em Hampshire, para onde eu escrevi, mas... 

— Peter sabia onde eu me encontrava. 
—  Sim,  mas  de  que  adiantaria?  Já  disse  a  você,  ele  se  recusava  a  me 

revelar.  Sempre  que  eu  tocava  no  assunto,  alegava  não  poder  contrariar  a  sua 

vontade  de  se  manter  escondido,  e  oferecia-se  para  levar  o  meu  recado  a  você. 

Quando percebi suas verdadeiras intenções, insistindo em realizar o nosso divórcio, 

afastei-me dele definitivamente, ocultando-lhe a minha gravidez. É verdade que você 

lhe pediu para não me dizer onde se encontrava? 

Com o rosto contraído de dor, Edmund balançou a cabeça de um lado para o 

outro, negativamente. Em seguida, levantou-se e foi até a janela, permanecendo de 

costas para Nancy. 

—  Apenas  pedi  para  me  comunicar  sobre  a  sua  decisão  a  respeito  do 

divórcio. Jamais exigi segredo quanto à minha vinda para o Brasil. — Ele se voltou 

para  ela  com  um  olhar  acusador  —  Se  eu  soubesse,  teria  voltado  imediatamente 

para  o  seu  lado  e  cuidado  de  você...  Quem  sabe  nem  tivesse  perdido  o  bebê... 

Quando  lhe  perguntei  outro  dia  se  havia  ficado  doente  você  me  respondeu  muito 

vagamente que sim. Estava se referindo ao bebê? 

Nancy  meneou  a  cabeça,  concordando.  Muito  fraca  e  com  medo  de  falar, 

surpreendia-se  com  aquela  atitude  de  Edmund,  de  tanta  mágoa  e  pouca 

compreensão. 

Outra  vez  Edmund  a  fitou  como  se  a  odiasse  por  ter  escondido  dele  a  sua 

gravidez. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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—  E  ainda  por  cima  teve  a  coragem  de  me  dizer  que  não  era  do  meu 

interesse! Por que não me falou a verdade quando lhe perguntei? A criança também 

me pertencia, era uma parte de mim... 

—  Eu  não  podia.  Você  já  havia  me  recebido  com  tanta  hostilidade    quando  

cheguei  que  poderia  pensar  tratar-se  de uma chantagem emocional para forçá-lo 

a voltar para mim. Nunca imaginei que pudesse ficar tão magoado! 

—  Magoado?!  Afinal, o  que  você  pensa  de  mim?!  Que  sou feito de  pedra?! 

Sou  um  ser  humano  e  tenho  tanta  sensibilidade  quanto  você.  Não  devia  ter 

escondido  de  mim  algo  tão  importante  para  nós  dois.  —  Ele  se  interrompeu  e  a 

olhou  com  um  sorriso  cínico  —  Talvez  o  seu  conceito  sobre  a  importância  de  um 

filho seja diferente do meu... Quem sabe até não desejasse esse bebê! — Dito isso, 

retirou-se batendo a porta com violência. 

Com o rosto banhado em lágrimas, Nancy permaneceu imóvel na cama, com 

a sua dor, até adormecer. 

Quando  acordou,  o  sol  já  havia  nascido  e  os  periquitos  em  algazarra 

matraqueavam  empoleirados  nos  caibros  do  terraço.  No  banheiro,  o  som  da  água 

escorrendo era acompanhado pelo assobio de Edmund. A cama dele estava desfeita 

e, sobre ela, a mala aberta com suas roupas espalhadas por todo lado: camisas e 

calças sujas amarrotadas e bem gastas. Era a alta moda da selva! 

Nancy sorriu enternecida, desejou ir até o rio e lavar tudo, como havia visto as 

índias fazerem. Desceu de sua cama e pôs-se a examinar as roupas dele com mais 

cuidado.  Realmente  estavam  em  mísero  estado;  quase  todas  rasgadas  e  puídas, 

precisando dos cuidados de mãos femininas. 

— Estou vendo que não posso me afastar nem por um minuto sem que você 

invente logo alguma novidade. Volte para a cama imediatamente, ainda não está em 

condições de se levantar! 

— Eu estou ótima. As suas roupas é que estão péssimas. 
— E daí? 
Vestindo  apenas  um  jeans  desbotado  e  muito  justo  que  lhe  colocava  em 

evidência  as  coxas  musculosas,  Edmund  parecia  lindo  como  um  deus,  mas  frio  e 

arrogante  como  um  demônio.  O  peito  atlético  coberto  de  pêlos  ainda  molhados 

revelava  sua  virilidade.  Com os  olhos  gelados  e  um  sorriso  irônico,  ele  continuava 

olhando-a. 

—  Deixe  isso!  —  ordenou  bruscamente  quando  ela  dobrava  uma  de  suas 

camisas. — Não precisa arrumá-las. 

— Não me custa nada! Afinal, sou sua esposa e tenho esse dever. 
—  Como  minha  esposa  deveria  ter  me  acolhido  com  amor  há  dezesseis 

meses atrás e me contado sobre o nosso filho. Agora volte para a cama, sra. Talbot! 

— Oh, Edmund não me olhe assim, por favor. Você parece estar sempre me 

acusando, mas não imagina como estou sofrendo pelo que aconteceu. Sinto muito. 

Realmente! 

—  Me  lembro  de  ter  feito  o  mesmo  apelo  a  você  uma  vez...  Deite-se  logo, 

vamos! 

—  Mas a sua camisa... Está bem — ela cedeu por fim. — Sua camisa está 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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sem nenhum botão. 

— Claro. Você arrancou todos na outra noite, lembra-se? — Ele vestiu outra 

camisa mais apresentável, enquanto Nancy agora deitada, pôs-se a observá-lo. 

— Você tem idéia do que me causou esse mal-estar? — ela perguntou-lhe. 
—  Provavelmente  a  carne  de  porco-do-mato.  É  um  alimento  muito  forte  e 

gorduroso e às vezes causa problemas em quem não tem o hábito de comê-lo. Está 

com fome? 

— Ainda não. 
Edmund  lhe  falava  de  maneira  fria,  quase  brusca.  Seria  possível  que  já 

houvesse esquecido da noite passada a seu lado, na rede? Provavelmente não tinha 

significado  nada  para  ele,  a  não  ser  o  prazer  físico  desprovido  das  emoções 

profundas  sentidas  por  ela.  Ah!,  como  desejava  que  ele  se  sentasse  a  seu  lado, 

segurasse  sua  mão  e  a  beijasse  com  ternura!  Sentia-se  a  mais  carente  das 

criaturas, ansiando por um pouco de carinho e de conforto num momento de aflição. 

Parecendo  adivinhar  os  seus  desejos,  Edmund  foi  sentar-se  à  beira  de  sua 

cama,  segurando-lhe  a  mão.  Mas,  para  seu  desapontamento,  sua  intenção  era 

apenas tomar-lhe o pulso. Alheio à sua angústia e muito sério, ele mantinha o olhar 

fixo no relógio, concentrado na contagem das batidas. 

— Está tudo bem agora, mas aconselho-a a comer alguma coisa senão ficará 

muito fraca. Mas não exagere! No começo, nada de arroz e feijão, apenas uma sopa 

de mandioca ou um caldo leve. Amanhã mesmo você embarcará para o Rio, de volta 

à civilização. 

Uma sensação estranha percorreu-lhe a espinha. 
— Você não volta comigo?! 
—  Não!  —  respondeu  ele,  terminando  de  guardar  suas  coisas  na  mala  — 

Estou indo para a ilha do Bananal com Manuel, partiremos daqui a cinco minutos. 

— Mas por que precisa voltar para lá?! 
— Alguém avisou Luís sobre um surto de gripe entre as tribos da ilha. Embora 

seja  uma  doença  banal  para  nós,  para  os  índios  ela  é  fatal  e  muitos  já  estão 

morrendo. 

— Leve-me com você, Edmund, por favor! 
— Não. O avião da Força Aérea chega amanhã e você e Rita partirão nele. Já 

está  tudo  arranjado.  Ela  deseja  rever  os  filhos  e  a  convidou  para  hospedar-se  em 

sua casa até recuperar-se. Será ótimo para você, pois precisa de repouso. 

— Você também está precisando. Não há outro médico que possa substituí-lo 

nesta viagem? Talvez a dra. Meirelles? 

— Ela também vai — disse ele, secamente. — Agora preciso ir pois estão me 

esperando. Você vai ficar melhor indo com Rita para beira-mar. 

Desesperada, Nancy levantou-se e segurou-o pelo braço com força, tentando 

impedí-lo. 

— Mas eu é quem deveria acompanhá-lo, e não Sônia! 
— Mas eu não a quero junto de mim — disse ele, afastando-a de si. — Agora 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

72

volte para a cama. 

A crueldade daquelas palavras a fez cambalear com uma pontada de dor no 

estômago. Percebendo sua intensa palidez, Edmund, aflito, largou imediatamente as 

malas no chão para poder ampará-la. 

