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A MULHER DE HONG-KONG 

 

FRANK GOLD 

 

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A MULHER DE HONG-KONG 

 

 

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA 

 

 

Capa 

estúdios P. E. A. 

 

 

Luís Campos 

 

 

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda. 

 

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer 

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Exceptua-se  naturalmente  a  transcrição  de  pequenos  textos  ou  passagens  para 

apresentação  ou  crítica  do  livro.  Esta  excepção  não  deve  de  modo  nenhum  ser 

interpretada como sendo extensiva à transcrição de textos em  recolhas antológicas 

ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são 

passíveis de procedimento judicial 

 

Editor: Francisco Lyon de Castro 

 

Edição n.° 35 51413265 

 

Execução técnica: Gráfica Europam, Lda.,  

Mira-Sintra - Mem Martins 

 

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Já  vi  gente  morrer.  No  hospital.  Numa  rua  de  Nova  Iorque,  no  bosque  de 

Neuilly e num beco escuro de Marselha. Vi pessoas morrerem de morte natural e de 

buracos de balas. Morte natural, de qualquer modo. Agora mesmo, neste momento, 

um homem jazia ali, morto bem próximo de mim. Apenas desta vez, era diferente. 

Porque se em qualquer lado morrer é morrer, uma coisa é um pequeno orifício na 

linha do coração, por onde a vida foge na forma de um fio de sangue... e outra bem 

mais feia de olhar é o efeito de uma .45 que atravessa o crânio de lado a lado. Tudo 

fica  numa  massa  horrorosa,  para  onde  não  é  aconselhável  olhar  outra  vez.  Eu  sei 

que na guerra é pior. Mas é outra coisa, também. E isto acontecera ali mesmo, a uma 

esquina  mal  iluminada  de  Nathan  Road.  Nathan  Road  fica  em  Hong-Kong.  E  o 

meu nome é Chasey. Al Chasey. Sou repórter criminal. 

 

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CAPÍTULO I 

 

Eu  desembarcara  na  véspera  no  aeroporto  de  Kai  Tak,  para  uma 

permanência de seis dias na cidade de Hong-Kong, onde de 12 a 15 de Setembro se 

efectuaria  no  Bay  View  Hotel  o  Congresso  de  Correspondentes  Estrangeiros  no 

Médio e Extremo Oriente. Mais de oitenta representantes da imprensa de todos os 

países  de  língua  inglesa  estariam  presentes,  incluindo  cerca  de  trinta  dos  Estados 

Unidos. 

A  minha  tarefa  dentro  do  jornalismo  é  a  de  repórter  criminal,  e  mais 

precisamente a de dirigir a “Coluna” do Sun, de Nova Iorque. À primeira vista dá a 

impressão  de  que  eu  estaria  deslocado  em  Hong-Kong,  isto  se  partirmos  do 

princípio de que não me encontrava nesta altura em gozo de férias. Mas a verdade é 

que,  encontrando-se  o  correspondente  do  Sun,  George  Brannigan,  impossibilitado 

de comparecer, o meu director, Ralph Pearson, resolvera que o Al Chasey podia dar 

lá um salto, e de um golpe matava dois coelhos: estaria presente como observador 

no Congresso e traria de volta para os Estados Unidos uma série de artigos para a 

“Coluna”. Foi assim. Eu ainda não me dera bem conta de que ia de um momento 

para  o  outro  realizar  um  dos  sonhos  da  minha  vida,  quando  Ralph  inquirira:’ 

“Quando  pode  partir?”  “Não  sei...  amanhã...”,  retorqui  com  um  sorriso  idiota. 

“Okay”, declarou ele, “peça a Miss Moore que lhe entregue a sua passagem para o 

avião desta noite. Tudo o resto está tratado. Boa viagem.” E pronto. 

Foi  assim  que  no  princípio  da  tarde  do  dia  seguinte,  envergando  gabardina 

clara e fato tropical e segurando uma mala pequena na mão, eu descia do avião da 

B.O.A.C.  que  me  transportara  desde  a  última  escala.  Depois  de  ter  percorrido  as 

oito mil milhas de um percurso que começa no aeroporto John Kennedy e passa por 

Roma,  Atenas,  Carachi  e  Singapura,  para  terminar  num  ponto  algures  no  Sul  da 

China, chamado Hong-Kong. E reflectia que não havia engano e que era bem eu, Al 

Chasey, o rapaz de Nova Iorque, quem nessa manhã radiosa de sol punha os pés na 

cidade mais fascinante e misteriosa do Oriente. E perigosa também, segundo parecia 

-  centro  de  espionagem,  crime  e  acção.  Onde  acontece  tudo  o  que  é  possível 

acontecer... de pior. Onde quem tiver poucos escrúpulos pode enriquecer depressa... 

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ou morrer mais depressa ainda. Onde as mulheres dão tudo o que têm, e têm mais 

para  dar  que  em  qualquer  outra  parte  do  mundo.  Tudo  isto  eu  ouvira  dizer  de 

Hong-Kong.  E  TUDO  ISTO  E  MUITO  MAIS  VEIO  TER  COMIGO  EM 

HONG-KONG. 

Um estranho numa cidade estranha. Estranha  nas gentes, nos costumes, no 

que  se  vê  e  naquilo  de  excitante  e  explosivo  que  se  sente  como  sismo  violento 

sacudindo  o  interior  da  terra,  ou  vulcão  fazendo  vibrar  as  entranhas  na  procura 

desesperada de ponto vulnerável para a expulsão das suas lavas incandescentes. Lava 

que pode formar torrente, que vem do Inferno e arrasta para o Inferno tudo o que 

encontra  no  caminho.  Frente  à  qual  a  vida  humana  tem  tão  pouca  importância 

como a de um inseto. Lugar onde se pode sobreviver? Sem dúvida. Quatro milhões 

de  pessoas  são  uma  prova.  Em  que  condições?  Bem,  essas  não  são  agradáveis  de 

ver. Os três  milhões e  meio, que são as vítimas, que o digam. A diferença para os 

quatro milhões foi a que por razões diferentes se manteve afastada da torrente. Ou 

que, por razões mais diferentes ainda, ficou acima dela. Mas se Hong-Kong é tudo 

isto, é também um refúgio. Porque ao alcance da vista se ergue o dragão formidável 

que  é  a  China.  E  a  China  justifica  Hong-Kong.  E  Hong-Kong  tem  de  ser  aceite 

assim, e é inútil imaginar poder modificá-la, porque doutra forma não seria Hong-

Kong. 

Fora exactamente o Bay View, em Cameron Road, o hotel designado para a 

minha  permanência.  E  se  era  certo  que  quase  uma  centena  de  jornalistas  se 

encontravam naquela altura na cidade, ou em vias de chegar, a verdade é que o Sun 

sabe fazer as coisas, e o bom do Brannigan tinha quarto reservado havia um mês no 

Bay View Hotel. Só que agora quem se ia refastelar em aposento de luxo era eu, Al 

Chasey,  enquanto  o  pobre  George  adormecia  as  complicações  de  estômago  numa 

clínica  de  Singapura.  E,  se  querem  saber,  direi  sinceramente  que  não  o  lamentava. 

Eu  sempre  o  avisei  que  demasiado  álcool  dava  cabo  de  um  tipo.  Mas  George 

Brannigan é o sujeito mais teimoso que já encontrei na minha vida. 

Cameron  Road  é  uma  artéria  movimentada.  E  dizer  isto  sobre  uma  rua  da 

cidade  pode  não  a  caracterizar  definitivamente,  porque  todas  o  são.  Mas  o  que 

acontece  é  que  se  falarmos  de  uma  rua  do  Bairro  Wanchai,  na  “Ilha”,  o  adjectivo 

mais aconselhável não poderá nunca ser “movimentada”, mas qualquer outro muito 

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mais  expressivo.  Mas  fixemos  que  Cameron  Road,  com  os  seus  letreiros  gritantes, 

escritos em inglês e chinês, de cada lado da rua, é apenas movimentada. 

A  entrada  do  Bay  View  não  é  sumptuosa,  deixando  contudo  adivinhar  que 

para  lá  da  grande  porta  rotatória  o  clima  que  se  respira  é  de  grande  ambiente.  O 

porteiro  indiano  que  me  veio  abrir  a  porta  do  táxi  apanhou  a  maleta,  fazendo 

questão de me levar igualmente a gabardina. Eu não quis desapontá-lo. 

O átrio era espaçoso e povoado pela fauna heterogénea de todos os átrios de 

grandes hotéis. Na recepção exibi o passaporte ao ocidental que me atendeu, e pela 

pronúncia soube que era inglês. Tratava-se de um indivíduo novo e simpático, mas 

que  apresentava  já  no  rosto,  e  especialmente  nos  olhos,  os  traços  que  uma  vida 

demasiado agitada deixa sempre impressos. 

- Mister Chasey, não é? 

- Sim... acho que sim - anuí. - Pelo menos é o que aí diz. 

Julgo  que  aceitou  a  minha  palavra,  porque  encolheu  os  ombros  e  foi 

consultar  os  registos.  Acho  que,  quer  a  fotografia  do  passaporte  tivesse  sido 

substituída por outra ou o nome falsificado, o facto não o incomodaria o bastante 

para telefonar à polícia. 

E quando pensei em polícia, reflecti que depois do banho e de mudar de fato 

a primeira coisa que faria antes mesmo de um sono reparador era ir visitar alguém. 

Esse alguém chamava-se John McDermott e desempenhava  nessa altura apenas as 

funções  de  chefe  da  Divisão  de  Detectives  da  Polícia  de  Hong-Kong.  Uma  das 

tarefas  mais  ingratas  deste  mundo  -  trabalho  que  apenas  poucos  poderiam 

desempenhar. E um desses poucos era precisamente o capitão John D. McDermott, 

ex-Scotland  Yard,  que  eu  conhecera  em  Londres  como  tenente  da  Polícia 

Metropolitana e voltara a encontrar depois, mais vezes. Para ele eu era o Good Old 

Chasey. Para mim, ele era o meu amigo John D. 

O rapazote da recepção voltou pouco depois, mas desta vez acompanhado. 

Antecedia-o alguém de certa importância ali dentro - o gerente, sem dúvida. Era um 

parceiro  elegante  como  um  manequim  masculino  de  Madison  Avenue,  um  pouco 

mais leve apenas. Trajava fato cinzento-claro de corte britânico, as linhas do rosto 

tinha-as tão vincadas como as do fato, e  os  olhos  e o cabelo eram  negros.  Enfim, 

um indivíduo à altura do ambiente. 

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- Em nome do Bay View Hotel desejo-lhe as boas-vindas e uma feliz estada. 

É uma honra para nós, Mister Chasey. 

Deixava  cair  as  palavras  bem  articuladas  com  um  toque  forçado  de 

deferência, mas apesar disso o conjunto não era desagradável. Fora dali devia ser um 

fulano simpático. 

Agradeci, depois do que ele retirou do chaveiro a chave correspondente e a 

entregou  a  um  rapazinho  oriental  de  farda  azul  que  surgira  como  por  encanto  ao 

meu lado. 

- Conduz Mister Chasey ao número quatrocentos e cinco. 

Por essa altura verifiquei que o porteiro já saíra, e trotei atrás do miúdo até ao 

elevador,  que  nos  conduziu  ao  quarto  andar.  Os  olhos  marotos  do  rapaz  não 

paravam  de  me  observar,  e  quando  lhe  fitei  o  rosto  notei  que  lhe  faltavam  dois 

dentes da frente, o que só servia para acentuar o ar malandro e espertalhão. 

O quatrocentos e cinco ficava à esquerda da saída do elevador e para lá nos 

dirigimos, eu sempre um pouco atrás e os olhos brilhantes do garoto a espiarem-me 

sorrateiramente.  Pouco  antes  de  alcançarmos  o  quarto  que  me  fora  destinado,  a 

porta do fundo abriu-se para dar passagem a alguém que começou a andar para nós 

num  passo  balouçado  e  provocante.  Esse  alguém  era  um  serzinho  notável 

embrulhado num casaco muito leve de pele macia que lhe contornava o corpo, que 

tinha  muito  que  contornar.  Os  cabelos  louros  puxados  para  o  alto  encimavam  o 

rosto encantador num adorável ninho de cegonha. O narizinho arrebitado virou-se 

para  mim  à  sua  passagem  por  nós  e  os  olhos  verdes  fitaram  descaradamente  os 

meus  enquanto  os  lábios  vermelhos  carnudos  compunham  um  ligeiro  trejeito 

sensual. 

Quando a visão acabou de passar, o miúdo olhou para mim com aquele seu 

ar sabido e comentou apenas num inglês enrolado: 

-  Bom,  hem,  mister?  Conhecedor.  Deixei  que  escancarasse  a  porta  do 

quatrocentos e cinco e pousasse a maleta sobre a cadeira, e inquiri interessado: 

- Ouve cá, que idade tens? Falou entusiasmado:  

-  Doze  anos.  O  meu  nome  é  Mike.  Nasci  em  Hong-Kong.  Grande  cidade! 

Conheço tudo. Gente. Mulheres. Posso arranjar, mister. Senhor diz como quer, eu 

trago. 

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Inspirei  fundo  e  percorri  descontraidamente  o  quarto  com  a  vista.  Era 

luxuoso,  de  facto,  e  as  paredes  forradas  de  azul  davam  ao  aposento  um  clima 

repousante  que  a  cama  esplêndida  no  outro  extremo  do  salão  assegurava.  Todo  o 

mobiliário, de resto, era rico e confortável. Ao fundo, uma porta de chapa de vidro, 

que  deslizava  lateralmente,  dava  para  uma  grande  varanda  que  era  quase  terraço. 

Podia  dispor  ainda  da  sala  de  banho  contígua  e  de  dois  telefones  nas  mesinhas 

elegantes de cada lado da cama. Um lustre de dimensões apreciáveis pendia do tecto, 

e  este  fora  pintado  na  mesma  cor  das  paredes  mas  em  tom  um  pouco  mais  claro. 

Concluí definitivamente que o ambiente me agradava e sorri para o rapaz, enquanto 

do bolso extraía uma nota pequena que ele sumiu na algibeira quase antes de eu ter 

acabado de a tirar para fora. Mostrou o intervalo entre os dentes. 

- Tudo o que quiser, mister...! - e piscou-me os olhos miúdos, que já tinham 

visto tanto em doze anos como os meus em trinta. 

Esgueirou-se para o corredor fechando cuidadosamente a porta atrás de si, e 

eu  dirigi-me  para  a  varanda.  O  panorama  que  contemplei  era  deslumbrante.  Por 

sobre  os  telhados  irregulares  e  coloridos  podia  alcançar-se  o  cenário  incomparável 

do  porto  e  da  baía  e,  mais  para  lá,  a  ilha  de  Hong-Kong.  Sobre  as  águas,  que 

reflectiam os raios quentes do Sol, as embarcações, às centenas, flutuavam coladas 

umas  às  outras,  e  o  mundo  que  as  habitava  adivinhava-se  tão  intenso  como  o  das 

gentes que enchiam as ruas e habitavam nelas, ou debaixo dos telhados irregulares e 

coloridos. E até o ar que me entrava pelas narinas tinha um sabor diferente de tudo 

o que até aí respirara, e esse cheiro, como o ruído que me chegava aos ouvidos e que 

vinha de toda a parte, subindo desde o porto, era de tal modo poderoso e transmitia 

com  tamanha  força  a  presença  do  vulcão  que  expelia  lavas  incandescentes,  que  as 

veias me pulsavam  mais intensamente e me senti irreversivelmente arrastado a sair 

para as ruas, a misturar-me com a multidão e a penetrar naquele mundo fascinante e 

desconhecido. 

Mas  o  que  fiz  foi  voltar  para  dentro,  correr  os  vidros,  tirar  os  sapatos  e  o 

casaco e deixar-me cair pesadamente sobre a cama. A longa viagem, antecedida pela 

excitação  da  partida,  extenuara-me.  E  Hong-Kong  estava  ali.  Podia  esperar.  E  o 

banho e o meu amigo John D. McDermott também. 

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CAPÍTULO II 

 

Quando  acordei  do  sono  profundo  que  tomara  conta  de  mim  já  o  quarto 

fora invadido pela escuridão e apenas, a espaços regulares, a parede fronteira à janela 

era  iluminada  por  uma  tonalidade  verde  que  provinha  do  anúncio  luminoso  do 

outro  lado  da  rua.  Acendi  um  cigarro  e  ali,  no  escuro,  onde  apenas  a  ponta 

incandescente  brilhava,  eu  tinha  a  sensação  de  me  encontrar  num  quarto  de  hotel 

algures  na  cidade  de  Nova  Iorque.  Apenas  o  ruído  que  me  chegava  lá  de  fora  era 

distinto,  embora  em  relação  ao  de  horas  atrás  houvesse  diminuído  sensivelmente. 

Liguei  o  pequeno  candeeiro  ao  lado  da  cama,  consultei  o  relógio  e  levantei  o 

auscultador. Quando a voz do outro lado atendeu, falei: 

-  Pode  mandar-me  o  jantar  cá  acima?...  Bem,  desde  que  não  seja  comida 

chinesa, pode vir qualquer coisa! 

Desliguei  com  a  convicção  de  que  “o  outro  lado”  ficara  ofendido. 

Simplesmente,  eu  tenho  ideias  pessoais  sobre  o  que  me  entra  no  estômago,  e 

embora admita que haja comida oriental tragável, continuo, mesmo a oito mil milhas 

de casa, a preferir a alimentação ocidental. 

Levantei-me e, depois de me ter desembaraçado da roupa e extraído da mala 

tudo o que precisava, encaminhei-me para a casa de banho. 

Levei vinte e cinco minutos a barbear-me e a tomar o duche, após o qual, e 

devido também ao facto de ter dormido cinco horas, me senti como novo. Saía do 

quarto de banho como as crianças vêm ao  mundo quando bateram à  porta. Era  o 

jantar. 

- Entre! - disse distraidamente, enquanto esfregava vigorosamente a cara com 

a loção de barbear. 

A  porta  entreabriu-se  para  deixar  passar  uma  mesinha  de  rodas  que 

transportava realmente o meu jantar. Só que a empurrá-lo não entrou um rapaz, mas 

sim uma rapariguinha interessante de olhos em amêndoa que ao ver-me soltou uma 

risada infantil e continuou a aproximar-se enquanto eu procurava desesperadamente 

cobrir-me  com  a  primeira  coisa  que  apanhei  à  mão.  Colocou  o  tabuleiro  bem 

pertinho  de  mim,  mirando-me  com  o  mesmo  interesse  com  que  observaria  um 

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artigo americano de exportação, depois do que soltou nova risadinha e, voltando-me 

as  costas,  desapareceu.  “Bolas”,  pensei,  “estas  chinesinhas  devem  ser  levadas  da 

breca!” Olhei o espelho e a minha figura, enrolado como estava no tapete felpudo 

que apanhara do chão, era a de um indígena da Nova Zelândia. 

Quando  dei  por  terminada  a  operação  de  vestir-me,  atirei-me  com  toda  a 

gana  ao  jantar  que  me  haviam  preparado.  Soube-me  bem,  e  quando  acabei  acendi 

um  cigarro  e  fui  até  à  varanda.  A  cidade  à  noite  era  um  apelo  a  que  eu  não  podia 

resistir. 

Saí. John D. e o presidente do Congresso, a quem eu ficara de me apresentar 

assim que chegasse, podiam esperar até amanhã. Porque esta noite pertencia-me. 

Ao ver-me, o rapazote da recepção precipitou-se para mim. 

- Deseja que lhe sugira algum local agradável, Mister Chasey? 

- Bem - concordei -, desde que seja um sítio onde eu possa sentir que estou 

em Hong-Kong e não noutro lado qualquer ... 

- Nesse caso, deste lado da cidade e próximo daqui, permito-me recomendar-

lhe  o  Golden  Bamboo.  Ao  cimo  da  rua,  do  lado  direito,  mesmo  à  esquina  de 

Cameron com Nathan Road. 

Agradeci e descolei. Subi Cameron Road, tal como me fora aconselhado. Os 

letreiros  luminosos  eram  o  suficiente  para  iluminar  o  pavimento,  pelo  que  a 

presença  dos  candeeiros  semeados  pelos  passeios  era  supérflua.  Claro  que  o 

raciocínio lógico é que eles tinham sido ali plantados antes das tabuletas luminosas. 

Satisfeito com a dedução, continuei até à esquina com Nathan Road. E mesmo que 

o  tipo  da  recepção  não  me  tivesse  fornecido  a  indicação  rigorosa  do  local,  eu 

chegaria  lá  nem  que  estivesse  embriagado.  As  letras  de  néon  a  formar  as  palavras 

Golden  BamBoo  desciam  desde  o  topo  do  edifício  até  três  metros  do  solo.  Meia 

dúzia de marinheiros faziam à porta uma algazarra de tal ordem que se devia ouvir 

do  outro  lado  de  Victoria  Bay,  e  a  meia  dúzia  de  mulheres  que  lhes  faziam 

companhia  contribuía  decisivamente  para  o  resultado.  Consegui  furar  por  entre  o 

grupo e atravessar o cortinado de cana de bambu que ocultava o interior. E não era 

só isso o que ocultava o interior, porque lá dentro a cortina de fumo era tão espessa 

que nos dava a mesma impressão de quando entramos na sala de um cinema depois 

de  as  luzes  se  apagarem  e  a  sessão  já  começou  -  uma  pessoa  tem  de  se  habituar 

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primeiro. 

Os  meus  olhos  aperceberam  de  início  os  contornos  esbatidos  e  depois,  a 

pouco  e  pouco,  os  vultos  desenhando-se  com  mais  nitidez  até  aparecerem  as 

pessoas.  Homens,  mulheres  e  raparigas  que  ainda  não  eram  mulheres,  mas  que 

sabiam  já  tudo  o  que  as  mulheres  que  frequentam  lugares  como  aquele  precisam 

saber.  O  balcão  ficava  ao  fundo,  a  toda  a  largura,  e  a  sala  do  rés-do-chão  era 

formada  por  pequenos  compartimentos  tapados  com  reposteiros  do  género  do  da 

entrada  com  dragões  vermelhos  e  dourados  e  separados  por  espaços  onde  haviam 

sido colocadas mesas de verga rodeadas por coxins pintados de vermelho berrante. 

As  mesas  estavam  todas  ocupadas,  e  pelos  vistos  os  compartimentos  também, 

porque de lá saíam risadas, gritinhos e casais colados com grude, e entravam outros 

pares.  E  às  vezes  não  se  tratava  apenas  de  pares,  mas  sim  de  um  tipo  com  uma 

fêmea em cada braço. O elemento feminino, aliás, era mais numeroso, e o que logo 

se tornava evidente era que a fauna que habitava o local se caracterizava pelo facto 

de os homens, salvo raras excepções, serem todos ocidentais e as garotas chinesas. E 

o  certo  é  que,  embora  ali  estivessem  misturadas  raças  diferentes  e  nacionalidades 

distintas, a harmonia era completa, o entendimento total e os espíritos e os corpos 

moldavam-se por completo. 

A  iluminação  não  era  de  modo  algum  intensa,  ali.  Muito  pelo  contrário. 

Chegava apenas para diferenciar, se percebem o que quero dizer, e era fornecida por 

balões  coloridos  pendurados  do  tecto  e  de  suportes  nas  paredes.  Também  esses 

pequenos balões ostentavam o tal dragão vermelho e dourado, e tal insistência dava 

a  entender  que  se  tratava  do  distintivo  da  casa,  embora  eu  não  conseguisse  à 

primeira  tentativa  estabelecer qualquer ligação  entre Golden  Bamboo  e um dragão 

dourado. 

As raparigas da casa estavam vestidas com trajos tradicionais de  bom  gosto 

subidos até ao pescoço e abertos de cada lado, sobre as pernas, até quase às coxas. 

Cheong  Sam,  é  como  lhe  chamam.  As  cores  eram  agradáveis  à  vista,  e  aquilo  que 

não  era  vestido,  mas  que  o  vestido  deixava  ver,  ou  adivinhar,  ainda  mais.  Havia 

também  raparigas  que  não  eram  da  casa,  e  mulheres  européias  até.  Enfim, 

encontrava-se  ali  de  tudo,  de  marinheiros  a  tipos  importantes  que  cheiravam  a 

massa,  e  de  raparigas  que  somente  queriam  dinheiro  sem  lhes  importar  donde  ele 

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vinha a outras que procuravam apenas sensações fortes. 

Depois que desisti de arranjar mesa consegui, após algum esforço, alcançar o 

balcão, onde me empoleirei num tamborete desocupado entre dois marinheiros que 

discutiam acaloradamente. 

-  Uísque  -  pedi  ao  barman,  um  chinês  de  cara  de  pergaminho  que  limpava 

escrupulosamente o tampo do balcão. 

- Gelo, mister? 

- Simples.  

Os  marinheiros  eram  franceses  e  a  causa  da  discussão  nunca  a  cheguei  a 

perceber. Só sei que na altura em que, já irritado com os perdigotos e palavrões que 

se  entrecruzavam  defronte  do  meu  nariz,  eu  ia  entrar  na  conversa,  o  que  se 

encontrava à minha esquerda, um franganote de rosto rosado e imberbe, me tocou 

no ombro e proferiu, zangado: 

- Eli, toi, muda-te!  

Eu  ia  responder-lhe  que,  a  sair  dali,  só  se  fosse  para  lhe  dar  uma  surra, 

quando  compreendi  que  o  seu  objectivo  era  trocar  comigo  para  ficar  ao  lado  do 

outro. Fiz-lhe de bom grado a vontade e a discussão prosseguiu, mas agora eu já não 

queria saber. Entretanto a bebida chegou. Emborquei-a de um trago e encomendei 

outra. 

- Vai afogar-se, mister? 

Virei-me para quem falava. Quem era encontrava-se do meu lado esquerdo e 

as  palavras,  proferidas  num  tom  melodioso,  saíam  de  entre  dois  lábios  carnudos  e 

húmidos.  Esses  pertenciam  a  um  rosto  que  encerrava  toda  a  beleza  misteriosa  de 

uma mulher daquelas paragens, e os olhos, negros e brilhantes, captavam os nossos 

e  a  gente  mergulhava  neles  e  não  sentia  vontade  de  voltar  à  superfície.  Devia  já 

encontrar-se  ali  quando  eu  mudara  de  lugar,  e  interroguei-me  sobre  como  pudera 

não reparar nela. Vestia de maneira diferente das raparigas da casa, embora de modo 

semelhante.  O  corpo  fazia  assim,  e  depois  assim,  e  assim,  e  todo  o  conjunto 

provocava reflexões profundas. 

Deixei que a bebida chegasse, molhei nela os lábios e inquiri em seguida: 

- Quer fazer-me companhia?  

Os  olhos  negros  continuavam  a  fitar  os  meus  e  reflectiam  tanta  candura 

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como os de cãozinho à procura do dono. 

- “Companhia”... como, mister?  

A  voz  era  suave  como  luar  de  Agosto  e  o  inglês  dela  tinha  restos  de 

cantonês. 

- Numa bebida. E pare de me tratar por mister!  

- Sim, mister...  

E sorriu, mostrando os dentinhos, belos como marfim trabalhado. 

- Afinal, em que ficamos? 

- Onde acha melhor, americano

1

?  

- Não é isso. Beber... que é que bebe? 

- O mesmo que você, americano. Pedi o que ela queria, e fixei-lhe de frente o 

rosto amoroso. 

- Ouça, Flor de Lótus, ou lá como é o seu nome: o meu é Chasey. Al Chasey. 

Percebeu? 

- Xeisi Alxeisi. Percebi. Nome bonito.  

Só  quando  lhe  mostrei  o  passaporte  a  questão  ficou  arrumada,  embora  ela 

tivesse passado a considerar o nome menos bonito. 

- E o teu? 

- Mae Leung. Gostas? 

- Muito.  

- E de mim? Não foi preciso estudar a resposta.  

- Sim. Gosto de ti, “Flor de Lótus”.  

-  És  um  homem  rico,  Al?  Descaramento  não  faltava  a  estas  garotas. 

Sinceridade, talvez. Por isso tratei de ir esclarecendo: 

-  Ouve,  “Flor”:  não  sou  homem  rico.  O  patrão  é  avarento  e  não  me  dá 

dinheiro  suficiente  para  que  tu  possas  tentar  esfolar-me.  Portanto  tira  daí  a  ideia. 

Okay? 

As sobrancelhas bem desenhadas arquearam-se-lhe um pouquinho 

- Que quer dizer “esfolar”? 

 

1

  Em  inglês  o  advérbio  where,  sendo  empregado  para  a  locução  adverbial  em  que,  significa 

vulgarmente onde 

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-  Quer  dizer,  por  exemplo,  tu  quereres  dinheiro  para  me  fazer  companhia. 

Compreendes, ou isso é novo para ti? 

Quando  ela  assimilou  o  que  eu  lhe  dissera,  os  olhos  negros  tornaram-se 

subitamente  maiores,  chamejando  intensamente,  e  a  beleza  do  rosto  de  porcelana 

acentuou-se mais ainda. Falou então depressa, furiosamente: 

-  Estás  enganado,  americano!  És  mau  e  eu  já  não  gosto  de  ti.  Gostei  há 

bocado, porque tu parecias bom e simpático, e eu gostei dos teus olhos e das tuas 

mãos. E eu não recebo dinheiro por gostar. Eu vou para a cama com um homem 

quando  me  apetece,  mas  não  por  dinheiro.  Gostava  de  ti.  Não  gosto  já.  Vou-me 

embora! 

Senti-me de repente constrangido, de um modo que não é vulgar suceder-me. 

E  envergonhado,  também.  Pousei  os  meus  dedos  sobre  a  mão  pequenina  dela  e 

procurei-lhe o olhar, que neste momento transmitia apenas desgosto. 

- Lamento, Mae. Desculpa. Vamos ser amigos. De acordo? 

Os lábios distenderam-se um pouco num sorriso ainda um bocadinho triste, 

mas logo a seguir o rosto iluminou-se de novo. 

- Compreendo, Al. Mae Leung não se enganou. Tu és bom. Gosto de ti por 

isso. Muito. Mas és também homem forte, não és, Al? 

Acabei de entornar o que restava da bebida e sorri-lhe de volta. 

- Sou. Até encontrar outro mais forte que eu, como dizem os heróis das fitas 

do Far-West. 

- E com mulheres? Soltei uma gargalhada. - Bem, isso é outra questão... Por 

que não procuras tu própria a resposta? 

Inclinou-se  ligeiramente  para  mim.  Pude  aspirar-lhe  o  hálito  quente  e  o 

perfume suave. Trincou ao de leve o lábio inferior com os dentinhos brancos, como 

se reflectisse, e sugeriu logo: 

-  Vamos  embora  daqui?  Limitei-me  a  pagar  ao  barman  a  despesa,  e  sem 

esperar  pelo  troco  ajudei  Mae  a  descer  do  tamborete,  no  que  ela  cooperou 

passando-me  os  braços  pelo  pescoço.  Direi  mesmo  que  foi  mais  além, 

permanecendo  uns  quinze  segundos  colada  a  mim,  a  cabeça  inclinada  levemente  e 

os olhos brilhantes. 

Saímos. Cá fora era agradável, depois do ambiente viciado do lugar, respirar 

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de  novo  o  vento  fresco  que  subia  da  baía.  O  grupo  de  marinheiros  debandara  já, 

certamente para local mais recolhido. Mae conduzia-me pela mão, e era bom ter um 

guia assim na cidade desconhecida. Descemos a continuação de Nathan Road para o 

outro lado de Cameron. Aí a iluminação era difusa, porque os anúncios luminosos 

rareavam e os candeeiros também. Um homem entrou numa cabina telefónica. Eu 

sentia o corpo de Mae roçando o meu, e para onde ela me conduzia eu não queria 

saber, porque desejava ansiosamente viver o mistério da noite de Hong-Kong. 

Mae estacou repentinamente e ergueu o rosto para mim. 

- Al, beija-me. Fiz-lhe a vontade. Passei os meus braços sob os dela, apertei-

lhe os ombros corri força e puxei-a bem para mim. Os meus lábios poisaram-se na 

boca sensual. Não cheguei a completar o beijo. Um estoiro tremendo atroou os ares, 

a  pouca  distância  de  nós,  e  repercutiu-se  com  violência  rua  abaixo.  Quase 

simultaneamente Mae soltou um grito. O meu corpo descreveu uma rotação rápida, 

e  então  eu  vi  aquilo  que  acontecera.  No  passeio  fronteiro,  uns  metros  acima, 

situava-se  a  cabina  telefónica  mal  iluminada.  E  dentro  dela  encontrava-se  um 

homem. Não estava a telefonar. Não, pelo menos naquele momento. Porque o seu 

corpo  jazia  enrodilhado,  grotescamente  contorcido  de  encontro  à  porta.  A  porta 

então  abriu-se,  impulsionada  pelo  peso,  e  o  corpo  tombou  para  o  pavimento,  de 

cara para baixo. Apertei o braço de Mae e proferi rapidamente: 

- Estou no quarto quatrocentos e cinco do Bay View. Vai lá ter daqui a uma 

hora. Agora, desaparece. 

Não foi necessário repetir-lho. Atravessei a rua a correr em direcção à cabina. 

Observei a artéria e não vi ninguém. Quando alcancei o corpo, curvei-me sobre ele e 

virei-lhe o rosto para cima. 

Já  vi  gente  morrer.  No  hospital.  Numa  rua  de  Nova  Iorque,  no  bosque  de 

Neuilly e num beco escuro de Marselha. Vi pessoas morrerem de morte natural e de 

buracos de balas. Morte natural, de qualquer modo. Agora mesmo, neste momento, 

um homem jazia ali, morto bem próximo de mim. Apenas, desta vez, era diferente. 

Porque se em qualquer lado morrer é morrer, uma coisa é um pequeno orifício na 

linha do coração, por onde a vida foge na forma de um fio de sangue... e outra bem 

mais feia de olhar é o efeito de uma .45 que atravessa o crânio de lado a lado. Tudo 

fica  numa  massa  horrorosa,  para  onde  não  é  aconselhável  olhar  outra  vez.  Eu  sei 

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que a guerra é pior. Mas é outra coisa, também. E isto acontecera ali mesmo, a uma 

esquina mal iluminada de Nathan Road, Hong-Kong. 

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CAPÍTULO III 

 

Não  soaram  passos  no  pavimento,  ninguém  apareceu  e  nenhuma  janela  se 

abriu. Talvez que o estampido que repercutira rua abaixo não fosse exactamente o 

gênero de ruído que pudesse despertar o interesse dos habitantes da zona, porque ali 

cada  um  tinha  os  seus  problemas,  e  os  outros  o  Diabo  que  os  resolvesse.  Talvez 

fosse isso. 

Procurei desviar a vista do que fora o rosto de um tipo e concentrei-me em 

rebuscar rapidamente os bolsos do casaco. Papéis, documentos, qualquer coisa que 

o identificasse. O fato era de bom tecido, e o homem não era oriental - isso pudera 

eu  concluir  do  rápido  relance  aos  traços  da  parte  superior  do  rosto,  e  do  tom  do 

cabelo.  E  parecia  que  era  tudo  o  que  eu  ficaria  por  enquanto  a  saber.  Porque  os 

bolsos  estavam  vazios.  Completamente.  A  busca  durara  escassos  segundos,  e  ia 

sendo tempo de eu me pôr a andar. No último momento, porém, lembrei-me de um 

pormenor. Quando o verifiquei, fiquei a saber mais. O homem assassinado devia ser 

americano.  A  etiqueta  cosida  no  forro  do  casaco  era  explícita  “Bertones  -  Third 

Avenue, New York, N. Y.”. 

Dei  uma  olhadela  ao  interior  da  cabina.  A  porta  mantivera-se  parcialmente 

aberta, porque as pernas do cadáver a tinham conservado assim. A bala atravessara 

um dos vidros laterais e apanhara o homem quase de frente, no momento em que 

ele  fazia  uma  chamada.  Por  sinal  o  auscultador  ficara  pendurado  na  suspensão. 

Agarrei-o  e  ergui-o  até  ao  ouvido.  Percebi  apenas  o  sinal  contínuo.  Coloquei-o  na 

suspensão. Quando ia a sair a sola do meu sapato pisou vidro partido. Baixei-me e vi 

que se tratava dos estilhaços de uma lente. Procurei em volta. Os restos dos óculos 

estavam caldos no chão. 

Saí  da  cabina  e  desci  a  rua,  caminhando  depressa  encostado  à  parede. 

Quando  me  havia  distanciado  uns  cinquenta  metros  percebi  nitidamente  que  do 

extremo oposto, descendo, se aproximava da cabina telefónica defronte da qual jazia 

um  homem  morto  um  carro  da  polícia.  Os  moradores  de  Nathan  Road  iam 

assomando, porque a sirene fazia uma barulheira dos demónios. 

Transpus a entrada do Bay View cerca das onze e dez. 

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O porteiro continuava no seu posto. O movimento do átrio era escasso e o 

empregado da recepção fora substituído. Agora era um fulano com a cara macilenta 

dos  indivíduos  que  dormem  de  dia  e  trabalham  de  noite,  só  que  os  olhos  tinham 

falta  de  brilho  de  quem  também  não  dorme  de  dia.  Talvez  dormisse  de  noite. 

Apanhei  a  chave,  retribuí  o  cumprimento  de  uma  senhora  idosa  que  nunca  vira  e 

subi  no  elevador.  Saí  no  4.°  andar,  e  quando  alcancei  a  porta  correspondente  ao 

número quatrocentos e cinco meti a chave na ranhura, ao mesmo tempo que rodava 

o trinco. A chave não deu a volta, mas a alavanca do trinco desceu e a porta abriu-

se. A explicação era óbvia - eu esquecera-me de a trancar, ao sair. 

Bati a porta com o calcanhar e premi o comutador. Ela estava ali. 

No  que  eu  reparei  primeiro  foi  nas  pernas.  Maravilhosas,  pelo  menos  até 

onde a vista podia alcançar - e não era pouco. A saia justa pertencia a um conjunto 

preto elegante, feito para alguém que vestisse um número abaixo, mas que ficava a 

matar  num  corpo  como  aquele,  que  correspondia  a  um  número  acima.  Busto 

esplêndido,  sensacional  mesmo,  e  dizendo  que  chegava  a  fazer  o  quarto  parecer 

mais pequeno nem sequer fica tudo dito. Rosto a merecer ser apreciado logo depois: 

olhos  verdes  que  me  fitavam  descaradamente,  lábios  sensuais  a  comporem  um 

ligeiro  trejeito  malicioso  e  narizinho  atrevido.  Os  cabelos  louros  estavam  puxados 

para  o  alto  num  penteado  extremamente  cuidado,  como  cuidado  era  todo  o 

conjunto.  Terão  nesta  altura  percebido  que  estou  a  falar  de  uma  mulher.  Mais 

precisamente de uma mulher que o era em elevado nível de perfeição. E que eu não 

via  pela  primeira  vez,  pois  se  cruzara  comigo  horas  antes  lá  fora,  no  corredor, 

quando da minha chegada. Noutra altura qualquer, eu teria sorrido agradavelmente, 

dirigir-me-ia  à  garrafa  colocada  sobre  a  mesa  e  serviria  bebidas,  depois  do  que 

substituiria  a  luz  pela  outra  bastante  mais  discreta  da  mesinha  ao  lado  da  cama  e 

tomaria lugar junto dela, no sofá verde-escuro de dois lugares, onde tentaria arranjar 

maneira de um deles ficar desocupado. Não agora. 

