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FRANK GOLD 
A RAPARIGA DE TÂNGER 
 
Colecção: 
Clube do CRIME 
Nº 9 
 
PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA 
Capa: estúdios P. E. A. 
 
© 1982, Frank Gold 
 
Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda. 
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crítica  do  livro.  Esta  excepção  não  deve  de  modo  nenhum  ser 
interpretada  como  sendo  extensiva  à  transcrição  de  textos  em 
recolhas  ontológicas  ou  similares  donde  resulte  prejuízo  para  o 
interesse 

pela 

obra. 

Os 

transgressores 

são 

passíveis 

de 

procedimento judicial 
Editor: Francisco Lyon de Castro Edição nº 35 509/3177 
 
Execução técnica: Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra - Mem Martins 
 
Paginação no cabeçalho 
 
CAPÍTULO I 
 
O  avião  estremeceu  quando  uma  das  rodas  tocou  na  pista  e  de 
seguida 

inclinou-se 

para 

lado 

contrário. 

Recuperado 

equilíbrio, os travões funcionaram. Eu soltei a respiração contida 
e olhei pela janela. O vento soprava forte e abanava as palmeiras 
que  desfilavam  lá  fora,  aos  solavancos,  como  uma  imagem 
estremecida num écran de televisão. Daí a pouco surgiu a aerogare. 
Um edifício baixo, de um só piso, como os que servem os aeroportos 
de cidadezinhas de província. Quando por fim o 727, após uma curva 
suave,  foi  imobilizar-se  mesmo  defronte  da  entrada,  desapertei  o 
cinto  e  reflecti.  Ali  estava  eu  prestes  a  desembarcar  na  sala  de 
trânsito  de  uma  pequena  cidade  simples  e  hospitaleira,  de  longo 
passado romântico -e histórico. Assim diziam os prospectos. Onde a 
vida  decorre  calma  e  o  visitante  pode  passear  os  seus  ócios  no 
contacto  saudável  com  as  gentes  e  o  animado  comércio  da  terra. 
Onde  o  mar  é  azul,  a  montanha  aprazível  e  a  comida  agradável. 
Porta de entrada num país exótico de um continente imenso. 
Só  que  não  foi  exactamente  isso  que  fui  encontrar.  Porque  nessa 
cidadezinha  pacata  vivi  o  maior  pesadelo  da  minha  existência, 
travei relações com uma organização gigantesca de tráfico de armas 

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e estupefacientes, fui vítima de duas tentativas de assassinato, e 
uma vítima de assassínio foi abatida no meu quarto de hotel. 
Nessa  cidade  pacata,  também,  conheci  a  mulher  mais  fascinante  da 
minha vida. 
Eu  acabara  de  aterrar  no  aeroporto  internacional  de  Tânger.  E  o 
meu nome é Gold. Frank Gold. 
Ao  descer  a  escada  do  avião,  a  rajada  que  soprou  quase  me  ia 
levando. Mas a temperatura era amena: 22". Até ver. 
O  táxi  que  me  conduziu  rumo  ao  centro  da  cidade  era  um  Simca  com 
mais  de  trinta  anos  de  uso  e  o  motorista  falava  uma  mistura  de 
francês  e  espanhol.  O  que  por  um  lado  era  cómodo,  porque  eu  não 
percebia  quase  nada,  mas  por  outro  se  tornava  ligeiramente 
perigoso,  pois,  ao  receber  em  resposta  apenas  alguns  “sim”  ou 
“não”,  ele  virava-se  todo  no  banco,  largava  o  volante  e  inquiria 
repetidamente: 
- Comprende? Comprenez? 
Eu  retorquia  rápida  e  decididamente  que  sim,  senhor,  compreendia 
tudo,  mas  creio  que  só  por  as  ruas  serem  largas  e  pouco 
movimentadas  não  fomos  parar  à  valeta  ou  enfeixar-nos  em  qualquer 
obstáculo.  Percorremos  assim,  alegremente,  todo  o  percurso,  que, 
segundo  percebi,  compreendeu  quatro  avenidas,  duas  praças  e  uma 
mesquita, até que fomos desembocar a um largo onde ele meteu ambos 
os pés ao travão e exclamou alegremente: 
- Voilà. 
Friccionei  o  peito  magoado  no  varão  de  ferro  das  costas  do  banco 
da frente, olhei para um e outro lado e inquiri: 
- Voilà, o quê? 
- Place de France. 
Havia  movimento,  cafés  de  largas  vidraças  e  um  vago  estilo 
colonial  dos  velhos  tempos.  No  meu  programa,  porém,  isso  figurava 
depois. 
- E então, amigo? 
Cuspiu  uma  beata  mastigada  que  vinha  a  usar  ao  canto  da  boca, 
abriu os braços e declarou: 
- Centre de la ville. 
Eu fiz um esforço mental, ainda com o peito a doer-me, coloquei as 
mãos no varão, inclinei-me para a frente e forcei um sorriso. 
-  Oiça.  Eu  -  apontei  para  uma  costela,  talvez  fracturada  -  quero 
ir para o Hotel Continental. Percebeu? 
Ignorando  o  meu  sorriso  horrível,  soltou  uma  gargalhada  imensa 
entre  dois  pulos  no  assento,  e  quando  se  deu  por  satisfeito 
concluiu: 
- Alors, é para trás! 
A manobra que fez em seguida ainda hoje não a compreendi bem. Mas 
o velho Simca não só aguentou como ficou virado no sentido inverso 
e arrancou disparado. Felizmente, não durou muito, o percurso. 
E  quando  eu  já  julgava  que  íamos  passar  todas  as  tabuletas  que 
indicavam  o  sítio,  tal  como  passáramos  dois  sinais  vermelhos, 
aqueles  travões  hidráulicos  funcionaram  novamente,  e  nós  fomos 
enfiar  com  um  guinchar  aflitivo  pelos  portões  do  hotel  para  ir 
estacar  defronte  da  entrada  imponente  e  de  um  porteiro  trajado  à 

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moda da casa, que com o susto perdera todo o brio. Avançou direito 
a  nós,  a  ajeitar  com  uma  das  mãos  o  barrete  e  a  apontar 
ameaçadoramente a outra para o meu motorista. 
Enquanto  gritavam  os  dois,  eu  saí  do  carro  e  fiquei  a  aguardar. 
Quando deram por isso abriram ambos os rostos em sorrisos rasgados 
e  vieram  dar-me  uma  ajuda,  acompanhados  de  mais  um  elemento  da 
equipa do hotel, que agarrou logo nas malas e era o tipo mais feio 
que  eu  já  alguma  vez  tivera  à  minha  beira.  Exibiu  no  entanto  uns 
dentes  magníficos,  disse  “Ahmed”,  e  eu  não  soube  logo  se  era  uma 
saudação ou uma apresentação. 
Paguei então a corrida, incluí uma gorjeta e tentei despedir-me do 
condutor, que me fazia uma vénia quase até ao chão. Estranhamente, 
só nessa altura reparei que era um tipo grande e forte. 
-  Merci  beaucoup,  monsieur.  O  meu  nome  é  Felipe.  Às  ordens  para 
tudo.  É  só  telefonar.  Ahmed  sabe.  Tudo  o  que  quiser.  Ce  soir, 
visitar  sítios  muito  agradáveis.  Very  ni-ce.  -  Piscou  os  olhos  e 
levou a mão à orelha. - Amanhã, Kasbah... Felipe vem logo às oito. 
Merci beaucoup. 
Quando eu ia para falar, o Simca arrancou com o escape a arrastar 
pelo chão. 
Fui escoltado pelo Ahmed através do átrio moderno e espaçoso até à 
recepção,  onde  três  tipos  igualmente  fardados  se  fartavam  de 
trabalhar  em  ocupações  tão  importantes  como  pendurar  uma  chave  no 
cacifo,  introduzir  um  sobrescrito  num  dos  compartimentos  da 
correspondência,  ou  limpar  as  unhas  com  o  bico  de  uma 
esferográfica. 
- Name, please?-inquiriu um deles, com tanta brilhantina no cabelo 
negro e liso que eu quase me via ao espelho. 
- Gold. Frank Gold. 
Foi  consultar  o  registo,  enquanto  eu  depositava  o  passaporte  em 
cima do balcão. 
-  Quarto  612.  Vista  muito  boa.  Sobre  a  piscina.  Ahmed,  acompanha 
Mr. Gold. 
- Algum recado para mim? - quis saber. 
Falou  para  os  outros,  e  o  que  se  entretinha  a  limpar  as  unhas 
enfiou  rapidamente  as  mãos  nos  bolsos  e  veio  esclarecer  com  um 
sorriso polido. 
-  Sim,  Mr.  Gold.  Uma  senhora  espera  Mr.  Gold  no  bar.  Queira 
acompanhar-me. 
Fiz  sinal  a  Ahmed  para  ir  andando,  detive-me  no  caminho  apenas  o 
tempo suficiente para passar pelos lavabos, e tomei a direcção que 
o braço estendido do empregado de unhas limpas me indicava. 
Ela  estava  ao  balcão,  empoleirada  num  tamborete.  E,  meu  Deus,  que 
mulher!  Francesca.  Fisicamente,  uma  obra  de  arte.  Pensava  nela  o 
poeta  quando  escreveu:  “Tal  uma  chama,  tal  como  vinho  derramado 
sobre  a  lagoa  tranquila  a  transformou  numa  torrente  de  sol-pôr... 
assim se exaltam os meus sonhos.” 
Francesca dispensava a imaginação do poeta e constituía um desafio 
ao talento de qualquer artista. Eu, que o não sou, ao contemplá-la 
via  nela  muito  mais  do  que  podia  observar.  E  o  que  eu  e  qualquer 
um  podia  ver  era  o  limite  do  que  um  homem  consegue  tolerar. 

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Francesca  tem  cabelos  longos,  de  um  castanho-claro  que  às  vezes  é 
cor  de  cobre  e  outras  é  cor  de  sol.  O  rosto  de  Francesca  é  tão 
perfeito  que  os  olhos  violeta,  a  boca  linda  e  desejável,  e  todos 
os traços suaves que o compõem constituem cada um peça notável de 
uma  harmonia  completa.  E  todo  o  seu  corpo  de  pele  branca  muito 
levemente  dourada  pela  brisa  do  mar  é  tão  belo  como  a  mais  bela 
estátua e encerra tanta vida como a própria vida contém. 
Usava um vestido justo de seda estampada, com um decote rasgado  a 
permitir o espectáculo da metade superior dos seios soberbos, e na 
saia a abertura  do lado esquerdo descobria o pedaço de perna mais 
excitante  que  é  possível  exibir.  Usava  esse  vestido  com  a  mesma 
distinção com que usa os gestos, os pensamentos e as palavras. 
Depois,  desprende-se  de  Francesca  tudo  aquilo  que  não  se  vê, 
apenas se sente, mas é impossível descrever. Junto de Francesca um 
homem tem de acreditar que Deus existe. 
Voltou  lentamente  a  cabeça,  olhou-me  e  sorriu.  Eu  fiquei  onde 
estava. Ela escorregou para o chão e veio caminhando até mim, num 
baloiçar  suave,  deslizante  e  natural.  Quando  chegou  mesmo  perto 
ergueu-se nas pontas dos sapatos, colou os lábios aos meus, passou 
os braços longos por trás da minha nuca e acariciou-a com os dedos 
finos  e  macios.  Tudo  isto  durou  poucos  segundos.  Mas,  quando 
terminou,  eu  sentia-me  como  se  tivesse  bebido  um  bom  uísque 
escocês  e  fumado  uma  cigarrilha  de  Havana  depois  de  longamente 
massajado após uma sauna reconfortante. 
As  narinas  dilataram-se-lhe  suavemente,  eu  suspirei  fundo  e  ela 
disse  com  um  sorriso,  naquela  voz  de  uma  brisa  morna  que  nos 
envolve e afaga: 
- Bem-vindo, Frank. 
Puxou-me  pela  mão  até  ao  local  que  ocupava  antes  e  convidou-me  a 
sentar ao lado dela. 
-  Então,  Frank?  Não  dizes  nada?  Ofereço-te  a  primeira  bebida  em 
Tânger. Talvez ajude... 
Fiz que sim, sem lhe confessar que já tinha tomado dois uísques a 
bordo.  Encomendei  um  JB  só  com  gelo  e  um  martini  para  ela. 
Inspirei fundo e fitei-a. O que exige um certo autodomínio. 
- Aqui estou-declarei estupidamente. 
Colocou uma mão sobre a minha e com a outra meteu-me um cigarro na 
boca  e  acendeu-o  com  o  isqueiro  de  ouro  que  eu  lhe  oferecera  em 
Singapura. 
- Desabafa, querido. 
- Estavas há muito tempo à minha espera? 
-  Meia  hora.  Não  fui  ao  aeroporto  porque  detesto  chegadas, 
partidas  e  demoras.  Por  isso  aguardei  aqui,  enquanto  pensava  em 
ti. Ainda gostas de mim? 
Chegaram  as  bebidas,  e  ainda  bem.  Despejei  um  bom  trago  e  deixei 
que  o  líquido  macio  escorregasse  e  diluísse  tudo  o  que  ia  lá  por 
dentro. Só depois respondi. 
-  Cada  vez  mais.-  Ia  acrescentar  “quanto  mais  conheço  as 
pessoas...”, mas achei que era demasiado banal. 
-...mais gostas de mim-concluiu. 
- Exactamente. 

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- Sofreste muito, Frank? 
-  Um  bocado,  menina.  Mas,  como  me  afirmou  um  jornalista  e  grande 
amigo  que  tu  conheces,  a  gente  tem  de  chegar  à  conclusão  de  que 
durante  uma  parte  da  vida  deu  importância  a  muita  coisa  que  não 
significava nem sequer um bocadinho. 
- Já obtiveste o divórcio? 
- O mês passado. 
- E os miúdos? 
-  Essa  foi  a  parte  pior.  Foram  entregues  à  mãe,  quando  ela  os 
reclamou. Sabes como é... 
-  Sei.  E  esses  dois  anos  que  eles  viveram  contigo  não  contaram 
nada? 
-  Não.  A  outra  parte  alegou  que  eu  tinha  uma  vida  profissional 
demasiado intensa. Além disso, Pat é a mãe deles. 
- Viste o Kramer contra Kramer? 
-  Vi.  Muito  mau.  -  Virei-me  para  ela  e  esbocei  um  sorriso  que  já 
não  me  custou  esforço  nenhum.  -  E  agora,  pronto.  Já  desabafei. 
Vamos conversar? 
- Sim. Para uma mesa.-Falou para o barman: 
- Tamin, leva-nos outra bebida, está bem? 
O  tipo  contemplava-a  como  se  ela  fosse  a  mãe  do  Profeta,  mas 
pareceu-me  ter  percebido.  Seguiu-se  novamente  aquela  operação  de 
descruzar as pernas, com a saia a abrir-se mais, e o deslizar por 
ali abaixo, agora roçando o corpo no meu. Senti vontade de agarrá-
la  ali  mesmo  e  beijá-la  outra  vez.  Foi  o  que  fiz.  Ela  não  ficou 
nada surpreendida. Já esperava. 
- Gostavas de fazer amor comigo, Frank? 
Ergui  o  sobrolho  esquerdo  e  tentei  compor  o  ar  ligeiramente 
trocista com que já antes tivera de enfrentar a questão. 
- Sabes que sim, boneca. 
Conduzi-a  até  à  mesa.  Para  além  de  nós,  apenas  se  encontrava  no 
local,  àquela  hora  de  pouco  movimento,  um  casal  estrangeiro, 
provavelmente 

europeu, 

de 

meia-idade 

ar 

próspero, 

que 

desenvolvia todos os esforços para dar a entender que não reparava 
em nós. 
Sentámo-nos.  Francesca  poisou  os  cotovelos  no  bordo  da  mesa  e  o 
queixo  nas  palmas  das  mãos,  aguardando  que  eu  continuasse  a 
recitar o que ela já sabia de cor. 
-  Expliquei-te  já  que  acho  isso  tão  natural  como  tanta  coisa  boa 
que  podemos  fazer  na  vida.  Já  tem  sucedido,  assim,  entre  cada  um 
de  nós  e  outras  pessoas.  Mas,  entre  os  dois,  ou  as  coisas 
aconteciam  de  uma  forma  especial,  e  então  era  o  fim  do  mundo  e 
entre  nós  tudo  passaria  a  ser  diferente,  ou  saíamos  desencantados 
da experiência, e então também algo poderia mudar. Acontece que eu 
não arrisco. Entendido? 
Claro que percebia. E concordava. 
- E agora, que já fiz um belo discurso, diz-me o que se passa. 
 
10 
 

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Ela  acendeu  um  cigarro  e  antes  de  falar  percorreu  discretamente  a 
sala com os olhos. 
-  Suponho  que  te  resumiram  a  situação,  quando  te  telefonaram  para 
Madrid. Pensaram certamente que andavas a perder o teu tempo, pois 
era aqui que estava a decorrer a acção. 
- Bem - interrompi-, em Madrid eu não estava exactamente a perder 
tempo.-Sorri e acrescentei:-Estava de férias. O único problema era 
o calor... 
- Claro que estavas de férias. Mas, se eu bem conheço o teu chefe, 
ele  não  é  sujeito  que  financie  digressões  turísticas  à  Europa,  a 
menos  que  lucre  alguma  coisa  com  isso.  E  tu  conhece-lo  ainda 
melhor  do  que  eu.  Além  disso,  meu  querido,  se  em  Madrid  estava 
calor, tenho o palpite que isto por aqui vai aquecer muito mais. 
- Estou a morrer de curiosidade, meu amor-declarei com um suspiro, 
para disfarçar a impaciência que sentia. 
- Ainda bem que consegui interessar-te. - Humedeceu com a ponta da 
língua  o  lábio  inferior.  Oh,  se  interessava.  Em  muitos  aspectos, 
até.-Então  aí  vai.  De  há  uma  semana  para  cá,  aterraram  aqui  em 
Tânger, e mais para o Sul, a uns quilómetros de Casablanca, vindos 
da Bolívia, três aviões da frota particular do teu amigo González. 
Sim, isso tinham-me dito pelo telefone. 
- E qual o motivo declarado da visita? 
-  Segundo  os  jornais,  uma  reunião  preparatória  entre  os 
presidentes 

de 

vários 

bancos 

consórcios 

internacionais 

empenhados  em  investir  em  força  no  desenvolvimento  do  turismo 
local.  As  fontes  governamentais  confirmam,  pelo  que  é  de  crer  que 
haja alguma verdade nisso. 
Encolhi os ombros. 
- Uma fachada, não é? 
- Sem dúvida. Mas agora prepara-te para o melhor. - Fitou-me bem a 
direito.  -  O  próprio  Adolfo  González  acaba  de  chegar,  incógnito, 
acompanhado da mulher, Trini, e da filha Juana. Que tal? 
Tive um estremecimento. 
- Férias? - E larguei uma risada nervosa. 
Mas  não  sentia  vontade  de  rir.  Havia  vinte  anos  que  Adolfo 
González não saía da sua propriedade de Santa Cruz, e mais de dez 
que ninguém lhe punha a vista em cima. 
 
11 
 
Por  uma  fracção  de  tempo  muito  breve,  mas  através  de  um  daqueles 
processos  mentais  que  o  nosso  cérebro  frequentemente  desenvolve  e 
nós  não  conseguimos  explicar,  passaram-me  velozmente  pela  cabeça 
centenas  de  imagens  relacionadas  com  o  motivo  da  minha  presença 
ali. 
Conhecera  Francesca  precisamente  na  Bolívia,  no  ano  anterior. 
Devido  a  um  conjunto  de  circunstâncias,  eu,  em  serviço  do  meu 
jornal,  o  Chronicle  de  Washington,  Francesca  Spranger,  que  na 
altura  trabalhava  para  o  Womarís  Now,  e  Al  Chasey,  um  repórter 
destacado  da  imprensa  diária  de  Nova  Iorque  e  meu  amigo  de  há 
muito,  encontráramo-nos  em  La  Paz.  Todos  íamos  ao  mesmo:  tentar 

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penetrar  a  rede  dos  mais  destacados  traficantes  de  droga  e  dos 
maiores  exportadores  de  cocaína  do  continente  americano.  Pela 
minha  parte  tudo  correra  sobre  rodas,  incluindo  entrevistas  com 
alguns  traficantes,  com  o  ministro  do  Interior  e  o  secretário  da 
Presidência  da  República.  Até  que  o  Al  Chasey  me  informou  que 
arranjara  um  contacto  que  lhe  permitiria  obter  provas  de  que  o 
próprio presidente protegia o grande patrão da organização, Adolfo 
González. 
Separámo-nos  e  cada  um  foi  farejar  por  seu  lado.  Só  que  Al  se 
meteu  numa  embrulhada  tal  que,  decorrida  que  foi  uma  semana  sem 
sabermos  do  seu  paradeiro,  acabámos  por  ser  detidos  os  dois, 
Francesca  e  eu,  quando  nos  dirigíamos  ao  palácio  do  presidente  a 
tentar  esclarecer  o  que  se  passava.  Daí  a  dois  dias  meteram-nos 
num avião que nos levou a Miami. Só aí viemos a saber que o nosso 
amigo  estava  preso  em  La  Paz,  acusado  de  ofensas  pessoais  ao 
presidente. 
Para  abreviar  a  história,  apenas  direi  que  só  graças  ao  esforço 
conjunto de uma parte importante da imprensa americana e de um mês 
de intensas diligências diplomáticas é que conseguimos recuperar o 
Al Chasey, que vinha mais desmoralizado do que se tivesse apanhado 
paludismo,  mas  apesar  disso  com  uma  revolta  tão  grande  que 
declarava  a  toda  a  gente  que  havia  de  prosseguir  até  o  matarem. 
Quis  ainda  esclarecer-nos  que,  ao  ser  advertido  pelo  ministro  do 
Interior,  notoriamente  envolvido  no  assunto,  apenas  tinha  chamado 
alguns  nomes  bovinos  à  mãe  do  ministro,  à  do  próprio  presidente 
Garcia,  assim  como  ao  resto  da  família  deste,  e  a  todo  o  clã 
González. 
 
12 
 
Acresce  que,  como  prémio  -noblesse  oblige  -,  o  director  do  Sun, 
George  Brannigan,  transferira  o  Chasey,  por  tempo  indeterminado, 
para  o  serviço  de  necrologia,  casamentos  e  cartas  ao  director.  De 
modo que o desgraçado, agora, queria também matar o Brannigan. 
- O Chasey, tens tido notícias dele? 
Francesca franziu o sobrolho e entreabriu os lábios. Decorrida uma 
breve pausa, perguntou: 
- Frank, tens estado a escutar-me? 
- Tenho. Mas preciso que vás respondendo ao que eu te pergunto. É 
mais fácil para mim. A nuvem passou e ela assentiu. 
- Bom. O Chasey continua com dono, lá em Nova Iorque. 
Abanei a cabeça. 
-  Duvido.  Ele  vai  aparecer  por  aí.  -  Depois  acrescentei:-Mas 
esperemos  que  não.  Quanto  ao  González?  Acreditas  que  eles  estão  a 
estender os braços? É isso? 
Acenou afirmativamente, com veemência. 
-  Penso  que  é  isso,  exactamente.  O  Adolfo  González,  com  o  apoio 
dos  próprios  responsáveis  bolivianos,  dos  bancos  que  controla  na 
América  do  Sul  e  do  Central  Bank  de  Miami,  que  também  está  nas 
mãos  da  organização,  pretende  fornecer  directamente  a  Europa  e  o 
Norte de África, via Lisboa, Madrid e Tânger. 

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- Okay - disse eu.- Mas, pela minha parte, acrescentarei: isso não 
seria  difícil.  Não  suficientemente  difícil  para  uma  organização 
como a de González de modo a justificar que ele fizesse aquilo que 
nunca  fez:  expor-se  pessoalmente.  Eu  penso...  -Sentia-me  um  pouco 
fatigado,  mas  o  facto  de  Francesca  me  escutar  agora  com  atenção 
redobrada  deu-me  alento  -...penso  que  o  que  González  pretende  é  o 
controlo absoluto de todas as rotas de tráfico de drogas -de todo 
o  tipo  de  drogas-  para  a  Europa  e  os  Estados  Unidos,  e 
especialmente das rotas de Singapura e do Norte  de África, no que 
se  refere  ao  ópio  da  Turquia,  do  Médio  Oriente  e  do  Sudeste 
asiático. 
Francesca  brincava  com  o  isqueiro  de  ouro.  Parecia  descontraída, 
mas começava a ficar enervada. O panorama que eu lhe descrevia era 
tão  vasto  que  impressionaria  qualquer  um  minimamente  iniciado  no 
assunto. 
Semicerrou os olhos e resolveu finalmente utilizar o isqueiro para 
acender outro cigarro. 
 
13 
 
- Acreditas que é isso? 
Fiz que sim, duas, três vezes. -Tenho a certeza. -Bom, então... 
Esbocei  um  sorriso  animador  e  percorri-lhe  com  o  indicador  as 
costas da mão apoiada na mesa. 
- Então, vamos a isso. Contactos, tens? 
A  perspectiva  de  acção  imediata  diluiu-lhe  ligeiros  vincos  na 
testa, e o rosto iluminou-se. 
- Sim, Frank. Não tenho perdido tempo, desde que fui alertada para 
o que estava a passar-se. Tenho montes de contactos - afirmou com 
entusiasmo. E adiantou, com o ar triunfante de um miúdo que ganhou 
um  prémio  na  escola:  -  Adivinha  o  que  eu  te  arranjei  para  esta 
primeira noite em Tânger! 
- Diz lá... Uma tangerina! 
Soltou uma daquelas gargalhadas que eram música aos meus ouvidos. 
-  Por  favor,  Frank!  Não  te  basto  eu?  Não...  Uma  festa!  Raios... 
podia ser interessante... ou um frete. 
- Vamos a isso - avancei confiante. - Onde e a que horas? 
-  Às  dez.  No  Consulado  da  Bolívia.  Organizada  pela  filha  de 
González. 
 
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CAPÍTULO II 
 
As  instalações  que  eu  ocupava  compreendiam  um  quarto,  sala  e  casa 
de  banho.  Tudo  espaçoso,  moderno  e  organizado.  Após  ter-me 
despedido de Francesca até logo à noite subira a pôr as coisas em 
ordem,  incluindo  o  meu  corpo,  que  bem  precisava.  Desarrumei  a 
bagagem, tomei um duche, liguei  para a recepção  a deixar recado  a 
Ahmed  para  que  confirmasse  para  as  oito  com  Felipe,  e  fui-me 
deitar. 

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O  sono  foi  um  bocado  agitado,  e  nele  misturaram-se  imagens 
agradáveis  de  um  flamenco  em  Madrid  na  companhia  de  duas 
andaluzas,  cenas  eróticas  em  que  participavam  Francesca  e  uma 
bailarina  de  dança  do  ventre,  tudo  acompanhado  por  um  bongó, 
depois  dois,  três  e  muitos,  que  num  ritmo  frenético  se  sobrepunha 
às  violas  e  cantadores  do  pátio  madrileno,  e  cenas  muito  menos 
eróticas  e  mais  violentas,  com  a  intervenção  de  Al  Chasey  e 
elementos  provenientes  do  gang  de  Santa  Cruz,  e  que  incluíam 
torturas que me eram infligidas por camponeses que me escancaravam 
a boca e me enfiavam folhas enormes pelas goelas abaixo até eu já 
não conseguir respirar. Tudo isso e mais o cheiro horrível a éter, 
acetona  e  ácido  sulfúrico  com  que  eles  fabricavam  a  coca  e  me 
molhavam o corpo com a intenção de pegar fogo a seguir. 
Acordei  sufocado,  transpirado  e  com  náuseas.  Percebi,  através  do 
reposteiro, que lá fora ainda era dia, mas calculei que já deviam 
ser  umas  sete  horas.  Tive  preguiça  de  consultar  o  relógio  e 
preferi distender o corpo por mais uns instantes até que os sonhos 
bons,  mas  sobretudo  os  maus,  se  distanciassem.  Só  depois  me 
levantei devagar, fui à geladeira e abri uma garrafa de Vitel. Em 
seguida  acendi  um  cigarro  e  vi  as  horas.  Sete  e  um  quarto.  Três 
baforadas depois, já mais confiante, dirigi-me à varanda. 
 
15 
 
A brisa fresca que soprava do mar fez o resto. E a vista magnífica 
para  o  parque  e  as  colinas,  e  não  menos  estimulante  para  a 
paisagem  de  uma  dezena  de  corpos  femininos  e  bronzeados,  lá  em 
baixo,  em  torno  da  piscina  enorme,  onde  brincavam  algumas  sereias 
estilo  Saint-Tropez  que  transbordavam  dos  bikinis  estritamente 
obrigatórios em gritos esfuziantes de alegria, conseguiram a minha 
recuperação total. 
Uma  delas,  de  touca  amarela,  que  boiava  com  dois  seios  imensos  a 
apontarem para mim, acenou-me simpaticamente. Eu admiti a hipótese 
de mergulhar da  varanda, mas acabei por desistir com uma careta  e 
voltei para dentro. 
Ocupei-me  até  às  oito  em  folhear  a  papelada  que  enchia  a  pasta 
preta  que  me  acompanha  habitualmente  nestas  excursões,  enviei  um 
telegrama para o meu director em Washington a dizer que já estava 
a  trabalhar  e  enfarpelei-me  em  tons  claros  para  a  minha  primeira 
saída.  Quando  acabava  de  abotoar  a  camisa,  depois  de  uma  fricção 
com uma água-de-colónia desaromatizada que compro sempre que vou a 
Paris, o telefone tocou. 
Era Ahmed a anunciar que Felipe aguardava no átrio. 
Enfiei um casaco claro, enchi os bolsos e saí. 
Cá em baixo fui alvo de uma recepção entusiástica. 
-  Monsieur  Gold!  Bom  aspecto...  formidable.  Monsieur  Gold  e 
Felipe, esta noite, beaucoup de sucesso! 
Ao  contemplar  a  figura  grande  e  escura,  de  olhos  enormes  que  a 
gente  quase  esperava  ver  saltar  e  rolar  pelo  chão,  trajando  uma 
camisa  vermelha  às  florzinhas  amarelas  e  umas  calças  de  ganga 
largas  e  gastas  apertadas  na  vasta  cintura  por  um  cinto  dourado, 

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não  me  senti  muito  lisonjeado  com  a  comparação.  No  entanto, 
agradeci, assim como a Ahmed, que corroborava, e segui o meu guia, 
que  deslocava  sem  dificuldade  o  corpo  pesado  sobre  umas  chinelas 
bordadas  a  ouro  e  azul.  Pelo  caminho,  já  na  saída,  cruzou-se  um 
tipo  alto,  bronzeado,  bem  constituído,  óculos  escuros  e  cabelo 
louro  quase  branco  cortado  muito  rente.  Reparei  nele  porque  a 
figura  dava  nas  vistas,  fatos  de  alpaca  azul  daquela  qualidade  e 
com um corte assim só se vêem de vez em quando, e todo o conjunto 
não me era estranho. 
O  meu  companheiro,  porém,  não  me  dava  tempo  para  reflexões. 
Enfiou-me  para  dentro  do  Simca,  tendo-me  entretanto  chamado  todo 
ufano a atenção para o tubo de 
 
16 
 
escape,  que  já  fora  preso  com  alguns  arames,  bateu  a  porta  com 
estrondo, ocupou o seu lugar e arrancou com o élan habitual. 
Logo  que  tomámos  a  estrada,  e  antes  que  ele  começasse  a  falar, 
achei por bem adverti-lo. 
- Oiça, amigo. Vou-lhe pedir um favor: gosto muito de si, acho que 
podemos  ser  bons  companheiros,  mas  só  com  uma  condição.  É  que 
você,  quando  for  a  guiar,  olhe  para  diante  e  fale  comigo  como  se 
eu fosse a andar de marcha atrás sempre meia dúzia de metros à sua 
frente. Percebido? 
Fez-me  a  vontade,  mas  ficou  a  reflectir  no  que  eu  lhe  dissera 
durante  uns  bons  dois  minutos.  Em  seguida  exibiu  um  sorriso 
radiante  pelo  espelho  retrovisor,  abanou  repetidamente  a  cabeça 
para cima e para baixo e concluiu, virando-se todo para trás: 
-  Mr.  Gold  manda.  Mr.  Gold  é  o  patrão!  Desisti  e  aconcheguei-me 
melhor no meu banco. Como guia,  este Felipe era  um espanto. Sabia 
tudo,  e  julgo  que  aquilo  que  não  sabia  inventava.  O  que  não 
deixava  de  ser  um  exercício  engraçado,  porque  me  obrigava  a  fazer 
uso  de  toda  a  minha  bagagem  e  bom  senso  para  separar  umas  coisas 
das outras. Ao chegarmos próximo do centro, anunciei-lhe: 
- Felipe, vamos dar uma voltinha por aí e depois jantamos os dois. 
Eu  aproveitara  uma  paragem  forçada  numa  passagem  de  peões, 
intensamente  utilizada  àquela  hora,  de  modo  que  ele  pôde  olhar 
para mim à vontade, com um misto de alegria e incredulidade. 
- Jantar, Mr. Gold? 
-  Exactamente  -confirmei.-  Onde  quiser,  desde  que  seja  comida 
francesa e não essas coisas horríveis que vocês comem acompanhadas 
com chá de hortelã. Combinado? 
- Sim, Mr. Gold. Sim, senhor! Mr. Gold é um gajo porreiro. 
Para quem de inglês só conhecia os rudimentos, não estava mal. 
Engrenou  na  primeira,  e  a  partir  daí  nada  o  faria  deter  na  ânsia 
de me mostrar tudo o que havia para ver antes do jantar formidável 
que já desfrutava antecipadamente. 
A  medida  que  íamos  percorrendo  os  locais,  e  que  tudo  estava  a 
ficar inundado de gente -cafés, lojas, ruas e 
 
17 

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passeios  -  Felipe  ia-me  explicando  como  podia  que  Tânger  é  antes 
do mais, como qualquer velha cidade marroquina, a medina, ou parte 
antiga.  O  Grande  Socco  é  o  principal  mercado  da  medina,  e,  pelo 
que eu podia observar, um mercado em Marrocos significa a qualquer 
hora  do  dia  uma  feira  exótica  diferente  de  todas  as  feiras  do 
mundo. Os bazares exibindo cá fora tecidos coloridos, roupas, toda 
a variedade de objectos de metal, madeira, couro e ourivesaria; os 
cafés  movimentados  que  servem  o  chá  de  hortelã  em  equipamentos 
aparatosos  e  tabuleiros  de  dominó,  mas  nunca  bebidas  alcoólicas; 
os camponeses das montanhas do Norte, envergando as suas djellabas 
estriadas  de  negro  -  a  cor  de  Deus-  e  chapéus  de  palha  de  abas 
largas, sentados com um grande monte de alhos-porros diante de si, 
a fumar tabaco de Quezzane, o melhor de Marrocos, isso quando não 
fumam rif, que cultivam em esconderijos nas montanhas; as mulheres 
camponesas,  também  do  Rif,  com  os  trajos  típicos  que  incluem 
amplos  aventais  às  riscas  brancas  e  vermelhas  e  resguardos  de 
cabedal  para  as  pernas.  E  uma  algazarra  enorme  se  ergue  de  toda 
aquela  multidão  variada  que  enche  o  bairro  construído  sobre  o 
fórum da antiga Tingis romana. 
Espectáculo  que  prossegue  quando  se  desce  pelas  ruas  estreitas, 
através da medina, até à pequena praça chamada Pequeno Socco. Aqui 
estão concentrados os mais velhos hotéis e cafés da cidade. 
Felipe  indicou-me  com  orgulho  o  Hotel  Fuentes,  que,  segundo  me 
jurou,  tinha  sido  gerido  em  tempos  por  um  tio  afastado.  Descemos 
mais, pela Rua da Marinha e passando pela Grande Mesquita, até ao 
terraço  que  abarca  o  porto  e  a  baía.  Felipe  quis  tirar  uma 
fotografia comigo, ao que eu acedi para irmos comer mais depressa. 
Jantamos  num  pequeno  restaurante  ali  perto,  pomposamente  chamado 
El  Maghreb,  cujo  patrão  era  argelino  -  um  primo  afastado  de 
Felipe,  segundo  este  me  afirmou,  e  que  anunciava  lá  dentro,  por 
sobre  o  papel  mata-moscas,  o  melhor  vinho  do  país.  Para  grande 
desgosto  de  ambos  os  primos,  recusei-me  terminantemente  a 
encomendar  couscous,  pastilla  e  chá  de  pimenta.  Enfim,  ao  cabo  de 
cinco minutos de discussão consegui convencê-los a mandar preparar 
uma sopa de peixe e costeletas de carneiro. 
 
18 
 
Felipe  gastou  um  quarto  do  tempo  que  durou  o  jantar  a  falar  da 
família,  da  cidade,  dos  amigos  e  da  sua  vida  desde  pequenino,  e 
metade a mastigar e a beber com  satisfação. A outra quarta parte, 
e essa foi a mais desgostante, ocupou-a a fazer ambas as coisas. 
Felipe era espanhol, de Sevilha, e por razões que ficaram para mim 
menos bem esclarecidas, mas tinham a ver com o facto de andar com 
a  polícia  da  terra  à  perna  por  contrabando  de  uísque  e  tabaco,  e 
também  ameaçado  de  morte  por  uma  quadrilha  rival,  além  de 
perseguido  por  uma  jovem  lá  da  terra  dele  e  mais  toda  a  família 
porque se descuidara e lhe fizera um filho, chegara a certa altura 
à conclusão de que para a sua saúde o remédio mais indicado seria 
uma mudança de ares. Assim, achava-se em Tânger, onde tinha alguns 

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parentes  afastados,  mas  fixes,  um  dos  quais  lhe  entregara  um  táxi 
que ele operava, segundo afirmou entre dois copos de vinho e de um 
arroto,  com  mais  êxito  que  qualquer  outro  motorista  da  cidade. 
Isso  porque,  além  do  mais,  confidenciou-me,  falava  fluentemente 
espanhol, português, francês, inglês e árabe. 
Às  dez  menos  um  quarto,  plenamente  satisfeito  com  a  saborosa  e 
abundante  sopa  de  peixe  e  marisco,  e  mais  as  costeletas  tenras  e 
sete  decilitros  e  meio  de  um  excelente  vinho  de  Casablanca, 
resolvi  que  eram  horas  de  irmos  andando.  Confirmei  que  Felipe 
ainda  estava  em  condições  de  conseguir  levantar-se  sozinho  da 
cadeira,  despedimo-nos  do  patrão,  que  nos  acompanhou  até 
praticamente dentro do carro, e arrancámos. 
Se  o  proprietário  de  El  Maghreb  não  retirasse  tão  prontamente  a 
cabeça,  que  enfiara  pela  janela  traseira  para  me  oferecer  um 
charuto, teria ficado sem ela. 
Foi com Felipe a cantar aos berros e eu recostado confortavelmente 
a fumar o meu charuto que empreendemos o trajecto para a montanha. 
Passámos  o  bairro  Marshan  e  continuámos  pela  estrada  que  sobe 
sempre  entre  os  pinhais,  ladeada  a  espaços  por  parques  e  luxuosas 
moradias.  É  a  zona  residencial  ocupada  pelo  corpo  diplomático, 
marroquinos ricos e milionários que têm aí a sua casa de campo. 
A entrada para o consulado fazia-se por um largo portão aberto num 
muro  de  uns  três  metros  de  altura.  Dois  guardas  mandaram-nos 
parar,  mostrei-lhes  o  salvo-conduto  que  Francesca  me  deixara,  e 
pudemos seguir. No 
 
19 
 
termo de uma álea que subia ligeiramente em curvas suaves deparou-
se-nos  repentinamente  a  casa.  Era  um  prédio  magnífico  de  três 
pisos,  no  estilo  colonial,  com  colunas  de  mármore  e  uma  escadaria 
enorme que conduzia à vasta entrada toda iluminada. 
Defronte  da  escadaria,  e  no  parque  de  estacionamento  fronteiro, 
alinhava-se  uma  colecção  surpreendente  de  Rolls-Royces,  Bentleys, 
Cadillacs, Mercedes e Citroéns de grande luxo. 
O porteiro fardado hesitou em vir abrir-me a porta do velho Simca, 
o que era compreensível. Tanto mais que nessa altura os arames do 
tubo de escape já tinham desistido de cumprir a sua tarefa. Depois 
de  me  identificar,  convidou-me  a  entrar.  Perguntei-lhe  se  Miss 
Francesca  Spranger  já  tinha  chegado,  e  ele  confirmou.  Já  eu  me 
despedira de Felipe e subia os degraus quando o ouvi gritar: 
- Felipe espera aqui. Virei-me. 
- Felipe não espera coisa nenhuma. Amanhã ao meio-dia no hotel. 
Olhou-me com um ar de vira-latas escorraçado e resmungou: 
- Si, senor. 
Entrei  no  átrio.  Mármores,  escadarias  que  subiam  de  ambos  os 
lados,  um  candelabro  imenso  e  móveis  antigos  com  porcelanas 
preciosas.  Das  traseiras  soprava  forte  um  ruído  de  vozes,  como  o 
barulho  do  mar  em  noite  de  vento  e  com  muitas  risadas  a 
sobreporem-se  ao  som  da  música.  O  ambiente  estava  animado. 
Encaminhava-me  para  aí  quando  um  indivíduo  trajado  a  rigor  num 

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smoking  impecável  saiu  de  uma  enorme  porta  lateral  e  se  dirigiu 
para  mim.  Era  alto,  forte,  moreno,  de  cabelo  e  bigode  negros. 
Falou com sotaque espanhol. 
- A quem tenho a honra? 
-  Gold,  Frank  Gold.  Do  Chronicle  de  Washington.  Francesca 
convidou-me. 
Exibiu  uma  dentadura  magnífica,  inclinou-se  ligeiramente  e 
estendeu-me  a  mão.  -  Luis  Pérez  Camilo,  cônsul  da  Bolívia.  Tenho 
muita  honra.  Vou  acompanhá-lo  até  Francesca,  essa  mulher 
inteligente e fascinante e igualmente minha querida amiga. 
 
20 
 
Quase  ao  desembocarmos  no  terraço  deteve-me,  para  me  confidenciar 
sobre o barulho que subira de intensidade: 
-  Se  usted  me  permite,  desejo  explicar-lhe  que  esta  festa  foi 
ideia  de  Miss  Juanita  González,  que  chegou  há  dois  dias  para 
passar  aqui  uma  parte  das  férias.  E  nossa  convidada  durante  este 
período de tempo, pelo que nós pretendemos proporcionar-lhe tudo o 
que a possa fazer sentir-se bem. 
Aguardou que eu concordasse e acrescentou quase em ar de desculpa: 
-  Explico-lhe  a  situação  para  que  não  estranhe  a  presença  nesta 
casa  de  tanta  gente  jovem  e  porventura...  hum...  irreverente.  A 
juventude, de agora, sabe, Mr. Gold... 
Sorriu  de  novo  e  fez  um  gesto  que  não  queria  significar  coisa 
nenhuma. 
Eu aquiesci, disse que sabia, sim senhor, mas que até gostava e o 
Senhor  Cônsul  não  tinha  de  se  preocupar.  Pareceu-me  um  pouco  mais 
aliviado,  e  o  sorriso  brilhante  reapareceu.  Pensei  que  se  ele 
decidira  explicar  a  situação  a  cada  um  dos  convidados  bem  merecia 
o ordenado que lhe pagavam e mais um bónus razoável. 
No  terraço,  iluminado  como  se  fosse  dia,  e  onde  um  conjunto  se 
esforçava  nos  instrumentos  como  se  fosse  aquela  a  sua  última 
oportunidade,  encontravam-se  mais  de  uma  centena  de  pessoas.  Em 
grupos  grandes,  em  círculos  pequenos,  ou  solitárias,  com  um  copo 
na  mão,  novas  e  velhas,  trajando  desde  blue  jeans  a  smokings  ou 
magníficos vestidos compridos e decotados. 
Alguns rostos viraram-se para mim, saudaram-me discretamente, e eu 
retribuí.  Não  consegui  localizar  Francesca,  porém  o  meu  anfitrião 
anunciava-me  daí  a  momentos:  “Ali  está  ela”;  fez  um  sinal  e,  com 
grande  alívio,  vi  Francesca  aproximar-se.  Apresentava-se  com  a 
elegância  habitual.  Nada  de  trajos  complicados.  Um  lindo  vestido 
vermelho muito justo, e era o suficiente para podermos dar lugar à 
imaginação.  Ficou  muito  contente  quando  me  viu  e  quis  mover-se 
mais  depressa,  mas  não  era  possível  porque  a  saia  não  dava. 
Abraçou-me. 
- Frank, que bom! 
Concordei. O Senor Carrillo considerou que eu estava bem entregue, 
dirigiu  a  ambos  algumas  palavras  amáveis  e  pediu  licença  para 
atender mais convidados que entretanto iam chegando. 
 

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21 
 
Francesca enfiou o braço no meu. 
-  Anda,  querido.  Vou  apresentar-te  a  algumas  pessoas.  Um  criado 
marroquino  de  barrete  vermelho  e  farda  branca  passou  por  mim  com 
uma  bandeja  com  copos  cheios,  e  eu  agarrei  num  que  me  pareceu 
conter uísque. Acho que ele não deu por nada. 
- Amor, esta é Juanita. Frank Gold, jornalista de... 
Foi como se me tivessem dado uma martelada na nuca. Senti a língua 
seca,  os  olhos  embaciados  e  as  pernas  gastas.  Apertei  o  copo  com 
força  para  ter  a  certeza  de  que  o  meu  cérebro  ainda  dominava  os 
músculos. 
- Muito prazer - fui articulando automaticamente. 
O panorama que se exibia na minha frente constituía um espectáculo 
assombroso.  Um  metro  e  oitenta  de  mulher  sul-americana,  tropical, 
exuberante!  Exactamente  o  que  Euclides  deve  ter  sonhado  quando 
imaginou  uma  tangente  para  cada  curva,  e  o  que  fez  Arquimedes 
gritar “Eureka” quando a viu entrar na casa de banho. Mais aqueles 
cabelos  negros  pelos  ombros  abaixo,  a  envolverem  um  rosto  tão 
sensual que era  um convite a aspirar-lhe a boca  carnuda. Daí para 
baixo o conjunto emergia de uma  blusa preta toda aberta na frente 
e apertada na cintura, dez centímetros acima de umas calças também 
pretas que lhe desciam até ao joelho, tão finas e coladas ao corpo 
que,  se  fossem  da  cor  da  pele,  toda  a  confusão  seria  possível. 
Embora  a  pele  dela  possuísse  um  tom  dourado-escuro  que  seria 
impossível imitar. 
Quando  voltei  a  mim,  ela  murmurava  qualquer  coisa  ao  ouvido  de 
Francesca  e,  pela  forma  como  ambas  se  riram  e  me  olharam,  devia 
tratar-se de alguma brincadeira erótica. Levei o copo à boca, e de 
imediato cuspi para o chão. 
- Chá - pronunciei, dirigindo-me a elas. Riram-se ainda mais, e eu 
senti-me um palhaço. Juanita veio em meu auxílio. 
-  Tome,  Frank  -murmurou,  estendendo-me  o  copo  dela.-A  voz  era 
ligeiramente  rouca  e  possuía  o  calor  das  profundezas  do  Inferno. 
Levei de bom grado o copo à boca. O aroma do uísque velho diluiu o 
sabor a morango da leve marca de bâton. 
Francesca  afastara-se  uns  metros  para  atender  dois  ou  três 
admiradores  e,  por  seu  lado,  os  dois  cavalheiros  altos  e  morenos 
que escoltavam Juanita devem ter concluído que 
 
22 
 
ela se divertia o suficiente, visto que foram discretamente à vida 
deles. 
-  Você  é  a  filha  do  famoso  Afonso  González  -  disse  eu,  só  para 
entabular conversa. 
Semicerrou as pálpebras e as longas sobrancelhas fizeram o resto. 
-  Sou.  E  você  é  o  famoso  Frank  Gold,  a  quem  o  meu  pai  fez  passar 
um mau bocado, não é? 
Nesta altura largou uma gargalhada. 
- Sou - concordei. - Foi muito engraçado. 

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- Não foi?-disse ela. - Tirou-me o copo da mão, prendeu-me o pulso 
com força e anunciou:-Vamos dançar. 
Levou-me  a  reboque  até  ao  meio  da  sala,  onde  uma  dúzia  de  pares 
heterogéneos  se  mexiam  com  frenesim  ao  ritmo  de  uma  música  sul-
americana.  Então  a  orquestra  fez  de  súbito  uma  pausa,  para  atacar 
de  imediato  um  bolero,  Juanita  grudou-se  a  mim,  segundo  creio  na 
intenção  generosa  de  me  compensar  e  fazer  esquecer  os  desgostos 
que  o  pai  me  dera.  Conseguiu-o  plenamente.  A  dada  altura  falou, 
com a língua a movimentar-se no meu ouvido: 
- Onde está alojado aqui em Tânger, Frank? Recitei-lhe o hotel,  a 
rua, o número do quarto, e esclareci que havia dois telefones. 
- Bueno, Frank querido. Talvez uma noite destas vá visitá-lo. 
- Si, senorita. 
Bendisse aquela brisa fresca e suave que soprava no terraço, vinda 
do mar, assim como o final da melodia, que era também o intervalo 
da  orquestra,  e  a  intervenção  de  uma  quarentona  espampanante, 
cabelo  vermelho  e  o  pescoço  e  os  pulsos  cobertos  de  jóias,  que 
veio ter com Juanita a participar com voz estridente: 
-  Minha  jóia...  tenho  ali  tanta  gente  que  queria  tanto  conhecer-
te! 
Juanita  virou-se  para  mim,  simulando  longamente  um  beijo  que  mais 
próximo talvez fosse fatal, e pronunciou num sussurro: 
- Desculpe, Frank. E... está combinado, si? Concordei que sim, que 
estava,  embora  não  soubesse  exactamente  o  quê.  Afastou-se 
bamboleante como um barco que se faz às ondas, e eu respirei fundo 
e encaminhei-me por entre os grupos direitinho ao bar. Aí 
 
23 
 
encomendei  um  uísque  duplo,  que  pelas  minhas  contas  apressadas 
devia ser o sexto ou o oitavo do dia. 
Estava  a  refazer-me  do  choque  quando  um  tipo  baixinho,  gordo  e 
careca, que usava óculos de lentes grossas, smoking cor de vinho e 
laço preto de filetes dourados me dirigiu a palavra. 
-  Mr.  Gold,  não  é?-Fiz  que  sim.  Apertou-me  a  mão  com  várias 
sacudidelas. 
-  O  meu  nome  é  Castro.  Francisco  Castro.  Sou  português  e  há 
quarenta anos cônsul honorário nesta cidade. 
-  Ah,  sim.  -  Correspondi-lhe  com  simpatia.  Francesca  falara-me 
dele.  O  Senhor  Castro  era  sem  dúvida  uma  figura  de  Tânger.  Quase 
uma lenda. A sua experiência de relações diplomáticas e humanas e, 
sobretudo,  a  sua  generosidade  e  honestidade  contra  tudo  e  contra 
todos  haviam  triunfado  ha  muito  numa  cidade  dura  onde,  mais  ainda 
nesses  anos  do  pós-guerra,  o  crime  organizado  e  o  vício  não 
deixavam lugar para sentimentos. 
-  Muito  gosto  em  conhecê-lo,  Senhor  Castro.  Diga-me  uma  coisa: 
quando posso ir visitá-lo? 
Ficou radiante. 
-  Oh,  meu  caro  Senhor  Gold!  Às  suas  ordens...  Sempre  às  suas 
ordens! 

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Falava  um  inglês  com  sotaque,  mas  exprimia-se  com  uma  facilidade 
espantosa. 
-  Bem,  muito  obrigado.  Passarei  amanhã  à  tarde  pelo  seu 
escritório. Pode ser? 
Afirmou  que  sim,  que  a  qualquer  hora  do  dia  ou  da  noite  estava  à 
disposição  de  um  jornalista  conceituado  como  eu.  Procurei  não  me 
envaidecer,  dobrei-me  um  bocado  para  corresponder  minimamente  ao 
cumprimento dele e aguentei mais três sacudidelas de mão. 
Foi  então  que  reparei  naquela  rapariga.  Encontrava-se  sentada  no 
parapeito  do  terraço,  afastada  do  bulício  e  aparentemente  a 
contemplar a baía. Ainda hoje não sei descrever com precisão o que 
me  atraiu  nela.  Sem  dúvida  que  a  essa  distância  me  pareceu  uma 
figura  encantadora,  de  linhas  harmoniosas,  que  a  túnica  estreita 
não  ocultava  nem  realçava.  Foi  talvez  na  altura  em  que  ela  me 
olhou que senti uma necessidade Íncontrolável de me aproximar. Dei 
alguns  passos  hesitantes.  O  barulho  e  a  confusão  pareciam-me  ter 
ficado muito para trás. Ela possuía uma beleza estranha e exótica. 
Usava o cabelo negro apartado 
 
24 
 
ao  meio  e  a  cair-lhe  em  duas  grossas  tranças  negras  pelas  costas 
abaixo. Os contornos do rosto eram de uma rara suavidade. Nele, a 
boca  húmida  e  os  olhos  meigos  e  acariciantes  punham  um  leve 
encanto  sensual.  Pelos  vistos,  o  facto  de  eu  me  encontrar  ali 
especado  a  olhar  não  a  deixava  muito  à  vontade,  pelo  que  me 
apressei a cumprimentá-la. 
-  Como  está,  miss?  O  meu  nome  é  Frank  Gold  e  cheguei  hoje  dos 
Estados  Unidos.  Foi  Francesca  Spranger  quem  me  convidou  a  vir 
aqui. Não conheço mais ninguém. 
Fitou-me  atentamente  durante  uns  segundos  e  depois  sorriu.  Um 
sorriso doce que lhe formava duas covinhas na cara. 
- Sim. Eu chamo-me Karin. Gosto muito de Francesca. Como está? 
Exprimia-se  num  inglês  fluente  e  possuía  uma  voz  macia  e  musical. 
Estendeu-me  a  mão  delicada,  que  procurei  não  demorar  entre  a 
minha. - Posso sentar-me? 
- Sim. E penso que deve. É tão lindo, à noite, visto daqui. 
Falava  como  mergulhada  num  sonho  bonito  do  qual  as  suas  palavras 
saíam com um sabor longínquo. Olhou novamente para mim. 
- Que o trouxe a Tânger, Mr. Gold? 
-  Estou  em  serviço  do  meu  jornal,  Miss  Karin.-E  acrescentei:  - 
Interromperam-me as férias. 
- Oh... É assim tão grave? 
-  Talvez,  miss.  Quando  começamos  nunca  sabemos  ao  certo  onde 
iremos  parar.  A  maior  parte  das  vezes  é  uma  pequena  notícia 
aparentemente sem importância. Ou nem isso, um palpite apenas. 
- Compreendo. 
Estranhamente,  tive  a  sensação  de  que  ela  compreendia  mesmo.  Que 
idade teria? Não mais que vinte e quatro ou vinte e cinco. Talvez 
menos. 
- É marroquina, Miss Karin? 