—  Parece  que  a estou  sempre magoando, não é,  Nancy?  Escute,  eu  tenho 

que ir! Sou um médico e meu dever é atender essa gente ou qualquer ser humano 

que necessite de mim. Seria o mesmo se morássemos na Inglaterra, eu sempre teria 

de deixá-la quando fosse chamado. 

—  Mas  aqui  é  diferente,  Edmund.  Eu  poderia  ir  com  você.  Se  gostasse 

mesmo  de  mim  não  me  impediria,  mas  você  não  me  ama,  jamais  me  amou  de 

verdade! 

Edmund se irritou novamente. 
—    Não  posso  mais  perder  tempo  com  discussões.  Não  percebe  que  é 

arriscado levá-la para a ilha nestas condições? Você poderia pegar malária e eu me 

sentiria  responsável  se  algo  de  grave  lhe  acontecesse.  Quanto  à  sua  acusação 

sobre meus sentimentos, posso usar o mesmo argumento: se tivesse amor por mim, 

me deixaria partir, sem todo este espalhafato — ele sorriu com ironia. — Parece que 

já passamos por isso antes, não é verdade? 

Ele pegou as malas e dirigiu-se novamente para a porta, sendo seguido por 

ela. 

— Quando o verei outra vez? 
— Não sei. Talvez dentro de uma semana. Irei para o Rio assim que houver 

uma possibilidade. 

— Meu vôo para Londres está marcado para a próxima quarta-feira. Também 

tenho um trabalho lá, você se lembra? 

—  Tentarei  chegar  antes  de  sua  partida,  mas  não  prometo  nada.  Tudo  é 

muito  imprevisível  neste  país,  principalmente  em  relação  às  datas.  —  Ele  abriu  a 

porta e antes de sair dirigiu um olhar bastante significativo para Nancy. — Se você 

realmente me ama, ficará esperando por mim no Rio. 

Dez minutos mais tarde, Nancy ouviu o ruído do avião decolando. Imersa em 

seus próprios pensamentos, só percebeu a presença de Rita quando ela se sentou a 

seu lado na cama. Ao ver a tristeza de Nancy, a amiga procurou consolá-la com pa-

lavras de carinho, embora tivesse o rosto banhado em lágrimas.  

— Manuel e eu sempre choramos quando nos despedimos — Rita justificou-

se,  comovida.  —  Mas  você  e  Edmund  são diferentes  de  nós:  ambos  estão  tristes, 

mas procuram não demonstrar o sofrimento que lhes causa o adeus, não é mesmo? 

Nancy balançou a cabeça, ensaiando sorrir, entretanto não pôde. 
— Pedi tanto a Edmund que me levasse à ilha, mas ele se recusou a fazer 

isso. Tenho certeza de que foi por causa de Sônia. 

— Ora, que absurdo você está dizendo! — Rita pousou a mão sobre a testa 

de Nancy, como se consultasse a sua temperatura. — Não!...   Você não está com 

febre, no entanto está delirando! 

— Não estou delirando, não. Edmund não me ama, ele... 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

73

—  Como  pode  pensar  dessa  forma  depois  de  toda  essa  preocupação  com 

você?  Só  não  permitiu  que  o  acompanhasse  com  receio  de  que  você  adoecesse 

outra vez. 

— É engano seu! Edmund se preocupa com todos os seus pacientes. Ele não 

me ama e nunca me amou. O que sentiu por mim foi apenas uma atração física, por 

isso apreciou os momentos de prazer que tivemos juntos. Na verdade, ele só ama o 

seu trabalho. 

O olhar de Rita era de compreensão quando apoiou a mão sobre o ombro de 

Nancy, num gesto amigo. 

—  Eu  entendo  a  sua  desconfiança.  Mas,  olhe...  Manuel  não  é  diferente  de 

Edmund,  não!  No  fundo,  os  homens  são  todos  iguais...  Sempre  respondendo 

evasivamente às nossas perguntas! Quando ele volta? Não sei. Agora só me resta 

esperar — Rita sorriu, com paciência. — O que mais se pode fazer, não é mesmo? 

— Sim, mas... 
Ela colocou um dedo sobre os lábios de Nancy. 
—  Nem  mais,  nem  menos...  Agora  você  vai  se  alimentar  um  pouco.  Está 

muito  deprimida,  e  se  sentirá  melhor  quando  tomar  uma  sopinha  leve  e  depois 

dormir um pouco. 

— Estou sem fome. 
— Eu sei, mas é preciso. Amanhã voaremos para o Rio, e lá vamos passear e 

nos  distrair  bastante  enquanto  nossos  maridos  não  chegam.  Está  bem?  —  Ela  se 

levantou e, com um ar maroto, deu uma piscada para a amiga. — Não se preocupe 

com Sônia, Edmund jamais trocaria você por ela! Agora, vou preparar alguma coisa 

para comermos. 

Embora  mais  animada  pelas  palavras  de  Rita,  Nancy  ainda  se  sentia 

insegura. Edmund viajara magoado com o que ela lhe contara sobre o bebê e isto a 

preocupava. Lembrava-se de uma vez em que ele partira, depois de uma discussão, 

e da angústia que sofrera, temendo não vê-lo mais. Todavia Edmund retornara. Mas 

ela não se encontrava em casa, e sim passeando o dia todo em companhia de outro 

homem!  Como  estava  arrependida! Sem  dúvida,  Peter  também fora  o  responsável 

pelos  desentendimentos  entre  ela  e  Edmund.  Entretanto,  apesar  de  tudo,  quase 

tiveram a chance de uma segunda lua-de-mel. Seria possível que agora deixasse os 

ciúmes  de  Sônia  arruinarem  aqueles  momentos  tão  felizes?!  Faria  a  tolice  de 

permitir a intromissão de uma terceira pessoa entre eles outra vez?! Não iria cometer 

os mesmos erros do passado. Sônia que fosse para o inferno! Confiaria em Edmund, 

seu marido, e esperaria por ele, não importando o quanto demorasse. 

Com os olhos cheios de lágrimas, Nancy recebeu os presentes das mãos de 

índios da tribo com a qual convivera no Posto: pentes feitos de madeira, cestas de 

palha  e  até  uma  daquelas  faixas  coloridas  igual  à  que  Edmund  usava.  Todos  lhe 

pareciam bem mais valiosos do que os caramelos, sabonetes e cigarros distribuídos 

por ela. 

Sua aventura na selva chegava ao fim. Porém não estava segura quanto ao 

resultado.  Conseguira  encontrar  Edmund,  mas  ainda  não  tinha  a  certeza  do  seu 

amor.  Haviam  se  despedido  às  pressas  e,  considerando  seu  estado  de  espírito 

bastante perturbado ao partir para a ilha do Bananal, era impossível fazer qualquer 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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suposição. 

Chegaram a Brasília momentos antes de tomarem um vôo regular para o Rio 

de  Janeiro,  onde  a  irmã  de  Rita,  Maria  Martins,  as  aguardava  em  companhia  dos 

sobrinhos. O reencontro entre mãe e filhos foi maravilhoso e Nancy não pôde deixar 

de comover-se vendo-os abraçarem-se com tanta euforia. 

No pequeno carro de Maria, dirigiram-se para a residência de seus pais, do 

outro  lado  da  cidade.  Durante  o  trajeto,  Nancy  ficou  entusiasmada  com  a  beleza 

exótica  e  deslumbrante  daquela  cidade  maravilhosa.  Estranhou  o  trânsito 

intempestivo  do  Rio  de  Janeiro,  bem  diferente  do  trânsito  calmo  e  controlado  de 

Londres. Arrepiava-se, assustada com a impressão de que fossem bater a qualquer 

momento. Maria, no entanto, permanecia tranqüila, conversando e rindo com a irmã 

enquanto dirigia, como se estivesse sozinha na pista. 

A  casa  dos  pais  de  Rita,  situada  num  dos  bairros  mais  elegantes  do  Rio, 

ficava  no  alto  de  um  morro,  bem  de  frente  para  o  mar.  Rodeada  por  um  imenso 

jardim, possuía a fachada toda em arcos, no estilo Mediterrâneo. 

Rita explicou a Nancy não poder apresentar-lhe o sr. e a sra Martins porque 

eles estavam viajando e só retornariam no Carnaval, dali a duas semanas. Assim, 

foram recebidas por Dalva, a governanta, uma mulher morena, gorda e sorridente, 

que usava um uniforme cor-de-rosa com detalhes com organdi branco. 

O calor intenso e a longa viagem deixaram Nancy ansiosa por um bom banho, 

antes  de  descansar  um  pouco.  Como  que  adivinhando  seus  pensamentos,  Rita 

conduziu-a ao quarto de hóspedes no andar de cima. O aposento era muito bonito e 

amplo, guarnecido por duas camas de solteiro, um pequeno terraço com vista para o 

mar, e um banheiro privativo. 

Mergulhando  o  corpo  cansado  na  água  morna  da  banheira,  Nancy 

abandonou-se  ao  prazer  de  um  banho  demorado  e  reconfortante.  Ali,  envolta  pela 

espuma perfumada, pensou em Edmund enfrentando o calor da ilha e importunado 

pelos  mosquitos.  Comparado  ao  desconforto  da  selva,  ela  se  sentia  agora  no 

paraíso. 