- Enganou-se no quarto, miss - disse eu. Os lábios carnudos distenderam-se 

um pouco mais, enquanto ela completava o gesto de levar num movimento elegante 

o cigarro à boca. Mais  nada. Dir-se-ia que quem estava no quarto errado era eu,  e 

que a ocupante daquele se comprazia em estudar a minha reacção ao dar pela falta 

cometida. 

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Encolhi os ombros, andei até à garrafa e despejei cinco centímetros de uísque 

no copo. Engoli um bom trago, pousei o copo e despi o casaco, que atirei para cima 

da  cama.  Comecei  seguidamente  a  desapertar  o  nó  da  gravata,  tudo  isto  sem  a 

desfitar, na expectativa. Como não conseguisse nada, sentei-me na borda da cama, 

desatei  os  atacadores  dos  sapatos,  descalcei-me,  arrumei-os  e  preparava-me  para 

começar a desapertar o cinto das calças quando resolvi que  não  seria  má altura  de 

inquirir: 

-  Importa-se  que  me  dispa  à  sua  frente  ou  prefere  que  o  faça  na  casa  de 

banho? 

Franziu  ligeiramente  a  testa,  amachucou  a  ponta  do  cigarro  no  cinzeiro  e 

proferiu casualmente: 

-  Não  precisa  ser  ordinário,  Chasey...  Ela  falara.  E  o  seu  tom  de  voz  era 

aveludado, morno e doce como licor. Aqueceria facilmente quem não se sentisse tão 

frio como eu me sentia de há cinco minutos para cá. 

- Eu não sou ordinário. Mas acontece que neste momento me apetece fingir 

que  sou.  E  se  acaso  acha  que  a  pergunta  que  lhe  fiz  é  ordinária,  eu  esclareço-a  de 

que isso não é nada e aconselho-a a sair daqui a correr para o pé da mãezinha antes 

que eu atente contra a sua virtude. Percebeu, miss? 

Recostou-se languidamente e descruzou as pernas, que voltou a cruzar, mas 

agora ao contrário. O efeito não era desagradável, mas acontece que como já disse 

eu  não  estava  numa  noite  das  minhas.  Molhou  com  a  ponta  vermelha  da  língua  o 

lábio inferior e perguntou: 

-  E  assim  que  você  recebe  as  visitas,  Chasey?  Ou  será  que  a  sua  mãezinha 

não o educou convenientemente? 

A conversa ia longa de mais. Tratei de ir avisando enquanto despia a camisa. 

-  Oiça...  se  você  tem  assim  uma  vontade  tão  grande  de  se  divertir,  já  devia 

saber que existem nesta cidade lugares que lhe fornecem tudo o que quiser a preços 

baratos.  Ou que talvez  lhe paguem, ainda por  cima, Portanto, por que não  se  pira 

daqui, antes que eu comece a ser realmente desagradável consigo? 

Endireitou o tronco, deixou de sorrir, e o tom em que falou a seguir já não 

era aveludado, nem morno, nem doce como licor. 

-  Vim  para  ter  uma  conversa  consigo,  Chasey.  E  vou  tê-la,  porque  é 

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importante. 

- Amanhã, okay?  

- Hoje. Agora. 

- Uma ova, é que vamos! 

- Chasey!  

Ergui-me  lentamente  e  dei  uns  passos  até  contornar  a  mesa  e  ficar 

exactamente defronte dela. Mergulhei os meus olhos nos olhos verdes e pronunciei, 

marcando bem as sílabas: 

- Vou dar-lhe a sua última oportunidade. Que veio aqui fazer? 

Deixou  cair  descuidadamente  os  braços  sobre  as  coxas  num  gesto  de 

desânimo  enquanto  o  sorriso  irónico  lhe  voltava  aos  lábios.  Mirou-me 

apreciativamente, como quem avalia mercadoria exposta. 

- Você tem um belo peito... 

- Tenho. Mas o seu ganha vantagem. Apesar disso vou corrê-la daqui. E já. 

Ia  agarrá-la  por  um  braço  e  obrigá-la  a  levantar-se,  pronto  como  estava  a 

empurrá-la porta fora, quando na outra mão que desentalara de baixo das coxas vi 

algo  que  não  me  agradou.  Um  objecto  pequeno  e  negro.  Pequeno,  negro  e 

mortífero. O buraco da arma foi directamente colocado na direcção do meu peito. 

-  Bem,  Chasey...  se  é  assim  que  quer,  é  assim  que  tem  de  ser.  Alguma 

objecção, agora? 

Sim.  Eu  tinha  uma  objecção  a  fazer.  Porque  não  gosto  de  armas  de  fogo 

apontadas para mim, principalmente quando quem as empunha é uma mulher que 

eu só vi, e de passagem, uma vez, numa cidade que desconheço, numa noite em que 

já observei o que uma coisa daquelas pode fazer do crânio de um homem. Eu tinha 

uma  objecção  a  fazer.  Violenta,  talvez.  Durante  dois  segundos  cheguei  mesmo  a 

considerá-la.  Conclui  afinal  que  sou  um  curioso.  Por  isso  recuei,  contornando  a 

mesa.  Al  estava,  uma  maneira  simples  de  fazer  que  a  situação  desse  uma  volta, 

simultaneamente  com  uma  volta  da  mesa.  E  o  facto  de  ela  me  oferecer  essa 

possibilidade  provava  que  não  tinha  tanta  experiência  como  isso.  Mas  não. 

Continuei apenas a recuar, até achar-me sentado novamente na borda da cama. 

Ela suspirou, e sem me desfitar pousou a arma no assento ao seu lado, abriu 

a malinha e tirou lá de dentro um cigarro que acendeu calmamente com o isqueiro. 

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Inspirou  longamente,  soltou  uma  baforada  voluptuosa  e  começou,  com  brandura 

outra vez: 

- O meu nome é Rita Grahame.  

- Muito prazer - disse eu.  

- E depois?  

- Quero falar consigo .  

Dei uma olhada à automática, no sofá. 

- É óbvio. Riu gostosamente. Eu não. Ela replicou: - Ora, Chasey... eu nunca 

seria capaz de atirar num homem desarmado... 

“Pois não.” - ...principalmente num sujeito tão simpático como você ... 

- Muito obrigado. - ...embora tenha sido bastante desagradável comigo, sem 

razão alguma. 

Intervim:  

- Sem razão alguma? Então uma pessoa de quem eu nem conheço o nome ... 

Interrompeu, fingindo-se escandalizada:  

- Essa “pessoa” é uma senhora respeitável e o nome é Rita Grahame. 

Dois pontos que eu me permitia pôr em dúvida. Mas o facto era que agora já 

não  me  apetecia  ser  assim  tão  desagradável,  e  o  que  fiz  foi  continuar  o  que  ela  ia 

dizendo, sem discutir pormenores. 

- E essa pessoa entra no meu quarto, não me dá qualquer justificação e ainda 

por cima me ameaça com uma arma. Com franqueza, Miss Grahame, uma senhora 

respeitável não procede dessa maneira! 

Voltou a abrir a malinha, guardou a arma e abandonou o tom trocista que me 

irritava para passar a falar com naturalidade: 

-  Pronto,  Chasey,  para  começar  peço-lhe  desculpa,  porque  reconheço  que 

exagerei. Resolvera esperá-lo aqui por julgar ser o local mais seguro para a conversa 

que  desejava  ter  consigo.  Apenas  não  esperava  que  a  sua  reacção  fosse  essa,  de 

modo  que  também  eu  acabei  por  perder  um  pouco  a  cabeça.  Portanto,  acalme-se, 

ponha qualquer coisa por cima e venha sentar-se perto de mim para conversarmos 

como duas pessoas decentes. De acordo? 

Lançou-me  um  sorriso  encorajador.  Eu  permaneci  em  silêncio  durante  um 

bocado. Acabei por desenrugar a testa, enfiar de novo a camisa e levantar-me para 

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arranjar duas bebidas. Estendi-lhe um dos copos e fui sentar-me ao seu lado. Deixei 

que  ela  molhasse  os  lábios  no  uísque  e  mirasse  à  vontade  a  marca  de  bâton  que 

ficara impressa no rebordo. Tornava-se evidente que o que quer que fosse que esta 

dama  tinha  para  me  contar,  não  era  coisa  que  saísse  com  facilidade,  mesmo  para 

quem estivera tão à vontade até havia momentos antes. Toquei-lhe o braço. A pele 

era macia. 

- Miss Grahame, perdeu o pio?  

Reagiu  virando-se  para  mim,  e  reparei  que  as  sobrancelhas  estavam 

levemente arqueadas, fazendo que uma pequena ruga se lhe formasse na fronte. 

- Dê-me um cigarro dos seus, por favor.  

Estendi-lhe o maço de Crown, do qual ela extraiu um cigarro que eu acendi. 

Pareceu a seguir mais à vontade. 

- Chasey, vim aqui porque... 

- Porque quer conversar comigo, já sei - interrompi. 

- Mas primeiro que tudo gostaria de saber como conhece o meu nome. 

Fez um gesto com a mão que segurava o cigarro. -Prefiro que me deixe falar. 

E mais fácil ... Concordei. Voltara-se completamente para mim, e o rosto não estava 

distante  mais  que  quinze  centímetros  do  meu.  Perguntei-me  como  conseguiria 

manter o cabelo assim penteado, sem qualquer peça visível a sustentá-lo. Quanto ao 

resto, preferi pura e simplesmente abstrair. Isto é, fiz um esforço, pelo menos. 

Começou: 

-  Infelizmente,  não  lhe  posso  revelar  muita  coisa  a  meu  respeito.  Trabalho 

para uma firma... 

- Qual?  

- Não posso dizer.  

Começava a impacientar-me. 

- Miss Grahame, haverá alguma coisa que você me possa dizer? 

Vi que, se insistisse, apenas conseguiria enervá-la mais do que ela começava a 

ficar. Prosseguiu, depois de levar novamente o copo à boca e entalar por instantes o 

cigarro entre os lábios. 

-  Existe  em  Hong-Kong  uma  importante  rede  de  estupefacientes.  A  minha 

firma  pretende  aniquilá-la.  Essa  organização  de  droga  actua  desde  Singapura  e 

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Hong-Kong  até  ao  Japão  e  aos  Estados  Unidos,  através  do  oceano  Pacífico, 

entrando na América do Norte pela Costa Oeste. 

“Recentemente  foi  chamado  do  continente  um  indivíduo,  cuja  missão  seria 

precisamente  a  de  funcionar  como  peça  vital  no  transporte  da  mercadoria  entre 

Hong-Kong e São Francisco, além de outros “trabalhos” especiais. Isso, por não ser 

ainda uma cara conhecida no “negócio” ... ou pelo menos era o que a organização 

pensava. Aconteceu, porém, que ele podia não ser conhecido aqui, mas decerto que 

o era por quaisquer outros motivos em Nova Iorque, pois o F.B.I. deitou-lhe a mão 

na semana passada. Devido a esse facto inesperado, e à última hora, outro homem 

foi designado para substituir o primeiro. Nessa altura a minha firma, que já obtivera 

informações sobre o plano geral, conseguiu também os pormenores da viagem deste 

último  elemento.  Pudemos  assim  interceptá-lo  na  escala  de  Carachi.  Encontra-se, 

portanto, actualmente em nosso poder, e um ponto fundamental para aquilo a que 

pretendo chegar é que nós temos a certeza, positiva e absoluta, de que nenhum dos 

membros da organização, aqui em Hong-Kong, o conhece. 

“E  chegamos  ao  ponto  essencial  da  questão,  que  é  a  que  lhe  vou  expor, 

depois  do  que  você  poderá  fazer  as  perguntas  que  entender,  a  fim  de  esclarecer 

quaisquer  passagens  em  que  eu  não  tenha  sido  bem  explícita.  E  o  ponto 

fundamental é este: você, Al Chasey, tomará o lugar desse indivíduo. Os riscos estão 

calculados,  e  posso  assegurar-lhe  que  são  mínimos  se  atendermos  à  possibilidade 

que o senhor terá de aniquilar uma rede internacional de tráfico de estupefacientes ... 

e  de  ganhar  cinquenta  mil  dólares,  dos  quais  dez  mil  já  estão  depositados  no  seu 

banco de Nova Iorque e o restante lhe será entregue pela minha firma dentro de três 

ou  quatro  dias,  espaço  de  tempo  que  será  suficiente  para  que  possa  desempenhar 

este trabalho. 

“É este o esquema geral. Já sei que a seguir me vai fazer uma quantidade de 

perguntas, e estou pronta a satisfazê-las o melhor que puder... 

Pois...  eu  tinha  perguntas  a  fazer.  Claro  que  tinha.  Uma,  em  especial. 

Comecei, gentilmente:  

- Diga-me por favor, Miss Grahame. 

- Sim?  

-  A  sua  firma  será  por  acaso  a  John  Walker  &  Sons  ou  qualquer  outra  no 

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gênero? 

Um rubor intenso corou-lhe as faces, as narinas dilataram-se-lhe e ela pousou 

com  violência  o  fundo  do  copo  no  tampo  da  mesa  enquanto  os  olhos  me 

fulminaram. Pronunciou agressivamente: 

- Mister Chasey!  

Cheguei mais o meu rosto ao dela, até poder aspirar-lhe o perfume da pele. 

-  Diga...  Rita.  Os  lábios  húmidos  tremiam-lhe.  -  Eu  vim  aqui  para  falar 

consigo. O mínimo que lhe exijo é que me ouça e se porte correctamente. 

Peguei-lhe  na  mão,  sem  despegar  os  olhos  dos  dela.  Pronunciei 

tranquilamente: 

-  Okay,  Rita.  Ponto  número  um:  ouvi-a;  ponto  número  dois:  portei-me  o 

mais correctamente que me podia ser exigido... dadas as circunstâncias. 

- Quais circunstâncias?  

- O que se passou ao principio. O seu arrazoado de agora. Isto é uma cena de 

malucos, minha querida, e sugiro que a terminemos quanto antes... 

Estranhamente, a fúria, a violência e a agressividade desapareceram, mesmo 

quando bateu impacientemente o pé no chão. Lia-se só no seu rosto um desespero 

enorme, de quem precisa que acreditemos, como o das criancinhas quando nos vêm 

contar algo que julgam ter acontecido e que nós negamos terminantemente. 

Retirou a mão, passou-a pela face e suspirou fundo. O peito subiu e desceu 

num  efeito  que  fez  o  meu  movimentar-se  também,  porém  a  desproporção  foi 

notória, e neste aspecto ela levou vantagem. 

- Chasey... eu disse-lhe  a verdade. Quero que  me faça perguntas ... todas as 

perguntas  que  entender,  para  que  possa  ficar  com  a  certeza  de  que  tudo  isto  é 

verdade. Por favor... 

Era  quase  uma  súplica.  Mas  o  diabo  é  que  nós  não  nos  podemos  fiar  em 

mulheres... Levantei-me e desatei a andar para trás e para diante, porque o conteúdo 

da  minha  cabeça  dava  voltas  e  mais  voltas,  como  nessas  alturas  em  que  sentimos 

que  qualquer  coisa  de  esquisito  está  para  acontecer,  e  que  não  podemos  evitá-lo 

porque é uma força poderosa que nos impede de proferir um “que se lixe!” e atirar 

tudo  para  trás  das  costas.  Tal  e  qual  como  naquele  momento.  Talvez  eu  devesse 

mandá-la  embora,  depressa,  para  fora  do  meu  quarto.  Mas  sabia  antecipadamente 

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que não ia fazê-lo e ela ali estava, alguém que  dizia chamar-se Rita Grahame, uma 

mulher sensacional que trabalhava para uma firma que me queria oferecer cinquenta 

mil dólares. 

Estaquei de repente e inquiri, sem me voltar. 

- Por que não a mandou a sua firma ter com a polícia, Miss Grahame? 

-  Nós  temos  dados,  indicações.  Não  possuímos  provas.  É  preciso  que 

alguém entre lá para dentro. A polícia não o pode fazer. 

- E apenas essa a razão?  

A resposta tardou um pouco. 

- Não. Vou ser sincera, Chasey. Você sabe que por vezes, embora não haja 

negócios  escuros  em  jogo,  existem  nas  actividades  de  certo  grupo  de  pessoas 

aspectos em que não convém deixar que a polícia meta o nariz. É isso que acontece. 

Não  pense,  portanto,  que  nós  somos  por  exemplo  uma  organização  de 

estupefacientes que pretende destruir uma sociedade rival para adquirir o controlo ... 

Interessa-nos  liquidar  uma  organização  poderosa  que  prejudica  os  interesses  de 

vários países, incluindo o seu, um verdadeiro sindicato que o seu amigo McDermott 

daria um braço para aniquilar. Esta é a realidade dos factos, que será para si fácil de 

comprovar. 

Tentei ver o caso por este ângulo, e mais de perto. Voltei a ir sentar-me no 

sofá, ao lado dela. 

- A polícia já anda atrás deles?  

-  Sim  -  anuiu.  -  Às  cegas,  porém,  porque  não  encontraram  ainda  o  fio  da 

meada. Como disse, pode confirmar facilmente o que acabo de lhe revelar. Lembre-

se  no  entanto  de  que  tudo  o  resto  permanece  entre  nós,  porque  a  partir  do 

momento em que eu lhe forneça o que falta, o seu amigo John McDermott fica de 

lado. Completamente. 

Raciocinei, e estranhamente tudo aquilo já não me parecia um arrazoado. 

-  E  o  que  a  faz  acreditar  que  eu  não  direi  que  sim  senhor,  está  bem,  e  que 

depois de me ser fornecido esse tal “fio da meada” não sairei daqui direitinho para a 

sede da Polícia, a contar tudo o que sei? 

Teve um sorriso infantil e as pálpebras semicerraram-se-lhe. 

-  Nós  sabemos  muita  coisa  a  seu  respeito.  Investigamos  a  sua  actividade 

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como  repórter  do  Sun,  e  concluímos  que  uma  das  razões  porque  era  o  homem 

indicado  para  aquilo  que  pretendíamos,  era  exactamente  podermos  ficar  com  a 

certeza  de  que  a  partir  da  altura  em  que  resolvesse  dizer  “aceito”  manteria  a  sua 

palavra. 

Agradeci a moção de confiança.  

-  Muito  obrigado.  Mas  já  agora,  se  me  permite  uma  pequena  objecção:  por 

que razão a sua firma não se encarrega pessoalmente do caso, em vez de o entregar 

a um amador? 

-  Não  é  o  nosso  género  de  actividade,  Chasey,  e  não  possuímos,  portanto, 

ninguém  qualificado.  Para  si,  o  assunto  não  é  novo.  Sabemos  que  já  nos  Estados 

Unidos meteu o nariz, por conta própria, em casos semelhantes. 

Admiti. Mas apressei-me a esclarecer.  

- É verdade... por conta própria. Mas não meti, nunca o nariz em nada deste 

gênero, a não ser quando os casos vêm ter comigo e sou forçado a fazê-lo. O que 

não é exactamente o caso, pois não, Miss Grahame? 

Mostrou os dentinhos, e o sorriso dela era tão tranquilizante ... Corroborou a 

minha afirmação, com suavidade. 

- Claro que não... Chasey. A decisão é inteiramente sua, e livre. 

- Hum... - disse eu. - Vocês tiveram realmente pouco tempo para investigar 

tanta coisa a meu respeito, não foi? 

- Exactamente dois dias - esclareceu. - Mas nós trabalhamos com eficiência. 

Podiam  existir  muitas  dúvidas  no  meu  espírito.  Mas  sobre  o  que  ela  agora 

afirmara não subsistiam nenhumas. 

- E o que lhes dá assim tamanha certeza de que esse tal indivíduo que devia 

chegar  hoje  a  Hong-Kong  não  é  aqui  conhecido?  Pode  perfeitamente  ter  sido 

enviada  dos  Estados  Unidos  alguma  fotografia,  quaisquer  elementos  de 

identificação... 

Negou, sacudindo a cabeça. 

- Não, Chasey. Os elementos de identificação transporta-os ele consigo, nos 

papéis e no cérebro. Quanto à fotografia, sabemos que ele saiu onteontem de uma 

clínica de Nova Iorque, onde foi submetido a uma operação de cirurgia plástica. 

Fez uma pausa, aguardando a minha reacção. 

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- Satisfeito? Não respondi. Quis saber: 

-  Como  me  podem  assegurar  que  não  levará  tudo  mais  do  que  os  tais  três 

dias de que me falou? 

Retorquiu com segurança. 

-  Prepara-se  qualquer  coisa  para  muito  breve,  Chasey.  Amanhã,  ou  o  mais 

tarde no dia seguinte. Algo tão importante que se conseguirmos estar a par do que 

se trata ficaremos com a chave na mão. Nessa altura, a policia poderá fazer o resto. 

Não  esqueça  isto:  se  aceitar,  estará  a  trabalhar  no  seu  próprio  interesse,  mesmo 

profissionalmente falando, e prestará igualmente ao seu amigo John McDermott um 

favor que ele não esquecerá. Independentemente de quem quer que nós sejamos. - 

Fez uma pausa. - Pode dar-me já uma resposta? 

Neguei. 

-  Não,  por  agora.  Preciso  consultar  o  horóscopo.  Quando  deveria  o  tal 

indivíduo estabelecer o contacto? 

-  Amanhã,  às  duas  horas,  num  local  que  lhe  indicarei  assim  que  me 

comunicar a sua decisão. 

- Okay - conclui. - Encontro-me consigo amanhã, digamos... às dez e meia. 

Onde?. 

-  Stephens’s  Street,  no  Tien-Tsin.  Tomaremos  lá  o  pequeno-almoço.  Eu 

deixarei o hotel mais cedo. Não convém que nos vejam sair juntos. 

Levantou-se, segurando a malinha, e eu conduzi-a à porta. Quando ia levar a 

mão ao trinco, ela segurou-me o braço e aproximou do meu o corpo sensacional. 

- Chasey... Raios ... e eu que queria evitar aquilo!  

Olhei-a, e os olhos encerravam tudo o que uma mulher pode saber. 

-Vamos assinar o acordo, sim?... 

- Mas...  

Os lábios carnudos, vermelhos e húmidos colaram-se aos meus, e não foram 

só os lábios mas tudo o resto, ao ponto de eu adquirir a sensação de que estava a ser 

absorvido. Tal e qual. Caramba, aquilo não era acordo, mas escritura com assinatura 

reconhecida! 

Bateram  à  porta.  Ela  pareceu  não  ouvir.  Libertei  os  lábios  e  consegui  num 

esforço inquirir roucamente: 

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- Quem é? 

- Mae - ouvi responderem de mansinho do outro lado. 

Rita desprendeu-se, devagar, e todos os seus gestos eram sensuais. 

- Até amanhã - murmurou.  

Abri  a  porta  para  que  ela  saísse.  Mae  encontrava-se  do  outro  lado  da 

ombreira. Lançou a Rita um olhar desprezivo, e Rita correspondeu-lhe, enquanto se 

afastava pelo corredor, no seu andar ondulante e seguro de si. 

Mae  Leung  entrou.  Ficava  ainda  mais  atraente,  assim  furiosa  como  se 

estivesse zangada com o mundo inteiro. 

- Al... francamente!  

Fechei a porta antes que alguém passasse por ali. 

- Flor... eu... era uma amiga.  

- Vamos deitar, Al. Já é tarde. Acreditem. Hong-Kong é uma cidade quente. 

Quente como o Inferno. Ou mais ainda. 

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CAPÍTULO IV 

 

Quando  abri  os  olhos  e  tacteei  na  cama,  no  lugar  ao  lado  do  meu,  não 

encontrei  nada.  E  se  querem  que  lhes  diga,  eu  não  possuía  a  noção  exacta  do  que 

poderia encontrar. Sabia apenas que faltava qualquer coisa. Não levei muito tempo 

para  concluir  que  essa  “qualquer  coisa”  era  alguém,  e  que  esse  alguém  era  Mae 

Leung. Então, rememorei essa noite. E que noite! O homem assassinado em Nathan 

Road; Mae Leung, a “Flor de Lótus”, toda ela um poema oriental, selvagem e meigo; 

e Rita Grahame, a mulher sensacional das propostas fora de série. 

- Flor! - chamei. - Sua feiticeirinha chinesa, onde é que você se meteu? 

Supunha  que  ela  se  encontrava  na  sala  de  banho  contígua,  mas  ninguém 

respondeu  ao  meu  apelo.  A  luz  clara  do  dia  entrava  parcialmente  pelos  estores  da 

varanda. Consultei o relógio. Nove e meia. Mesmo na hora, atendendo ao encontro 

que marcara com Rita. Mas quanto a Mae, onde raio a diabinha se metera? Relanceei 

o olhar em redor. As roupas dela não estavam ali. Só depois reparei que na mesinha 

ao lado da cama se achava, redigido a esferográfica, um pequeno pedaço de papel: 

“Volto à noite. Gosto de ti. Mae.” 

“Born”,  pensei,  “não  há  dúvida  que  as  garotas  destas  paragens  sabem 

exactamente o que querem.” 

Atirei  com  as  pernas  para  fora  da  cama  e  tentei  equilibrar-me  em  pé.  Não 

tivessem sido aquelas cinco horas que dormira ao fim da tarde, no dia anterior, e eu 

seria agora um tipo liquidado. Mesmo assim, precisei despender um esforço notável 

para calçar os chinelos e percorrer o caminho até à casa de banho. 

As  agulhas  fininhas  da  água  a  jorrar  de  cima,  penetrando-me  na  pele  e  na 

carne,  espevitara-me  deveras.  Segui  a  técnica  do  “água  quente  -  água  fria  -  água 

quente - água fria” e deixei o chuveiro quase em estado de levitação. Sequei-me bem 

na toalha felpuda, na qual saí para o quarto. Sentia um vazio tremendo no estômago, 

e ia pegar no auscultador para encomendar o pequeno-almoço quando me lembrei 

que combinara com Rita torná-lo em conjunto. “De qualquer maneira”, raciocinei, 

“dois pequenos-almoços enchem mais que um e não fazem mal a ninguém.” Ergui o 

auscultador, e juntamente pedi o Herald. 

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Quando cinco minutos depois me vieram trazer ambos, a primeira coisa em 

que  peguei  logo  que  o  rapaz  se  despediu  foi  no  jornal.  Percorri  rapidamente  o 

noticiário  internacional  da  primeira  página,  do  qual  se  destacava,  no  canto  inferior 

direito,  o  relato  da  fuga  ocorrida  na  véspera,  para  Hong-Kong,  de  um  cientista  da 

China continental. Folheei as páginas interiores. O assassínio ocorrido em Natham 

Road  ocupava  meia  coluna  da  terceira,  com  o  titulo  “Americano  não  identificado 

abatido numa cabina telefónica”. O texto não acrescentava nada de novo. Ausência 

de  testemunhas,  de  elementos  de  identificação  e,  embora  não  viesse  claramente 

expresso,  de  pistas  para  os  investigadores.  Pelos  vistos  o  trabalho  do  meu  amigo 

McDermott não era para invejar. 

Stephen’s Strect é uma rua estreita paralela a Hogarth Road e que ao fundo 

se  encurva  para  ir  desembocar  nesta.  Custou-me  exactamente  um  dólar  localizar  a 

rua,  porque  foi  uma  nota  desse  tamanho  que  eu  dei  ao  rapazinho  que  me 

acompanhou até lá. O restaurante também ficava devidamente assinalado por uma 

tabuleta bem grande de letras verdes em fundo amarelo. Ao lado, no mesmo fundo 

amarelo,  mas  em  símbolos  vermelhos,  alinhava-se  na  vertical  o  correspondente 

chinês - que o estrangeiro parte sempre do princípio que diz a mesma coisa, mas às 

vezes não é bem assim. 

Viam-se alguns europeus na rua. Entrei e desci as escadinhas que conduziam 

à  cave,  decorada  com  bom  gosto  inexcedível.  A  frequência  era  seleccionada  e  eu 

percorri  com  a  vista  as  mesas  quase  todas  ocupadas  na  esperança  de  que  Rita 

Grahame já ali se encontrasse. 

Não foi difícil descortiná-la, porque Rita é o gênero de mulher que dá tanto 

nas  vistas  como  um  avião  à  porta  de  casa.  Dirigia-me,  por  entre  as  mesas,  para  o 

canto que ela ocupava ao fundo da sala, quando ouvi chamar atrás de mim. 

- Al... Al Chasey! Virei-me. Gritei. 

- Vikki Allen.  

Veio  projectar-se  de  encontro  a  mim,  e  os  braços  rodearam 

arrebatadoramente  o  meu  pescoço,  ao  ponto  de  me  sentir  sufocar.  Também  eu 

correspondi com entusiasmo, abraçando-a e dando-lhe um beijo na face, depois do 

que  me  desprendi  gentilmente  e  fiquei  a  segurar-lhe  nas  mãos,  olhando-a  com 

ternura. 

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- Vikki ... é um prazer tão grande!  

-  Para  mim  também,  Al...  e  que  surpresa!  Os  olhos  brilhavam  de  suprema 

alegria, e em Vikki todo esse brilho transborda pelo rosto, fazendo-o resplandecer e 

transmitindo-lhe  aquele  encanto  extraordinário  que  sempre  fora  o  seu  segredo  de 

incomparável  fascinação.  O  rosto  de  Vikki  é  tudo  -  intensidade,  calor,  vibração, 

vida! E de tal modo que nós nem reparamos que o corpo é desprovido de atractivos 

especiais e que os quarenta anos já começaram a fazer sentir os seus efeitos, porque 

quarenta anos não são algum tempo na vida de uma mulher. E especialmente na de 

uma  mulher  como  Vikki,  que  desde  sempre  viveu  apenas  o  presente,  procurando 

encontrar em cada dia a sua razão de existir. Só que para ela a razão de existir era 

sempre outra, e outra, e a busca não termina mais. 

- Senta-te, Al, e conta-me tudo! Puxou-me para a mesa que ocupava sozinha, 

e eu sentei-me defronte dela e do copo cujo conteúdo fora decerto o seu pequeno-

almoço. 

- Continuas bonita, Vikki - disse-lhe com sinceridade. 

- Querido, não tentes enganar-me. Entre nós não é preciso isso. 

- Falo a sério - afirmei. - Se Balzac te tivesse conhecido, teria escrito para ti. 

Claro que o tempo passa, e todos nós o sentimos. Eu também... 

- Ora, Al, tu és novo... muito mais novo que eu. E continuas como quando te 

conheci, já lá vão uns dez anos... Nós, as mulheres, sofremos mais que vocês. - Teve 

um  gesto  característico  de  arrependimento.  -  Mas  deixemos  isso,  agora.  Conta-me 

como vieste aqui ter, diz-me tudo! Meu Deus, não nos víamos há tanto tempo... 

O  empregado  veio  interrogar-me  sobre  o  que  eu  desejava.  Mandei  vir  dois 

gin-martini.  Quando  ele  se  afastou  Vikki  olhou-me,  os  olhos  semicerrados, 

trincando o lábio inferior num esforço inútil para ocultar tudo o que lhe ia lá dentro. 

- Como antigamente... - murmurei. 

-  Sim,  Al...  como  antigamente.  Desviou  dos  meus  os  olhos  humedecidos. 

Extraí os dois últimos cigarros do maço, acendi-os, estendi-lhe um e amachuquei o 

pacote. 

- Tudo isso consegue ainda hoje tomar conta de mim - disse. - Não esperava 

que me forçasses as recordações, querido. - Sorriu. - Mas sinto-me apesar de  tudo 

feliz por o teres feito. 

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Chupei o cigarro e expeli o fumo lentamente. 

- As recordações existem e permanecem. Em mim, do mesmo modo que em 

ti. Nós marcamos na vida um do outro, e ambos sabíamos que havia de permanecer 

sempre  alguma  coisa.  Faz  parte  de  nós  próprios  a  lembrança  do  passado.  Não  o 

lamento. Nem tu. Algo de bom ficou de tudo o que aconteceu. 

- Sim, Al. Tenho a certeza que sim. Compôs uma madeixa de cabelo negro e 

macio que lhe descaíra para a fronte e soprou a nuvem azulada do fumo do cigarro. 

O  rapaz  chegou  com  as  bebidas  e  depô-las  na  mesa.  Levei  o  copo  aos  lábios.  Ela 

imitou-me. 

- Tenho seguido a tua carreira no Sun - disse-me. - 

Rapaz, tu vais por aí fora! Estás aqui em trabalho, ou apenas de passagem? 

-  Uma  coisa  e  outra  -  expliquei,  e  contei-lhe  porque  o  meu  director  me 

mandara a Hong-Kong. 

- Uma cidade que te vai agradar, Al. É pena que não possas aqui estar mais 

tempo.  Mas  vamos  aproveitar  bem  estes  dias  -  acrescentou  com  entusiasmo.  - 

Temos  tanto  que  conversar!  Mostrar-te-ei  Hong-Kong.  É  ópio,  meu  querido. 

Quanto melhor a conhecemos, mais difícil se torna desprendermo-nos dela, até que 

se torna quase impossível libertarmo-nos. 

- Como nos acontece com certas mulheres... - comentei. 

- Sim, Al, é isso... E de alguns homens... 

- Da última vez que me mandaste um dos teus postais estavas a trabalhar no 

Herald. Que te aconteceu desde aí? 

-  Tanta  coisa!  Depois  te  contarei.  Sabes,  sou  actualmente  sócia  de  uma  das 

melhores boites da cidade: o Hot Spot. Toda a alta sociedade daqui vai lá parar. Irás 

comigo logo à noite. De acordo? 

- Encantado - retorqui. - Mas agora, querida, se me dás licença, tenho de te 

deixar  porque  há  alguém  que  se  encontra  aqui  à  minha  espera.  Eu  estou  no  Bay 

View.  Passa  por  lá  à  volta  das  oito.  Tomamos  qualquer  coisa  e  saí-  mos  depois. 

Okay? 

-  Com  certeza,  Al...  Eu  também  vou  andando.  Então  fica  combinado  para 

logo, às oito, no.Bay View. 

Levantámo-nos, eu chamei o criado para pagar a despesa e despedimo-nos. 

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- Até logo, querido.  

- Adeus, Vikki!  

Fiquei a vê-la dirigir-se para as escadas, e depois dei meia volta em direcção 

ao extremo da sala. 

Miss  Rita  Grahame  não  estava  nada  satisfeita  com  a  demora.  Consultou 

acusadoramente o relógio de pulso. 

- Francamente, Chasey!...  

Pedi  licença  para  me  instalar  e  expliquei  o  que  acontecera.  Levou  meio 

minuto para se acalmar. Apesar disso, quando falou foi para inquirir: 

-  Dormiu  bem?  Compus  um  sorriso  idiota,  como  se  não  percebesse 

absolutamente o alcance da pergunta. 

-  Claro  que  dormi  bem,  minha  amiga.  Ou  terá  acaso  pensado  que  a  sua 

despedida de ontem à noite me tirou o sono? 

- Não vamos discutir de novo, pois não? - solicitou, mostrando-se irritada. 

- Só se for você a puxar a discussão - afirmei. 

- Não vou fazer isso - informou sorrindo.  

E propôs: 

- Vai tomar o seu pequeno-almoço? 

Disse  que  sim,  porque  não  lhe  queria  fazer  outra  desfeita.  Depois  de  ter 

encomendado ao empregado sumo de frutas, torradas e café, reflecti que ia precisar 

adquirir urgentemente algumas pastilhas para o estômago. 

Mantivemo-nos  calados  enquanto  o  rapaz  não  voltou.  Engoli  a  custo  as 

torradas  com  a  ajuda  do  sumo  e  acamei  depois  com  café,  todos  os  meus 

movimentos  seguidos  pelo  olhar  observador  dela.  Só  quando  terminei,  passei  o 

guardanapo de papel pelos cantos da boca e acendi um cigarro, Rita falou: 

- Então, qual é a sua resposta? Formei da garganta um anel de fumo que uma 

vez expelido para cima me fitou a pairar sobre a cabeça. 

- Engraçado... - comentou ela, com ironia. - Parece o Santo. 

- É - respondi. - E mais engraçado ainda é o facto de você pensar que eu sou 

o Santo... 

Fitou-me sorrateiramente. 

- Por que diz isso, Chasey? 

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-  Parece-me  evidente,  a  partir  do  momento  em  que  pretende  meter-me  em 

aventuras  rocambolescas.  Note  -  acrescentei  -  que  tenho  grande  admiração  por 

Leslie  Charteris  e  o  seu  herói.  Só  que  o  acho  bastante  irreal,  fora  portanto  de 

quaisquer  comparações  com  o  que  se  passe  no  mundo  das  realidades  em  que 

vivemos, e em particular em que eu vivo ... 

- Falando então de realidades... - interrompeu. 

-  Deixe-me  continuar,  Miss  Grahame...  -  E  expliquei:  -  Sabe,  eu  gosto  de 

leitura policial. 

- Também eu - concordou. - E de espionagem. 007, por exemplo. 

Assenti. 

- Óptimo. Isso vem ajudar-me imenso, porque encurta o que me preparava 

para lhe explicar. Leu certamente From Russia with Love... 

- Sim. 

- Bem. Se lhe interessa a minha opinião pessoal, penso que no seu conjunto 

os livros da série “James Bond” são um autêntico tratado de espionagem. E se não 

sabe,  dir-lhe-ei  mais:  que  a  própria  C.I.A.  considera  essas  obras  como  elementos 

valiosos de consulta. Mas voltando ao livro que mencionei - prossegui - deve estar 

recordada que a contra-espionagem russa engendra um plano diabólico com o fim 

de vibrar um golpe decisivo nos serviços secretos ocidentais. O alvo escolhido, por 

ser considerado o de maior interesse estratégico, é o Intelligence Service. 

Rita  seguia  atentamente  as  minhas  palavras,  mas  era  visível  que  não 

compreendia aonde eu queria chegar. Continuei. 

-  Na  frente  de  choque  dos  serviços  secretos  ingleses  figura  como  peça 

fundamental  o  nosso  conhecido  James  Bond.  E  na  impossibilidade  de  atingir 

directamente e no conjunto a espionagem britânica, o SMERSH escolhe 007 como 

objectivo,  sabendo  que  aniquilando-o  do  modo  que  pretende  afectará 

profundamente não apenas o Intelligence, mas todos os serviços secretos ocidentais. 

Para tal, porém, precisam atraí-lo. Pois bem ... lembra-se em que consistia o plano 

elaborado pelos especialistas soviéticos para atingir esse fim? 

- Sim - assentiu. - Tratava-se de uma história quase inacreditável... 

- Exactamente. A história quase inacreditável da bela funcionária dos serviços 

secretos russos, que se apaixona através de um retrato pelo famoso James Bond, e 

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que  para  conseguir  despertar  o  seu  interesse  “foge”  para  a  Turquia  com  uma 

máquina  de  cifrar  de  valor  incalculável,  a  qual  entregará  apenas  a  James  Bond  em 

pessoa. 

- Mas os serviços secretos ingleses acreditam... 

-  Não  -  corrigi.  -  Os  serviços  secretos  ingleses  não  acreditaram.  Admitiram 

desde o principio, como aliás o próprio SMERSH sabia que ia acontecer, que tudo 

fosse uma armadilha. Mas a história era tão fabulosa que existia uma probabilidade 

mínima  de  poder  ser  verdadeira.  E  se  o  fosse  havia  muito  a  ganhar.  Portanto,  na 

dúvida, só restava uma solução: arriscar. 

Fiz uma pausa. Os lábios de Rita compunham um ligeiro sorriso e os olhos 

diziam-me que já sabia o que eu ia dizer a seguir. 