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- Sim. Nasci em Tânger. Senti-me ainda mais interessado. 
-  O  seu  nome...  não  é  árabe,  pois  não?  Ela  volveu,  com  tranquila 
ironia: 
- Frank é nome germânico, não é? 
 
25 
 
Admiti que me parecia que sim. Ela acrescentou: 
-...e pode tratar-me por Karin, Mr. Gold. 
-  De  acordo,  Karin.  E  você  pode  tratar-me  por  Frank.  -Sim,  Mr. 
Gold. 
Achei  que  não  era  conveniente  fazer  naquele  momento  um  esforço 
para  interpretar  o  sentido  da  resposta  dela.  Tanto  mais  que  a 
atitude  seguinte  não  sugeria  de  forma  alguma  que  eu  estivesse  a 
maçá-la. Proferiu com um ar compenetrado: 
-  Acho-o  muito  simpático.  Tenho  o  pressentimento  de  que  é  um 
jornalista honesto... Diga-me qual é o seu trabalho, exactamente. 
Sorri. 
- Primeiro que tudo, muito obrigado pelo elogio. Em segundo lugar, 
sempre lhe direi que sim, Karin, penso que sou honesto, e acho que 
as pessoas que me conhecem e me lêem pensam o mesmo. E, terceiro, 
a minha área profissional é o crime, o vício, a corrupção e todos 
esses cancros que atacam e roem os homens. Como vê -concluí-, pode 
não ser um trabalho muito higiénico, mas, como em tudo na vida, é 
preciso haver alguém que o faça. 
Escutou-me  com  atenção  e  o  rosto  e,  sobretudo,  os  olhos  revelavam 
um  interesse  muito  grande.  Pela  minha  parte,  ali  sentado  junto 
daquela  personagem  encantadora,  a  aspirar  o  cheiro  do  mar  e  dos 
pinheiros  e  com  as  luzes  da  cidade  semeadas  lá  muito  em  baixo, 
sentia  uma  enorme  tranquilidade  e  quase  não  me  apetecia  falar.  O 
silêncio  que  se  seguiu  aconteceu  naturalmente  e  foi  tão  bom  como 
tudo  o  resto.  A  um  dado  momento  Karin  fitou-me,  pareceu  reflectir 
durante  alguns  segundos  e,  após  o  que  me  pareceu  uma  ligeira 
hesitação, pronunciou: 
- Poderia jantar amanhã comigo, Mr. Gold? 
Deve  ter  captado  a  reacção  de  surpresa  que  não  consegui  ocultar, 
pois  adiantou  logo  em  seguida,  com  um  ar  muito  sério:  -  Terei 
muito prazer em lhe falar da minha cidade. Respondi deliciado: 
-  Certamente,  Karin.  E  eu  não  poderia  desejar  um  guia  mais 
atraente. Onde podemos encontrar-nos? 
-  Às  cinco  horas,  no  Café  de  Paris.  Fica  no  Boulevard  Pasteur. 
Pode ser? 
- Sim - disse eu, ainda mal refeito. 
- Passa-se alguma coisa, Mr. Gold? 
 
26 
 
-  Sim-retorqui.-Passa-se  que  daqui  até  às  cinco  horas  de  amanhã 
vai custar o diabo a passar. 
Deve ter achado  graça ao desabafo, porque de novo as covinhas lhe 
surgiram nas faces. 

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- Bem, então até amanhã... 
Levantou-se tranquilamente, dirigiu-me um pequeno aceno e afastou-
se, caminhando com extrema leveza. 
Eu  ainda  contemplava  o  céu  e  as  estrelas  quando  ouvi  a  voz  de 
Francesca por cima de mim. 
- Então, amor? 
Olhei. Ela exibia um ligeiro sorriso trocista. 
- Como de costume, não perdes tempo, não é? -Han?... 
Indicou a sala. 
- Ela, não sabes quem é? 
- Karin. 
- Sim, Karin... Mais nada? 
- Não - respondi, meio ausente. 
-  Bem,  então  compete-me  esclarecer-te  que  se  trata  da  herdeira  da 
maior  fortuna  daqui.  Chamam-lhe  “a  Rapariga  de  Tânger”  e  não 
costuma falar com estranhos. Parabéns, meu querido. 
O  resto  da  festa  foi  uma  sucessão  de  apresentações,  conversas 
banais,  um  copo  aqui  e  ali,  tudo  caras  novas,  Karin  desaparecera, 
e  nessa  noite  não  voltei  a  vê-la.  Às  tantas  resolvi  que  eram 
horas, despedi-me de toda a gente e saí. 
No carro, Felipe roncava que nem um desalmado. 
Ao  passar  pela  recepção,  o  empregado,  que  eu  não  conhecia,  quando 
me  identifiquei  e  pedi  a  chave,  abriu  a  boca  várias  vezes  sem 
falar, como se fosse um peixe, e apontou para cima. Olhei, mas não 
dei por nada. Às tantas, ele conseguiu articular: 
- Mr. Gold... a sua filha... 
Pousei as mãos no tampo, fixei-o bem nos olhos e pronunciei: 
- Não tenho filha nenhuma. 
Pareceu desanimado, como se estivesse para ser despedido. 
- Bem, nesse caso... 
- Nesse caso, o quê? 
 
27 
 
Apontou outra vez para cima. 
- A sua... 
- A minha o quê? O ar dele metia dó. -Por favor, Mr. Gold... 
Tive pena dele, aconselhei-o a descansar e rumei para o elevador. 
Quer  acreditem,  quer  não,  depois  do  dia  que  tivera,  ao  entrar  no 
quarto não tive surpresa nenhuma. 
Sentada  na  cama,  com  o  lençol  pela  cintura,  Juanita  fumava  um 
cigarro. 
 
28 
 
CAPÍTULO III 
 
No dia seguinte, cerca das onze, precisamente na altura em que eu 
tomava  alegremente  o  meu  duche  matinal  após  o  pedaço  revigorante 
de noite em que conseguira repousar, o telefone tocou. 

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O  sabonete  saltou-me  das  mãos  e  eu  soltei  uma  imprecação  e  saí 
contrariado  da  banheira  para  ir  atender,  com  a  cabeça  cheia  de 
espuma. Podia muito bem ser Francesca, ou Karin, ou... não! 
- Alô, Monsieur Gold? 
Parecia-me  espantosa  a  facilidade  com  que  eu  me  transformava  em 
monsieur,  mister,  senor,  “Frank  querido”,  mi  hombre  e  outras 
coisas mais a que pouparei o leitor. 
- O próprio. 
-  É  Ahmed  quem  fala.  Está  aqui  um  senhor  que  diz  chamar-se  Mr. 
Wong  e  que  pergunta  se  o  pode  atender.  -  Pausa.  -  Desculpe,  Mr. 
Gold...  Mr.  Wong  roga...  respeitosamente...  ao  venerável...  Mr. 
Gold,  se  pode  conceder-lhe  o  favor...  inestimável...  de  uma 
entrevista. 
Bolas! Depois de um esforço daqueles, eu não iria desapontar o meu 
amigo Ahmed, 
-  Okay,  Ahmed.  Diz  ao  fulano  que  pode  subir.  Decorridos  dois 
minutos,  o  tempo  suficiente  para  eu  enfiar  umas  calças  de  flanela 
lilases que uma amiga me metera na mala à última hora e enrolar a 
cabeça  numa  toalha  de  praia,  bateram  à  porta.  Tratei  de  ir  abrir 
descalço como estava. 
Por  uma  fracção  muito  breve,  o  meu  visitante  olhou-me  através  da 
porta entreaberta e das pálpebras sem pestanas como se eu fosse um 
erro atroz. Porém, como compete a qualquer digno representante dos 
lados do Sol Nascente, imediatamente se recompôs. 
- É com Mr. Gold que tenho o privilégio... 
 
29 
 
-  Bem,  Mr...  Wong-disse  eu,  tentando  desculpar-me  e  hesitante 
sobre se deveria abrir mais a porta.-É que., sabe...? 
-  Não  é  então  com  Mr.  Gold  que  eu  tenho  o...  Resolvi  acabar  com 
aquilo. 
-  Sim,  Mr.  Wong  -disse  eu  polidamente.  -  Eu  sou  Mr  Gold,  Frank 
Gold para ser exacto, e é portanto comigo que tem o privilégio de 
falar. Faça favor. 
Mr. Wong foi entrando lentamente com a bengala de bambu diante de 
si.  Apoiada  no  castão  de  prata  da  bengala,  uma  mão  com  unhas 
envernizadas  e  cinco  dedos,  três  dos  quais  eram  portadores  de 
anéis  com  pedras  preciosas  de  várias  cores,  e  com  dimensões  de 
pedras  não  preciosas.  Todo  o  conjunto  conferia  com  o  botão  de 
punho  que  se  apresentava  um  pouco  acima.  Em  seguida  introduziu  o 
pé  direito,  enfiado  num  sapato  preto  de  verniz  espelhado.  A  perna 
das calças pertencia a um conjunto de fato completo de fazenda de 
lã  de  carneiro  de  Yorkshire  entrelaçada  com  astracã.  Acima  do 
colete, o brilhante do alfinete que prendia a gravata de seda pura 
pintada  à  mão  possuía  o  mesmo  diâmetro  dos  botões  de  madrepérola 
do fato. O rosto pequeno, macilento e de pele macia, possivelmente 
humana, ostentava óculos de aros de ouro e lentes finas que deviam 
ser  de  cristal  de  Murano.  O  conjunto  era  encimado  por  um  pequeno 
chapéu  muito  elegante  de  pel  de  camelo  com  uma  minúscula  pena  de 
faisão entalada na fitinha de renda de Bruxelas. 

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Quase  não  resisti  a  propor-lhe  tirarmos  uma  fotografia  juntos; 
porém, logo que voltei a mim, foi para dizer: 
- Esteja à sua vontade, Mr. Wong. Faça o obséquio de se sentar. 
- Muito grato. É muito gentil. 
Fechei  a  porta  com  cautela,  para  não  fazer  barulho,  e  passei 
adiante a indicar-lhe o sofá. Mr. Wong instalou-se com precaução a 
vinte  centímetros  da  extremidade  e  compôs  o  vinco  das  calças, 
permanecendo  erecto  e  apoiado  na  bengala,  com  o  chapelinho  ao 
alcance da mão. 
Eu  enfiei  entretanto  os  chinelos  e  fui  ocupar  uma  cadeira 
defronte, sem saber bem se havia de traçar as pernas ou mantê-las 
paralelas.  Para  disfarçar,  tirei  um  cigarro  do  maço  que  se 
encontrava  em  cima  da  mesinha  baixa,  pedi  licença  e  acendi-o.  Só 
nessa  altura  me  lembrei  de  oferecer,  mas  acabei  por  desistir  ao 
vê-lo dilatar as 
 
30 
 
narinas como se o enjoasse o aroma daquele tabaco ordinário. 
-  Bom,  Mr.  Wong  -disse  eu.-  Estou  às  suas  ordens.  Pareceu-me  que 
sorria, mas não tive a certeza. 
-  Mr.  Gold,  com  a  sua  generosa  permissão,  se  a  tiver,  irei 
directamente ao assunto que me fez atrever a incomodá-lo. 
Disse  que  sim,  que  não  incomodava  nada.  Apenas  sentia  séria 
dificuldade  quanto  a  acreditar  que  Mr.  Wong  iria  direito  ao 
assunto, pois seria o primeiro oriental a fazê-lo. 
-  Mr.  Gold-começou  ele.  -  Tratando-se  de  um  jornalista  altamente 
conceituado  como  o  senhor,  não  deverá  minimamente  surpreendê-lo 
que algumas pessoas em Tânger possuam conhecimento da sua presença 
nesta cidade. 
Pensou provavelmente que eu ia falar, mas as palavras dele haviam-
me,  por  uma  associação  estúpida  de  ideias,  feito  pensar  em 
Juanita, de modo que me limitei a traçar as pernas. 
-  Nessa  medida,  a  minha  empresa,  Wong  and  Associates,  Import-
Export,  com  sede  nesta  magnífica  cidade  de  Tânger,  soube 
naturalmente da visita com que nos honrou o ilustre jornalista. 
Sorri modestamente e, aproveitando a pausa, inquiri: 
- Mr. Wong, dá-me licença por um momento? - Indiquei o telefone. - 
Uma chamada urgente... 
Aquiesceu  com  benevolência,  eu  levantei-me,  fiz  uma  vénia  e 
dirigi-me para o telefone. -Está lá! Ahmed? 
-  Não,  obrigado.  Sucede  apenas  que  eu  estava  preocupado  com  a 
Joana. Ela comeu bem esta manhã? 
-  Outra  coisa,  Ahmed,  veja  lá  se  a  sua  amiga  da  copa  lhe  dá  o 
banho que combinámos, está bem? 
- Okay. Depois falamos. 
Desliguei  e  voltei  a  ocupar  o  meu  posto.  Mr.  Wong  sorriu  pela 
primeira vez. Um sorriso sério, polido. 
- Mr. Gold... perdoe-me. Os ouvidos escutam por  vezes mesmo o que 
não  deveriam  escutar,  embora  fiquem  muitas  vezes  surdos  quando 
deveriam ouvir. Trata-se talvez de... sua filha... 

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31 
 
Soltei uma gargalhada que conseguiu surpreender o meu visitante. 
- Não, Mr. Wong. Trata-se de uma pequena cabra que eu encontrei na 
estação  de  caminho-de-ferro  e  que  decidi  colocar  sob  a  minha 
protecção.  -  Sorri.  -  Da  mesma  forma  que  antigamente  vários 
governos forneciam em Tânger protecção a cidadãos que necessitavam 
dela... e faziam por merecê-la. 
Mr. Wong não se deu por achado. Considerou com gravidade: 
-  Consola-me  o  coração  conhecer  um  homem  raro  como  o  ilustre 
jornalista. A bondade é uma excelsa virtude, Mr. Gold. 
A  julgar  pelo  vocabulário,  Mr.  Wong  estava  mais  ocidentalizado  do 
que poderia parecer à primeira vista. 
- Não sou merecedor, meu caro senhor - declarei. -Mas adiante. Ia 
dizendo... 
-  Exacto,  Mr.  Gold.  Dizia  eu,  e  não  desejaria  alongar  -me,  que  a 
sua  visita  seria  sempre  motivo  de  grande  satisfação  e  orgulho.  No 
entanto,  as  razões  imediatas  que  o  trouxeram  até  aqui  constituem 
para nós motivo de particular regozijo. 
Aguardei.  Se  alguma  coisa  tenho  aprendido  na  longa  experiência  da 
vida, é a ter paciência. Alguma, quero eu dizer. 
-  Isso,  Mr.  Gold,  porque  a  nossa  empresa  está  em  vias  de  ser 
altamente  prejudicada,  a  curto  prazo,  pela  interferência  nas 
nossas  linhas  comerciais  de  uma  organização  cujos  processos  o 
ilustre jornalista conhece melhor do que nós. 
Esborrachei a ponta do cigarro e descruzei as pernas. 
- E então, Mr. Wong? 
Encostou  delicadamente  a  bengala  no  braço  do  sofá,  uniu  as  palmas 
das  mãos  com  os  cotovelos  apoiados  nas  pernas,  mas  a  uns 
milímetros dos vincos, e pronunciou lentamente, fitando-me como se 
tivesse  a  intenção  de  me  injectar  na  cabeça  o  que  ia  dizer  a 
seguir. 
- Então, Mr. Gold, tenho uma sugestão que, se me permite, passo a 
fazer. Uma vez que nos objectivos ou interesses de ambas as partes 
são  comuns,  ousei  vir  a  presença  do  ilustre  jornalista  americano 
propor  que  aceite  a  colaboração  do  humilde  servidor  em  troca  de 
alguns elementos que com a sua capacidade virá sem dúvida a 
 
32 
 
obter,  e  que  certamente  serão  valiosos  para  auxiliar  a  nossa 
empresa a contornar ou ultrapassar os prejuízos que antevê. 
Bem,  tinha  de  reconhecer  que  o  meu  interlocutor,  além  de  possuir 
fôlego, era muito mais intencional, mas nem por isso menos subtil, 
do  que  eu  alguma  vez  poderia  esperar,  porém,  talvez  eu  próprio 
também o pudesse surpreender um bocadinho. 
-  Certamente,  Mr.  Wong.  Aceito,  porque  penso  que  a  nossa 
colaboração  me  permitirá  algumas  vantagens  em  relação  a  uma 
actuação  isolada.  Forneça-me  apoio  quando  eu  precisar,  que  pela 
minha parte tratarei do resto. 

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Ele  sorriu.  Desta  vez  um  sorriso  rasgado,  que  se  reflectiu  nos 
olhos  miúdos  e  foi  ampliado  pelas  lentes  de  cristal.  Depois 
recuperou a bengala, levantou-se e limitou-se a proferir: 
-  É  um  prazer  muito  grande  e  uma  alegria  que  revigora  o  espírito 
travar  conhecimento  com  um  homem  tão  inteligente  como  o  ilustre 
jornalista, Mr. Gold. 
Fez  uma  vénia  discreta,  aguardou  que  eu  lhe  passasse  adiante  e 
deslizou para a porta atrás de mim. À saída, acrescentou: 
- Nós estaremos onde os nossos humildes préstimos possam ser úteis 
ao nosso ilustre e generoso amigo. 
E saiu. 
Eu recolhi, a assobiar a Marselhesa para disfarçar a tensão. 
Já  completamente  vestido  para  ir  almoçar,  pedi  o  número  de 
Francesca. Havia duas ou três questões urgentes a esclarecer, e só 
ela  me  poderia  ajudar.  A  primeira,  e  a  que  me  parecia  mais 
importante, era a que se referia a Karin, “a Rapariga de Tânger”. 
Sobretudo  depois  dos  comentários  de  Francesca,  na  festa, 
necessitava  de  obter  dela  mais  alguns  esclarecimentos,  e  se 
possível antes do encontro marcado com Karin para essa tarde. 
De  casa  responderam  que  ela  saíra  cedo,  para  ir  passar  o  dia  com 
uns  amigos  no  cabo  Espartel.  Desliguei,  desapontado.  Ocorreu-me 
então  que  combinara  na  véspera  ir  fazer  uma  visita  ao  Senhor 
Castro.  Talvez  ele  pudesse  ajudar-me.  Desci  para  almoçar  um  pouco 
mais animado, mas também ligeiramente confuso. 
 
33 
 
O  consulado  ficava  no  Boulevard  Mohamed  V,  num  edifício  parecido 
com os outros das proximidades e que deviam ter uns vinte anos de 
idade.  No  entanto,  na  larga  avenida,  alguns  prédios  mais  antigos 
estavam a ser substituídos por torres envidraçadas. Um funcionário 
que  foi  metendo  conversa  comigo  no  elevador  esclareceu-me  que  o 
Senhor  Castro,  embora  estivesse  sempre  muito  ocupado,  ia 
certamente receber-me de seguida. 
No  segundo  andar  fui  introduzido  por  um  corredor  bafiento  numa 
sala  escura  mobilada  com  uma  pesada  mesa  de  estilo  e  quatro 
cadeiras  forradas  de  couro.  Debaixo  da  mesa,  e  arrumados  a  um 
canto da sala, encontrava-se uma dúzia de malas  e sacos de viagem 
cobertos  de  pó.  O  lustre  do  tecto  também  não  devia  ser  limpo  com 
regularidade,  porque  o  pó  acumulava-se  em  crostas  castanhas  nos 
pingentes  de  vidro.  Uma  ventoinha  de  grandes  pás,  fixa  no  tecto, 
girava  vagarosamente,  sem  qualquer  resultado  a  não  ser  um  gemido 
regular. Todo o ambiente era soturno, ainda mais porque os pesados 
reposteiros de brocado já gasto não deixavam passar muita luz. Fui 
convidado  a  sentar-me,  mas  respondi  que  preferia  ficar  de  pé, 
andei até à janela e afastei um pouco o reposteiro. 
A  ventania,  em  que  nem  reparara  ao  sair  do  táxi,  fustigava  a 
avenida.  Era  um  vento  forte  de  areia,  que  fazia  estremecer 
ruidosamente  os  vidros  mas  parecia  não  incomodar  os  transeuntes 
que  passavam,  poucos  àquela  hora  da  tarde-alguns  europeus,  mas  a 

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maioria  africanos,  uns  nas  suas  djellabas  e  muitos  trajando  umas 
simples calças e camisa branca. 
Uma  voz  exuberante  interrompeu-me  a  contemplação  Virei-me  e  dei 
com  o  Senhor  Castro,  que  se  apresentava  em  mangas  de  camisa,  as 
largas  calças  apertadas  abaixo  do  abdómen  proeminente,  e  um  ar  de 
grande contentamento no rosto cheio. 
-  Viva,  meu  caro  senhor!  Então  como  têm  decorrido  estes  seus 
primeiros contactos com Tânger? 
Logo que consegui soltar a mão, respondi-lhe: 
- De uma forma muito agradável, Senhor Castro. Já dei umas voltas 
por  aí,  e  conheci  pessoas  interessantes.  Ontem  à  noite,  por 
exemplo. 
Concordou imediatamente. 
 
34 
 
- Oh, sim, sem dúvida. A sua amiga Francesca Spranger é o que nós 
chamamos... hum... enfim... 
- Um grande traço-ajudei. 
Riu muito, das pregas do pescoço até às pregas da barriga. 
- Sim, sim. Isso mesmo. Uma bela mulher, sem dúvida nenhuma. 
Interrompi. 
- Embora Francesca já seja minha conhecida de há algum tempo. Por 
isso somos amigos. 
-  Claro,  sem  dúvida.  -  Enfiou  o  braço  no  meu.-  Embora,  meu  caro, 
por  vezes  possam  surgir  amizades  num  curto  espaço  de  tempo.  Por 
exemplo,  reparei  que  ontem  o  meu  amigo  se  entreteve  em  amena 
conversa com uma encantadora jovem que presumo não conhecia... 
Começava  a  entender  algumas  das  imensas  razões  por  que  este 
funcionário  da  diplomacia  portuguesa  era  considerado  uma  figura 
inestimável. 
-  É  verdade.  E  já  que  menciona  o  facto,  não  quererá  ajudar-me  a 
levantar uma ponta do véu? 
Com  a  prática  que  vinha  adquirindo,  qualquer  dia  merecia  com 
distinção elevada e as felicitações do júri um diploma em relações 
humanas,  fossem  orientais,  latino-americanas  ou  simplesmente 
latinas. 
Castro  convidou-me  a  sentar,  e  ele  próprio  foi  ocupar  uma  cadeira 
defronte de mim, do outro lado da mesa. Puxou de um maço de tabaco 
amarrotado, tirou um cigarro embrulhado em papel negro e perguntou 
se  eu  queria.  Disse-lhe  que  preferia  dos  meus,  acendi  ambos  e 
fiquei  à  espera.  O  meu  amigo  não  tinha  pressa.  Saboreou  deliciado 
as  primeiras  fumaças,  soltando  o  fumo  pelo  nariz,  e  só  depois 
declarou: 
-  Uma  rapariga  notável,  essa  Karin...  Verdadeiramente  notável. 
Sabia que ela tem um grau de master pela Universidade de Bordéus? 
Reconheci  que  não,  embora  a  informação  não  me  esclarecesse  quanto 
ao que eu pretendia. 

Invulgarmente 

inteligente. 

herdeira 

de 

uma 

fortuna 

incalculável...  Os  pais,  infelizmente,  faleceram,  e  Karin  ficou  à 
guarda  de  um  velho  amigo  do  pai,  um  homem  riquíssimo,  sem 

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descendentes,  que  a  tem  criado  como  uma  filha.  Mas  já  o  avô  fora 
um homem muito 
 
35 
 
considerado  devido  ao  facto  de  ter  sido  cádi,  um  supremo 
magistrado religioso. 
- Quem é o tutor dela? 
- Ben Youssef. - Pronunciou o nome com respeito. - Um dos maiores 
comerciantes de Tânger, se não o mais importante. 
- Porque lhe chamam “a Rapariga de Tânger”, Senhor Castro? 
Ele piscou maliciosamente o olho. 
-  Vejo  que  o  meu  amigo  está  verdadeiramente  interessado.  Será  que 
na noite passada... 
- Mero interesse jornalístico - expliquei. 
- Bom, certamente que ela merece esse nome. É filha desta cidade, 
e  talvez  a  filha  mais  destacada.  Já  pelas  famílias  de  que 
descende,  pela  fortuna  e  influência  do  homem  que  tem  sido  o  seu 
segundo  pai...  e  pelos  seu:-méritos  próprios.  Karin  é  uma  jovem 
que  utiliza  o  poder  que  indirectamente  possui  para  auxiliar  todos 
aqueles  que  precisam  de  ajuda.  Esses,  sejam  os  pobres,  os  presos, 
os viciados ou os doentes, sabem que podem sempre contar com ela. 
Karin é uma instituição, Mr. Gold. Respeitada por todos. Por isso, 
se me permite, aconselhá-lo-ia a ser muito cuidadoso. 
-  Não  tenciono  violentá-la,  Senhor  Castro.  -  Ele  soltou  uma  das 
suas  gargalhadas  espectaculares.  -  De  qualquer  modo,  muito 
obrigado pelo aviso. 
- Ora, meu amigo... Estou à sua disposição para o auxiliar no que 
for preciso! 
- De resto - acrescentei -, pelo que sei a seu respeito, o senhor 
é também uma espécie de instituição. 
Sorriu lisonjeado. 
- Ora... São exageros. Claro que cumpro bem a minha missão. Mas é 
tudo... 
-  É  muito  modesto  -  disse  eu.  E  nesta  altura  achei  que  podia 
arriscar uma pergunta. 
- Oiça, Senhor Castro, conhece por acaso um tal Mr. Wong? 
Respondeu imediatamente. 
-  Claro  que  conheço.  Então  não  havia  de  conhecer  um  comerciante 
tão próspero e respeitável? Porque pergunta. Mr. Gold? 
Decidi que não valia a pena insistir neste ponto. 
 
36 
 
-  Nada  de  especial.  Apenas  porque  tive  o  prazer  de  trocar  umas 
palavras com ele, esta manhã, no hotel. 
- Ah, sim. Um homem muito respeitável e fino no trato, não acha? 
Declarei  que  sim,  que  era  da  mesma  opinião,  e  tentei  uma  última 
abordagem. 
-  O  problema  da  droga  é  certamente  uma  das  questões  que  mais 
preocupa as autoridades locais. Tenho razão, Senhor Castro? 

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- Sim, e não - respondeu com naturalidade. - Exagera-se muito e a 
ficção ultrapassa largamente a realidade. Tânger teve, na verdade, 
um  passado  romanesco.  Houve  tempo  em  que,  por  razões  de  natureza 
política,  foi  uma  cidade  cosmopolita,  o  centro  do  comércio 
internacional  do  país  e  a  capital  diplomática.  Tudo  isso 
contribuiu  para  conferir  a  Tânger  um  ambiente  extravagante.  Esse 
estado de coisas durou no princípio do século, quando Marrocos era 
ainda 

um 

estado 

independente, 

prolongou-se 

através 

do 

protectorado,  por  se  ter  tornado  em  1923  um  porto  internacional. 
Claro  que  o  tempo  da  guerra  foi  um  período  que  favoreceu  muitas 
situações  extraordinárias,  mas  posso  assegurar-lhe  que  após  a 
independência  de  1956,  e  apesar  de  continuar  a  ser  uma  área  de 
comércio livre, os velhos tempos são já um passado remoto. 
- Bom - disse eu. - Não ponho em dúvida que o senhor conhece bem a 
situação, mas... 
- São já quarenta anos, meu caro amigo. - Interrompeu. - E não tem 
sido  fácil.  Quarenta  anos  em  Tânger  é  muito  tempo,  acredite  - 
concluiu, com ar fatigado. 
Concordei. Mas insisti. 
-  No  entanto,  Senhor  Castro,  no  que  se  refere  à  droga,  é  do 
conhecimento  geral  que  esta  cidade  constitui  uma  placa  giratória 
importante para o comércio internacional. 
Abanou a cabeça e declarou: 
-  Importante,  de  forma  nenhuma!  Posso  assegurar-lhe  que  Madrid  e 
Lisboa,  isso  sim,  constituem  actualmente  os  dois  grandes  centros 
de trânsito de droga nesta zona do mundo, além de Marselha, claro. 
Em  Tânger,  as  autoridades  estão  atentas,  têm  excelentes  relações 
com  as  polícias  europeias,  e  o  pequeno  comércio  que  se  pratica 
aqui  ficará  até  muito  aquém  do  que  decorre  em  qualquer  cidade 
europeia.  Claro  que  por  esta  cidade  passam  drogados,  sobretudo 
jovens de todo o mundo, que se sentem atraídos 
 
37 
 
pelo ambiente exótico e negociam entre si em pequenas quantidades. 
-  Apontou  os  sacos  amontoados  no  chão.  -  Vê  aquelas  bagagens? 
Pertencem  a  alguns  deles.  Meia  dúzia  estão  na  cadeia  e  dois 
suicidaram-se.  São  casos  humanos,  meu  caro  senhor,  e  eu  desde 
sempre  me  tenho  interessado  por  eles.  Agora,  no  que  respeita  a 
grandes  organizações  internacionais  a  operarem  em  Tânger,  pode 
crer que não, e eu sei o que digo. 
- Bem -disse eu, apenas porque seria indelicado insistir.-E se lhe 
perguntassem  se  admite  que  Tânger  pode  voltar  a  interessar  essas 
organizações? 
Abanou mais uma vez a cabeça. 
-  Não  teriam  sucesso.  As  autoridades  marroquinas  estão  vigilantes 
e controlam a situação. Nunca o permitiriam. 
-  Esperemos  que  não,  Senhor  Castro...  Enderecei-lhe  um  sorriso  e 
levantei-me. Ele acompanhou-me e estendeu-me a mão. 

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-  Mr.  Gold,  se  puder  ser-lhe  útil,  conte  comigo.  E  já  agora  não 
leve a mal um segundo conselho que lhe dou: a polícia marroquina é 
muito sensível a intromissões... 
Tranquilizei-o. 
-  Tentarei  portar-me  bem,  Senhor  Castro.  Quanto  mais  não  seja, 
para que não tenha de me pagar a fiança. 
Rebentou noutra gargalhada que o deixou a transpirar. 
 
38 
 
CAPÍTULO IV 
 
O Café de Paris, na Place de France, ainda tinha pouco movimento à 
hora em que me instalei e pedi uma cerveja. Lá fora, nos passeios, 
o  movimento  começava  a  aumentar.  À  porta  do  café,  do  lado  de  lá 
dos  vidros,  um  rapaz  e  uma  rapariga  loiros,  de  blue  jeans  e 
chapéus  de  pele,  cantavam  música  europeia  acompanhando-se  com  uma 
viola  e  uma  pandeireta,  que  servia  também  para  recolher  as  raras 
contribuições dos passantes. 
O  empregado  colocou  a  cerveja  diante  de  mim  na  precisa  altura  em 
que  ela  chegava.  Apesar  de  estar  à  espera,  senti  um  ligeiro 
estremecimento  e  uma  emoção  mais  intensa  ainda  do  que  na  véspera, 
quando  a  descobrira.  Que  diabo  se  passaria  comigo,  um  tipo 
equilibrado  com  alguma  experiência  da  vida,  para  de  um  momento 
para  o  outro  experimentar  aquela  excitação  própria  de  um  colegial 
de dezasseis anos? 
Agora,  à  luz  do  dia,  Karin  pareceu-me  tão  bonita,  encantadora  e 
irreal  como  na  véspera.  Vinha  de  saltos  baixos,  vestia  uma  blusa 
preta  e  uma  saia  verde  com  cinto  dourado.  O  cabelo  não  estava 
arranjado em duas tranças, mas atado na nuca por uma fita, e caía-
lhe pelas costas. A tiracolo trazia um saco de couro trabalhado. 
Eu já me tinha levantado quando ela chegou junto da mesa. 
- Desculpe-me vir atrasada, Mr. Gold. 
-  Ora,  Karin  -disse  eu  afastando  a  cadeira  para  ela.-  Para  quem 
conseguiu esperar quinze horas por este momento, mais minuto menos 
minuto ainda é tolerável. 
Tal como eu esperava, não reagiu. Disse que queria tomar um chá e 
fitou-me  com  aquele  ar  compenetrado  no  rosto  de  boneca,  quase 
infantil. 
- Diga-me o que fez hoje, Mr. Gold. 
 
39 
 
Assim,  como  se  o  encontro  fosse  de  negócios  e  ela  estivesse  à 
espera  de  um  relatório.  Satisfiz  o  requerido  na  medida  do 
possível,  isto  é,  omitindo  apenas  o  que  não  podia  revelar-lhe. 
Quer  dizer,  qualquer  coisa  do  género  de  um  “andei  para  aí...”  e 
poucochinho mais. 
O meu breve relato teve no entanto o mérito de lhe trazer aquelas 
covinhas  às  faces,  depois  do  que  me  disse,  num  tom  de  ligeira 
malícia: 

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-  Oh,  Mr.  Gold,  deve  ter-se  aborrecido  imenso...  Imediatamente 
procurei  não  acusar  o  toque,  mas  não  resisti  e  soltei  uma 
gargalhada. 
-  Não  adianta.  Já  devia  saber  que  não  ganho  nada  em  ocultar-lhe 
coisas... Para começar, recebi a visita de um chinês... 
- Isso foi depois de a senorita sair? Fiquei a olhá-la com cara de 
parvo. 
- Desculpe - disse ela, sem dar qualquer mostra de arrependimento. 
- Um chinês... Terá sido Mr. Wong? 
Bebi  um  gole  de  cerveja  para  refrescar  as  ideias  e  acendi  um 
cigarro. Só quando me senti quase recuperado resolvi falar. 
- Exacto. Agora diga-me você o que Mr. Wong pretendia. 
- Oh, Mr. Gold - fez ela, assumindo um ar mais grave.-Não vá ficar 
aborrecido  comigo,  por  favor...  Não  é  minha  intenção  meter-me  na 
sua  vida,  ou  revelar  capacidades  surpreendentes.  Sucede  que  ontem 
à  noite  decidi  que  iria  ter  uma  pequena  conversa  consigo,  e  hoje 
ao  almoço  duas  pessoas,  na  minha  presença,  falaram  de  si  e  dos 
seus  movimentos  desde  que  chegou...  Apenas  isso.  Sei  que  fui 
impertinente, mas... não fica zangado? 
Fitava-me  muito  séria,  com  uma  ligeira  ansiedade  nos  olhos  doces. 
Não,  eu  não  ia  ficar  zangado.  Muito  pelo  contrário.  Se  de  início 
experimentara  um  sentimento  de  perplexidade  perante  o  seu 
comportamento, agora tinha de reconhecer que havia uma intenção da 
parte  dela  e  que  Karin  tivera  um  objectivo  ao  propor  este 
encontro. 
Disse-lhe isso mesmo e acrescentei: 
- Claro que me sentiria muito mais lisonjeado na minha vaidade se 
não houvesse outras razões. 
-  Oh,  mas  também  foi  por  ter  gostado  de  si-disse  ela  muito 
depressa, até depressa de mais, porque logo um rubor delicioso lhe 
coloriu as faces. Era a primeira reacção 
 
40 
 
francamente  positiva  que  lhe  conhecia  e  então,  sim,  senti-me 
contente.  Karin  ia  adiantar  qualquer  coisa,  mas  eu  tive  pena  dela 
e resolvi ajudar. 
-  Compreendo,  Karin.  Sentiu  necessidade  de  confiar  em  alguém,  e 
pensou em mim. Agora diga-me uma coisa: já sabia quem eu era? 
Deu mostras de se sentir muito aliviada, e falou com animação. 
-  Sim,  já  o  conhecia,  embora  apenas  soubesse  de  quem  se  tratava 
quando  me  disse  o  seu  nome.  Acontece  que  eu  gosto  de  estar  a  par 
do  que  se  passa  no  mundo,  Mr.  Gold,  e  leio  jornais  e  revistas  de 
Nova Iorque, de Washington, de paris e de Londres. Gosto muito das 
suas  crónicas,  que  tenho  visto  publicadas  no  seu  jornal  e 
distribuídas  para  publicações  europeias.  Além  disso  -esclareceu, 
como  se  confidenciasse  em  segredo  -,  recebi  há  dias  a  edição 
francesa do seu livro. 
O que me sucedia com esta menina era que a última surpresa acabava 
sempre por ser a penúltima. 
- Já o leu? 

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-  Claro  -  retorquiu  com  entusiasmo.  -  E,  embora  já  conhecesse  o 
seu trabalho anterior, acho que este é muito importante. 
Referia-se  a  Um  Jornalista  nos  Bastidores  da  Droga,  a  tarefa  que 
eu empreendera em consequência do meu trabalho na Bolívia. 
-  Bem,  Karin  -  disse  eu.-  Nesse  caso,  vejo  que  sabe  quase  tanto 
acerca de mim como eu próprio.-Fiz uma pausa. - E que tal se agora 
me  desvendasse  um  pouco  do  mistério  de  “a  Rapariga  de  Tânger”? 
Talvez desse para escrever um livro, quem sabe? 
O rubor voltou, por breves momentos. 
- Não há mistério nenhum, Mr. Gold. Nasci aqui,  onde tenho vivido 
sempre,  excepto  durante  um  período  de  quatro  anos  que  passei  em 
França.  Toda  a  gente  me  conhece,  tanto  os  naturais  como  os 
residentes,  e  até  os  estrangeiros  que  vêm  habitualmente  passar  cá 
as  suas  férias.  Suponho  que  gostam  de  mim,  embora  eu  não  me 
considere  exactamente  uma  figura  popular.  Sem  dúvida  que  o  facto 
de  o  meu  tutor  ser  um  homem  muito  rico  e  influente,  além  de  me 
proporcionar  muitos  contactos,  também  ajuda  a  criar  uma  certa 
auréola. - E concluiu: - Suponho que o esclareci no essencial. 
 
41 
 
-  No  essencial,  sem  dúvida  -  concordei.  -  Quanto  ao  acessório, 
aceito  deixarmos  isso  para  depois,  porque  tenciono  saber  mais  de 
si. Por agora, quer dizer-me o que a preocupa? 
Nesta altura houve uma ligeira alteração em todos os pormenores do 
seu  semblante,  e  as  mãos,  que  tinha  apoiadas  em  cima  da  mesa, 
tremeram um pouco. 
-  Tenho  um  papel  para  lhe  entregar,  Mr.  Gold.  Depois  lhe  direi 
como  o  obtive.  Quanto  ao  conteúdo,  com  uma  explicação  breve  que 
lhe  darei  ficará  completamente  esclarecido  quando  o  ler.  No 
entanto... 
- Diga, Karin. Sabe que pode confiar em mim... 
O  rosto  começou  a  readquirir  a  expressão  desanuviada  juvenil  de 
momentos antes. 
-  Oh,  sim.  Mas  prefiro  falar  sobre  o  assunto  mais  tarde.  Vamos 
jantar, não vamos? 
- Claro, menina. Estou completamente ao seu dispor. 
-  Ainda  bem,  porque  eu  também  tenho  o  resto  do  dia  livre.  - 
Hesitou,  passando  a  pontinha  da  língua  pelo  lábio  inferior.  - 
Pensei  que  podíamos  ir  dar  um  passeio  pelo  Kasbah.  Gosto  muito, 
sabe? 
- Uma ideia excelente, Karin - disse eu, chamando o empregado para 
pagar. 

Voltava 

sentir 

aquela 

impressão 

estimulante 

infinitamente agradável. 
Um  quarto  de  hora  mais  tarde  misturávamo-nos  com  a  multidão 
agitada  e  ruidosa  do  Grande  Socco,  ainda  mais  ruidosa  e  agitada 
que na véspera ao fim da tarde.  No mercado, as pessoas apinhavam-
se  de  tal  maneira  que  se  tornava  difícil  avançar.  Alguns 
vendedores  saudavam  a  minha  companheira  com  manifestações  de 
respeito e regozijo. 

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Em  dada  altura  surgiu  diante  de  nós  um  fotógrafo  ambulante,  e  o 
gesto  de  recusa  de  Karin  foi  mais  lento  do  que  o  disparo  da 
máquina.  Acabei  por  aceitar  o  bilhete,  que  lhe  exibi  com  um 
sorriso. 
- Lembrança de Tânger. E de si também. 
Pareceu-me que o episódio a contrariava, e só quando subimos a Rua 
de Itália ela retomou a conversa. Ao chegarmos à Praça Tabor, para 
onde  se  abre  uma  das  passagens  para  o  Kasbah,  pedi-lhe  que  me 
deixasse descansar um pouco e fui sentar-me junto de um dos velhos 
canhões  que  se  mantêm  nas  posições  estratégicas  de  épocas 
passadas. Karin movimentava-se fresca e alegre, de vez em 
 
42 
 
quando vinha junto de mim dar mais qualquer explicação, e a imagem 
dela e a brisa ligeira exerciam um efeito revigorante. Daí a pouco 
veio  puxar-me  pela  mão  e  levou-me  a  continuar  o  passeio.  Sozinho 
ter-me-ia  perdido  no  labirinto  de  estreitas  ruas  empedradas, 
ladeadas por construções pintadas a ocre, branco e vermelho, donde 
se desprendia um aroma a especiarias, a fritos e muita coisa mais 
que  eu  não  saberia  distinguir,  mas  que  era  diferente  e  agradável. 
Encontrávamos pouca gente, apenas defronte das portas e dentro das 
lojas.  Cá  fora,  como  no  interior  dos  edifícios  que  visitámos,  o 
ambiente era fresco, porque o sol não chegava a  penetrar o espaço 
entre  as  casas.  Karin  quis  mostrar-me  a  Mesquita  e  o  Palácio  do 
Sultão.  Com  ela  percorri  as  salas  magníficas  e  os  belos  jardins. 
Decerto  que  aquele  mundo  fascinante  me  prendia  e  cativava.  Mas 
Karin  contribuía  muito,  e  num  ou  noutro  momento  fui  mesmo 
surpreendido  por  ela  a  contemplá-la,  em  vez  de  tomar  atenção  às 
riquezas  que  me  ia  revelando,  e  nessas  alturas  admoestava-me 
gentilmente. 
As lojas exibiam às portas os artigos de artesanato mais diversos, 
embora  o  comércio  fosse  praticado  de  forma  mais  recolhida  e  menos 
intensa  do  que  nos  mercados  que  eu  percorrera.  Nalgumas  delas  os 
artigos 

eram 

fabricados 

no 

próprio 

local, 

noutros 

estabelecimentos, 

escuros, 

vastos 

repletos, 

exibiam-se 

antiguidades  preciosas.  Havia  também  ourives  a  trabalharem  à 
porta,  e  aí  Karin  detinha-se  a  contemplar  as  abundantes  colecções 
de pulseiras, colares e anéis. 
-  E  se  eu  comprasse  um  presente?  -  resolvi  perguntar,  num  desses 
momentos. 
- Para quem? - quis saber. 
- Uma amiga. 
- Ah... sim, claro que sim. 
- Quer ajudar-me a escolher? 
Após  breve  hesitação,  aceitou  o  encargo  e  acabou  por  se  incumbir 
da missão como se fosse para ela. 
Finalmente surgiu lá do fundo exibindo um bonito colar de âmbar. 
- É bonito. 
- Gosta mesmo? 
- Muito. 

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- Então fico com ele. 
 
43 
 
Felizmente  foi  ela  quem  se  encarregou  da  transacção  Se  eu  estava 
convencido  de  que  fazer  uma  compra  numa  loja  de  Tânger  era  mais 
fácil, ou pelo menos não tão difícil como em La Paz ou Saigão, os 
minutos  que  se  seguiram,  serviram  para  rectificar  essa  ideia.  A 
discussão animada que se travou  não só não possuía a elegância de 
uma troca comercial na Quinta Avenida ou a finesse de um achat na 
Place Vendôme, como superava Macau ou o Rio em acção espectáculo e 
suspense. Finalmente, Karin anunciou vitoriosamente: 
- Duzentos dirhams! 
Pelo  ar  feliz  que  ela  exibia,  devia  ser  uma  pechincha.  Mandei 
embrulhar  e  paguei.  Cá  fora  detive-a  pelo  braço  e  estendi-lhe  o 
pequeno embrulho. 
- Para si. Pelo esforço... e por tudo. 
Não  disse  nada.  Nem  era  preciso.  O  olhar  com  que  mu  agradeceu 
valia por todas as recompensas do mundo. 
Quando  descemos  o  caminho  que  conduz  à  Avenida  Espanha,  junto  ao 
porto, o sol começava a cair para lá da baía. Era aí que ela tinha 
sugerido  jantarmos.  Estávamos  ambos  cansados  e  bem  dispostos,  e 
talvez  por  isso  mesmo  seguíamos  sem  falar,  olhando  o  areal  que  a 
partir dali se estendia quase a perder de vista. Até que ela disse 
“Podíamos  ir  a  este”,  e  nos  dirigimos  para  um  restaurante  com  um 
terraço  envidraçado  que  dava  para  o  mar.  Era  uma  construção 
caiada,  de  um  só  piso,  dividida  no  interior  em  compartimentos 
alinhados  ao  longo  das  janelas  da  sala.  Karin  conduziu-me  para  um 
deles.  Uma  empregada  novinha  veio  com  uma  bandeja  onde 
transportava  duas  tigelas  e  pequenas  toalhas.  Era  o  ritual  do 
lava-mãos  que  eu  aproveitei  para  humedecer  também  o  rosto,  ante  o 
espanto  de  Karin  e  da  rapariguinha.  Esta  achou  tanta  graça  que  o 
patrão,  um  marroquino  pequeno,  estreito  escuro,  de  avental  muito 
branco,  veio  ver  o  que  se  passava.  Mas  ao  deparar-se-lhe  a  minha 
companheira esqueceu ao que ia, todo o rosto resplandeceu, e a sua 
figura magra pareceu de repente maior. Terminadas as manifestações 
mas  ainda  emocionado,  inquiriu  sobre  o  que  iríamos  comer.  Para 
evitar  situações  como  a  da  véspera,  e  o  que  eu  desejava  acima  de 
tudo  era  estar  sozinho  com  Karin,  anunciei  sem  querer  ouvir  mais 
nada: - Sopa de peixe e costeletas. 
 
44 
 
O  patrão  assumiu  um  ar  compungido,  Karin  olhou  para  mim 
surpreendida  e  a  rapariga  ainda  se  riu  mais  do  que  antes.  Eu 
acrescentei: 
- Vinho tinto de 74 e dois pastis para aperitivo. 
Os  que  eram  da  casa  desandaram,  e  nós  ficámos  a  olhar  um  para  o 
outro.  Logo  depois  desatámos  a  rir,  e  quando  dei  por  mim  ali 
estava  eu,  Frank  Gold,  o  “ilustre  jornalista  americano”, 
divorciado e pai de dois filhos, a atirar um guardanapo molhado ao 

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pescoço  delicado  de  uma  jovem  deliciosa  que  me  fazia  voltar  aos 
tempos da adolescência. 
Quando aquele momento de euforia passou, e ficámos a olhar um para 
o  outro,  senti  uma  espécie  de  nostalgia  porque  sabia  que  certos 
momentos não se  repetem na vida. Coloquei por instantes a mão por 
cima da sua e disse-lhe: 
- Karin, importa-se de pôr o colar? 
Ela  tirou  do  saco  o  embrulho  colorido,  abriu-o  com  muito  cuidado, 
contemplou  os  grossos  bagos  de  âmbar  e  colocou-o  em  volta  do 
pescoço.  Teve  alguma  dificuldade  em  acertar  com  o  fecho,  mas 
finalmente  pôde  exibir  para  mim  o  conjunto.  Maravilhoso.  Levei  o 
copo à boca e sugeri: 
- Agora, Karin, diga-me o que tem para dizer. 
Poisou  o  copo  dela  e  semicerrou  as  pálpebras,  como  se  fizesse  um 
esforço 

para 

se 

concentrar. 

Só 

passados 

alguns 

segundos 

pronunciou: 
-  Os  documentos  que  tenho  comigo,  dentro  de  um  sobrescrito,  são 
fotocópias  dos  originais  que  roubei  do  cofre  de  Abdul  Ahrman,  o 
braço direito do meu tutor. 
Disse  isto  tranquilamente,  mas  eu  percebi  que  todo  o  processo  por 
que ela devia ter passado fora por certo muito longo e penoso. 
-  Abdul  Ahrman  é  o  homem  que  melhor  conhece  todos  os  negócios  da 
organização.  Talvez  seja  mesmo  o  único.  Os  documentos  originais 
voltaram  a  ser  colocados  onde  estavam,  e  ele  nunca  saberá.  - 
Prosseguiu,  com  algum  cansaço  na  voz.-  Não  lhe  interessam  as 
razões por que faço isto. Nem eu lhas direi. Só precisa saber que 
esses  papéis  contêm  os  pormenores  de  uma  transacção  muito 
importante  que  vem  a  ser  preparada  há  alguns  meses  e  que  será  a 
primeira  em  que  colaboram  as  organizações  de  Ben  Youssef, 
representado por Abdul, e a de Adolfo González, através de Ricardo 
Sánchez. 
- Quando se efectuará a operação? 
 
45 
 
-  Esta  madrugada,  num  pequeno  aeródromo  a  sete  quilómetros  daqui. 
Vem tudo aí explicado. 
- Quer dar-me já o sobrescrito? 
Hesitou, e por fim resolveu: 
- Sim. Mas abra-o apenas no quarto do seu hotel. 
Olhou para a entrada do compartimento e tirou do fundo do saco um 
sobrescrito comprido e amarelo, que me estendeu rapidamente. Notei 
que estava fechado e guardei-o no bolso interior do casaco. 
- Adolfo González encontra-se em Tânger. Já o viu? 
- Saiu. Ontem à hora de jantar, em casa do meu tio. 
Seguiu-se um espaço de silêncio. Fui eu quem quebrou. 
- Tem mais alguma coisa que queira dizer-me? Sacudiu a cabeça. 
- Não. 
-  Bem.  Deixe  o  assunto  por  minha  conta.  E  agora  vamos  conversar 
sobre coisas bonitas. De acordo? 

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Acenou  afirmativamente,  com  os  pequeninos  dentes  da  frente  a 
trincarem  o  lábio  inferior,  e  eu  tive  de  despender  um  esforço 
notável  para  a  ver  sorrir  outra  vez.  A  princípio  fê-lo  com  algum 
esforço,  mas  a  chegada  do  patrão  carregando  uma  terrina  enorme  e 
fumegante,  com  ruidosas  manifestações  de  contentamento,  foi  uma 
contribuição decisiva para lhe animar um pouco mais o rosto. Daí a 
pouco  era  como  se  não  tivesse  existido  qualquer  pausa  custosa,  e 
todo  o  tempo  que  durou  aquela  refeição  maravilhosa  escoou-se 
depressa  e  de  forma  inesquecível.  Castro  afirmara  repetidamente 
que  Karin  era  uma  rapariga  notável.  Eu,  que  durante  as  breves 
horas  dessa  tarde  tivera  o  privilégio  de  a  conhecer  talvez  melhor 
do  que  muita  gente  que  a  conhecia,  havia  ganho  a  convicção 
absoluta de que ela era a mulher mais fascinante que encontrara na 
vida.  E  a  certeza  de  existir  em  Karin  um  mundo  inteiro  por 
descobrir. 
Saí  para  a  frescura  do  azul-escuro  da  noite  experimentando  uma 
languidez que era menos o resultado da comida e do vinho do que da 
presença,  física  e  espiritual,  cada  vez  mais  palpável,  de  Karin. 
Ela  caminhava  a  meu  lado  quase  encostada  a  mim,  e  a  espaços  os 
nossos  corpos  tocavam-se,  e  eu  sentia  uma  vontade  quase 
irreprimível  de  agarrá-la  pelos  ombros,  apertá-la  contra  mim  e 
beijá-la como se 
 
46 
 
fosse a última coisa que fazia na vida. Não sei porque não o fiz. 
Talvez  aquela  suave  angústia  que  ela  me  transmitia  e  eu  não 
conseguia explicar. 
Na  baía,  as  luzes  dos  barcos  que  saíam  para  a  pesca  eram  pontos 
incandescentes  que  ao  longe  se  confundiam  com  as  estrelas.  Do 
longo  pontão  do  porto  afastava-se  lentamente  um  paquete  todo 
iluminado. Rumo a Ceuta, ou talvez a Casablanca. 
- Vai para o hotel? - perguntou-me mais adiante. E acrescentou:  -
Eu tenho de voltar para casa. 
Olhei o relógio. Eram dez horas. Eu precisava de reflectir sobre o 
que  ia  fazer  a  seguir,  e  naquele  momento  não  me  apeteceu 
empreender  essa  tarefa  sozinho  no  quarto  do  hotel.  Talvez 
Francesca  me  pudesse  ajudar.  Pelo  menos,  eu  sentia-me  melhor 
depois de a pôr ao corrente. Decidi passar por casa dela. 
Karin sugeriu: 
- Vamos apanhar um táxi. Eu deixo-o lá, mas não subo. Depois sigo 
a pé o resto do caminho. É mais seguro. 
Fez  sinal  a  um  táxi,  e  depois  que  o  ocupámos  deu  o  endereço  em 
árabe.  O  motorista  arrancou,  metendo  pelas  ruas  que  sobem 
contornando  a  medina.  O  percurso  foi  razoavelmente  longo,  até  que 
o  carro  abrandou  e  acabou  por  imobilizar-se  no  início  de  uma  rua 
residencial  de  vivendas  e  alguns  prédios  antigos  de  quatro 
andares. Paguei a corrida, não sem antes insistir com Karin. 
- Não acha melhor seguir? 
Abanou  a  cabeça,  e  apeámo-nos.  Ela  indicou-me  um  dos  edifícios, 
iluminado por um candeeiro plantado defronte. 