Desfez  a  mala  que  havia  deixado  em  Brasília  quando  viajara  para  o  Posto 

Diauarum. Depois, escolheu uma saia de algodão estampada de verde e azul e uma 

camiseta  branca  sem  mangas.  Ao  olhar-se  no  espelho,  foi  invadida  por  uma 

sensação de desânimo: estava muito magra e abatida. Nem mesmo a maquilagem 

disfarçava as olheiras e a palidez de seu rosto. 

—  Alguns  dias  aqui  e  você  estará  em  forma  outra  vez,  Nancy  —  disse-lhe 

Rita,  sorrindo,  enquanto  jantavam.  —  Iremos  à  praia  todos  os  dias  e  nos 

bronzearemos  ao  sol.  Garanto-lhe  que  será  o  suficiente  para  lhe  abrir  o  apetite. 

Pretendo levá-la para conhecer os nossos principais pontos turísticos: o Corcovado, 

o Pão de Açúcar e outros lugares lindos! Quando menos esperar, Edmund e Manuel 

já estarão de volta, você vai ver! 

Nos dias seguintes Nancy mal teve tempo de respirar, pois Rita cumpriu sua 

palavra  à  risca.  Excursionaram  por  todos  os  recantos  da  cidade,  desde  os  mais 

elegantes até os mais pobres e simples. 

À medida que o fim de semana se aproximava, Nancy foi ficando tensa outra 

vez.  "Será  que  Edmund  chega  na  quarta-feira?",  ela  se  perguntava  na  calada  da 

noite,  sozinha  em  seu  quarto.  Não  conseguia  pensar  em  outra  coisa,  embora 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

75

procurasse concentrar-se no texto que estava redigindo para a sua revista. 

Enfim  chegou  o  dia  tão  esperado!  Animada,  Nancy  levantou-se  cedo, 

arrumou-se toda e foi para a cidade, com Rita, fazer algumas compras. Depois de 

almoçarem num ótimo restaurante, cuja especialidade eram frutos do mar, voltaram 

para  casa.  Procurando  manter-se  tranqüila,  Nancy  suportava  cada  minuto  daquele 

dia interminável, tentando não se deixar dominar pela aflição da espera. 

À tardezinha, resolveu levar as crianças até a praia, procurando distrair-se e 

relaxar  banhando-se  nas  ondas  frias  do  mar  até  quase  anoitecer.  Ao  retornar  à 

mansão,  entrou  esperançosa,  certa  de  que  seria  recebida  por  Edmund  e  Manuel. 

Mas não havia ninguém e também nenhuma chamada telefônica fora feita para ela. 

A  tão  ansiada  quinta-feira  chegou,  mas  foi-se  embora  sem  que  os  homens 

dessem a menor notícia. Nancy cancelara o vôo para Londres e telegrafara a Ben 

explicando o motivo de ter adiado a viagem: esperar Edmund. 

O  dia  seguinte  amanheceu  mais  quente  e  abafado  do  que  qualquer  outro 

desde  sua  chegada  ao  Rio.  Triste  e  melancólica,  Nancy  sentou-se  à  mesa  para 

tomar o café da manhã, sem ânimo nem mesmo para cortar o pão. 

— Ora, o que é isso, Nancy? Não fique tão deprimida, eles logo estarão de 

volta — Rita tentou reanimá-la com um sorriso. 

— Hoje vamos a Petrópolis visitar os pais de Manuel. 
— E onde fica Petrópolis? 
— Nas montanhas. O clima lá é bem mais fresco e você se sentirá em seu 

ambiente. Além do mais, será ótimo para fazer o tempo passar mais depressa: tanto 

para mim, quanto para você. 

— E se por acaso eles chegarem enquanto estivermos fora? Edmund poderá 

pensar  que  eu  voltei  para  a Inglaterra na  quarta-feira,  conforme estava  marcada a 

minha passagem. 

— Não se preocupe. Dalva lhes dirá para onde fomos e quando voltaremos... 

— Rita sorriu e deu uma piscada marota —  e, para variar, desta vez "eles" ficarão à 

nossa espera. O que acha? 

Nancy ficou alguns instantes pensativa. Talvez Rita estivesse com a razão. A 

viagem ajudaria a distraí-las e, desde que Dalva os avisasse, não havia motivo para 

preocupação. 

Assim,  mais  uma  vez  Nancy  abandonou-se  ao  prazer  de  desvendar  as 

belezas  daquele  país  cuja  grandeza  parecia  não  ter  limites.  A  casa  dos  pais  de 

Manuel  era  muito  rústica  e  sem  luxo.  Encravada  na  montanha  verdejante,  dava  a 

impressão  de  um  velho  chalé  inglês,  o  que  a  deixou  fascinada.  As  duas  amigas 

dormiram ali, naquela noite, e passaram quase todo o dia seguinte com a mãe de 

Manuel, que insistia para que ficassem pois queria usufruir a companhia dos netos 

por mais tempo. No sábado chegaram finalmente ao Rio, quase na hora do jantar: 

Nancy  subiu  ao  seu  quarto,  ansiosa  para  estar  sozinha.  Mais  dois  dias  haviam  se 

passado  e  nada  de  Edmund!  Quanto  tempo  ainda  teria  de  esperar  por  ele? 

Procurando não se atormentar mais com perguntas inúteis, ela tomou um demorado 

banho de chuveiro. Escolheu um elegante vestido de malha verde de gola alta, para 

a  noite,  que  lhe  caía  perfeitamente  bem,  modelando  seu  corpo  e  acentuando  as 

suaves linhas dos quadris e das coxas. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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Os  dias  de  descanso  e  lazer  haviam  embelezado  os  traços  do  rosto  e  ela 

exibia  um  bronzeado  intenso  nos  ombros  nus  e  nas  pernas  bem  torneadas, 

reveladas  pela  fenda  do  vestido.  Sandálias  brancas  e  confortáveis  completavam  o 

traje descontraído. Ao descer as escadas, Nancy ouviu vozes na sala de visitas. Seu 

coração  deu  um  salto  no  peito,  sentindo  as  pernas  trêmulas,  mal  conseguia 

caminhar. 

—  Oi,  Nancy,  eu  já  ia  chamá-la  —  exclamou  Rita  ao  vê-la.  Veja quem  está 

aqui! 

Sentados no sofá, Carlos e Manuel conversavam animados enquanto bebiam 

cerveja. 

— Onde está Edmund?! — perguntou ela, desapontada. No mesmo instante, 

Carlos  levantou-se  e  veio  ao  seu  encontro,  envolvendo-a  num  longo  e  carinhoso 

abraço. 

— É tão bom vê-la de novo, Nancy! Como eu gostaria que não fosse casada 

com aquele homem insensível! Você bem poderia ser a minha esposa... 

— Ora! Não brinque, Carlos. Onde está meu marido? 
— Para falar francamente, pensávamos encontrá-lo aqui com vocês. Edmund 

e  Sônia  deixaram  a  ilha  do  Bananal  na  quarta-feira  cedo,  rumo  à  Brasília.  De  lá 

deveriam ter tomado um avião comercial para cá. Edmund estava aflito para chegar 

ao Rio. 

— Mas então o que teria acontecido?! 
— Não sabemos. Mesmo se ele só tivesse conseguido passagem para o dia 

seguinte, já deveria estar aqui desde ontem. 

Nancy tinha as palmas das mãos geladas e a garganta seca. Olhou para Rita 

com um ar de desespero. 

— Alguém nos procurou enquanto estivemos fora?! 
— Perguntei a Dalva e ela me disse que ninguém esteve aqui, mas houve um 

telefonema para você. 

— Para mim?! Então deve ter sido Edmund! 
— Não. Era uma voz de mulher. 
— Uma mulher?! 
— Sim. Perguntou se você estava aqui, mas desligou antes de Dalva lhe dizer 

quando voltaríamos. 

— Não posso imaginar quem possa ser. Não conheço ninguém aqui no Rio 

além de você e sua família. 

—  Talvez  fosse  a  moça  da  companhia  aérea,  desejando  saber  sobre  a  sua 

reserva. 

— Não acredito — falou Carlos muito sério. — Uma pessoa desse tipo teria 

deixado algum recado para Nancy. 

— Mas quem seria então?! — indagou Nancy, à beira de uma crise nervosa. 
Carlos olhou para Rita com as sobrancelhas franzidas. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

77

— A mulher falava em inglês ou em português? 
— Português é claro. De outra forma Dalva não a entenderia. 
— Tinha sotaque? 
— E como posso saber, Carlos?!                   . 
— Pergunte a Dalva. Se ela era mesmo brasileira, tenho um pressentimento 

de que sei quem telefonou: Sônia. 

— Sônia?! — exclamaram todos ao mesmo tempo. 
— Sim — confirmou ele, com um brilho estranho no olhar 
—  Aquela  mulherzinha  é  mais  maquiavélica  do  que  vocês  imaginam.  Acho 

melhor telefonarmos para ela e verificarmos se está lá. Os dois deixaram a ilha do 

Bananal  juntos,  portanto  Edmund  ainda  deve  estar  com  ela.  —  Ele  olhou  para 

Nancy, percebendo a palidez em seu rosto. — Oh!, desculpe-me, Nancy, às vezes 

falo  sem  pensar.  Provavelmente  não  há  nada  de  errado,  mas  precisamos  saber 

porque  seu marido  não  apareceu  por  aqui.  O  único  jeito  de  saber  é  perguntarmos 

para Sônia. 