-  É  o  que  vou  fazer,  Miss  Grahame:  vou  arriscar,  porque  tudo  pode  ser 

verdade, e se for há-de fazer uma barulheira dos demónios e um tipo que se dedica a 

uma profissão como a minha não pode recear o barulho se quiser ser o melhor. 

Perguntou, com interesse:  

- E você quer ser o melhor, não quer, Chasey? 

- Quero - disse sem modéstia. - E provável que não consiga. Mas serei pelo 

menos dos melhores. 

Segurou-me a mão que eu pousara descontraidamente sobre a mesa. 

Chasey, você já é dos melhores. Os olhos estavam cheios de promessas e eu 

achei por bem pôr os pontos nos ii. 

-  Não  tente  levar-me  com  palavras  e  gestos  ternos,  Rita.  Foi  precisamente 

para isso, para que soubesse porque aceito, que gastei este palavreado todo. Quero 

pelo  menos  que  se  estiver  a  tentar  enganar-me  com  esta  história,  não  me  chame 

depois “patinho” ou coisa no gênero por eu ter “embarcado”. 

As palavras não fizeram que a sua atitude se modificasse. Retirei a mão para 

agarrar o cigarro pousado no rebordo do cinzeiro. 

Falando  daquilo  a  que  me  referi  ontem...  Fiz  um  gesto  negativo  com  a 

cabeça. 

Se é a questão do dinheiro, a minha resposta é: não aceito. 

Ficou  extraordinariamente  surpreendida  e  olhou-me  como  se  eu  fosse  um 

marciano a pedi-la em casamento. Por isso fui justificando. 

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- Eu vou entrar nisto como repórter. E como tal não posso aceitar dinheiro. 

Os  riscos  que  corro  fazem  parte  do  meu  oficio  e  as  despesas  apresentá-las-ei  ao 

jornal para que trabalho. Compreendido? 

Parecia  que  sim.  Pelo  menos  ela  agora  olhava-me  só  como  se  eu  fosse  um 

crocodilo em trajo de noite. Esperei por uns momentos para que se recompusesse e 

quando o rosto dela quase readquiriu a expressão normal, adiantei: 

-  E  agora,  antes  que  me  ofereça  os  pormenores,  uma  advertência  ainda... 

Quando  me  meto  ao  trabalho,  faço-o  a  fundo.  Até  esgotar  o  assunto.  Portanto, 

referindo-me a este caso concreto, limitar-me-ei a preveni-la de que, se no decurso 

do que vou tentar levar a cabo encontrar uma pontinha que seja de.um fio que me 

conduza  a  outro  lado  qualquer,  eu  hei-de  puxá-lo...  e  com  muita  força.  -  Fixei-a, 

significativamente: - Entendeu, Miss Grahame? 

- Sim... - anuiu. - Mas ... 

- De acordo? 

- Sim. 

- Okay. E uma vez estabelecidas as bases, vamos então aos dados concretos 

que tem para me fornecer... 

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CAPÍTULO V 

 

Dado o jeito natural da população chinesa para o negócio, desde há séculos 

que  Hong-Kong  é  uma  encruzilhada  do  Oriente.  A  sua  história  é  agitada.  Para  os 

piratas  que  há  duzentos  anos  procuravam  ao  longo  da  costa  da  China  um  lugar 

seguro onde pudessem negociar os produtos das suas pilhagens, Hong-Kong era um 

refúgio pelas condições geográficas que oferecia. 

A partir do século  VII, com a expansão árabe para  o  Oriente, logo  seguida 

pelos  Judeus,  Indianos  e  Persas,  o  comércio  entre  a  China  e  o  Ocidente  foi-se 

intensificando.  Esse  tráfico,  no  entanto,  só  passou  a  efectuar-se  regularmente  no 

século XVI, após a descoberta pelos Portugueses do caminho marítimo para a Ásia. 

No século XVII os Ingleses estabeleceram comércio com a China, tendo-se fixado 

em Cantão e Amoy. 

Veio  depois  a  competição  européia,  que  no  entanto  não  pôde  oferecer 

resistência à organização britânica, a qual dispunha de barcos muito mais eficientes e 

de uma expansão comercial duas vezes maior que a do resto da Europa. 

Havia,  porém,  que  encontrar  o  local  em  que  se  pudessem  estabelecer 

definitivamente. Desde 1793 os Ingleses tudo tentaram para conseguir a autorização 

dos Chineses. Em vão, durante cinquenta anos, a persistência britânica enfrentou a 

teimosia  chinesa.  Até  que  em  1840  a  ilha  de  Hong-Kong  foi  cedida  ao  capitão 

Charies Elliot, da Marinha de Sua Majestade Britânica. 

O que se seguiu foi um desenvolvimento comercial nunca igualado em parte 

alguma do Médio e Extremo Oriente. Porque, diga-se o que se disser dos Ingleses, é 

incontestável que essa gente sabe fazer as coisas. 

A administração britânica teve e tem de enfrentar problemas graves, um dos 

quais é o afluxo sempre crescente de refugiados chineses. Até quando será possível 

fazer  face  a  essa  torrente,  é  a  questão  que  de  há  muitos  anos  mais  vem 

atormentando as autoridades inglesas. Entretanto o tráfego cresce constantemente. 

O movimento diário do porto envolve cerca de trinta mil embarcações de todos os 

tipos,  incluindo  os  navios  mercantes  de  todo  o  mundo  que  ali  fazem  escala 

obrigatória. 

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As ligações entre Kowloon e a ilha de Hong-Kong, na zona mais estreita do 

porto, são estabelecidas pelas carreiras normais dos ferry-boats  pertencentes à Star 

Ferry  e  outras  companhias,  e  mais  recentemente  também  pelos  hovercrafts  que 

atravessam  a  baía.  Mas  não  são  apenas  os  ferries  que  fazem  a  viagem.  Uma 

verdadeira  frota  de  juncos,  sampans  e  barcaças  sulcam  o  pequeno  mar 

transportando  pessoas  e  carga,  pois  que  nos  ferries  não  podem  ser  levadas 

mercadorias.  Daí  o  espectáculo  supermovimentado  das  águas  da  bala,  e  se 

tomarmos em conta as imensas cidades flutuantes que marginam as costas, tanto de 

um  lado  como  do  outro,  compreenderemos  que  esse  mundo  aquático  faz  parte 

integrante da cidade, e que é errado pensar que Hong-Kong é constituída por duas 

zonas  separadas  por  um  quilómetro  de  água.  A  verdade  é  que  a  sensação  de 

continuidade nos é plenamente transmitida... consideradas as distinções inevitáveis. 

Eram  quase  duas  horas  quando  saí  do  ferry  e,  integrado  no  fluxo  humano, 

atravessei a escada que conduzia ao pontão. A tarde estava esplêndida e, embora o 

sol  aquecesse  bastante,  do  mar  soprava  uma  brisa  suave  e  retemperadora  que 

refrescava e nos trazia com mais intensidade aquele odor incomparável feito de uma 

mistura  de  cheiros  que  não  conseguimos  identificar,  mas  que  basta  para  nos  fazer 

sentir  que  nos  encontramos  envolvidos  por  uma  força  estranha  que  penetra  e  faz 

vibrar como em nenhuma outra parte do globo. 

De  um  lado  e  outro  da  margem,  na  extensão  de  centenas  de  metros,  até 

perder  de  vista,  milhares  de  embarcações  estavam  fundeadas,  encostadas  umas  às 

outras, apertadas casco contra casco, em linhas irregulares, abrindo aqui e ali espaços 

vazios  que  constituem  ruelas  de  uma  cidade  autêntica.  Uma  cidade  miserável, 

colorida, ruidosa e efervescente feita de madeira e gente e enfeitada pelas velas azuis, 

amarelas  e  verdes  dos  sampans  e  dos  juncos  e  pelos  trapos  de  tons  sujos  que 

escondem um pouco o que se passa lá dentro. Onde vivem centenas de milhares de 

pessoas que habitam ali porque em terra firme já não há espaço. 

Deixei-me  seguir  na  torrente  até  que  quase  sem  dar  por  isso  me  vi  fora  do 

edifício do cais. Dirigi-me depressa para a paragem de táxis em Central Road, e ao 

alcançar  o  primeiro  da  fila  enfiei-me  no  assento  traseiro  e  gritei  para  o  motorista, 

que me olhava com curiosidade: 

- Jaffé Road, Wanchai.  

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- All right, mister - respondeu-me, e arrancou. 

O  pequeno  carro  tomou  a  direcção  de  Connaught  Road  e  aí  introduziu-se 

com  segurança  na  corrente  de  veículos  de  toda  a  espécie  que  percorriam  a  artéria. 

Como  não  dispusesse  de  espelho  retrovisor,  o  condutor  do  táxi  via-se  obrigado  a 

olhar  continuamente  para  trás,  a  fim  de  satisfazer  o  seu  interesse,  quanto  a  mim 

inexplicável,  pela  minha  pessoa,  e  eu  aguardava  tenso,  na  expectativa  de  a  cada 

momento me ver projectado no interior de uma montra de alfaiate ou cair sentado 

num cesto de verga, com arroz a transbordar dos bolsos. Nada de especial contudo 

aconteceu, a não ser o facto de um rapaz de pés descalços que trotava à frente de 

um rickshaw encarnado ter sido obrigado a saltar com carro e tudo de encontro aos 

tapumes de um edifício em obras. Não percebi o que o rapaz gritou para nós, mas 

calculo  que  em  todas  as  línguas,  em  circunstâncias  idênticas,  os  sentimentos  são 

expressos por palavras de significado equivalente. 

Mais  adiante  o  táxi  dobrou  à  direita,  entrando  num  rua  apertada  onde  os 

vendedores ambulantes e os coolies, de cabeça rapada, esqueléticos e esfarrapados, 

se  afastavam  relutantemente  para  deixar  passar  o  carro,  cujo  condutor  resolvera 

finalmente concentrar toda a atenção no que se passava à sua frente. 

O aspecto do baixo de Wanchai não difere essencialmente dos outros bairros 

de Hong-Kong de população chinesa. Os prédios são baixos, de tons pardos, num 

máximo de três andares, à excepção.de alguns hotéis de Gloucester Road, O’Brien 

Road e outras pouco distantes da avenida marginal. 

Quando finalmente entrámos em Jaffe Road disse ao motorista que parasse, 

porque achei preferível  andar o resto do caminho a pé. Foi estacionar defronte de 

uma das inúmeras garagens minúsculas que existem por ali, e eu paguei o que ele me 

pediu,  e  sem  refilar,  o  que  não  vale  a  pena  visto  os  táxis  de  Hong-Kong  não 

possuírem taxímetro. Como me explicara o dono de uma rede deles, no dia anterior, 

assim é melhor, porque não se engana o cliente. Pontos de vista... 

Jaffe Road está enxameada de boites, dancings e outros estabelecimentos no 

gênero. Mas eu procurava um, determinado, cujo endereço me havia sido fornecido 

por  Rita  Grahame.  A  designação  da  casa  era  Wu  Tchao,  o  que  correspondia 

igualmente ao dono do restaurante, ou lá o que era o local, e este ficava no número 

vinte e três. 

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Esperei que o carro se afastasse e comecei a andar sob as arcadas dos prédios 

sujos, de cujas janelas pendia roupa. É interessante, esta questão da roupa estendida 

nas  fachadas,  porque  embora  em  muitas  outras  cidades  isso  seja  frequente,  a 

diferença  é  que  em  Hong-Kong  a  razão  desse  estendal  é  obter  um  efeito 

decorativo... aqui para nós de resultados muito discutíveis. 

Enquanto  caminhava,  observando  sem  querer  cada  pormenor,  sempre 

diferente  para  quem  percorre  uma  rua  de  Wanchai,  o  meu  espírito  ia  ocupado  em 

rememorar  os  últimos  trechos  da  conversa  que  tivera  com  Rita,  horas  antes,  no 

Tien-Tsin.  Preocupava-me  sobretudo  fixar  todos  os  dados,  porque  eu  ia  a  entrar 

num  palco  e  representar  um  papel.  Estudara-o  com  ela,  durante  o  almoço,  no 

restaurante de um hotel aonde Rita  me conduzira, e tudo ficara  gravado na minha 

cabeça.  Mas  há  sempre  aquele  nervosismo  dos  últimos  minutos,  quando  o  actor 

sente que do outro lado do pano a assistência aguarda a sua entrada, e faz que um 

nó  se  forme  na  garganta  e  que  a  boca  seque  como  se  as  glândulas  parassem  de 

funcionar. Só que numa representação, em teatro, se o actor tem uma falha, o ponto 

encarrega-se  de  o  auxiliar;  e  se  as  coisas  não  correm  bem,  o  pior  que  lhe  pode 

acontecer é que o público o pateie e assobie e que no jornal do dia seguinte a crítica 

lhe  dedique  umas  linhas  desagradáveis.  “Não  aqui”,  pensei,  “não  nesta 

representação.  Porque  agora  não  há  ninguém  na  caixa  do  ponto,  e  se  o  actor  tem 

uma falha, uma só que seja, no dia seguinte o jornal trará na mesma umas linhas a 

meu  respeito.  Desagradáveis,  também.  Apenas,  de  conteúdo  ligeiramente  distinto. 

Assim,  mais  ou  menos:  ‘Foi  encontrado,  ontem  à  noite,  numa  rua  de  Wanchai,  o 

repórter americano Al Chasey, do New York Sun. Tinha um punhal enterrado nas 

costas. Estava morto. Morreu por ter o nariz muito comprido.’” 

“Deixemo-nos de ideias tolas”, finalizei, para serenar. “Vai correr tudo bem.” 

Enfiei a mão no bolso interior esquerdo do casaco, a fim de me assegurar de que os 

papéis continuavam comigo. . 

O vinte e três chegou depressa, e eu dei uma olhadela pelo exterior enquanto 

sentia  que  as  pulsações  aceleravam  e  se  tornavam  mais  intensas.  O  prédio  era 

semelhante  a  todos  os  outros.  Por  cima  da  porta  um  letreiro  perpendicular  ao 

sentido  da  rua  indicava  o  nome  do  proprietário.  O  estabelecimento  encontrava-se 

fechado,  porém  o  facto  era  natural  visto  muitas  das  casas  de  divertimento  apenas 

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abrirem  ao  fim  da  tarde  para  encerrarem  de  manhã  cedo.  A  porta  pintada  de 

amarelo  ficava  no  cimo  de  dois  degraus  que  eu  transpus,  depois  do  que  agarrei  a 

aldraba maciça em forma de serpente enrolada e a deixei cair com força. 

Dois miúdos seminus que vinham correndo rua abaixo abrandaram a marcha 

e  por  fim  estacaram  e  mirar-me  atentamente.  Decidiram-se  por  vir  até  junto  dos 

degraus e o mais crescido, que teria aí uns dez anos, arriscou: 

- Tem cigarro, mister?  

Olhei-o  por  momentos.  Era  engraçado  e  possuía  aquele  ar  sério  e 

concentrado  de  pessoa  crescida.  Reparei  que,  embora  fosse  magro,  não  tinha  o 

aspecto  escanzelado  da  quase  totalidade  dos  habitantes  miseráveis  das  ruas  da 

cidade. Das duas, uma: ou o pai era um chinês remediado, ou o rapaz era esperto. O 

estado  do  vestuário  fez-se  optar  pela  segunda  hipótese.  Atirei-lhe  o  maço 

suplementar  que  anda  sempre  comigo,  e  os  olhos  negros  brilharam  de  entusiasmo 

enquanto  agarrava  agilmente  no  ar,  com  uma  mão  apenas,  o  pacote.  Afastou-se 

correndo, seguido pelo outro. Eu sabia o que eles iam fazer com os cigarros, e isso 

era impingi-los logo à noite a qualquer indígena. 

A  porta  foi  entreaberta  sem  que  eu  tivesse  sequer  percebido  no  interior 

passos  a  aproximarem-se.  Soube  a  razão  quando  o  vulto  se  destacou  no  pequeno 

intervalo. O chinês era tão miudinho, insignificante e transparente que mesmo que 

caísse de um terceiro andar sobre a superfície esticada de um bombo não se ouvira 

nada.  Usava  a  pele  da  cara  minúscula  encarquilhada  como  um  pergaminho  da 

dinastia  Nfing,  e  à  primeira  vista  qualquer  pessoa  lhe  atribuiria  cento  e  sessenta  e 

três anos. 

Não falou, limitando-se a espiar-me através de uns olhos tão encravados nas 

órbitas que nós tínhamos a ideia de que se tratava antes de duas cabeças de alfinete. 

Resolvi ir dizendo, inclinando-me para diante e destacando as silabas para evitar ter 

de repetir tudo outra vez: 

-  Quero  falar  com  Wu  Tchao.  Chamo-me  Joe  Coslow.  Venho  da  parte  de 

Hernandez. 

Resultado nulo. Repeti, indicando-me a mim próprio. 

- Coslow. Joe Coslow. - E a seguir, apontando para o interior: - Wu Tchao. 

 

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Nada.  Começava  a  fazer  menção  de  entrar  por  ali  dentro  e  gritar  “está  aí 

alguém?”, quando soube que alguém se aproximava, porque desta vez ouvi passos, e 

bem marcados por sinal. A porta escancarou-se e um tipo de um metro e noventa e 

arcaboiço  de  zebu  surgiu  diante  de  mim.  O  crânio  era  rapado  e  a  cabeça  toda  um 

bloco trabalhado a escopro e martelo. Fixou em mim o olhar duro e eu adiantei-me 

com a mesma conversa de há bocado. 

Convenci-me  de  que  não  perdera  as  palavras.  O  gigante  abaixou-se  em 

direcção ao outro, e por instantes julguei que o fosse apanhar para o meter no bolso. 

Não o fez. Limitou-se a soprar-lhe alguma coisa ao ouvido e o pequenino afastou-se 

aos saltinhos. O grandalhão falou depois de mim, bem forte: 

- Entre. Wu Tchao espera.  

As  ondas  sonoras  ficavam  a  fazer-nos  vibrar  as  membranas  do  tímpano 

mesmo  depois  de  ele  se  ter  calado,  mas  o  inglês  percebia-se  menos  mal.  Dei  uns 

passos à frente e a porta fechou-se-me nas costas. 

- Lá dentro. 

Atravessei  atrás  dele  a  sala  grande,  que  oferecia  o  aspecto  desolador  dos 

locais de diversão nas horas em que estão encerrados. O lugar era escuro e a única 

luz  provinha  de  uma  pequena  lâmpada  vermelha  pendurada  por  cima  do  balcão, 

atrás  do  qual  eu  distingui  ao  passar  um  chinês  que  limpava  copos  à  velocidade  de 

dois por hora. Na extremidade do balcão, no canto que este formava com a parede, 

estava colocada uma máquina ultramoderna de discos. Ao longo da parede fronteira, 

do lado esquerdo, as cadeiras e bancos de verga empilhavam-se sobre as mesmas. 

Chegado à porta do fundo, tapada por um reposteiro de tecido estampado, o 

meu guia afastou a cortina e encostou-se à ombreira para me deixar passar. Baixei a 

cabeça,  encolhi-me  e  avancei.  Vi-me  num  buraco  negro,  que  ficou  iluminado 

quando o chinês puxou um cordão que estava ligado a um globo fixo na parede, a 

meio das escadas que subiam ao outro andar. Comecei a trepar os degraus, sentindo 

a  respiração  pesada  do  gigante  atrás  de  mim.  No  patamar,  onde  se  abriam  duas 

portas, um toque entre duas costelas fez-me saber que devia enfiar pela da direita, a 

qual ficava imediatamente antes do começo do segundo lanço de degraus. Rodei a 

maçaneta,  e  sem  esperar  nova  indicação,  que  poderia  deslocar-me  uma  vértebra, 

entrei. 

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Não  fui  longe.  A  mão  enorme  agarrou-me  o  braço,  forçando-me  à 

imobilidade. Percorri com a vista a saleta luxuosa, em contraste chocante com o que 

pudera  observar  do  resto  do  edifício.  Tive  mais  uma  vez  a  noção  de  quanto  são 

desconcertantes estes chineses. E requintados, quando se podem permitir o luxo de 

satisfazer sem limitações a sua comodidade e prazer pessoais. Já tenho observado, a 

na América e na Europa, que grande percentagem dos que realmente podem gastar 

o fazem a maior parte das vezes com uma falta de gosto notória. Não aqui, na Ásia, 

tanto  quanto  pudera  constatar  no  curto  espaço  de  tempo  de  que  dispusera  até  à 

altura. 

Interrompi as divagações quando dei conta de que duas pessoas entravam na 

sala, surgindo inesperadamente de trás do biombo por onde o homem grande havia 

desaparecido. O que vinha à frente trajava um rico roupão bordado a ouro que lhe 

descia  até  às  sandálias  de  tiras  douradas  enfiadas  nos  pés  nus.  Toda  a  sua  pessoa 

transmitia um ar de 

 

Pulou um pedaço 

 

UCC 14 - 4                                                49 

 

rar, dado que não se via ventoinha ou qualquer outro sistema de ventilação. 

Devia  porém  existir,  embora  dissimulado.  No  momento  em  que  a  minha  mão  se 

dirigiu para a algibeira das calças, a fim de tirar de lá o lenço para limpar o suor que 

me  começava  a  humedecer  a  testa,  a  cabeça  do  rapaz  movimentou-se  na  minha 

direcção e eu reparei que os olhos estavam atentos, perscrutadores. 

Passei o lenço pela face e voltei a guardá-lo, ao mesmo tempo que esmagava 

a ponta do cigarro na borda do cinzeiro de laca vermelha. 

Eu  sabia  que  Wu  Tchao  fora  investigar  a  autenticidade  do  documento.  De 

qualquer  maneira  não  possuía  qualquer  ideia.  Sabia  também  que  a  firma  de  Rita 

Grahame  fizera  um  belo  trabalho,  substituindo  no  passaporte  de  Coslow  a  minha 

fotografia.  A  falsificação  fora  efectuada  em  menos  de  uma  hora,  pois  fora  esse  o 

tempo que eu aguardara no Tien-Tsin o regresso de Rita. Até que ponto ela poderia 

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resistir  a  uma  análise  efectuada  por  um  perito,  eu  não  podia  garantir,  embora  me 

tivesse  sido  assegurado  que  nem  um  laboratório  de  polícia  poderia  dar  pela  troca. 

Era o que se ia ver. 

Não  pude  evitar  um  estremecimento  quando  percebi  que  Wu  Tchao 

regressava.  Era-me  impossível  vê-lo,  pois  as  costas  do  sofá  ficavam  viradas  para  a 

porta  de  comunicação.  Senti-o  aproximar-se,  sem  pressa.  Ko  Nim  olhava  na  sua 

direcção,  por  sobre  a  minha  cabeça.  Por  fim  o  roupão  azul  passou  a  meu  lado, 

roçando-me o braço. Ergui a cabeça. 

Wu Tchao sorria tenuemente enquanto voltava ao lugar que ocupava antes. 

- Peço desculpa pela demora, Mister Coslow. Mas creio que compreenderá os 

cuidados especiais com que sou obrigado a proceder... 

Forcei também um sorriso. 

- Perfeitamente.  

Devolveu-me o passaporte. Guardei-o num bolso, não sei em qual. 

- Passarei então a expor-lhe, sem preâmbulos, qual será a sua primeira missão 

-  começou,  juntando  as  palmas  das  mãos  e  entrecruzando  os  dedos  longos,  e  eu 

inspirei fundo, o mais dissimuladamente que pude. Se é que se pode respirar fundo 

dessa forma. 

Suspendeu-se por instantes. 

- Suponho que já conhece as condições em que fica a trabalhar, não é assim? 

-  Sim,  Wu  Tchao  -  assenti.  -  Mister  Sykes  esclareceu  devidamente  todos  os 

pontos. 

- Óptimo. Vejamos, pois, em que consiste esta sua tarefa. - Antes estendeu-

me  de  novo  a  caixinha  de  madrepérola,  e  eu  aceitei  outro  cigarro.  Arrumou-a  de 

seguida e falou, pausadamente. 

-  Partirá  amanhã  para  Cantão  no  comboio  que  sai  de  Kowloon  às  nove  e 

vinte  e  cinco.  Viajará,  naturalmente,  com  documentos  falsificados.  A  passagem  na 

fronteira da China, em Shumshum, verificar-se-á cerca das doze e trinta, e a chegada 

a  Cantão  às  três  e  meia  da  tarde.  Terá  de  contar  com  os  atrasos  inevitáveis.  Seja 

como for, imediatamente após a sua chegada será conduzido por um agente nosso 

que o aguarda na estação. Ele lhe entregará as instruções necessárias. 

Interrompeu  por  momentos  o  discurso,  a  fim  de  se  certificar  de  que  eu 

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seguia  totalmente  as  suas  palavras.  Não  leu  certamente  o  que  se  passava  no  meu 

espírito,  e  que  era,  logo  que  me  visse  dali  para  fora,  correr  ao  encontro  de  Rita 

Grahame a pedir-lhe que me desculpasse, mas que eu tinha a avozinha doente lá na 

terra. Precisava, porém, dizer alguma coisa. Por isso inquiri: 

- Posso saber quando regressarei, Wu Tchao? 

-  Na  manhã  seguinte,  às  sete  e  trinta,  pela  mesma  via.  Mas  virá 

acompanhado. 

Não acrescentou qualquer pormenor sobre este último ponto, o que quanto a 

mim não tinha importância nenhuma. 

-  Há  ainda  um  facto  fundamental  para  que  desejo  chamar  a  sua  atenção  - 

continuou. - Não é fácil entrar na China... 

“Completamente de acordo, Mister Tchao”, falei para dentro. 

-  ...mas  ainda  é  mais  difícil  sair.  Quanto  à  primeira  fase,  o  problema  está 

resolvido.  Você  vai  entrar  no  país  com  divisas  estrangeiras,  na  forma  de  papel-

moeda. Deixe--me esclarecer - explicou num breve sorriso - que se trata de dinheiro 

falso.  Quanto  à  sua  vinda,  contará  com  o  auxílio  do  nosso  agente  em  Cantão  e, 

acima de tudo, com as suas aptidões, embora apoiadas nas condições que lhe forem 

lá transmitidas. 

Deu a impressão de ter terminado a exposição.  

- Deseja formular alguma pergunta, Coslow?  

Se eu devia fazer alguma, ela só podia ser: 

- Quem me acompanha na vinda? 

- Sinto não o poder informar. Sabê-lo-á amanhã. Mais nada? 

Acenei negativamente. 

- Bom. Nesse caso Chu Ling entregar-lhe-á agora mesmo tudo aquilo de que 

vai necessitar. 

Levou uma mão à face inferior do tampo da mesa, calculo que para premir 

um botão, pois quase simultaneamente os passos que, embora abafados pela alcatifa, 

eu sabia pertencerem ao chinês grande, fizeram-se ouvir nas minhas costas 

- Chu Ling - disse Wu Tchao -, traz o material destinado a Mister Coslow. 

Chu  Ling  afastou-se,  para  regressar  logo  após.  Wu  Tchao  convidou-me  a 

levantar. 

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Pus-me  de pé seguido  pelo dono  da casa. Ko  Nim  permaneceu  sentado. O 

grandalhão  transportava,  numa  mão,  uma  elegante  maleta  de  pele  negra  e  fecho 

dourado e, na outra, um largo sobrescrito azul. Estendeu-me o sobrescrito, que eu 

arrecadei no bolso onde guardo a carteira, e passou-me a maleta. Tomei-lhe o peso. 

E se tudo o que transportava eram notas de banco, deviam ser notas bem grandes. 

Chu  Ling  dirigiu-se  para  a  porta  por  onde  havíamos  entrado  enquanto  Wu 

Tchao me dizia, entregando-me uma pequena chave: 

- Tem aí tudo de que vai precisar.  

Deixei  cair  a  chave  na  algibeira  superior  do  casaco,  donde  assomavam  os 

óculos de pequena graduação que Rita me havia entregue com a indicação de que os 

deveria usar se tivesse de ler algum documento. Apertou-me a mão. 

- Desejo-lhe felicidades nesta sua primeira missão, Coslow. E fico a aguardar 

ansiosamente o seu regresso. Boa viagem. 

Agradeci,  correspondi  ao  aceno  do  rapazito  e  encaminhei-me  para  a  porta 

acompanhado por Wu Tchao. Fiz uma vénia, antes de a transpor, e fui ao encontro 

do gigante que me aguardava nos primeiros degraus. 

Quando  atravessei  a  sala  do  andar  térreo  o  chinês  do  balcão  limpava  um 

copo. Provavelmente o mesmo. 

À porta da rua mostrei os dentes para Chu Ling. O  grandalhão repuxou os 

músculos  da  cara  num  esgar  tão  feio  que  devia  ser  um  sorriso.  Fiquei  melhor 

quando a porta bateu. 

Desci lentamente os dois degraus, e nunca a brisa suave que sopra da baía me 

saberia tão bem. Porém, a subir Jaffe Road, eu sentia-me o palhaço da maleta preta. 

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CAPÍTULO VI 

 

Logo que cheguei ao hotel fui direitinho para a cama e deixei-me adormecer. 

Vim a arrepender-me, porque aquilo que eu esperava fosse um sono tranquilizante 

não  passou  de  uma  sucessão  de  pesadelos  e  cenas  fantasmagóricas,  povoadas  de 

chineses  pequeninos  como  ratos,  que  soltavam  guinchos  arrepiantes,  e  outros, 

grandes  como  dragões,  que  quando  falavam  expeliam  chamas  imensas.  Havia 

também  maletas  negras,  inúmeras,  uma  das  quais,  em  particular,  eu  tentava  abrir 

com  uma  chave  minúscula.  Em  vão,  porém,  ou  porque  a  maleta  me  escorregava 

como  um  réptil  para  dentro  de  água  vermelha  da  baía,  ou  porque  era a  chave  que 

fugia para dentro de um copo besuntado com qualquer substância viscosa, e então 

eu não conseguia agarrá-la. 

Sentia-me miserável, infeliz, triste, sujo, cansado e dolorido quando despertei. 

Tentei sacudir da minha frente as últimas imagens do pesadelo e consultei o relógio. 

Marcava  quase  sete  horas.  Lá  fora  ainda  era  dia,  e  eu  levantei-me  e  fui  como  um 

autómato  até  à  casa  de  banho,  onde  meti  a  cabeça  debaixo  da  torneira 

completamente  aberta  do  lavatório.  A  dor  intensificou-se,  primeiro,  mas  depois 

diluiu-se.  Enxuguei-me  com  toda  a  energia  que  consegui  encontrar,  saí  e  andei  de 

seguida em direcção à varanda, porque achei que me faria bem apanhar um pouco 

de ar. 

O  telefone  retiniu  quando  eu  ia  a  passar.  Deixei-me  cair  na  beira  da  cama, 

com o auscultador chegado ao ouvido. 

- Sim? 

- Chasey?  

- Não está aqui. Foi à varanda. 

- Chasey... 

-  Se  desejar  eu  vou  chamá-lo.  A  menos  que  ele  tenha  caído  do  parapeito 

abaixo. 

- Chasey! 

- Okay, Rita ... de que se trata? 

-  Você  ficou  de  me  telefonar  assim  que  chegasse.  Tenho  estado  desde  as 

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quatro  horas  a  tentar  ligar  para  aí.  Fiquei  preocupadissima.  Julguei  que  ...  Correu 

tudo bem? 

- Tudo bem ... lindamente! 

- A sério? 

- Por que razão não havia de ser a sério, Miss Grahame? 

- Posso então ficar descansada? 

- Você, sim. Eu, não ...  

- Porquê? Soube alguma coisa realmente importante, Al?  

- Sim, Miss Grahame. Realmente importante. Mas como não podemos falar 

ao  telefone,  embora  se  trate  de  uma  ligação  interna,  dir-lhe-ei  apenas  que  me 

arranjou a bonita... Aquilo é explosivo, menina... e eu acabo de acender o rastilho. 

- Mas ... Posso ir aí, Al?  

-  Não.  E  escusa  de  tentar,  porque  não  lhe  abrirei  a  porta.  Tenho  de  me 

arranjar para sair. Quando voltar, o que calculo seja por volta da meia-noite, passarei 

pelo seu quarto. Até lá, vá canalizando toda a sua perspicácia no sentido de apagar o 

rastilho. 

- Mas ...  

- Até logo, querida ... Ah, é verdade, esquecia-me de uma coisa... 

- Que é? 

- Apresente por favor os meus cumprimentos à sua firma. 

Desliguei e tratei de me aprontar. Antes, no entanto, fui certificar-me de que 

a maleta negra continuava aonde a depositara, bem no fundo do guarda-fatos. 

Quando desci ao átrio faltavam ainda dois minutos para as oito. E, se eu bem 

me recordava, dentro de cento e vinte segundos Vikki deveria estar ali, porque ela é 

o género de pessoa capaz de fazer o Big-Ben corar de vergonha. É certo que a maior 

parte das vezes falta aos encontros. Mas, quando aparece, é assim. 

O movimento era tão grande, cá em baixo, que por instantes pensei que algo 

de especial acontecera. Mas não. 

Tratava-se apenas de gente que saía, para jantar, ou que entrava, para voltar a 

sair.  Havia  ainda  os  indivíduos  que  costumam  ocupar,  horas  a  fio,  os  sofás  dos 

átrios  de  todos  os  hotéis  do  mundo,  e  a  que  meu  amigo  Chandler  chama 

“moluscos”. Alguns fixam a sua atenção num jornal aberto como um cartaz e outros 

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nas pernas das mulheres que passam. Há também os que se limitam a fitar o vácuo, 

pensando em nada e fazendo coisa nenhuma. 

Um  parceiro  aproximou-se.  -Tem  lume,  por  favor?  Usei  o  isqueiro, 

acendendo-o  e  chegando-o  ao  cigarro  comprido.  Reparei  então  que  os  olhos  do 

homem estavam fixos nos meus. Não gostei. Nem da expressão dos olhos, nem do 

bigodinho galante aparado para agradar às mulheres. O rosto moreno era quadrado 

e o cabelo grudado com brilhantina. 

-  Obrigado.  Tinha  uma  pronúncia  esquisita.  O  sotaque  poderia  ser  francês. 

Afastou-se,  e  eu  fiquei  a  observar  a  camisa  azul  estampada  de  flores  amarelas  que 

saía por fora das calças cinzentas. 

- Chego atrasada, querido?.  

Vikki. Beijou-me. Assegurei, passando o meu braço pelo dela: 

- Claro que não, Vikki.  

E percorrendo-a de alto a baixo:  

- Estás maravilhosa! 

Soltou uma das suas gargalhadas encantadoras e puxou-me para a saída. 

- Onde fica, esse teu Hot Spot?  

-  É  segredo  -  respondeu-me  em  tom  misterioso.  -  Mas  não  é  longe  daqui, 

amor,  e  além  disso  vamos  no  meu  carro.  Vais  divertir-te  imenso,  Al!  Estão  lá 

dezenas de mulheres bonitas... 

- Ora - retorqui -, contigo ao lado, quem pensa noutras mulheres? 

A  face  resplandeceu  de  contentamento  e  transmitiu-me  a  noção  exacta  de 

quanto a minha presença a fazia sentir-se feliz. 

Estacionado  defronte  da  saída  encontrava-se  apenas  um  Bentley  último 

modelo, de tom alumínio. Procurei com a vista o carro de Vikki. 

-  Não  fiques  aí  especado,  Al...  vamos  entrar.  Arregalei  os  olhos  para  o 

motorista  fardado  que  segurava  a  porta  aberta,  depois  para  Vikki,  e  acabei  por 

encolher os ombros e entrar atrás dela. 

Engoli em seco. 

- Caramba! - comentei, reclinando-me no estofo tão macio como um colchão 

de penas. - É mesmo teu? 

-  Mesmo  meu,  Al  -  esclareceu  alegremente.  -  Tenho  também  um  Morris 

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Oxford.  Este  é  apenas  para  as  ocasiões  especiais.  E  hoje  é  uma  delas,  querido  - 

explicou, olhando-me com ternura. 

O carro arrancou silenciosamente. 

- Então, o que achas da cidade? Não é espantosa?  

Concordei.  

-Tal como afirmaste esta manhã, Vikki ... é ópio.  

Encarou-me. 

- Já alguma vez experimentaste, Al? 

- Não. Nem tenciono fazê-lo. E tu? 

-  Já.  E  precisei  controlar-me,  depois.  Nunca  mais  voltarei  a  repetir  a 

experiência.  Foi  a  segunda  que  fiz,  em  matéria  de  estupefacientes,  durante  toda  a 

minha vida... 

- A primeira...? 

- Foste tu - replicou.  

E, mudando rapidamente de assunto, comentou com animação:  

- Tudo isto é tão lindo, não é, querido? 

Ela tinha razão. A estrada que seguíamos acompanhava o contorno da baía, 

onde brilhavam milhares de luzinhas, reflectindo-se nas águas tranquilas. Do outro 

lado  a  ilha,  igualmente  iluminada,  integrava-se  no  cenário  deslumbrante,  irreal. 

Quase  fazendo-me  esquecer  a  tarde  infeliz  que  tivera.  Mas  apesar  de  tudo  os 

pensamentos  desagradáveis  continuavam  e  não  havia  maneira  de  lhes  fugir.  Ou 

talvez  houvesse...    Lembrei-me  de  John  McDermott.  Poder-me-ia  ajudar?  Em  que 

medida?  E,  mesmo  que  pudesse,  não  seria  para  mim  correr  um  risco  demasiado 

grande, maior ainda que continuar? 

- Que se passa, Al? 

- Há... Quê? 

- Rapaz, tu estás preocupado com alguma coisa... Que é? 

- Nada... Reflectia, apenas. 

Ela não insistiu. Minutos depois entrávamos na zona do porto e o automóvel 

seguiu por uma rua entre duas filas de barracões e acabou por ir desembocar num 

pequeno cais deserto. 

Virei-me para Vikki, surpreendido. 

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- Mas...  

-  Não  tenha  receio,  querido...  -  tranquilizou-me.  -  É  mais  uma  surpresa  da 

sua Vikki. 

Devia ser, e estava para além da minha expectativa. O motorista deu a volta, 

travou e saiu, afastando-se uns metros até à borda do cais. O sítio estava escuro e eu 

não conseguia distinguir os seus movimentos. Não tardou em regressar, e deve ter 

feito qualquer sinal, porém Vikki disse para mim: 

- Vamos.  

Fomos.  Apesar  dos  ruídos  da  noite,  que  nos  envolviam  distantes  umas 

escassas centenas de metros, o som dos nossos passos fazia-se ouvir bem marcado 

no  solo  de  cascalho.  Dirigimo-nos  para  o  local  que  o  homem  visitara  antes,  e  só 

então pude ver que existia ali uma pequena escada de madeira que descia até à água, 

onde  flutuava  um  sampan.  A  bordo  equilibrava-se  um  vulto,  segurando  o  remo 

comprido  da  cauda  da  embarcação.  Vikki  desceu  com  cuidado.  Eu  segui  atrás, 

pisando com cautela os degraus, e saltei depois dela para o fundo do pequeno barco. 

Quem o dirigia, e constituía aliás toda a tripulação, era uma rapariguinha de 

longa trança que lhe descia até à cintura. A sua figura frágil, situada num plano mais 

elevado  que  o  da  prancha  de  madeira  onde  nos  sentáramos,  debaixo  do  toldo, 

recortava-se  como  se  flutuasse  sobre  a  água.  Começou  a  abanar  o  remo,  para  um 

lado e para o outro, e o sampan afastou-se rapidamente do pequeno ancoradouro. O 

homem  não  vinha  connosco.  Vikki  segurou-me  a  mão,  e  calculei  que  me  tivesse 

lançado um sorriso. Sob a lona a noite era mais escura e, embora ao largo flutuassem 

dezenas  de  pontos  brilhantes,  aqui  a  única  luz  era  a  que  a  lanterna  da  proa  emitia 

tenuemente apenas como o objectivo de sinalizar a embarcação. 