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-  O  prédio  é  aquele.  -  E  após  uma  pausa:  -Acho  preferível  ir 
sozinho. 
Aceitei  a  mão  que  me  estendia.  Apertei-lha  com  ternura,  e 
murmurei: 
- Obrigado, Karin. Espero vê-la amanhã. 
- Espero que sim, Frank - foi a resposta. Soltou a mão, voltou as 
costas, e eu comecei a andar para o fundo da rua. 
De  súbito,  o  carro  desembocou  em  derrapagem  de  uma  transversal 
próxima e, após uma viragem brusca para evitar o choque com o muro 
fronteiro,  precipitou-se  na  minha  direcção  com  os  faróis  nos 
máximos. 
 
47 
 
Estaquei  com  os  nervos  tensos,  e  só  quando  ouvi  o  grito  dela,  já 
com  o  bólide  quase  em  cima  de  mim,  projectei  num  reflexo 
instintivo  o  corpo  contra  a  parede.  O  torpedo  passou  rente, 
prosseguindo  em  marcha  desenfreada,  e  eu  corri  desesperadamente  à 
procura de um buraco antes que eles voltassem. 
No  beco  em  que  me  metera  não  havia  um  vão  sequer  onde  pudesse 
enfiar-me.  Percebi  que  o  veículo  freava  brutalmente  e  manobrava 
para voltar, e retomei a corrida com todas as forças, para o fundo 
da  rua,  onde  o  meu  vulto  gigantesco  era  projectado  pela  luz  dos 
faróis. 
O  roncar  potente  do  motor,  repercutindo-se  formidávelmente  nas 
fachadas nuas dos prédios, aproximava-se num crescendo medonho. Eu 
nunca conseguiria lá chegar. Tinha de existir outra saída... 
O  muro  que  corria  ao  meu  lado  erguia-se  a  mais  de  três  metros,  e 
essa  barreira  eu  não  conseguiria  transpô-la.  Do  lado  oposto,  mais 
adiante,  deviam  ser  armazéns,  com  uma  fiada  interminável  de 
janelas  a  uma  altura  considerável  de  chão.  Foi  para  aí  que  me 
lancei,  aos  ziguezagues,  como  um  coelho  acossado,  e  a  tentar 
desesperadamente  ganhar  balanço  para  alcançar  um  varão  de  ferro 
fixado  sob  uma  das  aberturas.  Os  últimos  metros  foram  percorridos 
já com o bafo quente do monstro a queimar-me as pernas, no último 
instante  concentrei  num  esforço  tremendo  todas  as  energias  num 
salto  que  permitiu  as  minhas  mãos  agarrarem  com  força  o  varão.  O 
carro passou como um projéctil a rasar-me as pernas dobradas. 
Inspirei  fundo  e  puxei  o  corpo  para  cima  até  sentir  os  pés  bem 
firmes  no  rebordo.  Acabei  de  me  içar  e  fiquei  ali  uns  segundos, 
encolhido, a ofegar. Mas quando vi lá em baixo o carro deter-se e 
quatro indivíduos apearem-se, decidi que o poiso não era o melhor, 
quebrei o vidro com o pé e inclinei-me para dentro. 
O interior era um buraco completamente negro; porém raciocinei que 
entre  morte  certa  ao  luar  ou  uma  perna  fracturada  no  escuro  a 
opção estava feita, e deixei-me cair 
Devo  ter  tombado  sobre  um  caixote,  que  se  desfez  em  estilhas  com 
um  estrondo  que  se  repercutiu  pelas  paredes.  Levantei-me, 
sentindo-me  feliz  por  apenas  coxear  da  perna  esquerda,  e  fui 
andando  até  ao  local  onde  se  infiltrava,  por  uma  fresta  rente  ao 

background image

chão,  uma  luz  amarela  que  devia  provir  da  rua.  Caminhei  aos 
tropeções, até a vista se 
 
48 
 
adaptar  à  escuridão  diluída  pela  luminosidade  vinda  de  cima,  e 
pude  então  verificar  que  me  encontrava  num  entreposto  ou  algo  do 
género,  com  caixotes  amontoados  por  todo  o  lado.  Distingui  também 
uma  escada  de  madeira  colocada  contra  a  parede  e  que  ia  dar 
precisamente  a  meio  metro  do  buraco  por  onde  eu  saltara. 
Simplesmente ridículo. 
A  frente  localizava-se  por  baixo  de  uma  porta  enorme  e  pesada. 
Percebi  ruídos  e  vozes  no  exterior  e  espreitei  pelo  buraco  da 
fechadura. O grupo reunira-se no passeio e Karin fazia parte dele. 
Lá  estava  igualmente  um  tipo  alto,  de  cabelo  esbranquiçado,  que 
nesse momento se lhe dirigia. Em seguida virou-se para os outros e 
falou  rapidamente,  após  o  que  conduziu  Karin  para  fora  do  meu 
campo de visão. Os companheiros não tardaram a desaparecer também, 
mas na direcção  oposta. Seguiu-se o ruído do carro, a arrancar em 
marcha  atrás,  e  depois  o  ronronar  do  motor  em  trabalhar 
silencioso.  Compreendi  qual  era  o  plano.  O  homem  de  cabelo  claro 
aguardava  com  Karin  no  veículo  ao  fundo  da  rua,  enquanto  um  dos 
parceiros  cobria  o  portão  e  o  outro  a  saída  das  traseiras. 
Reflecti que afinal de contas a escada ainda ia servir. 
Fui buscá-la e transportei-a o mais depressa que pude para debaixo 
da 

clarabóia 

próxima 

da 

porta. 

Subi 

com 

cuidado, 

abri 

cautelosamente  o  vidro  e  trepei  para  o  vão.  Lá  em  baixo  ouvia-se 
apenas  o  barulho  leve  do  motor  e  os  passos  do  que  patrulhava. 
Deitei  uma  olhadela  para  o  passeio  a  fim  de  calcular  tempos  e 
distâncias.  Logo  depois  endireitei  o  corpo  tanto  quanto  a  altura 
do  vão  mo  permitia,  aguardei  que  o  barulho  dos  passos  chegasse 
suficientemente perto e atirei-me no que já era o segundo mergulho 
da  noite.  A  experiência  ajudou.  Todo  o  meu  corpo  foi  cair 
brutalmente sobre a espinha do tipo. O choque para mim foi enorme, 
transmitindo-se  até  à  nuca,  sobretudo  a  partir  da  perna  ainda 
aleijada. Para ele, foi fatal. 
Rolei alguns metros no solo, acabando por me imobilizar no meio da 
rua. Mesmo antes de abrir os olhos, apercebi-me de que o automóvel 
arrancava  na  minha  direcção.  Arrastei-me  pesadamente  até  ao 
passeio,  onde  o  tipo  jazia  todo  quebrado,  o  focinho  virado  para 
mim  e  a  nuca  meio  enfiada  no  buraco  da  sarjeta,  e  fui  apanhar  a 
artilharia do chão. Mal tive tempo de disparar uma rajada 
 
49 
 
na direcção do carro antes de desatar a correr por cima das pedras 
e das dores que deixei de sentir. 
Ao contornar, como nos filmes de cinema mudo, a esquina de onde a 
quadrilha surgira, senti a deslocação de ar produzida por uma bala 
que  foi  cravar-se  na  parede.  Consegui  um  avanço  razoável  enquanto 

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o  grande  Citroen  perdia  tempo  a  sair  da  travessa,  de  modo  que 
quando alcancei o extremo da rua ainda ele vinha lá atrás. 
Não  possuía  a  mínima  ideia  do  local  onde  me  encontrava,  pelo  que 
só me restava tocar para diante, e depressa. Às tantas, os prédios 
e  as  ruas  começaram  a  rarear,  e  daí  a  pouco  corria  por  um 
descampado  onde  apenas  aqui  e  ali  se  erguiam  algumas  casas  baixas 
de  pedra  onde  havia  gente  à  porta.  A  noite  estava  escura  e 
ventosa. Grossos pingos começaram a tombar-me em cima, para logo a 
seguir  darem  lugar  a  uma  chuva  forte  e  fria  que  me  fustigava  a 
cara.  A  arma  pesava-me  cada  vez  mais,  as  pernas  começavam  a 
recusar-se,  e  eu  já  sentia  uma  vontade  muito  grande  de  me  atirar 
para  o  chão  quando  distingui  ao  longe,  tracejado  pelas  rispas  de 
água,  um  foco  poderoso  que  rasgava  a  escuridão,  movendo-se  para 
cá. 
Ao  cabo  de  uns  instantes  chegou  até  mim  o  resfolegar  próximo  de 
uma  locomotiva.  Procurei  descortinar  a  linha  férrea,  porém  só  o 
consegui  quando  o  olho  da  máquina  iluminou  o  descampado.  Andei 
depressa,  a  coxear,  os  sapatos  enterrando-se  nas  poças  de  água,  e 
chegado  à  beira  dos  trilhos  fiquei  a  aguardar.  Uns  cinquenta 
metros  atrás,  o  Citroen  havia  parado.  O  comboio  aproximou-se  em 
marcha lenta. Deixei que a locomotiva passasse a resfolegar. Atrás 
trazia uma fila de vagões de carga e no fim uma carruagem. Escolhi 
um  vagão,  joguei  a  metralhadora  pela  abertura,  e,  depois  de  me 
segurar a uma barra metálica, trepei lá para dentro. 
Ia  vazio.  Então  deixei-me  esparramar  no  soalho,  com  os  olhos 
fechados e a roupa ensopada a escorrer. 
Estava  em  vias  de  distender  os  nervos  tensos  quando  um  restolhar 
próximo me fez de um salto ficar sentado, com as costas pregadas à 
parede do vagão e a arma pronta a disparar. O esforço que fiz para 
fixar  a  vista  na  origem  do  ruído,  após  aqueles  segundos  com  os 
olhos cerrados, provocou-me uma tontura. Porém, logo em seguida um 
“méé...” prolongado tranquilizou-me, o ritmo das pulsações baixou, 
e senti de repente uma vontade enorme de beijar a 
 
50 
 
pequena  cabra  que  me  fitava  com  curiosidade  e  condescendência. 
Achava-se  presa  a  uma  argola  fixada  no  chão,  e  eu  encontrava-me 
deitado  em  cima  da  palha  que  lhe  servia  de  refeição.  Ocorreu-me 
que  nem  lhe  dera  pelo  cheiro;  porém,  isso  era  natural,  visto  não 
ser de esperar que um vagão de caminho-de-ferro em Marrocos cheire 
a água-de-colónia francesa. 
 
51 
 
CAPÍTULO V 
 
A  viagem  foi  curta.  Uns  cinco  minutos  depois,  e  quando  a  cabra  e 
eu  já  éramos  amigos,  os  freios  guincharam  e  a  composição  abrandou 
o andamento, para se deter logo  a seguir. Eu mantinha-me na mesma 
posição  desconfortável  e  a  companhia  que  arranjara  não  me  tinha 

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distraído  de  vir  seguindo  atentamente,  lá  fora,  a  marcha  de  um 
Citroèn cujos faróis distinguia perfeitamente no seu percurso para 
leio e a distância considerável da via. 
Na  altura  em  que  o  comboio  se  imobilizou  não  vi  casas  próximas, 
apenas  areal,  de  modo  que  concluí  tratar-se  de  alguma  passagem  de 
nível. 
Quando  me  chegou  aos  ouvidos  um  barulho  confuso  de  vozes  e 
agitação,  resolvi  confirmar.  Arrastei-me  até  ao  lado  oposto, 
empurrei com esforço a porta de correr e espreitei. 
Era  ali  o  fim  do  passeio.  O  comboio  em  que  eu  seguia  fora 
estacionar  numa  plataforma  da  pequena  estação  do  caminho-de-ferro 
de Tânger. 
Larguei uma imprecação e regressei ao meu canto Acendi um cigarro, 
à espera. A minha amiga parecia mais nervosa do que eu com aquela 
paragem  súbita.  Falei-lhe  com  meiguice  e  disse-lhe  que  não  ia 
acontecer  nada  de  grave.  Conversa,  apenas.  Era  certo  e  sabido  que 
os  meus  perseguidores  tentariam  visar-me  o  bilhete  à  saída,  e  eu 
não quis apear-me com uma metralhadora na mão. De modo que decidi 
conservar-me onde estava, pelo menos de momento. 
Daí a pouco a gare esvaziara-se e tudo caiu no silêncio. A beata, 
já  nas  últimas,  brilhava  no  escuro.  Esborrachei-n  nas  tábuas 
húmidas do chão, longe do monte de palha. 
Momentos  depois,  senti  passos  de  uma  única  pessoa  a  aproximar-se. 
Fiquei ainda mais quieto, com todos os nervos esticados, e o dedo 
colocado no gatilho da arma. Os 
 
52 
 
passos  detiveram-se  um  pouco  antes  do  sítio  onde  me  encontrava. 
Percebi  que  desengatavam  o  vagão.  Quem  era,  provavelmente  um 
funcionário,  afastou-se  em  seguida,  e  chegou-me  o  barulho  da 
máquina e do resto da composição a movimentarem-se devagar. 
O vagão ficou onde estava. Olhei para a cabrinha e para a palha, e 
um  pensamento  me  ocorreu.  De  início  relutantemente,  depois  ganhou 
alguma  força,  mas  quando  ouvi  vozes  no  cais  da  estação,  e  ao 
espreitar distingui as silhuetas de três tipos e o feixe de luz de 
uma lanterna, acabei por me resolver. 
Rapidamente,  desatei  a  corda  que  prendia  a  cabra  e  disse-lhe  um 
segredo  ao  ouvido  que  ela  não  deve  ter  entendido,  porque  foi 
preciso  empurrá-la  por  trás,  com  muita  energia,  para  obrigá-la  a 
passar  pela  abertura  e  saltar  pelo  lado  oposto  ao  cais.  Resolvido 
o  desembarque  da  minha  companheira  de  viagem,  pus  a  cabeça  de 
fora.  Verifiquei  com  alívio  que  o  nosso  vagão  se  encontrava 
isolado  e  distanciado  uns  bons  metros  de  uma  fila  extensa  de 
vagões  abertos.  Então  acendi  o  isqueiro,  cheguei  a  chama  à  palha 
até  uns  pedaços  mais  secos  começarem  a  fumegar,  e  quando  o  ar  se 
começou  a  tornar  menos  respirável  desci  com  vagar.  Na  altura  em 
que  os  meus  pés  pisaram  o  saibro,  as  labaredas  começaram  a 
iluminar  o  interior.  Já  não  chovia.  Puxei  a  cabra  pela  corda  e 
passei-a adiante de mim por debaixo da composição vizinha. 

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Nessa  altura  um  alarme  estridente  desatou  a  soar,  ao  mesmo  tempo 
que  as  chamas  se  elevavam,  a  consumir  as  estruturas  de  madeira  e 
produzindo  um  clarão  crepitante  na  noite.  Por  sobre  o  ruído 
percebi passos que se afastavam apressadamente e distingui para lá 
do  vagão  a  arder  um  tropel  de  gente  que  se  aproximava  correndo. 
Então,  meia  dúzia  de  estoiros  estalaram  espaçadamente.  Eram  as 
balas  da  arma  que  eu  deixara  ficar.  Então,  foi  o  pandemó-nio. 
Inspirei fundo o ar húmido a cheirar a fumo e erva molhada e, com 
a cabra pela trela, fui descendo até ao porto. 
Já era quase meia-noite quando passei pela recepção do hotel, onde 
apenas  o  empregado  que  eu  já  da  véspera  conhecia  olhou  arregalado 
para o meu aspecto miserável. Começou a mover a boca, mas eu pedi-
lhe a chave, informei-o de que estava uma cabra a pastar lá fora, 
 
53 
 
disse-lhe  que  a  entregasse  a  Ahmed  pela  manhã  e  subi  sem  lhe  dar 
tempo a manifestar-se. Quando entrei no elevador ele ainda tentava 
dizer  qualquer  coisa,  porém  eu  já  carregara  no  botão  e  a  porta  a 
fechar-se apagou a imagem. 
No  corredor  do  sexto  cruzei-me  com  duas  loiras,  uma  das  quais  me 
pareceu a da touca cor-de-rosa dessa manhã. Cumprimentei-as com um 
sorriso  alarve,  enquanto  metia  para  dentro  uma  ponta  da  fralda  da 
camisa rasgada, e passei adiante. 
Meti  a  chave  à  porta  e  entrei.  A  luz  da  sala  estava  acesa  e  ela 
estava  lá.  Ergueu-se  de  esticão  e  eu  bati  com  a  porta  e  fiquei 
encostado  à  parede,  na  penumbra  do  vão  da  entrada,  num  esforço 
enorme para me controlar. 
-  Mr.  Gold...  não  dispare.  Por  favor.  -  Apesar  do  estado  de 
espírito  em  que  me  encontrava,  reparei  que  o  corpo  tenso  era  um 
desenho de contornos suaves, e as linhas das pernas bem feitas, do 
ventre  liso  e  dos  seios  redondos  e  ofegantes  destacavam-se  contra 
o  fundo  azul-escuro  do  reposteiro.  Senti  uma  revolta  muito  grande 
contra ela, e contra mim próprio. 
- Que é que pretendes, menina? 
- Eu... venho para o ajudar. 
Dei  dois  passos  e  uma  risada  que  soou  a  vulgar.  A  voz  saiu-me 
rouca. 
- Ouve, pequena, e trata de ver se percebes. Põe-te a andar, e já, 
antes que eu quebre o teu pescoço bonito, abra a cabeça e despeje 
lá para dentro tudo aquilo que me apetece vomitar. Cava! -gritei. 
Continuou  ali  quieta,  e  só  daí  a  bocado  murmurou,  como  se 
estivesse muito cansada: 
-  Eu...  estou  aqui...  para  o  ajudar.  Acredite.  Outra  vez  a  tal 
risada. 
-  Olha,  os  teus  amiguinhos  circulam  por  aí,  à  espera  de  me 
liquidar. Foram eles que te mandaram. Para quê? 
Avançou uns passos, mansamente. 
- Quieta - disse eu. Deteve-se, e pude ouvir distintamente o ruído 
da respiração alterada. 

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-  Eu...  não  tive  culpa.  Não  sabia.  Por  isso  gritei...  Abanei  a 
cabeça com desgosto. 
- Gritaste, hem? 
- Sim. Quando o carro... 
-  Pois  -  atalhei  com  irritação.  -  Eu  sei.  És  uma  boa  rapariga. 
Preparas o funeral e forneces a música. Agora 
 
54 
 
põe-te a mexer.  Mas fica a saber uma coisa. Depois desta história 
toda  arrumada,  eu  hei-de  encontrar-te.  E  nessa  altura  havemos  de 
falar. Toca a andar. 
-  Mas...  eu  quero  ajudá-lo...  Quis  ajudá-lo,  e  agora  também.  - 
Rompeu em soluços. -...levo-o para um lugar seguro! 
Raios. Eu não ia aguentar uma cena daquelas muito tempo. 
- Para onde... para casa dos teus amigos? 
Abanou  negativamente  a  cabeça  e  a  fala  saiu-lhe  em  catadupa, 
embora aos solavancos. 
-  Não...  nem  para  o  meu  apartamento.  Eles  sabem  onde  é...  Levo-o 
para  casa  de  uma  amiga  que  saiu  de  Tânger  por  uns  dias.  Mas,  por 
favor... vamos depressa! 
Aproximara-se  entretanto,  e  deixou-se  cair  de  joelhos.  Não  sei 
porquê,  permaneci  onde  estava,  a  olhar-lhe  de  cima  os  cabelos 
negros e o rosto todo molhado que ela erguia para mim. 
- Mr. Gold... juro-lhe que não sabia de nada... os papéis que lhe 
dei julgava que  eram verdadeiros. Só há bocado é que ouvi Ricardo 
dizer ao Michel... 
Não  percebia  nada  de  nada.  Levei  a  mão  ao  bolso.  O  sobrescrito 
estava lá. 
- Ouviste o Ricardo dizer o quê ao Michel? 
-  Que  os  papéis  se  referem  a  uma  operação  importante  e  que  Mr. 
Gold  é  mencionado  neles  como  intermediário.  Papéis  que  prepararam 
para o caso de pretender incriminá-los. Compreende? 
Não  compreendia  lá  muito  bem,  mas  para  já  interessava-me  mais 
esclarecer outros pontos. 
-  Vamos  admitir  que  acredito,  e  que  tudo  o  que  se  passou  foi 
apenas  um  incidente  em  que  eu  estive  em  vias  de  mudar  de  vida. 
Agora, qual é o teu papel no meio disto tudo? 
Os soluços tinham cessado. Ergueu-se apoiada à parede e ficou a um 
metro de mim. 
- Eu explico-lhe. Mas, por favor, vamos embora... Eles vêm aí! 
A  minha  cabeça  trabalhava  à  velocidade  de  um  computador.  Bem, 
talvez de uma calculadora em segunda mão. Perguntei: 
- Sabem que estás comigo? 
Negou, com medo nos olhos. 
 
55 
 
-  Oh,  não!  Ficaram  furiosos  por  eu  ter  gritado...  mas  acreditaram 
que não tinha sido com a intenção de o avisar. 
Decidi-me. 

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-  Bom  -  disse  para  ela.  -  Vou  mudar  de  roupa  num  instante.  E  tu 
vai lavar essa cara. 
Ela  deu  um  suspiro,  e  as  covinhas  nas  faces  desenharam-se-lhe  com 
o sorriso. Em seguida deslizou para a casa de banho. 
 
56 
 
CAPÍTULO VI 
 
Um táxi levou-nos por ruas e vielas. Eu sentia o corpo partido, o 
tornozelo  inchado  e  um  ardor  incómodo  no  braço.  Finalmente  ela 
disse: “É aqui”, eu paguei e descemos. 
Havia umas escadas muito estreitas e sem luz, que trepei atrás de 
Karin,  apertando  bem  o  corrimão  para  não  tropeçar.  No  patamar  do 
segundo piso, ela passou junto da porta do lado direito e tirou a 
chave  da  malinha,  mas  tive  eu  de  abrir  porque  a  mão  dela  tremia. 
Deixei-a  passar,  entrei  a  seguir  e  empurrei  a  porta  com  o  pé. 
Karin acendeu a lâmpada da entrada. 
Passámos um reposteiro de lã de pintura gasta - talvez fosse muito 
antigo-  e  seguimos  por  um  corredor  comprido,  alumiado  pela  luz 
frouxa  de  uma  lanterna  que  pendia  do  tecto  e  balouçava  ao  ritmo 
das  tábuas  que  nos  chiavam  debaixo  dos  pés.  Andámos  mesmo  até  ao 
fim, e aí Karin convidou-me a entrar para uma saleta quadrada. 
Era uma sala de estar confortável e decorada com gosto. Havia bons 
quadros  distribuídos  pelas  paredes  e  muitas  almofadas  e  pequenos 
tamboretes  espalhados  sobre  a  alcatifa,  que  era  uma  verdadeira 
obra de tapeçaria. Um rectângulo na parede do fundo era um aquário 
com  peixes  tropicais,  os  quais  se  agitaram  nervosamente  ao 
acender-se  a  luz  fluorescente  escondida  pelo  friso  de  conchas.  O 
bar com embutidos ocupava um dos cantos, e noutro havia um biombo 
a  esconder  a  passagem  para  a  sala  contígua.  Um  conjunto  de  sofá, 
poltronas  e  uma  mesinha  baixa  ocupavam  a  quarta  parte  da  divisão, 
junto à janela tapada por reposteiros modernos de tecido bordado. 
Por  contraste  com  aquele  ambiente  limpo  e  confortável,  eu  sentia-
me sujo dos pés à cabeça, e por dentro 
 
57 
 
também.  A  roupa  já  estava  seca,  porém  a  lama  fazia  as  pregas 
pegarem-se  à  pele,  e  todo  eu  era  uma  crosta  nojenta.  Por  isso, 
antes  de  me  atirar  para  o  sofá,  dei-me  ao  trabalho  de  estender  o 
casaco  dobrado  com  o  forro  para  baixo.  Mas  o  resto  de  pedaços  de 
lama  seca  que  os  sapatos  haviam  largado  na  alcatifa  podia  ser 
seguido por uma toupeira desde a porta de entrada. 
-  Mr.  Gold...  o  senhor  está  ferido!-exclamou  Karin  com  os  olhos 
muito  abertos  e  o  uisque  a  verter  directamente  da  garrafa  para  a 
bandeja. 
- Ora-disse eu.-Não é nada. Foi só de raspão. 
Ela depositou rapidamente a bandeja no tampo da mesa e precipitou-
se  para  fora  da  sala.  Quando  voltou,  trazia  tantos  pensos  e 

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frasquinhos  que  eu  emborquei  um  gole  enorme  para  fazer  o  susto 
passar. 
- Não te preocupes, pequena. Lá em casa tratamos pior do que isto 
com uisque para desinfectar e um bocado de cuspo por cima. 
Mas  já  ela  me  tinha  arregaçado  a  manga  e  inspeccionava 
cuidadosamente  o  arranhão.  Estava  ajoelhada,  ali  muito  chegada  a 
mim,  e  o  cabelo  negro  e  perfumado  roçava-me  a  cara  enquanto  os 
dedos  delgados  limpavam  a  ferida.  Besuntou-me  o  braço  quase  todo 
com  tintura,  e  quando  acabou  de  ligar  eu  parecia  um  ferido  grave 
em  acidente  de  viação.  Pus  a  manga  no  lugar  e  ela  ergueu-se  para 
ir arrumar a farmácia. 
Engoli  mais  um  trago  de  bebida,  reflectindo  que  precisava  de  um 
cigarro; porém, esquecera-me de que havia todo o meu peso em cima 
do  maço,  e  o  tabaco  estava  todo  amachucado.  Consegui  safar  um  em 
condições  razoáveis,  acendi-o  e  o  primeiro  trago  queimou-me  os 
pulmões.  Depois  foi  melhor.  Então  distendi  o  corpo  e  pus-me  a 
fazer anéis para o tecto. 
Karin regressou, indo sentar-se na beira do sofá, bem na pontinha, 
numa  posição  desconfortável,  à  espera  do  que  eu  ia  dizer.  Eu  não 
disse  nada.  Continuei  recostado,  a  soltar  nuvens  de  fumo  e  a  dar 
voltas  à  cabeça,  e  quando  abri  a  boca  foi  para  anunciar  que 
precisava  de  tomar  banho.  Karin  ia  aproveitar  a  deixa  para 
desaparecer, de modo que acrescentei: 
-...daqui  a  pouco,  quando  acabar  a  conversa.  Olhou-me  de  um  modo 
que me fez lembrar a cabrinha do vagão. 
 
58 
 
- Ah...- Trincava nervosamente o lábio com os dentes da frente. 
- Pois é. Diz lá. 
- O... quê? 
- Tudo. Assim é mais fácil, e não tenho de te puxar pela língua. 
- Eu... já disse. 
- Eu sei. Já disseste que julgavas que os papéis eram autênticos e 
que  gritaste  quando  percebeste  que  eu  ia  ser  esborrachado  contra 
uma  parede.  Mas  preciso  de  saber  mais...  para  poder  acreditar  em 
ti. 
Não sei se ela tinha reparado ou não, porém a saia tinha subido um 
bocado acima dos joelhos bonitos. 
- Eu fui ter consigo, não fui? Arrisquei a minha vida... Trouxe-o 
para aqui. Eles vão matar-me. Tenho a certeza de que me vão matar! 
Poisou  nos  meus  os  olhos  húmidos,  de  um  brilho  tão  suave  como 
névoa  de  madrugada.  Lembrei-me  outra  vez  da  cabrinha.  Mas  não  ia 
deixar-me comover demasiado. 
-  Pequena  -  disse  eu.-  Se  até  agora  eu  não  te  matei,  existe  uma 
probabilidade razoável de seres uma garota cheia de sorte. 
-  Oh,  Mr.  Gold,  por  favor...  Eu  não  podia  adivinhar.  E  o  senhor 
também  não.-Aqui  marquei  mais  um  ponto  a  favor  dela.  -  Como 
poderei convencê-lo? 
Exprimia-se com convicção e eu senti que perdia terreno. 

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-  Okay,  deixa  lá  o  mister  e  trata-me  por  Frank.  Fitou-me  com  as 
sobrancelhas  levemente  arqueadas,  a  ver  se  eu  estava  a  brincar, 
mas  percebeu  que  eu  estava  convencido,  e  o  alívio  transmitiu-se-
lhe  a  todo  o  corpo  e  deixou-lhe  descair  um  pouco  a  cabeça  para 
trás.  Finquei  o  braço  válido  para  conseguir  sentar-me  direito, 
inclinei-me para ela até quase lhe tocar o rosto e inquiri: 
- Quem és tu, Karin? E qual é o teu papel em toda esta história? 
Começou  a  falar  de  um  modo  muito  especial,  os  olhos  grandes  e 
tristes  fitos  num  ponto  que  não  se  achava  ali,  como  se  fosse 
extremamente penoso ir buscar algo que trazia sempre consigo. 
-  O  meu  pai  era  natural  de  Marráquexe.  Pertencia  à  burguesia 
marroquina,  que  desempenhou  um  papel  importante  no  movimento 
nacional que conduziu este país à 
 
59 
 
independência do protectorado da França e da Espanha Em 1951 casou 
com uma jovem de boas famílias de Rabat Em 1957, um ano depois da 
independência,  desiludido  com  o  que  se  passava  na  vida  política, 
veio para Tânger ocupar o lugar de director dos escritórios de uma 
grande  empresa  de  exportação  e  importação.  Eu  nasci  nessa  altura. 
Ele  morreu  dois  anos  mais  tarde  e  a  minha  mãe  faleceu  seis  meses 
depois, vítima de um tracoma pulmonar. 
Fez um esforço para prosseguir. 
- Fui entregue aos cuidados de um homem muito rico e poderoso, de 
Rabat,  chamado  Ben  Youssef,  um  rico  negociante  que  tinha  sido  um 
grande  amigo  e  protector  do  meu  pai  e  durante  muitos  anos 
desempenhou o cargo de cônsui honorário de Tânger. Ben Youssef foi 
o  meu  tutor.  Quando  concluí  o  liceu,  mandou-me  estudar  para 
Bordéus. E, quando terminei a faculdade fiquei a trabalhar com ele 
Interrompeu-se e eu passei-lhe a mão pelo cabelo. 
- Sendo assim, devias estar-lhe grata. 
Nessa  altura,  os  olhos  dela  adquiriram  outra  expressão  De  raiva. 
Endireitou o tronco e a cabeça e foi com fúria que respondeu. 
-  Não.  Ben  Youssef  envolveu-me  nos  negócios  sujos  dele.  Traiu-me. 
Deixou  que  Abdul  Ahrman  forjasse  do  cumentos  que  me  incriminam  se 
eu o denunciar. Ben Youssef é um porco, um assassino... e eu hei-
de matá-lo! 
Por  toda  a  fúria  e  revolta  que  ia  no  seu  rosto,  acreditei 
sinceramente  que  sim.  Decidi,  porém,  que  nesta  altura  era 
preferível não aprofundar mais essa parte. 
Vi as horas e acendi um cigarro, a dar-lhe tempo para se acalmar. 
Passava  da  uma.  Estendi  o  braço  disponível  e  puxei-a  com  doçura 
para junto de mim. Senti que o seu corpo descarregava toda aquela 
tensão  pela  forma  como  se  deixou  vir  e  encostou  a  mim.  Rocei-lhe 
os  dedos  pela  face,  acariciando  a  orelha  pequenina.  Ela  virou-se 
devagar  com  um  brilho  indefinível  nos  olhos  negros.  Quando  lhe 
poisei  a  mão  na  coxa  semicerrou  as  pálpebras  e  pude  sentir  que  o 
seu corpo tremia. 
- Ainda é cedo para sair - murmurei-lhe ao ouvido. - Antes preciso 
de um banho e descansar um bocado. 

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- Sim - disse ela, mas não se moveu. 
Quase  logo  os  seus  lábios  macios,  doces  e  quentes  colaram-se  aos 
meus. Quando recobrei o fôlego e ergui as 
 
60 
 
pálpebras  ela  achava-se  de  pé,  diante  de  mim,  as  pernas 
ligeiramente afastadas e os olhos cintilantes. 
- Vou arranjar o banho - participou alegremente. 
- Para ti também? 
- Claro que sim. 
- Assim vestida, vais molhar-te... 
-  Oh...  -fez  ela,  e  começou  a  desapertar  o  fecho  da  gaia,  donde 
pendia  uma  fina  corrente  dourada  a  suspender  um  isqueiro 
minúsculo.  Depois,  com  um  movimento  suave  das  ancas,  fê-la 
escorregar para os pés. 
Acendi  a  luz  ao  entrar  no  quarto.  Karin  dormia  com  um  sorriso 
tranquilo  nos  lábios,  e  quando  puxei  o  lençol  para  lhe  cobrir  as 
lindas costas nuas ela ronronou  um resmungo e acabou por abrir os 
olhos. 
- Donde vens? - inquiriu num bocejo. 
- Do banho - disse eu. 
Soergueu ligeiramente o tronco e, após esfregar preguiçosamente as 
pálpebras,  reparou  no  que  eu  trazia  vestido.  Umas  calças  de 
algodão, camisa de ramagens lilases e sandálias de couro. 
- Mas... isso não é teu! 
- Pois não. Levei tempo a descobrir. Sentei-me na cama a atacar os 
sapatos. 
- Quem é o matulão de cabelos brancos? - perguntei. 
- Ricardo Sánchez. Chegou da Bolívia há dois meses, e desde então 
anda sempre com Abdul Ahrman. Onde vais? 
- Onde é o quartel-general? 
- Nos armazéns de Ben Youssef. - Olhou-me com ansiedade. - Mas não 
vais sozinho, pois não? 
Levantei-me. 
- Não. Tu vais comigo. - E acrescentei, a apagar-lhe o sorriso:-Só 
para me dizeres onde é. Depois voltas para aqui. 
- Como quiseres - declarou desapontada. 
-  Talvez  eu  lá  encontre  também  o  teu  dossier  -  arrisquei  para  a 
animar. 
Sacudiu os cabelos soltos e agarrou-me o braço com força. 
- Oh, não! Não quero que te arrisques por minha causa. 
Exibi um sorriso encorajador. 
 
61 
 
- Não te preocupes, pequena. Isto que eu vou fazer não é nada que 
não tenha já feito. 
Se  o  meu  pai,  que  é  reformado  lá  em  Boston,  Massa-chusets,  me 
estivesse  a  ouvir,  havia  de  admitir  de  uma  vez  por  todas  que  o 
filho dele era estúpido. 

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O rosto de Karin animou-se um bocadinho. 
- De verdade, Frank? 
- Juro - garanti, a pedir desculpa a mim próprio. 
- Querido... tenho medo. - De um pulo estava fora da cama, com os 
braços a prenderem-me a nuca e os lábios ansiosos a comprimirem-me 
a boca. 
Comecei  a  sentir  de  novo  aquela  onda  voluptuosa  e  excitante  a 
derramar-se da espinha pelo corpo todo. 
- Pronto... Já chega - consegui articular. 
Soltou  uma  risada  divertida  e  foi  enfiar  num  instante  os  chinelos 
e uma camisa. -...Que horas são? 
- Duas e meia. Horas de ir. 
- Está bem, não demoro nada -e saiu a correr para ir vestir-se. 
Regressou  passados  cinco  minutos.  Não  sei  porquê,  senti  uma  certa 
angústia na altura em que ela apagou a luz para saírmos. 
O  táxi  deixara-nos  onde  Karin  tinha  sugerido,  tendo  nós  feito  o 
resto  do  percurso  a  pé  ao  longo  de  uma  série  de  ruas  estreitas, 
malcheirosas  e  desertas.  Só  não  fiquei  também  surpreendido  com  o 
aspecto  daquilo  que  eu  próprio  chamara  o  “quartel-general”  porque 
pelo  caminho  Karin  me  fora  adiantando,  além  de  outros  pormenores 
de  interesse  imediato,  que,  embora  fosse  nas  instalações  que  eu 
pretendia  visitar  que  poderia  encontrar  o  que  me  interessava,  a 
sede da empresa que funcionava como fachada da organização ocupava 
dois andares luxuosos no Boulevard Mohamed V. 
Esta tratava-se de uma comprida e sólida construção de dois pisos, 
dos  quais,  segundo  ela  me  esclareceu,  o  andar  térreo  era  ocupado 
pela  garagem  e  armazéns  e  o  superior  pelos  escritórios.  Ficava 
situado numa rua de aspecto sujo e abandonado, onde do outro lado 
se  alinhavam  alguns  velhos  prédios  a  aguardar  demolição.  A  única 
iluminação provinha de um candeeiro colocado precisamente por cima 
 
62 
 
Da  pesada  porta  de  chapa  ondulada,  que  parecia  de  resto  ser  a 
única entrada do edifício. 
A  noite  continuava  ventosa,  porém  a  chuva  cessara  de  vez.  Karin 
explicou baixinho a meu lado: 
- A única possibilidade de entrar é pelas traseiras. Existe aí, ao 
fundo  dos  degraus,  uma  porta  com  uma  pequena  janela  de  vidro  e 
duas  grades.  Forçando  depois  o  postigo,  encontras  por  dentro,  e  a 
meia altura do chão, um trinco de correr. Essa entrada dá para um 
cubículo  de  arrumações,  na  cave.  Há  depois  uma  escada  para  a 
garagem, mas a porta de cima fica sempre trancada. É por isso que 
eles não se preocupam com a outra, da rua. 
-  Mesmo  assim,  não  havendo  sequer  um  guarda,  nunca  foram 
assaltados? 
Ela  olhou-me  com  ar  incrédulo,  como  se  eu  estivesse  a  dizer 
disparates. 
- E quem se atrevia a assaltar a propriedade de Ben Youssef? 
Engoli em seco e não dei resposta. 

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Lamentei ter deixado para trás a arma que me havia acompanhado uma 
parte  da  noite.  Karin  e  eu  en-contrávamo-nos  abrigados  no  portal 
de  um  dos  prédios.  Ela  prosseguiu,  procurando  ultrapassar  o 
nervosismo  que  a  invadia,  num  esforço  para  recordar  todos  os 
pormenores: 
-  A  parede  do  lado  esquerdo  está  ocupada  com  prateleiras  até  ao 
tecto.  Mesmo  por  cima  fica  um  alçapão  que  dá  para  a  garagem.  Não 
me  lembro  da  localização  exacta,  mas  acho  que  é  quase  a  meio  das 
prateleiras. Podes subir apoiando-te nelas. Já os vi fazerem isso. 
Depois,  no  piso  de  cima,  próximo  da  saída  do  alçapão,  há  uma 
escada  de  madeira  que  conduz  ao  andar  superior.  São  os 
escritórios.  A  primeira  divisão  envidraçada  à  direita,  logo  no 
início do corredor, é a que nos  interessa. Atrás da porta costuma 
ficar  pendurada  uma  lanterna  eléctrica.  O  que  vais  procurar  deve 
estar  no  ficheiro  à  direita  da  secretária  principal...  Acho  que  é 
tudo. 
Já  me  devia  chegar.  Virei-me  para  Karin,  segurei-a  pelos  ombros  e 
puxei-a  para  mim.  Não  devia  tê-lo  feito.  Ela  desviou  os  lábios  e 
disse: 
- Frank... eu vou contigo. 
Sacudi a cabeça. 
- Vais para casa. 
- Por favor, querido. Posso ajudar-te. 
 
63 
 
Ainda disse duas vezes que não, ela insistiu outras duas, e acabei 
por lhe fazer a vontade. 
O  vidro  estalou  quase  sem  ruído  ao  contacto  seco  com  a  mão 
enrolada no lenço. Os pedaços miúdos foram cair no espaço estreito 
entre  a  janela  e  as  madeiras;  os  maiores,  porém,  mantiveram-se  no 
caixilho.  Depois  foi  só  empurrar  os  batentes  e  encontrar  o  fecho. 
O  trinco  correu  sem  dificuldade,  a  porta  girou  suavemente  nas 
dobradiças, e eu entrei seguido de Karin. 
Deixei  o  postigo  entreaberto  para  que  uma  réstia  de  claridade 
iluminasse  o  cimento.  Após  uma  hesitação,  Karin  localizou  uma 
passagem  no  tecto.  Havia  ao  todo  cinco  prateleiras  sobrepostas 
suportadas  em  cada  extremidade  por  duas  vigas  tubulares.  Agarrei 
com  firmeza  o  rebordo  do  uma  delas,  apoiei  os  pés  na  inferior  e 
comecei  a  trepar  devagar  e  com  extrema  cautela.  Quando  pude 
alcançar a prancha do alçapão, fiz correr o braço em torno da viga 
de  ferro,  de  modo  a  aguentar  fortemente  o  peso  do  corpo,  e 
empurrei para cima. A madeira deu frouxamente de si, mas só quando 
concentrei  todas  as  energias  na  mão  espalmada  a  tábua  acabou  por 
ceder. O braço ligado doía-me, mas na posição em que me achava era 
aquele  que  podia  utilizar  para  o  efeito,  por  isso  projectei-o 
violentamente,  e  a  tampa  pesada  cedeu  por  completo  em  torno  das 
dobradiças, indo desabar pesadamente sobre o chão por cima de nós, 
com  um  estrondo  que  se  repercutia  com  fragor  no  espaço  fechado 
pelas paredes de cimento. 

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Fiquei  a  aguardar  uns  segundos,  com  o  braço  mais  dormente  do  que 
dorido,  e  depois  enfiei  a  cabeça  pelo  buraco  e  icei-me  a  custo, 
até sentir o piso debaixo de mim. Mantive-me assim até recobrar  a 
respiração  e  em  seguida  deitei-me  de  bruços,  fiz  sinal  a  Karin 
para subir e puxei-a para junto de mim. O ar cheirava a mistura de 
gasolina e óleos queimados. 
Levantámo-nos  e  subimos  a  escada  de  madeira  que  conduzia  ao 
primeiro  andar.  A  porta  da  primeira  divisão  envidraçada  era  mesmo 
ali.  Rodei  a  maçaneta  e  entrei.  Karin  seguia  na  minha  esteira, 
demasiado  confiante  em  relação  à  sua  parcela  de  sucesso,  sem  dar 
mostras de se aperceber daquilo a que os meus sentidos apurados em 
situações  análogas  reagiam  por  puro  instinto.  Tudo  vinha  sendo 
fácil. Demasiado. Mesmo a lanterna eléctrica se 
 
64 
 
encontrava onde devia, pendurada atrás da porta. Retirei-a e premi 
o botão e apontei o foco de luz amarela. 
- Quietos, os dois. 

frase 

foi 

secamente 

pronunciada 

em 

árabe; 

porém, 

em 

circunstâncias  análogas,  o  significado  é  que  conta,  e  o  certo  é 
que me soou precisamente assim. Então o que fiz foi inspirar fundo 
e  erguer  os  braços  devagar  à  altura  da  cabeça.  Uma  luz  fria  e 
intensa acendeu-se, ferindo-me a vista e encharcando o recinto. 
A  primeira  pessoa  para  quem  olhei  foi  para  Karin,  que  me  fitava 
com desespero. Em seguida rodei a cabeça para abarcar o conjunto. 
Em  primeiro  plano  achava-se  um  marroquino  baixo  e  magro  de  pele 
curtida  e  djellaba  escura,  com  as  mãos  atrás  das  costas.  Devia 
tratar-se  de  Abdul  Ahrman.  Ligeiramente  recuado,  Ricardo  Sánchez. 
Tinha  uma  Luger  na  mão  e  mantinha-a  bem  apontada  na  direcção  da 
minha  cabeça.  Atrás  dele  plantavam-se  dois  tipos  de  rostos  feios, 
empunhando  um  deles  um  macaco  e  o  outro  uma  chave  inglesa.  O 
terceiro  não  apareceria  mais  em  cena.  Tinha  ficado  lá  no  beco.  E 
eles pareciam lembrar-se disso. 
- Viva, Sánchez - disse eu com jovialidade, em tom de conversa de 
sala.-Até que enfim, hem? 
-  É  verdade,  Gold  -  retorquiu  sem  expressão.  -  Mas  isto  não  é 
positivamente  uma  reunião  amigável.  Vejo  que  trouxe  companhia  - 
acrescentou fazendo um gesto lateral com a arma. 
Olhei  para  Karin,  endereçando-lhe  um  breve  sorriso  que  não  teve 
qualquer  efeito.  A  expressão  do  rosto  dela  era  de  terror  puro  e 
simples, e uma palidez intensa cobria-lhe as faces. 
- Abdul, eu...-ia dizer. 
-  Cala-te,  porca.-A  voz  estalou  como  um  chicote,  e  o  marroquino 
escarrou no cimento. Avançou uns passos até junto dela, respirando 
com  dificuldade.  -  Traíste-nos  a  todos,  grande  cabra.  A  nós,  ao 
teu  tutor...  e  a  ti.  Mas  eu  vou  fazer  que  te  arrependas  de  ter 
nascido. 
A  mão  esquerda  cortou  o  ar  num  silvo  e  foi  abater-se  sem  piedade 
no  pescoço  de  Karin.  A  cabeça  foi  atirada  para  trás,  os  lábios 
soltaram  um  ligeiro  gemido  e  ela  tombou  enrodilhada  no  chão,  ao 

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mesmo  tempo  que  os  meus  punhos  cerrados  numa  fúria  demolidora  iam 
embater com a força de um martelo pesado no crânio do filho da 
 
65 
 
mãe.  Um  berro  bestial  escapou-se-lhe  da  boca  aberta  e  o  corpo 
torceu-se para trás todo desarticulado, acabando por ficar deitado 
de borco no tampo da secretária. 
Nessa altura, porém, os dois auxiliares já estavam em cima de mim, 
prendendo-me fortemente os braços, e eu não tinha possibilidade de 
libertar-me  daqueles  músculos  fortes  como  fios  de  aço.  Depois,  um 
objecto  metálico  enterrou-se-me  no  estômago  e  todo  o  ar  que  me 
restava foi expelido num jacto dolorido e amargo. 
- Não o amachuquem... Deixem-no comigo. 
Os tipos soltaram-me, e eu fiquei a olhar para Sánchez com o corpo 
retesado,  numa  tensão  de  expectativa.  Os  olhos  dele  estavam 
raiados  de  fúria.  Contornou  o  corpo  do  Karin,  que  começava  a 
mover-se, e aproximou-se com a mão esquerda a cobrir-me com a arma 
e  o  punho  grosso  da  direita  a  tomar  balanço.  Cerrei  os  dentes  e 
logo  a  seguir  senti  no  queixo  o  impacte  dos  nós  dobrados,  uma, 
duas,  três  vezes.  Quando  dei  porque  o  ataque  tinha  passado,  sorri 
dolorosamente para Karin e tombei para diante. A coronhada na nuca 
não foi mais que um “plop” tranquilo. 
 
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CAPÍTULO VII 
 
A  respiração  era  pesada  e  irregular,  e  alguém  cujo  rosto  não 
distinguia  através  das  pálpebras  semicerradas  murmurava-me  coisas 
ao  ouvido.  O  meu  nome,  possivelmente.  Proferi  um  palavrão  e  quis 
erguer  o  corpo.  Mas  ele  estava  rígido  como  uma  prancha  e  algo 
impediu  que  os  braços  ajudassem.  Percebi  que  a  respiração  difícil 
era  a  minha.  Então,  com  os  olhos  fechados,  esperei  pacientemente. 
Sabia que a vida ia voltar. Mas por aquilo em que a vida se vinha 
tornando era muito mais agradável esperar que viver. Podiam chamar 
as vezes que quisessem... Oh, sim, eu voltaria quando entendesse. 
De súbito, tudo se tornou claro no cérebro toldado, a névoa sumiu-
se,  a  dor  sobreveio  e  a  letargia  passou.  Soltei  um  gemido,  cuspi 
para  o  lado  e  abri  os  olhos.  Karin  estava  ali,  imobilizada  como 
eu. Observava-me ansiosa, os olhos reflectindo todo o desespero do 
bocado  mau  que  passara.  Estendi  os  lábios  fendidos  num  sorriso 
magoado. 
- Karin... como estás, pequena? 
Fez  um  esforço  maravilhoso  para  retribuir,  aliviada  por  não  estar 
só. 
-  Oh,  Frank...  -  a  cabeça  descaiu-lhe  sobre  o  ombro  e  pôs-se  a 
choramingar  de  mansinho.  Mas  logo  as  lágrimas  pararam  e  o  rosto 
que voltou para mim era sereno e confiante. 
- Como... te sentes? 

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-  Melhor.  Onde  estão  eles?  -  Cada  palavra  trazia-me  um  gosto 
horrível à boca. 
- Foram-se embora - volveu -...mas vão voltar. 
Procurei com muito pouco sucesso mover as pernas esticadas, atadas 
nos tornozelos e a uma viga de ferro que subia até ao tecto, e os 
braços presos em cordas, atrás das costas, a uma argola de ferro. 
 
67 
 
- Está bem. Mas enquanto não voltam nós temos de sair daqui. 
Os olhos de Karin brilharam. 
- Achas que podes?... 
Rodei  com  dificuldade  os  pulsos  dentro  das  cordas  esticadas, 
experimentando  um  ardor  intenso  na  carne,  e  olhei  em  redor. 
Achávamo-nos  num  canto  da  garagem,  e  Karin  encontrava-se  presa  a 
um gancho igualmente fixo na parede, a cerca de meio metro de mim. 
Admiti  que,  inclinando  o  tronco,  talvez  pudesse  alcançar  com  os 
dente-os nós dos pulsos dela. Mas não. As cordas que nos prendiam 
não  tinham  qualquer  folga.  De  repente,  lembrei  -me  do  isqueiro. 
Era  o  Dunhill,  metido  num  pequeno  bolso  superior  das  calças. 
Depressa  concluí  também  que  me  era  impossível  extraí-lo  dali.  E, 
mesmo que o conseguisse, nunca chegaria a acendê-lo. Ou então... 
- Karin, o teu isqueiro? Fitou-me sem compreender. 
- Tenho-o aqui. Para quê? 
Falei rapidamente. 
-  Ouve,  querida.  Não  faças  perguntas  e,  por  favor,  tenta  soltá-lo 
para o mais próximo possível de mim. Percebeste? 
Ela  fez  que  sim  e  dobrou  o  pescoço,  procurando  chegar  à  corrente 
que  lhe  pendia  do  cinto.  Quase  a  roçou  com  o  queixo,  e  depois 
começou  a  sacudir  a  cabeça  com  o  objectivo  de  conseguir  que  os 
músculos se distendessem o suficiente para lhe permitir alcançar a 
altura  desejada.  O  rosto  denotava  todo  o  esforço  despendido,  o 
suor  alagando  -lhe  a  fronte,  onde  finas  veias  azuladas  latejavam 
intensa  mente.  Porém,  o  sorriso  que  o  veio  transformar,  quando 
ergueu triunfantemente a cabeça exibindo pendurada entre os dentes 
a fina corrente dourada, significava que valera bem a pena. 
Mas  faltava  o  resto.  Vi-a  balançar  para  trás  e  para  diante,  com 
energia,  e  depois  soltar  o  fio.  O  minúsculo  Ronson  caiu  no  chão 
com  um  ruído  metálico,  um  pouco  mais  sonoro  do  que  o  do  meu 
coração,  e  veio  deslizando  até  uns  vinte  centímetros  da  minha 
coxa.  Karin  acompanhara  o  movimento  inclinando  o  corpo  para  mim  e 
eu premiei-a com o largo sorriso. Bem, agora era comigo. 
Comecei a desviar devagarinho o tronco para o lado, mas a lentidão 
com que o fazia não servia o fim em vista. 
 