— Pode deixar comigo — exclamou Rita no mesmo instante. 
— Vou telefonar agora mesmo para a casa dela. Manuel, por favor, prepare 

um drinque para Nancy, ela está precisando. 

Sentada  sobre  o  braço  da  poltrona,  Nancy  bebericava  um  conhaque, 

esperando  ansiosa  pelo  resultado  do  telefonema.  Estava  completamente  muda.  A 

hipótese  de  Edmund  tê-la  abandonado  por  causa  da  tal  médica  brasileira  a 

atormentava. Com os nervos à flor da pele, viu Rita e Carlos aproximarem-se com 

uma expressão preocupada no olhar. 

— Ela estava lá, Rita?! Falou com ela?! —- perguntou Nancy, impaciente. 
— Sim, mas Sônia não sabe onde Edmund está. Não o vê desde ontem pela 

manhã.  Houve  uma  alteração  nos  horários  dos  vôos,  por  isso  só  puderam  sair  de 

Brasília na quinta-feira. 

— E  foi  mesmo ela  quem  ligou  para  cá?  — perguntou Manuel. 
—  Sim.  Sônia  ofereceu-se  para  falar  com  Dalva  porque  Edmund  teve 

dificuldades em falar o português. Ele queria saber se Nancy estava aqui... 

—  O resto é fácil deduzir — disse Carlos com cinismo. — Sônia deve tê-lo 

feito acreditar que Nancy havia ido embora. 

Num gesto de desespero, Nancy cobriu o rosto com as mãos. 
—  E  Edmund  provavelmente  está  pensando  que  eu  parti  para  a  Inglaterra 

sem esperar por ele! 

— Não fique assim, querida — Rita passou o braço ao redor de seus ombros, 

tentando consolá-la. — O importante agora é localizarmos Edmund. Para onde ele 

teria ido? 

— Temos que procurar saber se embarcou para Londres — opinou Manuel, 

mais objetivo. 

— Mas como?! 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

78

— Se vocês me emprestarem um carro, irei com Nancy até o aeroporto, a fim 

de  verificarmos  as  listas  de  passageiros  das  companhias  internacionais  com  vôos 

para a Inglaterra nestes últimos dias — ofereceu-se Carlos. 

Embora dirigisse com rapidez, o tráfego intenso decorrente dos preparativos 

para o Carnaval obrigava Carlos a parar o carro constantemente. Sentada ao lado 

dele,  Nancy  olhava  fixamente  para  fora,  alheia  ao  espírito  de  alegria  em  que  se 

envolvia a cidade. 

— Que motivo teria Sônia para agir dessa forma? — indagou ela, num fio de 

voz. 

— As mulheres quando amam são ciumentas e se comportam das maneiras 

mais  estranhas.  Sônia  está  apaixonada  por  Edmund  e,  de  repente,  viu  uma 

oportunidade para se livrar de você. Ela sabia o quanto seu marido ansiava chegar 

ao  Rio  antes  de  sua  partida  para  a  Inglaterra,  por  isso  agiu  de  forma  a  fazê-lo 

acreditar  que  você  já  tinha  embarcado.  Provavelmente  estava  certa  de  tê-lo 

conseguido  só para ela,  no  entanto enganou-se.  Edmund  a  deixou  sem  ao  menos 

dizer-lhe para onde ia — ele a olhou rapidamente. — Talvez  isto prove uma coisa 

muito importante. 

— O quê?! 
— Edmund não ama Sônia. 
— É o que eu espero. 
Assim  que  chegaram  ao  Galeão,  Nancy  foi  direto  ao  balcão  da  "British 

Airlines" para se informar se Edmund estava entre os passageiros do primeiro vôo 

com destino a Londres, dali a alguns instantes. 

— Não — respondeu-lhe a recepcionista. — Não há nenhum Edmund Talbot 

no próximo vôo. 

Desanimada, Nancy verificou junto às outras companhias aéreas e, depois de 

muita  insistência,  além  de  ter  de  provar  ser  a  esposa  de  Edmund,  tomou 

conhecimento de que ele partira para Londres no dia anterior. 

—  Oh,  Deus,  o  que  faço  agora?!  —  ela  perguntou,  dirigindo  um  olhar 

desesperado a Carlos. 

—  Gostaria  que  ficasse  aqui  no  Brasil  e  passasse  o  Carnaval  comigo...  — 

exclamou  ele  com  um  sorriso  nos  lábios.  —  Mas,  para  provar  o  quanto  gosto  de 

você, aconselho-a a embarcar no primeiro avião para a Inglaterra. 

 
CAPÍTULO VIII 
Nancy deixou o Rio de Janeiro no dia em que começavam as comemorações 

do Carnaval. Durante o percurso para o aeroporto do Galeão, ainda pôde apreciar os 

grupos alegres fantasiados, preparando-se para o grande desfile na avenida. 

O momento da despedida de seus novos amigos brasileiros foi um misto de 

risos, lágrimas e muitos abraços. Apesar de ansiosa para chegar a Londres, Nancy 

sentia-se  um  tanto  melancólica,  sem  saber  se  por  causa  da  despedida  daquelas 

pessoas tão simpáticas e gentis, ou se pela incerteza que sentia em relação ao seu 

futuro. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

79

Durante o vôo, longo e tedioso, ela mal pegou no sono. Ao chegar finalmente 

à  Inglaterra,  a  temperatura  estava  baixa  e  o  ar,  úmido.  O  aeroporto  de  Heathrow 

achava-se  lotado  com  passageiros  à  espera  de  seus  respectivos  vôos,  além  das 

pessoas  que  aguardavam  a  chegada  de  parentes  ou  amigos,  porém,  não  havia 

ninguém à sua espera. 

Contendo-se para não chorar de desapontamento, Nancy comprou uma ficha 

telefônica  e  entrou numa  cabine  para  ligar  para  Ben  Davies.  Havia  lhe  telegrafado 

avisando de seu regresso, pedindo-lhe para tentar entrar em contato com Edmund. 

Provavelmente  Ben  não  o  encontrara,  ou  então  seu  marido  havia  decidido  romper 

com ela definitivamente. 

— Olá, menina, já era tempo de voltar para casa. Como está? — perguntou 

Ben ao atender o telefone. 

— Um pouco cansada da viagem. Recebeu meu telegrama, Ben? 
— Sim. Que diabos você e Edmund andam fazendo? Brincando de esconde-

esconde? 

— Ora, não caçoe, Ben. Houve um mal-entendido e nós nos desencontramos 

no Rio. Edmund não ligou para você para saber se eu já estava de volta? 

— Não, mas sei que ele está na Inglaterra porque telefonei para a O.S.P.P. 

assim que recebi sua mensagem. Informaram-me que Edmund esteve lá na sexta-

feira  à  tarde,  e  que  só  voltaria  quando  concluísse  o  relatório  sobre  as  tribos 

indígenas do Brasil. 

— E ele não mencionou para onde ia? 
— Sim. Disse que precisava resolver alguns assuntos de família. Espere um 

minuto...  Ah,  aqui  está,  o  nome  do  lugar  é  Chance  Court,    Hampshire.  Significa 

alguma coisa para você? 

—  Oh,  sim!  É  onde  mora  o  tio-avô  de  Edmund,  Justin  Talbot.  Irei  para  lá 

imediatamente. 

— Calma, garota!  Você tem idéia de como chegar a este lugar? 
— Bem, não exatamente. Sei que fica entre  Winchester e Salisbury, perto de 

um lugar chamado Middle Dene, no condado de Wiltshire. 

—  Era  o  que  eu  imaginava.  Uma  região  localizada  ao  Sul,  bem  distante  de 

Londres. Como pretende ir até lá? 

—  Talvez  pegue  um  trem  até  Winchester  e  depois  um  ônibus  para  Middle 

Dene. Ainda não sei bem... 

—  Em  pleno  domingo,  no  inverno?!  Você  está  maluca!  Duvido  que  haja 

ônibus  trafegando  num  lugar  como  aquele,  com  esse  tempo.  É  melhor  você  ir  de 

carro. — Ben refletiu alguns minutos antes de acrescentar. — Escute, Nancy, fique 

onde está, vou buscá-la para almoçar conosco. Depois poderá ir a Chance Court no 

carro de Andrey. 

— Não vou incomodá-los? Andrey pode precisar do carro e... 
—  De  forma  alguma.  Ela  está  aqui  ao  meu  lado  e  insiste  para  que  venha 

matar a saudade do nosso típico rosbife acompanhado de yorkshire pud. Se quiser, 

ligue daqui para Edmund a fim de verificar se ele está mesmo em Chance Court. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

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Emocionada  com  a  preocupação  de  Ben,  Nancy  desligou  o  aparelho  bem 

mais  tranqüila.  Estava  muito  cansada  e  sem  disposição  para  se  aventurar  numa 

viagem  daquelas,  num  trem  que  poderia  demorar  a  noite  toda  para  chegar  a 

Hampshire.  O  almoço  com  os  Davies  e  o  carro  de  Andrey  vinham  em  boa  hora. 