A rapariga manobrava com uma facilidade espantosa, fazendo a embarcação 

avançar lestamente como se fosse propulsionada por um pequeno motor silencioso. 

Daí a pouco podia observar as luzes do  porto a afastarem-se, e olhando para  trás, 

pela abertura anterior da lona, verifiquei que outros barcos estavam já próximos. 

A  minha  companheira  seguia  calada,  como  as  pessoas  costumam  estar 

imediatamente  antes  de  nos  desvendarem  uma  surpresa  que  prepararam  para  nós. 

Eu  também  não  dizia  nada,  mas  por  motivos  diferentes.  Possivelmente  porque  o 

marulhar da água fazia que a corrente das reflexões interiores fluísse com facilidade. 

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Mas  de  repente,  vendo-me  ali  sentado,  todo  contraído,  com  as  mãos  nos 

joelhos e o  tronco direito, sentado  no banco do bote que sulcava Victoria Bay, eu 

senti-me  absolutamente  idiota.  “Diabo,  Al”  -  disse  para  mim  próprio  -  “agora 

descontrai, deixa correr, e depois logo se vê. As coisas podem não ser agora tão feias 

como  se  apresentam.”  Pespeguei  como  ponto  final  um  beijo  enorme  no  pescoço 

macio  de  Vikki,  e  acho  que  o  fiz  com  demasiado  arrebatamento  porque  ela  se 

desequilibrou para trás, e só não caiu porque se agarrou com força ao meu pescoço. 

- Al! - gritou, rindo. - Que bicho te mordeu? 

- Falta muito, querida?  

- Chegamos - disse ela. 

- Quê? - Só então reparei que o sampan se imobilizara. Olhei para baixo, e o 

que vi foi água. 

- É lá no fundo? - inquiri, embora achasse a surpresa demasiado chocante. 

- Não, que ideia, Al! Olha...  

Olhei.  Do  outro  lado  erguia-se  o  que  a  principio  julguei  ser  um  enorme 

paredão  de  madeira.  Mas  subindo  a  cabeça,  de  modo  a  poder  alargar  o  ângulo  de 

visão, vi o que era. E então eu percebi. 

Lá  em  cima  estava  tudo  iluminado,  e  o  paredão  de  madeira  fazia  parte  do 

casco de um junco bem grande a que a nossa pequena embarcação encostara. Vikki 

apertou-me a mão, eu levantei-me, e ela levou-me até à escada que dava acesso ao 

convés, uns três metros acima da nossa cabeça. 

Subi à frente, agarrando-me firmemente ao corrimão de corda, e a meio do 

caminho parei, a olhar para baixo. 

- Há tubarões? - gritei, tão alto que eles poderiam ouvir-me. 

Como  ela  me  garantisse  que  não,  a  metade  restante  não  custou  nada  a 

percorrer. Fosse como fosse, senti-me mais à vontade quando pisei -o chão firme do 

convés. Vikki chegou logo atrás e, pendurando-se no meu braço, conduziu-me. 

Cá fora, uns metros distantes de nós, havia gente que pelos vistos andava por 

ali  apenas  a  apanhar  fresco.  E,  tanto  quanto  as  lanternas  e  balões  profusamente 

dispostos ao longo da amurada e nos mastros me permitiam ver, tive a sensação de 

que  não  era  gente  qualquer,  mas  sim  do  género  que  usa  smoking  e  vestidos  de 

grande costureiro. Grã-fino, era o que devia ser o sítio. 

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Lá  de  dentro,  através  da  porta,  chegava  até  nós  o  barulho  misturado  de 

confusão, luzes fortes e música mais ou menos, e foi para aí que nós andamos. As 

pessoas voltavam-se para a cumprimentar agradavelmente. 

Atravessamos  a  porta,  e  de  repente  o  barulho  tornou-se  tão  ensurdecedor 

que eu mal dei por que Vikki proclamava, chegando os lábios ao meu ouvido: 

- Este é o meu Hot Spot, uma das boites flutuantes de Hong-Kong. Que tal? 

Limitei-me  a  sorrir  largamente,  abstendo-me  de  dar  resposta  imediata. 

Porque a gente dar-se logo conta de uma coisa daquelas é como pronunciar-se sobre 

um Picasso espiando-o de passagem pelo canto do olho. Acreditem apenas que eu 

não estava maluco: Dante já ali estivera, antes de mim. 

Toda a população conhecia Vikki, e ela conhecia todos, e apresentava-mos, e 

a mim a eles, orgulhosamente: 

- Robbie... 

- Don... 

- Huck... 

- Erick... 

- Pegu... 

- Miff... 

- Reg... 

- Con...  

E por aí fora, até eu julgar que a noite ia acabar assim. De todos os nomes 

retive apenas um: o meu próprio. 

-  Bem,  Al...  e  agora,  que  já  conheces  todo  o  mundo  aqui,  deixo-te  por  um 

bocadinho. E vocês, tratem-no bem e não mo estraguem! 

Puff...  desapareceu.  E  eu  também.  Tragado,  amarfanhado,  abafado  pela 

multidão. 

- Estamos a andar! - gritou alguém, entusiasmado. 

- Estamos a andar! Vamos entrar em órbita, e Aberdeen é do outro lado, no 

Mar da Tranquilidade... 

Estávamos realmente a mover-nos. Isso devia querer significar que o junco ia 

fundear em Aberdeen Bay. 

Disse depressa que sim antes que a boquilha me furasse um olho. Era uma 

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boquilha  tão  grande  como  cinquenta  centímetros,  mas  um  poucochinho  mais 

estreita que o vestido donde a ruiva emergia. 

O meu ar devia ser esquisito, porque ela disse: - Se está deslocado, meu filho, 

faça de conta que eu sou a sua mãezinha. 

Ia  responder-lhe  que  a  minha  avozinha  que  mora  em  Peoria,  Ilinóis,  era 

muito  mais  nova  do  que  ela,  quando  uma  de  cabelo  loiro  e  rosto  meigo  chegou 

furando  junto  a  mim.  E  nessa  altura,  quando  ela  se  encontrava  a  meio  metro, 

apenas, pude observar-lhe o corpo, e fiquei quase indignado ante a luta desesperada 

que as curvas travavam com o vestuário. 

- É você o  meu  cavalo! - disse apenas, e isso  devia ser um elogio fabuloso. 

Envolveu com os braços longos o pescoço do cavalo, que era eu, e esborrachou os 

lábios  carnudos  nos  meus.  O  ar  faltou-me  de  repente,  porque  todas  as  vias 

respiratórias ficaram obstruídas. E aquela pressão tão grande no meu peito! 

Despegou-se a tempo,  e nessa altura eu verifiquei que o cálice desaparecera 

da minha mão. Procurei no chão, e lá estava. Em pedacinhos pequenos. 

-  Você  é  o  meu  cavalo  -  repetiu  ela,  mas  eu  desta  vez  estava  preparado  e 

aparei a arremetida com ambas as mãos espalmadas. No peito dela, por sinal. 

-  Oiça,  jóquei  -  tentei  dizer  -,  eu  não  sou  o  seu  cavalo.  Veja,  não  tenho 

número nenhum nas costas. - E virei-lhas rapidamente. 

Para  dar  de  caras  com  “aquilo”.  Usava  longo  cabelo  castanho-claro,  a 

condizer com os olhos, e as faces eram rosadas, macias. Empunhava dois cálices do 

tal  líquido  esverdeado,  e  só  quando  me  estendeu  um,  dizendo  “É  divino!  “,  eu 

estranhei a voz, e reflectindo compreendi que era um homem. Aceitei, de qualquer 

modo,  porque  não  desejava  ferir  a  sua  susceptibilidade.  As  bolinhas  reapareceram 

quando engoli aquilo, e quando se foram embora, pensando melhor, concluí que a 

loura  não  era  má  companhia  e  dei  outra  meia  volta.  Porém,  quem  surgiu  à  minha 

frente foi um gorducho careca com um copo enorme apertado nos dedos carnudos, 

que se suspendeu ao dar de caras comigo. 

- Eh, nós não estivemos os dois no 6.1 de artilharia? Neguei, e o rosto balofo 

traduziu um desconsolo tão grande que quase senti pena dele. “No 6.1 de artilharia, 

o gorducho”, resmunguei para dentro, afastando-me. “Só para bala de canhão.” 

Descobri a lourita lá adiante e perfurei até lá chegar. 

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-  Meu  querido  jóquei!  -  exclamei.  -  Afinal  estive  a  pensar,  e  acabei  por 

descobrir que talvez seja o seu cavalo ... Só que tinha o número arrumado no bolso 

das calças. 

- Oh! - disse ela, num gritinho. - É tão bom! - e pendurou-se a mim no jeito 

de há bocado. - Vamos dançar, cavalinho? 

“Dançar?”,  interroguei-me.  “Mas  eu  não  consigo  ouvir  nem  um  bocadinho 

de música ... ” 

- A música vem lá de baixo - e empurrava-me, entusiasmada. - Sempre lá de 

baixo.  Vikki  é  tão  espantosa!  -  ia  ela  gritando,  e  empurrando  sempre,  até  que 

pudemos parar, e nessa altura soube o que ela queria dizer. 

O  conjunto  que  fornecia  a  tal  música  mais  ou  menos  não  estava  disposto 

como  habitualmente,  num  pequeno  palco,  mas  sim  num  reduzido  recinto  que  era 

precisamente o contrário. Isto é, uma porção rebaixada no chão como o “poço” nos 

teatros. Tudo convenientemente ornamentado. 

Três  ou  quatro  pares  davam  a  impressão  de  parecerem  simular  fingir  que 

dançavam, e a garota aparafusou-se a mim. E se aquilo era dançar, o meu intestino 

era  corda  de  violoncelo.  O  conjunto  consistia  da  secção  rítmica,  composta  por 

piano,  contrabaixo  e  bateria,  além  de  trompete  e  saxofone,  estes  dois  últimos 

instrumentos  repousando  ao  lado  dos  respectivos  fornecedores  de  sopro,  que  se 

limitavam a acompanhar adormecidamente o compasso com gestos de cabeça. 

- Caramba, meu dono - disse a loura, empolgada esta música e você fizeram-

me dar o mergulho. 

E  mergulhava  mesmo,  o  corpo  todo  no  meu,  como  se  procurasse 

desesperadamente comprovar a quarta dimensão. 

- Diga-me apenas, narciso - pediu-me ela, a focalizar-me os olhos: - Também 

veio do fundo do mar? 

-  Claro!  -  disse  eu.  -  Também  sou  mergulhador.  Profissional  e  sem 

escafandro. A minha vida é todo um mergulho a grande pressão nas profundezas da 

teoria das possibilidades. 

- Caramba! - comentou, num estremecimento de prazer incontido. - Você é 

tão sensacional, e foi fabricado só para mim... 

-  E  -  assenti.  -  Sou  um  ponto  de  suspensão  na  curva  assombrosa  do 

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semiperíodo dos átomos transmutados em toda a sua vida subaquática. 

- Oh... ! Oli! - suspirava, arrebatada. - Você é  tanto, tanto,  que está sempre 

mais além e abafa tudo o que fica para trás. 

- Tal e qual - concordei.  

A  certa  altura  Vikki  passou  por  nós,  de  fugida,  mas  ainda  me  perguntou, 

sorridente: 

- Estás a divertir-te, Al? 

- Como um cavalo de corrida a nadar debaixo de água - informei, agradecido, 

mas acho que ela já não me ouviu. 

Apareceu  depois  um  rapaz  grande  com  cara  de  menino,  o  qual  vestia  um 

smoking a pôr em evidência os seus ombros de atleta. Agarrou-me por um braço. 

- Oiça, amigo, você está a dançar com a minha miúda.  

Não respondi. Eu achava-me submerso. 

- Não ouviu, rapaz? - e puxou com mais força, segurando-me ainda a banda 

do casaco. 

Virei-me para ele e dei-lhe um safanão no braço. 

- Desapareça, parceiro ... 

- Ali, sim? 

- Pois. 

- E eu lhe der uma sova?  

-  Não,  amigo  -  respondi.  -  Eu  é  que  daqui  a  bocado,  se  você  me  chateia 

muito, lhe esborracho a cara. 

- Ah, sim? Isso é que eu gostava de ver!...  

-  Não,  meu  filho  -  retorqui.  -  Acho  que  você  nem  chegaria  a  ver  coisa 

nenhuma. 

-  Ora,  Chuckie...  -  interveio  a  garota.  -  Some-te  daqui  para  fora.  Eu  não 

consigo sequer navegar no teu hálito ... 

O  rapaz  grande  de  rosto  de  menino  pequeno  teve  uma  expressão 

compungida e afastou-se aos solavancos. 

-  Fique  aqui,  peixe  -  falou  daí  a  momentos  a  garota.  -  Vou  ali  buscar 

combustível  para  o  submarino,  e  não  demora  nem  o  tempo  de  voltar.  Entretanto, 

abafe-me bem esse ritmo! 

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Fiquei  sozinho,  com  toda  a  gente  à  minha  volta.  Bolas,  não  haveria  ali 

ninguém  completamente  normal?  Certamente  que  sim,  pensei,  mas  seria  uma 

felicidade demasiado grande encontrá-lo. E foi quando, de um instante para o outro, 

senti  que  estava  farto,  saturado,  e  que  se  não  me  pusesse  a  andar  bem  depressa, 

antes de meia hora ficaria completamente chalado. 

Caminhei com os cotovelos e de repente vi-me cá fora. Inspirei bem fundo, 

uma  vez,  muitas  vezes.  Agora  não  havia  ninguém  no  convés.  Pelo  menos  que  eu 

visse. Cheguei perto da amurada, no espaço que dava para a escada de madeira que 

descia até à água. Lá em baixo estavam dois sampans encostados. 

Ia começar a descer, quando alguém chamou: 

- Eh, Mister McCullers! Virei-me.  

O velhote dirigia-se obviamente a mim. 

-  Qual  a  sua  opinião  sobre  a  crise  do  Vietname?  Hoss  disse-me  ontem  que 

tinha lá estado consigo, na semana passada. 

Já com um pé no segundo degrau, respondi: 

- Está enganado, meu caro. Hoss realmente encontrou-me, mas isso foi em 

Ponderosa, dois anos atrás. 

Continuei  a  descer  e  entrei  na  embarcação.  Não  foi  preciso  falar,  porque  a 

rapariguinha do leme manobrou imediatamente e o pequeno barco afastou-se, rumo 

a terra. 

Acendi um cigarro, aspirando um longo trago. Soube-me bem. 

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CAPÍTULO VII 

 

Eram apenas dez menos um quarto quando cheguei ao hotel, ainda sem ter 

jantado.  Era  certo  que  Vikki  me  convidara  para  jantar  lá,  mas  depois  de  observar 

aquelas coisas todas, decerto compreenderão que um sujeito mentalmente são possa 

ficar  com  medo  de  jantar  num  sítio  daqueles.  Porque  há  que  admitir  que  logo  de 

entrada venha um peixe enorme com uma flor amarela na boca e que de dentro dele 

saiam  gnomozinhos  com  chapéus  vermelhos  de  três  bicos,  e  então  o  parceiro  fica 

atrapalhado porque não sabe  se  há-de utilizar  o garfo de peixe ou o  de carne. Por 

isso,  quando  cheguei  a  Bay  View,  apressei-me  a  subir  ao  quarto  na  ideia  de 

encomendar a refeição. 

À saída do elevador, no quarto piso, encontrei-me com alguém que entrava. 

Tratava-se  de  um  fulano  moreno,  entroncado,  de  bigode  malandro  e  camisa  de 

ramagens que saía para fora das calças. O tal sujeito com quem eu antipatizara horas 

antes,  lá  em  baixo  no  átrio.  Cumprimentou  com  um  sorriso  muito  seguro  de  si,  o 

que  eu  retribui  de  mau  modo  e  passei  adiante,  fazendo  tilintar  a  chave  contra  a 

rodela de metal. 

À porta do quarto hesitei por alguns segundos sobre se iria entrar, ou seguir 

até  ao  fundo  do  corredor,  onde  Rita  Grahame  devia  estar  à  minha  espera.  Como 

porém  lhe  dissera  que  não  voltaria  antes  da  meia-noite,  decidi-me  por  ir  primeiro 

assentar  as  ideias  sobre  a  cama,  e  introduzi  a  chave  na  porta.  Rodei  o  trinco, 

empurrei e entrei. O anúncio luminoso do outro lado iluminava suavemente a sala, e 

sem acender a luz comecei a andar sobre a alcatifa em direcção à varanda. 

Não cheguei lá. A razão foi aquela pancada forte, seca e contundente na base 

do crânio, que me fez subitamente deixar de ver e tombar desamparado no chão. 

A primeira coisa que senti ao despertar foi que segurava uma chave na mão. 

Devia tratar-se da chave do Céu. A segunda, foi que o reflexo do anúncio luminoso 

continuava ali. E a terceira, que a minha cabeça também. Sobretudo essa. Estalando 

aos  poucos,  a  querer  rebentar  como  se  algo  dentro  dela  estivesse  a  crescer,  a 

aumentar  de  volume,  e  o  crânio  fosse  pequeno  de  mais  para  conter  força 

avassaladora.  Minha  mãe,  como  a  minha  pobre  cabeça  doía.  Dor  intensa  que 

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dilatava e descia por ali abaixo, paralisando. 

Fiquei estendido sobre a alcatifa, naquele estado de semi-inconsciência. E se 

essa semi-inconsciência era já tão dolorosa, eu não queria despertar completamente. 

Ficaria ali, esparramado, e a dor havia de se chatear e de sair pela varanda, como os 

mosquitos atraídos pela luz. 

Não foi assim tão fácil. A dor não foi embora. A consciência total chegou, e 

com ela tudo foi mais desagradável ainda. Quem acabou por se chatear fui eu. 

Arrastei  custosamente  um  braço  até  à  região  contundida  e  apalpei-a 

devagarinho  com  a  mão,  no  receio  de  encontrar  algum  buraco  tão  grande  que  ela 

entrasse por ali dentro. Os dedos  tocaram lá.  Não havia  nenhum buraco, mas sim 

um líquido que não era uísque com certeza, porque o uísque não é assim viscoso. 

Mexi  depois  outro  braço,  e  uma  perna,  e  outra  perna.  Estava  tudo  no  seu 

lugar, e se nenhuma voz me mandou ficar quieto, pôr-me de pé, ou coisa no gênero, 

era porque não devia estar mais ninguém ali dentro. 

Rodei lentamente sobre o ombro direito, apoiei as mãos no chão e dobrei os 

joelhos. Triste como um rafeiro em noite chuvosa. Pus-me de pé, a seguir, mas aos 

pouquinhos. Felizmente houve um sofá amigo que me ajudou nessa tarefa difícil. 

Quando  a  posição  vertical  foi  conseguida,  percorri  com  os  olhos  tudo  à 

minha volta. Não havia ninguém para ver e a porta estava fechada. Tudo como se a 

pancada  que  me  prostrara  tivesse  sido  vibrada  por  ninguém  e  vinda  de  lado 

nenhum.  E  no  entanto  eu  sabia  que  não  fora  assim.  Alguém  estivera  ali,  à  minha 

espera.  Alguém  que  tinha  razões  tão  fortes  para  me  fazer  aquilo,  como  forte  fora 

aquilo que me fizera. 

Arrastei os pés até ao comutador, acendi as luzes e entrei na casa de banho. 

Antes de pensar a ferida apoiei as mãos na borda do lavatório e olhei para o espelho. 

A  cara  que  apareceu  reflectida  tinha  um  aspecto  tão  desagradável  de  ver  que  eu 

fechei os olhos e abri a água. 

Depois de convenientemente tratado fui mudar de camisa. Em seguida abri a 

porta do guarda-fatos, tirei para fora a maleta preta, arrumada ao lado da minha, e 

transportei-a para cima do sofá, onde a examinei atentamente. A fechadura não fora 

forçada. Também não devia ter sido aberta, visto que a pequena chave continuava 

onde a metera, entalada entre o soalho e um dos pés da cama. Apanhei-a e enfiei-a 

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no bolso. Tive também o cuidado de procurar o sobrescrito azul que Wu Tchao me 

havia entregue, e que andara sempre comigo. Extraí-o da algibeira interior e cheguei-

o perto do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Não me parecia igualmente que tivesse 

sido violado enquanto eu permanecera adormecido, e voltei a guardá-lo. 

Liguei o telefone para a recepção. 

- Al Chasey, do quatrocentos e cinco. Desejo saber se alguém procurou por 

mim, nestas últimas horas. 

- ...Não, ninguém, Mister Chasey - respondeu-me o rapaz da recepção. 

- Bem - disse eu -, então quem poderia ter entrado no meu quarto, durante a 

minha ausência? 

-  Mas,  absolutamente  ninguém!  -  assegurou-me,  surpreendido.  -  As  chaves 

dos  quartos  são  todas  diferentes.  -  E  inquiriu,  ansiosamente:  -  Aconteceu  alguma 

coisa, Mister Chasey? 

- Não. Nada. Apenas uma girafa amarela que deve ter entrado por debaixo da 

porta. 

Pousei o auscultador, agarrei a maleta, e após ter apagado as luzes saí para o 

corredor. Fui até ao quarto de Rita e bati. 

A porta não tardou a abrir-se logo que me identifiquei. 

- Chasey... Que aconteceu?  

Vestia  apenas  um  penteador  rosa  quase  transparente,  e  nos  pés  calçava 

chinelinhas  com  borla  branca  a  enfeitar.  Se  eu  não  me  encontrasse  no  estado  de 

espírito em que estava teria prestado mais atenção ao conjunto, e não seria preciso 

muito  tempo  para  chegar  à  conclusão  que  o  corpo  dela  era  realmente  magnífico, 

excitante e por aí fora. Mas assim limitei-me a responder, mal-humorado: 

- Nada. Não aconteceu nada. Foi um rickshaw que me passou com uma roda 

por cima quando eu entrava no hotel. 

E acabei de penetrar no quarto. Fi-lo tão intempestivamente que ela teve de 

se afastar depressa para não ser atropelada. 

- Mas ... Al, teve de acontecer alguma coisa!  

Atirei  a  maleta  para  cima  do  sofá,  voltei-me  para  ela,  que  permanecia 

imobilizada a meio da sala, e retorqui com rudeza: 

- Claro! Teve de acontecer. E você sabe isso perfeitamente, porque quando 

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me  meteu  nisto  já  possuía  a  certeza  absoluta  de  que  tinha  de  acontecer  qualquer 

coisa. Eu apanhar pancada, por exemplo, ou até ir cair nalgum canto com uma faca 

cravada  nas  costas.  Mas  isso  não  lhe  importa  grandemente.  Nem  nada,  mesmo, 

desde que o trabalho seja feito, para que a sua estuporada firma fique satisfeita com 

a  sua  habilidade  de  persuasão  e  a  promova  a  encarregada  das  relações  públicas. 

Okay, Miss Grahame, pode ficar descansada... Tudo está a correr bem. E, a menos 

que  surja  alguma  surpresa,  eu  hei-de  acabar  aquilo  que  comecei.  Porque  sou  eu  o 

único  responsável  pelos  trabalhos  em  que  me  meto,  e  se  depois  de  dizer  que  sim, 

senhora, aceito, vou para a frente e só não chego ao fim se alguma razão bem forte 

me impedir de continuar. Mesmo que, como presentemente, esteja arrependido até à 

medula dos ossos e a deteste a si e à sua firma, que alguma coisa cá dentro me diz 

que cheira mal que  tresanda. E se for verdade, Miss  Grahame, não  se esqueça das 

condições do nosso contrato. Porque já lho disse de caras, e repito-lho agora: se o 

vosso negócio for sujo, eu hei-de limpá-lo até à raiz. Ouviu? 

Estava  cansado,  quando  acabei,  e  a  dor  de  cabeça  aumentara,  mas  em 

contrapartida senti-me um bocadinho mais aliviado. Enquanto despejei aquilo tudo 

estive  demasiado  excitado  para  atentar  bem  nas  expressões  que  o  rosto  dela  fora 

traduzindo. O que sei, porém, é que a sua reacção foi diferente da que aguardava. 

Veio andando , naquele modo provocante, um sorriso tranquilo a bailar-lhe 

rios  lábios  vermelhos.  Parou  quase  encostada  a  mim,  e  a  mão  procurou  com 

cuidado a ferida na minha nuca. Os dedos correram-me depois ao longo do pescoço 

e eu pude sentir as unhas dela roçando-me na pele. A seguir veio a outra mão, e os 

braços subiram suavemente, até que me envolveram completamente e o seu corpo 

escaldante ficou colado ao meu. 

Só então falou, sussurrando as palavras. 

-  Compreendo  o  seu  estado  de  espírito,  Al...  Calculo  que  algum 

acontecimento  houve  que  o  deixou  assim.  Sei  que  está  a  levar  bem  aquilo  que  se 

empenhou em fazer, e você também o sabe. Por isso lhe peço que pare de proceder 

como um menino contrariado e venha contar-me tudo, tranquilamente. Talvez eu o 

possa ajudar... Está bem? 

Era.  Ela  ia  de  certeza  absoluta  ser  promovida.  Dos  cabelos  dourados, 

penteados como das vezes anteriores, desprendia-se um perfume inebriante, e toda a 

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sua presença era perturbadora. Só que neste momento eu estava longe como se um 

muro  nos  separasse.  Ou  quase.  Desprendi-me  do  abraço,  fui  sentar-me  no  sofá 

extenso e tirei do maço um cigarro, que acendi. 

Rita veio tomar lugar perto de mim. Demasiado perto, a ponto de eu sentir o 

calor do peito dela. Agarrou-me a mão. 

- Agora, conte-me o que se passou esta tarde, e também o que lhe fizeram. 

Ficou  aguardando,  os  olhos  verdes  de  longas  pestanas  presos  nos  meus. 

Desentalei gentilmente a mão, sob o pretexto de segurar o cigarro, e comecei a falar. 

Principiei  pela  agressão  de  que  fora  vítima  e  descrevi-a  rapidamente.  Não  pareceu 

surpreendida,  nem  abriu  mais  os  olhos  grandes,  nem  nada.  Como  se  fosse  tudo 

natural. 

-  Quem  pode  ter  sido,  Al?  -  inquiriu,  traduzindo  um  interesse  meramente 

profissional. Como um polícia o faria. Apenas ligeiros vincos se lhe desenharam na 

testa. 

Encolhi os ombros. 

- Não sei. E você, tem alguma ideia?  

Reflectiu um pouco, acabando por concluir num gesto de desânimo: 

- Lamento, Al, mas não consigo ajudá-lo...  

Virei o rosto de modo a poder ficar de frente para ela. 

-  Rita,  haverá  alguma  coisa  que  me  tenha  ocultado,  algo  que  julgue  não  ter 

importância, mas que depois disto que sucedeu me possa fornecer um indicio, por 

pequeno que seja? 

Negou terminantemente. 

- Não, Al. Juro que não. Além disso, você conhece perfeitamente o empenho 

que  existe  da  nossa  parte  em  que  possa  resolver  tudo  do  modo  mais  eficiente 

possível.  Não  seria,  portanto,  lógico  que  procedêssemos  em  contrário,  visto  que 

assim estaríamos a trabalhar contra nós próprios... Não acha? 

Sim, isso era verdade. Partindo evidentemente do principio que o negócio era 

legal... E visto que não adiantaria insistir naquela nota, passei a desenrolar o resto da 

música. Não todo o resto. Quase todo, no entanto, pois que me limitei a omitir dois 

ou  três  pormenores,  entre  eles  o  destino  da  viagem  do  dia  seguinte.  Apenas,  se 

alguém me perguntasse porque não o revelava, eu pura e simplesmente não saberia 

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responder. 

Rita Grahame aceitou a incógnita depois que lhe expliquei: 

-  A  partir  daqui  considero  que  a  questão  é  pessoal.  Essa  a  razão  porque 

prefiro  não  a  pôr  a  par  de  tudo  o  que  está  a  ocorrer.  No  fim  terá  um  relatório 

completo. E, num aspecto, estou agora convencido de que você tinha inteira razão: 

quando me  garantiu que algo de importante estava para se desenrolar  brevemente. 

Julgo  que  é  certo,  e  que  os  resultados  não  tardarão.  Embora  tenha  também  a 

convicção de que o pior está para vir e que o caso não vai ser assim fácil de arrumar. 

Rita passou o braço nu por sobre as costas do sofá, deixando a mão descair 

casualmente no meu ombro do lado oposto, e traçou as pernas. O penteador abriu-

se  mas  ela  pareceu  não  ter  reparado.  Inclinou-se  mais,  e  se  até  ali  eu  estivera 

convencido de que alguma peça especial lhe sustentava os seios esplêndidos, soube 

que me tinha enganado redondamente. 

- Bem - disse eu -, vou-me embora.  

-  Al...  -  Os  olhos  brilhantes  diziam  tudo  o  que  pretendia  que  eu  soubesse. 

Encarei-a. 

- Não, Rita. Não hoje. Quando estiver tudo acabado, poderemos falar sobre 

isso. Até lá, não. 

Puxou-me suavemente, e os lábios quentes tocaram-me a face. 

- Está bem, Al. Mas não te esqueças desta promessa...  

Levantámo-nos, e no caminho para a sala recolhi a maleta, cujo conteúdo lhe 

mostrara no decorrer da conversa. Quando estava já com a mão no trinco ela pediu, 

erguendo o rosto: 

- Um beijo, Al... Só um beijo de despedida.  

Condescendi.  Ao  principio.  Porque  depois  acabei  por  dar  realmente  uma 

ajuda, e quando isso sucedeu a maleta preta tombou no chão. 

Ao  sair,  apesar  do  meu  espírito  pairar  um  bocadinho  longe  do  assunto  que 

me levara ali, ainda resolvi deixar cair uma pergunta. 

-  Rita...  sabes  por  acaso  alguma  coisa  sobre  o  tipo  que  morreu  aqui  perto, 

assassinado, anteontem à noite? 

Respondeu-me, enormemente surpreendida: 

- Não... não sei nada ...  

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Sabia. Saí, fechando a porta. 

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CAPÍTULO VIII 

 

Tsimshatsui,  no  extremo  sul  da  península,  é  o  término  da  via  férrea 

Kowloon-Cantão, que se estende mais para norte, até Hankow. O trecho inglês da 

linha tem vinte e duas milhas de extensão e é explorado entre Kowloon e Lowu, na 

margem  sul  do  rio  Shumshum,  que  constitui  parte  da  fronteira  britânica  com  a 

China. 

Cheguei  à  estação  cerca  das  nove.  Muito  embora  não  esteja  exactamente 

dentro dos meus hábitos comparecer quase meia hora antes da partida do comboio, 

o certo é que o mesmo nervosismo que não me permitia dormir desde as seis horas 

me fizera deixar cedo o hotel. 

O  movimento  no  cais,  embora  não  fosse  comparável  ao  de  qualquer  outra 

grande  cidade,  dava  contudo  a  ideia  de  que  o  tráfego  habitual  era  intenso.  Havia 

quatro  plataformas  e  três  vias,  mas  só  uma  destas  estava  ocupada  por  uma 

composição de quatro carruagens e locomotiva diesel lá no extremo. Uma tabuleta 

no  princípio  da  plataforma  que  lhe  dava  acesso  dizia:  “KOWLOON-CANTÃO. 

Partida às nove e vinte e cinco.” Era o tal. No bolso tinha já o bilhete para a viagem, 

o  qual  constituía  parte  do  conteúdo  do  sobrescrito  azul  que  Wu  Tchao  me  havia 

entregue na véspera. Na mão direita segurava com forca a pega dourada da maleta 

preta.  A  chave  respectiva  seguia  no  bolso  superior  do  casaco  cinzento-claro.  E  à 

parte  isso,  os  documentos  e  o  dinheiro,  que  eram  o  conteúdo  restante  do  tal 

sobrescrito, e o resto da roupa, eu não transportava mais qualquer bagagem. Ou, se 

quiserem,  levava  algo  mais.  Um  grande  caroço  na  garganta,  o  coração  contraído  e 

um montão de ideias baralhadas na cabeça. 

Percorri  devagar  toda  a  extensão  da  plataforma,  olhando  distraidamente  as 

pessoas  e  os  objectos.  As  carruagens,  pintadas  de  vermelho-escuro,  ostentavam 

placas  metálicas  indicando  o  número  e  o  destino.  Só  a  da  frente  era  de  outra  cor, 

verde carregado, e o aspecto dessa era: melhor que o das restantes; em vez de uma 

sala única estava dividida em compartimentos de assentos estofados. Consultando o 

bilhete,  verifiquei  que  se  destinava  àquela  mesma  e  que  o  meu  lugar  ficava  no 

compartimento  número  três.  Pelo  que  pude  ver  cá  de  fora  nenhum  deles  estava 

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ainda  ocupado.  A  porta,  junto  ao  degrau,  encontrava-se  somente  um  empregado 

chinês  de  casaco  branco  e  boné  na  cabeça,  que  quando  passei  me  endereçou  um 

sorriso muito mais colorido que o amarelo da cara. 

Chegado  perto  da  locomotiva  fiz  meia  volta,  e  nessa  altura  reparei  que  o 

quiosque que existia junto à entrada da gare, para venda de publicações, estava a ser   

desentaipado  por  um  chinês  miudinho  rodeado  de  pilhas  de  jornais  e  revistas. 

Dirigi-me para lá. 

- Um jornal - pedi. Rodou o pescoço e piscou os olhinhos. 

- Sim, mister. Qual? 

- Qualquer serve, desde que seja escrito em inglês. 

-  Sim,  mister,  Li  Wong  tem  o  South  China  Morning  Pôst,  o  Hong-Kong 

“Tiger” Standard, o Sunday Post-Herald e o New York Herald Tribune - recitou. 

- Okay. Dê-me um de cada.  

Entregou-me os quatro exemplares, e em troca dei-lhe uma nota. 

- Guarde o troco. 

O  rosto  pareceu  de  repente  ter  sido  interiormente  iluminado  por  uma 

lâmpada de cem velas. 

-  Sim,  mister,  obrigado,  mister,  não  quer  mais?  Li  Wong  tem  revistas, 

mulheres nuas, fotografias, tudo, vai gostar, tem chinesas e brancas, tem tudo sem 

nada  em  cima,  preto  e  branco  e  cores  bonitas,  barato,  está  escondido,  polícia  não 

gosta, Li Wong tem... 

Podia  ainda  ouvi-lo,  a  dez  metros.  O  relógio  enorme  da  estação  marcava 

nove e quinze. Havia mais gente no cais, e eu comecei a dirigir-me para a carruagem 

de 1.ª classe. As outras apinhavam-se de multidão ruidosa carregando cestos, sacos, 

embrulhos  e  filhos.  Recusei-me  entregar  a  maleta  ao  empregado  de  farda  branca. 

Polidamente, inquiriu: 

- É tudo, sir?  

Fiz sinal que sim, e para o contentar entreguei-lhe o bilhete. Foi conduzir-me 

ao  compartimento  três.  Depositei-lhe  uma  nota  na  mão  -  é  assim  que  os  ricaços 

procedem - e ele agradeceu com uma vénia e saiu. Escolhi o lugar do lado da janela, 

orientado no sentido da máquina, coloquei com cuidado a mala encostada à parede, 

sobre o estofo, sentei-me e pousei os jornais sobre os joelhos. 

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- Bom dia, Mister Chasey! Dá-me licença?  

Desviei o olhar para a entrada do compartimento. Ali especado, mala na mão 

e um sorriso largo a distender-lhe o bigode à galã, estava o tipo que havia falado. E 

quem  havia  de  ser,  senão  o  parceiro  com  quem  já  havia  topado  duas  vezes  na 

véspera  e  do  qual  não  podia  gramar  nem  o  cheiro  da  brilhantina!  Não  consegui 

disfarçar o meu desagrado. Acho até que nem tentei. 

-  Entre  e  sente-se.  Pode  até  deitar-se,  se  entender!  No  fim  de  contas  o 

compartimento tem seis lugares, não é? 

Não perdeu o sorriso. Dir-se-ia que o fixara com fita gomada. Entrou, atirou 

com a mala de pele branca para cima da rede e deixou-se cair no lugar fronteiro ao 

meu. 

- Lindo dia para viajar, hem? 

- É verdade - disse eu. - E como é que sabe o meu nome? 

Esclareceu, com o ar mais natural do mundo: 

- Perguntei no hotel. Simples, não é? 

-  Muito  simples  -  confirmei.  -  Mas  já  agora,  se  não  me  leva  a  mal  esta 

impertinência da minha parte, posso saber por que razão “perguntou no hotel”? 

- Simples curiosidade. Tudo simples. Este era um daqueles tipos para quem 

tudo é tão simples como uma parede pintada de cor-de-rosa. Eu estava a atingir um 

grau razoável de irritação. Mas contive-me o bastante para continuar. 

-  Simples,  não  é?  Você  costuma  bisbilhotar  a  vida  de  todas  as  pessoas  que 

encontra? Hong-Kong é uma grande cidade... 

A fiada de dentes brancos e alinhados brilhava tanto que eu se quisesse podia 

ver neles reflectidos os meus. 

- Um cigarro? Estendia-me um maço de uma marca qualquer. 

- Não, obrigado. 

-  Como  queira  -  retorquiu,  sem  perder  um  milímetro  sequer  aquele  sorriso 

enervante.  Extraiu um  da marca ordinária que fumava, e eu entalei igualmente um 

dos meus entre os dentes. 

- Tem lume, por favor?  

Seria que aquele sujeito não tinha três cêntimos para comprar uma caixa de 

fósforos? Apontei-lhe o Dunhill aceso, e se o isqueiro fosse uma arma decerto teria 

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disparado. 

- Obrigado, Mister Chasey. O meu apelido é Fernandes. 

Talvez já só possuísse apelido, e o nome próprio tivesse sido gasto no meio 

de tanta conversa. 

Ouviu-se  nesse  instante  o  apito  do  comboio  e  passados  momentos  a 

composição punha-se em marcha. 

-  É  espanhol,  Fernandes?  -  inquiri  distraidamente.  Olhou-me  de  tal  forma 

que pensei que tivesse dito alguma asneira. Ele porém limitou-se a explicar: 

-  Não,  Mister  Chasey,  não  sou  espanhol.  Fernandes  é  nome  português.  Eu 

sou português. De Macau. Também vai para Cantão? 

Tive um ligeiro sobressalto. 

- “Também”? Porquê, vai para lá? 

- Acertou. - E sempre sorrindo: - Negócios... E você? 

Repuxei  os  músculos,  forçando  um  sorriso  tão  grande  que  me  deve  ter 

deixado todos os dentes à mostra. 

- Negócios...  

Por agora, a conversa ficou por ali. Apenas me levantei para abrir a janela, a 

ver se o cheiro horrível do tabaco do senhor Fernandes me incomodava um pouco 

menos. Agarrei em seguida um jornal, ao acaso, e comecei a ler. 

Claro que de vez em quando o senhor Fernandes tentava engatar conversa, 

mas ao ver que não pegava só lhe restava acender outro cigarro e olhar para fora. 