68 
 
resultava apenas do medo que sentia de atingir mais cedo o limite 
do  desvio.  E  assim  cada  centímetro  era  uma  esperança.  Até  que  o 
limite  chegou.  Demasiado  cedo,  talvez.  As  cordas  que  me  prendiam 
os  pulsos  à  argola  apertaram-se  mais.  E  iam-se  retesando  sempre, 

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até  começarem  a  rasgar-me  a  pele  à  medida  que  eu  ia  forçando, 
milímetro a milímetro. Faltava ainda um pouco, só um bocadinho. No 
entanto, compreendi que para o vencer ia ser preciso deixar que as 
cordas  roessem  a  carne.  Cerrei  os  olhos  com  força  e  dei  um  puxão 
brusco e violento para baixo. Senti a carne rasgar e uma dor aguda 
na  coluna;  porém,  consegui  tocar  com  os  dentes  a  mancha  amarelada 
que  parecia  bailar  no  chão,  rente  à  minha  cara.  Crispei  os 
maxilares,  e  quando  os  distendi  para,  com  o  auxílio  da  língua, 
entalar  o  objecto  na  posição  devida,  um  vómito  deixou-me  um  gosto 
a azedo na boca. 
A  dor  nos  pulsos  era  o  mais  insuportável,  mas  eu  tinha  de 
permanecer  naquela  posição.  E  agora,  ainda,  esquecer  isso,  e  tudo 
o resto, para concentrar todas as energias no esforço tremendo que 
ia constituir pôr o Ronson a funcionar com os dentes. Tentei, mas 
a  mola  apenas  cedeu  o  que  a  folga  permitia.  Forcei  mais,  com  os 
dentes  a  rangerem  raivosamente  contra  o  metal.  A  minha  cara  devia 
ser uma máscara repugnante. O sangue molhava-me os pulsos e o suor 
viscoso  parecia  sangue  também.  Carreguei  mais.  A  mola  deu  de  si, 
lentamente  de  início,  mas  no  último  segundo  produziu-se  um  leve 
estalido  e  a  faísca  saltou,  inflamando  o  gás,  que  ficou  a  arder 
com  um  silvo,  o  calor  próximo  da  chama  escaldante  a  morder-me  a 
pele. 
Pude  verificar  num  relance  que  Karin  rodara  o  corpo  na  medida  do 
possível,  de  modo  a  deixar  as  mãos  voltadas  para  mim.  Manobrei  o 
meu  de  forma  a  chegar  a  chama  às  cordas  que  a  prendiam.  Não  sei 
exactamente  o  tempo  que  levou.  Mas  não  podia  ter  sido  muito, 
porque  quase  logo  a  seguir  o  isqueiro  caiu-me  dos  dentes,  mas  eu 
não quis saber de mais nada, nem sequer dos gemidos dela a tentar 
libertar-se  das  cordas  a  arder,  e  deixei-me  apenas  ficar,  o  corpo 
todo torcido como o de um boneco de pano, os maxilares pendentes e 
insensíveis e o cérebro a flutuar numa vaga oca e imensa. 
Foi Karin que me veio chamar a esta ausência, e a irritação que me 
invadiu  contra  ela,  por  ter  feito  a  dor  voltar,  desvaneceu-se  ao 
perceber que os meus pobres 
 
69 
 
pulsos,  embora  rasgados,  sangrentos  e  doloridos,  se  achavam 
libertos  enfim.  Deixei-me  tombar  no  solo,  rolando-os  no  chão  frio 
de  cimento.  Daí  a  pouco,  Karin  veio  ajoelhar-se  perto  de  mim. 
Ergui  a  cabeça  para  ela  e  vi  que  sorria.  Desta  vez  não  consegui 
retribuir.  Deixei  que  me  lavasse  com  água  que  trouxera  num  púcaro 
e depois enrolasse em torno das  feridas umas finas tiras de pano, 
que apertou com cuidado. 
- Frank... como te sentes? 
Fiz um esgar que me custou outro logo a seguir. 
-  Óptimo,  pequena...  mas  agora  deixa-me  estar  um  bocadinho,  está 
bem? 
-  Mas...  eles  podem  voltar!  Temos  de  sair,  depressa.  Por  favor, 
Frank... 
Arranjei maneira de fincar os cotovelos no chão. 

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- Está bem, pronto. Dá aqui uma ajuda... 
Com  o  auxílio  dela,  acabei  por  ir  ficando  de  pé.  Porém,  logo  que 
isso  sucedeu,  uma  náusea  profunda  obrigou-nos  a  repetir  o 
processo.  E  foi  assim,  agoniado  e  a  cambalear,  que  cheguei  perto 
da  porta.  Aí  deixei-me  cair  sentado  sobre  um  caixote,  a  descansar 
um  bocado.  Karin  passou-me  a  mão  macia  pela  testa  molhada.  Se  o 
pai Gold me visse naquele estado, dava-me uma reprimenda valente e 
fazia -me prometer não fazer mais asneiras. 
- Frank, eu vou ver se ficou alguém lá fora, a guardar a garagem. 
Tentei  dissuadi-la,  mas  já  ela  se  esgueirava  para  o  exterior. 
Tirei  um  cigarro  e  acendi-o.  Naquele  momento  senti  pelos 
isqueiros,  todos  os  isqueiros  do  mundo,  uma  raiva  tremenda  e  um 
carinho fraternal. O simples esforço de chupar o fumo ressentiu-se 
nos  maxilares  amachucados,  mas  o  circuito  voluptuoso  da  nuvem 
desde  os  pulmões  até  às  narinas  ajudou  os  nervos  tensos  a 
descontraírem-se. Karin regressou sem ruído, falando num sussurro. 
- Está um homem lá fora. Anda para cá e para lá. Se nós seguirmos 
rente ao muro, até ao largo, penso que não dará por isso. 
Aspirei profundamente o cigarro uma vez mais e depois amachuquei a 
ponta no chão. Levantei-me. 
- Está bem. Vamos embora. 
Esgueirámo-nos  silenciosamente.  Inspirei  com  força  o  ar  húmido  da 
chuva  recente  e  fui  seguindo  colado  ao  muro,  segurando  a  mão  de 
Karin na minha. Quando dobrámos a 
 
70 
 
esquina  do  prédio,  detive-me  e  virei-me  para  ela.  A  lâmpada  que 
iluminava a fachada espalhava a sua luz frouxa pelo terreiro. 
-  Bem,  vamos  ter  de  passar  para  o  outro  lado.  Eu  vou  adiante  e 
enfio pelo vão onde estivemos há pouco. Entendido? 
Disse  que  sim,  e  eu  atravessei  rapidamente  o  largo,  os  passos 
abafados  pela  terra  húmida.  Nesse  instante  percebi  um  roncar 
indistinto  que  se  aproximava,  e  só  quando  entrei  a  porta,  num 
salto, e vi dois faróis potentes varrerem o largo e deterem-se com 
um  frear  brusco  diante  da  fachada  da  garagem  onde  Karin  se 
encontrava compreendi que era tarde. 
Apesar  da  distância,  tive  a  sensação  nítida  de  distinguir 
claramente as feições transtornadas do rosto de Karin ao ver cinco 
homens armados saltarem da carrinha e precipitarem-se para ela. 
Dois deles tiveram de lutar para a dominarem, e quando percebi que 
os  outros  haviam  começado  a  procurar-me  senti-me  mal  por  ter  de 
fugir. 
Corri sem destino através do labirinto de casas baixas de adobe, e 
de  repente,  sem  que  pudesse  perceber  como  isso  sucedera,  dei 
comigo  na  extremidade  de  uma  ruela  que  desembocava  na  praia. 
Tornava-se  impossível  escapar  pelo  areal,  onde  eu  seria  tão  fácil 
de  abater  como  urso  numa  feira.  A  única  possibilidade,  se  existia 
alguma,  era  o  pontão  de  madeira  que  dava  acesso  a  uma  enfiada  de 
casas,  uns  dois  metros  acima  do  nível  da  praia.  Por  baixo  do 
pontão, na areia, arrumavam-se pequenos barcos de pesca. 

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Olhei  para  trás  e  pude  verificar  que  os  meus  perseguidores 
iniciavam  a  busca.  Não  havia  tempo  para  mais  reflexões.  Rastejei 
pela  passagem  de  madeira,  e  já  fora  da  vista  deles  percorri  a 
correr  uns  cinquenta  metros,  altura  em  que  me  deitei  outra  vez 
para o chão, porque dois vultos acabavam de chegar à desembocadura 
seguinte, a um espaço breve do corredor que eu percorria. 
Na primeira porta por onde vi sair luz, entrei. Entrei suavemente, 
de gatas, afastando o reposteiro gasto e sujo. 
No  interior,  alumiado  por  um  candeeiro  de  petróleo,  havia  duas 
mulheres e um grupo de garotas. Uma das Mulheres era muito velha e 
devia  ser  a  avó.  A  outra  era  ainda  nova.  No  silêncio,  por 
instantes, continuou a ouvir-se 
 
71 
 
apenas a voz de uma das miúdas que, com um livro aberto, sobre os 
joelhos, lamuriava uma oração ou a tabuada escolar. 
A  velha  pareceu  não  dar  por  nada  e  prosseguiu  comendo 
sossegadamente  com  as  mãos.  Então  pus-me  de  pé  e  exibi  um  largo 
sorriso. 
Foi aí que consegui despertar todos da paz em que se encontravam, 
para  virem  acolher-me  com  sorrisos  e  gestos  de  boas-vindas,  como 
se estivessem a aguardar a minha chegada desde manhã cedo. A velha 
pôs-se  a  cantarolar  umas  palavras  incompreensíveis,  a  filha 
repetia  com  pronúncia  melhorada  e  as  miúdas  batiam  palmas  à  minha 
volta. 
Eu articulei, indicando o meu aspecto, que devia ser de meter dó: 
- Moi, três fatigue. Moi, assaltado.-Contemplei-as, desmoralizado, 
e apontei para a porta. - Voleurs! 
Não  percebi  se  compreenderam,  porque  o  que  fizeram  foi  puxar-me 
pelos  braços  e  pelas  pernas  para  cima  de  uma  manta,  e  quando 
fizeram menção de me tirar a roupa suja eu achei que a coisa já ia 
longe  de  mais,  apaguei  o  sorriso  e  gritei  alto  para  me  fazer 
ouvir. Porém, quanto mais eu gritava mais elas puxavam, até que às 
tantas  achei  que  com  aquele  barulho  todo  o  mais  certo  eram  os 
funcionários  de  Abdul  Ahrman  virem  bater  à  porta.  De  modo  que 
parei  de  protestar  e  ali  fiquei,  quieto  e  alerta,  à  espera  que  a 
excitação abrandasse. 
Deixaram-me  as  calças,  e  o  resto  da  roupa  levou  a  velha,  ao  que 
julguei para limpar. Regressou pouco depois com uma chávena de chá 
bem  quente,  que  engoli  sem  esboçar  uma  recusa.  Quando  terminei, 
devolvi  a  chávena  a  uma  das  miúdas  e  fiquei  a  olhar  para  as 
mulheres,  que  me  miravam  sorrindo  como  se  eu  fosse  um  ser  raro  e 
engraçado, enquanto uma garota me trepava para as costas e enfiava 
as  mãos  pelos  cabelos,  e  outra  brincava  com  o  dedo  grande  do  meu 
pé direito. 
- Minhas senhoras - disse eu. - Andam uns homens a minha procura. 
Era  evidente  que  a  velha  não  compreendia  uma  palavra.  Quanto  à 
mais nova, sem me dar um pouco de atenção sequer, ria sempre e com 
gestos  dava-me  a  entender  que  eu  não  tinha  nada  a  recear  e  que 
voltaria já. Depois desapareceu. 

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72 
 
- Tu és americano ou és francês? 
Dei  um  salto  e  ergui  a  cabeça.  Era  a  pequenita  que  se  achava 
encavalitada  no  meu  pescoço.  Apeei-a  rapidamente  e  sentei-a  nos 
joelhos. 
- Falas francês? 
- Sim. Aprendo na escola. Tu és francês ou és americano? 
Recorri  ao  francês  que  sabia,  e  as  poucas  palavras  que  disse 
saíram com uma facilidade espantosa. 
-  Sou...  Deixa  lá  isso  e  ouve  com  atenção.  Sabes  onde  fica  a  Rua 
Moussa Al Abbar? 
- Sei. 
-  Bom.  Então  vais  ao  nº  15.  É  o  último  prédio.  No  segundo  andar 
perguntas por Mademoiselle Spranger. Diz lá. 
-...Mademoiselle Spranger. 
Não  pude  continuar.  A  filha  da  velha  regressara  e  acompanhava-a 
uma  marroquina  que  era  linda.  Era  muito  jovem,  e  logo  que  me  viu 
esboçou  um  sorriso  cativante  e  deslizou  direita  a  mim,  fazendo 
ondular  as  ancas  sob  o  tecido  leve  do  vestido,  os  seios  leves  e 
redondos  projectados  para  diante,  a  anunciarem  que  por  baixo  do 
vestido  não  havia  nada.  Sem  dizer  palavra,  sentou-se  na  manta 
colada  a  mim,  sussurrando  coisas  que  eu  não  entendia  e  fazendo 
escorregar de mansinho pelas minhas costas os dedos finos de unhas 
afiadas. 
Riu-se muito ao  ver que eu procurava afastá-la, e mesmo pelo modo 
como  ria,  entreabrindo  ligeiramente  a  boca  e  semicerrando  os 
olhos,  suscitava  desejo.  Entretanto,  eu  não  conseguia  evitar  que 
as  mãos  quentes  continuassem  a  afagar-me  a  pele,  nem  que  o  peito 
dela  e  as  coxas  firmes  e  cheias  se  colassem  cada  vez  mais  ao  meu 
corpo. 
E  assim,  do  mundo  do  tráfico  e  violência  onde  me  havia 
introduzido,  mergulhava  agora  noutro  talvez  ainda  mais  fechado... 
de um comércio também tradicional e muito antigo. Falei para ela. 
- Ouve, vais acabar com isso? 
As  mulheres  olharam-me,  surpreendidas,  e  a  minha  amiguinha  árabe 
deu uma gargalhada. 
-  Lá  no  bar  tinham-me  anunciado  um  francês.  Tu  és  americano,  não 
és? 
Exprimia-se  num  inglês  correcto,  e  pela  minha  parte,  de  momento, 
isso bastava. Apertei-lhe a mão. 
 
73 
 
- Sim. Sou americano. E perseguem-me. Querem abater-me. Percebes? 
Eu  falava  uma  linguagem  que  ela  conhecia.  Nessa  altura  entrou  a 
miúda a correr. 
- Há homens lá fora à procura. 

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Olhei a rapariga, por um lado satisfeito por ver a minha história 
confirmada.  Ela  agora  fitava-me  com  ar  grave,  os  olhos  negros 
formulando uma pergunta que traduziu de seguida. 
- És da polícia? 
Neguei. 
-  Cheguei  hoje  mesmo  a  Tânger.  Tenho  o  passaporte,  posso  mostrar-
to. Eles são traficantes. 
Ela reflectiu uns segundos e por fim decidiu: 
- Deixa-te estar quieto... Não te mexas. 
Fez-me estender ao comprido sobre a manta, foi correr o reposteiro 
e,  depois  de  despir  o  vestido,  veio  deitar-se  junto  a  mim.  As 
outras mulheres tinham desaparecido, levando consigo as garotas. E 
ali  me  encontrava  eu,  na  companhia  de  uma  bela  marroquina  que 
comprimia  o  corpo  nu  contra  o  meu,  sentindo,  apesar  da 
inquietação, os bicos duros dos  seios a espetarem-me a pele e uma 
onda crescente de calor e excitação a invadir-me. 
Afastei-me  um  pouco  quando  me  apercebi  de  que  os  tipos  estavam  à 
porta;  porém,  voltei  a  agarrá-la  no  momento  em  que  um  deles 
afastou  o  cortinado.  Com  a  cabeça  enfiada  no  peito  dela,  ouvi-o 
soltar uma gargalhada porca e tornar a sair. Lá  de fora chegaram-
me  mais  risos  e  ruído  de  conversa,  e  depois  os  passos  martelados 
afastaram-se  e  tudo  voltou  ao  silêncio.  Desta  vez  permaneci  como 
estava.  Um  bom  bocado.  E  senti-me  bem.  Tão  bem  quanto  me  podia 
sentir sem saber o que era feito de Karin. 
Ela já estava a vestir-se, e eu fumava um cigarro, quando as duas 
mulheres entraram e a mais velha me estendeu a camisa e o casaco. 
Nesse  momento  senti  o  coração  apertar-se  e  levei  em  sobressalto  a 
mão  ao  bolso  de  dentro.  O  sobrescrito  continuava  lá.  Inspirei 
fundo e falei para a rapariga, enquanto enfiava a camisa por cima 
da pele. 
- Ouve, preciso que me faças ainda um favor. Ir falar com... 
Nessa altura um tipo escanzelado e manifestamente 
 
74 
 
bêbado  irrompeu  pela  porta,  a  berrar  numa  voz  aguda,  quase 
histérica,  e  estendendo  as  mãos  na  direcção  das  duas  mulheres.  A 
minha companheira confidenciou-me que se tratava do marido da mais 
nova e foi-me traduzindo por alto o diálogo que se seguiu. 
- Perdeste tudo, não? 
-  Sim,  sim,  mas  vou  ganhá-lo  outra  vez!  Dá-me  dinheiro.  Vais 
ver... Foi azar, sabes, mas agora vou ganhar... Sei que vou. Passa 
para cá, anda. 
A velha era surda, mas pôs-se a chorar, e a filha também. 
-  Já  não  tenho  mais...  Dei-to  todo.  Levaste  o  nosso  dinheiro,  da 
tua mãe, das tuas filhas e o meu. Amanhã não podemos comer. 
Mas o marido berrava mais forte, remexendo por tudo à sua volta. 
- Estou-te a dizer que vou ganhar, ouviste? Agora a sorte voltou-
me, e sei que tens aí mais dinheiro. Foi a tua mãe que o escondeu. 
Diz  a  ela  que  mo  passe  para  a  mão,  anda.  Daqui  a  bocado  venho 
rico, e faço-te rica a ti e à velha também. 

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Só então se apercebeu da minha presença. 
-...Quem é este? 
- Um americano - explicou a minha jovem. 
-  Mas  eu  também,  meu  amigo  -  gritou  logo  ele,  num  inglês 
horroroso.  -  Também  eu,  sou  americano  pelo  coração.  Combati  ao 
vosso  lado  como  voluntário,  em  43.  E  tu  vieste  agora  salvar-me, 
não foi? Cem dirhams, é só o que eu preciso... Empresta-os ao teu 
irmão,  meu  amigo,  pensas  que  salvas  estas  mulheres  de  morrerem  de 
fome amanhã... 
Abraçava-me  já,  e  o  fedor  a  vinho  fermentado  dava-me  vómitos.  A 
roupa  exalava  um  cheiro  repugnante  a  suor  e  porcaria,  os  olhos 
estreitos  encravados  nas  órbitas  apresentavam-se  tracejados  de 
roxo  e  o  cabelo  grande  encaracolado  era  um  monte  de  esterco. 
Apressei-me a dizer: 
- Seja. Empresto-te os cem dirhams. Mas com uma condição... 
-  Ah!-Soltou  um  berro.-És  mesmo  meu  irmão.-E  de  seguida  arrotou 
alto e bom som. 
- Primeiro, vais à Rua Moussa Al Abbar, nº 15. 
Mas  o  tipo  nem  queria  saber.  Só  lhe  interessavam  os  Cem  dirhams 
que eu tinha no bolso. 
 
75 
 
-  Agora  é  que  vai  ser  a  sorte!  Está  lá  à  minha  espera  e  eu  tenho 
de ir. Primeiro ganho o dinheiro, e depois faço tudo o que tu, meu 
irmão, mandares! 
As mulheres tinham percebido que eu estava disposto a entrar com a 
massa,  e  a  velha  veio  até  mim  a  tentar  introduzir  a  mão  no  bolso 
onde  eu  guardava  a  carteira.  Dei-lhe  uma  palmada  e  quis  ainda 
fazer-me ouvir, mas cada um berrava para seu lado, e o pessoal de 
Abdul ainda não devia ter deixado o campo livre. De modo que tirei 
a  carteira,  escolhi  as  notas  e  estendi-as  ao  tipo,  que  saiu 
disparado. 
O  grupo  empurrou-me  atrás  dele.  No  meio  da  confusão  procurei  a 
rapariga, mas já não a vi. Tive de ir com eles. 
A banca do jogo funcionava a todo o vapor na casa ao lado. A nuvem 
de fumo era tão  espessa que apenas deixava perceber os vultos dos 
parceiros que se acotovelavam a mesa. Um cheiro adocicado a haxixe 
misturava-se  com  o  fedor  de  transpiração.  As  duas  mulheres 
puseram-se  a  vigiar  atentamente  cada  movimento  do  seu  homem,  na 
ânsia  de  lhe  apanharem  a  massa  que  viesse  sem  lhe  dar  tempo  a 
jogá-la outra vez. 
Quanto a mim, se entrasse naquele momento algum conhecido a querer 
saber  o  que  fazia  ali,  a  resposta  tinha-a  na  ponta  da  língua:  eu 
era o amigo da família. 
Mas as coisas, pelos vistos, não corriam bem ao meu irmão. Começou 
a  perder,  e  às  tantas  ficou  histérico  e  deu  um  murro  na  mesa  que 
fez o tampo vergar. De seguida armou uma discussão violenta com  o 
parceiro  gordo  que  dirigia  o  negócio,  e  no  momento  em  que  uma 
cadeira se desfez em estilhas na parede, por cima da minha cabeça 
olhei para o relógio e achei que eram horas de ir andando. 

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De  regresso  à  outra  casa,  misturado  no  grupo  das  mulheres  que 
choramingavam e das crianças que brincavam, constatei que havia um 
tipo em cada extremidade do pontão. 
A  miúda  que  uma  hora  antes  recitava  as  lições  recuperara  o  seu 
lugar  e,  ao  ver-me  entrar,  correu  para  a  porta  a  mostrar-me  a 
ardósia onde desenhava um nome a giz. 
- Tu não me contaste o resto de Mademoiselle Spranger. É assim que 
se escreve, não é? 
Sorria  muito  contente  e  exibia  a  pedra  com  orgulho.  Nessa  altura 
decidi que ia meter uma criancinha naquela história. 
 
76 
 
- É mesmo! Não me digas que te lembras também da morada? 
Recitou, muito feliz: 
- 15, Rua Moussa Al Abbar. 
Ajoelhei-me ao lado dela. 
-  Bom,  então  vais  lá  e  dizes  assim:  “O  teu  amigo  está  em  minha 
casa. É preciso avisar a polícia.” Diz. 
Ela repetiu. 
- Então vai depressa. 
Vi-a  desaparecer  com  entusiasmo.  Agora  acreditava  que  a  minha 
mensagem  seria  transmitida.  E  só  esperava  que  os  homens  de  Abdul 
Ahrman prolongassem a espera o tempo suficiente para que a polícia 
chegasse.  Então  não  seria  difícil  localizar  Abdul  e  Sánchez.  E, 
para mim muito mais importante, reencontrar Karin. 
 
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CAPÍTULO VIII 
 
Aproveitei a pausa para abrir o sobrescrito e analisar rapidamente 
o que continha. Além do mapa, que desdobrei em cima da cama, havia 
uma  folha  de  papel  amarelo  contendo  indicações  de  nomes,  horas  e 
quantidades.  Li-o  com  mais  atenção.  A  operação  estava  prevista 
para  as  quatro  dessa  madrugada.  E,  na  lista  de  nomes  dos 
intervenientes,  um  deles  era  o  meu.  Cheguei  o  papel  junto  do 
candeeiro,  deixei  que  se  inflamasse  e  fiquei  a  vê-lo  transformar-
se em pedacinhos carbonizados. Karin tinha razão. Mas eu possuía o 
palpite de que nem tudo o que estava ali escrito era falso. 
Por  volta  da  meia-noite  fui  espreitar  à  porta,  após  ter  tomado  a 
precaução  de  correr  completamente  a  manta  que  servia  de 
reposteiro,  de  modo  a  não  deixar  filtrar-se  a  claridade  interior. 
Distingui  um  vulto  a  aproximar-se  de  uma  das  extremidades  da 
passagem  de  madeira,  para  onde  convergiram  os  quatro  que  se 
encontravam  de  vigilância  aos  acessos.  Estiveram  reunidos,  e  ao 
cabo de dois minutos três deles desapareceram. 
Esta  retirada  não  estava  nos  meus  planos,  e  agora  já  não  podia 
pensar  em  aguardar  a  chegada  da  polícia.  Se  bem  que  os  chuis 
devessem estar a vir, uma vez que a garota abalara havia uns três 
quartos de hora. Mas se o que eu pretendia era que me conduzissem 

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até  ao  local  do  encontro,  e  que  podia  não  ser  exactamente  o  que 
estava  assinalado  no  mapa,  havia  que  partir  imediatamente.  Talvez 
eu pudesse deixar um recado para a polícia. Talvez... 
Os dois tipos lá ao fundo apresentavam as costas viradas para mim, 
e  eu  rastejei  mais  uma  vez,  agora  até  à  porta  ao  lado,  à  procura 
de alguém a quem pudesse entregar a mensagem. E aí fui encontrar a 
minha amiga de há pouco. A sessão de jogo acabara. Havia apenas a 
luz a 
 
78 
 
incidir  sobre  a  mesa  e  no  divã  de  um  canto  da  sala  o  rosto 
Sobressaía  da  penumbra  e  o  vulto  de  um  tipo  qualquer  debruçava-se 
sobre  ela.  Logo  que  me  viu,  sacudiu  rudemente  o  sujeito,  que  se 
levantou  a  cambalear  e  desapareceu  praguejando  pela  porta  dos 
fundos.  Ela  dirigiu-se  para  mim  a  compor  o  vestido  e  sorriu. 
Pensei  como  conseguia  aquela  mulher  ainda  sorrir.  E  ser  bela. 
Disse-lhe: 
- Anda daí. Os tipos estão a cavar, e eu tenho de ir atrás deles. 
Entretanto, quero deixar-te um recado. 
Deixou-se  arrastar  docilmente  até  à  ombreira  da  porta.  Expliquei-
lhe em voz baixa o que pretendia. 
-...Quando  a  polícia  chegar,  dizes  que  fui  atrás  dos  traficantes. 
Eu me encarregarei de deixar uma pista. Fazes isso por mim? 
Passou-me os braços em volta do pescoço. 
- Tudo o que tu quiseres. 
Desprendi-me com um “Obrigado, pequena. Depois falamos.” 
Nas extremidades da passagem de madeira, os dois tipos cortavam-me 
a  saída.  Olhei  para  baixo  e  verifiquei  que  a  maré  subira,  quase 
alcançando  as  vigas  que  sustentavam  o  pontão.  Falei  para  a 
rapariga. 
- Tu podes ir pelo corredor. Eu vou por aqui. 
Escapuli-me  pelo  rebordo  das  tábuas,  entrei  com  precaução  na  água 
escura  e  tépida  e  pus-me  a  caminhar  por  debaixo  da  ponte  com  a 
ondulação a bater-me nos joelhos. 
O  tipo  apanhou-me  de  surpresa.  Senti  de  repente  duas  manápulas 
poderosas agarrarem-me o pescoço com uma força dos demónios; ainda 
quis"  lutar,  segurar-me  onde  quer  que  fosse,  mas  o  meu  adversário 
escorregava-me por entre as mãos, e depressa comecei a sentir o ar 
a  faltar-me  e  a  cabeça  a  mergulhar  aos  poucos,  lentamente,  na 
água.  Consegui  prender-lhe  um  punho  e  alargar  o  abraço  com  uma 
sacudidela  violenta,  de  forma  a  trazer  a  cabeça  à  tona  de  água  e 
engolir  com  sofreguidão  uma  golfada  de  ar.  Mas  logo  a  seguir  a 
cabeça  afundou-se  de  novo,  as  manápulas  apertaram  mais  e  o  crânio 
e  os  tímpanos  desataram  a  latejar-me  doidamente.  Porém,  numa 
fracção  de  segundo  imediata,  a  pressão  desapareceu  e  eu  senti  o 
corpo liberto a voltar ao de cima. 
No primeiro momento foi como se uma cegueira momentânea me tivesse 
paralisado os sentidos. Mas logo, por 
 
79 

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cima de mim, reconheci o rosto ansioso da rapariga, e depois senti 
os  seus  braços  passarem  debaixo  dos  meus  e  puxarem-me  para  a 
areia. Aí comecei a articular, pesadamente: 
- Como... fizeste? 
- Com isto. 
E mostrou-me a coronha da arma de guerra que o outro deixara e que 
ela  empunhava  como  se  fosse  um  martelo.  Nesse  instante  chegou-nos 
o  ruído  de  areia  reme  xida.  Virei-me  e  vi  que  o  fulano  voltava  à 
carga.  Mas  desta  vez,  se  queria  conversa,  ia  tê-la.  Fiz  sinal  à 
minha companheira para ficar quieta e fui ao encontro dele. 
Resfolegou quando lhe descarreguei um soco tremendo no estômago, e 
suspendeu a respiração logo que o desdobrei assentando-lhe o punho 
nos  queixos.  Atirei-lhe  depois  o  meu  peso  para  cima  e  rolámos  os 
dois  na  areia.  Após  o  que  eu  me  levantei,  e  ele  não.  Aos  poucos, 
fui recobrando o fôlego. 
A  rapariga  veio  até  nós  e,  tranquilamente,  arrastou  o  corpo  uns 
bons metros dentro de água e ficou a vê-lo afundar-se. 
Assim que recuperei algumas forças, soprei-lhe: 
-  Vou  segui-los.  -  E  deitei  a  correr.  O  outro  tipo  que  ficara  de 
guarda já lá não estava. 
As  luzes  traseiras  da  furgoneta  já  se  sumiam  ao  longe  quando 
desemboquei  na  rua  pavimentada  nas  traseiras  das  casas.  Nessa 
altura  senti  aproximar-se,  nas  minhas  costas,  um  veículo  que 
avançava  com  um  barulho  tremendo  a  projectar  um  feixe  intenso  de 
luz. Dei um salto para a berma, com a arma empunhada. O Simca fez 
uma travagem súbita, e a ponta do escape saltou e foi rolando com 
fragor  pelo  empedrado.  Felipe  pôs  a  cabeça  de  fora  e  perguntou 
alegremente: 
- Para onde, Mr. Gold? 
Soltei  uma  manifestação  irreprimível  de  alegria  e  com  para  o  meu 
velho táxi. Contornei-o e saltei para o banco da frente. 
- Felipe, como diabo...? 
Fez um gesto e largou uma gargalhada. 
- Felipe está sempre onde é preciso... 
- Essa é boa!-disse eu quase num soluço.-Toca a andar. 
 
80 
 
Foi  quando  ele  reparou  bem  no  meu  aspecto  e  inquiriu,  com  ar 
contristado, retirando-me da cara um bocado da areia oleosa. 
- Mr. Gold, não acha melhor ir tomar banho? 
Passado  aquele  momento  de  euforia  por  se  me  deparar  numa  hora 
crítica  um  auxílio  absolutamente  inesperado,  comecei  a  sentir  os 
nervos a dar de si naquele pedaço de corpo sujo e cansado que era 
o meu. 
-  Okay,  amigo.  Já  chega.  Conversamos  pelo  caminho.  E  se  não  me 
apanhas aqueles tipos que arrancaram daqui, ponho-te fora do carro 
e vou sozinho. Percebido? Andando! 
Percebeu  tão  bem  que  engatou  a  primeira  e  acelerou  de  tal  forma 
que  eu  fui  projectado  no  encosto  e  o  aceno  de  despedida  que  fiz 

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para  a  rapariga  especada  na  berma  levou  bem  uns  cinquenta  metros 
de atraso. 
Durante  cinco  minutos,  ninguém  falou.  Até  que,  a  seguir  a  termos 
atravessado  uma  ponte,  distinguimos  ao  longe,  numa  curva  da 
estrada que subia a montanha ao longo da costa, as luzes vermelhas 
de  um  carro.  Era  sem  dúvida  a  furgoneta.  A  partir  daí  não  foi 
difícil encurtar a distância e continuar a segui-los, uns duzentos 
metros atrás e só com os mínimos acesos. Aqui devo esclarecer que 
nenhum  corredor  seria  capaz  de  executar  o  trabalho  do  meu 
companheiro, mesmo que guiasse de dia, calado e numa auto-estrada. 
Em  estrada  de  montanha,  à  noite,  sem  luzes  e  a  falar  para  mim 
durante  uma  perseguição  com  a  desenvoltura  com  que  o  meu  condutor 
o  fazia,  só  um  bêbado  ou  um  predestinado.  Felipe  não  estava 
bêbado. 
- Mr. Gold é um homem valente - afirmava ele, batendo com força as 
mãos no volante. - Muito valente. Mr. Gold tem... como se diz? 
- Deixa lá isso. Como diabo me descobriste? 
- Ah!-fez ele, e prosseguiu logo que tirou o carro da berma. - Foi 
Mr. Wong que mandou. 
O salto que dei levou-me a cabeça ao tejadilho. 
- Quem? 
-  Felipe  trabalha  para  Mr.  Wong  -  foi  a  resposta.  -  Felipe 
trabalha para muita gente. 
No  escuro  vi-o  exibir  aquele  sorriso  enorme  e  enfiar  nele  um 
charuto.  Antes  que  largasse  as  mãos  do  volante  para  o  acender, 
apressei-me a fazer funcionar o isqueiro e estendi-lho. 
- Como sabias onde eu estava? 
 
81 
 
Respondeu prontamente, embora todo inclinado para o lado da janela 
a ajudar à curva. 
- Segui o senhor desde o sítio donde fugiu. 
Resolvi acender também um cigarro para ver se não me exaltava. 
- Desde qual sítio, seu filho da mãe? 
- O armazém dos marroquinos. 
- Mas então...! -exclamei. -Viste o que se passou? 
Respondeu candidamente. 
- Só o fim, Mr. Gold. Vi levarem a menina na carrinha. 
Senti  a  excitação  apoderar-se  de  mim  e  o  corpo  todo  a  tremer. 
Agarrei-lhe o braço com força. 
- Seguiste-os? 
- Claro, Mr. Gold! 
- Raios, fala! Seguiste-os? Sabes para onde a levaram? 
-  Sim,  senhor.  Para  fora  da  cidade,  próximo  do  cabo  Espartel.  Um 
sítio a que chamam as Grutas de Hércules. 
- E onde fica? Quero que me leves lá. - A resposta foi um sorriso 
enigmático. Berrei: 
- Imediatamente, ouviste? 
- É para lá que vamos - retorquiu, virado para mim, com um brilho 
de satisfação nos olhos. 

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Aguardava  a  minha  reacção  à  surpresa  que  me  tinha  preparado;  eu, 
porém, naquela noite jà esgotara quase toda a capacidade de reagir 
fosse a que fosse. Agora nem um ovni a pousar na estrada diante do 
carro  me  conseguiria  prejudicar.  Pelo  menos,  assim  senti  naquele 
instante. 
- Satisfeito, Mr. Gold? 
-  Muito  -  disse  eu  fatigado.  -  E,  já  agora,  não  podias  ter-me 
ajudado? 
-  Felipe  seguiu  ordens  de  Mr.  Wong.  E  não  podia  fazer  as  duas 
coisas ao mesmo tempo. 
- Ah, bom - comentei.- Quanto a vocês, eu bem podia ser riscado do 
mapa! 
Riu com vontade. 
- Ora, Mr. Gold, o senhor sabe defender-se muito bem. 
- Claro que sim - concordei, adiantando: - E não custa nada. 
- Ainda bem. 
Após  uma  pausa  para  começar  a  organizar  as  ideias,  tive 
curiosidade em saber: 
-  Ouve  lá,  se  já  sabes  para  onde  vamos,  para  que  ir  nesta 
perseguição? 
 
82 
 
Meteu a terceira e cortou a curva rente à rocha, ibicando à saída 
direito  à  berma  oposta.  Eu  sabia  que  em  baixo,  cada  vez  mais  em 
baixo, era o mar, e senti suores frios. Mas o carro lá meteu outra 
vez  o  focinho  na  estrada  e  eu  decidi  daí  em  diante  fazer  um 
esforço para não me preocupar mais. 
- Avisaram a polícia? 
-  Sim,  senhor.  Mr.  Wong  mandou  Felipe  fazer  um  telefonema  sem 
dizer o nome. 
- Um telefonema anónimo? E os tipos da polícia vão nisso? 
- A gente deu-lhes muitos pormenores. Acho que eles acreditaram. 
- Então, já lá estarão a esta hora? 
Considerou filosoficamente: 
- Lá quando eles aparecem, Mr. Gold, é coisa que nunca se sabe. 
Remexi-me no assento, inquieto. 
-  Nesse  caso,  pode  suceder  sermos  os  dois  a  ter  de  enfrentar  um 
exército armado... É isso? 
Encolheu os ombros. 
- Pode ser que sim, e pode ser que não... 
Desisti. Mas ouvi-o ainda, a concluir: 
-...Deus há-de ajudar-nos. 
Inspirei fundo e deitei a cabeça para trás. 
O  barco  em  que  eu  seguia  baloiçava  no  mar  agitado,  e  a  breve 
trecho  uma  vaga  tremenda  passou-lhe  por  cima;  o  barco  alteou  a 
proa  até  um  ângulo  incrível  e  ficou  imobilizado.  Nessa  altura 
senti  uma  náusea,  a  cabeça  a  latejar,  e  abri  os  olhos  no  escuro. 
Ouvi uma voz familiar: 
- Estão ali em baixo. 

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Levei uns segundos a retomar a consciência. Deixei que o mal-estar 
abrandasse,  olhei  para  fora  e  o  que  distinguia  era  o  azul-escuro 
do  céu,  o  azul  ainda  mais  escuro  do  mar  e  o  negro  das  formas 
rochosas que desciam até se confundirem com o resto. 
- E agora? - disse eu. 
- Agora vamos a pé. A estrada acaba aqui. 
- Ainda bem. - Abri a porta e saí. As pernas entorpecidas quase se 
recusavam  a  obedecer.  Andei  uns  metros,  para  trás  e  para  diante, 
até  voltar  a  sentir  consciência  do  corpo,  e  embora  os  resultados 
não fossem muito animadores 
 
83 
 
sempre  consegui  alguns  progressos.  Felipe  desligou  o  motor  e  veio 
ter comigo. Apontou para um ponto nas rochas. 
- É do lado de lá. Vamos? 
Resmunguei: 
“Que  remédio”,  e  iniciámos  a  descida,  à  custa  de  um  esforço  de 
pernas e de braços, as mãos a agarrarem-se às saliências ásperas e 
duras  que  aqui  e  ali  riscavam  a  pele  mais  fundo.  Num  troço  mais 
difícil  o  pé  direito  escorregou-me,  e,  se  não  fosse  Felipe  ter-me 
sustentado  com  as  costas  largas  e  firmes,  eu  teria  concluído  a 
descida num instante. 
Cerca  de  cinco  minutos  mais  tarde,  ele  deteve-me  com  a  mão  e 
segredou: 
-  Já  chegámos.  Eles  devem  estar  por  detrás  dessas  rochas,  e  nós 
vamos  dar  a  volta.-  Deu-me  uma  valente  palmada  no  ombro.  -  Está 
bem, amigo? 
Consegui  acenar  afirmativamente.  O  único  ruído  que  me  chegava  era 
o  marulhar  das  ondas,  a  pouca  distância.  Mas  rodeados  pelos 
rochedos,  como  nos  encontrávamos,  eu  não  conseguiria  sequer  dizer 
de  que  lado  ficava  o  mar.  Lá  fui  atrás  dele,  agachado  também. 
Atravessámos  rápidamente  uma  zona  mais  descoberta,  por  entre 
arbustos  baixos  e  espaçados.  Até  que  julguei  ouvir  som  de  vozes 
bastante  próximo.  Felipe  fez-me  sinal  e  eu  parei,  encolhido  ao 
lado  dele.  Afastou  a  ramagem  de  um  lado  dos  arbustos  e  puxou-me 
para eu espreitar também. 
Um grupo de homens distribuía-se pela orla de uma espécie de vasta 
arena  construída  pelo  mar  entre  os  rochedos.  A  claridade  fosca  de 
meia  dúzia  de  candeeiros  de  querosene  espalhados  em  volta  dava  um 
brilho luminoso aos lençóis colados em quatro cantos do terreno. A 
furgoneta  estava  estacionada  no  acesso  ao  recinto  com  os  faróis 
nos médios. 
Dirigi-me a Felipe, num murmúrio: 
- Não há avião que consiga pousar aqui. 
Um ruído por cima de nós não lhe deu tempo para responder. Era um 
“chop-chop” que, por inesperado, só identifiquei na altura precisa 
em  que  o  forte  holofote  varreu  com  o  seu  feixe  potente  a  zona 
marcada.  Poucos  segundos  depois,  o  helicóptero  descia  a  escassos 
metros  do  solo,  e  nesse  momento  desprendeu-se  dele  um  pesado 
volume que foi tombar com um baque surdo no meio do terreno. Logo 

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depois  inclinou-se  e  rapidamente  ganhou  altura,  afastando-se  por 
onde viera. 
 
84 
 
Logo que isso sucedeu, os homens precipitaram-se para a carga e um 
deles  fez  sinal  à  carrinha,  que  arrancou  e  avançou  até  ao  local. 
Quatro  deles  enfiaram  a  carga  pela  porta  traseira,  após  o  que 
subiram  também  e  o  carro  se  pôs  em  movimento.  Quando  nos  parecia 
que  a  acção  terminara,  desembocou  quase  sem  ruído  no  recinto  um 
pequeno  camião,  sem  luzes  e  com  a  caixa  coberta  por  um  toldo  de 
lona.  Os  dois  que  tinham  ficado  a  dobrar  os  lençóis  e  a  recolher 
os candeeiros carregaram o material e foram instalar-se na cabina. 
Eu assistia a tudo com os sentidos alerta; e, no instante em que o 
camião  partiu,  a  minha  cabeça  raciocinou  mais  depressa,  dei  uma 
cotovelada  a  Felipe  e  pusemo-nos  os  dois  a  correr  atrás  dele. 
Alcançámo-lo,  agarrámo-nos  quase  simultaneamente  ao  rebordo 
posterior da caixa e conseguimos suspender-nos. 
O início do percurso foi penoso. As sacudidelas brutais aleijavam-
me  os  dedos  já  feridos,  e  a  cada  metro  sentia  que  ia  ser  atirado 
ao  chão.  Para  Felipe  não  devia  ser  mais  fácil.  Por  fim,  consegui 
fincar  os  pés  num  gancho,  içar-me  e  ajudar  o  meu  companheiro  a 
trepar.  Foi  assim,  mais  razoavelmente  instalados,  com  as  pernas  a 
baloiçar,  o  tronco  aos  saltos  e  a  cabeça  a  chocalhar,  que 
prosseguimos  o  percurso,  o  qual  eu  não  sabia  onde  ia  acabar. 
Felipe  perdera  o  seu  ar  optimista,  de  modo  que  eu  sorri-lhe,  mas 
nenhum de nós tinha vontade de abrir a boca a não ser para expelir 
o ar após um solavanco mais violento. 
Por  fim,  percebemos  que  o  carro  abrandava  para  parar,  saltámos 
antes que se detivesse, e corremos para a berma, por onde rolámos 
até  uns  ramos  mais  grossos  nos  deterem.  Certifiquei-me  de  que  o 
meu  parceiro  continuava  em  bom  estado,  procurei  animá-lo  com 
qualquer  coisa  original  do  género  “Então,  tudo  bem?”,  e  lá  nos 
arrastámos para cima, agarrados aos troncos, até atingir de novo o 
nível do caminho. 
Achávamo-nos a uns trinta metros de um espaço plano sem vegetação, 
onde  num  dos  extremos  se  erguia  um  hangar  tosco  iluminado  no 
interior.  De  ambos  os  lados  do  camião,  sem  dúvida  para  serem 
carregados,  alinhavam-se  em  fileiras  sobrepostas  o  que  me  pareceu 
tratar-se de grandes bolas de borracha. Pudemos observar os homens 
a  entrarem  no  hangar,  e  regressarem  pouco  depois,  carregando  cada 
um deles pequenos lotes que deviam ter 
 
85 
 
separado  entretanto.  Com  rapidez  e  precisão  abriram  algumas  das 
bolas  e  encheram-nas  com  o  material  que  transportavam,  após  o  que 
voltaram  a  encaixar  as  metades  e  acondicionaram  tudo  num  caixote 
que tinha impressa a indicação “Lisbon”. 
Entretanto, a minha atenção foi desviada para um tipo que obrigava 
uma  rapariga  a  sair  da  furgoneta.  Todas  as  fibras  do  meu  corpo 

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deram  de  si.  Karin.  O  filho  da  mãe  era  Sánchez.  Achei  que  era 
chegada  a  altura  de  extrair  o  objecto  que  vinha  desde  há  muito  a 
fazer  um  volume  incómodo  e  pesado  no  bolso  esquerdo  do  casaco. 
Empunha a arma com firmeza e olhei para Felipe. Pude constatar que 
ele também estava equipado. 
Karin  parou  de  se  debater  quando  os  outros  tipos  se  começaram  a 
chegar. Sánchez falou para eles. 
-...Correu  tudo  bem.  Agora  é  com  vocês.  Fiquem  com  ela  também.  É 
uma traidora. 
De entre o grupo, um dos fulanos aproximou-se e agarrou-a. 
A  minha  mão  apertou  com  mais  força  a  coronha  da  pistola  e  o 
indicador  tocou  nervosamente  o  gatilho.  Destravei.  Concentrei-me 
no  que  ia  fazer,  apontei  com  cuidado  para  o  tipo  que  segurava 
Karin, e puxei devagar. 
O  tiro  partiu  com  uma  explosão  medonha.  A  bala  derrubou-o  e  em 
redor gerou-se um pandemónio. Felipe disparou logo após e o grupo, 
julgando-se  alvo  de  um  ataque  em  força,  distribuiu-se  e  desatou  a 
fazer fogo ao acaso. No meio da confusão pus-me a gritar o nome de 
Karin,  mas  foi  preciso  mostrar-me  para  que  ela  me  localizasse,  e 
esse  atrevimento  ia  sendo  fatal.  Mas  Karin  convergiu  na  minha 
direcção,  e  eu  atirei-me  de  novo  ao  chão,  enquanto  esperava  que 
ela chegasse. No instante em que isso sucedera, alguns deles deram 
conta do que ocorria e as balas passaram a pouca distância. Prendi 
a mão dela e arrastei-a atrás de mim. No nosso encalço, a cobrir-
nos  disparando  para  trás,  vinha  Felipe.  Ainda  pude  ouvir  Sánchez 
gritar: 
- Atirem! Atirem, ouviram? 
Diante de mim, para onde eu a tinha empurrado, Karin tropeçou num 
tronco  e  caiu.  Levantei-a  e  continuámos  a  corrida  através  da 
vegetação,  que  se  tornava  cada  vez  mais  espessa.  Porém,  os  outros 
aproximavam-se. Fizemos um desvio, e numa breve paragem para tomar 
fôlego ouvi 
 
86 
 
passos rápidos a uns metros adiante e o restolhar de ramos secos. 
A  vozearia  cessara,  o  que  levava  a  supor  que  o  grupo  se  havia 
dispersado  para  nos  cercar.  Empurrei  Karin  para  trás  de  uma  moita 
e aguardei. 
Quando  Sánchez  apareceu,  veio  chocar  comigo.  Eu  estava  preparado, 
e  a  violência  do  choque  fê-lo  desequilibrar-se.  Ao  vê-lo, 
readquiri  a  posição  normal,  cata-pultei  a  cabeça  contra  o 
arcaboiço  dele,  fazendo-o  expelir  todo  o  ar  das  entranhas.  Foi 
projectado  para  trás  em  ricochete,  acabando  por  se  deter  de 
encontro  à  casca  dura  de  uma  árvore.  Passei  as  costas  das  mãos 
pela testa e olhei para Sánchez. Não lhe dei tempo sequer a tocar 
a  arma  no  chão.  Apontei-lhe  o  cano  do  revólver  para  o  ombro 
direito e apertei o gatilho suavemente. 
O berro de dor que ele soltou deve ter sido abafado pelo tiro. No 
mesmo  instante  foi  projectado  a  dois  metros,  para  trás  dos 
arbustos, com ambas as mãos a tapar o buraco sangrento. 

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Ouvi distintamente o grito de Karin. Virei-me com a arma pronta  a 
entrar de novo em acção contra os homens que a cercavam. E, se não 
me  tivessem  agarrado  fortemente  pelas  costas,  teria  morto  dois 
polícias. 
 
87 
 
CAPÍTULO IX 
 
O  local  apresentava  agora  um  aspecto  inteiramente  diferente.  Uma 
claridade ténue começava a alastrar além das montanhas, empurrando 
a  noite  próxima  e  o  pesadelo  recente.  Diante  do  hangar 
estacionavam  dois  jipes  e  um  camião-rádio  da  polícia,  e  todos  os 
vestígios  do  grupo  de  traficantes  desaparecera,  com  excepção  dos 
caixotes  carregados,  que  os  polícias  transportavam  para  os 
camiões. 
A  escolta  conduziu-nos  até  junto  do  jipe  mais  próximo  onde  um 
sujeito  à  paisana  dava  ordens  pela  rádio.  Um  dos  nossos 
acompanhantes  aguardou  que  o  superior  desligasse  e  falou-lhe  em 
árabe. Ele saiu  e veio postar-se à nossa frente, de rosto fechado 
e os olhos miúdos a piscarem por detrás das lentes. Ficou assim um 
largo  minuto,  a  balançar  o  corpo,  até  que  por  fim  pareceu 
adormecer  e  só  despertou  quando  um  subordinado  o  segurou  para  ele 
não  cair.  Em  certa  medida  eu  compreendia-o,  porque  me  sentia  na 
mesma. 
Extraiu  um  lenço  enorme  do  bolso  das  calças,  assoou-se  com 
estrépito e só depois me dirigiu a palavra. Falava em francês, e o 
soldado servia de intérprete. 
- Quem diabo é você? 
- Frank Gold, jornalista. Muito cansado. E quem diabo é o senhor? 
Logo  que  acabaram  de  lhe  fazer  a  tradução,  tornou-se  escarlate, 
proferiu com vigor duas longas frases e acabou por declarar: 
-  Inspector  Rafik,  da  Segurança.  -  E  logo:-O  senhor  está 
gravemente comprometido. 
- Ah, sim?...-fiz eu.-Porquê? 
Esclareceu com gravidade: 
-  Tenho  de  elaborar  o  meu  relatório,  a  fim  de  apurar  as  suas 
responsabilidades.  Encontro-me  neste  momento  em  contacto  com  a 
sede, para decidir o que farei. 
 
88 
 
- Acho bem - disse eu. - E vai levar muito tempo? 
-  O  necessário.  -  Só  então  pareceu  dar  pela  presença  de  Karin. 
Sorriu-lhe  com  deferência.-...Mademoiselle  Karin,  evidentemente, 
não tem nada a ver com o assunto. 
Engoli em seco. Ele acrescentou, falando mais para ela do que para 
mim: 
- Por agora podem ir repousar, se o desejarem. 
- Muito obrigado - disse eu. 

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O  inspector  contemplou-me  com  o  olhar  que  se  deita  a  um  cão 
rafeiro,  fez  uma  vénia  a  Karin  e  voltou  ao  jipe.  Só  então  me 
lembrei  de  Felipe.  Olhei  em  torno,  mas  ele  desaparecera. 
Recordando  melhor,  concluí  que  não  o  via  desde  a  cena  de  tiros. 
Ainda  pensei  perguntar  por  ele  ao  inspector,  porém  decidi  que 
Felipe  sabia  muito  bem  tratar  da  vida  dele.  Virei-me  para  Karin, 
puxei-a  para  mim,  rodeei  com  o  braço  os  seus  ombros  e  conduzi-a 
até  à  borda  de  um  poço  ali  perto,  onde  nos  sentámos  os  dois  a 
descansar  um  pouco.  Estávamos  ambos  esgotados,  mas  ela  fazia  um 
esforço  para  o  mostrar  o  menos  possível.  Daí  a  um  bocadinho 
ocorreu-lhe  uma  ideia  súbita:  levantou-se  com  energia  e  inclinou-
se sobre a parede do poço, puxando para si a corda donde pendia um 
balde  velho  e  esburacado.  Desprendeu  o  balde  e  desceu-o  fazendo 
correr  a  roldana.  Segundos  depois,  trazia-o  até  acima.  Ajudei  a 
colocar  o  balde  no  parapeito,  mas  a  água  esguichava  como  de  um 
regador,  e  tivemos  de  nos  apressar  para  conseguir  lavar  a  cara. 
Concluíamos  a  operação,  entre  duas  risadas  de  Karin,  quando  o 
polícia que tomava conta de nós se aproximou com umas calças e uma 
camisa na mão. 
- O inspector manda isto para o caso de querer mudar de roupa. 
- Sim, senhor. Agradeça por mim. 
Mudei  de  trajo,  enquanto  Karin,  de  costas  para  mim,  se  entretinha 
a beber água com as mãos em concha. Ele permaneceu onde estava. 
- Mais alguma coisa? - inquiri. 
-  O  inspector  manda  dizer  que,  se  quiserem,  podemos  servir-lhes 
comida. 
E  foi-se  embora.  Pelos  vistos,  o  tratamento  melhorava,  e  isso 
tinha  certamente  a  ver  com  a  presença  de  Karin  e  os  telefonemas 
para a cidade. 
Fui  ter  com  ela  e  fiquei  a  contemplá-la.  Parecia  ausente,  ali 
sentada a olhar para o poço. Tão linda, quase fresca, 
 
89 
 
apesar  da  fadiga,  assim  com  a  cara  ainda  molhada  e  os  cabelos 
negros  a  escorregarem  ao  longo  das  faces.  Meu  Deus,  como  eu 
gostava  desta  pequena!  Ergueu  a  cabeça  e  sorriu  ao  ver  que  a 
olhava.  Limpei-lhe  a  cara  com  a  ponta  da  camisa  e  passei-lhe  os 
dedos  pelos  cabelos,  experimentando  uns  remorsos  danados  pelo  que 
chegara a pensar dela. 
- O dia vai estar bonito, vês? E a noite passou... 
- Sim... para ti. 
Encarei-a fixamente. 
- Tens de acreditar em mim, Karin. 
Ela desviou o olhar triste para  longe, depois para o motorista do 
jipe,  que  nos  observava  à  distância  enquanto  bebia  o  seu  chá.  A 
seguir mergulhou os olhos nos meus e sorriu de novo. 
- Tenho fome... 
Uma onda de ternura levou-me a erguê-la pelos braços e a apertá-la 
nos  meus.  Senti  diminuir  a  tensão  daquele  corpo,  que  agora  me 
parecia tão frágil. 

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- Também eu. 
Andámos  até  ao  jipe  e  ela  falou  ao  condutor.  Este  foi  ao  camião 
buscar  um  tacho,  duas  tigelas  e  um  pano  de  cozinha,  que  nos 
entregou. Voltámos para o nosso poço e sentámo-nos a comer. 
- Como é que se faz? - quis saber, porque não vi colher nem garfo. 
-  Assim.-Agarrou  numa  das  pequenas  bolas  castanhas,  e  a  dez 
centímetros da boca fê-la saltar. 
Franzi  a  testa.  Noutra  altura  teria  achado  repugnantes  aquelas 
bolas  oleosas  de  carne  escura,  mas  naquela  altura  fiz  como  me 
indicavam,  mastiguei  rapidamente  e  não  me  soube  mal.  À  terceira, 
porém,  comecei  a  sentir-me  um  bocado  enjoado  e  tive  de  empurrar 
com uma boa golada de água. 
Karin olhou-me consternada e depois rimo-nos os dois. Aguardei que 
ela terminasse. Segurei-lhe o queixo e ergui-lhe o rosto. 
- Karin... há-de correr tudo bem. 
Ela não pareceu prestar atenção. 
- Vais partir... Deve ser bom. Partir. E lá longe, em Paris, Nova 
Iorque, em todas essas grandes cidades, deve ser fácil esqueceres-
te de Tânger. E de mim. 
 