Sentou-se num restaurante, pediu um café e ficou aguardando a chegada do querido 

amigo. 

Enquanto  dirigia,  Ben  explicava-lhe  o  melhor  trajeto  para  chegar  a  Chance 

Court, pois, como homem de espírito prático, consultara um mapa rodoviário antes 

de pegar Nancy no aeroporto. A seu lado, ela escutava-o atenta, embora seus olhos 

estivessem fixos na cidade lá fora. Uma névoa úmida e cinzenta encobria a torre do 

castelo de Windsor e as árvores completamente desfolhadas lembravam o cenário 

lúgubre de um filme de terror. Parecia incrível que fizessem parte do mundo do qual 

ela acabara de chegar. O céu azul, o sol escaldante e o verde luxuriante da selva 

eram agora imagens remotas de um sonho fantástico.  

—  Chance  Court  é  uma  dessas  imponentes  mansões  da  Inglaterra  — 

explicou-lhe Ben. — Os jardins e algumas dependências costumam ser abertas ao 

público durante o verão. Você sabia disso? 

— Não. Edmund jamais tocou em assuntos relacionados a sua família. 
—    Que  rapaz  mais  estranho!  Como  foi  o  relacionamento  de  vocês  lá  no 

Brasil? 

—  Pensei que estivesse indo tudo bem, até contar-lhe sobre o bebê. 
— Ele não se conformou? 
—  Não  só  não  se  conformou  como  também  me  censurou  por  não  ter  lhe 

contado antes. Mas eu não tive culpa! 

—  Deve  ter  sido  um  grande  choque  para  ele,  mas  com  o  tempo  acabará 

compreendendo. Você vai ver! 

Ben e sua esposa moravam numa antiga casa do século XVIII que havia sido 

restaurada.  Situada  em  uma  pequena  vila  perto  de  Ascot,  ficava  próxima  de  uma 

igreja normanda. 

Andrey os esperava na porta. 
—  Como  você  ficou  bonita,  Nancy!  Está  com  um  bronzeado  maravilhoso! 

Aposto que já está morrendo de saudades do Brasil. 

— Olhe... não é fácil sair de um lugar tão quente, cheio de sol e céu azul, para 

enfrentar este frio daqui! 

— Gostaria de tomar um conhaque para se aquecer? 
— Aceito. Obrigada, Andrey. 
Como  todas  as  vezes  em  que  almoçara  com  os  Davies,  Nancy  achou  tudo 

delicioso,  saboreando  a  refeição  com  prazer.  Logo  depois,  com  o  auxílio  da 

telefonista, conseguiu o número de Chance Court. A pessoa que atendeu o telefone 

informou que o dr. Talbot encontrava-se hospedado ali mas estaria fora a tarde toda. 

—  Gostaria  de  deixar  algum  recado?  —  perguntou,  num  tom  frio,  a  voz  do 

outro lado. 

— Diga-lhe, quando voltar, que Nancy telefonou — pediu ela, desligando. Em 

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 Selva de Prata   

 

 

 

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seguida voltou-se para Ben, com os olhos brilhando. — Ele está lá! 

—  Ótimo. Então é melhor não se demorar, Nancy. Já são quase três horas, e 

você levará umas duas horas e meia para chegar lá! Com esse tempo ruim, é melhor 

não viajar à noite. 

—  Muito  obrigada,  Ben.  Vocês  são  uns  amores!    —  disse  Nancy,  com 

lágrimas nos olhos. 

—  Ora,  o  que  é  isso,  menina?  Caso  não  tenha  onde  passar  a  noite,  venha 

para  cá  —  brincou  Ben,  com  uma  risadinha  maliciosa.  —  E  vá  devagar,  as  pistas 

estão lisas! 

— Não se preocupe, Ben. Adeus. 
O  carro  de  Andrey  era  um  pequeno  Austin  vermelho.  Depois  de  receber 

instruções  sobre  algumas  peculiaridades  do  automóvel,  Nancy  pôs-se  a  caminho, 

mais animada do que nunca. Na estrada para Winchester, apesar dos conselhos do 

amigo, dirigia no limite máximo da velocidade permitida. Por causa do mau tempo, o 

tráfego  era  tranqüilo  e  logo  chegou  ao  cruzamento  onde,  segundo  Ben,  deveria 

seguir a indicação para Storton, uma pequena cidade onde poderia parar um pouco 

para descansar e reabastecer o carro. 

A  estrada,  estreita  e  sinuosa,  era  bastante  acidentada.  Nancy  subia  as 

escarpas  da  cordilheira,  mergulhando  abruptamente  nos  vales  nebulosos.  Passou 

por vilarejos pontilhados de cabanas com telhados de palha contornadas por pastos 

e  árvores.  A  cada  curva  Nancy  esperava  avistar  a  cidade  de  Storton,  que  parecia 

não  surgir  nunca!  O  cansaço  já  começava  a  mexer  com  seus  nervos,  os  olhos 

ardiam e as pernas estavam geladas por causa do frio. 

Parou numa estalagem, onde lhe serviram o chá da tarde. A proprietária, uma 

simpática  senhora  de  meia-idade,  informou  que  se  encontravam  a  dezesseis 

quilômetros de Middle Dene e que Chance Court ficava oito quilômetros adiante. 

Pouco  a  pouco  a  estrada  foi  se  tornando  mais  tortuosa,  exigindo  dela  uma 

concentração  maior.  Começava  a  escurecer  e  a  chuva  fina  que  caía  dificultava  a 

visibilidade,  mas  Nancy  acreditava  estar  no  caminho  certo.  Passou  por  uma  seta 

com o nome "Chance Court", diminuiu a velocidade e continuou atenta à procura de 

uma bifurcação, onde deveria virar à direita. O tempo, entretanto, piorara e, apesar 

do  esforço  para  exagerar,  Nancy  acabou  ultrapassando  a  entrada,  tendo  que 

retornar de marcha-a-ré. 

Cada  vez  mais  nervosa  com  aquela  situação,  calculou  mal  a  distância  do 

barranco e, para aumentar sua aflição, acabou entrando na valeta do acostamento. 

Respirando fundo, engatou a primeira e tentou sair. Por mais que acelerasse, o carro 

não se movia. A roda apenas girava em falso, espirrando lama por todos os lados. 

"Oh!  que  ódio!",  pensou  Nancy,  desesperada.  Por  que  tinha  que  acontecer 

aquilo  justamente  agora?  Parecia  até  que  o  destino  mais  uma  vez  preparava-lhe 

uma cilada, impedindo-a de reencontrar Edmund e reconquistar o seu amor! 

Nancy  tentou  recuperar  o  autocontrole.  Não  estava  tão  longe  de  Chance 

Court e poderia prosseguir a pé. Enrolou o cachecol na cabeça para proteger-se da 

chuva, saltou do carro, trancou as portas e pôs-se a andar pela estrada. A tabuleta 

com o nome "Chance Court" surgiu novamente à sua frente. Ela caminhava beirando 

um  imenso  muro  de  pedra  coberto  por  musgos  e  trepadeiras  espinhosas.  De 

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 Selva de Prata   

 

 

 

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repente, ouviu atrás de si o barulho de um carro se aproximando. Colou-se à parede 

úmida, a fim de lhe dar passagem. Enfureceu-se com o banho de lama causado pelo 

automóvel,  quando,  de  repente,  notou  que  o  motorista  havia  brecado  e  agora 

manobrava em marcha-a-ré. Parando a seu lado, ele abriu a janela e falou numa voz 

rouca, bastante familiar e muito querida: 

— Está indo em direção à mansão, senhorita? Não quer uma carona? 
O  coração  de  Nancy  deu  um  salto  no  peito.  Edmund  não  a  reconhecera! 

Trêmula de emoção, ela deu um passo à frente, enfiou a cabeça pela janela e olhou 

bem  dentro  daqueles  olhos  azuis  tão  amados,  que  a  fitavam  como  se  tivessem 

deparado com um fantasma. 

—  Sim,  querido!  Eu  aceito  sua  carona,  obrigada.  Estava  indo  exatamente 

para Chance Court, procurá-lo. 

Parecendo  não  acreditar  no  que  via,  ele  permaneceu  imóvel.  Nem  sequer 

piscava. 

— Ei, acorde! Sou eu, Nancy! — disse ela, rindo da expressão incrédula de 

Edmund. — Por favor, deixe-me entrar no carro, estou morrendo de frio! 

Edmund.. como que voltando a si, abriu-lhe rapidamente a porta e ela entrou 

no  mesmo  instante.  Tirou  o  cachecol,  sacudindo  a  cabeça  para  os  lados  a  fim  de 

soltar os cabelos. 