Não  tinha  muito  que  ver.  Após  a  saída  da  cidade,  delimitada 

convencionalmente em Boundary Street, o comboio atravessara o túnel que perfura 

as  colinas  de  Kowloon,  já  nos  chamados  Novos  Territórios.  O  túnel  desemboca 

numa pequena planície de solo barrento, e à parte uma ou outra aldeia não há nada 

para onde olhar, a não ser as montanhas Taimoshan do lado esquerdo, até longe, ou 

ocasionalmente, ao longo das baías de Tide Cove e Tolo Harbour, que constituem 

uma extensa reentrância, alguma vila de pescadores. A última, e mais importante, em 

que paramos, informou-me o meu companheiro de viagem chamar-se Tai-Po, e eu 

agradeci e registei. 

Depois  o  Fernandes  sacou  de  baixo  da  camisa  de  flores  um  jornal  que 

decerto  trazia  entalado  no  cós  das  calças  cinzentas.  O  jornal  tinha  um  nome 

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engraçado,  Wah  Kiu  Yat  Pão,  e  era  escrito  em  chinês.  Já  me  tinham  falado  neste 

diário como sendo o de maior expansão no território. 

E com o senhor Fernandes a ler atentamente o jornal dele, e eu a passar uma 

vista de olhos pelo Tribune da véspera, os minutos foram passando tão lentos como 

lento era o andamento do comboio. 

- Eh, Chasey... Chasey!  

Abri um olho, e depois o outro. 

- Que é, desta vez? 

- Chegamos.  

- Aonde? 

- Lo-Wu. Estamos na fronteira. Não vê?  

Olhei  pela  janela  e  o  que  vi  foi  apenas  um  pequeno  aglomerado  de  casas, 

para  lá  do  pequeno  edifício  da  estação.  No  cais,  onde  o  comboio  se  imobilizara, 

havia muita gente, e aqui e ali guardas com farda inglesa, camisa e calções amarelos e 

quépi preto. 

- Vamos andando:  

Dobrei  os  jornais,  agarrei  na  mala  e  saí  atrás  dele.  Na  fachada  da  estação 

havia uma porta que dizia “Alfândega”. A bicha chegava cá fora. Procurei ficar atrás 

de  Fernandes,  a  fim  de  que  ele  não  assistisse  à  possível  conversa  que  o  oficial 

britânico iria ter comigo lá dentro. “E mesmo assim”, reflecti, “basta só que o amigo 

Fernandes grite o meu nome para eu ficar arrumado.” Porque para todos os efeitos 

eu era agora Joe Coslow, e por aqui só já podem compreender o que eu sentia em 

relação a este português intrometido. 

A  bicha  tinha,  em  cinco  minutos,  avançado  cerca  de  cinco  centímetros 

quando  um  dos  tais  guardas  da  polícia  inglesa,  um  chinês  de  cara  esperta,  se 

aproximou de nós e nos disse para o seguirmos. 

Fomos,  eu  e  o  Fernandes,  atrás  dele,  e  entrámos  numa  outra  sala  onde  a 

mobília era uma secretária, cadeiras, um oficial sentado e um sargento de pé. Depois 

de  nós  entraram  mais  dois  europeus,  possivelmente  ingleses.  Tratava-se  de  um 

velhote  aprumado,  que  devia  ter  combatido  na  índia  ao  lado  de  Churchill,  e  uma 

linda rapariga loira, muito branca, que era por certo neta dele, por ser nova de mais 

para ser a filha. 

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Não  houve  problemas  com  o  oficial  da  inspecção.  Nem  com  o  Fernandes. 

Este  seguiu  primeiro,  e  dois  minutos  depois  estava  despachado  e  saiu  sorrindo, 

enquanto o chinês fazia sinal para eu avançar. 

A pega da mala dava-me a sensação de escorregar por entre os dedos suados,. 

e os papéis que seguiam no bolso interior do fato pareciam afectar bastante a zona 

do coração. Adiantei-me até à secretária, cumprimentei e estendi a papelada. 

- Mister Joe Coslow? - interrogou.  

Anui. Consultou o resto dos documentos, estudando-os atentamente. Subiu 

novamente o rosto bronzeado para mim. 

- Quanto tempo calcula que demorará a transacção, sir?  

- Julgo que poderei regressar amanhã. A menos que surja algum contratempo 

desagradável - acrescentei. 

-  Muito  bem  -  disse,  devolvendo-me  os  papéis.  -  Não  tenho  objecções  a 

fazer. Desejo-lhe um resto de viagem agradável. 

Agradeci, e dei-me pressa em guardar tudo no sobrescrito e sair. Não muita 

pressa,  porém,  porque  estes  polícias  são  desconfiados.  No  caminho  para  a  porta 

encontrei-me com o velhote e a rapariga ingleses. Fiz um ligeiro cumprimento com 

a  cabeça  e  ambos  corresponderam,  a  rapariga  com  um  sorriso  dissimulado.  Bem 

bonita que ela era. 

Lá fora o Fernandes aguardava-me, de cigarro ao canto da boca. 

- Tudo bem?  

- Tudo okay - retorqui.  

Andei, ao lado dele. 

- Prepare-se para uma longa caminhada, amigo avisou. 

- Longa? Não temos apenas de atravessar a ponte?  

- Pois é, Chasey... São quase dois quilómetros a pé, até ao outro lado do rio 

Shumshum... Os alaranjados são assim, amigo... A cortina de bambu atravessa-se a 

pé, e tem de se trabalhar bem para o conseguir. 

Havia algo que não me entrava no ouvido. 

- “Alaranjados”, disse você? 

- Exactamente, Chasey. Amarelo mais vermelho dá laranja, não é assim? 

- Muito engraçado, amigo Fernandes - comentei, desgostado. 

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O rio Shumshum delimita a fronteira com a China, e tal como bem afirmara 

o tipo que seguia ao meu lado, era uma fronteira bem larga. Fomos  marchando, a 

toque  de  caixa,  metidos  na  longa  fila  de  gente  que  atravessava  a  ponte.  À  nossa 

frente podia já distinguir-se nitidamente o território da China, e só esse facto tirava 

toda a vontade de responder aos comentários de Fernandes. Porque a passagem de 

Lo-Wu  fora  um  obstáculo  bem  pequeno  comparado  com  o  que  me  aguardava  do 

outro  lado  do  rio,  no  posto  fronteiriço  de  Shumshum.  “Tudo  vai  correr  bem, 

Chasey...  Tudo  vai  correr  bem...”  E  é  mau  sinal  quando  estribilhos  como  este 

martelam na minha cabeça. 

Afinal,  as  coisas  que  aconteceram  daquela  ponte  para  diante,  e  dentro  da 

hora  seguinte,  excederam  tudo  o  que  eu  admitira  que  poderia  suceder.  Sobretudo, 

foram diferentes. 

-    Por  que  será  que  estes  gajos  têm  todos  cara  de  diarréia?  -  segredava-me 

Fernandes, depois de termos sido interrogados e enquanto éramos escoltados até à 

carruagem do comboio que nos transportaria até Cantão. 

A inspecção não fora fácil, claro que não, e eu suara um mau bocado diante 

do oficial chinês que ora falava secamente para mim num mau inglês, ora se dirigia a 

dois  parceiros  igualmente  fardados  que  o  ladeavam  cuspindo  sons  guturais.  Os 

papéis foram-me vistos e revistos, a mala aberta, o dinheiro contado, e o interior tão 

esquadrinhado como se tivessem receio que eu levasse ali dentro o vírus de alguma 

terrível doença ocidental. Mas passou. 

O  primeiro  episódio  inesperado  aconteceu  quando  Fernandes  se  adiantou 

depois de mim para ser inspeccionado. Eu virava costas, e já ia sair, quando ouvi a 

primeira pergunta que lhe fizeram: 

- Viaja com o Sr. Coslow?  

Todos os músculos do meu corpo deixaram de responder, eu imobilizei-me e 

queria andar mas não podia. Mas a resposta de Fernandes veio pronta. 

- Sim, chefe. Somos amigos. Porquê? Há novidade? 

O chinês retorquiu agrestamente que não, o sangue voltou a circular-me nas 

veias e eu continuei a andar para a saída, onde fiquei aguardando a vinda dele. 

Quando surgiu, o sorriso brilhante estampado no rosto moreno, o seu único 

comentário foi aquele que já referi. Respondi, sorrindo também. 

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-  Talvez  seja  do  arroz...  amigo  Fernandes.  Notei  um  brilho  agradável  nos 

olhos negros, quando os fixou por segundos nos meus. 

Um quarto de hora depois, já devidamente instalados no compartimento de 

1.ª classe da carruagem de mau aspecto dos Caminhos de Ferro Nacionais Chineses, 

Fernándes sugeriu: 

-  Chasey,  não  seria  melhor  levarmos  qualquer  coisa  para  comer  pelo 

caminho? 

Assenti da melhor vontade.  

- Óptimo. Mas... como conseguiremos arranjar isso?  

- Existe na estação um  restaurante... enfim, uma tasca. Podem preparar-nos 

comida para a viagem. No fim de contas, o comboio não parte antes do meio-dia e 

meia, e poderemos inclusivamente comer lá. 

-  Vamos  a  isso  -  respondi,  e  levantámo-nos.  Foi  então  que  o  segundo 

acontecimento  inesperado  teve  lugar.  Vi,aquela  rapariga  entrar  por  uma  porta 

pequena,  ao  lado  da  sala  onde  eu  fora  interrogado.  E  não  sei  o  que  se  passou 

comigo,  mas  o  que  foi  fez-me  apertar  com  força  o  braço  de  Fernandes,  gritar-lhe 

“Espere  aí!”  e  precipitar-me  correndo  para  a  porta  por  onde  a  rapariga  chinesa 

desaparecera. 

Estaquei  logo  depois  de  passada  a  ombreira.  A  rapariga  estava  lá,  na  sala 

escura.  Conversava  com  um  polícia  chinês.  Olharam-me  ambos,  e  eu  ali  parado, 

com  a  respiração  suspensa.  Andei  dois  passos  e  parei  de  novo.  Eles  não  diziam 

nada. Limitavam-se a olhar, como se não percebessem. Sobretudo ela. Como se não 

me conhecesse. Mas isso não era verdade. 

- Mae - disse eu.  

- Como estás?  

Ela não respondeu. Fitava-me, apenas. 

- Mae... não me digas que não te lembras de mim! 

O chinês falou para ela, emitindo aqueles sons guturais. Ela falou depois, na 

mesma língua. O homem avançou seguidamente para mim. 

- Que quer? - inquiriu de mau modo, em inglês. 

- Falar com ela.  

- Ela não o conhece. Vá-se embora.  

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Não me conhecia? Mae Leung não se lembrava de mim? Ou eu estava doido? 

- Mae - chamei, diminuindo a distância que nos separava. 

Ela recuou, e o chinês segurou-me com força. 

- Vá-se embora. Ou quer arranjar sarilho?  

Encarei-o  com  fúria,  desprendi-me,  olhei  outra  vez  para  ela,  e  acabei  por 

voltar  as  costas  e  sair.  Não  me  dei  conta  sequer  de  que  Fernandes  vinha  ao  meu 

encontro,  e  lembro-me  só  de,  quando  me  perguntou  o  que  sucedera,  lhe  ter 

respondido que não fora nada. 

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CAPÍTULO IX 

 

Chegamos  a  Cantão  às  três  e  meia  da  tarde.  Foi  o  termo  da  etapa  de  três 

horas que se iniciara em Shumshum. A lembrança do episódio da estação fora aos 

poucos ligeiramente amenizada pela conversa do meu parceiro, mas o mal-estar que 

a cena me havia provocado não ia desaparecer tão cedo. É certo que eu acabara por 

concluir que não podia de facto ser Mae Leung a rapariga do posto fronteiriço, mas 

a verdade é que o meu espírito aceitara tal solução com relutância. 

O  buraco  que  eu  trazia  dentro  do  estômago  era  bem  grande,  e  isso  como 

consequência  do  facto  de  não  ter  comido  quase  nada.  Ainda  por  cima  os  meus 

cigarros  haviam  acabado,  de  modo  que  eu  fora  forçado  a  aceitar  a  oferta  de 

Fernandes e a fumar aquele tabaco horrível que sabia a alcatrão. 

Enfim,  a  minha  forma  não  era  das  melhores  quando  nos  apeámos  da 

carruagem.  Fernandes,  pelo  contrário,  continuava  igual  a  si  mesmo,  conversando 

animadamente,  rindo  e  comentando  com  piada  cada  pormenor.  Julgo  que 

compreendera o meu estado de espírito, e o que quer que eu pensara a seu respeito, 

antes de travar conhecimento com ele, a minha opinião alterara-se de forma notória. 

- Bem, Chasey - disse ele. - Você tem para onde ir, não é verdade? 

- Sim - respondi. - Ficarei cá pouco tempo. E você? 

-  Devo  regressar  amanhã.  Entretanto,  vou  instalar-me  no  Shangai.  Gostaria 

que aparecesse. 

- Não sei ... Talvez. 

- Bom, seja como for, se não puder encontrar-se comigo, lá nos veremos em 

Hong-Kong. Foi um prazer viajar na sua companhia, amigo. Mas precisa melhorar 

essa disposição! - aconselhou. E estendeu-me a mão. 

 -Obrigado  por  tudo,  Fernandes  -  retorqui.  -  E  seja  como  diz...  aqui  ou  lá, 

terei muito gosto em voltar a vê-lo... - e acrescentei: - Espero nessa altura sentir-me 

melhor do que estou hoje. 

Apertamos  as  mãos,  ele  dirigiu-me  um  último  sorriso,  daqueles  que  lhe 

deixavam as duas fiadas de dentes à mostra, e afastou-se. Ainda me acenou com um 

braço  quando  já  ia  distanciado,  entre  a  massa  de  gente  que  se  canalizava  para  as 

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saídas. 

Fiquei ali. Mais só, ainda. Apenas por um minuto. Porque alguém me tocou 

de leve num braço, e eu ouvi soprar: 

- Mister Coslow ... 

O  homem  tinha  a  minha  altura,  o  rosto  era  seco  e  chupado  e  as  orelhas 

pareciam  dois  abanos.  Era  chinês  e  estava  enfiado  num  fato  branco  que  fora 

comprado para um tipo com o dobro da largura dele. 

- Sim, o meu nome é Coslow. Você deve ser Ying Fai. 

- Exactamente. Não foi fácil localizá-lo, Mister Coslow... 

Arrastava  as  palavras,  separando  demasiado  as  sílabas.  Cumprimentou-me 

com um aperto de mão impessoal e uma ligeira inclinação do tronco. 

-Podemos ir?  

A rua fronteira à estação regurgitava. O meu comité de recepção conduziu-

me  a  um  carro  negro  estacionado  próximo.  O  automóvel  era  enorme,  antigo,  de 

marca para mim desconhecida. O homem deu a volta, instalou-se atrás do volante e 

destravou o trinco da porta para eu poder entrar. Arrancamos aos esticões e fomos 

entalar-nos no tráfego intenso. 

- Dificuldades? 

- Não - disse-lhe. - Tem aí cigarros? Abriu o porta-luvas e tirou um maço já 

aberto. 

- Sirva-se. Puxei de um e acendi-o com o isqueiro. O tabaco não era nada por 

aí além, mas sempre era preferível ao de Fernandes. Expeli uma baforada. 

- É você quem me vai fornecer as informações, ou a sua função é somente 

conduzir-me ao chefe? 

- Ambas as coisas - esclareceu. - Sou agente de ligação entre Cantão e Hong-

Kong. Era-o pelo menos até agora - emendou. - A partir de amanhã, com a partida 

da nossa ama, tudo ficará liquidado. 

- Uma mulher? - surpreendi-me. - Quem é? 

- Conhecê-la-á, na devida altura. De resto, de nada lhe interessa saber quem 

seja.  A  sua  missão  é  apenas  velar  pela  sua  segurança  até  Hong-Kong.  Isso  é  que 

importa,  Mister  Coslow.  Quanto  aos  pormenores  que  lhe  poderão  ser  necessários, 

esclarecê-lo-emos dentro em pouco. 

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Calou-se,  dando-me  a  entender  que  não  adiantaria  mais  nada.  Eu  também 

não abri mais a boca, a não ser para chupar o cigarro. 

O  percurso  que  seguimos  foi  tão  tortuoso  e  complicado  que  mesmo 

prestando  atenção  às  ruas  ser-me~ia  impossível  encontrar  o  caminho  para  voltar 

para trás. No quarto de hora mais próximo o carro dobrou dezenas de esquinas, ora 

à esquerda, ora à direita, e às tantas eu tinha a impressão de que já passáramos por 

ali.  Resolvi  recostar-me  no  assento,  fechar  os  olhos  e  deixar-me  ir.  Sentia-me 

maçado, animado apenas pela expectativa do que viria a seguir. 

Devo ter passado pelo sono, porque quando descerrei as pálpebras notei que 

havíamos deixado o centro da cidade e que já começara a escurecer. Tentei baixar o 

vidro  da  janela,  mas  verifiquei  que  estava  empenado,  pois  a  partir  de  meia  altura 

recusou-se a descer mais. O ar tornara-se pesado, e não demorou muito que grossos 

pingos de chuva começassem a cair e a entrar pelo espaço aberto. Voltei a subir o 

vidro.  O  carro  tomou  por  uma  rua  larga  marginada  à  direita  por  uma  longa  zona 

densamente  arborizada,  e  de  outro  lado  por  longa  fiada  de  prédios  de  aspecto 

sombrio. 

Percorrida uma centena de metros, o condutor rodou rapidamente o volante 

para  a  esquerda  e  foi  estacionar  com  uma  travagem  brusca  defronte  de  um  dos 

edifícios,  que  eu  não  saberia  nunca  como  se  distinguia  dos  outros,  porque  eram 

todos  iguais  e  não  possuíam  qualquer  numeração.  Deu-me  a  indicação  de  que 

tínhamos chegado. Abriu a porta, saiu para o pavimento molhado e eu imitei-o. A 

chuva cessara. Subi atrás dele os degraus até à porta maciça, do topo da qual, saindo 

por  um  orifício,  pendia  um  arame  grosso  terminado  em  argola.  Ele  enfiou  aí  os 

dedos  e  puxou  com  tamanho  entusiasmo  que  me  surpreendi  com  o  facto  de  o 

objecto não lhe ter ficado na mão. 

Do interior chegou até nós o som da campainha, e tive a certeza absoluta de 

que a vizinhança ficaria sabendo que havia visitas. Quem veio abrir foi uma velhinha 

encarquilhada.  Se  ela  tinha  boca,  e  olhos,  e  nariz,  era  tudo  tão  miudinho  que 

ninguém o poderia afirmar de repente. Pela minha parte começava a interrogar-me 

por  que  razão  as  por  tas  estranhas  me  eram  sempre  abertas  por  bichinhos  assim. 

Logo  que  nos  viu  alargou  mais  a  abertura,  não  muito,  apenas  o  suficiente  para 

podermos  esgueirar-nos  para  dentro.  A  divisão  da  entrada  era  pequena,  arranjada 

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com requinte, e percebia-se logo que o sítio pertencia a pessoa de bom gosto e que 

tinha dinheiro para  o satisfazer. Sem exageros, porém.  A única particularidade que 

observei com curiosidade foi que a luz provinha, por processo indirecto, da junção 

das paredes forradas de papel de tons agradáveis com o tecto de tábua de bambu. 

A velhinha trocou animadamente com Ying Fai algumas palavras numa voz 

cacarejante,  e  do  que  disseram  só  consegui  apanhar  o  nome  Coslow.  Quando 

terminaram ela veio até mim e, dobrando-se até quase bater com a cabeça no chão, 

murmurou  algo  de  forma  quase  imperceptível  e  de  que  não  percebi  patavina,  mas 

que  tomei  como  saudação  respeitosa.  O  chinês  confirmou  a  minha  impressão, 

explicando-me: 

- Apresenta-lhe as boas-vindas e está-lhe muito grata por ter vindo para levar 

a nossa ama a lugar seguro. 

Correspondi dobrando a espinha o mais que pude. Ying Fai convidou então: 

- Queira acompanhar-me, Mister Coslow.  

Segui-lhes os passos ao longo do corredor que se abria em  frente, ao fundo 

da  saleta.  O  corredor  era  comprido,  atapetado  por  uma  passadeira  macia  e 

iluminado por pequenas lanternas colocadas de um e outro lado da parede, à altura 

das  nossas  cabeças  e  afastadas  uns  cinco  metros.  Fartámo-nos  de  andar.  Não 

exagero se garantir que a rua tinha pelo menos sessenta metros de comprido. Numa 

reentrância da parede estava arrumada uma mesinha de rodas com algumas garrafas 

e  copos  na  parte  inferior.  Devia  tratar-se  do  posto  de  reabastecimento  para  os 

caminhantes cansados. 

Chegamos por fim. O salão era de tal forma grandioso que bastou olhar em 

volta  para  me  tornar  mais  pequeno.  Aquilo  que  os  meus  olhos  contemplavam  era 

talvez um dos últimos redutos do esplendor da China antiga, como nós a sonhamos 

quando  aos  dez  anos  lemos  histórias  fabulosas  do  Império  do  Sol  Nascente.  Os 

móveis  esplêndidos,  as  tapeçarias,  os  lustres,  as  estatuetas  maravilhosas  de  laca  e 

jade,  o  aquário  gigantesco  que  abrangia  toda  uma  parede  majestosa,  onde  as  luzes 

estudadas  punham  reflexos  solares  na  água  de  tonalidade  azul  e  nos  magníficos 

peixes irisados de formas estranhas, tudo nos  transmitia a noção de irrealidade, de 

pesadelo que não desejamos que acabe. 

Mas  de  repente  tudo  se  diluiu.  As  tapeçarias,  as  estatuetas,  o  aquário  e  os 

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peixes, tudo isso passou a ser apenas invólucro bonito, mas sem importância, que se 

rasga, pois o que ele contém é só o que interessa. O resto desapareceu quando ela 

entrou. 

Não sei descrever o que senti. O coração bateu mais forte, mas o sangue não 

podia circular porque estava todo no cérebro, e as outras partes do corpo, depois de 

percorridas  por  aquele  fluxo  que  transmite  prazer  sensual  em  dose  tão  forte  que 

pouco se retém e quase tudo se perde, haviam ficado a flutuar. 

Veio andando até mim. Ou foi uma nuvem que me depositou de mansinho 

perto dela. Nos meus ouvidos entravam notas suaves de uma melodia oriental. 

- Como está, Mister Coslow? Coslow. Quem era? O meu nome era Chasey, 

mas Chasey não estava ali. 

- Mister Coslow... Que tem? Não sei. Sei lá o que tem o Coslow ... mas gosto 

dele. 

- O nome é bonito, dito assim... 

- Coslow! 

-  Sou  eu.  Coslow  sou  eu.  -  As  palavras  saíram-me  assim,  e  soaram  muito 

distantes. Porque perto de mim estava apenas a visão dos olhos negros, do rosto de 

escultura finíssima, emoldurado pelos cabelos sedosos, a reflectirem em tonalidades 

preciosas a luz que pairava sobre eles e deslizava em fios dourados pelo tecido que 

acariciava com volúpia o corpo deslumbrante. 

- Você não está bem, Coslow... Não sabe o que diz. Sente-se doente? 

As palavras vieram poisar-se-me no rosto, beijadas pelo perfume dos lábios 

sensuais  que  sorriam  levemente.  Fiz  um  esforço  muito  grande  para  conseguir 

pronunciar roucamente: 

- Não... não tenho nada. O meu nome é realmente Joe Coslow. Peço-lhe que 

me  perdoe  aquilo  de  há  pouco,  mas  creio  que  fui  acometido  por  uma  tontura. 

Possivelmente resultado do cansaço da viagem. Acho que já passou. 

Não  passara  nada.  Nem  se  iria  embora  assim  facilmente.  Para  começar,  eu 

não queria que fosse. É certo que recobrara a consciência, mas o efeito inicial nunca 

poderia  parar  de  exercer-se.  Nunca,  mesmo  muito  depois  de  ela  deixar  de  estar 

perto de mim. E ela continuava ali. 

- Talvez seja melhor sentar-se... 

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- Como? - disse eu. 

- Sente-se e descanse um pouco. Vou preparar-lhe uma bebida... 

-  Não...  por  favor,  não  me  arranje  bebida  nenhuma  -  quase  gritei.  E 

justifiquei-me: - Prefiro nestas circunstâncias não beber nada. Quanto a sentar-me, 

sim, minha senhora, acho que me vou sentar um bocadinho. 

Tive a percepção de que o meu ligeiro descontrolo a divertia um pouco. Não 

como  se  troçasse,  somente  achando  graça  à  questão.  Eu  não  encontrava  graça 

nenhuma, mas se ela achava que tinha, então é porque tinha mesmo, e eu forcei um 

sorriso  nervoso  e  sentei-me.  O  meu  corpo  enterrou-se  no  sofá  fofo.  Ela  ficou 

defronte, num cadeirão pesado de espaldar muito alto e dois braços terminados em 

cabeça humana esculpida. Estão a ver a cena. A rainha no trono e o cachorro recém-

vindo  da  América  repousando  no  sofá.  Mas  que  diabo,  eu  não  sou  tipo  de 

complexos! 

- Minha senhora, se não incomodo muito, seria possível mandar arranjar-me 

um cigarro? 

A  parte  inferior  do  vestido  subira  até  aos  joelhos.  As  pernas  eram 

maravilhosamente bem feitas, macias, de um leve tom bronze-dourado. E eu ficava 

mesmo em linha. 

- Que marca prefere?  

- Bem, eu fumo Crown, mas acho que...  

Evidentemente que ali não havia Crown. 

- ... mas serve outro ... americano, de preferência. Ergueu-se e caminhou até 

uma estante de mogno embutida na parede. Eu disse que “caminhou” para lá, mas 

não foi isso exactamente. Ela não caminhava, nem andava ... Movia-se, fazendo-se 

transportar  sobre  um  tapete  mágico  que  deslizava  no  vácuo,  e  o  movimento  das 

suas pernas, acompanhado pelo ondular do corpo de deusa, deixara rasto luminoso. 

Quando voltou, trazia algo na mão.  

- Aqui tem, Mister Coslow.  

Arregalei os olhos para o pacote de Crown e em seguida rasguei o invólucro, 

meti-o  ao  bolso  e  retirei  e  acendi  um  cigarro.  Pus  o  maço  sobre  o  braço  largo  do 

sofá, onde descobri que havia um pequeno cinzeiro de metal. 

- Vou dar ordens para lhe preparem o banho, Mister Coslow ... 

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Foi. Reflecti que era boa ideia, um banho. Refresca o corpo e as ideias. E eu 

bem necessitado estava de arejar os poros. Entretanto a minha imaginação andava à 

solta entre as espirais do fumo do cigarro. Que mulher! Majestosa, inacessível. Essa 

pelo menos era a impressão vincada que eu possuía. Como se uma corrente de alta 

voltagem a protegesse a cada instante da tentação dos mortais. Seria? 

Embora  lhe  não  tivesse  ouvido  os  passos,  pressenti  imediatamente  a  sua 

presença quando regressou à sala. Veio ocupar de novo o cadeirão pesado. 

- Dentro de minutos poderá subir ao quarto que lhe foi destinado para esta 

noite. Entretanto, podemos ir conversando. 

Traçou as pernas e eu desviei o olhar e pus-me a fitar uma florzinha lilás de 

alcatifa. 

- Julgo que Ying Fai lhe entregou a encomenda que trouxe de Hong-Kong... - 

falei. 

-  Sim.  Está  tudo  em  ordem,  Mister  Coslow.  Agora  pode  já  tomar 

conhecimento completo do objectico da sua viagem a Cantão. 

Os meus olhos encontraram-se com os dela. Resolvi brincar com o isqueiro, 

tentando desaparafusar com a unha a rosca da botija de gás. Ela começou. 

- Seguiremos viagem amanhã, no comboio que sai às sete e trinta e cinco. Wu 

Tchao tê-lo-á certamente posto de sobreaviso quanto ao perigo que a nossa saída de 

Cantão  envolve.  Vou  explicar-lhe  brevemente  porquê.  O  senhor  conhece  o 

conteúdo da  mala que transportou. Trata-se de cerca de um  milhão de dólares em 

notas falsas. Pois bem, esse dinheiro será aqui substituído, e de Cantão para .Hong-

Kong  a  maleta  passará  a  conter  exactamente  a  mesma  quantia,  mas  desta  vez  em 

notas  autênticas.  A  sua  justificação,  na  alfândega,  poderá  ou  não  ser  aceite. 

Acreditamos  que  haja  grandes  probabilidades  de  o  ser.  Vejamos  ...  Mister  Coslow, 

está a ouvir-me com atenção? 

- Sim, minha senhora - apressei-me a dizer, deixando escorregar o isqueiro na 

algibeira. 

Prosseguiu. 

-  Como  ia  dizendo,  Mister  Coslow,  a  transacção  que  a  sua  firma,  a  Hong-

Kong Electrical Industries Incorporated, pretendia efectuar com a Chinese National 

Electronics Entreprise, Ltd., deveria ser efectuada a dinheiro, porque a transferência 

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do  seu  banco  de  Hong-Kong  para  a  agência  do  People’s  Government  Bank  de 

Cantão demoraria pelo menos quatro dias, isto é, até sexta-feira, e o negócio tinha 

de estar concluído até hoje, dezanove. Esta foi a declaração que o senhor preencheu 

na fronteira, e que já deve ter sido confirmada. 

Cortou por momentos a explicação, enquanto tirava de uma caixa cilíndrica 

forrada  de  pele  um  cigarro  embrulhado  em  papel  amarelo.  Levantei-me  para  lho 

acender,  e  esse  contacto  instantâneo  da  minha  mão  com  a  dela  foi  suficiente  para 

me produzir um fluxo oscilante na espinha. Comecei a dizer: 

- Se é certo o que julgo ter percebido, a conclusão a tirar é que a justificação 

que tenho de dar aos funcionários do governo em Shumshum será que a transacção 

não se chegou a efectuar, pelo que regresso a Hong-Kong aviado como parti de lá. 

Surpreendeu-se, arqueando ligeiramente as sobrancelhas bem desenhadas. 

- Foi Wu Tchao quem lho disse? 

- Não, minha senhora, fui eu que inventei. 

O  sorriso  que  me  endereçou  soube-me  tão  bem  como  a  primeira  medalha 

que me deram na escola. 

- As minhas felicitações, Mister Coslow. 

-  Muito  obrigado  -  respondi.  -  É  exactamente  como  acaba  de...  “inventar”. 

Só falta agora acrescentar o motivo desse fracasso, e ele é bem simples: a Chinese 

National  Electronics  Entreprise,  Ltd.,  abriu  falência  esta  manhã.  A  comunicação 

sairá no jornal da noite. Tão simples como isto, Mister Coslow, e por isso resultará. 

Eu sabia agora tudo o que queria... por enquanto. Nesta altura veio da porta 

uma  voz  esganiçada,  que  reconheci  como  sendo  a  da  velha  que  me  apresentara  as 

boas-vindas. 

-  O  banho  está  pronto.  Pode  subir.  Tai  San  vai  conduzi-lo  ao  seu  quarto. 

Aguardo-o aqui em baixo dentro de três quartos de hora. 

O tom em que se me dirigia não era autoritário. Pretendia somente significar 

que daí a três quartos de hora eu devia descer, mesmo embrulhado na toalha. Ergui-

me, tive uma curta inclinação de cabeça, e fui na peugada da velha Tai San. 

Havia mudado de vestido, quando cheguei cá a baixo. 

O que lhe moldava agora o corpo era verde-escuro, coberto por pequeninas 

pedras cujos reflexos percorriam todas as tonalidades entre o verde, o azul e o roxo, 

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quando ela se movia. Uma fita no mesmo tecido passava-lhe sobre os cabelos, indo 

esconder-se  por  detrás  das  orelhas  delicadas.  Além  do  anel  de  esmeralda,  no  dedo 

médio  da  mão  direita,  não  usava  qualquer  outra  jóia  ou  artifício  de  maquilhagem. 

Nem  necessitava.  Na  minha  opinião,  prejudicaria  mesmo  o  efeito.  Tinha  entre  os 

dedos  uma  daqueles  cigarros  amarelos.  Pôs-se  em  pé  quando  entrei.  Fui  até  perto 

dela, como um prego atraído por um electroíman. 

- Permita-me que lhe diga que é muito bela - falei sem dar por isso. 

Sorriu.  Tenho  visto  mulheres  sorrir.  Para  mim,  inclusive.  O  sorriso  mais 

lindo que encontrara havia sido o de Vikki. Este, fazia que eu não pudesse lembrar-

me de como Vikki sorria. 

- Agradeço-lhe o galanteio - disse-me. - E confesso mesmo que me agradou, 

porque não é esse o gênero de elogios que os homens americanos costumam dirigir 

às mulheres. Eles preferem... como se diz... ? 

- Piropos? 

- Sim. 

- Como sabe? Riu, pela primeira vez. Decidi que faria os possíveis para que 

isso acontecesse mais vezes. 

-  Mister  Coslow,  não  me  imagine  uma  mulher  solitária  que  passou  a  vida 

encerrada neste casarão... Fui educada em Inglaterra até aos dezasseis anos. Viajei ... 

e leio muito. Isto elucida-o? 

- Perfeitamente.  

Esmagou  a  ponta  do  cigarro  no  cinzeiro  e  deu-me  a  entender  que  íamos 

deixar o salão. No corredor deteve-se, para me explicar: 

-  Vamos  sair,  Coslow.  Tenciono  apresentar  pessoalmente  as  despedidas  a 

uma grande amiga minha que vive aqui em Cantão. Possui uma pequeno restaurante 

na  cidade  e  pretendia  vir  aqui  esta  noite.  Não  julguei  no  entanto  que  tal  fosse 

conveniente, pelo que iremos nós lá. Aproveitaremos para jantar, visto que deve ter 

almoçado bastante mal, não? 

-  Muito  bem  -  respondi,  absolutamente  entusiasmado.  “O  diabo  é  este 

corredor” - pensei. - “Mas na companhia dela nem vou dar por isso.” Enganei-me, 

porém,  porque  nós  não  seguimos  por  onde  eu  viera  mas  sim  para  o  lado  oposto, 

onde o tal corredor terminava num átrio de colunas de mármore e chão ladrilhado 

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de  preto  e  branco.  Eu  segui-a  satisfeito  da  vida,  sentindo-me  em  plena  forma.  A 

porta devia ter uns três metros de altura e a parte superior era formada por vitrais 

verdes e vermelhos compondo um desenho curioso. 

- Quer ajudar-me a vestir o casaco? - pediu.  

Estávamos  perto  da  sala,  ela  segurando  o  casaco  leve  a  condizer  com  o 

vestido.  Reparei  que  tinha  os  pés  pousados  num  dos  quadrados  pretos.  Tive  de  a 

contornar  de  modo  a  poder  ajudá-la,  e  enquanto  o  fazia  ocorreu-me 

momentaneamente  uma  daquelas  ideias  brincalhonas  que  nos  assaltam  quando 

estamos  bem  dispostos,  e  que  me  fez  murmurar  irreflectidamente  qualquer  coisa 

como “o peão come a rainha”. 

-  Mister  Coslow...  Foi  o  tom  de  censura  afável  contido  nas  palavras  e  nos 

olhos que me fez tomar consciência do que dissera. 

-  Oli,  perdão,  miss...  -  desculpei-me  rapidamente,  e  apressei-me  a  ir  abrir  o 

trinco da porta. 

Roçou por mim ao sair e nessa altura acometeu-me uma vontade louca de a 

segurar e puxá-la bem forte de encontro ao meu corpo. O que fiz foi puxar a porta 

nas costas. 

Ying Fai esperava-nos junto do carro, naquele beco lateral. Abriu a porta da 

retaguarda,  fechou-a  logo  que  nos  instalamos  e  foi  tomar  o  seu  lugar  ao  volante, 

pondo o automóvel em andamento. 

- Gosto de música oriental, Coslow?  

- Sim, minha senhora - menti descaradamente. 

- Não me trate por “minha senhora”. E não precisa mentir dessa maneira - 

pronunciou, fingindo-se zangada. 

- Bom eu... - comecei, encabulado. 

-  Chamo-me  Pamela  Wong  -  e  acrescentou  logo,  adivinhando  por  certo  a 

minha surpresa: - A minha mãe era inglesa, e daí a razão por que possuo um nome 

europeu. Acha bonito? 

- Muito bonito - assenti, sinceramente. 

- Não estará a mentir outra vez? - inquiriu, fitando-me num jeito encantador 

de desconfiança. 

- Palavra que não, Pamela... Posso chamar-lhe assim? 

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- É esse o meu nome, não é? - disse com seriedade.  

- Sim, Pamela. Juro que acho bonito. E não gosto muito de música chinesa - 

confessei. 

Sorriu. 

-  Bem,  assim  já  é  melhor.  Fiz-lhe  aquela  pergunta  porque,  se  quisesse, 

poderíamos ouvi-la no local aonde vamos... 

Atalhei de pronto.  

-  Quero  ouvir  música  oriental,  Pamela.  Vou  chorar,  se  não  ouvir  música 

chinesa, percebe? E fico amuado toda a noite. Vamos ouvir música chinesa, okay? 

Soltou  uma  gargalhada  maravilhosa.  “Parabéns,  Chasey,  conseguiste  de 

novo!” 

- Okay, Coslow ... não precisa insistir mais - tranquilizou-me rindo. 

- O meu nome é Joe - disse-lhe baixo. - Está bem, Joe. “O meu nome é Al, 

Pamela. Al Chasey. E o Chasey está completamente louco por ti.” Olhei para fora, 

para que ela não visse como os meus olhos deviam brilhar no escuro. 

 

- Está  satisfeito, Joe? -  perguntou-me por sobre o candeeiro baixo, cuja luz 

era filtrada pelo abajur vermelho. 

-    Completamente.  Já  não  aguento  nem  mais  um  pedacinho  de  comida  - 

respondi,  embora  tivesse  passado  aquela  meia  hora  olhando  mais  para  ela  do  que 

para o prato. 

A  refeição  decorrera  naquela  mesinha  afastada  que  a  dona  da  casa  havia 

reservado para nós. Era uma chinesa gorducha, já de idade, os olhinhos e os lábios 

constantemente  repuxados  num  sorriso  imensamente  agradável,  e  toda  ela  era  a 

coisinha mais simpática que se me deparou em dias da minha vida. Passou  todo o 

tempo que durou o nosso jantar num permanente vaivém, a saber se estava bom, se 

gostávamos, se não queríamos mais, e depois ali ficava, as mãos fortes nas ancas, a 

mirar-nos  embevecida.  Acabara  de  se  retirar  quando  Pamela  se  me  dirigiu.  O 

restaurante  era  pequeno  e  discreto,  mas  bem  frequentado,  e  estava  repleto.  Ao 

centro  das  restantes  mesas,  dispostas  em  semicírculo,  havia  um  pequeno  espaço 

onde naquele momento três pares dançavam ao som da música oriental levemente 

estilizada  que  quatro  tocadores  executavam  no  palco  reduzido,  próximo  da  nossa 

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mesa. 

- É extremamente simpática, a sua amiga - comentei, acendendo um cigarro. 

-  Sim  -  disse  Pamela.  -  É  a  melhor  amiga  que  já  tive.  Penso  até  que  é  a 

principal  razão  por  que  terei  pena  de  me  ir  embora  -  concluiu,  com  um  pouco  de 

tristeza na VOZ. 

- Quer dançar? - perguntei de repente. 

- Quero.  

Deixei  o  cigarro  arder  no  cinzeiro  e  acompanhei-a  até  ao  meio  da  sala. 

Tomei-a  nos  braços  e,  antes  de  me  deixar  mergulhar  no  que  deviam  ser  -as  luzes 

estonteantes  do  paraíso  chinês,  tive  ocasião  de  reparar  que  todos  os  olhares 

convergiam para nós. A razão não era eu. 