90 
 
-  Karin,  eu  não  vou  partir.  Os  meus  trabalhos  ainda  agora 
começaram. E... achas que posso esquecer tudo o que se passou esta 
noite? Tu mesma, poderás esquecè-la, e a mim, como se nada tivesse 
acontecido! 
-  Oh,  não...  Frank  -  murmurou,  encostando  o  rosto  ao  meu.  -  Mas 
tu...  O  desejo  de  viver,  é  o  que  sinto  agora,  mais  forte  que 
nunca. E isso não deixa esquecer. Mas eu não tenho fuga possível. 
Sem  que  nos  déssemos  conta  da  aproximação  dele,  ouvimos  muito 
próxima a tosse do inspector. Achava-se ao nosso lado, a mirar-nos 
com gravidade. 
- Que há de novo, inspector? 
Fungou  duas  vezes  e  sentenciou,  com  Karin  a  servir  desta  vez  de 
intérprete: 
-  Quanto  a  si,  devo  dizer-lhe  que  a  sua  amiga,  Miss  Spranger,  se 
inquietou  muito  quando  soube  pela  polícia  dos  sarilhos  em  que  o 
senhor  se  meteu.  Sugiro  que,  ao  menos,  vá  vê-la.  Agora  vou 
conduzi-lo  no  meu  jipe  ao  seu  hotel,  desde  que  se  comprometa  a 
apresentar-se no aeroporto às quatro horas em ponto. 
- No aeroporto? -soltei. - Para quê? 
- Sai um avião para Lisboa às cinco da tarde. Seguirá nele. 
O rosto de Karin empalidecera, enquanto traduzia com voz alterada. 
Comecei a sentir-me mal. 
- E se eu não quiser ir? 
O inspector sorriu com paciência e explicou: 
-  Mas,  meu  caro  Mr.  Gold,  o  senhor  é  expulso.  Não  se  esqueça  de 
que  se  envolveu  por  sua  conta  em  assuntos  que  são  da  competência 
da  polícia.  Não  pode  esquecer-se  de  que  somos  um  país  civilizado. 
Além  do  que  é  formalmente  acusado  de  posse  ilegal  de  arma  de 

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guerra. O que é grave... E agradeça-me por as coisas ficarem neste 
pé. 
A  irritação  crescente  culminou  numa  vontade  tremenda  de  lhe  abrir 
a  cabeça  e  enfiar-lhe  lá  dentro  tudo  o  que  ele  não  queria 
perceber. Foi Karin quem o salvou. 
-  Inspector!  Se  está  a  par  de  tudo  o  que  se  passou,  deve 
reconhecer  que  Mr.  Gold  não  poderia  ter  contactado  a  polícia  mais 
cedo.  Ele  foi  envolvido,  inspector,  esteve  em  perigo  de  vida  e 
prestou-lhes  um  grande  serviço.  Nada  disso  é  tomado  em 
consideração? 
 
91 
 
Começara  a  falar  serenamente,  como  a  uma  criança;  a  última  frase, 
porém, foi proferida com alguma revolta. Se a deixasse prosseguir, 
seríamos dois a abrir a cabeça ao sujeitinho. 
- Ouça, inspector: e quanto a Mademoiselle Karin? 
Desta vez não precisei de tradução. Algumas palavras que apanhei e 
a expressão aterrorizada de Karin bastavam. 
-  Mademoiselle  Karin  teve  a  infelicidade  de  ser  ata-cada  por  um 
bando  de  malfeitores  que  se  encontram  detidos  e  que  pretendiam 
assaltar os armazéns de uma importante firma que pertence ao tutor 
de mademoiselle. Confessaram tudo há momentos. 
-  E  os  Senhores  Ricardo  Sánchez  e  Abdul  Ahrman,  também 
confessaram? 
Fitou-me com incredulidade. 
-  Abdul  Ahrman?  Mas,  meu  caro  Mr.  Gold,  o  senhor  deve  estar  a 
delirar! O Senhor Ahrman é o secretário do grande amigo do Senhor 
Ben Youssef. 
Karin  limitava-se  agora  a  traduzir  duas  ou  três  palavras  nos 
momentos  em  que  eu  olhava  para  ela.  Ia  abrir  a  boca  para  dizer 
algo, mas eu fiz-lhe sinal com os olhos para não intervir. 
- Ah, bom. E quanto a Ricardo Sánchez? 
-  Sánchez  é  o  responsável.-  Assoou-se,  visivelmente  incomodado.  - 
Mas,  infelizmente,  no  meio  da  confusão,  conseguiu  escapar.  Não 
tardará a ser apanhado - concluiu peremptório. 
Desisti. Por agora. Fiz só mais uma pergunta: 
- Mademoiselle Karin pode então fazer o que entender... 
-  Mademoiselle  corre  ainda  algum  perigo.  Por  isso,  o  Senhor  Ben 
Youssef  deu  instruções  para  que  a  conduzíssemos  imediatamente  a 
casa, onde estará em segurança. 
Ela  disse  isto  para  mim  em  inglês,  quase  em  pânico,  e  articulou 
numa imploração: 
- Frank, não! 
-  É  para  seu  bem,  mademoiselle  -  sentenciou  o  inspector.  -  Agora 
deixo-os uns minutos a sós, e depois partiremos. 
A angústia fazia de nós dois apenas uma pessoa. 
O  inspector  rodou  nos  calcanhares  e  principiou  a  afastar-se.  Eu 
avancei  um  passo,  disposto  a  alcançá-lo  para  o  agarrar  com  força 
pela camisa e o obrigar a ouvir umas 
 

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92 
 
quantas coisas que havia um longo bocado estava  a precisar de lhe 
gritar,  quando  ouvi  Karin  chamar-me.  Olhei.  Ela  tinha  o  rosto 
molhado de lágrimas. Voltei. 
- Frank... não me deixes. 
Foi  a  necessidade  imperiosa  que  senti  de  a  ajudar  naquele  momento 
que me fez voltar à realidade e conseguir falar-lhe com realismo. 
- Ouve, minha querida. De momento não há outra coisa a fazer. Pela 
parte  que  me  toca,  hei-de  arranjar  resolução.  Quanto  a  ti,  podes 
ter  a  certeza  absoluta  de  que  Ben  Youssef,  se  pretende  manter  a 
casa  limpa,  não  se  atreverá  a  tocar-te.  Por  isso  não  deves  ter 
medo.  Agora,  por  favor,  crês  em  mim  e  que  eu  te  vou  ajudar. 
Acreditas? 
Limpou as lágrimas, soltou ainda um soluço e acabou por dizer que 
sim com a cabeça, várias vezes. 
A chegada ao hotel processou-se às sete da manhã, comigo instalado 
no  banco  traseiro  de  um  jipe  da  polícia,  conduzido  por  um 
motorista  fardado  e  um  sargento  ao  lado  dele  com  uma  metralhadora 
no  colo.  Adiante  viera  abrindo  caminho  um  motociclista  com  a 
sirena  a  funcionar.  O  pessoal  de  serviço  àquela  hora  acorreu  todo 
a ver o que se passava, e até os cozinheiros assomaram nas janelas 
da  cave.  Saí  escoltado,  envergando  umas  calças  de  camuflado  e 
camisa  da  tropa.  Cumprimentei  toda  a  gente  e  fiz  a  minha  entrada 
no átrio escoltado pelo sargento. O tipo da recepção, o mesmo que 
na véspera à noite me quisera anunciar que se encontrava uma dama 
à  minha  espera,  desta  vez  não  manifestou  sinal  de  surpresa. 
Limitou-se  a  comunicar-me  um  recado  de  Ahmed,  o  qual  me  informava 
que  Joana  estava  bem  de  saúde  e  entregue  ao  jardineiro.  Agradeci. 
Ao reparar no ar indeciso do rapaz, a olhar ora para mim, ora para 
o  sargento,  como  se  tivesse  mais  para  dizer,  tratei  de  pô-lo  à 
vontade. 
- Mais alguma coisa? 
Apontou  para  uma  coluna  do  átrio,  onde  já  só  nós  nos 
encontrávamos. 
- Um senhor... 
Percorri com a vista o local deserto. 
- Não conheço - disse eu. 
- Não... eu, atrás - e apontava para a coluna. 
 
93 
 
Resolvi  ir  observar,  pois  talvez  assim  conseguisse  ir  mais 
depressa  para  a  cama.  Dirigi-me  para  a  coluna,  o  sargento  também, 
e espreitámos. 
Confortavelmente  instalado  numa  poltrona,  a  perna  traçada,  o 
cigarro  enfiado  numa  boquilha  de  lacre,  um  copo  contendo  uma 
bebida  amarela  poisado  na  mesinha  defronte  e  a  bengala  a  repousar 
a seu lado, resplandente Mr. Wong. 

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Fez um cumprimento polido ao sargento, ergueu-se com a leveza e  o 
aspecto  de  quem  tinha  acabado  de  passar  pela  sauna,  massagista, 
cabeleireiro e alfaiate, e pronunciou após uma vénia sorridente: 
- Como tem passado o ilustre jornalista e meu estimado amigo? 
Ia  mandá-lo  para  o  diabo  que  o  carregasse;  porém,  no  último 
segundo, inflecti rapidamente, mostrei os dentes que pretendia que 
parecesse  um  sorriso  e  respondi  com  uma  elegância  que  me 
surpreendeu a mim próprio: 
-  Excelentemente,  meu  caro  Mr.  Wong.  Tão  bem  que  tenciono  partir 
hoje mesmo. Mas não deseja subir um pouco para conversarmos? 
-  Ah,  Mr.  Gold!  Com  muito  prazer...  Atrevo-me  porém  a  pensar  -e 
com uma das mãos limpas e bem tratadas indicou o meu aspecto - que 
sem dúvida prefere dispor de algum tempo para tratar do seu corpo. 
Porque  isso,  meu  amigo  -e  acenou  gentilmente  com  o  indicador 
levemente  arqueado  -,  é  o  primeiro  passo  para  a  limpidez  do 
espírito. 
Cá  por  mim,  responder-lhe-ia  de  bom  grado  qual  a  parte  que  o 
mandaria lavar. 
-  Não  sabe  quanto  aprecio  a  sua  gentileza,  Mr.  Wong,.  Dentro  de 
trinta  minutos  poderemos  tomar  o  pequeno-almoço  no  meu  quarto. 
Isto é, se... 
- Muito gentil da sua parte. Até já, então... 
Inclinou-se e voltou a colocar-se no sofá com a  precaução com que 
um diamante se encastoaria num anel. 
Lá de cima telefonei a pedir dois decilitros de café forte para já 
e  mais  dois  pequenos-almoços  continentais  e  um  bule  de  chá  e 
torradas  para  daí  a  meia  hora.  Os  dois  pequenos-almoços  eram  para 
mim.  De  seguida  marchei  para  a  casa  de  banho,  largando  a  roupa 
pelo caminho Permaneci três minutos debaixo da água fria e dois na 
água quente, isso enquanto a banheira enchia, após o que  
 
94 
 
mergulhei  no  banho  tépido  onde  me  deixei  ficar  até  começar  a 
sentir a pele eriçada. Ainda embrulhado na toalha felpuda e macia, 
fui  abrir  a  porta  ao  toque  da  campainha.  Era  o  café.  Levei  a 
bandeja  para  perto  do  telefone,  despejei  a  primeira  chávena  e 
antes de iniciar a segunda liguei para a recepção a pedir o número 
de  Francesca.  Chamaram,  e  passados  poucos  segundos  veio  a  voz, 
rouca e ansiosa: 
-  Frank...  tinha-me  deitado  agora  mesmo  com  dois  comprimidos. 
Passei a noite toda tão preocupada... Estás bem? 
-  Agora  estou  melhor  -  disse  eu  com  alguma  convicção.  -  Querida, 
aconteceu muita coisa que não te posso contar agora. 
- Mas porque não me avisaste, Frank? 
- Não estavas quando falei. E depois quis falar, mas não pude. 
-  Oh,  Frank...  estás  mesmo  bem?  Posso  ajudar  nalguma  coisa?  O 
inspector  telefonou  há  três  quartos  de  hora  e  fiquei  mais 
tranquila,  mas  ao  mesmo  tempo  tão  desesperada  pelo  modo  como  te 
trataram...  Achei  contudo  preferível  deixar-te  descansar  e 
telefonar-te mais tarde... 

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-  Obrigado,  meu  anjo.  -  Peguei  na  chávena  de  café  e  bebi  mais  um 
trago. - Mas, se me queres ajudar, trata de ouvir o que tenho para 
te dizer. 
-...Sim, Frank. 
-  Toma  nota.  Até  cerca  do  meio-dia  trata  de  obter  todas  as 
informações  que  puderes  sobre  um  tal  Mr.  Wong,  de  Wong  & 
Associates... Estás a ouvir? 
- Sim, Frank. 
-  À  mesma  hora,  preciso  de  saber  exactamente  onde  se  encontra 
Karin. 
- Sim... 
-  E,  por  último,  trata  de  falar  com  o  nosso  cônsul  e  vê  se  ele 
consegue anular a minha ordem de embarque. Okay? 
- Claro, Frank. Vou fazer tudo o que puder. E arranjar-te todas as 
informações que conseguir até lá. 
- Linda menina - disse eu. -Agora vamos para a cama, está bem? 
Ouvi um gemido do outro lado. 
- Passa-se alguma coisa, boneca? 
-  Oh,  Frank  -  disse  ela  num  murmúrio.-  É  a  primeira  vez  que  me 
dizes isso... 
Sempre a mesma querida Francesca. 
 
95 
 
Mr.  Wong  saboreava  com  deleite  o  seu  segundo  pequeno-almoço,  após 
ter passeado um olhar distraído pelo bule de chá e as torradas. Em 
último  recurso,  para  saciar  o  apetite,  eu  ia  barrando  uma  delas 
com manteiga antes que ele voltasse atrás. 
- E que tal se passássemos aos assuntos pendentes, Mr Wong?-lancei 
casualmente, com a boca cheia e a aconchegar a toalha. 
Alisou  as  pontas  dos  dedos  com  o  guardanapo,  que  dobrou 
cuidadosamente  em  duas  partes,  e  depois  em  quatro,  retirou  uma 
migalha  minúscula  que  lhe  pousara  nas  calças,  depositou-a  no 
rebordo do prato e, quando eu julgava que ele ia começar a contar 
quantos  grãozinhos  de  pó  havia  no  bico  do  sapato,  chegou-me  aos 
ouvidos a sua voz musical. 
-  Há  momentos,  Mr.  Gold,  em  que  tomar  decisões  r  arriscar  a  vida 
de alguém que prezamos. - Pausa. - Isso sucedeu comigo esta noite, 
em relação ao ilustre jornalista. Pode crer o nosso confrade que o 
coração,  que  é  um  órgão  do  nosso  corpo  que  nunca  manifesta  dor, 
doeu nesse instante a este seu criado. 
Ocultei o bocejo com as costas da mão. 
- Na verdade - prosseguiu -, fui forçado a decidir entre protegê-
lo,  ou  prosseguir  a  acção  no  ponto  onde  o  nosso  diligente 
colaborador 

havia 

cessado. 

E, 

graças 

um 

conjunto 

de 

circunstâncias concertadas com felicidade, tudo veio a desenrolar-
se de forma favorável. 
- Favorável, para quem, Mr. Wong?-comentei aborrecido. 
Explicou com condescendência: 
-  A  acção  despoletou-se,  as  personagens  subiram  à  cena,  e  tudo 
isso graças ao esforço benemérito do estimado Mr. Gold. 

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“Mr.  Gold,  o  ilustre  jornalista,  prezado  confrade,  colaborador 
diligente, benemérito e estimado.” Tal e qual um epitáfio, pensei. 
- E já agora, que somos sócios - interrompi com  impaciência-, que 
tenciona fazer para me safar desta alhada? 
-  A  nossa  empresa,  Mr.  Gold  -  esclareceu  sem  se  perturbar-, 
resolveu que o mais aconselhável seria o nosso ilustre colaborador 
seguir  para  Lisboa.  -  Deteve  a  minha  intervenção  com  um  gesto.- 
Temos indicações de que o 
 
96 
 
Adolfo  González  partiu  esta  madrugada  para  essa  Cidade,  onde,  ao 
que  conseguimos  apurar,  está  marcada  para  amanhã  uma  reunião 
importante. 
-  Só  isso?  -  inquiri.  -  E  julgam  que  eu  vou  deixar-me  ficar  com 
cadastro para ir farejar reuniões? 
Abanou 

lateralmente 

cabeça, 

dir-se-ia 

que 

deplorava 

paternalmente a minha falta de visão. 
- Claro que sim, Mr. Gold. Trata-se de um acontecimento decisivo e 
insólito.  Além  do  que,  nessa  reunião  participará  também  Ben 
Youssef,  o  qual  já  mandou  reservar  passagens  no  avião  que  sai  de 
Casablanca  esta  manhã.  Uma  das  quais,  aliás,  em  nome  da  sua 
afilhada... Karin, suponho. 
Deixara  cair  a  última  frase  tão  casualmente  que  eu  só  instantes 
depois a apanhei. 
-  E  acresce,  caro  amigo,  que  a  nossa  firma  me  encarregou  de  lhe 
entregar esta... lembrança. Pelo obséquio da sua colaboração. 
Estendeu-me  um  sobrescrito  volumoso  e  aberto,  que  segurei  com 
relutância.  Porém,  a  curiosidade  foi  mais  forte,  e  também  porque 
ele aguardava a minha reacção, acabei por espreitar o conteúdo. 
O  pacote  caiu-me  das  mãos  em  cima  do  tabuleiro  e  eu  procurei  com 
os olhos o maço de tabaco, acabando por aceitar o cigarro que ele 
me estendia e acendeu com o isqueiro laçado. 
-  Cinquenta  mil  dólares  para  despesas.  Além  da  indicação  do  local 
onde  vai  decorrer  a  reunião  de  que  lhe  falei.  Vê  algum 
inconveniente em seguir viagem, Mr. Gold? 
- Não - respondi logo. Porque tinha muitas perguntas para lhe pôr. 
Porém,  mesmo  que  tivesse  respondido,  ele  não  ouviria.  Pela  mesma 
razão porque as minhas perguntas teriam de ficar sem resposta. Uma 
mancha  de  sangue  apareceu-lhe  no  lado  esquerdo  do  pescoço.  Mr. 
Wong saltou para trás, como se tivesse recebido uma descarga, e só 
segundos  depois  eu  associei  tudo  isso  com  o  “plop”  abafado  que 
ouvira atrás de mim e um zumbido que me passara junto à orelha. 
 
97 
 
CAPÍTULO X 
 
Demorou algum tempo antes que o meu cérebro funcionasse outra vez. 
Imediatamente permaneci a fitar o buraco, observando o alastrar da 
mancha  pelo  colarinho  imaculado,  tão  fascinado  por  Mr.  Wong  não 

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apresentar  a  postura  habitual  como  por  ser  possível  a  camisa  de 
Mr.  Wong  apresentar  uma  nódoa.  Depois  a  minha  cabeça  virou-se  de 
forma  a  permitir-me  olhar  para  a  janela.  Os  reposteiros  laranja 
que  filtravam  a  luz  forte  do  Sol  estavam  corridos  e  ondulavam  ao 
sabor  da  brisa  que  vinha  de  fora.  Em  seguida  olhei  para  a  parede 
por trás de Mr. Wong, como se esperasse encontrar aí uma resposta. 
Afinal, aquilo que eu instintivamente buscava achava-se no encosto 
do sofá, sob a forma de um orifício chamuscado em toda a volta. Só 
então  me  levantei,  para  espreitar  melhor.  A  confirmação  feita  de 
perto  deve  ter  satisfeito  as  minhas  necessidades  psicológicas, 
porque a partir daí comecei a reagir de uma forma racional. 
Já vi gente morrer. De morte violenta, algumas vezes perto de mim. 
Mas uma coisa é a guerra, ou outra situação em que seja previsível 
isso vir a ocorrer. Não assim, num sofá diante de mim, a fumar um 
cigarro e no meio de uma conversa. A cara dele estava virada para 
lá,  porque  o  pescoço  sofrera  uma  rotação  esquisita  e  o  tronco 
também.  Em  sentidos  contrários.  Pensei  que  qualquer  criança 
acharia  Mr.  Wong  um  homenzinho  muito  engraçado.  A  boquilha  com  o 
cigarro  aceso  caíra  exactamente  dentro  do  cinzeiro,  e  o  braço  que 
a  segurara  ficara  a  agarrar  o  outro  na  altura  do  cotovelo.  Das 
pernas,  uma  esticava-se  toda  por  debaixo  da  mesa  e  a  outra 
sustentava-se sobre o pé apoiado de lado, de modo que a sola preta 
e novinha em folha do sapato se mantinha virada para mim. 
 
98 
 
Mr.  Wong,  como  cadáver,  constituía  de  certo  modo  a  figura  quase 
tão  peculiar  como  quando  era  vivo.  Numa  segunda  sequência  de 
reacções  dirigi-me  para  a  e  afastei  os  cortinados.  O  sol  forte, 
apesar de serem  ainda oito horas, bateu-me em cheio nos olhos. Na 
minha  mente  cansada  e  alterada  por  toda  a  sucessão  de  pesadelos, 
das  quais  o  último  chegara  mesmo  a  perturbá-la,  formou-se  uma 
confusão  de  imagens  esféricas  de  várias  cores  brilhantes.  Cerrei 
os olhos com força, aguardando que passasse, e só depois espreitei 
para baixo. A seis andares de distância ficava a piscina, à beira 
da  qual  apenas  um  casal  se  bronzeava  em  cadeiras  de  lona.  Mais 
adiante, o jardineiro podava uns arbustos. 
Após  decidir  que  ninguém  podia  ter  vindo  por  aí,  nem  descido  dos 
dois  andares  localizados  por  cima  de  nós,  observei  as  varandas 
contíguas.  A  da  direita  comprida,  ficava  distanciada  uns  dois 
metros,  porém  a  do  apartamento  à  minha  esquerda,  que  devia  servir 
apenas  um  quarto,  sem  dúvida  permitia  o  acesso.  Reparei  que  as 
persianas  se  achavam  subidas  até  meio  e  por  baixo  delas  mostrava-
se, a espaços, a parte inferior dos reposteiros. 
Nesse  instante  todos  os  meus  sentidos  despertaram,  e  então  fiz  o 
que  deveria  ter  feito.  Corri  para  a  porta  e  saí  para  o  corredor 
deserto.  Precipitei-me  para  o  elevador  a  uns  dez  metros  de 
distância.  A  seta  vermelha  iluminada  apontava  para  baixo. 
Regressei  ao  quarto  e  avancei  para  o  telefone.  Carreguei 
repetidamente  no  botão  e  aguardei  alguns  instantes  intermináveis, 
até que atendessem. 

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- Quem fala? 
- É Ahmed, Mr. Gold. O que... 
- Oiça, saiu agora alguém? 
- Bem, hem.. Sim, Mr. Gold, acaba de passar um 
Senhor. 
Falei como se pudesse empurrá-lo. 
-  Vá  atrás  dele.  Agarre-o!  Depressa,  ouviu?  Agarre-o,  Ahmed!-
berrei, e atirei com o auscultador para o descanso. 
Raios, eu perdera o assassino por uns miseráveis 
Segundos. 
Voltei  a  sair  pela  porta  que  deixara  aberta  e  fui  experimentar  a 
do  lado.  O  manípulo  rodou  facilmente.  Fui  apanhado  pela  corrente 
de ar, porque a entrada dava directamente para um pequeno corredor 
e daí para o 
 
99 
 
quarto.  A  janela  do  quarto  era  a  da  varanda  contígua  à  minha. 
Avancei  confiadamente,  porque  sabia  que  a  pessoa  que  eu  queria 
apanhar já não estava ali. Tudo se encontrava nos devidos lugares, 
isto é, o quarto não estava ocupado. Entrei na casa de banho. Aí, 
apenas a torneira do lavatório pingava e uma das toalhas pendurada 
ao  lado,  apresentava  sinais  de  ter  sido  utilizada.  Antes  de  sair, 
pude ver a minha cara no espelho. Deitei-lhe um olhar desgostoso e 
virei as costas. 
Ahmed avançava rapidamente pelo corredor e pelo ar desanimado dele 
compreendi que não valia a pena mostrar-me ansioso. 
-  Tirou  a  matrícula  do  carro?  -  limitei-me  a  perguntar.  O  rosto 
transpirado  desanuviou-se.  Já  exibindo  um  sorriso  satisfeito, 
declarou: 
- Sim, senhor. Era um Mercedes preto, antigo. Tirei a matrícula. É 
estrangeira. - Mas logo quis saber, com o ar de  quem reivindicava 
um direito adquirido: 
- Quem era ele, Mr. Gold? Um ladrão? 
Enquanto falava, ia-se dirigindo para o meu quarto. Eu segurei-lhe 
afectuosamente o braço e sugeri, apontando para o 612: 
-  Preferia  conversar  aqui  ao  lado,  Ahmed.  Dispõe  de  alguns 
minutos? 
Disse que sim, certamente intrigado, mas possivelmente mais do que 
isso, por não dispor de argumentos para discutir comigo. Arrastei-
o para dentro, empurrei a porta com o calcanhar e conduzi-o até ao 
quarto,  onde  o  mandei  sentar  no  único  sofá  existente.  Após  ter-me 
instalado no bordo da cama mais próxima, comecei com precaução: 
- Ahmed, está um homem morto no meu quarto. - Arregalou os olhos e 
abriu  a  boca,  mas  eu  não  o  deixei  falar.  Nem  levantar-se  quando 
impeliu o corpo para cima, - Esse homem veio falar comigo antes de 
você entrar de serviço. Foi o tipo que você viu, quem o matou. 
Apontei a janela aberta. 
- Passou desta varanda para a do meu quarto, aproveitando o facto 
de este estar desocupado. 

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Ahmed começava a acenar a cabeça. O meu problema em saber o que se 
passava lá dentro resultava apenas de que tão depressa o aceno era 
vertical como lateral. 
- Percebeu tudo? 
 
100 
 
- Sim, Mr. Gold - respondeu logo, possivelmente com medo de que eu 
fosse complicar mais a história. 
- Óptimo - comentei. -Então vamos ver o morto. 
Pelos vistos, ele já estava por tudo. Pôs-se em pé e andou à minha 
frente,  sempre  a  abanar  a  cabeça,  para  um  lado  e  para  o  outro, 
para cima e para baixo. 
No  local  não  foram  precisas  apresentações.  Porque  o  estado  de  Mr. 
Wong  não  deixava  margens  para  dúvidas.  E  também  porque  Ahmed, 
quando  o  viu,  encostou-se  à  parede  como  se  pretendesse  atravessá-
la e articulou, com a palma da mão a tapar a boca: 
- Mr. Wong! 
Esperei  primeiro  que  ele  acreditasse  no  que  os  seus  olhos  viam  e 
só depois lhe fiz a pergunta óbvia: 
- Conhecia-o? 
A voz saiu-lhe a custo. 
- Eu... trabalhava para ele - balbuciou. Bem, pelos vistos, metade 
da população de Tânger trabalhava para Mr. Wong. 
- Okay, Ahmed. Agora descreva o tipo que saiu daqui. 
- Ele... era europeu. Levava uma pasta na mão. 
-  Isso  não  interessa.  Você  já  o  tinha  visto  antes?  Era  alto, 
baixo, coxo... como era ele, Ahmed? 
- Eu... nunca o tinha visto. Não era alto nem baixo, tinha cabelo 
preto  e  vestia  um  fato  escuro.  -  Olhou-me  desanimado.  - 
Praticamente, só o vi de costas, Mr. Gold. 
-  Você  está  habituado  a  observar  pessoas.  De  que  nacionalidade 
acha que era? 
- Bem... talvez espanhol - admitiu. 
Não  valia  a  pena  perder  mais  tempo.  Era  preferível  resolver  o 
resto, e o “resto” era apenas um cadáver no meu quarto. 
- Ahmed, vamos sentar. 
Preparei-lhe uma cadeira colocada estrategicamente de modo que ele 
não tivesse de enfrentar o patrão, após o que peguei da bandeja a 
chávena  que  não  fora  utilizada  e  despejei  nela  o  que  restava  na 
cafeteira. 
Ahmed  afastou  um  bom  bocado  a  cadeira,  visivelmente  incomodado,  e 
sorveu  ruidosamente  o  café  forte,  com  o  bordo  da  chávena  a 
tilintar-lhe contra os dentes. 
-  Meu  amigo  -  disse  eu  logo  que  a  poisou  intacta  -,  temos  de 
resolver este assunto. 
 
101 
 
Desta  vez  assentiu  prontamente.  Senti-me  tão  aliviado  que  nem 
permiti que falasse. 

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-  Ainda  bem  que  você  tem  tanto  interesse  nisso  como  eu,  Ahmed.  - 
Tracei as pernas e cruzei as mãos.-Agora como vai ser? 
Eu estava a andar demasiado depressa. O pobre quase implorou: “Por 
favor,  deixe-me  pensar,  Mr.  Gold...”,  pelo  que  lhe  cedi  de  bom 
grado  essa  tarefa,  enquanto  ia  acendendo  um  cigarro.  À  terceira 
nuvem  de  fumo,  o  brilho  dos  olhos  dele  anunciou-me  que  o  esforço 
fora compensador. 
- A lavadaria - exclamou. 
-  A  lavadaria,  o  quê,  Ahmed?  Vamos  mandar  Mr.  Wong  para  a 
lavadaria? 
-  Claro,  Mr.  Gold.  -  E  foi  explicando  sem  uma  pausa,  como  se 
receasse deixar fugir a ideia.- Além da lavadaria, que funciona na 
cave, o hotel possui outra para onde manda todos os dias uma parte 
da  roupa.  Vem  uma  carrinha  ao  meio-dia  e  meia  buscá-la.  Se  eu 
conseguisse meter nela o...-rodou a cabeça, mas logo a endireitou, 
com  um  estremecimento  -...O  Senhor  Wong,  o  meu  primo  fazia  a 
entrega. 
A última parte não entendi. 
- Posso saber quem é o seu primo, Ahmed? 
- É o condutor da carrinha - explicou. 
-  Naturalmente  -  disse  eu.  -  E  como  tenciona  levar  o...  para  a 
carrinha? 
Permiti  que  reflectisse  sem  que  fosse  preciso  pedir-mo.  Até  que 
ele anunciou: 
- Rosita! 
- Também é sua prima? 
Distendeu os beiços numa careta que apenas os olhos a luzirem e a 
fiada de dentes brancos permitiam supor tratar-se de um sorriso. 
-  Oh,  não,  Mr.  Gold.  É  criada  de  quartos...  uma  amiga.  -  E 
acrescentou meio envergonhado: - Gosta de mim, e eu às vezes faço-
me encontrado com ela. Se me oferecer para lhe transportar o carro 
das roupas para a cave, ela fica muito contente... 
-  Ah  -  fiz  eu.-E  então  você  diz-lhe  que  já  agora  tem  aqui  um 
cadáver e mete-lho entre os lençóis. 
Fixou-me desconfiado, a avaliar se eu estaria a gozar com ele. 
- Não, senhor - disse muito sério. Mas logo o pensa- 
 
102 
 
mento seguinte lhe fez a cara animar-se. -É que Rosita tem medo de 
mim, e se eu ficar aqui para ajudar ela foge para outro quarto. 
-  Naturalmente  -  apoiei.  Não  conhecendo  Rosita,  achava-a  uma 
rapariga saudável. 
Ahmed  virou  novamente  a  cabeça  e  já  menos  repugnado  comentou  para 
mim: 
- Pobre Senhor Wong. Tão boa pessoa! 
Ocorreu-me  perguntar-lhe  qual  a  natureza  do  trabalho  que  ele, 
assim  como  Felipe,  executavam  para  Wong;  porém,  em  face  das 
circunstâncias, a questão tornava-se quase irrelevante. 
Dei  uma  ligeira  palmada  no  joelho,  apaguei  a  ponta  do  cigarro  e 
sorri. 

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-  Bem,  Ahmed.  Parece  que  está  tudo  assente.  Vá  pensando  nos 
pormenores. Eu vou descansar e não atendo ninguém. Certo? 
Fez que sim e levantou-se. 
- Então pode ser ao meio-dia, Mr. Gold? 
- Tem de ser ao meio-dia, não é?-foi a minha resposta, subitamente 
irritado.  A  breve  consulta  ao  relógio  informara-me  que  três  horas 
e meia era o espaço de tempo de que dispunha para dormir. 
Ahmed não deu por nada. À despedida indicou Wong, desta vez com o 
queixo, já quase sem cerimónia. 
- Vai ser capaz de descansar com o... Senhor Wong aqui, Mr. Gold? 
- Meu amigo -esclareci, empurrando-o para a porta - a única coisa 
que  me  impede  de  dormir  é  a  acção  e  o  ruído.  A  experiência  já  me 
ensinou que os mortos não andam nem fazem barulho. 
Antes  que  ele  me  provocasse  pesadelos  com  aquele  sorriso 
característico, adiantei: 
-  Se  souber  onde  pára  o  Felipe,  diga-lhe  que  ligue  para  mim.  Mas 
só à hora de almoço - tratei de recomendar. 
Ganhei  consciência  da  campainha  do  telefone  na  altura  em  que  se 
desvaneceram  as  imagens  dos  morcegos  gigantescos  que  me  roçavam  a 
cara  com  as  asas  viscosas  ao  mesmo  tempo  que  soltavam  gritos 
horríveis. O despertar Sobressaltado, a visão do cadáver de Wong e 
a voz terrivelmente excitada que dificilmente reconheci como sendo 
a de Ahmed provocaram-me uma agonia que subiu do estômago  
 
103 
 
e  foi  um  vómito.  O  pior,  porém,  foi  o  que  ele  disse,  e  que  eu  só 
entendi à segunda ou terceira vez. 
-  O  inspector  Rafik.  Vai  aí  falar  com  o  senhor!  Pediu,  -me  que  o 
avisasse... 
- Sim, Ahmed - balbuciei. Só daí a algum tempo consegui articular: 
- Mas, pela tua saúde, vê se o demoras alguns minutos. 
E deixei cair o auscultador. 
 
- Exercício diário, hem, Mr. Gold! - Virou o sorriso amarelo para 
o  sargento  gordo  que  o  acompanhava,  enquanto  eu  limpava  a 
transpiração com uma toalha e nu-afastava para ambos entrarem. 
-  O  Senhor  Inspector  encarrega-me  de  lhe  apresentar  muitas 
desculpas  por  vir  incomodá-lo  -  foi  dizendo  o  sargento.  O 
inspector  Rafik  ia  entretanto  examinando  os  aposentos,  com  ar 
apreciador. 
- Três bien, trop bien - comentava, olhando tudo de cima a baixo, 
por detrás dos óculos sujos de pó. 
Passei-lhe  à  frente  e  tratei  igualmente  de  ir  pesquisando  as 
redondezas; as minhas razões, porém, eram outras. 
Ocuparam  ambos  o  sofá  e  eu  sentei-me  na  cadeira,  como  se  ia 
tornando hábito. 
- Não vamos tomar-lhe muito tempo - disse o intérprete, ao ver que 
o  inspector  se  detinha  a  brincar  com  a  boquilha  de  laca  e  nunca 
mais  abria  a  boca.  Até  que  finalmente  tossiu  e  exprimiu-se  numa 
longa frase, que endereçou ao tabuleiro do pequeno-almoço. 

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-  O  Senhor  Inspector  informa  Mr.  Gold  que,  apesar  de  ter  sido 
reconhecida  a  contribuição  que  deu  para  a  prisão  dos  traficantes, 
as  autoridades  deste  país  não  podem  deixar  passar  a  sua 
intromissão  numa  investigação  que  só  a  elas  compete,  sobretudo 
tratando-se de um cidadão estrangeiro. 
Rafik  sorriu-me  com  simpatia.  Falou  novamente,  agora  dirigindo-se 
à  minha  pessoa.  Quando  acabou,  inclinou-se  ligeiramente  para 
diante. Eu correspondi, agradecido. 
-  O  inspector  informa  Mr.  Gold  que  se  voltar  a  desembarcar  em 
Marrocos nos tempos mais próximos terá de o prender. 
Eu estava farto. Dei o recado ao sargento. 
-  Pergunte  ao  inspector  se  não  seria  preferível  preocupar-se  em 
arranjar provas contra Adolfo González, 
 
104 
 
que  também  é  estrangeiro,  e  Ben  Youssef,  que  é  nacional,  diga-lhe 
também  que  para  deixar  fugir  Ricardo  Sánchez  mais  valia  ter  sido 
eu a acabar o trabalho. 
O  visado,  que  havia  começado  a  agitar-se  ao  ouvir-me  pronunciar 
certos  nomes,  entrou  em  fúria  ao  ser-lhe  traduzido  o  discurso. 
Levantou-se  de  um  salto,  vociferou  uma  dúzia  de  palavras  que  não 
seriam  propriamente  amabilidades  e  bateu  duas  vezes  com  o  punho 
nas  costas  do  sofá.  Em  seguida  virou  os  óculos  para  mim  e 
aproximou-os  perigosamente  do  meu  nariz,  soltando  mais  uma  tirada 
rápida  de  várias  sílabas  bem  soletradas.  Aí  o  sargento  achou 
preferível  pôr-se  de  pé,  mas  antes  que  iniciasse  a  transcrição  o 
superior ergueu a mão e apontou a porta. Depois do que rapidamente 
virou  as  costas,  batendo  com  os  tacões.  O  sargento  encolheu  os 
ombros,  fez  um  sorriso  forçado  e  deu  uma  corrida  para  apanhar  o 
inspector quando este já ia a sair. 
Eu fiquei com o ouvido à escuta para ter a certeza de que eles se 
afastavam.  Mesmo  assim,  por  medida  de  segurança,  resolvi  aguardar 
o  toque  de  Ahmed.  Chegou  transcorridos  três  minutos  contados  pelo 
relógio. 
- Então, Mr. Gold. - Era difícil transmitir mais ansiedade por um 
fio telefónico. 
- Tudo bem, Ahmed. 
Não foi o suficiente para o tranquilizar. 
- Mas, e o... o... 
-  Foi  apanhar  ar  e  já  vem.  Agora  acalme-se,  amigo,  e  faça  o  que 
tem a fazer. 
Desliguei e vi as horas. O inspector Rafik tinha-se poupado a mais 
um desgosto. Faltavam quinze minutos para o meio-dia. 
Antes de ir à varanda buscar o sofá e Mr. Wong, olhei para cima e 
murmurei o melhor que me ocorreu. No ponto a que tinha chegado bem 
devia  um  agradecimento,  vários  queixumes  e  inspiração  de 
providência para conseguir chegar ao fim. 
A  operação  de  transferência  desenrolou-se  com  limpeza  e  precisão. 
Ao  meio-dia  e  cinco,  entrada  de  Ahmed  em  cena,  a  obstruir  a 
entrada  com  um  grande  carro  de  dois  tabuleiros  e  quatro  rodas  de 

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bicicleta.  Às  doze  e  oito,  Mr.  Wong  na  prateleira  inferior,  todo 
embrulhado num lençol e coberto por cinco quilos de roupa suja. E, 
quatro minu- 
 
105 
 
tos  passados,  Ahmed  a  ligar  para  mim,  anunciando-me  que  a  roupa 
seguira para limpar. 
Ainda não havia saboreado o alívio quando Francesca telefonou. 
- Estás melhor, meu querido? 
Já  fizera  nesse  dia  todos  os  esforços  que  os  nervos  de  um  homem 
podem  suportar.  Mas  para,  depois  do  que  passara,  lhe  responder  no 
tom desprendido que usei, tiver de recorrer a tudo o que a vida me 
ensinara. 
- Já estou óptimo, filha. 
- Ainda bem - respondeu do outro lado a voz quente e macia, agora 
menos  ansiosa.  -  Ouve,  meu  querido  -anunciou  com  excitação.  -  Um 
amigo  que  tenho  no  aeroporto  confirmou-me  que  a  tua  amiguinha 
partiu.  Quanto  ao  homem  importante  que  devia  acompanhá-la  -
prosseguiu, num tom de voz mais baixo -, eu depois explico-te, mas 
é provável que tenha embarcado também. Quanto ao teu caso... estás 
a  ouvir-me?  O  cônsul  é  de  opinião  que  é  muito  mais  cómodo  para 
todos,  incluindo  para  ti,  deixar-te  seguir  para  Lisboa  do  que 
intervir na questão e ter de dar explicações. Compreendes? 
Com  o  auscultador  entalado  entre  o  ouvido  e  o  ombro,  enquanto 
atava  os  sapatos,  disse-lhe  que  compreendia.  Eu  próprio,  depois 
dos  últimos  acontecimentos,  já  era  dessa  opinião.  Claro  que  isso 
não lhe disse. 
-  Estou  desolada,  Frank.  Mas  escuta,  tenho  algumas  coisas  para  te 
contar, e tenho a convicção de que nos vamos encontrar em Lisboa. 
Era sem dúvida uma boa notícia. 
- A que horas almoças, pequena? 
- Vou buscar-te à uma e meia. Está bem? 
- Excelente. E... só uma coisa. 
- Diz... 
-  Traz  um  vestido  decotado  e  bem  justo.  Quero  levar  comigo  a 
melhor recordação de Tânger. 
Pelo auscultador chegou-me uma risada rouca e excitante. 
- Tudo o que quiseres, Frank. Apenas desejo o melhor para ti. 
Logo  que  a  conversa  terminou,  fui  à  gaveta  da  mesa-de-cabeceira 
buscar  o  sobrescrito  com  o  maço  volumoso  de  notas,  que  transferi 
para a mala, onde ficou enfiado entre a roupa interior. 
 
106 
 
Não se fosse dar o caso de ainda acabar por me esquecer... 
No  restaurante  do  terraço  do  Hotel  Les  Almohades,  virado  para  a 
baía,  Francesca  traduzia-me  de  um  jornal  português  da  véspera  uma 
notícia  curiosa.  Com  o  título  arrojado  “Rede  internacional 
desmantelada  no  Algarve”,  revelava  que  a  Polícia  Judiciária  havia 
procedido  a  apreensões  de  droga  e  detenções  de  alguns  indivíduos 

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estrangeiros  em  diversas  localidades  do  litoral  sul  do  país. 
Acrescentava que a droga, que era proveniente de um país do Norte 
de África, “mais propriamente de Marrocos”, entrava pelo sul, onde 
era comercializada, por via marítima, terrestre e aérea. 
Pouco mais adiantava, a não ser que o produto apreendido consistia 
essencialmente  em  haxixe  e  cocaína.  Para  mim,  porém,  era  o 
suficiente. Isto é, tratava-se da confirmação das minhas suspeitas 
e das informações que Francesca me transmitira. 
Ante  os  meus  acenos  de  concordância,  ela  avançou,  passando-me  o 
recorte  juntamente  com  uma  nota  dactilografada  que  calculei 
tratar-se da tradução: 
-  Parece  portanto  que  estás  na  boa  pista.  E  com  mais  um  ou  dois 
pormenores  que  esta  tua  amiga  conseguiu  apurar,  não  ficarás  com 
qualquer dúvida. 
Aguardei. 
-  Ricardo  Sánchez  foi  tratado  ao  ferimento  por  um  médico  daqui  e 
seguiu  de  barco  para  Ceuta.  Presumo  que  daí  atravessou  para 
Espanha e a esta hora já terá entrado em Portugal. 
Não me deixou interromper. 
- Quanto a Ben Youssef, o meu amigo do aeroporto ficou com fortes 
suspeitas  de  que  foi  ele  quem  embarcou  também  no  avião  da  manhã, 
com o nome de Abdalah Ibrahim. 
Soltei um assobio e ela sorriu de satisfação. 
- Estás contente com o meu trabalho? 
Se  estava!  A  partida  para  Lisboa  tornara-se  uma  necessidade 
urgente. 
- Adolfo González - lancei. 
-  Já  lá  ia  -  anunciou  com  um  sorriso.  -  Adolfo  González  adquiriu 
há  cerca  de  um  mês  uma  casa  esplêndida  em  Albufeira.  Trata-se  de 
um conhecido centro turístico da 
 
107 
 
costa  do  Algarve.  A  propriedade  está  em  nome  de  Ricardo  Sánchez, 
mas Juanita - deitou-me um olhar trocista -, que às vezes fala de 
mais,  anunciou  anteontem  à  noite  a  um  dos  presentes  na  festa  que 
ia  lá  passar  uns  dias.  Como  vês  -  finalizou  -,  tudo  se  vai 
ajustando. 
-  Sim  -  disse  eu.  -  Quase  tudo.  Conseguiste  saber  algo  de  novo 
sobre Wong? 
-  Pouca  coisa.  Wong  dedicou-se  desde  sempre  ao  tráfico  de  armas, 
com  quartel-general  em  Singapura.  Há  cerca  de  dois  anos  foi 
residir  para  o  Líbano,  onde  trabalhou  como  intermediário  do 
Governo  de  Khadafi.  Porém,  quando  descobriram  que  também  fornecia 
Israel,  puseram-no  a  andar.  Veio  então  para  Tânger,  onde  montou  a 
fachada que sabes. 
-  É  então  legítimo  supor  -  concluí  -  que,  por  força  de 
circunstâncias,  mudou  de  ramo  e  que  trabalha  agora...  isto  é... 
tem  trabalhado  -  rectifiquei,  por  descargo  de  consciência  para  a 
organização de Singapura, mas no tráfico de droga. 

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- Em parte, sim - admitiu. - Porém, tratando-se de um especialista 
notório no tráfico de armamento, eu não teria tanta certeza de que 
tivesse abandonado completamente essa actividade. 
- Deves ter razão - afirmei, afagando-lhe a mão. -Como sempre. 
Francesca  atendera  o  pedido  que  eu  lhe  fizera  pelo  telefone  e 
esmerara-se  mesmo  em  ultrapassá-lo.  O  vestido  que  trazia  era  de 
seda estampada e tão justo que para conseguir meter-se dentro dele 
não  podia  obviamente  vestir  nada  por  baixo.  Quanto  ao  decote,  o 
panorama  que  eu  podia  contemplar  fazia  que  a  baía  de  Tânger,  que 
se  estendia  mesmo  em  baixo,  e  que  a  nossa  vista  abarcava  por 
completo,  quase  passasse  despercebida.  A  baía  de  Tânger,  no 
entanto, é ampla, bela e profunda. 
Desviei os olhos para o rosto dela, que se mostrava deliciado pelo 
prazer que a dona me proporcionava. 
- Francesca - disse eu -, não te aborreças por eu voltar sempre ao 
mesmo, mas o facto é que tu consegues excitar um morto. 
-  Ora,  querido  -  fez  ela  com  um  trejeito,  ao  mesmo  tempo  que  me 
colocava  um  dedo  nos  lábios.  -  Ainda  bem,  meu  querido.  Porque  tu 
estás vivo, muito vivo! 
 
108 
 
Depois  de  tudo  porque  passara,  e  Francesca  nem  conhecia  metade  da 
história,  as  três  horas  agitadas  que  consegui  dormir  com  um 
cadáver  ao  lado  não  se  podiam  considerar  um  repouso  satisfatório. 
Pestanejei duas vezes para ver se o ardor na vista se atenuava. 
- Querida, se eu fosse neste momento contigo para a cama, sabes o 
que faria? 
Acenou com convicção. 
-  Nada  disso  -  confessei.  -  Repousava  a  cabeça  entre  esses  teus 
seios e dormia assim doze horas seguidas. 
- Oh, Frank- fez ela, com ar consternado. - Estás assim tão mal? 
-  Não,  minha  filha.  Estou  pior  do  que  isso.  E  só  tu  e  os  dois 
cafés  que  vou  pedir  como  sobremesa  é  que  ainda  me  vão  permitir 
aguentar até ao avião. 
Decidi pôr fim às lamentações e aproveitar o tempo que faltava. 
- Sempre vais ter comigo a Lisboa? 
Exibiu  aquele  sorriso  malicioso  e  semiprofissional  que  por  vezes 
usava comigo ao falar de assuntos comuns de serviço. 
-  Mais  uma  vez  andamos  ambos  ao  mesmo,  não  é?  -  Nesta  altura 
inclinou-se  para  apanhar  o  guardanapo  e  eu  achei  preferível  virar 
a  cara  para  o  lado  do  mar.-...Mas  isso,  claro,  depende  do  que  tu 
me transmitires depois de lá estares. 
-  Então  -  esclareci  -  podes  contar  que,  mesmo  que  não  se  passe 
nada, vou inventar uma história formidável. 
- Óptimo! Cá fico à espera... -Pôs de repente um rosto sério. - E 
Karin? 
Já  esperava.  Não  há  dúvida  de  que,  tratando-se  de  relações  entre 
homens  e  mulheres,  até  as  mulheres  mais  inteligentes  parecem 
mulheres normais. 

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-  Não  tem  nada  a  ver  -  afirmei.  -Pela  parte  que  me  diz  respeito, 
Karin não tem nada a ver contigo e tu não tens nada a ver com ela! 
Tu és importante para mim em muitos aspectos e ela passou a sê-lo 
noutros completa-mente distintos. 
- Estás apaixonado? 
Sorri com brandura. 
- Já me viste apaixonado, Francesca? Pensas que estou diferente do 
Frank que conheceste na América do Sul? 
 
109 
 
- Quanto à segunda pergunta, claro que não. Mas  continuo a pensar 
que desta vez é grave. 
Apertei-lhe a mão com carinho. 
- Então não penses. Se for grave, eu aviso-te, mas até lá não tens 
de te preocupar. Okay? 
- Está bem - murmurou, mas não parecia tranquilizada. 
Um  empregado  veio  interromper-nos  com  um  papel  numa  bandeja,  que 
me  estendeu.  Encarei-o  intrigado,  por  que  ainda  não  pedira  a 
conta. E as contas em hotéis de luxo não se apresentam num bocado 
de papel de embrulho cheio de nódoas de gordura. 
-  Um  senhor  que  está  lá  em  baixo  pediu  para  entregar  isto  a  Mr. 
Gold. 
-  Felipe!  -exclamei,  mesmo  antes  de  abrir  o  papel.  E  se  a 
pronúncia  dele  era  péssima,  a  caligrafia  era  pior.  Dizia:  “Saí  da 
cadeia para ir levar Mr. Gold ao aeroporto. Espero cá em baixo.” 
- Algum problema? - inquiriu Francesca. 
-  Não  -  informei,  amachucando  o  papel  com  ar  satisfeito.  -  Um 
amigo que me tem ajudado e que quer despedir-se de mim. 
Aproveitei  para  pedir  ao  criado  os  cafés  e  consultei  o  relógio. 
Não me podia descuidar com as horas. 
Felipe  conduzia-me  de  volta  ao  hotel,  onde  eu  ia  buscar  a  mala. 
Deixámos  Francesca  à  porta  de  casa,  onde  ela  se  despedira  com  um 
“até breve” que era uma certeza. Agora o meu amigo Felipe fazia-me 
o relato das peripécias e desgraças de que fora  vítima depois que 
deixáramos de nos ver. Só que desta vez eu seguia sentado ao lado 
dele, o que diminuía o risco e a preocupação. 
-  E  foi  assim,  Mr.  Gold.  Lá  na  pista  deitaram-me  logo  a  mão, 
meteram-me num jipe e mandaram-me para a esquadra, donde só saí há 
bocado.  Mesmo  assim  -  esclareceu  -,  foi  preciso  um  primo  meu  ir 
falar  com  o  chefe  da  polícia  e  pagar  a  fiança.  Já  viu  isto,  Mr. 
Gold? - E continuou com ar pesaroso: - E o que me diz de Mr. Wong 
morrer  assim  daquela  maneira?  Pobre  Mr.  Wong...  Mas  Felipe  há-de 
apanhar  o  assassino  e  fritá-lo  em  azeite.  Tão  boa  pessoa...  morto 
sem  ninguém  esperar.  E  ainda  por  cima  -  comentou  indignado  -  no 
quarto do senhor, a dar- 
 
110 
 
ainda mais preocupações e sarilhos. Que me diz a isto, Gold? 