Dentro do Jaguar estava quente, e a melodia suave de uma música romântica 

soava  como  um  convite  para  que  se  atirasse  nos  braços  de  Edmund,  mas  ela  se 

conteve. Ele estava diferente da última vez em que o vira! Sobre a camisa de linho 

branco, com o colarinho aberto, Edmund usava um cashmere bege com decote em 

"V" e um casaco de camurça marrom, do mesmo tom da calça. Apesar de discretas, 

aquelas  roupas  revelavam  fina  procedência,  talvez  as  lojas  sofisticadas  da 

Burlington Árcade. Ele nem parecia o mesmo homem da selva! 

— Como chegou até aqui? — perguntou, ainda atônito. 
— De carro, mas ficou atolado na outra estrada. 
Diminuindo  o  volume  do  rádio,  Edmund  ligou  o  pára-brisas  e  deu  a  partida. 

Antes de acelerar, olhou novamente para Nancy, com um ar frio e crítico. 

—  Não  quero  parecer  muito  curioso,  mas  se  incomodaria  em  dizer  o  que 

andou fazendo desde que saiu do Posto Diauarum? 

— Ora, fui para o Rio, com Rita, conforme combinamos. 
—  Mas  não  estava  lá  na  quinta-feira  —  disse  ele,  pondo  o  carro  em 

movimento. 

— Não. Rita e eu havíamos ido a Petrópolis. 
— Onde fica esse lugar? 
— Nas montanhas, próximo ao Rio de Janeiro. 
— Não poderia ter me esperado um pouco mais? 
Nancy mordeu os lábios, numa atitude nervosa. Não era assim que imaginara 

aquele reencontro! Edmund não parecia nem um pouco feliz em revê-la. 

— Eu o esperei, sim. Mas você não veio. Então Rita sugeriu que fôssemos a 

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Petrópolis visitar os pais de Manuel. — Ela o olhou com uma expressão magoada. 

—  Se  soubesse  como  é  horrível  ficar  esperando  por  alguém,  entenderia  por  que 

procuramos  preencher  o  nosso  tempo  saindo  um  pouco  de  casa.  Deixamos  um 

recado com a governanta para que os avisasse, caso chegassem primeiro. Você é 

quem deveria ter me aguardado! 

Edmund ficou em silêncio. O carro avançava suavemente, até que chegaram 

a  um  enorme  portão  de  ferro,  preso  por  duas  enormes  colunas  de  pedra  onde  os 

brasões com as armas da família estavam esculpidos. Ele diminuiu a velocidade e 

por  uma  alameda,  ladeada  por  velhos  carvalhos,  que  levava  à  imponente  mansão 

feita de pedra. Localizava-se numa pequena colina em meio a um imenso gramado. 

— Que lugar adorável! — exclamou Nancy, encantada. Edmund  permanecia  

mudo.  Entrou  numa  velha estrebaria transformada em garagem, desligou o motor 

e a olhou seriamente. 

— Bem, já que veio até aqui, é melhor entrar e esclarecer tudo de uma vez. 
—  Muito  obrigada  — murmurou ela,  enquanto  saltava  rapidamente  do  carro 

para que ele não visse seus lábios trêmulos. 

Um homem alto, magro e pedante, vestindo um traje austero, veio recebê-los. 
— Boa noite, senhor — cumprimentou ele, lançando um olhar de curiosidade 

para Nancy. 

— Boa noite, Jonas — respondeu Edmund, colocando o braço ao redor dos 

ombros dela. — Esta é minha esposa, Nancy. Jonas é o mordomo, e trabalha aqui 

com o tio Justin há quase trinta anos. 

O empregado inclinou a cabeça, respeitosamente. 
 — Estou contente por conhecê-la, madame. Posso guardar seu casaco? 
 — Claro! Obrigada. 
Nancy  abriu  o  zíper  de  sua  jaqueta  e  permitiu  que  ele  a  retirasse  de  seus 

ombros. 

 — Toma um chá, senhora?  
 — Sim, por favor. 
 — Na sala de visitas?  
 — Bem, não sei se... 
 —  Não  —  interrompeu  Edmund  bruscamente.  —  Sirva-nos  na  sala  do  café 

da  manhã.  Espero  que  não  tenha  se  esquecido  de  acender  a  lareira,  Jonas.  Este 

lugar está um gelo! 

O mordomo baixou a cabeça, tentando não se mostrar ofendido, e retirou-se 

levando o casaco de Nancy.  

— Você foi muito brusco com ele, Edmund! 
— Não estou nem um pouco preocupado com isso. Jonas não gosta de mim 

porque,  segundo  ele,  jamais  me  comportei  como  um  verdadeiro  descendente  da 

família Chance. Agora vamos logo para perto do fogo. Depois de todo aquele calor 

tropical, você deve estar se ressentindo, tanto quanto eu, do frio da Inglaterra. 

Nancy o acompanhou até uma encantadora sala com paredes de  carvalho. 

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Uma  mesa  oval  e  cadeiras  de  espaldar  alto  em  estilo  Windsor  decoravam  o  local 

aconchegante. Edmund colocou duas cadeiras de balanço com almofadas perto da 

lareira e convidou-a para sentar-se. 

— Você é mesmo um membro da família Chance? — perguntou-lhe Nancy. 
—  Sou.  Minha bisavó  foi  a última  a  carregar  este  importante  nome,  aqui na 

Inglaterra. O pai havia perdido quase tudo, mas conseguiu salvar esta propriedade. 

De toda a imensa fortuna dos Chance, esta foi a única herança que lhe restou.  

— E você acha pouco?! 
—    Sim,  pois  de  que  adianta  possuir  uma  mansão  como  esta  sem  ter 

condições para mantê-la? 

— É... você tem razão! 
—  E  foi  justamente  a  essa  conclusão  que  minha  bisavó  chegou.  Por  isso 

casou-se  com  Mortimer  Talbot.  Queria  conseguir  o maldito  dinheiro  para  preservar 

este  lugar.  Aliás,  quase  todos  os  homens  da  nossa  família  têm  sido  vítimas  de 

mulheres  interesseiras.  —  Ele  deu  um  sorriso  amargo.  —  Quando  minha  bisavó 

morreu,  deixou  Chance  Court  para  o  filho  caçula,  Justin,  que  parecia  ser  o  único 

interessado  nesta  mansão.  E,  agora,  a  menos  que  eu  tome  alguma  providência 

rapidamente, Tio Justin me fará seu herdeiro. 

— Você! 
— Uma ironia do destino, não acha? Justamente eu que sempre fiz questão 

de levar uma vida simples e despojada... 

— Mas ele não tem filhos ou netos para quem deixar a mansão? 
— Tio Justin nunca se casou, e eu sempre fui seu sobrinho predileto. Desde 

criança  costumava  vir  visitá-lo  com  meu  pai  e  sempre  existiu  entre  nós  muita 

afinidade, além de uma grande afeição. — Ele ficou olhando pensativo para a lenha 

queimando na lareira. — Pobre tio Justin! Sofreu um derrame e agora está muito mal 

no hospital. Estive com ele esta tarde e duvido que consiga sobreviver... 

— Quando soube sobre o seu tio? 
— Assim que cheguei a Londres. Havia um recado para mim na O.S.P.P. E 

quanto a você? Como me encontrou aqui? 

—  Também  foi  através  da  O.S.P.P.  Ben  havia  ligado  para  lá  a  fim  de 

comunicar-lhe  sobre  a  minha  chegada  e  foi  informado  de  que  você  se  encontrava 

em  Chance  Court.  Quando  liguei  para  Ben  do  aeroporto,  ele  me  contou.  Edmund, 

por que pediu a Sônia para telefonar a Rita, em vez de ligar você mesmo? 

Ele a olhou de soslaio. 
— Mas eu telefonei. Falei, ou melhor, tentei me comunicar com a governanta 

duas  vezes.  No  entanto,  foi  impossível  compreendê-la.  Então  Sônia  ofereceu-se 

para me ajudar. Ela me disse que você havia ido embora e que Rita não estava em 

casa. Então pensei... —  ele  cobriu  o  rosto com as mãos.  — Oh,  Deus!,  você  nem 

imagina  o  meu  desespero.  Eu  havia  feito  tudo  para  chegar  ao  Rio  a  tempo  de 

encontrá-la,  angustiado  com  os  atrasos  dos  vôos  e  as  conexões,  para,  depois, 

confirmar minhas suspeitas. 

— Você achou mesmo que eu não o esperaria?! 

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— Tinha esperanças de que sim, mas não acreditava. Fiquei tão nervoso que 

larguei Sônia falando sozinha. Coitada, deve ter pensado que eu estava louco. Só 

não entendo por que a empregada não transmitiu inteiramente o recado. 

— Ela não deu todo o recado porque Sônia desligou antes. 
 Edmund fitou-a, intrigado. 
— Ora! Por que ela faria uma bobagem dessas? 
Nancy  ia  responder  mas  uma  leve  batida  na  porta  a  interrompeu,  e  o 

mordomo entrou seguido por uma mulher alta, vestida de preto. Logo após, acendeu 

as  luzes,  esperando  que  ela  colocasse  a  bandeja  de  prata  sobre  a  mesa.  Depois, 

com muita elegância, serviu o chá em finíssimas xícaras de porcelana chinesa. Com 

uma  expressão  de  resignação,  Edmund  levantou-se,  fazendo  novamente  as 

apresentações. 