Pamela não deixou que eu a puxasse para mim. Não me importei. O simples 

facto de a ter nos braços, os seus cabelos a roçarem-me a pele e o contacto do seu 

corpo  escaldante  eram  muito  mais  do  que  o  necessário  para  compensar  qualquer 

homem de cinco anos de trabalhos forçados. 

- Você é um homem estranho, Joe...  

Fitei-a. 

- Porquê? 

- Não sei, exactamente. Mas acho que... enfim, tenho a impressão de que está 

deslocado. Que não é o género de homem que costuma estar... trabalhar neste tipo 

de negócios. 

Pela maneira como falava, eu quase poderia afirmar que ela o lamentava. 

- E você, Pamela... também não é esse gênero de mulher...? 

Uma sombra fugaz deslizou-lhe pelos olhos brilhantes. 

- Joe... 

- Sim? 

- Por favor, não julgue apenas pelas aparências... está bem? 

Aproximei-a um bocadinho mais, de modo a poder dizer-lhe ao ouvido. 

-  Está  bem,  Pamela...  Pela  minha  parte,  pedir-lhe-ei  o  mesmo.  E  vamos 

esquecer isso, de acordo? 

O rosto precioso voltou a animar-se. 

- Okay...  

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A  música  suspendeu-se,  mas  teve  de  ser  ela  a  chamar-me  a  atenção  para  o 

facto.  Voltamos  para  a  mesa.  O  cigarro  estava  apagado  e  eu  acendi  outro. 

Contemplei o fumo, avermelhado sob o efeito da luz. “Que tens, Al? Que se passa? 

Nunca te sentiste desta maneira, rapaz... Estás apaixonado? Ela é linda, não é? Mas 

trata-se  de  um  sonho...  Não  o  esqueças...  apenas  um  sonho.”  Não,  não  podia  ser 

apenas um sonho. 

- Que tem, Joe? Parece-me preocupado...  

Estendi  a  mão  e  toquei  com  os  meus  dedos  os  dela.  Não  teve  qualquer 

reacção. 

- Não é nada, Pamela. Ou antes, é tudo. Você. Vamos dançar? 

Fomos. Desta vez foi diferente. Não posso explicar como aconteceu, mas sei 

que  os  meus  lábios  lhe  afloraram  a  face  aveludada,  que  ela  aceitou  o  beijo 

encostando depois o rosto ao meu, e que eu a apertei mais até os nossos ‘corpos se 

colarem completamente. Quando a música terminou regressámos à mesa. Voltamos 

a dançar depois, mais vezes, muitas vezes. Até que ela disse: 

- Joe ... Vamos embora. Temos de nos levantar cedo amanhã. 

Custou-me  muito  dizer  que  sim.  A  chinesinha  gorducha  veio  logo,  a 

despedir-se  de  nós,  e  após  ter-lhe  agradecido  todas  as  atenções  afastei-me 

discretamente  para  que  Pamela  e  a  amiga  ficassem  à  vontade.  Por  fim  vieram,  e  à 

porta,  com  o  rosto  molhado  de  lágrimas,  a  dona  da  casa  renovou  as  despedidas. 

Pamela beijou-a nas faces, e eu fiz o mesmo. Ficou a fazer adeus enquanto o carro 

se afastava, e nós correspondíamos pelo vidro traseiro. 

Eram onze e meia quando entrámos em casa, pela entrada do beco. Ying Fai 

seguiu no carro e foi Pamela quem abriu a porta porque, segundo me disse, a velha 

Tai San costumava  deitar-se muito  cedo  e as criadas já  se haviam despedido nessa 

manhã. 

Ajudei-a  a  despir  o  casaco  e  subimos  depois  as  escadas  para  o  primeiro 

andar. 

- Já sabe onde é o quarto, Joe?  

- Já - disse eu.  

- Bem... - trincou ao de leve o lábio inferior e os dentinhos muito brancos. 

- Pamela... - chamei, segurando-lhe as mãos. 

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- Joe...  

Apertei-a  com  todas  as  minhas  forças,  e  os  meus  lábios  procuraram 

furiosamente os dela. O beijo foi longo e escaldante. 

- Gosto de ti - murmurei-lhe depois, junto ao ouvido. 

- Também gosto de ti - sussurrou.  

Afastou-se, suavemente, os olhos mais brilhantes ainda, os lábios húmidos e 

o rosto levemente corado. 

- Até amanhã, Joe.  

Entrou  no  quarto.  Eu  fiquei  ali,  não  sei  quanto  tempo.  Andei  ao  longo  da 

balaustrada  até  à  porta  do  meu  quarto.  Estaquei,  com  a  mão  na  maçaneta.  Não 

cheguei  a  entrar.  Voltei  para  trás,  andando  depressa.  Bati  à  porta  do  quarto  de 

Pamela. 

- Sim?...  

- Sou eu... Joe.  

A porta entreabriu-se. Empurrei um pouco. 

- Joe... não... 

- Sim.  

Acabei  de  entrar.  Foi  ela  quem  passado  um  minuto  acabou  por  encostar  a 

porta. 

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CAPÍTULO X 

 

Apenas  Ying  Fai  nos  foi  acompanhar  de  manhã  cedo  à  estação.  Pamela 

envergava  um  fato  de  saia  e  casaco  de  linho  bege  que  lhe  ficava  tão  bem  como 

qualquer outro conjunto que vestisse. A malinha era de pele de cobra, e não usava 

qualquer  fita  no  cabelo.  Os  olhos  tinham  hoje  um  brilho  especial,  o  da  noite 

anterior, e as pálpebras apresentavam-se circundadas por ténues manchas violetas. A 

manhã estava bonita e o dia ia ser quente. Fomos ocupar o nosso compartimento, 

com o chinês adiante carregando as malas. Faltavam poucos minutos para a partida. 

Enquanto  Pamela  passava  um  pouco  de  pó-de-arroz  pelo  rosto,  Ying  Fai,  do 

corredor,  chamou-me  com  um  gesto.  Fui  ter  com  ele  e  segui-o  até  ao  extremo  da 

passagem. Aí, parou e virou-se para mim. Pronunciou num tom neutro: 

- Está tudo em ordem, Mister Coslow.  

Logo  a  seguir  os  traços  da  cara  seca  e  ossuda  movimentaram-se  e  o  rosto 

adquiriu outra expressão, menos dura. 

-  Mister Coslow... - arrancou. 

- Sim? 

- É acerca de...  

A  sua  atitude  era  de  hesitação,  insegurança,  e  isso  em  Ying  Fai  tornava-se 

quase incompreensível. Mas eu adivinhava as razões de tal mudança. Ajudei. 

-  Trata-se  de  Miss  Wong.  Okay,  sou  todo  ouvidos.  Assentiu,  chegou-se 

próximo, e começou a falar. 

- Mister Coslow, o senhor merece-me toda a confiança. Não pelo facto de ter 

sido mandado por “eles”... Mas é que nós, os chineses, aprendemos cedo a avaliar as 

pessoas  através  de  um  primeiro  contacto,  e  raramente  erramos.  Eu  posso  estar 

enganado, mas confio  na inspiração interior.  E por isso que até  certo ponto estou 

tranquilo e lhe entrego a nossa ama. Isto, no que diz respeito ao senhor. Quanto à 

devoção  que  ela,  a  minha  ama,  nos  merece,  não  será  preciso  dizer  mais  que  isto: 

qualquer  de  nós,  os  que  servimos  aqui,  estaria  disposto  a  dar  a  vida  por  ela  se  tal 

fosse  necessário.  Mas  agora  ela  fica  entregue  a  si.  E  é  a  si  que  eu  peço,  por  tudo: 

proteja-a  em  qualquer  provação,  Mister  Coslow.  E  se  o  fizer,  que  os  deuses  o 

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protejam, ao senhor. 

Os olhos, normalmente de um brilho mortiço, haviam adquirido, durante  o 

pequeno discurso, certa vida que só seria possível neles descortinar em circunstância 

muito especial. 

Limitei-me a pousar-lhe a mão sobre o chumaço do casaco, que lhe dançava 

sobre o ombro, e proferi: 

- Certo, Ying Fai. Acho que pode confiar em mim. Farei tudo o que puder. A 

sua ama chegará toda inteirinha ao outro lado. Ou então ficaremos ambos na banda 

de cá. 

A boca abriu-se-lhe, deixando à mostra as gengivas que seguravam os dentes 

gastos, e a mão direita veio de encontro à minha. 

-  Obrigado,  Mister  Coslow.  Agora,  se  dá  licença,  vou  prestar  as  últimas 

homenagens à minha ama. 

Rodou,  rumo  ao  compartimento  de  Pamela.  Eu  conservei-me  onde  estava. 

Acendi  um  cigarro,  afastando-me  para  dar  passagem  a  passageiros  que  entravam. 

Duas pessoas que tinham viajado desde Hong-Kong no mesmo comboio que eu - o 

velhote reformado que combatera na Índia e a neta amorosa de rosto de virgem. O 

primeiro cumprimentou serenamente e passou adiante com as malas, carregando-as 

corredor fora com os restos da agilidade dos bons tempos. Ela vinha depois, e a face 

ruborizou-se-lhe  intensamente  ao  sentir  a  minha  vista  percorrer-lhe  o  corpo.  Eu 

permanecia  indolentemente  encostado  à  entrada,  o  cigarro  pendente  do,  canto  da 

boca.  Ela  deteve-se,  distante  vinte  centímetros.  Durou  alguns  segundos  apenas. 

Muita coisa no entanto eu soube em tão pouco tempo. O lábio inferior tremeu-lhe 

ligeiramente,  houve  um  estremecimento  quase  imperceptível  em  todo  o  seu  corpo 

que  se  manifestou  com  mais  intensidade  no  movimento  dos  seios  pequenos  e 

redondos,  e  uma  mensagem  perpassou  fugazmente  nos  meigos  olhos  azuis. 

“Chasey”, disse eu para mim, “aqui está alguém que precisa de alguém.” 

A minha mão subiu lentamente até os dedos roçarem ao de leve a pele macia 

do rosto de anjo. As pestanas compridas baixaram um pouco para que eu não visse 

o  que  os  olhos  transmitiam,  mas  o  breve  contacto  da  mão  que  veio  tocar  o  meu 

pulso foi como lâmpada vermelha a avisar que aquilo era central atómica pronta a 

iniciar a contagem decrescente para descarga fulminante. 

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-  Viva,  meu  caro!  -  disse  a  voz  vinda  da  plataforma.  Torci  o  pescoço, 

agradavelmente surpreso. 

- Fernandes!  

- Dê um jeitinho, sim?  

A garota recuara  de um salto, desaparecendo  pelo corredor, e eu curvei-me 

de bom grado para funcionar como guindaste na elevação da mala grande pousada 

no degrau. Pesava tanto como a minha consciência naquele momento. 

- Venha um abraço, meu amigo ...! Os bons juntam-se de novo, não é? 

Apertou-me  as  costelas  com  gana,  e  eu  esforcei-me  por  não  ficar  em 

inferioridade. Quando consegui soltar-me, pronunciei vivamente: 

- Alegra-me que tivesse vindo, Fernandes. 

- Ena, rapaz! Vejo que você até acabou por simpatizar m bocado comigo...  

- Caramba, não foi assim tão difícil! - observei a rir. 

-  Uma  coisa,  amigo...  -  falou  com  entusiasmo,  e  acompanhou  com  uma 

piscadela -, aquilo que eu vi foi mesmo, ou estarei enganado? 

Aquele sorriso não se diluiria nunca? 

- Um caso pendente. Só isso - foi o que eu disse.  

- É, não é? Um bom pedaço, amigo Chasey... - e o bigodinho prolongou-se 

imenso para ambos os lados. 

- Você pertence ao gênero de tipo que não censura Eva por ser a culpada do 

pecado original, não é verdade, amigo Fernandes? 

- E você? 

- Gosto de maçãs - foi a minha resposta.  

- Assim verdes? - gargalhou. - Em que compartimento é que está? - inquiriu 

já a caminho. 

Projectei-me, e agarrei-o por um braço. 

- Ei, um momento...! As sobrancelhas arquearam-se-lhe ao reparar na minha 

expressão. 

- Chasey... não?! - pronunciou com solenidade.  

- Não, quê? Apontou receosamente o corredor. 

- Você não... 

- Raios, diga lá!  

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-  Não  vai...  quero  dizer...  aquela  garota.  Contive  a  custo  uma  explosão  de 

riso.  

- Não é nada disso, Fernandes. Trata-se somente de que viajo acompanhado, 

e ... 

- Aquela dama? - interrompeu de pronto. 

- Nada disso! Uma senhora... Quis avisá-lo. Compreende, não convém que se 

desçaia ... 

Forçou uma expressão séria. Pouco tempo, claro. Veio logo o distender dos 

lábios e do bigodinho, com os trinta e dois dentes à mostra. 

- Claro, Coslow! Nem precisava ter avisado  

Recomeçou a andar, e eu conduzi-o ao compartimento. 

- É aqui - disse-lhe, indicando a porta fechada, a que Ying Fai havia descido 

os estores interiores. 

Fernandes deitou a mão ao fecho . 

- Bom, amigo Coslow, sempre quero ver esse material. 

Correu a porta e deu um passo. E mais nada. O amigo Fernandes não estava 

ali, e aquilo era a estátua dele esculpida para perpetuar a sua pessoa. Porque o amigo 

Fernandes,  após  aquele  passo,  ficou  petrificado  como  o  Príncipe  Bonitão  ao  ser 

tocado  pela  varinha  traiçoeira  da  Fada  do  Bosque.  Ou  como  se  tivesse  sido 

submetido  instantaneamente  a  uma  temperatura  de  duzentos  graus  negativos.  A 

razão era óbvia. Pamela. 

Ying Fai vinha a sair e teve de se arrumar à ombreira para conseguir passar. 

Aparentemente  não  dera  pelo  que  ocorrera,  ou  pelo  menos  não  atribula  qualquer 

importância à situação. Curvou-se numa reverência ao chegar junto de mim. 

- Ying Fai vai deixá-los, Mister Coslow. Tudo está em ordem. A partir deste 

momento,  ela  fica  inteiramente  entregue  a  si.  Mas  há  ainda  uma  coisa  que  eu  lhe 

queria dizer - acrescentou, baixando o tom de voz. - Um agente nosso encontra-se 

em Shumshum, para o caso de haver “ novidade”... 

- Como o localizarei? 

-  Ele  encontrá-lo-á.  -  E  terminou:  -  Adeus,  Mister  Coslow.  Que  tudo  corra 

bem. 

Apertou-me rapidamente a mão e foi-se embora, as orelhas de abano dando 

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a  impressão  de  quase  roçarem  as  paredes  do  corredor  e  o  corpo  escanzelado  a 

dançar  dentro  do  fato  branco  .  Dirigi  a  minha  atenção  para  o  que  se  passava  no 

compartimento. Fernandes dizia: 

- Ehhh...  

Pamela olhava-o candidamente como uma criança a apreciar brinquedo novo 

na montra. E eu entrei e disse: 

-  Pamela,  este  é  Fernandes,  que  viajou  comigo  desde  Hong-Kong.  É 

português  e  veio  a  Cantão  tratar  de  negócios.  -  E  para  ele:  -  Miss  Pamela  Wong. 

Viaja comigo. 

Os  olhos  vidrados  deslocaram-se  um  pouco,  e  a  língua  moveu-se 

percorrendo o céu da boca escancarada. Pamela cumprimentou. 

- Muito prazer, Sr. Fernandes. 

- Não deve estranhar, Pamela, mas é que os negócios correram mal ao meu 

amigo, e em determinadas alturas, ao sofrer o mais ligeiro choque psicológico, ele é 

vítima de acentuada perturbação nervosa que se traduz numa paralisação temporária 

dos movimentos e da fala. Não é assim, Fernandes? 

A língua moveu-a para baixo e para cima, e podia verificar-se a tensão a que 

ficaram submetidas as cordas vocais à medida que as palavras iam sendo compostas 

e em seguida articuladas num esforço que me fez transpirar. 

- Sss ... Sim. É. 

- Miss Wong lembra-lhe a sua irmãzinha que emigrou há cinco anos para S. 

Paulo, Brasil, não é isso? 

- É - disse ele. - Posso ... sentar-me? 

Sentou-se. No lugar fronteiro ao dela, e ao fazê-lo deu-me a impressão de ter 

um  furúnculo  no  traseiro.  Tirei-lhe  o  jornal  de  baixo  do  braço  e  arrumei-lhe  a 

bagagem, após o que me arrumei também, ao lado de Pamela. Ela levantou-se para 

baixar a janela, a fim de dizer um último adeus a Ying Fai, que estava postado do 

lado de fora. Eu ajudei-a a puxar o vidro, o que coincidiu com o sinal da largada. Fiz 

um  gesto  ao  chinês.  Ele  respondeu  e  ficou  depois  a  acenar  a  Pamela,  o  enorme 

lenço amarelo que agitava tornando-se daí a pouco cada vez mais pequeno e o largo 

fato branco a confundir-se com o resto da paisagem amalgamada do cais. Só quando 

os últimos armazéns da estação passaram por nós Pamela voltou para dentro e me 

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pediu para fechar a janela. Como se pretendesse cortar as recordações, desligar-se o 

mais depressa possível do mundo em que vivera. A sua expressão traduzia tristeza e 

abatimento.  Procurou  desviar  o  fio  do  pensamento,  na  pergunta  que  dirigiu  ao 

nosso parceiro. 

- Sente-se melhor, Sr. Fernandes? Este não despegara os olhos, por um único 

segundo, da figura dela. E eu não gostava do que lia neles. Nem um pouco. Nada. 

mesmo. 

-  Sim,  minha  senhora...  -  falou  ele.  -  Já  estou  assim,  assim.  Espero  amanhã 

sentir-me melhor, e daqui a um mês encontrar-me completamente recuperado. 

Um  fiteiro  da  pior  espécie,  é  o  que  ele  era.  Claro  que  a  reacção  da  minha 

companheira  não  se  fez  esperar,  e  foi  exactamente  o  resultado  que  ele  pretendia 

obter, com o seu ar simulado de carneiro-mal-morto, este conquistador de uma figa! 

- Mas ... Sr. Fernandes, isso é assim tão prolongado?  

A resposta veio, com um suspiro melancólico. 

-  Infelizmente,  minha  senhora...  e  o  pior  é  que  não  está  nas  minhas  mãos 

evitá-lo. 

Grande pulha. Fiz uma tentativa para fazer lograr a encenação, ao chamar a 

atenção de Pamela para o sistema de carregamento da botija de gás do meu isqueiro, 

mas ela nem reparou, penalizada com o sofrimento atroz do energúmeno, e eu pus-

me  então  a  desatarrachar  a  rosca  com  o  indicador.  A  única  coisa  que  consegui  foi 

partir a unha. 

Entretanto, a história trágico-maritíma do Fernandes arrastava-se tocando as 

raias da tragicomédia. 

- Deverei então eu considerar-me um pouco responsável? - inquiriu Pamela, 

meio divertida já com aquele caso único de esquizofrenia. 

- Com o devido respeito, ouso dizer-lhe, minha querida senhora... 

Agora já metia mais uma palavrinha pelo meio.  

-  ...que  é  causa  única  do  complexo  avassalador  que  sofro  neste  momento. 

Acredita na paixão súbita, Miss Wong? 

Comecei  a  sentir  náuseas,  e  por  isso  me  levantei  para  ir  até  ao  corredor 

apanhar um pouco de ar fresco. 

- Vai visitar a sua amiguinha, Coslow?  

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A  insinuação  peçonhenta  mordeu-me  as  costas.  Ah,  Fernandes,  se  a  janela 

não estivesse fechada! 

-  Não  -  expeli  sem  me  virar.  -  Vou  mandar  parar  o  comboio,  para  vir  uma 

ambulância buscá-lo. 

E saí. Quando regressei, dez minutos depois, Pamela seguia interessadíssima 

o  relato  absorvente  de  como  um  tipo  de  apelido  Fernandes  atravessara  sozinho, 

num jipe em segunda mão e com um pneu rebentado, o continente africano, em luta 

permanente  e  titânica  contra  intempéries,  canibais  e  crocodilos  dos  pântanos  da 

Guiné. 

- Pois... - disse eu casualmente da entrada - , e o chefe da tribo ao descobrir 

que o Fernandes era aldrabão obrigou-o a casar com a macaca gigante da aldeia, e 

eles tiveram três filhos, que agora comem um cacho de bananas por dia no Jardim 

Zoológico de Lisboa. E... 

A  boca  fechou-se-lhe.  Hermeticamente.  E  ele  levantou-se,  devagar.  Depois 

sorriu. Trinta e dois dentes acertadinhos, num “até já” para Pamela. Eu segurei-me 

bem à ombreira e flecti um pouco as pernas. Precaução, somente. 

Mas  o  que  Fernandes  fez  foi  vir  até  mim,  dar-me  uma  palmadinha 

tranquilizadora no braço e cochichar ao meu ouvido. 

- Okay, amigo. Já percebi. Eu vou andando ... Qual é o compartimento? 

- Qual compartimento? 

- Ora... maçãs!  

Sorri-lhe de volta. 

- O segundo, depois deste. 

- Bom, bom ... até já. Eu vou andando.  

Observei-o até ele alcançar a outra porta. 

- Cá vou - disse ele, e entrou.  

Eu também. Para ir ter com Pamela. A sério ... eu simpatizava mesmo com o 

fulano. 

A viagem prosseguia penosamente, uma paragem aqui, outra ali, dando mais 

a impressão de se destinarem a descanso da máquina ofegante que ao carregamento 

de  passageiros.  O  dia  aquecera  mais  que  o  da  véspera,  e  o  tom  avermelhado  das 

terras barrentas que atravessávamos acentuara-se sob o bombardeamento dos raios 

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solares. 

O meu relógio marcava um quarto para a uma. Baixei mais o estore da janela. 

Duas moscas ficaram a zumbir nervosamente no espaço junto ao vidro. 

Pamela adormecera encostada a mim, com uma das minhas mãos presa entre 

as  dela,  e  a  fronte  levemente  humedecida  tocava-me  a  face.  O  peito  arfava 

docemente  ao  ritmo  da  respiração  tranquila.  Beijei  ao  de  leve  o  rosto  que  não  me 

cansara de contemplar, lembrando a cada minuto a noite inesquecível da véspera. 

Os  meus  olhos  caíram  por  acaso  no  jornal  deixado  por  Fernandes.  Havia 

escorregado por entre a junção do assento com o encosto e eu desentalei-o. Tratava-

se  do  Tiger  Standard  da  véspera.  Provavelmente  o  exemplar  que  eu  adquirira  na 

estação de Kowloon, ao embarcar. Percorri desinteressadamente a primeira página e 

fui passando devagar, com a mão livre, as folhas deitadas sobre o estofo. Nada que 

pudesse  prender  a  atenção,  a  não  ser  a  fotografia  de  uma  estrelinha  do  cinema 

japonês  sorrindo  para  mim,  de  dentro  de  um  fato  de  banho  cujas  dimensões 

estavam exactamente na razão inversa dos seus atributos físicos. Mas, ora, quem se 

ia deter na fotografia daquela beleza levando ali mesmo ao lado alguém que com um 

simples entreabrir de lábios pulverizaria qualquer modelo do mundo? 

Virei para a última página. Havia noticias encimadas por títulos de caixa alta. 

Mas a que fez  o  meu  braço distender-se, apanhar bruscamente o jornal e chegá-lo 

bem  perto  da  vista  turvada,  foram  meia  dúzia  de  linhas  das  “últimas  noticias”.  Li, 

sem  poder  compreender,  e  tornei  a  ler,  mais  uma,  duas  vezes.  E  às  tantas  eu  não 

podia já duvidar de que aquilo estava ali impresso com todas as letras, e de repente 

elas gravaram-se-me no cérebro como se impressas pelo granel de chumbo. 

Encontrada morta esta madrugada, num armazém abandonado da zona leste, 

entre  as  Ruas  O’Malley  e  Canal,  uma  mulher.  Os  documentos  encontrados 

revelaram  tratar-se  de  Miss  Rita  Grahame,  de  nacionalidade  inglesa,  naturalizada 

americana.  Investigações  rapidamente  efectuadas  pela  polícia,  cujos  resultados 

conseguimos  obter  às  seis  horas  desta  manhã,  permitiram  concluir  que  Miss 

Grahame se encontrava hospedada há cinco dias no Bay View Hotel, em Cameron 

Road. O capitão da divisão de Detectives, John D. McDermott, no rápido contacto 

telefónico que com ele tivemos, a essa hora, afirmou-nos tratar-se de assassínio. A 

morte  terá  sido  provocada  por  projéctil  perfurante  cravado  na  nuca.  A  arma  do 

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crime não foi encontrada. A polícia espera descobrir brevemente uma pista. 

Sim,  era  o  que  a  notícia  dizia,  e  não  devia  haver  engano.  Rita  Grahame. 

Morta.  O  zumbido  das  moscas  no  vidro  da    janela  parecia  ter  aumentado 

enormemente como se partisse mesmo de dentro dos meus ouvidos, e o conteúdo 

da minha cabeça pôs-se a rodopiar, até que eu não saberia exactamente dizer qual o 

sentido do andamento  da composição. Atirei  sobre o estofo o jornal  amachucado, 

desprendi-me com suavidade do contacto de Pamela, que dormia ainda, levantei-me 

e caminhei aos tombos até ao corredor, cerrando a porta sem ruído. 

O cenário lá de fora era o mesmo. Um grupo de camponeses surgiu a dada 

altura na paisagem que desfilava, e fez adeus. Mas o meu espírito estava com Rita. 

Na  recordação  do  seu  rosto,  dos  cabelos  loiros  cuidadosamente  penteados  para 

cima,  dos  seus  olhos  verdes,  enormes,  de  brilho  malicioso,  que  me  fitavam 

sorrateiramente através das longas pestanas. Presentemente esse brilho desaparecera, 

e os olhos de Rita já não deviam ser bonitos de ver. Assim como a vida chamejante 

que  brotava  do  seu  corpo  admirável  não  era  agora  mais  que  passado  de  presente 

sombrio. Eu, porém, continuava a ver Rita como ela fora, na sua beleza exuberante 

e sensual de quando me havia dito, da última vez: “Não te esqueças dessa promessa, 

Al... “Não, Rita, eu não me esqueceria nunca da minha promessa. Apenas, teria de 

ficar eternamente em dívida. “Mas”, reflecti, “ter-te-ás tu portado comigo de modo 

que  eu  deva  sentir  assim?”  Talvez  não.  Mas  ela  era  um  ser  humano.  Uma  mulher 

que eu conhecera. Interessante mais que o suficiente para que eu simpatizasse com 

ela. E isso bastava. 

O  curso  do  pensamento  derivou  então,  subitamente,  na  forma  da  pergunta 

que  surgiu  com  violência,  sacudindo-me  o  cérebro.  Quem?  Quem  a  matara? 

Porquê?  E  de  repente  tudo  assumiu  para  mim  outro  aspecto,  porque  eu  passara  a 

considerar a mesma questão sob um ângulo inteiramente diverso. Mais frio, lógico e 

racional. E era aí que me devia concentrar. O choque puramente emocional havia-se 

até  aqui  sobreposto  a  uma  visão  lúcida  do  facto,  mas  embora  os  resultados  dessa 

primeira reacção permanecessem, devia alhear-me dela e raciocinar sob o ponto de 

vista  prático.  Porque,  afinal  de  contas,  a  minha  vida  também  estava  em  jogo.  No 

jogo  para  que  Rita  Grahame  me  convidara  a  entrar.  E,  se  ela  perdera,  as 

probabilidades eram agora todas contra mim. 

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- Eh, amigo... o que se passou ali dentro?  

Rodei  lentamente  o  pescoço  e  aguardei  que  o  rosto  de  Fernandes  ficasse 

devidamente focado. Notei que tinha a garganta seca, ao falar, e por isso a voz me 

saiu rouca. 

- Talvez você saiba... não?  

Não sorria, neste momento.  

- Talvez eu saiba, o quê, Chasey?  

Corri  a  porta  e  entrei  para  apanhar  o  jornal.  Pamela  despertou  num 

sobressalto e inquiriu, estremunhada: 

- Que horas são, Joe? 

- Uma e dez.  

Estendeu preguiçosamente um braço na minha direcção. 

- Onde vais?  

Segurei-lhe por instantes a mão, que levei aos lábios. 

- Estou lá fora com o Fernandes, querida. Não me demoro. 

Saí com o jornal apertado na mão e fui ao encontro de Fernandes, as páginas 

dobradas  de  forma  a  enquadrarem  apenas  a  notícia  que  interessava  que  ele  visse. 

Coloquei-lha defronte dos olhos. 

Isto.  Limitou-se  a  localizar  o  rectângulo,  do  qual  desviou  J             

imediatamente a vista sem ler uma linha sequer. Porque ele já sabia. Encarou-me. 

- É assim tão importante, Chasey? 

- Sim. Muito importante. 

- De acordo - assentiu. - Se quiser, podemos falar. Tem aí um cigarro? 

Sacudi um para fora do maço, e estendi-lho. Acendi também um para mim. 

-  Pode  falar  -  disse  eu.  Deslocou  com  o  auxilio  da  língua  o  cigarro  para  o 

canto da boca. 

- Tem razão, Chasey. É verdade eu saber que você estava envolvido com essa 

dama,  e  que  portanto  a  notícia  lhe  interessaria.  Engana-se  no  entanto  em  dois 

pontos  fundamentais.  Primeiro,  não  conheço  o  que  havia  de  comum  entre  vós, 

embora tivesse um palpite de que não se trataria de relações de amizade. Segundo, 

tencionava  falar-lhe  disso  .  não  para  o  informar,  porque  pensava  que  você  já  teria 

conhecimento do ocorrido, mas sim porque, por uma pura  questão de curiosidade 

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pessoal, pretendia observar a sua reacção. Cheira-me que você está enterrado até ao 

pescoço  numa  trapalhada  infernal,  mas  quer  acredite  quer  não,  estou  inteiramente 

alheado do que se passa. Simpatizo consigo, e ajudá-lo-ei se precisar de mim. Talvez 

que a minha atitude lhe pareça absurda e a explicação que lhe dei falseada. Contudo, 

não  posso  explicar-lhe  as  coisas  de  outra  maneira.  E  peço-lhe  que  aceite  um 

conselho, Chasey: se não quer seguir o caminho errado, oriente os seus raciocínios 

noutro  sentido.  Quanto  à  minha  pessoa,  limite-se  a  deixar-me  de  lado.  Considere-

me  um  zero  à  esquerda.  Pela  minha  parte  não  interferirei  consigo,  mas  cá  estarei 

quando precisar. Compreendido? 

Enquanto  ele  falara  eu  mantivera-me  a  olhar  pela  janela  aberta,  com  a  mão 

que  empunhava  o  cigarro  pendida  para  fora,  observando  a  combustão  do  papel 

activada pelo vento forte. Quando vi que terminara recolhi a mão e coloquei-me de 

forma a poder fitá-lo a direito. Fiquei assim um bocado, a observar-lhe os traços do 

rosto, ao mesmo tempo que analisava o que me dissera. Acabei por concluir, num 

trejeito que era quase um sorriso: 

-  Bem,  Fernandes,  parece  que  não  tenho  outra  alternativa  senão  aceitar  as 

coisas assim ... não é? 

Mostrou os dentes. 

-  Acho  que  é  isso,  tal  e  qual.  E  agora,  prefere  continuar  a  falar  sobre  o 

assunto, ou que eu o deixe sozinho com os seus pensamentos? 

Fiz  um  gesto  para  abrir  a  boca.  Não  foi  preciso.  Ele  possuía  o  sentido  da 

antecipação. 

- Está bem ... está bem ... eu vou-me embora outra vez! Mas se quiser falar, já 

sabe onde me encontro. 

- Como vai a conquista? - inquiri desinteressadamente. 

-  Está  no  papo,  amigo  -  retorquiu  a  transbordar  malícia.  -  Só  é  pena  o 

velhote. Acho que daqui a pouco o vou fechar nos lavabos. - Riu. - Até já, Chasey. 

Ali,  e  ainda  outro  conselho:  com  aquilo  ali  dentro,  eu  deixaria  os  problemas  para 

depois! A vida é curta, meu caro, e há que aproveitar cada minuto ... 

Foi-se  embora.  Eu  finquei  os  cotovelos  no  rebordo  e  pus-me  a  olhar  para 

longe. Para bem longe. Para lá dos extensos arrozais que a linha de ferro sulcava, à 

entrada da província de Kuangtung. O meu fito era uma chave. Uma chave apenas, 

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que viesse ajudar a abrir caminho para a solução. Mas é realmente difícil encontrar 

uma  chave  entre  os  arrozais  da  China.  Depressa  cheguei  à  triste  conclusão  de  que 

teria  de  a  fabricar  eu  próprio,  à  base  dos  pedaços  soltos  e  desencontrados 

desordenadamente arquivados na minha cabeça. A não ser assim, não haveria outra 

forma de atingir a  saída. Isto é, a  saída que eu  pretendia alcançar. Porque existiam 

outras. 

Desatei a apanhar os pedaços e a tentar reuni-los. Durante meia hora peguei 

neste, naquele, juntei-os aos três e aos quatro, e às vezes os primeiros ligavam uns 

com os outros, mas logo o seguinte não se ajustava e eu tinha de separá-los todos 

outra vez, atirá-los para o canto, baralhá-los bem e recomeçar. Quando a cabeça me 

começou a doer eu desisti e fui para dentro, ter com Pamela. O Fernandes era capaz 

de ter razão. 

Quinze e quarenta e cinco. Shumshum. A excitação da chegada. Alívio para 

todos os outros e inquietação para quem, como nós, esta paragem podia ser muito 

mais  que  o  fim  de  uma  etapa.  Pamela  conseguiu  não  deixar  transparecer  na 

fisionomia a perturbação que no entanto eu lhe lia através do simples contacto das 

nossas  mãos. Tínhamos vindo a conversar durante um pedaço  de  tempo, contudo 

de há meia hora para cá o mutismo que guardáramos de parte a parte era só por si 

bem significativo da intranquilidade que nos invadia gradualmente. 

Empunhei  com  firmeza  a  pega  dourada  daquela  diabólica  maleta  negra,  de 

um lado, e a mala grande dela, do outro. 

- Vê se não te esqueces de nada - adverti, antes de passar a porta. 

Por  toda  a  parte  só  se  ouvia  falar  chinês.  Pamela  apertava  o  meu  braço, 

andando  num  passo  saltitante  de  forma  a  poder  acompanhar  o  meu.  Não 

descortinei Fernandes nem os ingleses, na gare, o que era natural no meio de toda a 

barafunda.  A  nossa  escolta  não  se  fez  demorar,  na  forma  de  um  policia  cuja 

expressão lembrava imediatamente o focinho de um rato-da-índia desgostoso ... Foi 

o  mesmo  oficial  chinês  que  nos  recebeu,  na  sala  de  inspecção.  Os  dois  tipos 

fardados  que  o  ladeavam  também  eram  os  do  dia  anterior,  e  dir-se-ia  até  que  não 

tinham saldo dali desde então, porque nem sequer as posições haviam sido alteradas. 

- Mister Coslow - tossiu o chefe. 

- Sou eu. Como está?  

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- A sua bagagem.  

Entreguei  as  duas  malas  ao  cara  de  rato,  ou  antes,  deixei  que  ele  mas 

arrancasse  das  mãos.  O  mesmo  sucedeu  com  Pamela  em  relação  à  malinha  que 

trazia consigo e ao cesto que a velha Tal San nos atafulhara de comida, mas que nós 

nem sequer abríramos. 

- Documentos.  

Atirei  a  papelada,  minha  e  de  Pamela,  para  cima  da  secretária.  O  polícia 

cuspiu uma série de sons guturais para o subalterno que nos trouxera. Este fez-nos 

um  sinal  brusco  com  a  cabeça,  indicando  uma  porta  lateral.  Seguimos  para  lá.  Era 

um  cubículo  escuro,  húmido  como  um  pântano  e  quente  como  um  forno.  Um 

banco de ripas de madeira que percorria toda a largura da parede à direita constituía 

toda  a  mobília.  A  porta  fechou-se  e  nós  ficamos  sozinhos.  Segurei  Pamela  pelos 

ombros, aproximei-a de mim e interroguei nervosamente: 

- Percebeste o que ele disse?  

Rodeou-me o pescoço com os braços. 

- Acalma-te, Joe. É apenas o tempo de a documentação ser examinada. 

Ofereceu-me  os  lábios  tentadores,  inclinando  um  pouco  a  cabeça  para  trás. 

Não me fiz rogado. Saboreei-os longa, profundamente, como se pretendesse possuí-

Ia através daquele beijo. 

No  chão  de  cimento  repousavam  já  meia  dúzia  de  pontas  de  cigarro 

queimadas,  quando  a  porta  se  abriu  e  o  rato-da-índia  assomou  num  chamamento 

guinchado. Passamos de novo à sala da inspecção. Parei a um metro  da secretária, 

onde  o  chinês  riscava  gatafunhos  num  papel  pardo.  Levantou  por  fim  os  olhos 

raiados,  que  manteve  presos  intensamente  nos  meus  durante  meio  minuto,  sem 

proferir  palavra.  Aguentei,  sem  mover  um  milímetro  sequer  qualquer  músculo  do 

meu corpo. Só Deus sabia como eu me sentia por dentro. Acabou por pronunciar, 

marcando com rudeza cada sílaba: 

-  Mister  Coslow,  vamos  deixá-lo  partir  ...  Caramba!  -...não  que  nos  agrade 

fazê-lo,  unicamente,  repito,  unicamente  porque  não  desejamos,  sem  possuirmos 

dados  concretos,  provocar  qualquer  conflito  com  as  autoridades  britânicas.  Pode 

sair. 

Raspei-me dali, com Pamela e as malas. No momento em que transpunha a 

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porta,  a  campainha  do  telefone  sobre  a  secretária  começava  a  retinir.  Apressei  o 

passo. A  ponte ficava a vinte  metros somente. Vinte metros. Um ... dois ... três ... 

quatro ... 

- Mister Coslow.  

Estaquei,  sem  me  voltar.  As  pernas  tremiam-me.  Pamela,  junto  de  mim, 

ficara petrificada e a cor fugia-lhe das faces. 

O  ruído  de  botas  cardadas  começou  a  aproximar-se,  correndo.  Segundos 

depois dois guardas agarravam-me fortemente,  um de cada lado. Outro ocupou-se 

de Pamela. Um deles pronunciou: 

- Mister Coslow, venha! 

- Para onde? 

- Preso.  

Fui brutalmente arrastado. Pamela tentou acompanhar-me, com as lágrimas a 

escorregarem-lhe pela face. O que lhe prendia fortemente o pulso não permitiu que 

ela se soltasse. 

- Joe... - soluçou nas minhas costas. - Joe ...  

A entrada da sala da polícia, ouvia ainda a sua voz. 

O oficial chinês ergueu-se e contornou a secretária para vir ao meu encontro. 

Empunhava um bastão de couro. O sorriso que lhe repuxava os lábios era cínico e 

repulsivo. Bateu com o pequeno chicote na coxa, e murmurou, entre dentes: 

Agora,  sim,  Mister  Coslow,  podemos  retê-lo.  Não  à  sua  companheira,  nem 

ao dinheiro que transportava, visto não termos em nosso poder provas de ambos se 

encontrarem envolvidos neste assunto. Mas quanto a si, mister, está-nos nas mãos. 

- Porquê? - indaguei, ainda.  