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-  Eu?  Que  quer  que  lhe  diga,  amigo?  Você  sabe  tanto  como  eu... 
Qual era exactamente o seu trabalho para Mr. Wong? 
- Oh! - fez ele largando o volante. - Pouca coisa. Transportar os 
amigos e clientes dele aqui e ali, ir até Casablanca ou Rabat. Mr. 
Wong era um homem muito rico, sabia? 
Respondi-lhe  que  sim,  e  considerei  para  mim  que  fazer  a  Felipe 
perguntas sobre o assunto resultaria apenas num esforço inútil. De 
modo  que  deixei-o  falar  à  vontade,  num  desfilar  de  manifestações 
solitárias  e  ruidosas  de  excitação,  raiva,  desgosto,  fúria 
assassina e satisfação por estar vivo. 
Só  a  dada  altura,  tirando  partido  de  uma  pausa  que  ele  fez  para 
respirar, inquiri casualmente: 
- Já sabem alguma coisa sobre a matrícula do Mercedes? 
- Portuguesa. É só o que sabemos. 
-  Okay,  Felipe.  Trate  de  a  escrever  num  bocado  de  papel...  Mas 
agora não! - soltei num grito. 
No hotel limitei-me a mandar descer a mala, a apanhar um telex que 
chegara do meu jornal, em Washington, e a despedir-me de Ahmed. 
-  Mr.  Gold,  deseja  que  reserve  o  mesmo  quarto?  Olhei-o  sem 
perceber. 
-  Felipe  diz  que  o  senhor  vai  voltar  daqui  a  uns  dias.  Felipe 
meteu  discretamente  a  cabeça  entre  os  ombros  e  distraiu-se  na 
contemplação de uma montra. Para abreviar, disse apenas: 
- Não merece a pena, Ahmed. Como não sei quando regresso, o melhor 
é não se preocupar por enquanto, okay? E trate-me bem da Joana... 
Despediu-se  de  mim  deixando-me  como  recordação  aquela  careta 
horrorosa onde apenas os olhos vivos e os dentes brancos compunham 
uma  decoração  humana.  Mas  quando  abrisse  o  sobrescrito  com  mil 
dólares  que  eu  lhe  metera  dobrado  na  mão,  nessa  altura  eu  queria 
estar bem longe dali. 
Felipe  foi  a  despedir-se  desde  a  porta  do  hotel  e  durante  todo  o 
trajecto até ao aeroporto. Aí chegados, queria por 
 
111 
 
força  esperar,  não  só  que  o  avião  de  Casablanca  chegasse  mas  que 
partisse  levando-me  a  bordo.  Consegui  finalmente  convencê-lo  de 
que  precisava  descansar  e  que  era  perfeitamente  capaz  de 
desempenhar-me sozinho das tarefas necessárias. 
Depois do abraço que lhe dei, levou o lenço sujo aos olhos, fungou 
duas  ou  três  vezes,  fez-me  prometer  que  lhe  daria  notícias  e 
acabou por entrar no carro com aquele ar de cachorro abandonado em 
noite de chuva.  Só então lhe passei para a mão outro sobrescrito, 
dobrado,  este  com  dois  mil,  contra  a  promessa  de  só  o  abrir  na 
cidade. “Lembrança de Mr. Wong”, foi a explicação que forneci. 
Esperei  que  ele  arrancasse  como  de  costume,  porém  desta  vez  fê-lo 
com  suavidade,  como  se  não  quisesse  perturbar-me.  Apenas  a  ponta 
do  escape,  a  roçar  no  alcatrão,  estragava  um  pouco  o  efeito. 
Acenei-lhe mais uma vez e fui para dentro. 
Ali estava eu, prestes a embarcar, na modesta sala de trânsito de 
uma  pequena  cidade  simples,  humana  e  hospitaleira,  de  longo 

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passado  histórico  e  romântico.  Assim  anunciavam  os  prospectos. 
Onde a vida decorre calma e o visitante pode gastar os seus ócios 
no contacto saudável com as gentes e o alegre comércio local. Onde 
o mar é azul, a montanha aprazível e a comida agradável. Porta de 
entrada num país exótico de um continente fantástico. 
Só  que  não  fora  isso  que  eu  encontrara.  Porque  nessa  cidadezinha 
pacata  vivera  o  maior  pesadelo  da  minha  existência,  tivera 
relações 

com 

uma 

organização 

gigantesca 

de 

tráfico 

de 

estupefacientes,  fora  vítima  de  duas  tentativas  de  assassínio,  e 
uma vítima de assassínio fora abatida no meu quarto de hotel. 
Nessa cidade pacata, também, conhecera a mulher mais misteriosa da 
minha vida. 
 
112 
 
CAPÍTULO XI 
 
Lisboa  é  a  única  capital  que  eu  conheço  em  que  o  aeroporto 
internacional se localiza dentro da cidade. 
É  verdade  que  Hong-Kong,  por  absoluta  falta  de  espaço,  possui  o 
seu  bem  pertinho;  porém,  a  entrada  faz-se  pelo  mar,  e  na  descida 
do avião os naturais do país não vão à janela soltando exclamações 
de  entusiasmo  e  a  apontar  o  que  eu  presumia  tratar-se  da  casa  em 
que moravam. 
A  viagem  fora  curta  e  a  lengalenga  das  hospedeiras  à  partida  e  à 
chegada,  com  a  interrupção  para  o  lanche,  não  me  haviam  permitido 
dormir  mais  do  que  vinte  minutos.  Deste  modo,  sobrou-me  uma  hora 
para  pensar;  porém,  não  adiantei  grande  coisa  com  isso.  Factos, 
dispunha  deles  em  grande  quantidade.  Acumulavam-se  mesmo  na  minha 
cabeça  de  tal  forma  que  eu  já  sentia  alguma  dificuldade  em 
relacioná-los.  Sem  dúvida  que  Francesca  fora  um  auxílio  valioso, 
mas  presentemente  todas  as  esperanças  de  agarrar  o  fio  da  meada 
depositava-as  no  que  se  podia  passar  aqui,  em  Lisboa.  O  fio  da 
meada, cuja ponta eu tivera nas mãos na madrugada passada e que a 
intervenção do estúpido Rafik me obrigara a largar outra vez. 
Também,  até  aqui,  eu  trabalhara  sozinho.  Porque  tudo  se 
desenrolara  vertiginosamente,  e  porque  aquilo  que  se  me  deparara 
era muito maior do que alguma vez podia ter esperado encontrar. Só 
contava  agora  que  o  nosso  correspondente  em  Madrid,  para  quem 
Francesca  já  devia  ter  telegrafado  a  meu  pedido,  fizesse  um 
pequeno esforço e tratasse de me dar uma ajuda. 
Para  já,  dispunha  de  dois  contactos  em  Lisboa,  o  que  constituía 
uma 

pequena 

contribuição 

do 

meu 

jornal, 

directamente 

de 

Washington.  Tratava-se  de  Matt  Davis,  funcionário  da  Embaixada  e 
correspondente de vários jornais e revistas, que trabalhara comigo 
em duas reportagens 
 
113 
 
conjuntas - uma em Macau e outra no Brasil -, e o proprietário de 
um  pequeno  restaurante  situado  num  bairro  antigo  da  cidade,  que, 

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aliás, me fora em tempos falado pelo meu amigo Al Chasey, do Sun, 
e o qual segundo parecia, adquirira tal reputação como comprador e 
vendedor  de  informações  que  a  própria  polícia,  incluindo  a 
Interpol, recorria a ele com frequência. 
Eu sabia que Lisboa não é sítio onde um estranho consiga penetrar, 
sobretudo sendo estrangeiro. Por isso, o facto de à partida contar 
com  estes  fulanos,  e  talvez  a  partir  do  dia  seguinte  com  as 
informações via Madrid, me fazia sentir menos isolado. 
Outro aspecto que de certo modo me confortava, embora não deixasse 
fazer a cabeça trabalhar sempre que pensava nisso, eram os 47 000 
dólares  que  viajavam  comigo.  Se  por  um  lado  me  asseguravam  acesso 
a tudo o que pudesse custar dinheiro, por mais elevada que fosse a 
factura,  por  outro  eu  só  esperava  que  ninguém  aparecesse  alguma 
vez a pedir-me contas. Problemas de consciência não me pesavam por 
aí  além.  Em  primeiro  lugar,  eu  estava  a  utilizar  a  verba 
precisamente para o fim que Mr.  Wong o destinara. Além disso, não 
poderia devolvê-los mesmo que pretendesse fazê-lo. 
Neste  estado  de  espírito,  nem  optimista  nem  demasiado  pessimista, 
apenas 

na 

expectativa, 

desembarquei 

em 

Lisboa. 

Com 

uma 

determinação muito forte, porém, no que respeitava ao meu primeiro 
objectivo - localizar Karin. 
Matt  Davis  era  um  americano  típico  do  estilo  que  sai  da 
Universidade  de  Princeton  formado  em  Direito  e,  depois  de  exercer 
algum  tempo  a  advocacia,  passa  a  trabalhar  para  o  Governo.  Como 
funcionário  diplomático,  já  estivera  em  meia  dúzia  de  países 
africanos  e  asiáticos.  De  um  deles  fora  expulso  como  persona  non 
grata  por  suspeitas  de  trabalhar  para  a  CIA.  Certa  vez  que  lhe 
perguntei  se  era  verdade  respondeu-me  apenas  que,  de  uma  forma  ou 
de  outra,  todo  o  funcionário  de  carreira  diplomática  acaba  por 
prestar  serviços  às  agências  governamentais.  E  não  avançou  mais, 
nem  as  actividades  mais  ou  menos  camufladas  que  Matt  pudesse 
desenvolver me interessavam por aí além. 
Matt devia andar pelos quarenta, trajava roupa com prada nos Brook 
Brothers de Nova Iorque e usava perma- 
 
114 
 
nentemente  óculos  de  lentes  finas  e  aros  pretos  e  grossos  e  a 
pasta castanha de crocodilo. Pessoalmente, eu estava convencido de 
que ele dormia com ambas as peças. Era espadaúdo e bem-falante, ao 
ponto  de  eu  um  dia  lhe  ter  sugerido  na  brincadeira  que  devia 
candidatar-se  a  senador.  Nessa  altura  olhou  para  mim  com  um  ar 
muito  sério  e  respondeu-me  que  tencionava  fazê-lo  daí  a  alguns 
anos. 
-  All  right,  Frank  -  disse  ele  quando  lhe  contei  a  história  por 
alto. - Por onde tencionas começar? 
Encontrávamo-nos  instalados  diante  de  uma  mesinha  baixa  e  dois 
copos de uísque, no vasto átrio do Hotel Tivoli, onde eu ia ficar 
alojado. 
Encolhi os ombros. 

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-  Imediatamente,  tenciono  ir  dormir  até  logo  à  noite.  Depois  de 
jantar  vou  ensaiar  o  meu  homem  em  Lisboa.  Depois  logo  se  vê. 
Entretanto aguardo informações do Ortega, de Madrid. 
- Acho bem, Frank. - Ele falava como se estivesse a presidir a uma 
reunião  de  negócios.  -  Entretanto,  eu  ponho-me  em  campo  para  te 
localizar  essa  menina  e  quem  a  acompanha.  -  Fitou-me  com  atenção. 
-  Podes  crer  que  farei  tudo  o  que  puder.  Para  além  do  aspecto 
profissional da questão, não me  esqueço do que fizeste por mim em 
São Paulo. Lembras-te? - E aqui teve um tipo de manifestação muito 
rara  num  sujeito  como  ele.  Os  lábios  distenderam-se-lhe  num 
sorriso  suave  que  era  o  reflexo  de  reminiscências  agradáveis. 
Agradáveis  para  ele  e  neste  momento,  porque  para  o  safar  eu 
metera-me  numa  série  de  sarilhos  de  que  só  a  muito  custo  me 
livrei. 
- Isso não foi nada, Matt - comentei com displicência. - Afinal de 
contas, tratava-se apenas de um bando de marginais. 
-  E  Maria  -  murmurou  sonhador.  Mas  logo  voltou  a  si  e  compôs  a 
expressão  habitual.  -  Bem,  Frank,  ficamos  combinados.  Logo  que 
tenha  algum  recado  para  ti,  passo  por  cá  ou  telefono.  Se  não 
estiveres,  deixo  na  recepção.  -  Indicou-me  um  dos  tipos  atrás  do 
balcão. - Aquele mais alto é o Vítor. Podes confiar nele. 
Bebeu o último golo de uísque e levantou-se, estendendo-me a mão. 
- Felicidades, meu amigo. E, para já, trata de descansar. 
 
115 
 
Não era preciso ser ele a dizer-mo. Mal se afastou, tirei a chave 
do bolso e fiz pontaria para o elevador. 
Já  estava  escuro  lá  fora  e  eu  começava  a  sacudir  as  pálpebras 
quando bateram à porta. 
- Entre - gritei, mas lembrei-me de que a deixara trancada e com o 
letreiro “Não Incomodar”, de modo que enfiei as calças e dirigi-me 
para lá. 
As  pancadas  não  cessavam,  antes  se  tornavam  mais  fortes  enquanto 
eu  girava  o  fecho  de  segurança.  Já  a  berrar  “Quem  é  o  animal...” 
quando,  ao  espreitar  pela  fresta,  dei  com  os  olhos  no  animal  em 
questão. 
-  Frank,  meu  grande  malandro!  Deixas-me  entrar,  iu-tenho  de  ficar 
aqui fora a fazer barulho? 
Escancarei  a  porta  e  ele  veio  abraçar-me  com  tanta  força  que  me 
tirou o fôlego para as palavras que eu ia dizer. Logo que o aperto 
abrandou, pude então retribuir com alegria e pronunciar: 
- Al Chasey! Como diabo...? 
- Ora, menino, já te explico tudo - foi dizendo à minha frente, ao 
mesmo tempo que me arrastava por um braço e me fazia sentar a seu 
lado no sofá. 
Em  seguida,  olhou  para  mim  com  aquele  sorriso  contagioso  que  lhe 
alegrava o rosto todo e perguntou-me: 
- Então? Por esta não esperavas, hem? 

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Ia  confessar-lhe  não  ser  nada  que  não  me  tivesse  passado  pela 
cabeça.  Em  vez  disso,  dei-lhe  uma  palmada  no  ombro  e  quis  saber, 
francamente interessado. 
- Conta lá tudo, para eu não gastar o tempo em perguntas. 
- Okay, aqui vai. - Interrompeu-se. - Não terás por aí dois cubos 
de gelo à mão? 
Havia na geleira, que lhe indiquei. Perguntei-me para que queria o 
Al  duas  pedras  de  gelo  se  não  havia  bebida  para  acompanhar.  Ele 
foi primeiro à casa de banho, trouxe dois copos de dentes, colocou 
duas pedras de gelo em cada um e deu resposta à minha interrogação 
abrindo  a  pequena  pasta  que  trazia  consigo,  do  interior  da  qual 
retirou  uma  garrafa  de  uísque  que  vinha  embrulhada  em  papel  de 
jornal.  Serviu  para  ambos,  engoliu  um  bom  trago,  e  depois,  com  o 
cigarro  aceso  e  entalado  entre  os  dentes,  se  resolveu  a 
prosseguir. 
- Foi por Francesca que soube onde te achar. 
 
116 
 
- Por Francesca? - fiz eu. 
-  Claro.  Cheguei  a  Madrid  e  telefonei-lhe  meia  hora  depois  de  tu 
teres  partido  de  Tânger.  Foi  só  o  tempo  de  apanhar  o  avião.  Ouve 
lá-sentenciou:  -  Achas  que  eu  te  ia  deixar  a  farejar  sozinho  um 
negócio  deste  tamanho?  Amigo,  tu  nesta  altura  sabes  já  melhor  do 
que  eu  que  nós  os  dois  não  seremos  de  mais  para  enfrentar  o 
sucesso  tremendo  que  este  êxito  fenomenal  nos  vai  trazer.  - 
Impediu com um gesto que eu abrisse a boca.-Frank, nós viemos cair 
mesmo  no  meio  da  maior  operação  que  já  se  desenrolou  a  nível 
mundial no mundo da droga. A maior operação de todos os tempos! 
-  Nós  viemos  cair?  -  consegui  articular  bem  alto,  endireitando-me 
no  sofá.  -  Tu  vieste  cair,  meu  filho...  Porque  eu  estou  metido 
nela! 
-  Okay,  Frank,  não  te  exaltes  -  aconselhou  com  ar  conciliador.  - 
Claro  que  não  vamos  discutir  isso.  O  que  eu  quero  dizer  é  que 
posso  ajudar-te.  Sabes  que  isso  sucedeu  noutras  alturas  e  o 
resultado foi proveitoso... Ou não foi? 
O  comentário  final  dele  deve  ter  decorrido  da  cara  que  fiz  ao 
recordar-me da experiência boliviana. 
- Claro que houve um caso ou outro em que as coisas correram menos 
bem  -  admitiu  com  naturalidade.  -  Mas  lembra-te  de  Macau.  Porque 
não  havemos  de  colaborar  como  fizemos  lá?  E  nessa  altura  - 
acrescentou  com  esperteza  -  eu  era  quem  estava  metido  e  foste  tu 
que caíste. Recordas-te? 
Contrariado, tive de admitir que sim. 

-  Está  bem,  Al  -  acabei  por  dizer,  não  só  por  isso,  mas 
lembrando-me do ditado “Se não podes vencê-los...” 
- Que propões, exactamente? 

Abriu os braços com tal vigor que o uísque do copo que segurava na 
mão me salpicou a cara. 
- Frank, eu não proponho nada... Tu é que estás dentro do assunto, 
tu diriges as operações. Concordas? 

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Ainda um bocado desconfiado, concordei. Que diabo, não tinha outra 
saída. Em seguida, apressou-se a dar-me mais uma boa novidade. 
- Para já, vou ficar neste hotel. Que tal? 
“Al  é  bom  tipo”,  disse  para  mim,  uma  vez  e  mais  outra,  com  a 
intenção  de  me  mentalizar.  “Al  é  um  tipo  estupendo,  um 
profissional competente e nunca rasteirou um amigo.” Concentrei-me 
tanto que um praticante de Zen 
 
117 
 
não  conseguiria  melhor.  A  tal  ponto  que  quando  Al  inquiriu, 
preocupado: 
“Frank,  estás  com  dores  de  cabeça?”,  eu  retorqui  com  um  sorriso 
tão  gentil  que  ele  poisou  o  copo  e  afastou-se  para  observar 
melhor. 
- Claro que é para mim um prazer trabalhar de novo contigo. 
- A sério, amigo? - exclamou com entusiasmo e uma palmada na mesa. 
- Ah, Frank, desta vez vamos rebentar com tudo! 
Era esse precisamente o meu receio. 
Passada  a  perturbação  que  o  aparecimento  dele  constituíra, 
jantámos  os  dois  alegremente  no  restaurante  do  terraço.  As  luzes 
nocturnas  da  cidade  eram  um  convite,  e  lugar  tranquilo  e 
requintado  e  o  serviço  excelente.  No  bar  contíguo,  um  pianista 
competente,  que  o  criado,  a  uma  pergunta  minha,  segredara  tratar-
se  de  um  conhecido  chefe  de  orquestra,  executava  melodias 
agradáveis.  Enfin,  o  sítio  ideal  para  um  casal  passar  um  serão 
magnífico. 
Bem, Frank, disse para mim, o teu par é Al Chasey, e, se gostavas 
para esta noite de uma companhia explosiva, aí a tens. 
Conversámos  de  um  milhão  de  coisas,  recordámos  experiências  mais 
ou  menos  recentes,  e  talvez  porque  a  marca  do  excelente  Dão  que 
nos  serviram  me  animou  até  uma  quase  languidez  confortável,  até 
consegui  divertir-me  com  o  relato  que  ele  me  fez  da  sequência 
final do episódio da Bolívia. 
Porém,  a  partir  de  determinada  altura,  o  velho  sentido 
profissional  do  dever  sobrepôs-se  ao  prazer  da  conversa  amena  em 
ambiente  de  luxo.  Para  recusar  o  convite  de  Chasey,  que  insistia 
em  apresentar-me  uma  amiga  portuguesa,  acabei  por  lhe  contar  que 
tencionava  ainda  nessa  noite  fazer  uma  breve  visita  ao  Senhor  Dos 
Santos.  Aí  ele  resolveu  que  tinha  muitas  saudades  do  seu  amigo, 
que  já  não  via  há  muito  tempo.  Neste  ponto  não  transigi,  de  modo 
que  o  Chasey  foi  mesmo  ter  com  a  amiga  e  eu  apanhei  outro  táxi 
depois que o dele se afastou. 
A  curta  permanência  de  algumas  horas  em  Lisboa  revelara-me  já  um 
facto  curioso  -  toda  a  gente  conseguia  exprimir-se  em  inglês. 
Desde  o  funcionário  da  alfândega  a  todos  os  empregados  do  hotel, 
passando pela menina da 
 
118 
 

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tabacaria, até ao motorista de táxi que me conduziu ao Restaurante 
do  Senhor  Dos  Santos,  qualquer  um  se  manifestava  melhor  ou  pior 
nessa  língua.  A  gramática,  a  pronúncia  e  o  vocabulário  não  haviam 
evidentemente sido aprendidos em Harvard ou Oxford. Porém, com tal 
empenho  e  comunicabilidade  o  faziam  que  o  entendimento  resultava 
fácil.  No  entanto,  se  eu  achava  que  isso  já  era  bastante,  o 
motorista  esclareceu-me  que  toda  a  gente  também  falava  espanhol, 
francês e italiano. Então senti-me verdadeiramente inferiorizado. 
O  estabelecimento  ficava  no  velho  bairro  de  Alcântara,  próximo  do 
rio  e  num  quarteirão  de  prédios  antigos  que  se  situavam 
exactamente  por  baixo  dos  acessos  da  ponte  que  liga  as  duas 
margens  do  Tejo.  Momentos  antes,  quando  percorríamos  a  ampla 
avenida que liga o centro a esta zona da cidade e dá também saída 
para a auto-estrada do Estoril, ao observar de longe o espectáculo 
das  longas  fiadas  de  lâmpadas  que  iluminam  os  cabos  extensos  dos 
tabuleiros,  eu  julgara-me  por  instantes  a  olhar  um  postal 
ilustrado de Brooklyn. 
A porta estreita era encimada por uma tabuleta luminosa e colorida 
que dizia “Pérola de Alcântara - Casa de Pasto”. Para entrar tive 
de pedir licença a um grupo ruidoso que jogava aos dados numa mesa 
colocada  no  passeio  defronte,  mas  lá  dentro  era  pior.  A  televisão 
gritava em altos berros, a audiência era compacta, e no balcão os 
dois  empregados  não  tinham  mãos  a  medir.  Alguns  dos  clientes 
olharam-me  desconfiados,  mas  logo  voltaram  às  suas  ocupações.  Por 
sobre  o  barulho  consegui  perguntar  pelo  patrão  a  um  empregado  que 
aviava  canecas  de  cerveja.  Ele  apontou  para  baixo,  e  foi  toda  a 
atenção que me deu. 
Decidi-me  a  descer  pelas  escadas  de  pedra  que  deviam  conduzir  à 
cave.  Fui  enfiar  directamente  nos  lavabos,  onde  um  tipo  urinava  a 
assobiar. Dei meia volta, desci mais um lanço e alcancei a sala de 
baixo,  que  devia  ser  o  restaurante.  Era  ampla,  asseada  e  muito 
menos  barulhenta.  Pela  única  razão  de  que  apenas  uma  das  mesas 
estava ocupada. Tratava-se de um casal que discutia acaloradamente 
enquanto comia. Porém, logo que a mulher deu por mim, fez sinal ao 
companheiro.  E  logo  que  ele  se  voltou,  e  me  viu,  levantou-se 
prontamente e veio ao meu encontro limpando as mãos a uma toalha. 
Era baixo, entroncado, de 
 
119 
 
barriga  proeminente  envolvida  num  avental  com  bonecos,  o  cabelo 
era negro, a formar grandes entradas, penteado com risco ao meio e 
bem  acamado  com  fixador.  O  rosto  era  daqueles  que  só  exibem  os 
tipos  que  já  viram  tudo;  nesse  momento,  porém,  abria-se  num 
sorriso agradável e franco de boas-vindas. 
-  Mr.  Gold?  Muito  prazer  em  recebê-lo.  Eu  sou  Mister  António  dos 
Santos. 
E sem me dar tempo a cumprimentar, puxou da algibeira da camisa um 
cartão-de-visita  que  me  obrigou  a  ler  antes  de  mo  entregar. 
Proclamava o seguinte: António Bernardo Mayer Horácio dos Santos - 
Indústrias  hoteleiras.  O  ramo  de  actividade  vinha  anunciado 

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igualmente  em  espanhol,  francês  e  inglês.  Seguia-se  a  adress,  que 
finalizava  com  Lisboa,  Portugal  e  os  números  de  telefone  da 
residência,  do  restaurante  e,  ao  que  suponho,  do  escritório. 
Deveras impressionante. Segurei o diploma, o qual já vinha dobrado 
no  canto  superior  direito,  entre  as  pontas  do  indicador  e  do 
polegar,  e  introduzi-o  com  precaução  no  bolso  onde  trago  a 
carteira. 
-  Mr.  Chasey  telefonou-me  há  questão  de  um  minuto  -  informou  com 
ar  de  public-relations,  enquanto  me  convidava  cerimoniosamente  a 
sentar. 
Sem  dúvida  que  também  o  Senhor  António  dos  Santos  falava  inglês, 
porém de uma forma muito fluente e cuidada. 
Ocupou o lugar defronte de mim e perguntou-me o  que queria tomar. 
Escolhi uma aguardente velha, que ele próprio se apressou a servir 
de  uma  prateleira  próxima,  muito  bem  fornecida  ao  que  pude 
apreciar.  A  dose  que  me  despejou  no  enorme  balão  era  sem  dúvida 
abundante, porém não tanto como a que abonou a si próprio. 
- Excelente, não é verdade? -elogiou, ainda eu não tinha levado  o 
cálice à boca. 
Apressei-me  a  confirmar  e  dispus-me  a  entrar  no  assunto  que  me 
trouxera  ali.  Não  foi  fácil,  pois  o  Senhor  Dos  Santos  não  ficou 
descansado  enquanto  eu  não  reconheci  que  Lisboa  era  a  cidade  mais 
linda do mundo, embora mal tivesse acabado de chegar. 
- Sim, meu amigo. Lisboa é sem dúvida uma verdadeira maravilha, a 
bela capital de um país com oitocentos anos de história. 
Cheguei a recear que o meu anfitrião resolvesse envere- 
 
120 
 
dar  pela  história  de  Portugal.  Todavia,  a  sua  versatilidade 
notável. 
- Sei que esteve com o meu querido amigo Eduardo de Castro, nosso 
cônsul em Tânger. Excelente homem, não é verdade? 
Não  me  preocupei  sequer  em  perguntar-lhe  como  diabo  ele  tinha 
conhecimento do episódio. Também não tive tempo para isso. 
-  Falaram-me  de  Washington  -  carregou  na  última  sílaba,  que 
pareceu saborear -e de Tânger. Tem consigo a matrícula? 
Logo  de  repente  não  compreendi  onde  queria  chegar.  Ou  a  minha 
cabeça estava cansada ou o Senhor Santos era rápido de mais. 
-  Claro  -  respondi.  -  E  apresentei-lhe  um  bocado  de  papel 
amarrotado que Felipe me entregara. 
- Hum -fez ele, mal a olhou.-Esta chapa é falsa. Foi roubada o mês 
passado. 
- Ah! - disse eu. 
- Pois... O carro era um Mercedes 180-D preto. Correcto? 
- Sim, Mr. Santos. 
-  Bom.  Deve  tratar-se  de  um  antigo  táxi,  dos  quais  umas  dezenas 
ainda  circulam  para  aí.  Certamente  foi  vendido  para  sucata  e 
aproveitado  por  alguém.  -  E  concluiu:  -  Eu  vou  saber  quem  é  esse 
alguém. 
- Muito bem - apoiei, com respeito aumentado. 

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-  Quanto  ao  outro  assunto  -  prosseguiu  -,  Mr.  Matt  Davis  é  a 
pessoa  indicada  para  obter  a  informação  que  lhe  interessa.  Eu  só 
intervirei se for caso disso. 
O  “outro  assunto”  era  certamente  a  localização  do  paradeiro  do 
gang de Tânger. 
-  Em  relação  ao  que  se  está  a  passar  no  Algarve  -e  terminou  o 
cálice  de  uma  assentada  -,  não  estou  dentro  do  assunto.  Posso 
tentar averiguar o que se passa, mas desde já lhe digo com toda a 
franqueza que seria caro e difícil. Contudo -fez uma pausa -, esse 
é um local e um ambiente em que o senhor se poderá movimentar sem 
dar nas vistas. E, pelo que sei -concluiu com um sorriso elogioso-
, Mr. Gold é um profissional muito qualificado. 
Limpou a boca com o guardanapo que tinha ao colo e voltou a encher 
o  balão.  Pedi-lhe  que  não  completasse  o  meu,  como  era  sua 
intenção. 
 
121 
 
-  Senhor  Santos  -,  avancei,  aproveitando  o  intervalo.  -Julgo  que 
está  informado  de  que  eu  ando  atrás  de  um  assassino  que  matou  um 
tipo no meu quarto de hotel. 
Ele  parecia  não  ouvir,  entretido  a  seguir  duas  moscas  que  andavam 
em torno da lâmpada fluorescente do tecto. 
-  Além  disso,  meti  o  nariz  nos  negócios  de  uma  organização 
poderosa  com  a  qual  já  tinha  travado  conhecimento  na  América  do 
Sul. Esses senhores parece estarem agora assentar bases em Tânger, 
associados a uma organização local. Lá em baixo quiseram matar-me. 
Santos voltou a encher calmamente o seu copo. 
-  Entretanto  –  continuei  -  vem  a  público  uma  notícia  sobre  o 
contrabando  de  droga  no  Algarve,  a  partir  de  Marrocos. 
Aparentemente,  tratava-se  de  mais  uma  quadrilha  que  só  por  ser 
rotulada  de  “internacional”  chama  atenção  das  pessoas.  A  polícia 
faz  o  que  pode,  deita  a  mão  a  meia  dúzia  de  traficantes,  mas  aos 
outros,  os  verdadeira  mente  importantes,  não  consegue  nunca 
chegar.  Por  uma  razão  muito  simples  -  a  cadeia  é  interrompida 
antes  dos  que  não  se  mostram,  e  continuam  a  viver  tranquilamente 
em 

castelos 

nos 

seus 

países, 

onde 

frequentemente 

são 

personalidades  economicamente  influentes.  Nalguns  casos  estão 
identificados  por  aquilo  que  são,  mas  gozam  de  protecção  oficial. 
É o que acontece na Bolívia e na Malásia, por exemplo. 
Suspendi o desabafo. Durante a última parte. Santo escutara-me com 
os  olhos  fixos  no  meu  rosto  e  agora  servia-me  meio  copo  com  um 
sorriso quase afectuoso. Desta vez não objectei. 
-  Gostava  de  ir  à  Malásia  -  disse  ele.-Por  causa  de  livros  do 
Salgari. 
-  Onde  eu  pretendo  chegar,  Mr.  Santos,  é  que  em  certas  alturas 
conseguimos  penetrar  onde  a  polícia  não  tem  acesso.  Isto  porque, 
embora  não  beneficiando  dos  poderes  e  dos  meios  de  que  os 
policiais  dispõem,  não  têm  em  compensação,  muitas  das  limitações 
que travam constantemente uma investigação de envergadura. 
Neste ponto resolvi concluir. 

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- É claro que por vezes as coisas não correm bem. Aconteceu-me em 
mais do que um lugar, e algumas  delas porque a polícia desajudou. 
Vamos ver o que sucede aqui. 
O  recado  estava  dado.  Santos  expôs  com  brevidade  e  cautela  o  seu 
ponto de vista. 
 
122 
 
-  No  seu  caso,  eu  teria  muito  cuidado,  Mr.  Gold.  A  polícia 
portuguesa  trabalha  bem,  é  compreensiva  no  que  se  “refere  à 
colaboração  dos  repórteres,  mas,  como  qualquer  polícia  do  mundo, 
não  gosta  que  lhe  pisem  os  calos.  Sobretudo,  procure  não  dar  nas 
vistas. Se precisar de recorrer a certos processos... menos dentro 
da  margem  da  lei,  é  preferível  que  me  diga,  e  eu  mando-lhe  um  ou 
dois  rapazes.  Estou  a  fazer-lhe  um  oferecimento  que  não  está  nos 
meus hábitos - esclareceu. - Mas pelo que contaram a seu respeito, 
e agora que o conheço, fica a saber que tem aqui um amigo. 
Ergueu  o  cálice  e  brindou.  Eu  correspondi,  e  tinha  razões  para 
fazê-lo. Ter em Mr. Santos um amigo era meio caminho andado. 
Vi  as  horas.  Nem  tarde  nem  cedo  para  aquilo  que  o  corpo  e  o 
espírito vinham exigindo havia muitas e longas horas. 
- Poderá mandar chamar um táxi?-pedi ao subir a escada. 
- Não é necessário - informou. - Tenho à porta um carro que fica à 
sua disposição. Um Mercedes com caixa automática. Foi o melhor que 
pude arranjar - desculpou-se. 
 
123 
 
CAPÍTULO XII 
 
-  Pensámos,  antes  de  vir  procurá-lo,  que  Mr.  Gold  estaria  mais... 
receptivo  a  colaborar  connosco  -  disse  o  da  esquerda  com 
suavidade. 
-  Claro  que  não  podemos  forçá-lo  -  pronunciou  o  outro  no  mesmo 
tom, expelindo uma delicada nuvem de fumo do cigarro longo que lhe 
saía de entre os dedos esticados. 
- Mas o facto, Mr. Gold, é que, como deve compreender, não podemos 
por  outro  lado  deixar  ficar  o  assunto  assim  -  volveu  o  primeiro, 
que  além  de  ter  muito  menos  cabelo  que  o  companheiro  também  não 
usava pestanas. 
-  Muito  embaraçoso,  na  realidade...  Muito  embaraçoso  -  comentou 
aquele displicentemente. 
Eram 

ambos 

pequeninos, 

corteses, 

impecáveis 

amarelos. 

Exceptuando o pormenor do cabelo e das pestanas eram a cópia um do 
outro.  Perguntei-me  se  o  mais  favorecido  não  usaria  capachinho. 
Trajavam  camisa  azul-clara  gravata  azul-escura,  fato  cinzento  de 
alpaca,  peúgas  pretas  e  sapatos  pretos  com  pequenas  fivelas 
douradas. 
- Acresce, Mr. Gold - prosseguiu o primeiro, de dedos entrelaçados 
-,  que,  se  nos  prestasse  esse  pequeno...  favor  lhe  ficaríamos 
muito gratos. 

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-  E  nós  sabemos  manifestar  gratidão  -  disse  o  parceiro  com  os 
olhos  semicerrados.  -  Pode  crer  que  passaria  a  dispor  de  nós,  em 
qualquer altura, local e circunstância. 
Tratava-se  sem  dúvida  de  uma  duplicação.  Brinquei  com  a  ideia  de 
saber qual deles seria o original, ou se teriam sido fabricados em 
série. 
O da minha esquerda continuou: 
-  Conforme  já  tivemos  a  preocupação  de  explicar,  o  nosso  problema 
reside no facto de não se tornar conveniente agirmos neste país. 
 
124 
 
A minha cabeça girou mecanicamente para o outro lado, embora a voz 
daí só tivesse começado a sair três Segundos mais tarde. 
- Enquanto o senhor, Mr. Gold, tem aqui os seus contactos e razões 
especiais  para  esclarecer  o  que  nos  Interessa.  E  acreditamos  que 
tenciona fazê-lo. 
Troquei  as  pernas,  porque  a  de  baixo  estava  a  ficar  dormente. 
Decidi também pedir outro café. Falou aquele que devia falar: 
-  Afinal,  Mr.  Gold,  que  tenciona  fazer  quando  o  localizar? 
Entregá-lo à polícia? 
Abri  a  boca,  mais  para  não  perder  o  hábito  do  que  por  vontade  de 
responder. 
- Exactamente. 
Um sorriso divertido apareceu primeiro no rosto do que eu decidira 
que  usava  capachinho.  Com  uma  simples  deslocação  lateral  dos 
olhos,  pude  constatar  por  simples  curiosidade  que  o  outro  fazia  o 
mesmo. Então resolvi que não valia a pena rodar  a cabeça. Bastava 
olhar em frente e usar a vista. 
- Perdoe-me a expressão, Mr. Gold, mas isso não faz sentido... 
-  Entregar  à  polícia  o  homem  que  procuramos  só  lhe  traria 
complicações... e nenhuma compensação. 
-  Ora  vamos,  Mr.  Gold.  Não  pretenda  convencer-nos  de  que  é  sua 
intenção  arranjar  mais  problemas,  seja  com  a  polícia  de  Tânger  ou 
com a de Lisboa. 
Enfrentei  um  de  cada  vez.  Eles  acompanharam  com  respeito  o  meu 
silêncio. Até que eu o quebrei. 
- Vai outro cafezinho, cavalheiros? 
Encararam-se  com  ar  triste,  mas  logo  recuperaram,  e  anuíram  à 
proposta. 
Aguardámos  todos  calados  que  o  empregado  trouxesse  os  cafés. 
Engoli  o  meu  com  sofreguidão,  acendi  um  cigarro  e  já  ia  quase  a 
meio ainda eles  bebericavam, a mão esquerda a sustentar o pires  e 
a  direita,  com  o  dedo  mínimo  espetado,  a  segurar  a  chávena  pela 
parte  inferior  com  o  mesmo  cuidado  com  que  agarrariam  uma  bolinha 
de sabão. 
Aguardei  que  poisassem  os  apetrechos,  passassem  os  guardanapos 
pelos lábios, e soltei uma pergunta. 
-  E  se  eu  fizer  isso  que  me  propõem,  posso  contar  com  o  vosso 
apoio em Marrocos? 
 

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125 
 
Foi  como  se  os  rostos  deles  se  transformassem  em  balõezinhos 
iluminados. 
-  Oh,  sim,  Mr.  Gold.  E  não  apenas  em  Marrocos.  Se  descobrir  para 
nós quem matou o venerável Wong - fez uma pausa recolhida -, será 
credor da nossa eterna gratidão. 
E o outro rematou: 
- E os 47 000 dólares serão seus. Fitei-o. 
- Não acham que é muito dinheiro só por esse trabalho? 
-  Oh,  de  modo  nenhum  -  foi  a  resposta.  -  Porque  a  partir  daí 
cremos poder esclarecer tudo o resto e continuar os sonhos de Mr. 
Wong. 
Afinal,  pensei,  o  que  eles  pretendiam  era  que  fosse  eu  a 
“esclarecer”  tudo,  isto  é,  no  que  lhes  interessava,  afastar  da 
competição,  neste  lado  do  Atlântico,  a  organização  de  Afonso 
González. Isso para eles valia 47 000 dólares. 
-  Não  acham  que  estão  a  sobrestimar  as  minhas  capacidades?  - 
lancei,  fazendo  de  conta  que  aquilo  que  eu  pensava  saíra  da  boca 
deles. 
Não  se  perturbaram  nem  fizeram  qualquer  esforço  para  negar  as 
intenções que eu lhes atribuía. 

- Nós daremos toda a colaboração possível, Mr. Gold. 
- Ainda bem - foi só o que eu disse, e não sei se perceberam a 
ironia. 

Compreenderam,  no  entanto,  que  era  o  fim  da  conversa.  Levantaram-
se  ao  mesmo  tempo,  fizeram  uma  vénia  conjunta,  agarraram  nas 
pastas iguais, apertaram-me a mão e retiraram-se. 
Orientaizinhos  engraçados,  murmurei  para  dentro.  Não  desejaria 
porém cair-lhes nas mãos. 
Aquela  conversa  simpática  decorrera  no  bar  do  terraço  onde  cerca 
das  dez  eu  tomava  o  meu  café  matinal.  Eles  tinham-se  feito 
anunciar pelo telefone, “da parte de Mr. Wong”.  Claro que isso me 
fizera entornar uma parte do conteúdo da chávena. No entanto, dado 
a  delicadeza  do  assunto,  havia  que  reconhecer  que  a  troca  de 
impressões não correra mal. 
Fora  este  episódio  eu  acordara  muito  bem  disposto  após  nove  horas 
de  sono  pesado.  Na  véspera,  o  meu  amigo  Senhor  Santos  mandara  um 
empregado conduzir-me ao 
 
126 
 
hotel  no  reluzente  Mercedes  metalizado,  que  ficara  estacionado  no 
parque  das  traseiras.  E  antes  de  me  deixar  cair  na  cama  eu  só 
fizera  mais  uma  diligência:  introduzir  por  debaixo  da  porta  do 
quarto de Al Chasey um papel em que o ameaçava de morte se ele se 
atrevesse  a  aparecer-me  antes  de  almoço.  Fora  provavelmente  uma 
preocupação [necessária. 
A  vida  nocturna  em  Lisboa  começa  e  acaba  tarde,  e  a  esta  hora  o 
meu sócio ainda devia ir no primeiro sono. 

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Agora  o  sol  entrava  pelos  vidros  altos,  incidindo  nas  garrafas 
poisadas  no  balcão  onde  eu  me  fora  empoleirar  e  até  onde  a  minha 
vista  alcançava  o  Senhor  Santos  tinha  razão:  quanto  à  paisagem, 
Lisboa é uma linda cidade. Veríamos o resto depois. 
Saboreei  o  prazer  desta  pausa  necessária.  Pensei  em  Karin, 
rememorei todos os pedacinhos vividos com ela. Os maus e os bons. 
Tudo se passara em vinte e quatro horas, mas não fora um sonho. E 
agora  ali  estava  eu,  como  um  estudante  no  café,  a  sentir-me 
percorrer  por  impressões  tão  agradáveis  que  poucas  vezes  na  vida 
se conseguem experimentar. 
Hei-de  encontrá-la  hoje,  repetia,  e  essa  ideia  tornara-se  numa 
obsessão.  Longe  de  me  inquietar,  perturbava-me  apenas  pela 
necessidade  imperiosa,  física,  de  recuperá-la  hoje  mesmo.  E  a 
vontade  era  tão  forte  que  uma  ou  outra  dúvida  era  logo 
ultrapassada.  Eu  precisava  de  Karin,  pressentia  que  ela  precisava 
de  mim,  encontrava-se  em  Lisboa  e  eu  ia  buscá-la.  Tão  certo  como 
isso.  Vi  as  horas  e  olhei  para  o  telefone.  Hesitei  em  ligar  para 
Matt Davis. Adiei a decisão. Ele ficara de falar para mim logo que 
tivesse  qualquer  informação  para  me  dar.  Eram  onze  horas  e  eu  ia 
esperar até ao meio-dia. Na recepção sabiam onde eu estava. 
Para ultrapassar a impaciência pus-me a conversar com o empregado, 
que limpava uma fila de copos atrás do balcão. 
Às  onze  e  meia  chegou  o  telex  de  Madrid.  Trezentas  palavras  para 
me  dizerem  o  que  eu  já  sabia.  A  única  novidade  era  um  recado  do 
meu  director,  a  recomendar-me  moderação,  e,  a  finalizar,  duas 
linhas  de  encorajamento  do  chefe  de  secção  estrangeira,  Frank 
McGovern,  a  felicitar-me  pela  contribuição  para  o  sucesso  na 
operação de 
 
127 
 
captura  dos  traficantes  de  Tânger.  Mandei-o  para  o  diabo,  rezei-
lhe  pela  saúde  para  que  não  se  lembrasse  de  publicar  aquela 
tolice, e mandei para o diabo também a informação ridícula de que 
o meu crédito era agora de 2725 dólares. Que fossem todos passear. 
Eu  havia  de  ir  para  diante,  e  o  meu  crédito  actual  era  de  49  725 
dólares.  Sorri  deliciado.  O  empregado  olhou-me  com  curiosidade  e 
perguntou se eu queria uma bebida. Respondi-lhe que ainda era cedo 
pus-me  a  contemplar  discretamente  as  formas  da  garota  loura  que 
fora  sentar-se  num  sofá  próximo  da  varanda,  e  receber  no  belo 
rosto  bronzeado  e  nas  longas  pernas  douradas  o  esplêndido  sol  da 
manhã. 
Às  onze  e  quarenta  e  cinco  o  telefone  do  balcão  tocou  para  mim, 
mas  foi  o  empregado  que  atendeu,  porque  o  outro  lado  não  falava 
inglês.  Era  da  parte  do  Senhor  Santos,  a  informar  que  um  dos 
rapazes  dele  vinha  a  caminho  com  a  informação  que  eu  já  sabia. 
Tomei  nota,  puxei  de  outro  cigarro  e  virei  a  cabeça  para  a 
varanda,  a  garota  endereçou-me  um  sorriso.  Eu  estava  a  funcionar 
noutra  frequência,  por  isso  só  lhe  correspondi  uns  segundos 
depois. 

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Passados dez minutos, a campainha do aparelho deu sinal outra vez. 
Tinha  de  ser  Matt,  -  O  Senhor  Davis,  para  Mr.  Gold.  Saquei  o 
auscultador das mãos do criado. 
- Matt? Então? 
-  Calma,  Frank.  -  A  voz  pausada  dele  quase  me  deixou  irritado.  - 
Só não te telefonei mais cedo porque quis aguardar a confirmação. 
- Encontraste-os? 

- Claro.-E adiantou só: -Sei onde se encontram. 
- Diz lá! 

- Ouve, Frank, eu de qualquer modo tenho de passar por aí para te 
explicar uns detalhes. 
- Então vem já. É aqui perto? 
- A trinta quilómetros. Agora não te digo mais nada. Até já. 
Desligou,  e  eu  fiquei  feito  pateta  a  olhar  para  o  bocal,  ver  se 
saía  mais  alguma  coisa.  Por  fim,  entreguei  o  auscultador  ao 
empregado,  que  achou  por  bem  perguntar-me  se  eu  queria  um  uísque. 
Anuí prontamente. 
A  tensão  da  espera  foi  gradualmente  diminuindo.  Agora  sim,  estava 
a andar para diante outra vez. Não que aprecie 
 
128 
 
particularmente a acção ininterrupta. Acção violenta, quero dizer. 
Só que desde a partida de Tânger eu vinha sentindo como se algo -
uma  sequência  decisiva-  se  tivesse  quebrado  a  meio.  Ansiava 
retomá-la,  e  uma  coisa  já  conseguira  -  apanhar  novamente  o 
comboio. Era só prosseguir a viagem. 
A  loira  veio  sentar-se  a  dois  bancos  do  meu  e  encomendou  um 
martini.  Em  seguida  voltou-se  ligeiramente  para  mim.  Compreendi 
que  me  pedia  lume.  Os  olhos  azuis  perscrutaram-me  através  das 
pestanas e por sobre a chama do isqueiro que lhe estendi e a forma 
como a boquinha oval envolveu o cigarro era pelo menos erótica. 
- Frank, meu velho, e eu que te julgava a trabalhar para nós dois! 
Após  ter-se  instalado  no  lugar  disponível  e  cumprimentando 
amavelmente  à  esquerda,  Al  Chasey  indagou  que  marca  eu  estava  a 
beber e mandou servir um igual para si. 
-  Interrompi?  -  inquiriu  com  um  sorriso  descarado,  piscando-me  o 
olho. 
O  baixar  de  uma  das  pálpebras  pode  provocar  em  nós  reacções  bem 
distintas. 
Apeteceu-me  muito  selar-lhe  a  outra  com  um  murro  bem  assente.  Em 
vez disso, e para lhe apagar o sorriso, fui ao que interessava. 
-  Se  queres  saber,  o  Matt  vem  aí.  Além  disso,  vem  aí  também  um 
rapaz  com  um  recado  do  nosso  amigo  Santos.  E  já  passaram  por  cá 
Mr.  Kim  e  Mr.  Su,  dois  sujeitos  simpáticos,  a  informarem-se  sobre 
a minha saúde. Como vês -concluí -, sou muito solicitado. 
Se o que eu pretendera era captar-lhe a atenção, o facto de ele se 
esquecer  da  loira  atestava  o  resultado.  A  boneca,  sentindo-se 
ignorada, concentrou-se no martini. 
Chasey  obrigou-me  a  fazer-lhe  um  relato  sucinto  da  diligência  da 
véspera,  mas  no  que  se  referia  aos  visitantes  da  manhã  pintei-lhe 

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apenas  uma  aguarela.  Em  tudo  o  que  respeitava  a  Mr.  Wong  eu  era 
muito  sensível.  Al  só  levou  o  copo  à  boca  quando  lhe  garanti  que 
não havia mais nada. 
Nesse  momento  assomou  um  tipo  à  entrada.  Era  mulato,  vestia 
simplesmente  camisa  e  calças  e  obviamente  procurava  alguém.  Fiz-
lhe  sinal  donde  estava.  Logo  que  se  aproximou,  agarrei-o  por  um 
braço, sustive o meu sócio com o outro e conduzi o mensageiro para 
um canto da sala. 
 
129 
 
Articulou  umas  palavras  de  que  eu  só  percebi  “Senhor  Santos”, 
estudou-me  atentamente  com  o  rosto  esperto  e  mesmo  depois  de  me 
identificar,  ainda  me  observou  uns  segundos  para  ver  se  conferia. 
Satisfeito com o resultado, desentalou dos cós das calças um papel 
dobrado  que  repassou  para  a  mão.  Eu  estendi-lhe  uma  nota,  ele 
recusou e deu meia volta. 
Do balcão, Al Chasey observava-me com um pé no chão. 
Li rapidamente o recado, redigido numa caligrafia bem desenhada: 
Caro amigo. 
A  pessoa  que  procura  é  um  espanhol,  chama-si  António  Fernández,  é 
conhecido  por  “Toni”  e  mora  na  Travessa  do  Fala-Só,  nº  83,  num 
quarto  independente  ao  cimo  das  escadas.  A  melhor  altura  para  o 
encontrar é à noite, a partir das onze. E preferia que me deixasse 
mandar  tratar  do  assunto.  De  qualquer  modo,  aconselho-o  a  não  ir 
sozinho.  Mr.  Chasey  será  uma  boa  companhia.  A  pessoa  em  questão 
costuma andar prevenida. Não fala inglês Sempre às suas ordens. 
A.S. 
Sorri.  Impossível  exigir  mais.  E  o  malandro  do  Al  estava  com 
sorte.  Regressei  ao  balcão  e  só  não  lhe  entreguei  o  papel  porque 
ele mo arrancou das mãos. 
- Vamos lá esta noite? - quis confirmar, ansioso. 
- Claro, parceiro. Mas agora são horas de almoço. E aí vem o Matt! 
Qualquer  observador,  ao  ver-me  saltar  para  o  chão  constataria  que 
se havia ali alguém ansioso era eu. 
Matt  colocou  a  pasta  em  cima  da  mesinha  em  torno  da  qual  nos 
sentáramos,  e  tanto  eu  como  Chasey  ficámos  a  olhar  para  ela,  à 
espera  do  que  ia  sair.  Afinal,  Matt  falou,  sem  tocar  sequer  na 
maleta. 
-  Montaram  o  quartel-general  em  Sintra,  numa  casa  que  pertence  a 
um milionário português. 
- Ela está lá, Matt? 
- Ben Youssef, a rapariga, Abdul Ahrman, o pessoal de casa e cinco 
guardas, dois que trouxeram de Tânger e três 
 
130 
 
portugueses.  Adolfo  González,  a  mulher,  a  filha  e  Ricardo  Sanchez 
partiram esta manhã para Albufeira no avião de González. 
Matt  falava  como  era  seu  hábito,  sem  emoção,  como  se  Apresentasse 
um relatório. Bem vistas as coisas, era exactamente isso. 

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- Precisamos de pormenores - disse Al. 

Tenho aqui uma planta do sítio. Depois de almoço vamos até ao 
quarto de Frank. Mas ficam desde já a saber uma coisa: actuam 
por vossa conta  e risco. - Indicou Chasey. - Ele está metido 
nisto? 

Foi  o  visado  quem  esclareceu,  quase  com  indignação:  -Claro  que 
estou metido nisto! Mesmo que não fosse do meu interesse, Frank é 
meu amigo, não é? E, além disso -teve de acrescentar -, quando se 
trata  de  salvar  donzelas  em  perigo,  Al  Chasey  nunca  faltou  à 
chamada. 

- Nesse caso - declarou Matt -, vamos todos almoçar. 
“Nesse caso” porquê, perguntei-me, mas fui atrás deles. 

O  almoço  decorreu  ali  mesmo,  no  restaurante  contíguo,  onde  eu  já 
jantara  na  véspera.  Embora  o  local  se  achasse  menos  tranquilo  do 
que à noite, e a luz forte que inundava a sala, vinda de fora, lhe 
conferisse  outro  ambiente,  havia  em  contrapartida  o  panorama  da 
cidade. O casario subia irregularmente pela colina até ao castelo, 
e para baixo, à nossa direita, prolongava-se em formas geométricas 
de  telhados  vermelhos  em  direcção  ao  estuário  do  Tejo.  Diante  de 
todo  esse  espectáculo  deslumbrante  de  luz  e  de  cor  desejei  ainda 
mais ter Karin ali a meu lado. 
- O González vai pagar-mas - declarava Al Chasey com convicção.  - 
Depois de eu lhe pôr as mãos em cima, pouca coisa vai sobrar para 
a polícia. 
-  Nada  de  parvoíces,  Chasey  -  aconselhou  Matt,  servindo-se  do 
vinho  que  restava  na  segunda  garrafa.  -  Por  acaso,  não  anda  em 
Lisboa com armas, pois não? 
-  Não  -  assegurou  Al,  e  falava  verdade,  porque  a  pistola  que 
arranjara na véspera tinha-a escondida no quarto. 
-  Ainda  bem  -  suspirou  Matt.-  Não  nos  metam  em  sarilhos.  Posso 
também confiar em si, não é verdade, Frank? 
O  incidente  de  Marrocos,  do  qual  já  recebera  certamente  o 
relatório  circunstanciado,  não  o  deixara,  pelos  vistos,  muito 
descansado. 
 
131 
 
-  Portem-se  bem  -  disse  ele  como  se  estivesse  a  fazer 
recomendações a dois meninos mal comportados. - Mas tenham cuidado 
convosco. 
- Tens de casar - disse Al. 
- Ora essa, porquê? 
- E teres filhos, Matt. Uma mulher, casa e três filhos. É isso que 
tu precisas, Matt. 
-  Ora,  Al  -fez  Matt,  comovido  com  tanta  ternura.-  Já  não  tenho 
idade. Mas que ideia foi essa agora? 
- Precisas de uma família para chatear, Matt -foi a resposta. 
Eu levei o guardanapo à boca e anunciei que precisava de um café. 
- Vou até lá dar uma vista de olhos - anunciou o meu companheiro. 
Matt  Davis  já  se  fora,  deixando-nos  a  apreciar  os  elementos  que 
nos tinha entregue. A planta, que era um esboço  bem desenhado com 

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todas  as  indicações  necessárias  escritas  a  lápis,  achava-se 
desdobrada  em  cima  da  cama.  O  desvio  que  conduzia  da  estrada 
principal,  por  entre  as  árvores,  ao  portão  da  quinta,  a 
localização  da  casa  e  respectivos  acessos,  a  disposição  das 
veredas e da vegetação no jardim e no vasto parque que a cercava, 
tudo  se  encontrava  devidamente  assinalado.  À  parte  figurava  uma 
planta do próprio edifício e dos anexos. 
-  Okay,  leva  o  carro.  -  Passei-lhe  as  chaves.  -  Conhecem  o 
caminho? 
-  Já  passei  umas  férias  em  Sintra  -  retorquiu.-Esplêndidas,  por 
sinal. 
-  Pois  sim,  Al.  Esquece  agora  essa  parte  e  recorda  apenas  o  que 
nos  puder  servir.  Eu  vou  estender-me  um  bocado.  Acorda-me  quando 
chegares. 
- É bom ter um sócio, não é? -gracejou.- A que hora:-é o Toni? 
- Às onze - recordei-lhe. 
- Dá tempo para jantarmos todos fora. Acabei de dobrar o mapa, que 
lhe passei para as mãos. 
- Quem são todos, Al? 