—  Esta  é  a  sra.  Mills,  a  governanta  de  meu  tio.  Sra.  Mills,  esta  é  Nancy, 

minha esposa. 

—  Bem-vinda  a  Chance  Court,  sra.  Talbot  —  disse  ela  sorrindo.  —  Trouxe 

alguns  sanduíches,  um  prato  de  trifle  e  bolo  de  frutas.  Achei  que  estaria  faminta 

depois  de  um  dia  de  viagem.  Gostaria  que  acendessem  a  lareira  do  quarto,  sr. 

Talbot? 

Edmund fez uma cara de espanto. 
— E isto é possível? 
— Oh, sim! 
— Então seria ótimo. E quanto a você, Jonas, quero que providencie para que 

tragam  o  automóvel  da  sra.  Talbot  para  cá.  Está  atolado  na  estrada  para 

Fallowdene. Que marca é o seu carro, Nancy? 

—  É um Austin vermelho. Não está muito longe daqui... Olhe, aqui estão as 

chaves. 

— Obrigado, madame. Mais alguma coisa, senhor? 
— Isto é tudo, Jonas. Agora a sra. Talbot e eu gostaríamos de tomar o nosso 

chá sem mais interrupções, sim? Estou sendo claro? 

— Sim, senhor. 
O  mordomo  e  a  governanta  retiraram-se  imediatamente,  fechando  a  porta 

atrás de si. 

— Não sei como Jonas pode dizer que você não sabe se comportar como um 

membro da família Chance! — Nancy sorriu. — Agora mesmo você me pareceu um 

perfeito lord! Ou, talvez, o senhor da mansão. 

— Diz isto porque não conhece Jonas. Se eu não fosse tão áspero com ele, 

passaria a me ditar ordens, como tem feito com meu tio há trinta anos! 

— Ele me pareceu tão discreto! 
—  Ao  contrário.  Às  vezes,  consegue  ser  bastante  desagradável,  é  muito 

curioso,  quer  sempre  saber  tudo  o  que  se  passa  nesta  casa  e,  pode  estar  certa, 

daqui  a  pouco  arranjará  alguma  outra  desculpa  para  voltar  até  aqui,  apesar  das 

minhas ordens.  

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

86

— Talvez ele se sinta responsável pela mansão. 
— Também, mas no momento ele está interessado em saber o que estamos 

fazendo. 

Sorrindo, Nancy levantou-se e serviu-se de mais um sanduíche. Eram feitos 

de pão preto com um recheio cremoso de camarão. 

Uma delícia! 
— Quer mais um? — ela ofereceu a Edmund. 
— Quero, obrigado — respondeu ele com um ar preocupado. 
— O que há?                                      . 
— Estive pensando no que devo fazer se tio Justin insistir em me deixar esta 

mansão. Eu não a quero! 

— Poderia morar aqui, ou, pelo menos, numa parte da casa, como tem feito 

seu tio. 

— Pelo amor de Deus! Não posso nem imaginar viver num lugar tão grande 

como este. Mesmo se... — ele se interrompeu bruscamente e deu uma mordida no 

sanduíche. 

— Se...? 
— Ora, não importa. Mas do que falávamos quando fomos interrompidos? Ah! 

sim...  de  Sônia.  Por  que  ela  teria  desligado  o  telefone  antes  que  a  governanta 

terminasse de falar? 

—    Bem,  segundo  ela  mesma  disse  a  Rita,  pensou  que  a  governanta  já 

houvesse  dito  tudo.  Carlos,  no  entanto,  não  acreditou.  Achou  que  ela  desligou  de 

propósito. 

— Carlos?! Então ele também estava lá?! 
Ela  apenas  balançou  a  cabeça  afirmativamente,  ao  perceber  o  ciúme  de 

Edmund. 

— E posso saber por que ele chegou a uma conclusão tão absurda? 
— Sim. Carlos acha que ela sentia ciúmes de mim, assim como Peter sentia 

de você. Sabendo que você esperava me encontrar no Rio quando chegasse da ilha 

do Bananal, Sônia decidiu fazê-lo acreditar que eu já havia ido embora. Pretendia, 

talvez, convencê-lo a ficar com ela. — Nancy esperou que Edmund dissesse alguma 

coisa, mas ele permaneceu calado. 

— Gostaria de um pouco de trifle ou bolo de frutas? — ela perguntou. 
— Trifle, mas pode deixar que eu mesmo pego. — Ele se levantou, colocou o 

doce  em  dois  pratinhos  e  ofereceu  um  deles  a  Nancy.  Sentou-se  novamente, 

saboreando em silêncio o finíssimo creme  com frutas e  bolachas  embebidas  em  

vinho.    De  repente,  meneou  a  cabeça  de  um  lado  para  o  outro,  num  gesto  de 

censura, com uma expressão divertida no olhar. 

— Não sei de onde Sônia tirou essa idéia maluca!  Jamais estive interessado 

nela,  sempre  a  vi  apenas  como  uma  médica  que,  por  sinal,  não  era  das  mais 

dedicadas! Ela não se preocupava verdadeiramente com os índios e, durante todo o 

tempo em que permanecemos na ilha, não ajudou quase nada. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

87

— Ela me disse que se ofereceu como voluntária apenas para ficar a seu lado 

e que salvou a sua vida quando sofreu o acidente de avião. 

— O quê?! Ela teve a coragem de lhe dizer um absurdo destes?! Que mulher 

mais  convencida!  Pode  estar  certa  de  uma  coisa:  eu  teria  me  recuperado  mais 

rapidamente  se  não  a  tivesse  por  perto  com  todos  aqueles  exageros,  medindo  a 

minha febre a cada cinco minutos, ou colocando  toalhas sobre a minha testa. 

— Não estava gostando deste tratamento tão especial? 
—  Quase  fiquei  maluco,  isto  sim!  Sônia  conseguia  somente  me  importunar 

com  tantas  futilidades  à  minha  volta.  Quando  queria  dormir  um  pouco  precisava 

pedir-lhe para sair do quarto. Não sei por que acreditei nela quando me disse que 

você havia ido embora. 

— O mesmo aconteceu em relação a Peter. Você se deixou influenciar pelas 

palavras  de  seu  amigo  e  esqueceu-se  de  que  a  base  de  um  casamento  é  a 

confiança  mútua.  Eu  também  errei,  pois  não  confiei  em  você:  devíamos  ter 

conversado, procurado nos conhecer melhor. Mas eu não quis ouvi-lo quando tentou 

se explicar. 

— Banquei o tolo por duas vezes, mas penso que aprendi a lição. Talvez a 

maneira  simples  como  tenho  encarado  a  vida  seja  a  responsável  pela  minha 

ingenuidade em relação às pessoas. 

— O que fez ao deixar Sônia? 
— Fiquei desesperado, andando sem rumo, sem saber para onde ir. Então, 

tomei um táxi para o Galeão e, por sorte, consegui lugar num vôo que saía naquele 

dia. Quando cheguei a Londres, fui direto para o nosso apartamento, mas, ao encon-

trá-lo vazio e todo empoeirado, percebi que  você não tinha estado lá. Passei depois 

pela O.S.P.P. e voltei novamente ao apartamento. Como você não aparecia, decidi 

telefonar a Ben no escritório, porém não obtive resposta. Deviam ter fechado para o 

fim de semana. 

— Por que não ligou para a casa dele? Ben sabia onde eu estava. 
— Eu não tinha a menor idéia de onde ele morava, por isso vim para cá. — 

Ele ergueu-se para colocar o prato sobre a mesa. — Mais chá? 

— Não obrigada — respondeu Nancy, levantando-se também. 
— Por que desejava encontrar-me? 
—  Queria  saber  por  que  motivo  não  me  esperou  lá  no  Rio.  Ela  o  encarou 

desanimada. 

— Oh, Deus! Quando penso que, se você tivesse confiado um pouco mais em 

mim,  nada  disso  teria  acontecido...  —  desabafou,  inconformada  com  tantos 

desencontros. — Se tivesse tomado um táxi até a casa de Rita em vez de telefonar, 

saberia que eu ainda não tinha voltado para a Inglaterra. No entanto, você preferiu 

acreditar em Sônia, em Peter... — Ela respirou fundo novamente, cheia de dúvidas 

que há muito a atormentavam. — Não acredito que me ame. Se gostasse mesmo de 

mim,  teria...  —  De  repente,  interrompeu-se,  recuando  assustada.  Edmund 

aproximara-se e suas mãos estendiam-se para agarrá-la pelo pescoço. 

—  É  bom  mesmo  que  tenha  medo  —  murmurou  ele  suavemente.  —  Da 

próxima vez em que ousar me dizer um disparate desses vou estrangulá-la. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

88

— Edmund, queria tanto acreditar que... 
Ele  manteve  as  mãos  ao  redor  do  pescoço  frágil  de  Nancy,  numa  suave 

carícia. 