Os dentes podres mostraram-se mais, num esgar asqueroso. 

- Por assassínio de um agente dos nossos serviços secretos. Uma mulher que 

você conheceu pelo nome de Mae Leung. Lembra-se dela? 

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CAPÍTULO XI 

 

Apanhei o púcaro que alguém introduzira pelo postigo minúsculo e bebi de 

um  trago  o  liquido  infecto.  A  casota  era  a  pocilga  mais  imunda  em  que  eu  já  me 

encontrara  metido  desde  que  uma  vez,  no  México,  o  chefe  da  policia  de  Rosarina 

descobriu  que  a  mulher  se  andava  a  fazer  a  mim.  E  se  o  Inferno  é  assim  quente 

como  afirmam,  eu  devia  andar  por  lá  próximo.  Sítio  escuro,  também.  Labaredas 

erguiam-se, dançando diante dos olhos, mas apenas na minha imaginação. Dentre as 

labaredas  saiam  mulheres.  Passavam  por  mim  relanceando  uma  olhada  de 

comiseração,  sem  se  deterem.  Nem  sequer  Mae.  Nem  Rita.  Passaram.  Olhei. 

Chamei.  Desapareceram.  Eu  estava  só,  naquela  casota  das  traseiras  da  estação 

fronteiriça de Shumshum, China. A porta encontrava-se trancada. Do lado de fora 

havia uma sentinela, porque eu ouvia os passos, para cá e para lá. Passos pesadões. 

Talvez não fossem assim tão pesados. Só que a minha cabeça jazia em tal estado que 

até  o  tiquetaque  do  relógio  de  pulso  martelava  nela.  Consultei  o  mostrador. 

Passavam cinco minutos das seis horas da tarde. O traseiro doía-me porque o chão 

onde me sentava era duro. A garganta doía-me. E a cabeça. E as pernas. Eu estava 

pronto.  O  meu  nome  é  Chasey.  Al  Chasey.  Não  é?  E  aquilo  ali  são  gaivotas  a 

apanharem peixinhos nas ondas. 

Não sei exactamente dizer se o que me despertou foi o ruído ou se o facto de 

os ruídos terem cessado. Refiro-me aos passos pesadões da sentinela lá fora. Acho 

que foi isso mesmo. Deixei de os ouvir. Estranhamente, deixei também de ouvir o 

tique-taque do relógio. Sei apenas que me amparei à parede sobreaquecida e me pus 

de pé o mais depressa que pude, como se soubesse que alguma coisa ia passar-se. E 

assim  foi,  na  realidade.  Tudo  sucedeu  depressa.  A  porta  abriu-se.  A  claridade  do 

exterior impediu-me de ver logo quem sussurrava. 

- Depressa...  

Eu não tinha pressa nenhuma. Eu não ia sair dali. Dormir, apenas. Deixem-

me dormir um bocadinho, raios os partam.. 

- Vamos ... depressa! - insistiu a voz, agitada pela ventania entre a folhagem. 

- Quem é você? - A garganta ardia-me. Ali, é verdade, quero água também. E 

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dormir. 

- Um amigo. - A voz agarrou-me o braço e puxou-me. 

Um amigo. Tinha razão. Eu sou amigo de toda a gente mas toda a gente não 

gosta de mim. Este  parecia que gostava. Pelo  menos queria tirar-me  do Inferno, e 

um  parceiro  vai  à  frente,  ou  vai  atrás.  Eu  fui  atrás.  Antes  de  transpor  a  porta 

tropecei num corpo estiraçado. Amparei-me ao meu amigo. A porta fechou-se. Sim, 

ainda  bem  que  eu  saíra.  Cá  fora  estava-se  melhor.  Mais  arejado  e  fresquinho.  A 

sentinela desaparecera. O meu amigo desatou a correr, obrigando-me a fazer outro 

tanto,  e  eu  tive  de  obedecer  porque  quem  ia  atrás  era  eu.  Corremos  muito.  A 

amizade é um sentimento muito forte, e daí a pouco era eu que queria correr mais e 

ele não, de modo que me deixei empurrar para cima do camião, ser atirado dentro 

do  buraco,  e  a  escuridão  voltou.  O  barulho  também.  Mais  forte.  Muitíssimo  mais 

forte. Trovão, como no fim do universo. Por isso o Inferno acabara. Muitos séculos 

haviam decorrido. Caramba, como o tempo passa! 

-  Eli ... sente-me melhor? 

- Há  ... quem?  

Duas  vozes.  Uma  delas  podia  muito  bem  ser  a  minha.  Tentei  de  novo, 

subindo as pálpebras. Não foi difícil. Ver é que ia custar um pouco mais. 

- Sim, melhor ... Onde estou?  

Que gosto horrível na boca! Gosto de insectos apodrecidos em água suja. A 

vista iniciou nova tentativa. O rosto surgiu no écran, completamente desfocado. De 

qualquer forma, já não era mau. Agora quanto à desarrumação que os meus miúdos 

sofriam cá dentro, isso era o pior de tudo. 

- Já passou, não?  

- Melhor um pouco. Onde estou?  

Esta fala já se parecia mais com a minha. 

- Nos territórios de Hong-Kong, amigo. Correu tudo bem, não foi? 

Sei lá. Tudo bem, o quê? E quem falava comigo? Eu tinha o direito de saber, 

diabos! 

Aguentei os braços de encontro ao solo, apoiados desde os cotovelos até às 

palmas  das  mãos,  e  concentrei  neles  todos  os  resíduos  de  energia.  Resultou.  Vi 

quem falava comigo, lá de cima. E posso garantir-lhes que, se aquele tipo era meu 

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amigo, então eu tinha ali um grande amigo. Enorme, mesmo. O maior amigo que já 

tivera  em  toda  a  vida.  Assim  acocorado,  este  parceiro  chinês  era  a  representação 

viva  das  imagens  gigantescas  de  Buda  que  a  gente  vê  nos  mosteiros  orientais,  só 

com  a  diferença  de  que  o  tronco  descomunal  estava  embrulhado  numa  camisa 

amarela,  que  cortada  em  tiras  daria  para  enfeitar  em  toda  a  extensão  a  grande 

muralha  da  China,  com  laçarotes  de  dez  em  dez  metros.  Quanto  ao  rosto,  se 

pegarem no focinho de um buldogue, ampliarem três vezes e lhes puserem os olhos 

em bico, ele aí está. O cabelo era tão raro como a água numa banheira vazia, e isso 

fazia que o seu crânio apresentasse o aspecto do fundo da mesma banheira. 

- Está bem, ou quer dormir mais?  

Devia possuir um filtro especial para a voz, porque esta não correspondia de 

modo nenhum à fachada. Era quase tão melodiosa como uma harpa birmanesa com 

cinco  cordas  partidas  e  a  restante  desapertada.  Uma  fala  apagada,  quero  eu  dizer. 

Apesar de tudo, agradável, porque me fazia sentir melhor. 

- Quer então dizer que já passamos a fronteira?  

De orelha a orelha, passando pela boca, ia uma distância apreciável, mas foi 

essa precisamente a que os lábios se distenderam. 

- Sim, senhor - acenou furiosamente com a cabeça. 

- Sim, senhor. Satisfeito, não? 

Sorri o melhor que me foi possível. 

- Muito. 

-  Bem.  Estamos  em  Shatin.  Isto  é  o  meu  camião.  Sempre  a  dormir,  veio  o 

senhor. Apanhou pancada, lá? - Os olhos rebolavam nas órbitas cavadas fundo, e o 

movimento  deles  acompanhava  o  enrolar  da  língua  na  projecção  dos  sons 

pessimamente articulados num inglês que eu não aprendera na escola. 

-  Não,  amigo  -  retorqui.  -  Não  me  deram  pancada.  Deitaram-me  só  meio 

quilo de droga num púcaro. Você observou os resultados, com certeza. 

O  ruído  cresceu  como  terramoto  sacudindo  montanhas  e  acabou  por 

explodir estrondosamente no que percebi ser uma gargalhada. Era o gigante que ria, 

comprimindo  as  manápulas  sobre  o  ventre  descomunal.  -  Se  vi,  mister?...  Eu 

carreguei com eles! 

Novo  crescendo  assustador.  Apressei-me  a  interromper,  antes  que  o 

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fenômeno se repetisse.  

- Okay, okay. Quem é você, quem o mandou, como se chama, e tudo o mais. 

Vai responder-me a estas perguntazinhas, não vai, amigo . 

“Bolas...”,  comentei  para  mim,  “ainda  bem  que  ele  era  a-mi-go!”  -    Sim, 

senhor.  Vou  explicar.  Eu  estava  em  Shumshum.  Chamo-me  Fu  Ling.  Ying  Fai 

mandou-me. 

Fazia-se luz no meu cérebro convalescente. 

- Eh, você era então o agente que Ying Fai lá mandou para prevenir qualquer 

eventualidade... 

- Para quê? 

- Para endireitar as coisas - expliquei-me.  

Abanou a cabeça, para baixo e para cima, em sacudidelas violentas. 

- Pois. Endireitar. Tudo bem agora, não está?  

- Penso que sim - assenti. - Vai ajudar-me a sair deste buraco? 

Ele não me ajudou, antes realizou todo o trabalho, elevando-me apenas com 

um  braço.  Os  sacos  de  sarapilheira  onde  acabou  por  me  depor  sempre  eram  mais 

cómodos.  Percebi  que  o  local  onde  os  meus  ossos  enfeixados  repousavam  era  a 

caixa coberta de um camião. Alguns pormenores da fuga da estação de Shumshum 

acudiram-me repentinamente. 

- Diga-me tudo o que se passou - pedi. 

- Conto tudo. Mas a gente vai jantar. Não tem fome?  

Lembrei-me que sim. Precisava desesperadamente encher o buraco vazio que 

era o meu estômago naquele momento. Só a ideia me deu alento. 

-  Vamos  a  isso!  Torne  a  dar  aqui  uma  ajuda.  Saí  apoiado  a  ele,  e 

possivelmente  pelo  esforço  que  mesmo  assim  fui  obrigado  a  despender,  os 

intestinos refilaram poderosamente. Dobrei o tronco e desatei a vomitar. 

O gigante carregava-me no pescoço e eu vomitava que nem um desalmado. 

Quando acabei adquiri a impressão de que no meu interior não havia absolutamente 

nada. 

-  Pronto.  Foi  melhor.  Aliviou  -  comentava  o  homenzarrão.  -  Agora  vamos 

encher outra vez. 

Segui  pendurado  a  ele,  e  o  meu  andar  devia  assemelhar-se  muito  ao  de  um 

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cágado. O caminho que trilhamos era deserto, mas pouco abaixo, a umas dezenas de 

metros, havia casas, pois se distinguiam as luzes. Continuei a andar, um pé à frente 

do outro, mecanicamente, arrastando as solas. Simplesmente miserável. 

Eu comi o que pude engolir da comida asquerosa daquela tasca do lugarejo 

de  pescadores.  Fu  Ling,  esse  atascou  o  bandulho  até  mais  não.  Quando  acabou, 

limpou  a  boca  aos  pêlos  das  costas  da  mão.  Eu  procurava  no  bolso  do  casaco 

estropiado o que devia restar do meu maço de Crown, quando o observei nas patas 

do Moby Dick. 

- Quer um?  

Aceitei. 

- Ena, muito obrigado! Você é amável...  

Acendi-o  na  ponta  da  vela  de  estearina  que  ardia  no  canto  da  mesa.  A 

garganta e os pulmões arderam-me estupidamente às primeiras fumaças. 

- Podemos conversar? - disse eu. 

- Sim, senhor - anuiu de pronto, entre dois arrotos. 

- Bom. Explique-me como se passaram as coisas.  

Começou. 

- Eu trazia o camião... 

- Desde o princípio - atalhei. 

- Pois. Eu trazia o camião para carregar mercadoria do comboio que chega a 

Shumshum  às  seis  e  um  quarto.  É  como  faço  duas  vezes  por  semana,  para 

transportar  os  carregamentos  desde  a  fronteira  até  Tai-Po,  onde  tenho  o  meu 

negócio. Depois, de Tai-Po até Shumshum, levo peixe. 

- Quer dizer, também tem negócios na região de Shumshum... 

Assoou-se  com  força  a  um  trapo  extraordinariamente  porco  que  extraiu  da 

algibeira. Respondeu: 

- Sim.  

- E nas horas vagas trabalha para Ying Fai  

- Sim. Para Ying Fai. Um comerciante de recursos. Prosseguiu: 

- Nunca transportei pessoas no fundo falso do camião. Mas ontem Ying Fai 

falou  de  Cantão  a  dizer  para  eu  estar  pronto  se  alguma  coisa  má  acontecesse.  Por 

isso eu estava lá. 

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- Sozinho?  

- Não. Fu Ling tem empregados Uma organização em grande. 

- Mas hoje actuou sozinho...? 

- Sim. Melhor, sozinho. Mas tinha empregados perto, para se fosse preciso. 

- Sabe o que sucedeu a Miss Wong?  

Espevitou as orelhas, franzinho o sobrolho. 

- Quem?  

- A senhora que vinha comigo percebeu. 

- Ah, a senhora. A senhora continuou viagem. A mala também. 

- Quer dizer ... só eu é que não. 

- Pois. Mas Fu Ling estava à espreita. Chegou  o comboio da  mercadoria às 

seis e meia. Carreguei o camião. E carreguei o senhor. 

- Por que não o fez antes?  

Encolheu os ombros.  

- Não tinha pressa.  

Com que então não tinha pressa! 

- Porquê? 

- Porque o camião da polícia só chega a Shumshum às sete e meia da tarde, e 

mister só ia ser tirado dali a essa hora. 

Eu principiava a vislumbrar uns lampejos sérios de inteligência transmitidos 

de  dentro  do  crânio  granítico  do  gigante  chinês.  E  começava  a  compreender  que, 

para  um  tipo  como  aquele  que  ali  estava,  uma  empresa  quase  impossível  podia 

transformar-se em tarefa bem simples. Quis ainda saber: 

- Que aconteceu à sentinela, Fu Ling?  

Três notas sincopadas vindas das profundezas: 

- “ Ho! Ho! Ho!” - E depois: - Adormeceu.  

Estava a resposta dada. Simples e impressiva. 

-  Só  mais  uma  questão,  amigo.  Você  tenciona  voltar  a  passar  aquela 

fronteira? 

- Por que não, mister? Ninguém viu. Ninguém ouviu. Fu Ling é um honesto 

comerciante. Amigo de toda a gente. Tem negócio, e continua. 

Pronto.  

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-Vamos embora? 

- Vamos. 

Chegamos  a  Kowloon  pouco  depois  das  onze.  O  camião  foi  deter-se  por 

indicação minha na entrada de Cameron Road, para quem vinha de Nathan. 

- Para onde vai, mister? - interrogou o meu amigo Fu Ling. 

Encarei-o.  

- Vou para o hotel. Porquê?  

Encolheu os ombros.  

- Por nada. Wu Tchao quer vê-lo assim que chegar.  

-  Há  tempo!  -  retorqui.  -  Primeiro  vou  tomar  banho,  depois  logo  se  vê.  E 

você? 

Bateu as manápulas no volante e todo o veículo estremeceu. 

- Vou para o negócio, mister. Já fiz o que mandaram fazer . 

- Okay - retorqui, estendendo uma mão, e já com a outra no fecho da porta. - 

Obrigado por tudo, Fu Ling. Você portou-se admiravelmente. 

Os olhos luziram no escuro.  

- Quer dizer que Fu Ling é bom? 

- É o maior - esclareci com sinceridade.  

- Obrigado, mister.  

Aguentei firme o aperto. Também, um osso partido a mais não fazia grande 

diferença e ele merecia tudo. Abri a porta, apeei-me e atirei com ela. Esperei que o 

camião  arrancasse.  Fê-lo  com  estrépito  e  afastou-se.  Antes  de  contornar  a  esquina 

acenei  pela  última  vez  ao  gigante,  que  abanava  desajeitadamente  o  braço  fora  da 

janela. 

Eu  comecei  a  descer  tristemente  Cameron  Road.  Muita  gente  se  cruzava 

comigo.  Cem  metros  abaixo  distinguiam-se  com  nitidez  as  letras  de  néon  do  Bay 

View  Hotel.  E  quando,  mesmo  à  frente,  os  meus  olhos  tropeçaram  no  letreiro 

luminoso do Golden Bamboo, um fluxo avassalador esquentou-me o cérebro e todo 

o  corpo.  Um  pedaço  incandescente  da  chave  que  eu  procurava  desesperadamente 

fabricar. E, enquanto ia descendo Cameron, a forja laborava em plena actividade na 

minha desgraçada cabeça. 

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CAPÍTULO XII 

 

É extraordinário como em tão curto espaço de tempo tanta coisa pode passar 

pela cabeça da gente. Acontece nos sonhos, com maior intensidade. Mas também na 

vida real. Algo faz accionar um botão, e pronto. Neste caso haviam decorrido três 

minutos, o tempo preciso de chegar desde a esquina de Nathan Road até à entrada 

do Bay View. O botão fora accionado pelo letreiro de néon do Golden Bamboo. E 

essas coisas todas que me passaram fulgurantemente pela cabeça conduziram a um 

resultado: dourados, brilhantes pedacinhos de chave. Pedaços que acertavam entre si 

e conduziriam portanto a algum lado. E isso para mim era fundamental, e decisivo. 

Simples, não é? Só que um pequeno ponto não batia certo. E que este jogo não era 

aquele em que eu apostara. Porque a chave que eu acabara de elaborar não era a que 

procurava. Aonde me conduziria este novo caminho? Primeiro que tudo, tratava-se 

de descobrir a porta que dava para ele. A porta que eu já podia, agora, tentar passar. 

O  porteiro  fardado  arregalou  os  olhos  no  instante  em  que,  após  a  menção 

nítida de me correr a pontapé, me reconheceu. É verdade que eu devia encontrar-

me  num  estado  lastimoso.  Nunca  porém  me  havia  ocorrido  que  chegasse  a  esse 

ponto. 

No átrio foi pior ainda, mas não liguei e dirigi-me à recepção. Não estava lá 

quem eu procurava. O tipo que funcionava por detrás do balcão era o empregado da 

tarde. 

- Mister Chasey!... 

- Pois, pois, sou eu. Dê-me uma informação, amigo: onde pára o seu colega? 

- Mister Chasey!...  

A boca abria-se e fechava-se como as guelras de um peixe. 

- Deixe-se de conversa, parceiro. O seu colega, onde se meteu? 

Leu-me  com  certeza  no  rosto  a  decisão  firme  de  o  puxar  pelas  bandas  do 

casaco, porque tratou de responder, o mais depressa que pôde: 

- George ... há ... foi para casa. 

- Não era o turno dele, esta noite?  

- Há...  

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- Era, ou não? - gritei-lhe.  

Passou a andar mais depressa que um expresso.  

-  Sim,  Mister  Chasey.  Mas  o  George  não  se  sentia  bem,  acho  eu.  Foi  para 

casa. Ficou de me substituir amanhã à tarde. Não compreendo o que... 

- Não há nada que compreender, amigo. A morada dele. Depressa. 

Não chegou a levar dois segundos.  

- 65, King Lam Street, Shamshuipo.  

- Obrigado, rapaz.  

Fazia tenção de abalar quando o gerente surgiu nas minhas costas. 

- Que se passa aqui?  

Voltei-me.  

- Passou bem?  

Cada olho deu dois pulinhos.  

- Mister Chasey!... 

-  É,  não  é?  -  retorqui,  e  disparei  porta  fora  por  entre  as  pessoas  que  se 

afastavam para me dar passagem. 

Depois  de  me  apear  e  bater  com  a  porta  do  táxi,  considerei  que  talvez 

devesse  ter  dito  ao  motorista  para  esperar.  Aquela  hora  nem  pessoas  por  ali 

andavam, quanto mais automóveis. Por outro lado, no entanto, eu não fazia a mais 

pequena  ideia  do  tempo  que  o  assunto  iria  demorar.  Podiam  ser  cinco  minutos. 

Podia levar a noite inteira, até. 

O  prédio  tinha  dois  andares,  e  o  mais  estranho  era  como  o  segundo  se 

conseguia aguentar por cima do primeiro. A porta da entrada estava aberta. Ou pura 

e  simplesmente  a  entrada  não  usava  porta.  E,  se  cá  fora  era  noite,  lá  dentro  era 

negro. A madeira do chão não gostou de ser pisada e foi refilando com as solas dos 

meus  sapatos.  Foi  possivelmente  por  essa  razão  que  a  luz  da  escada  se  acendeu  e 

que o olho veio instalar-se na fresta da porta que se entreabriu à minha esquerda. 

- Boa noite - disse eu. - Peço desculpa de incomodar, mas quero falar com o 

meu amigo George, que trabalha no Bay View. Pode dizer-me em que andar é que 

ele mora? 

O  olho  piscou  meia  dúzia  de  vezes.  A  porta  abriu-se  um  pouco  mais, 

deixando surgir outro olho igual ao primeiro e enquadrando o rosto pregueado. 

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- George quem? - quis saber.  

Tinha voz de mulher e grunhia inglês. Devia ser uma mulher inglesa. 

- George não sei - esclareci. - É exactamente o que venho saber. Deu apelido 

errado no hotel onde trabalha, e eu sou da inspecção. 

- Há ... 

- Exactamente, minha senhora. Quer fazer o favor de me indicar onde posso 

encontrar o George, ou vou acordar toda a gente e chamar a polícia? 

A  porta  afastou-se  mais  um  bocado.  A  mulher  estava  embandeirada  num 

roupão cor de porcaria e o cabelo assemelhava-se a um monte de esterco. 

-  Eu  não  tenho  medo  dos  chuis  -  foi  avisando.  -  Mas  o  George  mora  no 

segundo, porta em frente. E já agora, se é de alguma inspecção, diga a esse filho da 

mãe para pagar o que deve. 

- O que eu vou dizer ao George é cá comigo, minha senhora, e por isso faça 

o favor de ir para o raio que a parta. 

A  porta  bateu  com  tamanha  violência  que  os,  alicerces  do  edifício 

estremeceram, e eu comecei a trepar a escada, tratando de tactear primeiro a tábua 

de cima, porque algumas encontravam-se podres e luz não havia. Os degraus eram 

tão altos que ao passar ao seguinte o joelho quase me tocava o nariz. Descansei no 

vão  do  primeiro  andar,  e  continuei  a  subida.  Ao  outro  patamar  já  chegava  alguma 

claridade que passava da clarabóia. A escalada até ao segundo foi mais difícil. Porta 

da frente, dissera a velha. Detive-me uns momentos para retomar o fôlego e deitei a 

mão à maçaneta. Foi só rodar, empurrar de  mansinho e entrar. A janela que devia 

dar para as traseiras tinha os estores levantados, o que me permitiu uma percepção 

quase completa da espelunca. Na cama de topo gradeado ressonava um animal. O 

animal chamava-se George e ia cantar para mim. Pus a porta no seu lugar e dei uns 

passos por ali. Pode-se  conhecer uma data de  pormenores  sobre a  mentalidade  de 

um  tipo  quando  se  entra  na  casota  dele.  E  sobre  a  de  George  podia  eu  desde  já 

concluir que era um javardo de todo o tamanho. 

Próximo  da  janela  existia  um  lavatório  que  despejava  para  um  balde,  e  ao 

lado  estava  pousado  um  jarro  de  água.  Certifiquei-me  de  que  estava  bem  cheio. 

Agarrei-o, cheguei-o até à beira da cama onde o bom do George devia sonhar com 

mulheres nuas, ergui o recipiente até à altura da cabeça e virei-o às avessas. O efeito 

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foi  o  das  cataratas  de  Níagara,  em  ponto  pequeno.  George  deu  um  esticão,  abriu 

lateralmente os braços, esticou as pernas e rebolou para o chão. Finquei-lhe um pé 

em  cima  e  puxei  o  cordão  da  luz.  A  lâmpada  do  tecto  veio  ajudar  a  alumiar  a 

pocilga. 

- Olá, George? Está húmido aí em baixo, não?  

Fez uma tentativa gorada para se levantar. O meu pé, carregando mais, não 

deixou. Como única reacção possível, o fulano dardejou-me com um olhar que era 

uma solução  saturada de ódio. O rosto apresentava um aspecto bem  desagradável. 

Expressão assassina, se quiserem. De modo que eu fiquei cheiinho de medo. Curvei-

me, e se ele usasse casaco de pijama eu tê-lo-ia apanhado pela gola. Mas como ele 

dormia de tronco nu, só com as calças enfiadas, o único remédio foi agarrá-lo pela 

pele  do  pescoço,  como  se  faz  aos  gatos,  a  fim  de  o  içar  para  cima  do  colchão. 

George  uivou  de  dor.  Eu  gostei,  porque  essa  nota  aguda  veio  dar-me  a  certeza  de 

que  George  iria  cantar  que  nem  um  canário.  A  minha  mão  permaneceu  apertada 

como um torno em volta do pescoço delgado. 

- Okay, filhote. Começa.  

Alarguei  um  bocado  a  pressão,  porque  não  se  pode  exigir  que  um  tipo  fale 

com as cordas vocais emaranhadas. 

Não devia ter feito tal. O rapaz era teimoso. Ergueu subitamente um joelho, 

fincando-mo  no  pescoço.  Mais  do  que  a  violência  do  golpe,  foi  a  dor  que  me 

projectou para trás e me fez cair no chão. O filho de uma cadela aproveitou-se para 

introduzir rapidamente a mão na gaveta da mesa-de-cabeceira. Não teve tempo para 

a retirar, porque a gaveta foi fechar-se-lhe brutalmente sobre o pulso, accionada pela 

extremidade  do  meu  pé.  Berrou  que  nem  um  danado,  como  se  chamasse  pela 

mãezinha,  e  eu  voltei  à  vertical  e  ao  pescoço  do  safado,  enquanto  a  outra  mão 

extraia o objecto da gaveta. O objecto era uma Walter, cujo buraco negro se dirigiu 

sem  perda  de  tempo  para  a  cabeça  do  marmanjo.  Aguardei  que  ele  recuperasse  o 

pulso maltratado e se pendurasse a ele aos grunhidos. Falei então, tranquilamente: 

-  Rapazinho,  aceita  um  conselho  que  dá  o  pai  Chasey:  tu  não  és  parvo 

nenhum, e por isso basta olhares para mim para saberes que não vou pedir licença 

para te lixar os miolos. Vim aqui para te ouvir falar, e portanto é só isso que tu vais 

fazer, e depressinha, porque eu tenho a minha vida e não posso perder muito tempo 

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a brincar aos tesos com gajos da tua laia. - Martelei-lhe o topo da testa com a ponta 

da  arma.  Largou  outro  uivo.  -  Percebeste,  ou  é  necessário  que  eu  me  zangue 

contigo? 

Cheguei mais a minha cara à dele.  

- Filho, fala mais alto, que eu assim não te ouço.  

Teve finalmente um gesto de concordância. Contrariado, mas, enfim, fazia os 

possíveis para confirmar a opinião pessoal que eu formara sobre a sua esperteza. 

- Bem, então vamos a isso. Mae Leung.  

Faz-me um poema sobre ela. 

- Quem? - acabou por rosnar. 

O  cano  da  automática  descreveu  exactamente  a  mesma  trajectória  de  há 

pouco. Tive dó dele, mas valeu a pena, visto que aquele jeito matizão se esfumou e a 

voz saiu mais meiga, lamuriosa mesmo. 

- Eu não conheço nenhuma Mae...  

- E eu daqui a bocado não conheço nenhum George, porque o que conhecia 

estará morto - avisei gentilmente. 

Molhou penosamente os lábios com a língua e apalpou com um esgar o galo 

da testa. 

- Bem, que quer saber? 

É  assim  mesmo  que  eu  gosto  deles.  Francos,  leais.  Abertos,  dispostos  a 

cooperar. Comecei. 

- Quem te mandou indicares-me o Golden Bamboo?  

Cerrou os dentes. Armava em parvo outra vez. Desta feita foi a coronha que 

com  uma  pancada  seca  lhos  fez  abrirem-se.  Não  reparei  se  continuavam  lá  todos, 

pois me interessou muito mais o que saiu através deles, entre dois gemidos: 

- Foi ela - rouquejou.  

- Ela quem? 

- Miss Leung. 

- Que te disse ela?  

Tentou endireitar o tronco. O cano da Walter não lhe permitiu o movimento 

para além de escassos centímetros. 

- Posso fumar?  

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-  Não.  Agora  só  podes  falar.  Depois,  se  ainda  tiveres  vontade,  dou-te  um 

cigarro. E é possível que se te portares bem te ofereça o maço inteiro. O que te disse 

ela? 

- Que lhe aconselhasse o Golden. Bamboo. Foi só isto, Mister Chasey. Juro. 

- Não juras nada, nem  me tratas pelo  meu nome, senão  tenho vergonha de 

continuar a usá-lo. Adiante. Já a conhecias? 

- Não, Mister Chasey. Não, senhor. Juro.  

-  Não  juras  coisa  nenhuma.  Respondes  só  ao  que  te  pergunto,  e  os 

comentários sou eu quem os faz. Bom, julgo que já assentamos provisoriamente em 

dois pontos:, não a conhecias, e ela disse-te apenas que me aconselhasses o Golden. 

Bamboo. Repara que eu disse “provisoriamente”, porque ainda não tenho a certeza 

de que estejas a falar toda a verdade. Mas é melhor que estejas, rapazinho. Vamos 

no  entanto  voltar  ao  principio  e  rever  tudo  outra  vez,  com  os  pontos  em  cada  i. 

Percebes a ideia? 

Percebeu. Rapaz esperto. A língua desenrolou-se-lhe, e George desenrolou a 

história.  Não  era  nenhuma  novela  mas  compensava  o  tempo  que  eu  perdera  para 

conseguir obtê-la. 

- Eu não a conhecia, mister...  

- Podes tratar-me por Chasey - condescendi.  

- Eu não a conhecia, Chasey...  

- Mister Chasey - disse eu. 

- Eu não a conhecia, Mister Chasey.  

Berrei. 

- Caramba, já ouvi! Okay, não a conhecias, e pronto, não conhecias. Desata a 

língua, rapaz, ou queres que ta puxe com um alicate? 

Garanto-lhes,  por  vezes  este  método  psicológico  dá  um  resultadão.  Não 

prossegui, se não daí a bocado o pobre do George era capaz de desatar a chorar. 

- Ela apareceu aqui em casa no domingo passado, de manhã. Eu ainda estava 

a  dormir.  Ela  disse-me  que  estava  disposta  a  pagar-me  um  pequeno  trabalho  para 

que precisava de mim. Eu respondi que dependia do gênero de trabalho, e então ela 

explicou-me o que eu devia fazer, e era aquilo que fiz: visto que o senhor ainda não 

tinha vindo a Hong-Kong, era natural eu alvitrar-lhe um sítio aonde ir nessa noite. 

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- E quanto te pagou ela por esse “trabalho”?  

- Cem dólares americanos... metade nesse dia e metade depois. 

Dei um estalinho com a boca. 

- Cem dele, hem? Não é nada mau, pois não, badameco? 

- Mas, Mister Chasey, eu garanto-lhe que não sabia nada do que se tratava... 

Cortei.  

- Está bem, está bem, e quando é que recebeste os segundos cinquenta? 

- Hoje à tarde... 

- Hem...!  

- Hoje à tarde. Foi por isso que eu meti dispensa, porque ela tinha ficado de 

mos vir aqui entregar e... 

Não posso adivinhar o que o George observou no meu rosto, mas devia ser 

algo  de  esquisito,  de  muito  estranho,  mesmo.  Coseu-se  de  encontro  à  s  grades  da 

cama e pôs-se a tremer. 

- Não ... por favor! - implorava, e eu mal o ouvia.  

Só falei um bom minuto depois. 

- Ela veio, George? 

 - S ... sim ... Veio. Às cinco. 

- Tens a certeza, George? Tens a certezinha, absoluta? 

- Tenho, mister. Era ela mesma. A oriental que foi ter consigo ao hotel, nessa 

mesma noite... Chama-se Mae Leung, não chama? 

- Como sabes? Ela não to disse, pela certa. Há?  

A arma estremecera  na minha mão, e certamente na  testa dele  também. Os 

olhos abriram-se-lhe desmesuradamente e as palavras vieram entaraineladas. 

- Não... não disse. Descobri eu. 

-  Descobriste  tu,  George...  Porquê?  Como  raio  descobriste  tu  uma  coisa 

dessas, George? 

-  Eu...  eu  quis  saber.  Ela  saiu  do  seu  quarto  na  manhã  seguinte,  às  sete 

horas... à hora que eu largava. Quis saber quem era, só isso, e fui atrás dela. 

- Porquê, George, rapaz esperto? 

- Porque... eu...  

-  Querias  ver  se  podias  jogar  com  um  pau  de  dois  bicos,  não,  rapazinho 

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habilidoso... A coisa cheirou-te mal, e tu reflectiste que pelo sim pelo não talvez te 

viesse a ser útil descobrir o outro lado do jogo. Mas não te serviu de nada, pois não, 

George? 

- Não - respondeu ele -, ela foi ontem embora. 

- Pois foi, rapaz. Voltou hoje, no entanto, para te entregar a massa. Podias ter 

continuado o jogo de escondidas. Por que razão não o fizeste? 

-  Ela  ameaçou-me,  Mister  Chasey.  Desconfiou  que  eu  podia  ter  ideias  e 

ameaçou-me... 

Agora, sim, eu conhecia a história. Nada que eu não esperasse. A não ser o 

desfecho. Mae Leung em Hong-Kong. Esta tarde. Só me faltava uma achega. 

- A morada dela, George. 

- Não... por favor ela... ela... 

-  Sim,  George.  A  morada  dela.  E  não  tens  de  recear,  rapaz.  Porque  eu  vou 

daqui direitinho falar com a dama, e se tu sabes utilizar a experiência própria hás-de 

raciocinar  que  depois  da  minha  conversa  com  essa  senhora  ela  não  ficará  com 

vontade de te vir incomodar. Compreendes o que quero dizer, não compreendes? 

Assentiu, conformado. Presentemente, este estava por tudo. 

- Sim ... a morada é 210, Narchang Street. 

Aliviei a pressão e acabei por retirar a Walter da testa dele. Apostaria que o 

líquido que lhe encharcava o rosto distorcido não era só água. Levantei-me da borda 

da cama, guardando a arma no bolso do casaco. 

-Okay, amigo. Continua a dormir. Obrigado por tudo. 

Andei  para  a  porta.  Detive-me  com  a  mão  no  trinco,  a  fitá-lo 

pensativamente. 

-  Tens  ainda  os  cinquenta  dólares,  não  tens?  Fez  que  sim  com  a  cabeça.  -

Bom - disse eu. - Chega e sobra para pagar a arma. 

Saí, puxando a porta. Pobre George. A Walter fazia chumaço no bolso. Já ia 

a descer quando me ocorreu uma coisa. Tornei a subir, e abri a porta para atirar o 

maço de tabaco para cima da cama. Gosto de cumprir o que prometo. 

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CAPÍTULO XIII 

 

Encetei  o  maço  suplementar,  sacudi  um  cigarro  para  a  boca  e  acendi-o.  Só 

depois premi o botão dourado da campainha. 

Quem  veio  abrir  foi  um  miúdo  chinês  muito  cómico.  Mirou-me  de  baixo 

para cima, e em sentido inverso quando alcançou o topo. Baixei-me. 

- Miss Leung - soprei-lhe, juntamente com uma baforada que o fez tossir. 

- Miss Leung não pode atender - anunciou ele em voz tão fina que me entrou 

por um ouvido e saiu pelo outro. 

- Ah, não? - disse eu, ao mesmo tempo que encostava a biqueira do sapato à 

ombreira. - E porquê? 

- Miss Leung toma banho - esclareceu.  

Observei: 

- Óptimo. Então talvez eu possa ir falar com ela à banheira! - Espetei o dedo 

mínimo no ar. - Só uma palavrinha... 

- Está bem. Eu ir avisar. - Mas anunciou: - Porta fechada. - E tentou cumprir. 

A biqueira não deixou. 

- Há, há - disse eu, brincalhão. - Porta aberta.  

-Ir dizer a miss! - e desapareceu correndo.  

Introduzi-me e fechei a porta. Porta fechada. Os meus olhos passearam em 

redor. Miss Leung vivia bem. Até à altura, pelo menos. Esta era a sala de entrada, 

que  devia  servir  para  receber  as  visitas.  Confortável.  Estilo  oriental  americanizado, 

com  todos  os  ingredientes  -  televisão,  bar,  gira-discos,  sofás  estilizados  e  ar 

condicionado. O apartamento pelos vistos não era grande, e se eu não me enganava 

aquela porta ao fundo dava para o quarto dela, e contígua a este devia existir a casa 

de banho. 

Andei  sobre  a  alcatifa  até  à  entrada  do  quarto.  Era  decorado  em  estilo 

oriental  puro,  com  biombos,  cama  de  dossel,  arca  riquíssima  e  tudo  o  mais.  O 

barulho que reconheci como sendo de água a cair de chuveiro parou, no momento 

preciso em que o miúdo sala de lá afogueado. Ficou sem respiração ao dar comigo 

ali. Quando recuperou o fôlego ameaçou, apontando o banheiro: 

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- Miss vem pôr lá fora!  

-  Okay  -  tranquilizei-o.  -  Sabes  o  que  é  isto  aqui?  -  inquiri 

despreocupadamente, abrindo a porta do pesado guarda-vestidos. 

- Roupeiro - gritou. - Não mexe! 

-  Está  bem,  não  mexo.  Mas  se  queres  ver  a  coisa  mais  engraçada  deste 

mundo, chega cá. 

Veio  desconfiado,  mas  chegou-se.  Era  o  que  eu  pretendia.  Peguei-o  pelos 

fundos das calças e pela gola do casaco, enfiei-o lá dentro e fechei a porta à chave. 

O  que  se  seguiu  foi  uma  barulheira  infernal  que  logo  deu  lugar  a  um  choro 

convulsivo.  Tive  dó  dele.  À  cautela  observei  os  orifícios  que  se  abriam  no  cimo. 

Não haveria novidade. 

Desviei a vista para a saída da casa de banho exactamente na altura em que 

Mae  saía  de  lá,  o  corpo  esguio  embrulhado  numa  toalha  felpuda  que  apenas  lhe 

cobria  metade.  Os  cabelos  negros  e  compridos  caíam-lhe  molhados  ao  longo  da 

face,  e  gotículas  de  água  escorriam-lhe  sobre  a  pele  dos  braços  e  das  pernas  bem 

feitas. 

Mae não teve um gesto ao ver-me. Um ligeiro estremecimento, somente. Os 

lábios carnudos disseram: “Al”, e ela ficou ali, parada, sem acreditar. 

- Sim, Mae. Sou eu. Al Chasey. Desta vez reconheceste-me ... 

Deu  um  passo,  outro,  e  outro,  até  ficar  perto  de  mim.  Pude  aspirar-lhe  o 

perfume do sabonete no corpo nu. 

- Al...  

Desentalei o cigarro de entre os dentes, conservando-o preso entre o polegar 

e o indicador. 

- Precisamente, “Flor”... sou eu. Ou tenho de te mostrar o passaporte? 

Os  lábios  distenderam-se  devagarinho  para  comporem  o  sorriso,  que  lhe 

deixava os dentes muito brancos e pequeninos à mostra. 

-  É  que...  Al...  eu  não  esperava.  Como  soubeste  a  minha  morada?  É  uma 

surpresa tão grande. 

Grande víbora.  

- Essa foi pelo menos a minha intenção - afirmei.  