- Ora... nós dois, a Helena e a... 
Fui dizendo enquanto abria a cama: 

- Tira isso da ideia, menino. Já temos programa para hoje. 
 
132 
 
- Podemos cear... - alvitrou. Encarei-o. 
- Também não. Depois de conversar com o Toni vamos a Sintra. 
- Esta noite? 

- Claro. - Baixei a persiana. - Ou queres ir lá de dia? 
Encolheu os ombros. 

- Bem... desta vez quem manda és tu. 
-  Foi  isso  que  combinámos.  Preparou-se  para  sair.  Já  da  porta, 
atirou: 
Dá para tomarmos o pequeno-almoço... Ou também não? 
A almofada já não o atingiu. 
 
133 
 
CAPÍTULO XIII 
 
Parámos o carro onde Al indicou, perto de um fontanário, num largo 
espaço  calcetado  onde  estacionavam  outros  carros  com  aspecto  de 
abandonados. Como era esse todo  o aspecto do sítio, desde os dois 
candeeiros espetados em cada canto aos prédios tristes e apagados. 
Só uma taberna com três fregueses dava alguma vida ao local. Para 
além  disso,  luz  mortiça  numa  janela  e  um  ou  outro  carro  a  passar 
lá em baixo. 
Meti atrás dele  pela calçada que abria numa das  esquinas do largo 
e  depois  pelo  ziguezague  das  vielas  sombrias,  onde  a  espaços 
regulares,  em  andares  térreos  de  janelas  abertas,  alguém  via 
televisão com as luzes apagadas. Espectáculo estranho, este, de um 

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bocado  de  cidade  onde  a  luz  e  a  vida  da  noite  eram  pedaços  de 
écran a projectar a sua luminosidade azulada para gente no escuro, 
e  os  sons  se  repetiam  de  uma  qualquer  peça  de  teatro  que  era  a 
mesma em todas as casas. 
A dada altura detive-me junto de um vão para acender um cigarro e 
perguntei  a  Al  se  sabia  onde  estava.  Respondeu-me  que  conhecia 
Lisboa  tão  bem  como  Hong  Kong  ou  Xangai,  e  eu  fiquei  preocupado 
porque, que eu soubesse, o meu amigo nunca estivera em Xangai. 
O certo é que a meio do cigarro deteve-me com um gesto e segredou: 
- Deve ser aqui. 
Que  ele  tivesse  deixado  o  carro  ao  fundo,  decidira,  apesar  de 
tudo,  aceitar.  Mesmo  tendo  um  táxi  passado  ha  momentos  por  nós. 
Agora que falasse num murmúrio, quando os barulhos do interior das 
casas, naquela rua, atingiam um volume notável, isso não entendia. 
-  Nunca  estiveste  em  Lisboa,  Frank  -  antecipou-se  ele.-  Se 
percebem que somos estrangeiros, vem toda a gente à janela. 
Pensei para mim que como naturais de lá do bairro é 
 
134 
 
não  era  provável  que  pudéssemos  passar,  mas  nessa  altura  já  Al 
Chasey, depois de se ter certificado do nome da rua numa placa da 
esquina próxima, me puxava para o interior do prédio. 
E  Só  a  entrada  era  quase  sinistra,  luz  não  havia.  A  claridade  da 
rua  deixava  apenas  distinguir  os  primeiros  degraus  de  madeira 
velha de um lúgubre lanço de escadas. 
pelas  frestas  da  porta  empenada  que  dava  para  o  vão,  à  nossa 
esquerda,  escoava-se  um  pouco  de  luz.  Do  interior  chegava-nos  o 
som  dos  diálogos  da  tal  peça  de  teatro.  Al  pôs-se  a  ranger  os 
degraus  e  eu  deitei  a  ponta  do  cigarro  para  o  passeio  e  pus-me  a 
subir com cautela. Sempre arrumado à parede, a tactear com as mãos 
a caliça a despegar-se e com os pés as tábuas, que davam de si. 
No patamar do primeiro piso Al parou e disse: 
- Já falta pouco. 
Eu  não  disse  nada  e  passei  adiante.  Se  havia  que  chegar  ao  topo, 
quanto  mais  depressa  melhor.  Nos  dois  pisos  por  que  transitámos  o 
ambiente era o mesmo. Aquela luz azulada a filtrar-se pelas fendas 
das portas e as vozes dos actores da peça. Ou os Portugueses eram 
doidos por teatro, ou não tinham por onde escolher. 
Até  que  alcançámos  o  último.  Aí  a  luz  do  exterior  entrava  pela 
clarabóia  partida,  o  que  permitia  ao  menos  distinguir  onde  era  a 
porta. 
Porque aqui não havia televisão a funcionar. 
Para o patamar abriam-se duas portas. Uma delas tinha um ralo e a 
outra não. Al indicou a segunda e bateu com os nós dos dedos. Só à 
terceira  série  de  batidas  é  que  nos  respondeu  um  arrastar  de 
passos lá dentro, e logo uma voz perguntou algo, mesmo encostada à 
madeira. Al falou em francês. 
- É da parte de um amigo, Toni. Ou preferes que traga a polícia? 
Em relações públicas não há como Al Chasey. O facto é que a porta 
se  entreabriu.  Ia  voltar  a  fechar-se  logo  em  seguida,  mas 

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encontrou o pé de Al, e a mão dele avançou pelo intervalo, direita 
a  algo  lá  dentro,  e  todo  o  corpo  arremeteu  com  força, 
desaparecendo  no  escuro  por  cima  de  um  ruído  de  mobília  a  tombar 
no  chão  e  loiça  a  partir-se.  Quando  dei  por  mim  estava  à  procura 
da luz, e ao ligar o interruptor que fez funcionar a lâmpada fraca 
do  tecto  o  que  os  meus  olhos  viram  foi  o  suficiente  para  fechar 
logo a 
 
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porta  com  o  pé.  Havia  no  quarto  miserável  uma  cama  desfeita.  Ao 
lado  era  uma  mesa,  com  o  que  restava  de  uma  jarra  de  loiça  a 
escorrer  água  para  o  chão.  Das  duas  cadeiras  viradas,  uma  delas 
estava  partida.  Junto  de  um  dos  pedaços,  caída  sobre  o  caule  de 
uma  flor  de  plástico,  jazia  uma  pistola  6,35.  A  dois  passos  da 
arma  havia  umas  biqueiras  de  uns  chinelos  velhos  de  quarto  que 
subiam  por  umas  calças  de  pijama  listradas,  um  tronco  magro  e 
peludo  e  um  rosto  que  não  era  agradável  de  ver.  Não  devia  ser  em 
circunstâncias  normais,  mas  assim,  com  a  boca  aberta  e  os  olhos 
aterrorizados a saírem das órbitas era uma imagem medonha. As mãos 
fortes  de  Al  Chasey  agarradas  ao  pescoço  dele,  mantinham-lhe  a 
nuca de encontro à parede. 
- Frank, este é o Toni. 
Al falava pausadamente em francês. 
- Vamos sentar e conversar um bocado. 
Aliviou  a  pressão  da  garganta  do  sujeito,  que  abriu  ainda  mais  a 
boca como se quisesse aspirar todo o ar que havia no quarto. E ali 
permaneceu,  lívido  e  estático,  a  mover  apenas  os  olhos  raiados 
como se fossem dois peixes num aquário. 
Eu  fui  endireitando  uma  cadeira,  mas  mesmo  assim  alguém  teria  de 
se sentar na cama. Al decidiu que esse era o lugar do proprietário 
da  casa,  porque  o  arrastou  por  uma  orelha  e  o  atirou  para  lá. 
Depois cada um de nós ocupou a sua cadeira, ambos virados para ele 
e com as pernas a roçar o colchão. 
- Okay, Toni. Chega de conversa fiada. 
O outro olhou-o  com espanto e ia dizer qualquer  coisa enquanto se 
endireitava.  Al  dissuadiu-o  com  uma  estalada  que  o  atirou  de  novo 
aos lençóis. Um dos chinelos foi parar debaixo da mesa, na poça de 
água. 
- Só respondes ao que eu perguntar. Percebeste? 
O tipo conseguiu fazer que sim, mesmo na posição em que estava. 
- Bom. Quem é que te pagou a viagem a Tânger? 
- Romero. - O som saiu entre rouco e rachado. 
- Que é isso, Romero? 
- Um... amigo. 
Al virou-se para mim. 
- Frank, ele diz que é um amigo... Muito bem, Toni- continuou. - E 
o que faz esse amigo? 
 
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- Faz... contrabando. 
- Fala mais alto, Toni. Faz o quê? 
-...contrabando. 
Al bateu o pé no chão com impaciência. 
- Põe-te como deve de ser e explica-te bem. Contrabando de quê? 
Toni passou a língua amarela pelos lábios secos. 
- Uísque, tabaco... relógios. 
- É um bom negócio, Toni. E que mais? 
O tipo franziu a testa, como se não percebesse. 
- Mais. 
Desta vez a pancada foi menos espectacular mas mais forte, com as 
costas  da  mão,  e  a  boca  dele  começou  a  sangrar.  Al  não  lhe  deu 
muito tempo para se recompor. 
- No hotel de Tânger mataste um homem. 
Aqui,  o  fulano  reagiu  como  se  tivesse  levado  uma  descarga 
eléctrica,  porque  saltou  no  colchão  e  voltou  a  cair.  O  rosto 
transtornado era agora uma máscara de terror. Pôs-se a gemer. 
- Não fui eu... Não fui eu... 
-  Diz  que  não  foi  ele,  Frank  -  falou  Al  para  mim,  com  ar 
desconsolado. 
-  Não  fui  eu-repetia  o  sujeito,  já  monocórdico  e  com  a  voz  a 
sumir-se. 
- Okay, não foste tu. Então quem foi? E o carro também não é teu? 
-  Foi  Romero  -  soltou  ele  rapidamente  com  toda  a  energia  que  lhe 
restava. -O carro é meu. Eu só o levei até lá... 
Resolvi intervir. 
-  É  verdade,  Al.  Não  corresponde  à  descrição.  Este  só  levou  o 
carro. Pergunta-lhe onde pára esse Romero. 
O  meu  companheiro  fez  o  que  lhe  pedi.  A  resposta  tardou  o  tempo 
suficiente  para  outra  estalada  e  uma  palmada  no  ouvido  que  fez  o 
Toni deitar saliva pelo canto da boca e ficar agarrado à cabeça. 
- Em... Albufeira. 
Al  olhou  para  mim.  Fiz-lhe  sinal  que  chegava.  Ele  levantou-se  e 
empurrou  a  cadeira  para  trás.  Eu  fiz  o  mesmo.  Ele  falou  para  o 
espanhol e despediu-se com qualquer coisa como: 
- Por hoje, amigo, vamos andando. E se fosse a ti não 
 
137 
 
avisava o camarada Romero. Porque se fizeres isso, nós dizemos-lhe 
quem falou dele. 
Acrescentou  mais  duas  frases  que  eu  não  percebi  e  dirigimo-nos 
para  a  saída.  No  caminho  apanhei  a  arma  do  chão,  embrulhei-a  no 
lenço e enfiei-a no bolso. 
Achei  que  não  valia  a  pena  fechar  a  porta  atrás  de  mim.  Desci  a 
escada  depressa  e  fui  apanhar  Al  já  na  rua,  a  inspirar 
profundamente o ar fresco da noite. A receita serviu para mim. 
Antes  de  começarmos  a  descer  a  calçada,  ele  proferiu  com  ar 
cansado: 
- Puta de vida esta... 

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Viemos  calados  durante  quase  todo  o  percurso.  Quando  eu  estava  à 
espera de ver a tabuleta que indicava a entrada da vila, Al Chasey 
virou o volante para a direita e os faróis iluminaram uma estreita 
vereda e os troncos das árvores através das quais ela se sumia. 
- É por aqui? -perguntei. 
- Não.- Parou o Mercedes e desligou o motor. - É do outro lado da 
estrada. Mas não queres estacionar à porta, pois não? 
Encolhi os ombros. Ele é que reconhecera o lugar. E pela descrição 
que  me  fizera  à  hora  de  jantar,  as  coisas  não  iam  ser  fáceis.  Os 
problemas  começariam  quando  saltássemos  o  muro,  pelo  lado  oeste, 
para  tentar  a  garagem,  onde  Al  esperava  só  encontrar  um  dos 
guardas.  “A  aproximação  do  muro,  e  contorná-lo,  não  oferece 
dificuldades”,  explicara.  “Há  árvores  por  todo  o  lado  de  fora  e 
uma  vereda  que  contorna  a  propriedade  pelo  exterior.  O  cabo  dos 
trabalhos  vai  ser,  lá  dentro,  aproximarmo-nos  da  casa  sem  sermos 
detectados. Pelo sítio que eu penso, estaremos a uns cem metros do 
lado oeste do edifício principal. Um pouco recuada fica a garagem. 
Temos cinquenta metros a percorrer em campo aberto. A partir daí é 
uma  questão  de  sorte.Era  assim.  Essa  descrição  que  ele  me  fizera 
ao  vivo  ajudava  a  ler  a  planta  que  ambos  estudáramos  até  quase 
ficarmos  com  dores  de  cabeça.  O  factor  de  risco  é  que  não  estava 
calculado lá. E disso ou da sorte, se quiserem, dependia tudo. 
Eu tinha perguntado a Al se não era mais prático abordarmos a casa 
pelas  traseiras,  em  vez  de  ir  dar  de  caras  com  o  guarda  que  ele 
considerava inevitável. Esclare- 
 
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ceu que tinha nessa tarde trepado a uma árvore distandon uns vinte metros do 
muro, na parte de trás, e pudera 
observar dois tipos armados a passar no jardim e em volta da piscina. 
«Se a distribuição se mantiver», esclarecera «talvez seja 
possível alcançar a garagem sem que esses dois dêem por isso. Há uma fila de 
oito árvores que segue do muro até aos fundos da garagem e separa essa parte do 
terreno das traseiras. Assim teríamos de passar só por um tipo.» 
«Passar por um tipo», nestas circunstâncias, significava neutralizá-lo. O que 
não sabíamos bem era como. 
Tencionávamos entrar na casa precisamente pela garagem, uma vez que esta tinha 
uma passagem para a cave, e daí havia acesso à cozinha. Tudo bem, se a dita 
garagem se achasse aberta ou nós conseguíssemos arranjar processo de abri-la. 
Durante a preparação do plano com Al eu tentara manifestar a opinião de que a 
operação, desta forma, comportava demasiados «ses». Aí ele resmungou que, se eu 
não estava satisfeito com a forma como organizara as coisas, havia sempre o 
recurso de entrar aos tiros pela porta principal. «Talvez fosse menos 
arriscado», dissera eu, mas não tinha feito mais objecções para não o irritar. 
«E como vamos escalar o muro, se as árvores do exterior ficam afastadas?», 
quisera ainda saber. 
«Os troncos das árvores, Frank, mas não os ramos. Tratei de escolher uma mesmo 
boa para recordares os tempos em que ias aos ninhos.» 
«Eu nunca fui aos ninhos», respondi só para o contrariar. 
Saímos do carro e trancámos as portas. Em torno de nós era o silêncio dos grilos 
e do escuro. A Lua estava em quarto crescente, com um halo em torno, e a maior 
parte das estrelas tinham ido dormir. O ar era fresco e húmido. Os nossos 
sapatos faziam estalar algumas folhas e ramos secos no chão. Reparando melhor, 
vi que de um e outro lado do caminho havia troncos carbonizados. 

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Atravessámos a estrada e enveredámos por uma vereda estreita que subia do outro 
lado. Aqui eram uns arbustos que constituíam a vegetação, mas logo adiante 
embrenhámo-nos pelo que dava a ideia de uma floresta espessa. 
Mais uma vez, eu limitava-me a seguir Al, o que me valia, com uma certa 
regularidade, levar com um ramo na 
 
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cara. Deixou que eu fosse barafustando em voz alta até que anunciou: 
- O muro que vamos seguir é aquele. 
Não distingui muro nenhum, apenas árvores à minha volta, mais cerradas cada 
metro que avançava. Obliquei entretanto atrás do ruído dos passos dele e 
alcancei na verdade um carreiro, para lá do qual se erguia uma parede alta e 
escura. 
Prosseguimos a caminhada, com maiores cautelas agora, porque naquele silêncio em 
que nem a ramagem se manifestava até o nosso respirar se ouvia. Fomos assim ao 
longo do muro, num percurso que me parecia interminável. Andáramos bem uns cento 
e cinquenta metros quando Al se deteve. 
- Toca a subir - disse ele, e apontou para cima. 
Trepar a árvores não é propriamente a minha especialidade. E de noite ainda 
menos. Procurei outra solução, mas não havia. O muro teria mais de dois metros 
de altura e a superfície era lisa. Tratei por isso de enfrentar a realidade. A 
ramificação mais baixa ficava à altura da minha cabeça. Agarrei-me com ambas as 
mãos, tentei içar-me a pulso, mas não logrei erguer o corpo à altura necessária. 
Optei então por iniciar a subida o mais próximo possível do tronco, fincando aí 
os pés para ajudar a progressão. Foi melhor assim, e pouco depois achava-me 
encavalitado, cerca de dois metros acima do caminho por onde viéramos. Al seguiu 
a mesma via que eu. Porém, de nós dois, era ele quem tinha a respiração menos 
ofegante. 
Afastou a ramagem para eu poder espreitar. 
O rebordo do muro ficava um escasso metro adiante de nós, praticamente ao nível 
das nossas cabeças. Para lá dele, por entre as copas das árvores, distinguiam-se 
com alguma dificuldade, ao fundo, dois ou três pontos luminosos que surgiam e 
desapareciam ao sabor da aragem que agitava levemente as folhas. 
Al deu o sinal de avançar e saltou para o topo da parede de pedra, para daí a 
segundos desaparecer do outro lado com um ruído abafado como o de um saco a 
tombar no chão. Pensei que, a proceder daquele modo, ele teria muita sorte em 
não ter aterrado mal. Todavia, quando me encontrei estendido no cimo do muro e 
olhei para baixo, constatei que fora cair numa pequena clareira e se levantava a 
sacudir as calças. 
 
140 
 
Recordei o que aprendera na tropa, e saltei. O impacte reflectiu-se 
dolorosamente no tornozelo esquerdo. Memórias de Tânger, pensei logo que a dor 
abrandou. Pouco mais de um minuto a marchar sem novidade, e atingimos o fim da 
mata. Uns cinquenta metros à nossa frente erguia-se a casa. Um prédio maciço de 
três pisos do estilo que se vê nas capas dos romances de «gótico», anelas 
estreitas e altas, telhado em declive pronunciado e duas chaminés a encimarem o 
conjunto. Para o nosso lado, até à altura do primeiro piso, estendia-se uma 
construção mais recente e sem janelas. Era a garagem. Para a direita, a partir 
da parte posterior do bloco e avançando até próximo do local onde nos 
encontrávamos, alinhava-se a série de árvores distanciadas umas das outras. Dali 
não podíamos ver a entrada da garagem, que se abria para o lado da fachada, mas 
a claridade que de lá permitia localizá-la com precisão. Não era contudo 
suficiente para iluminar o exterior. Os pontos de luz que eu vira ao longe eram 
três lâmpadas de pouca potência fixas à parede do edifício principal, 
imediatamente sob as janelas do primeiro andar, e os pratos metálicos que 
serviam de quebra-luz faziam que os cones amarelos e frouxos que elas 
projectavam incidissem no telhado da garagem. O aspecto geral do conjunto era 
algo sinistro. Talvez devido também ao estado de espírito em que me achava, 

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pois, raciocinando um pouco, não seria de esperar, à uma e meia da madrugada, 
deparar-se-me no meio de uma quinta uma casa envolvida em grinaldas luminosas e 
fogo-de-artifício. 
O meu companheiro interrompeu-me as reflexões. - Parece que estamos com sorte -
soprou-me ao ouvido. - O guarda deve estar lá dentro. 
Continuei a não manifestar optimismo, mas desse modo sempre tínhamos algumas 
hipóteses de chegar até lá. Andamos mais um bocado, só para ter a certeza de que 
não havia ninguém cá fora, e antes que as circunstâncias alterassem deslizámos 
para a direita, até ao início da linha das árvores que atravessavam o 
descampado, e avançámos em ziguezague, contornando os troncos por um outro lado, 
porque pela nossa direita, da parte das traseiras da casa para onde não se via 
nada, podia surgir alguém. Alguns dos espaços cobrimo-los em corrida rápida, 
 
141 
 
outros em passos mais lentos e alongados para não fazer estalar demasiado o 
cascalho fino que cobria o solo. 
Alcançámos finalmente a parede da garagem e quedámo-nos cosidos a ela, para 
descansar um pouco e ter a certeza de que não fôramos detectados. Em seguida 
pusemo-nos a escorregar sempre nessa posição, detendo-nos metro a metro. Do 
interior não nos chegava qualquer indicação, excepto a tal claridade que se 
batia pela entrada, logo ao dobrar da esquina. Foi aqui que permanecemos mais 
tempo, a procurar processo de anteceder o que nos podia esperar, até a 
eventualidade de haver mais gente lá dentro. 
Para assegurar que Al não executaria uma entrada espectacular como a que fizera 
horas antes, tomei a dianteira, ao mesmo tempo que desembrulhava a arma do 
lenço. Ele também vinha prevenido, mas mantinha a mão no bolso a fazer um 
chumaço enorme. 
Adiantei a cabeça e o ombro direito pela esquina. A porta ondulada achava-se 
erguida a formar uma espécie de alpendre. Do ângulo de que observei não abarquei 
mais do que um pedaço de parede branca do lado oposto, junto da qual havia um 
caixote onde se equilibrava uma lanterna de acetileno. A luz provinha daí. 
Ganhei coragem e estiquei mais o pescoço. Mesmo ao lado do caixote havia um tipo 
sentado, encostado à parede. Parecia estar a dormir e abraçava no colo uma 
espingarda de caça. 
Fiz sinal a Al e entrei de mansinho. O sujeito deu por mim a dois metros, mas 
apenas esboçou o movimento, e som não chegou a soltar nenhum, porque a sola do 
meu sapato lhe carregou o peito com tanta força que ele expeliu o ar todo que 
guardava lá dentro. Antes mesmo que tivesse tempo de fechar a boca, tapei-lha, e 
o nariz, com a mão esquerda espalmada, e com a direita encostei-lhe a pistola ao 
ouvido. Permiti-lhe tomar bem consciência do que se estava a passar e, quando vi 
que o suor lhe começava a humedecer a testa e os olhos ficavam maiores, falei-
lhe baixinho. 
- Não tens hipótese, menino. Vou deixar-te respirar, mas tu ficas caladinho. 
Não esperava que ele compreendesse a língua, mas por um lado fazia-me bem 
desabafar e, por outro, há situações que não requerem muita conversa. 
 
142 
 
Al veio em meu auxílio. Suponho que se detivera à entrada, para assegurar que 
não havia surpresas. Falou a mistura de francês e espanhol, para ter a certeza 
de ser entendido. 
- Fala, ou morres-foi a frase que proferiu, colocando o buraco da arma por cima 
da minha mão e no alinhamento a narina do desgraçado. 
Achei que podia retirar a mão. Inspirou com menos sofreguidão do que seria de 
esperar, talvez por causa da diressão do cano sobre o nariz. 
Apontei-lhe a minha arma a certa distância e deixei Al tratar do assunto. 
- Onde estão os outros? 
O tipo fez sinal com a mão para que esperássemos um bocadinho. Não tardou a 
falar, e o que saiu era quase um soluço. 
Não entendi as duas palavras, mas apontou para fora. 

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- Quantos são? 
; «Dois», esclareceu ele com os dedos. 
- E os outros? 
Inclinou a cabeça e encostou a mão à cara. 
-A dormir? Onde? 
Espetou o indicador para cima. 
- No segundo? Insistiu no gesto. 
- Lá em cima? Fez que sim. 
- Os quartos dos patrões onde são? Franziu a testa. 
- Os senhores...-traduziu Al.- No primeiro? Confirmou. 
- Quem está cá? 
- Ma... demoiselle. 
- Mademoiselle e quem mais? Abanou a cabeça. 
- Mais ninguém? - insistiu Al. 
- N... não. 
- Ben Youssef? 
Distendeu os lábios e enrugou a testa. Não percebia. 
- Big boss... Marrocos. Ben Youssef. Patrão de ocos! 
- Espanhol? - articulou o tipo, e o suor escorria-lhe pelo queixo. 
 
143 
 
- Qual espanhol! Marrocos... Africano! 
- Ah... Senhor Mohamed! - Quase parecia satisfeito.-Avião...-Desenhou um gesto 
planado com a mão. - De manhã. 
Al virou-se para mim. 
- Estamos lixados. 
Respondi-lhe sem desviar a atenção da entrada. 
- Karin está cá. Ben Youssef fica para depois. Pelo canto do olho pude ver que 
sorria. 
- Qual é o quarto de mademoiselle?- quis ele ainda saber. 
-Segundo... no corredor. 
- Okay - finalizou o meu sócio. - Ata-me esse gajo. Procurei com a vista. O 
melhor que descobri foi um fio 
eléctrico. Deitei-me ao trabalho, com Al a observar. Quando terminei, ele fez um 
ar desgostoso, mas pôs-se de pé. 
- E a boca? - disse eu. 
Uma rodilha suja de óleo foi o que ele utilizou para o efeito, e o serviço que 
fez não podia ficar melhor. 
- Vamos lá despachar isto - declarou depois de se certificar de que por ali não 
haveria novidade. 
A única porta abria-se ao fundo. Reparei então que havia um carro que não me 
chamara antes a atenção apenas porque um automóvel numa garagem é um pormenor 
inocente. Porém, este era um Bentley azul-metálico, e ao pé dele o meu Mercedes 
não passava de um carro familiar. 
- Vens ou não? Fui. 
Passámos a divisão contígua, e só soube que nos encontrávamos numa cozinha 
imensa quando Al projectou em redor o foco da lanterna que apanhara na garagem. 
Atravessámos à vontade o espaço amplo, tendo apenas o cuidado de evitar a 
comprida mesa que ia quase de ponta a ponta. Por uma porta de vaivém fomos dar a 
uma copa donde partiam umas escadas estreitas. Era o caminho a seguir. Al 
alumiava os degraus de pedra e eu apoiava-me com força ao corrimão. 
O extenso corredor alcatifado onde desembocámos era tenuemente iluminado por uma 
minúscula lâmpada de presença empunhada por um anjinho aplicado na parede 
forrada a papel de veludo. Havia uma série de portas de 
 
144 
 
aspecto sólido, todas do lado direito. Ultrapassámos uma cómoda de estilo 
encimada por um enorme jarrão de porcelana e eu deitei a mão à maçaneta da 
segunda porta. Estava trancada. Bati ao de leve e esperei. Não houve resposta. 

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Al afastou-me e experimentou o trinco com força. Logo que desistiu, tivemos 
ambos a impressão de escutar um ruído do lado de dentro. De seguida, uma voz 
receosa perguntou em francês: 

- Quem está aí?  
Karin. 

- Sou eu, Frank. Abre. 
- Frank? - repetiu em sobressalto. 
- Sim, Karin. Abre depressa. 
Ouviu-se o fecho rodar e Karin entreabriu a porta. Foram os olhos surpresos o 
que divisei primeiro através da fresta. Depois uma expressão de espanto, e ao 
mesmo tempo de alegria, naquele rosto que eu amava tanto. Abriu a porta e erguia 
os braços para mim quando se lhe deparou Al. Teve um movimento de recuo. 
Apressei-me a tranquilizá-la. 

- Não tenhas medo. é um amigo que me quis ajudar. 
Ela ainda hesitou, e logo sorriu. Um sorriso que valia 

todas as coisas belas do mundo. 
-Frank... 
Os braços envolveram-me o pescoço com muita força e os lábios procuraram os 
meus. Não custou muito, porque os meus, depois de lhe terem beijado com fervor 
os olhos, o nariz e o queixo, já buscavam ansiosamente os dela. 
Esqueci-me de tudo. Assim, com o corpo dela no meu, experimentava uma sensação 
tão completa de bem-estar que nada mais importava. 
- Oh, Frank... -repetia Karin num murmúrio.- Frank, eu sabia que vinhas. 
Continuou sussurrando-me frases junto ao ouvido, entrecortadas por beijos, e 
algumas eu não entendia porque não eram ditas em inglês. 
Só quando, atrás de mim, Al me bateu repetidamente no ombro eu voltei à 
realidade e ao local onde nos [ encontrávamos. 
- Frank, são horas de ir andando. 
Karin desprendeu-se a custo e com as mãos procurou tapar os seios que a camisa 
de dormir descobria. 
- É... amigo de Frank? -disse ela, pouco à vontade. 
 
145 

 
- Al Chasey, ao seu serviço, mademoiselle. Ao vosso serviço, quero 
dizer.  Agora,  minha  querida,  ponha  qualquer  coisa  por  cima  porque 
são horas de voltar à cidade. 
Karin  mirou-o  com  certa  estranheza,  mas  ele  continuou  a  sorrir  e 
ela acabou por corresponder e desapareceu atrás de um biombo. 
O  quarto  era  o  tipo  de  aposento  mobilado  com  peças  de  estilo  que 
se  pode  esperar  encontrar  numa  casa  daquelas  e  apesar  de  amplo, 
dava  a  ideia  de  ser  acanhado  pelo  peso  dos  móveis,  dos 
reposteiros, do lustre e das porcelanas. 
- Frank, achas que vai demorar muito?-inquiriu Al a espreitar pela 
janela. 
Não  tinha  razão,  porque  Karin  surgia  nesse  instante  pronta  para 
sair.  Vestia  uma  saia  pelos  joelhos,  um  casaco  leve  por  cima  da 
blusa  simples  e  sapatos  de  salto  baixo.  Na  mão  transportava  uma 
maleta de viagem. 
- Vamos? 
Antes de resolver, Al quis confirmar. 

- Quem mais está cá esta noite? 
Karin esclareceu: 

- Ninguém. Apenas os criados... e os guardas. 
- Okay. Então vamos. 
O regresso à garagem fez-se pelo percurso da vinda. O tipo que lá 
deixáramos  permanecia  exactamente  na  mesma  posição,  como  se  o 

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tempo tivesse parado com a nossa partida. Só a luz do candeeiro de 
acetileno vacilava com o combustível a acabar. 
- Segura aí, Frank. 
Era  uma  escada  de  madeira  que  ele  descobrira  deitada  junto  à 
parede do fundo. Que ideia era esta agora? 
- Assim não precisamos de fazer ginástica, não é? Achei preferível 
aceitar a ideia, não fosse ocorrer-lhe levar o Bentley também. 
E lá fomos, Al numa ponta da escada e eu atrás, com uma das mãos a 
segurar a extremidade e a outra o braço de Karin. A arma seguia no 
bolso, mas lá adiante o meu sócio ia atento. 
O  trajecto  foi  feito  com  razoável  descontracção  e  muita 
simplicidade. Chegados ao muro, a escada resolveu o assunto. Fui o 
último  a  trepar.  Perguntava  a  mim  próprio  se  os  outros  tipos 
estariam todos a dormir, ou de folga. quando soou o primeiro tiro. 
Alguns chumbos dos disparos seguintes distribuíram-se pela parede, 
à minha volta. No 
 
146 
 
topo  do  muro,  onde  Karin  me  aguardava,  puxei  depressa  a  escada  e 
desci-a para o outro lado. apressa a 
Chegavam  até  nós  vozes  próximas  e  o  ladrar  de  cães.  Logo  que  vi 
Karin alcançar o solo, decidi ignorar a escada e pular. 
 
147 
 
CAPÍTULO XIV 
 
Eram  duas  e  meia  e  conversámos  num  bar  recolhido  e  sossegado  da 
Praça  da  Alegria,  próximo  do  Hotel  Tivoli  Eu  conseguira  convencer 
sem  dificuldade  o  empregado  da  recepção  de  que  a  senhora  que  me 
acompanhava  era  uma  amiga  que  acabava  de  chegar,  mas,  para  lhe 
poupar deduções e sobretudo por uma questão de precaução, instalei 
Karin  noutro  quarto,  no  terceiro  andar.  Ela  quis  ir  lá  acima  pôr 
as coisas e arranjar-se um bocadinho melhor, porque de nós três  o 
único que tinha sono era Al Chasey. 
De  modo  que  Al  despediu-se,  depois  de  combinar  comigo  o  programa 
para  o  dia  seguinte,  e  eu  aproveitei  para  mudar  de  fato  e  depois 
fiquei  à  espera  no  átrio.  Quando  ela  saiu  do  elevador  ao  meu 
encontro,  simplesmente  com  os  cabelos  negros  a  escorrerem  pelo 
rosto  para  cima  do  xaile,  num  lindo  vestido  branco  de  renda, 
decidi que era a rapariga mais linda do mundo. 
- Onde vamos, Frank? 
-  Logo  se  vê,  pequena.  Apanhar  a  noite,  tomar  um  copo,  falar  de 
nós e fazer amor. 
- Lá fora? - disse ela. 
- Onde calhar. Como os bichinhos. 
-  Oh!  -  fez  com  os  lábios  e  os  olhos  húmidos,  e  apeteceu-me  que 
fosse ali mesmo. 
Saímos.  A  vida  nos  locais  públicos  continua  em  Lisboa  até  mais 
tarde  do  que  na  maioria  das  capitais  que  conheço.  Evitámos  boìtes 

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e  dancings,  até  que  calhou  irmos  parar  àquele  sítio.  A  porta 
estava fechada e passava despercebida. Apenas o pequeno reclame na 
montra  ao  lado,  com  a  indicação:  “Até  às  quatro  da  manhã”,  me 
fizera  deter.  Hesitei  antes  de  tocar,  mas  Karin  empurrou-me  o 
braço e 
 
148 
 
llogo  um  olho  espreitou  pelo  ralo.  Deve  ter  aprovado  o  que  [viu, 
porque  a  entrada  nos  foi  franqueada.  Do  guarda-vento,  passámos  a 
uma  sala  pequena,  decorada  com  gosto  e  discretamente  iluminada. 
Havia  apenas  o  barman  e  uma  roda  constituída  por  dois  casais. 
Encomendámos  um  uísque  e  uma  cuba  libre  e  ficámo-nos  a  olhar  um 
para o outro como dois namorados. 
Fui eu quem falou primeiro. 
- Foi difícil? 
Sacudiu a cabeça sem tirar os olhos dos meus. 
- Não, Frank. Sabia que vinhas. 
As  bebidas  surgiram  na  mesa,  sem  darmos  porque  o  empregado  as 
trouxera. 
- Frank... foste só por minha causa? 
- Teria ido só por ti. 
Trocámos um brinde e beijámo-nos. Uísque e cuba libre. Um cocktail 
maravilhoso filtrado pelos lábios dela. 
-  Oh,  querido!  -  E  quedava-se  com  a  cabeça  encostada  a  mim, 
acariciando-me cada linha do rosto. 
A  minha  cabeça  flutuava,  e  vi-me  de  súbito  em  Tânger,  no  Kasbah, 
com ela, e imagens da noite em que a conhecera, no terraço sobre a 
baía. Dois dias, apenas. Em dois dias e duas noites Karin surgira, 
perdera-a, e ali a tinha de novo. Puxei-a para mim, num repente. 
- Que foi? 
- Muita coisa. Tudo. Não sei o que se passa comigo. 
- Eu tenho a ver com isso, Frank? 
Soltei uma gargalhada que me soube bem porque no momento em que a 
soltei me libertava de tudo o que havia de mau dentro de mim. Uma 
gargalhada  que  encheu  aquele  espaço  e  contagiou  o  barman,  e  os 
outros parceiros, e de um momento para o outro estavam todos a rir 
como  se  fosse  a  passagem  do  ano.  O  porteiro  assomou  à  entrada, 
riu-se  também,  e  eu  não  me  lembrei  de  mais  nada  senão  de  mandar 
abrir duas garrafas de champanhe para distribuir pela sala. 
- Vou para o Algarve de manhãzinha. - Anunciei daí a bocado. 
- Eeu? 

- Tu ficas em casa de uma amiga do Al. 
- Não. 

Fitei-a com o cigarro pendurado na boca. 
 
149 
 
-  Estamos  em  Portugal,  lembras-te?  Onde  os  homens  ainda  mandam.  - 
E  adiantei:  -E  tu  és  de  Marrocos,  onde  as  mulheres  ainda  são 
escravas. 

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Os  dois  tipos  da  mesa  próxima  ouviram-me  e  perceberam,  porque 
levantaram os copos à minha saúde. As mulheres deitaram-me olhares 
desconfiados. 
Turistas. 
- Faço um negócio contigo - disse Karin muito séria. 
- Bluff de mulher humilhada - respondi. 
- Papéis que trouxe comigo. 
A vontade de brincar ficou adiada. 
- Papéis... documentos? 
-  Importantes.  Muito  importantes  -  fez  ela,  já  a  desfrutar  o 
momento. 
- Isso pode ser o epílogo, Karin - disse eu. - Como os obtiveste? 
-  Foi  esta  manhã,  quando  González  partiu.  Ben  Yous-sef  foi 
acompanhá-lo  a  Camarate,  um  aeródromo  perto  de  Sintra.  Eu  fui  ao 
gabinete onde ele trabalhou toda a noite e servi-me de uma pequena 
máquina que comprei ontem em Tânger. 
- Linda menina - foi o meu comentário. E bebi um gole de champanhe 
para me recompor. 

- Então... vou contigo? 
Apaguei o cigarro. 

-  Sim  -  anuí  finalmente.  -  Vais  comigo,  mas  não  é  por  isso.  É 
porque  agora,  que  te  apanhei,  não  te  quero  perder  de  vista.  Que 
idade tens? 
- Vinte e um. 
- Hum... - fiz eu.- És um bocado novinha, não és? 
- Já sou maior. E muito mais velha do que tu julgas. - Aproximou o 
rosto  do  meu,  e  à  pálida  claridade  que  começava  a  entrar  pela 
janela pude observar-lhe as covinhas engraçadas do rosto. 
Estávamos  deitados  no  quarto  dela,  onde  eu  subira  na  volta  a  fim 
de  ir  examinar  os  papéis.  Tratava-se  de  material  altamente 
classificado,  sem  sombra  de  dúvida,  e  com  aqueles  documentos  e  o 
testemunho  de  Karin  muita  gente  importante  ia  ver-se  metida  em 
apuros  para  o  resto  da  vida.  Havia  no  entanto  alguns  aspectos 
fundamentais a 
 
150 
 
esclarecer melhor. E o meu palpite era que a viagem ao Sul ia ser 
proveitosa. 
Claro  que,  arrumados  de  novo  os  papéis  na  mala  de  Karin,  eu  não 
tinha  saído  logo.  Esse  foi  o  meu  erro.  Ela  chamou:  “Frank...”,  e 
não havia nada a cobri-la. Depois deitou-se num dos lados da cama, 
enroscada como uma gatinha. Não tive outro remédio senão ir fazer-
lhe companhia. 
Karin  voltara  a  adormecer.  Fiquei  por  instantes  a  observar  o  seu 
rosto belo e tranquilo, e os seios a subir e descer em movimentos 
suaves  e  regulares.  Depois  resolvi  regressar  ao  meu  quarto,  para 
dormir  mais  um  pouco  até  às  nove,  hora  a  que  tinha  combinado  com 
Chasey  partirmos.  Olhei  para  a  mala  onde  se  encontravam  os 
documentos.  Levá-los  comigo  podia  ser  perigoso,  e  guardá-los  nos 

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cofres  do  hotel  já  não  valia  a  pena.  Resolvi  deixá-los  onde 
estavam. 
Dei  um  beijo  na  testa  de  Karin,  recomendei-lhe  que  fechasse  a 
porta à chave e rumei ao elevador. 
A  primeira  coisa  de  que  não  gostei  foi  de  verificar  que  a  minha 
porta não se achava trancada. Tirei a arma do bolso e introduzi o 
braço  esticado  à  medida  que  empurrava  devagarinho.  A  luz  da 
entrada estava acesa. Dei três passos e enfiei à esquerda, na casa 
de  banho.  Vasculhei  atrás  do  plástico  do  chuveiro  e,  após  uma 
curta  espera,  entendi  que  não  valia  a  pena  perder  tempo.  Avancei 
com  a  arma  bem  segura  nas  duas  mãos,  à  altura  dos  olhos  e  à 
distância dos braços estendidos. Se alguém disparasse, não o faria 
primeiro. 
Ninguém  disparou  e  o  quarto  estava  vazio.  Mas  virado  do  avesso. 
Desde  a  cama  revolvida  às  gavetas  retiradas  da  cómoda  e  do 
roupeiro,  com  o  conteúdo  da  mala  espalhado  pelo  chão.  Quem  tinha 
ido  à  procura  não  dispusera  de  muito  tempo,  mas  vira  tudo  o  que 
havia para ver. 
Fui ao telefone e aguardei que atendessem. 
- Fala do 420. Alguém perguntou por mim esta noite? 
-  Oh,  sim,  Mr.  Gold  -  respondeu-me  uma  voz  atenciosa.  -Um 
espanhol,  há  bocado.  Cerca  das  sete  e  meia.  E  por  Mademoiselle 
Karin também. 
Durante  a  breve  pausa  fiquei  agarrado  com  força  ao  auscultador, 
sem  saber  se  devia  precipitar-me  para  a  porta  ou  fazer  mais 
perguntas 
 
151 
 
- E você...? 
-  Respondi-lhe  que  Mr.  Gold  entrou  sozinho  e  que  nenhuma  senhora 
se tinha registado esta noite. 
Respirei aliviado. 
-  De  resto,  Mr.  Gold,  não  gostei  da  cara  do  fulano.  E  perguntei-
lhe se não achava muito cedo para fazer visitas. Ele, antes de se 
pôr  a  andar,  ainda  quis  dar  a  entender  que  era  da  polícia,  para 
disfarçar, mas eu topo-os muito bem. 
Havia contudo algo que eu não percebia. 
- Como é o seu nome, amigo? -Vítor, Mr. Gold. 
O homem de Santos. 
-  Oiça,  Vítor.  Não  sei  o  que  se  passa,  mas  há  qualquer  coisa  na 
história que não confere. Se o tipo saiu, como é que o meu quarto 
aparece desarrumado? 
- Não é possível! 
-  Então  venha  cá.  Mas  antes  ligue-me  para  o  318.  Atendeu  a  voz 
ensonada de Karin. 
- Ouve-disse eu rapidamente. - Tens a porta trancada? 
-...Sim... porquê? 

- Deixa-te ficar aí. Eu já vou ter contigo. 
- Mas... 

não é nada. Apenas não abras a porta. 

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Vítor  apareceu  entretanto.  Era  um  tipo  delicado  por  quem  eu  já 
passava  várias  vezes  nessa  noite  sem  reparar  especialmente  nele. 
Fez uma cara horrorizada ao observar o cenário. 
- Mas... Mr. Gold, garanto-lhe que o sujeito saiu... 
- E não podia entrar por outro lado? 
-  Era  muito  difícil,  Mr.  Gold.  Muito  difícil,  pode  crer.  Além 
disso, acha que alguém viria aqui com esse propósito a uma hora a 
que sabia que o senhor estava cá? Quanto a mim, quem ele pretendia 
localizar  era  a  senhora.  E  este  trabalho  foi  feito  noutra  altura, 
mais cedo. 
Dei-lhe razão. Prosseguiu: 
- Depois de Mr. Gold sair, por volta das duas, asseguro-lhe que o 
movimento foi apenas de clientes. 
- O que quer dizer... 
-  Que  a  pessoa  que  veio  visitá-lo  é  um  cliente  do  hotel.  Essa 
conclusão  não  me  deixou  mais  bem  disposto,  mas  tive  de  reconhecer 
que Santos sabia escolher os seus homens. 
 
152 
 
Ajudou-me a arrumar a mala e desceu comigo ao andar de baixo. 
- Vou ficar aqui, Vítor. Chama-me dentro de meia hora. 
Bati no 318 e anunciei-me em voz alta. 
 
153 
 
CAPÍTULO XV 
 
A  viagem  decorreu  comodamente  em  pouco  mais  de  três  horas.  A 
estrada  não  era  má,  e  com  o  ar  condicionada  a  funcionar  até  nos 
esquecíamos  de  que  lá  fora  a  temperatura  era  elevada  e  o  tráfego 
reduzido.  Fizéramos  assim  desde  Setúbal,  a  travessia  do  Alentejo, 
terra  árida,  onde  apenas  avistávamos  de  vez  em  quando  um  pequeno 
aglomerado, e atravessámos de longe em longe uma povoação que eram 
duas  filas  de  casas  baixas  e  caiadas  de  branco  de  cada  lado  da 
estrada.  A  atmosfera  reflectia  com  tal  intensidade  a  luz  do  Sol 
que encandeava a vista. 
Al  propôs  pararmos  para  almoçar  numa  pousada  atraente,  construída 
à  beira  de  uma  barragem,  mas  eu  agora  tinha  pressa  de  chegar  e 
respondi  que  ainda  era  cedo.  Karin,  no  banco  de  trás,  dormira 
quase  todo  o  percurso.  Só  nas  curvas  da  serra,  a  uns  quarenta 
quilómetros  da  costa,  ela  voltou  a  dar  sinal,  debruçando-se  sobre 
o banco da frente com a cabeça entre nós dois. 
- Que horas são? 
-  Horas  de  almoço  -  insistiu  Al,  com  a  mão  no  estômago.  -  Se  não 
faltasse tão pouco, eu apeava-me já. 
-  Sabia  que  “Algarve”  é  uma  palavra  árabe  e  que  foi  território 
mouro  até  1249?-perguntou  ela,  não  percebi  se  para  entrar  com  Al 
ou com a melhor das intenções. 
-  Sabia  -  retorquiu  ele  com  convicção.-  O  Algarve,  o  Alentejo  e 
todo o Sul de Espanha.-E adiantou trocista: -E se essa conversa  é 

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para me provar que vocês foram um grande povo, eu direi que antes 
de vós houve os  Egípcios, os Viquingues, os Mongóis, os Incas, os 
Maias, os... 
-  Está  bem,  Al,  não  insisto  -  atalhou  ela;  e,  após  uma  breve 
pausa,  ainda  suspirou  num  desabafo:  -  Mas  isso  não  tem  nada  a 
ver... 
 
154 
 
Executei a descida da serra a escutar a discussão mais acesa sobre 
história  das  civilizações  a  que  já  me  fora  dado  assistir. 
Felizmente que, à vista do mar, eles foram abrandando, e à entrada 
de  Albufeira  já  se  falava  só  no  almoço,  a  ementa  parecia  estar 
decidida antes mesmo de arrancarmos da bomba de gasolina à entrada 
da vila, onde parara para encher o depósito e pedir informações. A 
Vila  Heloísa  localizava-se  na  parte  da  povoação  que  se  estende 
pelo  cerro  que  domina  a  baía.  Uma  vez  aí  chegados,  explicou-me  o 
empregado com a ajuda de um casal nórdico que assistia à conversa, 
não  seria  difícil  lá  ir  porque  toda  a  gente  da  zona  conhecia  o 
nome. 
Não me custava acreditar que sim, apesar de saber ser Albufeira um 
paraíso  de  milionários.  Porque,  pelo  que  já  me  contara,  a  casa 
onde toda a equipa se alojava era propriedade de Mr. “Big”. 
Mr. “Big”, tal como a imprensa de todo o mundo o {pintava, era um 
figurão inglês que dera no mercado financeiro de Londres, uns anos 
atrás,  um  golpe  de  vários  milhões  de  libras  e  na  sequência  viera 
viver  para  Albufeira.  Segundo  a  mesma  imprensa,  Mr.  “Big” 
entretinha-se  a  comprar  quase  tudo  o  que  aparecia  para  vender, 
desde terrenos e prédios a boìtes, e a dirigir, rodeado de um luxo 
asiático,  toda  uma  vasta  rede  de  negócios  lícitos  e  ilícitos.  Mr. 
“Big”  tornara-se  assim  o  “rei”  daquelas  paragens  e  a  Vila  Heloísa 
era  uma  vivenda  que  ele  reservava  para  receber  convidados 
importantes. 
- Qual é o esquema? -interrogou-me Al, a meio do segundo bife. 
Almoçávamos num restaurante acolhedor e pouco movimentado numa das 
ruelas  que  conduzem  ao  centro  da  vila.  A  época  alta  só  começaria 
no mês seguinte. 
- Não há esquema nenhum - expliquei.- Vamos lá, e pronto. 
Deteve  o  garfo  a  meio  caminho  da  boca  e  a  faca  erguida  na  mão 
direita. 
- Vamos lá, como? 
- Em visita. Virou-se para Karin. 
- Está doido. 
- Concordo com Frank - disse ela. Al poisou o talher no prato. 
- Nesse caso, estão os dois doidos. 
 
155 
 
-  Ouve,  Al-resolvi  ajudar.-Nós  não  somos  assim  dois  tipos  que  se 
possa liquidar de um momento para o outro. 
- Pois não - observou. -Já te esqueceste de Tânger? 

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- É diferente. A polícia já interveio entretanto, e os tipos sabem 
que  se  nós  desaparecêssemos  tinham  a  Interpol  à  perna.  Podes 
acreditar,  Al,  que  nas  actuais  circunstâncias  entrar  nessa  casa 
por outra forma é que seria fornecer-lhes um pretexto. 
- Mas em Sintra, ontem à noite... 
-  Andas  a  comer  e  a  dormir  muito,  e  por  isso  estás  a  ficar 
estúpido.  Nós  viemos  aqui  propor  um  negócio,  e  não  recuperar 
objectos. 

- Eu sou então um objecto? - disse Karin a complicar. 
-  És  -  respondi.  -  E  o  Al  é  outro.  E  agora  peçam  o  raio  da 
sobremesa e deixem-me pensar um bocado. 

- Um poeta e um pensador - comentou Al para Karin mas fiz de conta 
que não ouvi. 
O  aspecto  mais  interessante  nas  casas  eram  as  chaminés  esguias  e 
trabalhadas  como  um  bordado  de  renda.  Vim  algumas  assim  em 
Marrocos,  mas  o  estilo  tradicional  mantinha-se  aqui,  mesmo  nas 
construções mais recentes. 
Alcançado  o  cimo  do  labirinto  de  ruas  estreitas  que  conduziam  à 
parte  alta,  perguntámos  a  um  homem  de  camisa  de  xadrez  e  calças 
arregaçadas  que  apanhava  sol  à  porta  de  uma  taberna  onde  era  a 
Vila Heloísa. Apontou para o lado do mar com a beata suja que lhe 
pendia dos lábios secos. 
Seguimos a indicação e, contornando uma pequena igreja, fomos sair 
a um terreiro murado do lado do mar donde se abarcava toda a baía. 
Decidimos  deixar  o  carro  ali,  encostámo-lo  ao  muro,  e  depois  de 
verificarmos que não havia mais ninguém por ali, saímos. 
Do miradouro alcançava-se toda a vila, o areal extenso da praia  e 
o mar tranquilo salpicado próximo da costa de embarcações de pesca 
pintadas de amarelo, azul e vermelho. 
Disse  a  Al  que  fosse  perguntar  ao  restaurante  e  fui  juntar-me  a 
Karin,  que  se  apoiava  no  muro  a  olhar  para  baixo.  O  declive  da 
encosta  era  pronunciado,  coberto  de  vegetação  que  descia  até  às 
rochas, onde as marés e as vagas haviam cavado túneis e grutas. 
- Do outro lado é Marrocos - disse ela, apontando. 
 
156 
 
-  Sim,  querida.  -  Fiz-lhe  uma  carícia  no  rosto.-  Havemos  de  lá 
voltar muito em breve. 
Voltou-se  para  mim,  e  os  cabelos  negros  fugiam-lhe  para  trás, 
descobrindo-lhe o pescoço delicado. -Amanhã? 
Sorri. 
- É possível... 
-  Oh,  querido...  -exclamou  feliz,  mas  logo  uma  sombra  turvou  a 
expressão. 
- E... deixam-te entrar? 
-  Hei-de  arranjar  maneira  -  retorqui  com  ar  desprendido,  mas  não 
sabia bem como. 
- Tão bom...-e aflorou-me os lábios com ternura. 

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Experimentei  uma  certa  angústia  que  sempre  acontecia  quando  o 
receio de a perder me aflorava o espírito e os nervos do corpo. Al 
vinha chegando. 
- Vamos-disse para mim.-Karin pode esperar ali por nós. 
Combinámos que ela ficaria à nossa espera no interior da capela  e 
que não sairia de lá. 
- Não demores, meu querido. 
Deixei  a  constrangido  e  com  uma  sensação  indefinível  que  me 
perturbava de modo estranho. 
O tipo examinou-nos de alto a baixo, e em sentido inverso, através 
das  grades  do  enorme  portão.  Exibia  uma  cabeça  larga  e  maciça 
encaixada  pelo  pescoço  curto  e  da  mesma  largura  num  tronco 
cabeludo  embrulhado  numa  camisa  de  quadrados  que  daria  para  fazer 
um lençol. 
- Quem?-repetiu para Al, numa careta de poucos amigos. 
- Ligue essa coisa, que eu falo. 
Referia-se ao emissor-receptor portátil que o outro transportava a 
tiracolo.  Ele  pareceu  entender  a  sugestão  e  concordar  com  ela, 
porque  aproximou  o  aparelho  das  grades,  carregou  no  botão  e 
comunicou algo pelo bocal. 
Não  entendi  o  que  responderam  do  outro  lado,  mas  Al  interveio, 
gritando para se fazer ouvir. 
- Fala inglês? 
- Sim - responderam. - Que querem? 
-  Somos  jornalistas  -  articulou  ele.  -  Viemos  falar  com  o  Senor 
González. Está a ouvir? 
 