—  Você  está  sempre  me  acusando  injustamente,  Nancy.  Se  me  casei  com 

você foi porque a amava e, se a deixei, foi pelo mesmo motivo. Não podia suportar a 

idéia de que fosse infeliz por ter se casado comigo. Por isso quis lhe dar uma chance 

de se divorciar. 

— Mas eu... 
— Psiu!, fique quietinha e me deixe terminar. Fui para um lugar bem distante 

na  esperança  de  romper  com  todos  os  laços  que  me  prendiam  a  você  e  afastá-la 

dos meus pensamentos. Mas foi tudo inútil. Quando pensei ter conseguido esquecê-

la, você apareceu no Posto Diauarum, foi se apossando do meu coração e, quando 

me dei conta, já era dona dele outra vez. 

Nesse  momento,  o  barulho  de  uma  tosse  alta  e  forçada  chamou-lhes  a 

atenção  e  ambos  olharam  imediatamente  para  a  porta.  Em  pé,  ereto  e  muito 

empertigado, Jonas aguardava permissão de falar. 

Irritado, Edmund afastou-se de Nancy, colocando as mãos nos bolsos. 
— Pensei   haver  dito  que   não   queria  mais   interrupções, Jonas! — ele 

repreendeu-o, irritado. — O que há desta vez?  

— O carro da sra.  Talbot, senhor.  Price, o motorista do sr. Justin, já o trouxe 

para cá. 

— Senhora, não quer mais nada? 
— Não, obrigada — respondeu ela tentando reprimir o riso.  
— E o senhor? 
—  Também  não,  Jonas!  Pode  ir  agora,  e  não  volte  mais!  Ele  se  retirou, 

deixando a porta ligeiramente aberta.  

Nancy e Edmund esperaram até não ouvir mais seus passos. 
—  Oh,  eu  a  feri  novamente!  —  exclamou  ele  tocando  de  leve  a  pele 

ligeiramente avermelhada abaixo da orelha de Nancy. 

—  Acho que estou sempre machucando você. No entanto, eu a amo demais! 

Deixei a ilha do Bananal, mesmo tendo muito trabalho ainda pela frente, só para ir 

ao  seu  encontro  no  Rio.  Depois,  vim  correndo  para  a  Inglaterra,  pensando  que  já 

estivesse  em  Londres.  E,  se  a  impedi  de  me  acompanhar  nestas  minhas  viagens 

loucas  a  lugares  tão  primitivos,  foi  por  medo  de  que  contraísse  uma  doença  fatal. 

Nancy, eu te adoro! Tenho vivido num inferno nesses últimos dias, sem saber onde 

você se encontrava e arrependido por não ter sido mais compreensivo quando me 

falou do bebê. É também porque a quero demais, morro de ciúmes quando a vejo 

perto de outro homem... — Ele fez um gesto de desânimo com as mãos. — O que 

mais preciso lhe dizer para provar o meu amor por você? 

—  Não  diga  mais  nada,  Edmund.  Você  já  me  convenceu  —  murmurou  ela 

entre risos e lágrimas de alegria. — Eu também te amo, meu querido. Esta é a única 

razão  que me trouxe até   aqui.  Quero  ficar    a    seu    lado para  sempre. Por favor, 

Edmund, posso dormir aqui esta noite? 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

89

— Não estava pensando em deixá-la dormir em nenhum outro lugar — disse 

ele envolvendo-a num abraço. — E então? Começamos tudo de novo, meu amor? 

—  Pensei  que  já  tivéssemos  começado...  —  sussurrou  ela  mansamente, 

aninhando-se nos braços de Edmund. — No embalo de uma rede em plena selva. 

— Sim, a nossa segunda lua-de-mel...  
Abandonando-se às carícias pelas quais ansiara durante tanto tempo, Nancy 

sentiu  os  lábios  dele  cobrirem  seu  delicado  rosto  com  beijos  cheios  de  ternura. 

Pouco  a  pouco  foram  se  tornando  mais  ardentes  e  logo  um  desejo  intenso  os 

consumia. 

Nada mais parecia ter importância ao redor deles. Naquele instante era como 

se  o  passado  deixasse  de  existir.  Os  longos  meses  de  afastamento  e  os 

desencontros foram esquecidos completamente, e selaram a promessa de uma nova 

vida cheia de amor e esperança com um longo beijo apaixonado. 

Alheios  ao mundo,  nem  ouviram  uma  leve  batida  na  porta,  seguida  de  uma 

tossinha familiar. 

— Com licença, senhor. 
Os dois separaram-se imediatamente e Edmund olhou para o mordomo com 

uma expressão de raiva. 

— Nós...  quero dizer, Prince e eu estávamos pensando se a sra. Talbot não 

vai precisar do carro ainda hoje. Caso contrário, Prince o colocará na garagem junto 

ao seu. Está uma noite muito úmida e não é recomendável deixá-lo ao relento. 

— Está certo, aqui estão as chaves. — Ante o olhar indignado do mordomo, 

Edmund atirou-lhe as chaves e acrescentou friamente. — A sra. Talbot ficará nesta 

casa  e  não  só  esta,  mas  todas  as  noites  em  que  eu  estiver  aqui.  Mais  algum 

problema, Jonas? 

— Não, senhor. Penso que não.  
— Pois então, até amanhã, Jonas! 
O mordomo inclinou a cabeça, disse boa-noite e retirou-se discretamente. 
—  Vamos  para  o  quarto,  Nancy  —  falou  Edmund  rapidamente,  puxando-a 

pela mão. — É o único lugar onde estaremos livres desse bisbilhoteiro. Pelo menos 

lá espero que haja uma fechadura com chave na porta. 

Pouco depois entraram num elegante aposento todo revestido com papel de 

parede em tons suaves de azul e branco. Ao lado da lareira, já acesa, uma poltrona 

confortável e uma pequena mesa redonda com um abajur de opalina davam encanto 

ao ambiente requintado. A enorme cama de casal, coberta por uma colcha de cetim 

pérola, chamou a atenção de Nancy pelo seu tamanho exagerado. 

— Uma cama tamanho família, Edmund?! 
— Cabem seis — respondeu ele, tirando o casaco. — Isto é para compensar 

aquela nossa rede na selva, com os tambores soando do lado de fora da cabana. E 

então, não está melhor assim? — ele perguntou com um ar maroto. 

—  Jamais  me  esquecerei  daquela  noite.  Oh,  Edmund,  —  ela  lembrou    de  

repente. —  Não  tenho nenhuma  camisola  aqui comigo. 

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Flora Kidd 

 

 Selva de Prata   

 

 

 

90

— Não faz mal, eu também ainda não comprei pijamas. Basta tirar a roupa e 

entrar debaixo das cobertas bem depressa! Vou me deitar primeiro para esquentar 

os lençóis para você. 

Apenas  abraçados,  sem  fazer  amor,  desfrutaram  aquele  momento  íntimo, 

felizes por estarem juntos novamente. 

— Ainda não acredito. Você está aqui mesmo, nos meus braços, querida? 
— Pois é bom ir se acostumando.... Quanto tempo acha que  ficaremos em 

Chance Courí? 

 —  Não  sei  e  nem  quero  pensar  nisto  agora.  Temos  algo  muito  mais 

importante para fazer. 

As mãos dele deslizaram pelo corpo de Nancy, acariciando a pele delicada e 

arrepiada de desejo. 

— Antes de fazermos amor preciso saber uma coisa, Nancy. Você deseja ter 

um outro bebê? 

— De todo o coração. E você? 
— É o que mais quero no mundo. Você vai ser uma mãezinha adorável. 
— Não está mais magoado? 
— Não. O que passou, passou... Agora só quero pensar em fazê-la feliz! 
— Mas, e se você precisar viajar outra vez? Não foi convidado para continuar 

trabalhando no Posto Diauarum? 

—  Ainda  não  pensei  a  respeito,  mas,  de  qualquer  maneira,  não  pretendo 

deixá-la sozinha se estiver grávida. Amanhã falaremos sobre isto e sobre o que você 

quiser, hoje não. 

—  Amanhã,  amanhã...  Parece  até  um  brasileiro  falando!...  —    ela  brincou, 

lembrando com saudades do Brasil. 

— Hum!... mas que perfume delicioso! — Ele roçou os lábios ao longo de seu 

pescoço,  sugando-o  devagar.  —  Você  sempre  se  arrepia  assim,  quando  a  beijo 

aqui... ou aqui. 

Nancy  teve  um  estremecimento  ao  sentir-lhe  os  lábios  tocarem  seu  mamilo 

enrijecido, mordiscando-o de leve. 

— Sempre — ela gemeu. 
— Pois então saiba que esta sua reação causa um efeito devastador em mim. 
Era  este  o  Edmund  que  ela  conhecera  e  por  quem  havia  se  apaixonado. 

Meigo, gentil, espirituoso e sempre atento aos seus menores desejos. 

— Oh, Edmund, eu te amo tanto! 
— Eu também te amo! — sussurrou Edmund ao seu ouvido, tomando-a nos 

braços fortes, ansioso por possuí-la. 

Naquele instante, esqueceram-se de tudo! Abraçados e aquecidos, perderam-

se no tempo e no espaço para se entregarem apenas à plenitude daquele imenso 

amor! 

* * * *