157 
 
- Sim - confirmou a voz.- Mas não há aqui ninguémn com esse nome.- 
O  sotaque  era  característico  dos  latino  -espanhóis  ou  sul-
americanos. 
-  Diga  ao  Senor  González  que  estão  aqui  Gold  e  Chasey.  -  Repetiu 
os nomes com cuidado. - Gold e Chasey, percebeu? Ele conhece-nos. 
- Um momento. 
Ouvimos  um  clique  e  ficámos  à  espera.  O  grandalhão  arrumou  o 
instrumento a tiracolo e ficou a olhar para nós. Três metros para 
lá  dele,  o  caminho  desviava  para  a  direita  e  uma  parede  de  buxo 
impedia de ver mais além. Passaram-se assim uns cinco minutos, com 
ele  a  observar  -nos  e  nós  a  olhar  para  dentro  e  a  trocar 
impressões,  como  dois  visitantes  no  jardim  zoológico  diante  do 
gorila  maior.  Por  fim  escutámos  um  zumbido,  e  o  gorila  levou  o 
transmissor ao ouvido e carregou num botão. Saiu a mesma voz de há 
pouco, numa frase curta e seca. 
Em  resposta,  o  tipo  voltou  a  guardar  o  instrumento  no  estojo  e 
puxou  do  bolso  uma  grossa  chave,  com  que  destrancou  o  portão.  De 
seguida  fez  girar  um  dos  batentes,  que  deslizou  sem  ruído  nas 
dobradiças. 
Fez  um  sinal  com  a  cabeça  e  nós  entrámos.  Ele  voltou  a  fechar  o 
portão  com  a  chave.  Olhei  para  Al,  que  obviamente  experimentava  o 
mesmo que eu, e lá fomos seguindo o guia. 

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Percorridos  alguns  metros  ao  longo  do  buxo  alto  e  bem  aparado, 
começámos  a  ouvir  uma  voz  feminina  a  soltar  gritinhos  de  alegria, 
e  o  ruído  de  água  a  chapinhar.  Poucos  metros  adiante  desembocámos 
numa  piscina  que  de  olímpica  só  não  tinha  o  formato.  Esta  era 
oval,  ou  talvez  em  forma  de  coração,  mas  não  tive  a  certeza, 
porque  do  ângulo  onde  estava  não  podia  tirar  conclusões  de 
pormenor acerca de uma área equivalente a meio campo de futebol. 
Da  água  azul  e  transparente  emergiu  uma  sereia  cujas  formas 
condiziam  com  as  dimensões  da  piscina  e  de  maneira  nenhuma  podiam 
caber  num  bikini.  Talvez  por  isso  ela  usava  monokini.  Travei  Al, 
para  que  ele  não  avançasse  pela  piscina  dentro,  e  correspondi  à 
saudação exuberante de Juanita. 
-  Olá,  Frank!  -gritou  ela,  tirando  a  touca  e  a  sacudir  a  água  do 
corpo. 
 
158 
 
Juanita de seios ao vento a sacudir a água do corpo constituía um 
daqueles  espectáculos  que  só  o  cinema  panorâmico  e  a  três 
dimensões 

poderia 

reproduzir. 

Desaconselhável, 

porém, 

espectadores demasiado sensíveis. 
-  Vens  chatear  o  papá?  -atirou  de  longe,  esfregando  I 
vigorosamente as pernas com uma toalha. 
-  Si,  senorita  -  gritei  em  resposta.-E  conto  contigo  para  o  caso 
de correr mal. 
; -Toda tua, Frank. Esse aí é teu amigo? 
“Esse aí” prendeu-me o braço e falou: 
- Frank, não era melhor ires sozinho? 
Respondi  a  Juanita  ao  mesmo  tempo  que  o  filava  pelo  pescoço  e 
fazia trotar adiante: 
- É meu irmão, boneca. Aquele mano homossexual de que te falei. 
- Oh!- disse ela, e o gorila à nossa frente voltou-se para encarar 
Al com desgosto. 
O  visado  lançou-me  um  olhar  assassino,  tropeçou  numa  cadeira  de 
lona  e  foi  agarrar-se  ao  suporte  de  um  toldo.  Ao  passarmos  a 
parede de vidro, as gargalhadas de Juanita ainda estavam no ar. 
No 

interior 

do 

terraço, 

onde 

havia 

plantas 

ornamentais 

profusamente  distribuídas  por  entre  as  mesas  e  cadeiras  pintadas 
de branco, fazia menos calor do que lá fora. Mas na sala espaçosa 
onde fomos conduzidos ainda estava mais fresco. A decoração era de 
um  mau  gosto  notável.  Havia  tapetes  rosa  e  laranja  de  pêlo  alto 
distribuídos  sob  a  meia  dúzia  de  jogos  de  sofás  lilases,  azul-
marinho,  verde-alface  e  de  cores  que  eu  nunca  vira.  Outras  tantas 
mesas  baixas,  de  talha  dourada  e  tampos  de  mármore  de  tonalidade 
amarela,  completavam  os  conjuntos.  Do  tecto  pendiam  dois  lustres 
enormes  de  vidrinhos  vermelhos  e  verdes,  e  nos  cantos  da  casa 
quatro colunas de alabastro sustentavam peças de barro de colorido 
berrante:  um  galo,  um  elefante  de  tromba  erguida,  uma  figura 
popular  a  fazer  as  suas  necessidades  e  outra  de  braços  trocados. 
Se havia pessoas de mau gosto no mundo, e eu conhecia dezenas, Mr. 
“Big” batia o recorde. 

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- A que devo o prazer, Mr. Gold?... 
A personagem era alta, elegante, bronzeada, usava cabeleira branca 
a  cair  por  sobre  as  orelhas  e  apresentava-se  num  roupão  dos  que 
usavam  antigamente  os  galãs  de  Hollywood.  Eu  nunca  vira 
pessoalmente Adolfo González, 
 
159 
 
mas  era  ele  sem  tirar  nem  pôr.  Pareceu  ignorar  por  momentos  Al 
Chasey, e só quando eu ia a falar resolveu reparar nele. 
- Mr. Chasey, não é verdade? 
Chasey interrompeu o que estava a fazer - limpar o pó da tromba do 
elefante- e retorquiu no seu estilo pessoal: 
- Senor González, se não me engano? 
Os olhos azuis e frios do barão da droga desviaram-se para mim. 
- Nunca nos encontrámos, pois não? 

- Nunca, Mr. González. Porque o senhor nunca quis. 
- Ora, meu amigo - com ar desprendido, dirigindo-se ao bar.-Para 
quê guardar ressentimentos? 
-  Para  mim  é  sem  água  -  anunciou  Al.  -Suponho  que  já  conheceu 
Juanita? 
A resposta não me saiu logo, mas Al Chasey avançava: 

- Com duas pedras de gelo. 
- O mesmo para mim-completei. 
Adolfo González serviu-nos na mesa mais próxima do bar e convidou-
nos  com  um  gesto  a  ocupar  cada  um  dos  cadeirões  disponíveis. 
Quanto a ele, instalou-se no sofá a compor o roupão. Aguardou que 
tudo estivesse em ordem e proferiu: 
- Ainda não me disse ao que veio, Mr. Gold... 
Pedi  licença  para  fumar.  González  estendeu-me  o  maço  dourado  que 
estava  em  cima  da  mesa,  empurrou  para  junto  de  mim  um  cinzeiro 
dourado  e  acendeu-me  o  cigarn  com  um  Cartier  de  ouro,  Só  depois 
ofereceu a Chasey, que preferiu um dos seus e lhe chegou lume com 
um Bic publicitário. 
Achei que devia ser eu a falar. 
-  Tenho  andado  atrás  de  si,  Mr.  González.  Desde  Santa  Cruz,  na 
Bolívia,  passando  por  Tânger  e  Lisboa.  Estou  a  ficar  um  bocado 
cansado,  e  se  o  senhor  quisesse  ajudar-me  poupava  uma  quantidade 
de trabalho a ambas as partes. 
Ele fitou-me com os olhos de um azul líquido e sorriu como alguns 
animais devem sorrir. 

- Diga-me então o que posso fazer por si... 
Fiz um rodeio. 

-  Não  me  parece  muito  surpreendido  com  esta  visita,  Senor 
González. 
 
160 
 
Introduziu com precaução o cigarro numa boquilha com ponta de ouro 
e inspirou o fumo com satisfação. 
- Para ser franco, já a esperava. 

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- Nesse caso, já previu igualmente o que eu venho propor-lhe. 
Estendeu  o  braço  pelas  costas  do  sofá  e  desennou  uma  figura  de 
fumo. 
-  Não  sou  adivinho,  Mr.  Gold.  Sabia  que  vinha,  porque  é  um  homem 
corajoso  e  persistente.  E  Mr.  Chasey  também  -  acrescentou, 
dirigindo-se pela primeira vez a Al. Este permaneceu indiferente. 
- Para começar, pretendo que me diga onde posso encontrar Romero. 
Franziu  a  testa.  O  ligeiro  arquear  de  sobrancelhas  poderia  ter 
sido estudado no espelho. 
- Romero? Que tem o senhor a ver com Romero? 
- Eu, nada. Mas uns amigos meus andam danados por apanhá-lo, e com 
mais  ou  menos  esforço  hão-de  conseguir.  Além  do  que,  pensando 
melhor, eu próprio tenho algumas razões de queixa. 
- E porquê, posso saber? 
- Porque foi Romero quem matou Wong. Por sua ordem. 
Endireitou-se no sofá, perscrutou-me durante uns segundos e depois 
desatou a rir. Olhei para Al. 
- Mr. Gold -disse González quando acabou, ja sem sombra de sorriso 
no  rosto  impenetrável.  -  Verifico  que,  afinal,  o  senhor  está 
completamente  fora  do  assunto.  Porque  Romero  não  passa  de  um 
pequeno  contrabandista  que  actua  por  conta  própria,  e  nunca 
trabalhou nem trabalha para mim. A primeira e a única vez que ouvi 
falar  dele  foi  a  propósito  de  um  sarilho  que  arranjou  com  um  dos 
meus homens. 
Exibiu de novo um ar divertido. 

-  E  porque  havia  eu  de  mandar  liquidar  Mr.  Wong?  -Antes  que  eu 
respondesse,  abanou  a  cabeça  e  continuou:-Não,  Mr.  Gold.  O 
senhor  está  cheio  de  ideias  preconcebidas.  Nós  não  andamos  a 
matar  pessoas,  e  muito  menos  pessoas  como  Wong.  Seria  uma 
estupidez. 
Continuei  silencioso  durante  algum  tempo.  Depois  resolvi  ir 
dizendo: 

- Wong, para si, era um concorrente a eliminar. O único que podia 
interferir com os seus projectos. 
 
161 
 
-  Pelos  vistos,  não  era  o  único  -  afirmou  com  segurança.  -  Quem 
tratou  de  mandar  assassiná-lo  é  um  concorrente  muito  mais 
perigoso.  Por  duas  razões.  -  Ergueu  o  polegar.  -  Porque  não  sei 
quem ele é. E porque -levantou o indicador -não hesita em liquidar 
o adversário. 
-  Nesse  caso,  é  estranho  que  esteja  tão  descansado,  González.  - 
Era Al quem falava. 
-  E  quem  lhe  disse  que  estou  descansado,  Mr.  Chasey?  -Bom-disse 
eu, um pouco incomodado por me sentir a perder terreno. - Se anda 
a tratar do assunto, que tal contar-me até onde chegou? 
- Neste momento, a Romero.-Fez uma ligeira inclinação do tronco. - 
Graças a si, Mr. Gold. 
E exibiu novamente aquele sorriso. Senti vontade de lho borrar, da 
boca e dos olhos, com o uísque que tinha no copo. 

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-  Quando  tenciona  regressar  a  Tânger?  -  perguntei,  só  para  ganhar 
tempo e pôr as ideias em ordem. 
-  Esta  tarde,  talvez  amanhã-informou  com  naturalidade.  -  Logo  que 
tenha arrumado o que me trouxe aqui. 
- E o que o trouxe aqui, Senor González? -Investimentos no sector 
do  turismo  -  esclareceu.-E,  para  satisfazer  a  sua  curiosidade, 
posso  adiantar-lhe  a  título  confidencial  uma  notícia  que  será 
divulgada  em  breve.  A  empresa  de  Ben  Youssef,  com  capitais 
marroquinos, e eu próprio, através do Central Bank de Miami, vamos 
construir  a  vinte  quilómetros  daqui  o  maior  complexo  turístico  da 
Península. 
- Ah! -exclamei. -E naturalmente o Senor Ricardo Sánchez, logo que 
recupere  do  braço,  é  quem  fica  a  dirigir  o  transporte  da 
mercadoria. 
Apenas  os  músculos  do  pescoço  e  a  contracção  dos  dedos  que 
seguravam  a  boquilha  denunciavam  o  esforço  que  fazia  para  se 
controlar. 
- O Senor Sánchez foi vítima de um acidente infeliz que o manterá 
afastado  durante  algum  tempo  e  a  curto  prazo  deixará  de  ser  meu 
colaborador. 
Eu assenti. 
- Claro. Sánchez tornou-se incómodo. 
-  Esse  assunto  está  encerrado.  Agora  sou  eu  quem  deseja  abordar 
consigo uma questão muito importante. Trata-se do seguinte: Karin, 

filha 

do 

Senor 

Ben 

Youssef, 

desapareceu. 

Fitou-me 

intensamente: - Sabia? 
 
162 
 
Abanei a cabeça. 
- Cremos que os autores do rapto são os mesmos que mataram Wong - 
proferiu. - Que acha? 
Encolhi os ombros. 
-  Esse  problema  é  vosso.  Pela  minha  parte,  não  acho  nada.  Ou 
tencionava pedir a minha colaboração? 
-  A  sua  colaboração  seria  valiosa,  sem  dúvida-declarou  sem 
pestanejar. 
Sacudi de novo a cabeça. 
- Não, González. Eu é que tenho uma proposta a fazer-lhe. -Sim... 
-  Regresse  ao  seu  país  o  mais  depressa  possível.  Encarou-me  como 
se de repente eu tivesse ficado a funcionar mal da cabeça. 
- Estarei a ouvir bem? 
-  Perfeitamente.  -  E  expliquei,  devagar:  -  Não  tem  outro  remédio, 
González. Lá que o seu banco financie a construção de um complexo 
para  milionários,  isso  é  com  o  Governo  daqui.  Agora  no  que 
respeita  ao  tráfico  de  droga,  eu  já  o  encurralei,  Senor  González, 
e você sabe isso muito bem. 
Possivelmente  para  disfarçar  o  mal-estar  que  sentia,  levantou-se, 
foi buscar uma garrafa de uísque e gelo e veio servir-nos. Disse-
lhe  que  o  queria  puro  e  Al  fez  o  mesmo.  Quem  entrasse  naquela 
altura pensaria tratar-se de uma reunião de convívio. 

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-  O  que  lhe  afirmo  não  é  bluff,  González.  Tenho  documentos  que  o 
enterram,  e  a  Ben  Youssef  também.  O  próprio  Sánchez  há-de  falar. 
Por isso, você não tem outro remédio. E mesmo na sua terra não vai 
ser  fácil  -  assegurei-lhe.  -  A  junta  do  general  Mesa,  mais  dia 
menos  dia,  irá  ao  ar,  e  o  coronel  Guerrero  e  os  outros  também. 
Claro que você ultrapassará a crise - comentei -, mas os negócios 
não voltarão a ser o que são. 
Bebi  mais  um  gole  e  fixei-o  bem,  no  sítio  onde  se  voltara  a 
sentar. A figura dele surgiu menos nítida do que há pouco. Depois 
tornou-se  cada  vez  mais  desfocada,  ouvi  Chasey  começar  a  dizer 
“Grande  filho  da...”  e  decidi  fechar  os  olhos  e  largar  o  copo  da 
mão. 
 
163 
 
CAPÍTULO XVI 
 
Aquele  peso  que  me  descia  do  crânio  e  vinha  descarregar-se  abaixo 
das  sobrancelhas,  a  pressionar-me  os  olhos,  era  o  que  mais  me 
aborrecia.  Porque  eu  queria  abri-los  e  não  conseguia.  Que  força 
seria  aquela  que  me  carregava  nas  pálpebras  e  me  empurrava  os 
olhos  para  dentro  da  escuridão?  O  mais  estranho,  porém,  é  que 
havia uma luz a desmultiplicar-se em cores distintas e tão nítidas 
como a luz do Sol a dispersar-se através de um prisma. No entanto, 
pior  do  que  isso  era  o  vómito  permanente  que  me  subia  das 
entranhas  até  à  boca.  Um  vómito  que  eu  precisava  deitar  cá  para 
fora,  mas  não  sabia  como.  Se  conseguisse  abrir  os  olhos,  pensei, 
ou achei que pensava, talvez pudesse deslocá-los e deitar o vómito 
pelos buracos. E a língua... Eu devia ter uma língua na boca, mas 
o  que  sentia,  se  é  que  sentia  alguma  coisa  no  lugar  dela,  era  um 
bocado  de  cortiça  endurecida,  que  podia  também  ser  madeira  muito 
áspera, e que eu não conseguia comandar. 
Lembrei-me  também  de  que  possuía  pernas,  braços  e  mãos.  E  se  os 
membros  se  tivessem  volatilizado  e  eu  não  fosse  mais  do  que  um 
pedaço  de  vómito  e  um  bocado  de  cérebro  num  crânio  de  cortiça 
envolvido  por  uma  cápsula  de  ferro?  Porque  a  respiração  era 
difícil  e  o  ar  entrava  a  custo.  Mas  quanto  mais  ar  eu  queria 
tragar, mais intenso se tornava o vómito e o pedaço de madeira na 
boca  mais  áspero;  por  isso,  o  melhor  era  engolir  o  ar  aos 
bocadinhos. 
O  zumbido  que  me  vinha  gradualmente  penetrando  os  ouvidos 
aumentou,  e  comecei  a  sentir  frio.  Insectos,  pensei.  Bichos 
voadores  que  naquele  preciso  momento  acabavam  de  me  chupar  o 
sangue  dos  membros,  e  por  isso  eu  não  os  sentia,  e  havia  aquela 
sensação  de  frio  que  devia  ser  o  anúncio  de  morte  a  chegar. 
Desejei que chegasse. 
Ela veio suavemente. 
 
164 
 

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Imediatamente,  a  imagem  que  percebi  não  passava  de  uma  auréola. 
Mas  a  pouco  e  pouco  foram-se  definindo  os  contornos,  e  como  o 
objecto  tapava  o  foco  de  luz  pude  fixar  a  vista  através  das 
pálpebras  semiabertas.  Era  um  rosto,  a  princípio  uma  mancha  com 
sombreados,  e  depois  apresentando  olhos,  nariz  e  boca.  Fiz  o 
cérebro comandar os músculos do local onde deviam ser os braços, e 
os nervos actuaram, embora num esforço que era excessivo, porque o 
circuito  interrompeu-se.  O  vómito  agora  era  apenas  uma  náusea.  As 
pálpebras desceram de novo. Eram persianas teimosas. 
- Então, Gold, isso vai? 
Experimentei  a  língua.  Ainda  era  cortiça,  mas  humedecida  e  menos 
áspera.  Quis  falar,  articulei  as  palavras,  contudo  nenhum  som  me 
chegou  aos  ouvidos.  Eu  chamava-me  Gold,  estava  vivo,  mas 
mergulhado  debaixo  de  água.  Era  o  homem  da  Atlântida.  Tonto, 
agoniado,  a  funcionar  quase  como  uma  planta,  mas  vivo.  Uma  planta 
aquática. 
- Toma. É café. 
As plantas não bebem café pela simples razão de  não terem vícios. 
Francesca.  Quem  era  Francesca?  Karin.  Sim...  Sorri.  Tudo  o  que 
ainda era eu sorriu tontamente. 
- Não faças essa cara. Bebe isto. 
Abri  os  olhos,  e  foi  o  facto  de  reconhecer  aquele  rosto  que 
desencadeou todo o processo de retorno à realidade. 
Ricardo  Sánchez.  Ria  para  mim.  Não  gostei  que  ele  se  estivesse  a 
rir. De mim. 
- Onde... estou? 
Sentia  os  lábios  inchados,  levei  cuidadosamente  a  mão  à  boca,  e 
estava  tudo  na  mesma.  Apenas  anestesiado,  como  no  dentista  após  a 
extracção. 
A mão dele agarrou-me a nuca e empurrou-a para cima. O tronco foi 
atrás.  Fiquei  sentado,  a  vacilar.  E  então  é  que  foi.  A  náusea 
voltou a ser vómito, cresceu e subiu por ali acima, e eu deitei as 
tripas  para  fora.  Para  o  chão,  que  ondulava  doidamente.  As  calças 
e  os  sapatos  do  tipo  ficaram  sujos  de  um  líquido  amarelo  e 
malcheiroso. 
- Grandecíssimo porco! 
A  mão  puxou-me  com  violência  pelos  cabelos  e  endireitou-me  a 
cabeça. 
- Grandecíssimo javardo! 
 
165 
 
Ocorreu-me  pedir  desculpa,  mas  logo  o  meu  cérebro  associou  a 
porcaria ao nome do rosto e resolveu que eu não diria nada. 
- Ainda te ris, meu filho da mãe? 
Se eu sorria, quem o fazia não era eu. 
- Toma. Limpa o focinho. 
Agarrei  o  pano  molhado  e  passei-o  pela  cara.  Sabia  bem.  Cobri  a 
pele toda com ele e deixei-me ficar assim. De repente, o pano foi-
me  arrancado  e  a  tal  luz  forte  incidiu-me  em  cheio  nos  olhos,  ao 

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ponto  de  os  magoar  numa  sensação  dolorosa  que  subiu  e  se 
ramificou. 
- Agarra isto, estupor, enquanto eu vou limpar a porcaria! 
Estendi  as  mãos  como  um  robot  e  segurei  a  chávena  com  precaução. 
Por  mais  cuidado  que  tivesse,  aquilo  tremia,  e  o  líquido  morno 
escorregava-me por entre os dedos. 
- Se entornas isso, ponho-te a lamber o chão. 
Levei  a  chávena  aos  lábios  e  com  os  dentes  inclinei-a.  O  líquido 
encheu-me a boca, engoli tudo de seguida e engasguei-me. Desta vez 
não ouvi a voz. Naturalmente porque a voz não estava lá. 
O café fez efeito. Mesmo assim,  preferi poisar a chávena entre as 
pernas  e  deitar-me  para  trás.  Deixei-me  estar  e  senti-me  melhor. 
Devo ter dormido uns segundos. 
- Agora já chega. Toca a levantar. 
A  mão  puxou-me  o  braço  com  força  e  eu  fiquei  outra  vez  sentado 
como  se  fosse  um  boneco  articulado.  Estava  melhor.  Ainda  há 
instantes não passava de um boneco de trapos. 
Consegui  abrir  os  olhos,  distinguir  com  nitidez  o  espaço  e  os 
objectos que me rodeavam e finalmente falar. 
- Onde é que estou? 
Sánchez deitou-me um olhar de comiseração e proferiu: 
- Estás em Tânger, menino. Então... 
- Em... Tânger? - articulei. 
- Sim. Agora muda-te para aquela cadeira. 
Atirei  quase  sem  dificuldade  as  pernas  para  fora  do  divã  e 
assentei os pés no chão. Consegui pôr-me de pé. Andar é que não. 
Sánchez passou-me um braço por debaixo do sovaco e arrastou-me até 
à cadeira. Deixei vergar as pernas e o corpo tombar. 
 
166 
 
- Como... em Tânger? 
-  Chiça,  que  és  chato.  Está  aqui  e  acabou-se!  -Largou  uma 
casquinada.  -  Em  Tânger  ou  noutro  sítio,  que  importância  é  que 
tem? Para ti acabou-se o passeio... 
Ainda não me sentia em condições de pensar 
- E... AlChasey? 
-  Al  Chasey  está  bem  e  recomenda-se.  O  alojamento  dele  é  tão  bom 
como o teu e fica aqui mesmo ao lado. 
- E... - calei-me. 
- E o quê? 
- Nada. Que foi que me aconteceu? 
-  Aconteceu-te  que  tinhas  o  nariz  muito  grande  e  foste  apanhado 
pela  boca.-  Riu-se  da  própria  graça.-Como  um  peixe...  Ah,  ah!  Um 
peixe, é o que tu és. 
Engraçado como a ideia dele coincidia com a minha de há pouco. 
A minha cabeça começava a estar  em condições de  pensar. Pensar em 
quê?  Karin,  aquela  casa  com  piscina,  Juanita  com  toalha,  o  gorila 
no portão... o elefante de tromba erguida... Adolfo González. 
- Não estamos em Albufeira? 
- Porra! Vais continuar a chatear-me? 

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Reparei agora que ele tinha o braço esquerdo ao peito, a descansar 
numa tira de pano preto que lhe dava a volta por trás do pescoço. 
Continuou, mal disposto: 
- Estás em Marrocos, sacana! Norte de África. Tânger! 
- Mas eu estava em Albufeira. 
Irritou-se e atirou-me uma lambada, de que praticamente só senti o 
efeito porque a cabeça foi atirada para trás. 
-  Albufeira,  uma  merda!-berrou  ele.-  Estavas  em  Albufeira,  mas 
agora estás aqui. E por pouco tempo, se Deus quiser... 
- Drogaram-me? 
Considerou-me como se eu fosse atrasado mental. 
- Não, que ideia... Aconteceu apenas que tu estavas cheio de sono, 
e há dezoito horas que estás a dormir. 
-  Adormeceram-me  para  me  trazerem  até  aqui?  Até  Tânger?  -  Eu 
persistia em não aceitar a ideia. 
- Ouve, meu grandecíssimo filho da puta, e ouve-me de uma vez por 
todas!  Adormeceram-te,  ao  teu  amigo  Chasey  também,  e  trouxeram-te 
para aqui de avião. Percebeste, grande corno? 
 
167 
 
- Não. 
O soco que ele me deu pôs-me de novo a dormir. 
As paredes eram nuas, de cimento, e a decoração do ambiente era a 
lâmpada  de  cem  velas  pendurada  do  tecto,  o  divã,  uma  mesa  e  duas 
cadeiras.  O  chão  era  também  de  cimento.  Aí  encontrava-me  eu, 
virado para cima, com a nuca na superfície áspera. Alguém me tinha 
estendido ali, visto que a cabeça não me doía. Apenas o queixo. 
Sánchez  desaparecera.  Procurei  com  a  vista  uma  janela,  mas  não 
havia.  O  ar  que  eu  respirava  era  aquele  que  entrava  por  baixo  da 
porta. 
Pus-me  de  joelhos  e  gatinhei  para  o  divã.  O  estômago  ardia-me. 
Devia ser fome. Dezoito horas, dissera ele. Talvez o ardor fosse a 
azia do vómito. 
No  caminho  reparei  que  em  cima  da  mesa  havia  um  jarro  com  água  e 
um copo. Interrompi o trajecto e agarrei-me a uma cadeira. Diabos, 
tinha  de  pôr-me  de  pé,  como  um  homem.  Ao  cabo  de  muito  esforço, 
fiquei de pé. Não como um homem, só mais ou menos na vertical. 
Despejei  água  no  copo  e  bebi.  De  seguida  sentei-me  numa  das 
cadeiras,  finquei  os  cotovelos  no  tampo  da  mesa  e  decidi  que  ia 
pensar. 
Em  Tânger,  insistira  Sánchez.  Parecia  não  haver  dúvida,  porque 
Sánchez  não  era  tão  bom  actor  como  isso.  Sem  dúvida  que  podiam 
ter-lhe  ensinado  a  lição.  Porém,  as  reacções  que  eu  recordava, 
embora  se  me  apresentassem  envoltas  em  bruma,  tomava-as  por 
genuínas. 
E  Karin?  Todo  o  meu  corpo  estremeceu,  o  coração  bateu  mais 
depressa  e  as  veias  dilataram-se  até  ficarem  a  latejar  no  pescoço 
e a constituírem um baixo-relevo à superfície dos pulsos. E Karin? 
Levantei-me,  fui  à  porta  e  bati  com  os  punhos.  Bati,  com  toda  a 
força  que  tinha,  e  quanto  mais  gritava  e  batia  mais  as  forças 

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voltavam.  Até  se  esgotarem  outra  vez.  E  então  escorreguei  pelas 
tábuas com as unhas a rasgarem a tinta. 
- Mr. Gold! 
O  apelo  vinha  do  outro  lado  da  porta  e  era  duma  voz  que  eu 
vagamente  lembrava.  “Frank,  está  aí?”  Esta,  tinha  a  certeza  de 
conhecer. 
 
168 
 
Claro que eu estava ali. Ou eles não sabiam? Devo ter dito isto em 
voz  alta.  De  lá  chegou-me  o  ruído  de  passos  e  vozes  e  da  chave  a 
rodar.  Pusera-me  de  pé  entretanto.  Não  era  capaz  de  explicar 
porquê, mas soube de repente que quem me chamava não eram “eles”, 
e sim outros que vinham buscar-me. 
A  porta  escancarou-se  com  estrondo,  eu  saltei  para  trás  e  vi  Al. 
Al  Chasey  em  carne  e  osso,  com  a  cara  numa  lástima,  contudo  a 
sorrir  para  mim.  Atrás  dele  dois  tipos  magros,  pequeninos,  bem 
vestidos e igualmente sorridentes. Ambos com armas na mão. Mr. Kim 
e  Mr.  Su.  Gostei  tanto  de  os  ver  a  todos  que  por  pouco  não  lhes 
caí nos braços. 
- Frank, estás bem? 
- Estou óptimo, Al - e caí-lhe mesmo nos braços. 
- Pois foi assim, meu rapaz. Sem mais nem menos, ouvi dois tiros, 
a fechadura voou em pedaços e estes amigos entraram por ali dentro 
a perguntar onde tu estavas. 
Kim  e  Su  limitavam-se  a  sorrir,  a  confirmar  e  sorrir,  e  quem  os 
visse não daria nada por eles. 
-  Bem  -  disse  eu,  confortado  com  o  bife,  que,  apesar  da  hora 
tardia, o dono do restaurante servira. -E Karin? 
Su  e  Kim  olharam-se  como  se  um  se  visse  ao  espelho  no  outro,  e 
quem falou primeiro foi um deles. 
- Mademoiselle está bem. Na polícia. 
- Na polícia? Que diabo... 
-  Muito  inteligente,  na  verdade  -  disse  o  que  falou  depois.-  A 
atitude mais inteligente a tomar. Sem dúvida alguma. 
Acenaram  ambos  com  as  cabeças  muito  bem  penteadas,  e  eu  vi-me 
também a dizer que sim. Sem sombra de dúvida. 
- Vai um cafezinho, Frank? 
- Claro - disse eu, muito mais bem disposto. - E Karin, está bem? 
Entreolharam-se  os  três.  Al  encomendou  vários  cafés,  deu-me  uma 
palmada na mão e empurrou o maço de cigarros para mim. 
- Frank, Karin está bem. E tu também. O que sucede contigo é que, 
além  da  droga  que  González  preparou  na  bebida,  te  deram  umas 
injecções que me pouparam a mim. Só por isso fiz a viagem para cá 
bem desperto, e estava 
 
169 
 
preparado  quando  eles  apareceram.  Isto  é...  -  levou  a  mão  a  uma 
das equimoses da cara. 
Kim e Su confirmaram, satisfeitos. 

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- E como raio apareceram eles? 
-  Seguiram-nos  até  Albufeira.  E  ficaram  com  o  olho  em  Karin. 
Passadas  duas  horas,  como  não  aparecêssemos,  foram  ao  aeródromo 
mais  próximo.  Não  lhes  foi  difícil  adivinhar  o  que  se  passava, 
quando  lhes  disseram  que  dois  doentes  tinham  sido  embarcados  para 
Tânger. 
Os dois acenavam sempre, a cada frase de Chasey. 
- E depois? 
-  Depois,  Mr.  Gold-disse  Kim  (ou  Su?)-,  três  simple.  Em  Tânger 
sabíamos de dois ou três sítios onde podiam esconder os senhores. 
- E Sánchez? 
Su  e  Kim  trocaram  entre  si  um  olhar  de  entendimento.  Um  deles 
esclareceu-me, com ar desgostoso: 
-  O  Senor  Sánchez  morreu.  Ataque  de  coração.  -Ah!  -comentei.  -  E 
os outros? 
- Não havia mais ninguém - respondeu. 
-  Havia  só  mais  um  homem  -corrigiu  o  companheiro.  Era  a  primeira 
vez que algo assim sucedia. 
- É verdade -emendou o outro. - Morreu. 
- De ataque cardíaco? 
- Exacto. 
- Ah, bem. 
Tomei o café, em goles pequenos. Congratulei-me por Kim e Su serem 
meus amigos. Um ataque cardíaco... aos trinta e oito? 
- E Karin? 
Chasey também era mais meu amigo do que eles, mas foi o único que 
se impacientou. Disparou de rajada. 
-  Bolas,  Frank!  Karin  fartou-se  de  esperar,  viu  aparecer  estes 
amigos, sabia que havia Wong na história, relacionou dois com dois 
e  não  hesitou  em  confiar  neles.  Só  que,  uma  vez  aqui  chegada, 
preferiu  ir  ter  com  Rafik.  Percebeste  agora,  ou  precisas  de  uma 
injecção? 
Não. Eu estava bem. Havia no entanto várias coisas a esclarecer  e 
um assunto a arrumar. Talvez dois. 
- Karin trouxe a mala dela? 
-  A  dela  e  a  tua  -  confirmou  Al.-Os  nossos  amigos  abriram-lhe  o 
carro, mas deixaram-no ficar onde estava. 
 
170 
 
- Tenho de mandar as chaves a Santos. - Estranhamente, conservava-
as no bolso das calças. 
- Não te preocupes agora com isso. Já te sentes melhor? 
Disse que sim com a cabeça e tirei outro cigarro do maço de Al. 
- Romero? 

- Kim e Su também trataram disso. 
Virei-me para eles. 

- Encontraram-no? 
- Foi a primeira coisa que fizemos logo à chegada - confirmaram. 
- Ele falou? - inquiri com ansiedade. 
- Não, Mr. Gold. 

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- Porquê? 

- Porque estava morto. 
Franzi a testa. 

- Foi antes de vocês chegarem? 
- Sim, senhor. 

- Então... 

-  Só  encontrámos  este  bilhete  no  quarto  dele,  entre  papéis  sem 
importância. 
O  que  o  guardava  tirou  o  papel  da  carteira,  desdobrou-o  com 
precaução  e  estendeu-mo.  Eram  dez  linhas  dactilografadas  em 
francês,  precisando  que  o  contrato  devia  ser  cumprido  “nessa 
data”,  que  era  dois  dias  antes.  Concluía  com  a  informação  de  que 
metade  da  quantia  combinada  seguia  junta  e  o  resto  seria  enviado 
depois.  Não  continha  assinatura  ou  qualquer  indicação  à  margem  do 
texto. Virei o papel entre os dedos, li o texto mais duas vezes, e 
à segunda pus-me de pé num salto, enfiei o papel no bolso e disse 
para os meus companheiros: 
- Tenho de ir fazer uma coisa. Observavam-me com espanto. 
- Que se passa, Frank? 
-  Algo  que  tenho  de  ser  eu  a  fazer,  e  sozinho.  Não  te  preocupes. 
Encontramo-nos depois. Okay? E rumei para a saída, quase a correr. 
 
171 
 
CAPÍTULO XVII 
 
Subi  as  escadas  a  pé  e  no  terceiro  escolhi  a  porta  e  toquei  à 
campainha.  Quem  se  encontrava  lá  dentro  apressou-se  a  abrir,  sem 
mesmo  perguntar  quem  era.  Porém,  quando  me  viu,  abriu  muito  os 
olhos e a boca e saltou: 
- Frank! 
Depois veio para mim e apertou o corpo contra o meu, de tal forma 
que eu podia sentir-lhe as formas e o calor. 
- Frank - suspirou, comprimindo-me a nuca com as mãos. - Julgava-
te em Lisboa... 
Distanciou um pouco o rosto. 
-  Deixa-me  ver-te,  meu  querido.  Conta-me  o  que  se  passou,  por 
favor... Anda, vamos sentar. Sentou-se bem junto a mim. 
- Queres tomar uma bebida? 
Disse que sim. Um uísque puro. Foi prepará-lo rapidamente e voltou 
a ocupar o lugar a meu lado, com um sorriso de ternura nos olhos. 
- Sentes-te muito cansado, não é? -Sim, Francesca. Muito cansado. 
- Mas - disse ela, acariciando-me o rosto - diz-me então porque te 
encontras aqui... Como aconteceu isso? 
-  Fui  visitar  Adolfo  González.  Drogaram-me,  meteram-me  no  avião  e 
mandaram-me  para  cá.  Certamente  porque  era  mais  fácil  para  eles 
fazerem-me desaparecer aqui do que lá. 
Abanava os cabelos soltos, assumindo um ar de censura. 
-  Não  tens  emenda,  Frank.  Sabendo  que  te  queriam  a  pele,  ir 
visitar Adolfo González... 
 

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172 
 
- Enganei-me - disse eu. 
- O que sucede é que não tens juízo nenhum, meu amor. Julgava que 
o que se passou aqui te tinha servido de lição. E, já agora, como 
conseguiste sair desta? 
- Um amigo - disse eu. 
Fitou-me profundamente. - Ainda bem que tens amigos-pronunciou num 
sussurro  ligeiramente  rouco.  Inclinou-se  para  mim,  tocou-me  os 
lábios  com  a  ponta  da  língua  quente  e  húmida,  e  a  camisa  de 
dormir,  presa  nos  ombros  por  duas  alças  muito  finas,  descaiu, 
expondo-lhe os seios. O perfume dos cabelos e da pele dela, que eu 
tão  bem  conhecia,  era  uma  mistura  envolvente  de  mulher  e  flores 
silvestres. 
Poisei  o  copo,  segurei-lhe  as  mãos,  que  escaldavam,  e  perguntei-
lhe suavemente: 
-  Que  voltas  deste  na  vida,  Francesca,  para  chegares  ao  ponto  de 
mandar matar um homem? 
As  mãos  crisparam-se  nas  minhas,  mas  não  as  retirou.  Apenas 
afastou  um  pouco  o  tronco  e  a  cabeça.  A  transformação  maior 
ocorreu-lhe  no  rosto.  Os  olhos  perderam  o  brilho,  os  lábios 
contraíram-se,  na  testa  e  na  face  formaram-se  rugas  que  eu  nunca 
vira, e quando falou a voz custou a sair e não era a voz dela. 
- Como... sabes? 
Levei uma das mãos ao bolso e extraí o bocado de papel. Ela virou 
a cabeça logo que percebeu do que se tratava. 
-  Isto  -  expliquei,  sem  ser  preciso  explicar  -,  porque  foi 
redigido por ti, na tua máquina de escrever. 
Não disse nada durante algum tempo. Só as mãos tremiam nas minhas, 
e o corpo perfeito era percorrido a intervalos por um soluço que o 
fazia  estremecer.  Quando  voltou  a  olhar  para  mim,  não  chorava. 
Havia só duas lágrimas grossas a escorregar pelas faces. 
- Frank, é tão difícil... 
- Desde quando? 
- Desde a Bolívia... Ricardo Sánchez. 
- É teu amante? 
- Sim. Mas, Frank, asseguro-te que... 
- E teu sócio. 
-  Sim.  Frank...  -Implorava  que  a  ouvisse.  -Eu  já  não  gosto  dele. 
Tudo  sucedeu  naquela  altura,  não  consigo  explicar  a  mim  própria 
porquê. Fui para a cama com ele, 
 
173 
 
propôs-me  isto  com  naturalidade,  prometeu-me  muito  dinheiro,  não 
sabes? 
Não se tratava de falsa ingenuidade. Apesar de tudo, eu continuava 
a  acreditar  que  conhecia  Francesca,  e  o  que  ela  dizia  soava-me  a 
verdade. 
- Não penses mais em Sánchez - declarei friamente. - Está morto. 

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- Oh... -Mas não havia sequer pena na expressão dela. Talvez mesmo 
algum alívio. 
-  Mentiste-me  desde  que  aqui  cheguei...  sabias  que  eu  ia  correr 
riscos,  e  podias  tê-lo  impedido.  -  Era  uma  questão  idiota, 
reconhecia-o, mas não ficaria descansado se não a pusesse. 
Olhou-me com desespero e falou-me com calor, ao mesmo tempo que me 
pressionava as mãos como para me convencer a acreditar. 
- Não é verdade, Frank. Não te menti. Sofri muito quando soube que 
vinhas,  porque  tinha  a  certeza  de  que  não  arranjaria  processo  de 
te  dissuadir.  Sabes  isso,  Frank.  Eu  não  conseguiria  impedir-te  de 
seguir  para  a  frente,  e  não  resolveria  nada  revelando-te  a 
verdade. Mesmo que fosse capaz de o fazer. E não era... Por favor, 
acredita.  Disse  a  Ricardo  que  te  poupasse,  e  garantiu-me  que  o 
faria.  De  resto,  não  havia  vantagem  para  ele  em  molestar-te, 
porque o nosso propósito era destruir as organizações de Wong e de 
González. 
Adiantei-me. 
- Tu tomaste a de Wong a teu cargo, e ele a de González, não foi? 
Anuiu. 
-  Então  –  acrescentei  -,  quando  aquele  grupo  foi  apanhado 
anteontem de madrugada, foi porque Sánchez preparou tudo isso como 
parte do esquema para sabotar os planos de González. 
- Sim-disse ela.-E nessa altura escapou por um fio. 
- Porque eu apareci... 
- É verdade. 
Ainda  não  me  sentia  esclarecido  em  relação  a  alguns  aspectos  que 
me diziam directamente respeito. 
- Não podiam ter-me ajudado, na noite em que os tipos de González 
me prenderam e perseguiram? 
Abanou a cabeça. 
- Não, Frank. Ricardo nada podia fazer, e para não se 
 
174 
 
denunciar  teve  mesmo  de  simular  que  participava.  Conversei  muito 
com ele sobre isso. 
- Não consegui encontrar-te todo o dia... 
- Eu não podia, Frank. Não podia falar contigo, porque então teria 
de te mentir e não seria capaz... 
As  lágrimas  tinham  secado  e  parecia  agora  mais  calma.  -E  esta 
noite?  Era  Sánchez  quem  me  guardava.  Apesar  disso,  não  sabias  de 
nada? 
- Não - afirmou com vigor.-A última vez que falei com ele foi esta 
manhã,  por  telefone.  A  teu  respeito  apenas  me  disse  que  Karin 
desaparecera, e suspeitava que tivesses sido tu. 
- Fui eu - respondi à pergunta que ela não chegara a formular. 
- Ainda bem - disse simplesmente. O rosto apresentava, no entanto, 
uma expressão triste. 
- Gostas muito dela, não gostas? 
- Sim - declarei. 
- E eu? Que me vais fazer? 

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-  Penso  que  Sánchez  tencionava  liquidar-me  -  afirmei,  iludindo  a 
resposta. 
- Porque dizes isso? - inquiriu  surpreendida. - O trabalho que tu 
estavas a fazer só podia ser-lhe útil. 
-  Não,  a  partir  dali  -  afirmei.  -  Ele  ia  afastar-se  de  González. 
De certo modo, isso contribuiria para desviar dele as intenções da 
polícia, mas não as minhas. Sabia perfeitamente que eu ia envolvê-
lo. 
-  Não  sei,  Frank...-proferiu,  com  ar  fatigado.  Parecia  dez  anos 
mais velha.-Já não sei nada... Que vais fazer agora? 
Suspirei  e  olhei-a  bem.  Continuava  a  ser  Francesca,  uma  das 
mulheres mais belas que eu contemplara na vida. Soltei: 
- Como pode uma mulher como tu envolver-se com um tipo daqueles? 
Os lábios distenderam-se ligeiramente num sorriso cansado. 
- A vida tem dessas coisas, Frank. Sabe-lo tão bem como eu... 
Sim.  Eu  sabia.  Tirei  a  mão  de  entre  as  dela  e  pus-me  de  pé.  Ela 
olhou para cima, com angústia nos olhos, e perguntou: 
- E... eu, Frank? 
 
175 
 
- Tu... - Preferi ir para a porta, e só quando a alcancei, e antes 
de a abrir, larguei, sem olhar para trás: 
- Farás o que entenderes... 
Saí rapidamente. Pareceu-me ouvir dizer: “Amo-te, Frank”, mas deve 
ter sido impressão minha. 
 
176 
 
EPÍLOGO 
 
A  transparência  da  água  verde-esmeralda  fazia  que  nos  apetecesse 
entrar  nela,  senti-la  a  lavar-nos  o  corpo.  A  vastidão  da  baía 
calma,  em  tonalidades  que  progressivamente  atingiam  o  azul  da 
safira,  o  pequeno  paquete  a  largar,  davam  ânsia  de  partir  para 
longe.  O  Sol  descia  para  lá  do  cabo  Espartel,  num  esplendor 
vermelho e ouro. Risquei ao de leve a areia húmida e no desenho o 
meu  dedo  encontrou  a  mão  dela.  Depois  foram  os  nossos  olhos,  e 
mesmo  sem  juntarmos  os  corpos,  apenas  pelo  contacto  das  mãos,  era 
como se cada um de nós não pudesse desligar-se do outro. 
- Para onde, Frank? 
Fiz um gesto que abrangeu a baía. 
- Tanto faz... Onde haja uma praia, palmeiras... 
- E peixe, e fruta? 
- Claro, minha querida. 
- E só nós os dois. Sorri. 
- Não vai ser fácil... 
- Havemos de descobrir... Não achas, Frank? 
-  Claro  que  sim,  pequena.  Havemos  de  conseguir  tudo.  Atirou  o 
cabelo para trás e disse: 
- A partir de agora, não tenho medo. 

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- Claro que não. Fizeste o que era preciso. E eu também. A polícia 
trata do resto. 
- Hão-de apanhá-los, não achas? 
- Tenho a certeza. 
- Quando partimos? 
- Amanhã de manhã. Tenho de me despedir dos amigos. 
- Quem são os amigos, Frank? 
 
177 
 
- Felipe, Ahmed... e Joana. 
- É bonita? 
- Sim, querida. É a cabrinha mais gentil que já conheci. 
Contei-lhe, escutou, e no fim proferiu: 
- É bonita, essa história. 
-  Sim-disse  eu.-  O  homem  é  um  animal  estranho.  Deve  ser  mesmo  o 
único que gosta dos outros bichos e faz mal aos seus semelhantes. 
- Tu não és mau - declarou ela. 
- Não sei. - O vento começava a levantar a areia. - Vamos andando? 
- Sim, Frank. 
-  E  amanhã,  adeus,  Tânger...  Até  à  vista.  E  connosco  levamos  47 
000 dólares. 
Ela virou o rosto lindo para mim, e nele havia preocupação. 
- Frank, eu queria dizer-te... Mas não calhou... 
-  Dizer  o  quê,  meu  amor?  Não  é  esse  o  dinheiro...  o  nosso 
dinheiro? 
-  Não,  querido  -  falou  ela  baixinho.  Senti  um  peso  do  lado 
esquerdo do peito. 
- Mas, Karin... Não me disseste que o tinhas guardado? 
-  Sim,  querido  -  disse  por  fim.-  Mas  é  que...  tirei  cinquenta 
dólares  para  comprar  roupa.  -  E  logo  acrescentou:  -  Eu  depois 
pago... 
Soltei uma gargalhada. E com o beijo que lhe exigi fi-la pagar ali 
mesmo. 
 
Em  breve,  nesta  mesma  colecção,  o  próximo  livro  de  FRANK  GOLD  A 
MULHER DE HONG-KONG 
As páginas que seguem são excertos do próximo livro de Frank Gold 
a  publicar  nesta  colecção.  Não  percam  esta  excitante  aventura  com 
AL CHASEY, o jornalista criminal mais irreverente de sempre! 
Já  vi  gente  morrer.  No  hospital.  Numa  rua  de  Nova  Iorque,  no 
bosque  de  Neuilly  e  num  beco  escuro  de  Marselha.  Vi  pessoas 
morrerem de morte natural e de buracos de balas. Morte natural, de 
qualquer  modo.  Agora  mesmo,  neste  momento,  um  homem  jazia  ali, 
morto  bem  próximo  de  mim.  Apenas,  desta  vez,  era  diferente. 
Porque,  se  em  qualquer  lado  morrer  é  morrer,  uma  coisa  é  um 
pequeno  orifício  na  linha  do  coração,  por  onde  a  vida  foge  na 
forma  de  um  fio  de  sangue...  e  outra  bem  mais  feia  de  olhar  é  o 
efeito de uma 45 que atravessa o crânio de lado a lado. Tudo fica 
numa  massa  horrorosa,  para  onde  não  é  aconselhável  olhar  outra 
vez.  Eu  sei  que  na  guerra  é  pior.  Mas  é  outra  coisa,  também.  E 

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isto  acontecera  ali  mesmo,  a  uma  esquina  mal  iluminada  de  Nathan 
Road.  Nathan  Road  fica  em  Hong-Kong.  E  o  meu  nome  é  Chasey.  Al 
Chasey. Sou repórter criminal. 
 

 
Eu  desembarcara  na  véspera  no  aeroporto  de  Kai  Tak,  para  uma 
permanência  de  seis  dias  na  cidade  de  Hong-Kong,  onde  de  12  a  15 
de  Setembro  se  realizaria,  no  Bay  Wiew  Hotel,  o  Congresso  de 
Correspondentes  Estrangeiros  no  Médio  e  Extremo  Oriente.  Mais  de 
oitenta  representantes  da  imprensa  de  todos  os  países  de  língua 
inglesa  estariam  presentes,  incluindo  cerca  de  trinta  dos  Estados 
Unidos. 
A  minha  tarefa  dentro  do  jornalismo  é  a  de  repórter  criminal,  e 
mais precisamente a de dirigir a “Coluna” do Sun de Nova Iorque. À 
primeira vista dá a impressão de que eu estaria deslocado em Hong-
Kong,  isto  se  partirmos  do  princípio  de  que  não  me  encontrava 
nesta altura em  gozo de férias.  Mas a verdade é  que, encontrando-
se  o  correspondente  do  Sun,  George  Brannigan,  impossibilitado  de 
comparecer,  o  meu  director,  Ralph  Pearson,  resolvera  que  o  Al 
Chasey  podia  dar  lá  um  salto,  e  de  um  golpe  matava  dois  coelhos: 
estaria  presente  como  observador  no  Congresso  e  traria  de  volta 
para  os  Estados  Unidos  uma  série  de  artigos  para  a  “Coluna”.  Foi 
assim. Eu ainda não me tinha dado bem conta de que ia dum momento 
para  o  outro  realizar  um  dos  sonhos  da  minha  vida,  quando  Ralph 
inquirira: “Quando pode partir?”. “Não sei... amanhã...”, retorqui 
com  um  sorriso  idiota.  “Okay”,  declarou  ele,  “peça  a  Miss  Moore 
que  lhe  entregue  a  sua  passagem  para  o  avião  desta  noite.  Tudo  o 
resto está tratado. Boa viagem.” E pronto. 
Foi  assim  que  no  princípio  da  tarde  do  dia  seguinte,  envergando 
gabardina  clara  e  fato  tropical  e  segurando  uma  mala  pequena  na 
mão, eu descia do avião da B. O. A. C. que me transportara desde a 
última  escala.  Depois  de  ter  percorrido  as  oito  mil  milhas  de  um 
percurso  que  começa  no  aeroporto  John  Kennedy  e  passa  por  Roma, 
Atenas,  Karachi  e  Singapura,  para  terminar  num  ponto  algures  no 
Sul  da  China,  chamado  Hong-Kong.  E  reflectia  que  não  havia  engano 
e  que  era  bem  eu,  Al  Chasey,  o  rapaz  de  Nova  Iorque,  quem  nessa 
manhã  radiosa  de  sol  punha  os  pés  na  cidade  mais  fascinante  e 
misteriosa  do  Oriente.  E  perigosa  também,  segundo  parecia-centro 
de espionagem, crime e acção. Onde acontece tudo o que é possível 
acontecer...  de  pior.  Onde  quem  tiver  poucos  escrúpulos  pode 
enriquecer  depressa...  ou  morrer  mais  depressa  ainda.  Onde  as 
mulheres  dão  tudo  o  que  têm,  e  têm  mais  para  dar  do  que  em 
qualquer parte do mundo. Tudo isto eu ouvira dizer de Hong-Kong. e 
TUDO ISTO E MUITO MAIS VEIO TER COMIGO EM HONG-KONG. 
Esteja atento ao próximo livro desta colecção: 
A ESTRANHA MORTE DE UMA ACTRIZ BENNETT-2 
 
O detective mais irresistível e excêntrico das últimas décadas. 
por Elliott Lewis 

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Era  difícil  separar  a  verdade  da  ficção,  no  que  se  referia  a 
Christine  Walker.  Símbolo  do  sexo,  com  quatro  casamentos 
desfeitos,  podia  perfeitamente  ter  posto  termo  à  vida...  como  as 
artistas de cinema fazem por vezes. 
Mas  Behnet  conhecia-a  e  amava-a  e  não  aceitava  essa  versão.  Mesmo 
que tivesse de arriscar a vida para provar o contrário... 
Do mesmo autor, nesta colecção, O CASO DOS CORPOS DECAPITADOS 
O novo livro DE CHARLES BERLITZ 
- O autor de O Triângulo das Bermudas - O FIM DO MILÉNIO VEM AÍ! 
COMEÇOU A CORRIDA 
CONTRA O TEMPO 
JUÍZO 
 
1999 D.C 
FALTAM APENAS 17 ANOS... 
.E AS PROFECIAS SERÃO REALIZADAS 
Portas do 
Desconhecido. 
PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA 
PORTUGAL DIVIDE-SE EM DOIS: 
OS TRISTES......E OS QUE LÊEM 
BEATRIZ COSTA 
PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA 
Apartado 8”2726 Mem Martins. Codex Portugal