Ela  readquiria  a  presença  de  espírito  muito  mais  rapidamente  do  que  eu 

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poderia esperar. No guarda-fatos o rapazinho continuava a choramingar. Mae olhou 

para o móvel e depois para mim, com as sobrancelhas arqueadas.  

- Al... não me digas que... 

Pretendeu  dirigir-se  para  lá.  Encontrou  a  minha  perna  atravessada  no 

caminho. 

Deixou-se estar, o corpo encostado ao meu, e eu comecei a sentir a excitação 

aumentar  gradual,  intensamente.  Não  precisamente  o  gênero  de  excitação  que  ela 

me  provocara,  dois  dias  atrás.  Era  diferente.  Desejo,  sim,  doseado  com  repulsa  e 

desprezo. Não era ódio sequer. Nós não odiamos um réptil. Podemos, no entanto, 

desejar a pele de uma cobra para mandar fazer uma carteira. Mais ou menos isto, eu 

sentia  em  relação  a  Mae.  Uma  víbora.  Em  gestos  perfeitamente  controlados 

abandonou o corpo num relaxamento sensual e deixou que a toalha escorregasse um 

pouco, ao mesmo tempo que falava roucamente, pronunciando algo a que eu nem 

cheguei a prestar atenção, porque associei as atitudes e o  som das palavras ao que 

ficara para  trás.  O nosso encontro no Golden  Bamboo. A  cena  preparada com os 

marujos franceses.  As frases doces de Mae.  “Gosto  de  ti, americano. Por isso vou 

contigo. Não é por dinheiro.” Claro que não era pelo meu dinheiro. Mas quanto lhe 

pagara o governo chinês? 

A raiva penetrou-me nas veias e apossou-se-me de cada fibra. Todo eu fiquei 

de súbito tenso como uma corda esticada e nesse preciso instante, numa fracção de 

segundo, toda a energia acumulada se descarregou na forma da bofetada bestial que 

a  minha  mão  direita  vibrou  na  cara  dela.  A  pancada  apanhou-lhe  com  violência  a 

região  do  ouvido.  Ela  soltou  um  grito  de  dor  atroz  e  foi  brutalmente  atirada  ao 

chão.  Ali  ficou,  o  corpo  liberto  da  toalha,  as  mãos  a  comprimirem  a  cabeça, 

gemendo em estado de semi-inconsciência. 

Eu recuperei o domínio de mim próprio. Curvei-me, apanhei-a por um braço 

e  deixei-a  tombar  em  cima  da  cama,  a  soluçar.  Esperei  um  bocado.  Em  seguida 

agarrei-a pelos cabelos molhados, de forma a voltar-lhe a cabeça para cima. O rosto 

alterado  virou-se  para  mim  e  os  olhos  cobertos  por  espessa  cortina  de  lágrimas 

procuraram os meus, exprimindo dor, surpresa e angústia. 

- Mae, minha linda, escusas de continuar a comédia. Eu sei tudo. E tu sabes 

que eu sei. 

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Limitou-se a continuar com o choro, agora silencioso. Levei o cigarro à boca 

e chupei-o até a ponta incandescente se tornar maior e mais brilhante. Fui à beira da 

cama e sentei-me, inclinado sobre ela, o cigarro apertado nos dedos apontando-lhe o 

rosto. 

- Mae. Viu a ponta em brasa, e a cabeça e o tronco tiveram uma contracção 

desesperada.  Segurei-lhe  o  pulso  com  força,  torcendo-lho.  Deixou  escapar  um 

gemido. 

- Al - soltou num murmúrio dolorido. - Como sabes? 

-  Não  interessa.  Não  vim  aqui  para  responder,  mas  sim  para  saber  as 

respostas. E és tu que as vais dar. Não vais, “Flor”? 

Rodou  lentamente.  A  respiração  descontrolada  fazia  os  seios  perfeitos 

agitarem-se. Levantei-me para ir buscar a toalha ao chão e cobri-Ia. A cadela tentou 

então  o  que  nunca  lhe  devia  ter  passado  pela  cabeça.  Fugir.  Para  onde,  não  sei. 

Talvez chamar alguém, ou buscar uma arma. Eu rodei num reflexo, finquei os pés e 

catapultei o corpo. Quando ela ia a passar a porta, os meus braços arrebataram-na 

pela  cintura  e  Mae  rebolou  na  alcatifa,  acabando  por  imobilizar-se  com  as  pernas 

dobradas em posição estranha e os braços estendidos por cima da cabeça. 

Ergui-me,  pisei  com  a  ponta  do  sapato  o  cigarro  que  caíra  e  levei  a  mão  à 

fivela do cinto. Desprendeu-se rapidamente. Dei um puxão e a fita de couro saiu. 

- Levanta-te.  

Custou  a  pôr-se  de  pé.  Mas  acabou  por  o  conseguir,  apoiada  ao  fecho  da 

porta, a expressão aterrorizada deformando-lhe a face. Apanhei a toalha do chão e 

atirei-lha. Enrolou-se nela e caminhou custosamente até à  borda  da cama, onde  se 

deixou tombar, o corpo sacudido por tremores convulsivos. 

Agitei o cinto, vagarosamente.  

- Vais falar, não vais, Mae?  

Trincou o lábio inferior com os dentes pequeninos e brancos. 

- Que queriam eles de mim? 

O  lábio  adquirira  um  tom  esbranquiçado.  As  faces,  desde  o  principio  que 

haviam perdido a cor. 

- Tens dez segundos, “Flor”.  

Observei  no  relógio  o  movimento  rápido  do  ponteiro.  Passaram  sete,  oito, 

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nove segundos. No seguinte o cinto descreveu um longo arco no ar e foi marcar-lhe 

a  pele  das  coxas  num  estalo  seco  que  ecoou  nas  paredes  do  quarto,  quase 

coincidindo com o grito lancinante que ela soltou. Teve uma contorção súbita, e as 

mãos  levou-as  desvairada  ao  sítio  da  ferida.  Não  tardou  muito  que  o  vergão 

adquirisse uma cor arroxeada. Cor feia destoando na pele morena. 

- Isto não é nada. Sei fazer muito pior. Portanto, Mae: que pretendiam eles de 

mim? 

-  Não,  Al...  não!  -  gritou  numa  súplica  histérica.  -  Não...!  Eu  falo,  digo-te 

tudo. Mas não faças isso... Por favor, Al - implorou entrecortadamente por entre os 

soluços. 

- Okay. Estou à espera. 

- Foram... eles... que me mandaram ... 

- “Eles” quem? 

- Os serviços... do governo.  

- Serviços, de quê? 

- De segurança.  

- Que queriam eles de mim?  

Ajustou mais a toalha em torno de si, como se os arrepios que a percorriam 

fossem de frio. 

-  Nada  ...  em  particular,  Al.  Pensaram  unicamente...  que  tu  poderias...  ter 

interesse. 

Soltei uma gargalhada. Soou-me mal, porque eu não tinha vontade de rir. 

- E por que diabo havia de eu ter interesse para vocês? 

- Porque... - fungou, limpando os olhos na ponta da toalha. - Porque ... 

- Queres um cigarro?  

Disse que sim, e eu estendi-lhe um que saía parcialmente do maço, e dei-lhe 

lume. Inspirou nervosamente um bom bocado, expelindo a pouco e pouco o fumo 

pelo nariz e depois pela boca. Aparentemente, foi um tranquilizante, pois em breve 

os tremores diminuíam e a aparência do seu rosto normalizava-se. Meti o cinto no 

lugar,  apertei  a  fivela  e  acendi  outro  cigarro  para  mim.  Precisava  também  de 

afrouxar a tensão. 

- Continua, Mae.  

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Prosseguiu,  mais  calma  já,  embora  a  espaços  um  soluço  lhe  subisse  na 

garganta abafando-lhe a voz. 

- Eu trabalho na secção de Hong-Kong há três anos. Não sou importante lá 

dentro,  embora  por  vezes,  como  neste  caso,  me  encarreguem  de  dirigir  uma  ou 

outra missão de mais responsabilidade. Conheço bem a língua inglesa ... 

Sim, uma coisa era certa: o inglês que ela agora falava era muito mais perfeito 

que o americano com sotaque de há oito dias. 

- Há três dias eles tiveram conhecimento de que, para o Congresso em que o 

teu jornal tomava parte, o Sun enviara, em lugar do seu correspondente no Extremo 

Oriente,  um  repórter  criminal.  isso  despertou  certas  suspeitas,  e  o  teu  nome  foi 

investigado.  Os  serviços  descobriram  que  tu  já  estiveras  por  diversas  vezes  em 

contacto  com  departamentos  da  vossa  secretaria  de  Estado.  Foi  razão  suficiente 

para  me  mandarem  seguir  os  teus  passos  e  procurar  saber  o  que  na  verdade  te 

trouxera a Hong-Kong. 

Era de gritos! As minhas orelhas pareciam radares, a querer captar cada onda 

sonora. Ih, mãezinha, o que a malta se ia fartar de rir lá em casa! 

- De que te ris, Al?  

Caí em mim, e apertei os dentes.  

- Nada. E depois?  

Chupou o cigarro e sacudiu os cabelos para trás das orelhas. 

- Depois, coube-me representar o papel... - confessou. 

- E de que maneira! - comentei. - Nunca experimentaste o teatro, Mae? 

Ergueu bruscamente a cabeça e prendeu aos meus os olhos ainda húmidos, 

brilhando com um fulgor inesperado. Pronunciou com firmeza: 

- Vou continuar a falar. Mas antes, quero que tu saibas uma coisa, Al. Senti 

por  ti  aquilo  que  te  disse,  nessa  noite.  Estás  no  direito  de  acreditar  ou  não.  No 

entanto,  mesmo  que  não  acredites,  e  me  batas  por  julgares  que  eu  estou  a  mentir, 

não retirarei o que acabo de afirmar. Gostei de ti. E tenho a certeza de que não és 

mau. Tentaste parecê-lo, para me obrigar a falar, e és capaz de continuar a fazer-me 

mal, como disseste. Mas eu sei que, lá por dentro, isso te desgosta. Esse é um dos 

motivos porque gosto de ti. 

Conservou ainda por segundos os olhos presos aos meus. Depois disse:  

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-  Continua a perguntar. 

- Vamos por ordem. A agressão, no hotel - sugeri. 

-  Mandei  agentes  nossos  revistarem-te  o  quarto.  Descobriram  o  sobrescrito 

que  continha,  entre  outros  documentos,  o  passaporte  falsificado  destinado  à  tua 

passagem para a China. 

-  Por  que  razão  não  me  impediram  de  prosseguir  viagem,  e  se  limitaram  a 

dar-me uma sova? 

Acenou negativamente a cabeça.  

-  Nós  não  queríamos  impedir-te  de  transpor  a  fronteira,  mas  apenas 

conhecer  o  que  te  levava  lá.  A  agressão  aconteceu  simplesmente  porque  os 

surpreendeste  quando  não  o  esperavam,  e  não  tiveram  outra  alternativa.  Nós 

queríamos  que  tu  fosses,  visto  que  era  o  único  processo  de  descobrir  qual  a  tua 

finalidade, e o melhor para te apanharmos... 

Boa.  Possuíam  miolos,  os  demónios,  e  sabiam  como  usá-los.  Ocorreu-me 

uma ideia. 

- A maleta do dinheiro.. Deram com ela, certamente. Por que não a levaram? 

- Não nos interessava fazê-lo. Primeiro, porque isso te levaria a modificar os 

planos para a viagem. E segundo, porque era dinheiro que entrava no país. 

Verdadinha, que eu estava a apanhar uma barrigada de gozo! Os espertalhões 

não haviam topado sequer que o dinheiro era falso... 

-  Passemos  a  falar  dos  contactos  que  estabeleci  à  minha  chegada  a  Hong-

Kong. Rita Grahame e Wu Tchao. Se me seguiram todo o tempo, investigaram-nos 

pela certa... 

-  Sim  -  anuiu.  -  Superficialmente,  no  entanto,  visto  que  não  podíamos 

levantar suspeitas e, desde que soubemos da tua ida a Cantão, todo o nosso interesse 

se concentrou em ti. Tu bastavas para nos levar ao que pretendíamos. Aos outros, 

os que estivessem envolvidos, poderíamos deitar-lhes a mão mais tarde. Por isso, o 

primeiro objectivo eras tu. 

- Não elaboraram então um dossier sobre os outros? 

- Não. 

-  Vieram  a  descobrir  contudo  que  o  assunto  não  tinha  nada  com 

espionagem... ? 

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- Sim. 

- Quando? 

- Em Cantão. Investigamos tudo o que se relacionava com Pamela Wong. 

Inspirei fundo. O cigarro chegara ao fim. Acendi outro na ponta deste e fui 

amachucar  o  que  restava  no  cinzeiro  da  mesa-de-cabeceira.  Mae  seguiu-me  com  o 

olhar. 

- Okay. O que nos leva a Shumshum. Que fazias tu na estação? 

- Tinha-te seguido desde Kowloon. 

- Aquilo foi um descuido imperdoável da tua parte, não foi, Mae? 

- Foi - admitiu. - Não contava que voltasses a sair da carruagem. 

- Bom - disse eu. - Continuemos em Shumshum, ou antes, passemos de novo 

por  aí,  na  viagem  de  volta.  Por  que  motivo  me  detiveram,  sob  aquele  estúpido 

pretexto,  uma  vez  que  haviam  concluído  de  não  estar  metido  nesse  negócio  da 

espionagem?  Podiam  tê-lo  feito  com  muito  maior  limpeza  sob  a  acusação  de  ter 

entrado na China ilegalmente, ou de participar em actividades ilícitas, como seja essa 

transacção engendrada... 

Reflectiu antes de dar a resposta. Esta principiou com uma pergunta. 

- Al... soubeste da fuga daquele cientista do meu país para Hong-Kong, num 

grupo de outros refugiados? 

Aquela notícia do jornal de há três dias... era a isso, precisamente, que ela se 

referia. Assenti. Adiantou: 

- Era muito importante para o meu governo. Extremamente importante, pela 

posição  que  ocupava,  política  e  cientificamente.  Precisávamos  reavê-lo,  custasse  o 

que custasse. Sabes como se resolvem esses assuntos - por troca. Necessitávamos de 

ter  em  nosso  poder  outra  ou  outras  pessoas  importantes,  ou  pelo  menos  de  certo 

valor, para podermos estabelecer conservações com o governo britânico. Aí surgiste 

tu. Se por um lado a actividade a que estavas ligado não apresentava para o meu país 

interesse nacional, por outro nós tínhamos em ti alguém que poderíamos utilizar em 

troca. 

Profundamente lisonjeado, era como eu me sentia Eu, importante. Vejam lá 

onde  um  tipo  chega  sem  dar  por  isso!  Abstive-me  de  qualquer  comentário, 

limitando-me a observar: 

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-  Bem,  isso  explica  porque  me  prenderam,  e  não  o  pretexto  de  que  se 

serviram  para  o  fazer,  ou  a  fita  de  me  deixarem  passar  e  só  depois  desatarem  a 

correr atrás de mim. 

- Foi tudo estudado, Al. Preparado até ao mínimo detalhe. Assim, os Serviços 

decidiram  que  a  detenção,  sob  o  pretexto  da  tua  entrada  ilegal  no  país  com  a 

finalidade  de  levar  a  cabo  actividade  ilícita,  não  poderia  de  forma  alguma  ser 

apresentado  às  autoridades  ocidentais,  nomeadamente  às  britânicas.  Nós  sabíamos 

perfeitamente que, se te encontravas relacionado com tais actividades, se trataria de 

um episódio do teu trabalho profissional. Não passaria pela cabeça de quem como 

nós investigara a tua carreira, e até questões de aspecto pessoal, que logo à chegada a 

Hong-Kong  te  viesses  meter  em  negócios  de  estupefacientes.  Portanto,  se  nós  é 

ramos os primeiros a não o aceitar, os serviços ingleses rir-se-iam de nós, e mesmo 

que  insistíssemos  investigariam  o  caso  e  acabariam  por  acusar-nos  de  te  ter 

raptado... 

Muito interessante. Faltava no entanto assentar no resto. 

- O pretexto inventado... 

- Era bom como qualquer outro, Al... desde que não fosse verdadeiro e não 

houvesse por conseguinte possibilidade de ser investigado. E não a haveria, com a 

minha saída, hoje mesmo, de Kowloon. 

Fui  formando  anéis  de  fumo  sobrepostos,  até  o  meu  cérebro  ter 

compreendido  e  registado  tudo  e  sinalizando  quais  as  falhas  que  ainda  existiam. 

Havia-as, e importantes. 

- Não detiveram o dinheiro, nem Pamela Wong  

- Não - concordou. - Quanto à questão do dinheiro, suspeitávamos tratar-se 

de  uma  fraude,  contudo  realizada  com  tal  perfeição  que  não  conseguimos  obter 

provas. 

- Vocês, quando não possuem provas, forjam-nas.  

Negou.  

-  Não  num  caso  como  este.  Repara,  a  transacção  foi  efectuada  através  de 

uma firma de comprovada honestidade, em Hong-Kong... Quanto a Pamela Wong, 

passava a ser, desde que transpusesse a fronteira, uma refugiada. No caso de virmos 

a  arranjar  provas  da  sua  participação  como  responsável,  que  julgamos  ser,  no 

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contrabando de drogas, não será difícil para o governo chinês, tal como em relação a 

Wu Tchao, conseguir que seja repatriada. 

- A cena da prisão, em Shumshum? 

- Apenas um processo de iludir a tua companheira de viagem... 

- O assassínio de Rita Grahame, também foi obra vossa? 

- Não - negou terminantemente. - Nem sabemos para quem trabalha. 

- Fernandes. Que sabem sobre ele? 

- Nada, praticamente - declarou. - Negócios legais, ocasionalmente, para uma 

empresa de Kowloon. 

Mae  despejara  tudo  o  que  sabia.  E  mais  do  que  a  lógica,  uma  sensação 

interior  confirmava-mo.  Pressentiu  que  eu  dera  por  terminada  a  conversa  e 

levantou-se, segurando a toalha felpuda que lhe embrulhava o corpo e contornava as 

formas.  Dei  com  os  seus  olhos,  negros,  brilhantes,  lindos.  Entreabriu  os  lábios. 

Encontrava-se próxima. Demasiado. 

- Que vais fazer de mim, Al?  

Reflecti, e acabei por concluir: 

- Dou-te duas possibilidades, Mae: ou rediges imediatamente uma declaração 

contendo tudo o que acabas de me contar, incluindo o nome de todos os principais 

elementos da espionagem dos serviços secretos do teu país actualmente em Hong-

Kong, e voltas amanhã para lá; ou decides ficar, e não terei outra solução que não 

seja  entregar-te  às  autoridades.  E  o  mais  que  posso  fazer  por  ti,  é  atestar  a  tua 

colaboração. A escolha pertence-te. Aceitarei a tua palavra pela decisão que tomares. 

Semicerrou as pálpebras e os lábios distenderam-se num sorriso trémulo. 

- Não tenho muito por onde escolher, pois não, Al?  

- Não - concordei. - Acho que não.  

Correu a mão pelos cabelos, puxando-os para trás, e ergueu a fronte. 

- Fico - disse ela. 

O silêncio caiu sobre nós, ali quietos, em frente um do outro. Fui eu quem o 

cortou. 

- Dás-me a tua palavra?  

Acenou afirmativamente. 

- Dou. 

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- Está bem. É contigo. - Falei sem a olhar. - Adeus, Mae. 

Demorou algum tempo antes que eu ouvisse, sumidamente. 

- Adeus ... Al.  

Do  guarda-vestidos  não  chegava  qualquer  ruído.  Pelos  vistos  o  miúdo 

adormecera,  cansado  de  choramingar.  Rodei  sobre  mim  próprio  e  afastei-me 

depressa  na  direcção  da  sala.  À  porta  do  quarto  detive-me  ainda,  e  virei-me.  Mae 

permanecera no mesmo sítio, seminua, os cabelos pretos e compridos escorrendo-

lhe ao longo do rosto. Sobre os ombros descobertos, o rosto belo de olhos negros 

enevoados. Pronunciou, roucamente. 

- Gosto de ti, Al...  

Atravessei a porta, rumo à saída. 

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CAPÍTULO XIV 

 

A  aragem  que  vinha  de  Victoria  Bay  era  bafo  quente  que  nos  envolvia.  Fui 

descendo sem pressa pelo passeio do lado esquerdo. Um carro de matrícula inglesa 

passou por mim no momento em que eu parava para acender um cigarro e sumiu-se 

rua abaixo. A chama do isqueiro tremia no contacto com a ponta do cigarro. Talvez 

efeito da aragem. Ou da mão que o sustentava. Continuei a andar, e se alguém me 

perguntasse  para  onde,  eu  diria  que  tanto  calhava,  e  um  raio  que  partisse  os 

curiosos. 

- Eh, mister... psst!  

Aquilo era comigo, e a voz era de rapariga, uma voz débil que me chamava 

numa rua onde eu não via ninguém. Mas a voz vinha de trás, e portanto foi para aí 

que eu olhei, quando ela corria já para mim, saída das trevas de uma porta igual às 

outras. Era uma miúda oriental, com duas longas tranças penduradas dos lados e um 

vestido  europeu  que  não  era  dela,  mas  que  servia  perfeitamente  para  o  efeito  que 

pretendia. Porque quando se acercou de mim, agarrando-me a mão, percebi que não 

se tratava exactamente de uma miúda. Teria talvez os seus dezassete anos. Mas para 

uma rapariga de Hong-Kong essa idade é a de uma mulher que sabe como obter o 

que precisa. 

- Mister... vai com pressa?  

Mergulhei  os  meus  olhos  nos  dela,  e  o  mergulho  foi  mais  fundo  e  frio  que 

nas águas da bala. 

- Sim, vou com pressa.  

Saltitava ao  meu lado,  sem me largar a mão, porque eu recomeçara a  andar 

chupando o cigarro com força. 

- Espere, venha comigo!... 

- Não. Tenho pressa.  

- É barato, mister... para si... 

- Não.  

- Dois dólares de Hong-Kong... só. 

- Não.  

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A mão puxou-me a manga com mais força. 

- Menos... um dólar e meio.  

Estaquei de novo, fitando-a. Os olhos negros e brilhantes quase imploravam. 

São bonitas, as mulheres de Hong-Kong. Mesmo estas. Especialmente estas. Até aos 

vinte e cinco, um  pouco mais  talvez, mas não  muito. E elas  sabem-no bem, e por 

isso o cérebro é uma máquina, e o coração deixa cedo de estar lá porque é apenas 

uma peça a entravar o raciocínio. 

- Não - disse eu. - Procura outro, porque eu tenho pressa, e além disso não 

gosto  de  mulheres  que  vêm  atrás  de  mim,  porque  quando  quero  uma  sou  eu  a 

escolher. Percebido? 

Soltei  o  braço,  levei-o  ao  bolso  e  tirei  de  lá  uma  nota  que  lhe  passei  para  a 

mão delgada. 

- E agora, põe-te a cavar ... 

- Mas... 

- Cava!  

- Sim, mas ... não gosta de mim, não? 

- Não. 

- Mas eu posso arranjar outra, mister... Em Mongkok, a minha irmã. É mais 

velha. Melhor do que eu... Não quer outra? 

-  Não.  Nenhuma.  Nem  sequer  tua  irmã.  Percebeste  de  uma  vez,  ou  queres 

levar um par de estalos? 

Calou-se e ficou parada. Mire -a de soslaio. 

- Entendido?  

Sacudiu a cabeça negativamente,  e as tranças balouçaram. 

- Não. Atirei fora o cigarro, cuja ponta se desfez de encontro às pedras em 

faíscas vermelhas, e encolhi os ombros. 

- Então, boa noite!  

Pus-me  a  andar.  Ela  ficou,  durante  um  bom  bocado,  porquanto  quando 

alcancei o extremo da rua e olhei para trás ainda se conservava no local onde eu a 

deixara. 

 

Jaffe Road ainda lá estava. Não se podia dizer que se encontrava exactamente 

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como dois dias antes, quando eu lá estivera, mas o certo é que a rua era a mesma, e 

os prédios também, só que o que faz uma rua não são os prédios, mas sim as gentes 

que  por  lá  circulam,  e  então  Jaffe  Road  era  bem  outra.  Como  qualquer  rua  de 

Wanchai difere da uma da tarde para a uma da manhã. Agora era uma da manhã. E 

eu  seguia  por  Jaffe  Road,  Wanchai.  O  meu  destino  consistia  num  certo  local  que 

dava  pelo  nome  de  Wu  Tchao.  Agora  eu  já  sabia  onde  era,  e  fui  andando  para  lá. 

Mais devagar também que na antevéspera, porque um tipo não pode andar por cima 

das pessoas nem passar por baixo delas. Tem de contorná-las, se for educado, e foi 

isso o que eu fui fazendo, com muito jeito para não ser pisado por outros tipos que 

não são tão bem educados como eu. 

Desta  vez  ainda  foi  preciso  subir  os  degraus  até  à  porta,  residindo  a  única 

diferença em que o sítio era agora um local público, e portanto a porta não estava 

fechada. Por isso não foi preciso bater para atrair o chinês miudinho e transparente 

que dava saltos e gritinhos. O fumo saía lá de dentro como se houvesse incêndio no 

interior. A juke-box fornecia música de jazz, em volume mais alto que o conjunto 

poderia produzir se estivesse desdobrado em quatro por todos os cantos da sala, e o 

espaço desocupado, silencioso e vazio do outro dia parecia ter sido invadido por um 

bando  de  viquingues  em  excursão  costeira  para  se  embebedarem  e  violarem 

raparigas que até gostavam da festa. 

Rodei  a  vista  semicerrada  em  redor  na  intenção.  vaga  de  topar  alguém 

conhecido que só podia ser o chinês matulão e careca, o qual acabei por descobrir 

ao  balcão  sustentando  a  cabeça  enorme  nos  punhos  descomunais.  Fui-me 

aproximando  custosamente  através  da  compota  que  os  homens  e  as  mulheres 

faziam, até que cheguei junto dele. 

- Ouça, amigo... - disse eu.  

Não obtive resposta. Aparentemente o gigante dormia a sesta, e a ser assim 

eu  estava  ao  pé  de  um  tipo  que  na  guerra  era  capaz  de  se  deitar  a  dormir  com 

granadas a rebentarem-lhe à volta. 

Chamei  o  chinês  do  balcão,  o  qual  desta  vez  não  se  encontrava  a  limpar 

copos,  vagarosamente,  mas  sim  a  sujá-los  rapidamente  com  o  líquido  de  mau 

aspecto vertido de uma garrafa castanha. 

-  Eh  -  falei  quando  chegou  perto  -,  não  se  importa  de  acordar  aqui  o  seu 

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amigo, que eu preciso de falar com ele? 

Esfregou  vagarosamente  as  mãos  no  trapo  que  devia  ser  o  da  limpeza  do 

chão, enquanto simultaneamente meneava a cabeça numa lentidão contrastante. 

-  Pode  ser  que  sim,  mister,  mas  eu  cá  não  acredito  -  pronunciou  em  tom 

desalentador. - Já chupou três de há meia hora para cá, e se quer que lhe diga uma 

coisa, acho que três é muito mesmo para um homem como Chu Ling. 

Percebi  ao  que  o  bicho  se  referia  com  aquele  “três”,  mas  só  quando  me 

estendeu um cigarro embrulhado em papel escuro, inquirindo: 

- Quer um? 

 - Não, obrigado - retorqui.  

- Quero é falar com o gajo. 

Teve um gesto de conformismo.  

- O problema é seu. O meu é encher copos.  

E  foi-se  embora,  deslocando-se  miseravelmente  para  o  outro  extremo  do 

balcão. Quanto a mim decidi acordar o zebu, e para isso resolvi que o que tinha a 

fazer era aplicar-lhe um murro valente nas costas. 

Procedi exactamente desse modo, e embora o meu punho direito não tenha 

ficado  em  muito  bom  estado,  não  me  arrependi.  O  grandalhão  começou  com  um 

leve estremecimento, como se tivesse sido incomodado por uma mosca, mas logo a 

seguir o pescoço, se é que ele o tinha, rodou pesadamente, transportando a cabeça 

grande. Quando os holofotes raiados de vermelho ficaram na minha frente rebolou-

os desagradavelmente, escancarou a bocarra num bocejo horrivelmente ruidoso, feio 

e  malcheiroso,  espreguiçou-se  agarrado  ao  balcão,  mas  cuidadosamente,  sem  o, 

arrancar sequer do lugar, e por fim focalizou-me: 

-Wu Tchao? - roncou. 

- Wu Tchao - confirmei.  

Apeou  o  traseiro  do  banco  alto  e  aguentou-se  de  pé,  cambaleando.  Se  o 

parceiro se estatelasse nós íamos todos parar à cave. Não caiu. 

- Venha.  

Fui.  Arredou  o  reposteiro  estampado,  deixou-me  entrar  e  ultrapassou-me 

para  trepar  os  degraus  à  minha  frente.  A  porta  do  lado  direito  do  patamar  estava 

fechada. Chu Ling bateu com suavidade notória, e do interior alguém respondeu que 

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podia  entrar,  de  forma  que  nós  entrámos,  eu  adiante  e  ele  atrás,  depois  do  que  a 

porta bateu e o ferrolho foi corrido. 

Na  sala  havia  pessoas,  e  a  todas  elas  eu  conhecia.  No  sofá  ornado  de 

almofadas  com  desenhos  exóticos  reclinava-se  o  imponente  Wu  Tchao,  as  pernas 

traçadas por debaixo do roupão bordado de ouro, saboreando um cigarro entalado 

nos  dedos  bem  tratados.  Sorriu  ligeiramente,  inclinando    um  pouco  a  cabeça.  Mas 

não  fora  nele  que  eu  havia  reparado  assim  que  transpusera  a  porta.  Pamela  Wong 

encontrava-se  ali,  de  pé  por  detrás  do  sofá,  e  a  sua  presença  era  o  bastante  para 

eclipsar  do  meu  espírito  tudo  o  resto,  porque  nessas  circunstâncias  os  outros  e  os 

objectos  passavam  apenas  a  ser  “o  resto”.  Envergava  colado  ao  corpo  o  vestido 

recoberto  de  pedras  que  a  luz  artificial  do  aposento  fazia  transitar  por  tonalidades 

estranhas,  tons  que  o  esplendor  dos  olhos  dela  ofuscava.  O  olhar  dirigia-se  para 

mim,  intensamente,  e  as  pestanas  longas  foram  descendo,  as  pálpebras  a 

semicerrarem-se devagarinho. 

Tive um pequeno estremecimento e desviei rapidamente a vista para o outro 

ocupante da sala, o jovem Ko Nim, o qual tomava o seu lugar ao lado de Wu Tchao. 

Correspondi à vénia curta com que me cumprimentou e fiquei de pé, aguardando, 

enquanto Chu Ling desaparecia por detrás do biombo. 

Foi Wu Tchao quem tomou a iniciativa, convidando em tom impessoal: 

- Queira sentar-se, Mister Coslow.  

Ocupei  o  lugar  que  me  indicou,  perto  da  mesinha  baixa,  e  ao  fazê-lo  notei 

que Pamela se movimentava igualmente, em direcção ao sofá no outro extremo da 

mesa. 

- Não deseja alguma bebida? - inquiriu o anfitrião. Fiz que não com a cabeça 

e agradeci. - Podemos então falar, não é verdade? 

Remexi-me  um  pouco  no  assento,  a  sensação  de  desconforto  que  me 

assaltara à entrada acentuando-se com a expectativa. 

- Certamente, Wu Tchao. Foi para isso que vim, Fu Ling comunicou-me que 

o senhor desejava ver-me assim que chegasse. 

-  Sim  -  concordou.  -  Transmiti  na  realidade  essas  ordens.  -  E  acrescentou 

friamente.  -  Creio  no  entanto  que  não  foram  rigorosamente  cumpridas.  Não 

concorda, Mister Coslow? 

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Anuí.  

- É verdade, Wu Tchao, e peço desculpa pelo atraso. Havia no entanto certos 

assuntos pessoais que eu tinha absolutamente de tratar antes de vir para aqui. 

Wu  Tchao  inclinou  o  tronco  para  diante  e  a  mão  alcançou  a  cigarreira  de 

madrepérola,  sobre  cuja  tampa  começou  a  desenhar  com  o  dedo  indicador 

arabescos invisíveis, enquanto foi pronunciando secamente, num modo sacudido: 

- Permito acentuar-lhe  um ponto a que não esperava ter de vir a referir-me 

tão cedo, Coslow. - Suspendeu os desenhos para volver os olhos frios para mim. - A 

partir do momento em que passou a pertencer à organização, não vejo que assuntos 

pessoais o possam ocupar. Quer ter a bondade de me explicar este assunto? 

Lancei  uma  mirada  furtiva  a  Pamela  Wong,  que  inesperadamente  desviou  a 

vista para a janela. Tentei um esforço para recuperar o descontrolo momentâneo. 

- Trata-se de uma rapariga, Wu Tchao. O nome dela é Mae Leung e trabalha, 

ou  antes,  trabalhava  para  os  serviços  secretos-chineses.  Travou  propositadamente 

conhecimento comigo, quando da minha chegada, na suposição de que eu poderia 

apresentar interesse para o governo chinês. Fui me até Shumshum, e exclusivamente 

ao  facto  se  deu  que  fui  retido  na  fronteira,  no  regresso  a  Kowloon.  Foi  esse  o 

assunto  que  eu  tive  de  arrumar  à  chegada,  e  por  não  apresentar  ligação  com  o 

trabalho que acabo de efectuar para a organização rotulei-o de “particular”. Espero 

que  a  explicação,  embora  superficial,  o  tenha  satisfeito.  No  entanto,  se  desejar, 

poderei expor em pormenor tudo o que aconteceu... 

Quando  interrompi  o  discurso,  e  embora  nesse  momento  toda  a  minha 

atenção estivesse concentrada em Wu Tchao, pude sentir os olhos de Pamela fixos 

sobre a minha pessoa e, sem que qualquer factor palpável me induzisse em reflexões 

desagradáveis,  o  certo  é  que  a  tensão  crescia  gradualmente,  de  um  modo  físico,  a 

provocar um estado normal de inquietação que procurei dissimular. Entretanto, Wu 

Tchao pronunciou-se. Duas frases apenas. Curtas, duras e frias. 

- Não é necessário. Nós conhecemos todos os pormenores... Mister Chasey. 

Eu  esperava  aquilo.  Desde  que  entrara  que  eu  esperava  aquilo,  ou  algo 

semelhante. Talvez não exactamente assim. Porque se muitas vezes somos nós que 

escolhemos as situações, não podemos nunca prever como a partir delas os factos se 

irão desenrolar. Neste caso foram duas frases apenas. E não obstante o meu cérebro 

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se  encontrar  conscientemente  prevenido,  o  corpo  teve  um  esticão  incontrolado, 

como se as molas do sofá houvessem atravessado o assento, sem que no entanto os 

circunstantes  se  tivessem  apercebido,  e  depois  disso  quedei-me  tranquilamente, 

tracei as pernas e perguntei a Wu Tchao. 

- Dá-me licença que tire um cigarro? 

- Certamente, Chasey. Sirva-se.  

Estendeu-me  a  caixa  aberta  e  eu  peguei  nela,  extrai  um  cigarro  e  voltei  a 

depô-la  sobre  o  tampo.  Depois  cheguei-lhe  a  chama  do  isqueiro,  inspirei 

profundamente,  soltei  de  seguida  uma  longa  espiral  azulada  e  encarei  o  chinês  a 

direito. 

- Bem, Wu Tchao, e agora?  

Ele distendeu os lábios finos, sem me desfitar, ocupou-se por segundos em 

rodar o esplêndido anel do dedo mínimo da mão direita, e após tê-lo feito regressar 

à posição inicial falou ironicamente: 

- Julgo que o problema é mais seu do que nosso, não, Chasey? 

Dependurei o cigarro dos lábios, e as palavras saíram-me envoltas em fumo. 

-  Permita-me  que  discorde.  Não  existirá  igualmente  para  si  um  problema  a 

resolver? 

- Qual? 

- Por favor, Wu Tchao, não vamos jogar com palavras, porque nesse campo 

as  probabilidades  seriam  de  dois  contra  um  a  seu  favor.  Portanto,  tratemos  a 

questão a direito. Como descobriu? 

Pamela  permanecia  na  mesma  posição,  e  dir-se-ia  que  o  espírito  se 

encontrava ausente, porquanto o seu corpo era o de uma escultura sem vida. Apenas 

os olhos transmitiam imperceptivelmente uma mensagem demasiado profunda para 

eu naquela altura tentar ou querer decifrar. 

- Você possui um sangue-frio notável para um ocidental, Chasey - comentou 

Wu Tchao no mesmo tom irónico. 

- Não é para surpreender - expliquei. - Se eu lhe contasse a minha vida desde 

pequenino, até você era capaz de deixar cair uma lágrima. Quanto à justificação da 

minha atitude nestas circunstâncias, pode chamar-lhe preparação psicológica, ou se 

preferir  designe-a,  como  eu  costumo  fazer,  por  um  “não  te  rales,  irmão,  porque  a 

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vida é o mar cujo fundo, mais tarde ou mais cedo, todos irão descobrir”. 

Ele  manifestou  algum  interesse  pela  minha  prosa,  porém  cortou 

imediatamente as divagações formulando uma pergunta: 

-  Que  pretenderia  que  eu  lhe  revelasse  (para  além  do  muito  que  conhece, 

evidentemente) e por que razão deseja que o faça? 

Procurei  o  cinzeiro,  que  não  encontrei,  e  como  o  cigarro  chegara  ao  fim 

havia primeiro que tudo que resolver essa questão. 

- Pode indicar-me um cinzeiro, Wu Tchao? 

- Como? 

- Um cinzeiro, se não se importa - traduzi, apontando o cigarro. 

Pamela  ergueu-se  e  veio  caminhando  suavemente  para  mim,  com  um 

cinzeiro de jade róseo que depôs no braço do sofá. E quando se inclinou para mim, 

aproximando  por  uma  fracção  seu  rosto  do  meu,  pude  aspirar-lhe  o  um  perfume 

incomparável,  e  observar  o  arfar  suave  das  narinas  e  o  ligeiro  tremor  das  mãos. 

Durou  apenas  curtos  momentos,  durante  os  quais  as  veias  se  me  dilataram  e  pelo 

cérebro  me  perpassou  a  recordação  da  noite  anterior,  em  que  a  tivera  nos  braços, 

completamente.  E  agora  ela  encontrava-se  longe  de  novo.  Tão  distante  como  o 

outro lado da sala. Mas já Wu Tchao me chamava polidamente a atenção. 

- Fiz-lhe uma pergunta, Chasey. 

-  Sim,  é  verdade  -  disse  eu,  ao  mesmo  tempo  que  amachucava  o  filtro  do 

cigarro no cinzeiro. - E vou responder-lhe. Primeiro, desejo esclarecer que já nasci 

assim  curioso.  Já  a  minha  avozinha,  que  vive  em  Peoria,  Ilinóis,  se  fartava  de  me 

censurar esse horrível defeito. E foi possivelmente a mania da contradição uma das 

razões que me levaram a esta profissão. A minha avozinha é que ficou desgostosa. 

-  Refere-se ao jornalismo. Que o leva igualmente a meter-se onde não deve... 

-  Perfeitamente.  Segundo,  gostaria  de  saber  como  e  desde  quando  têm 

conhecimento da minha identidade. 

O chinês descruzou as pernas e compôs o roupão. Começou: 

- É um mundo pequeno, este em que vivemos, caro senhor. A frase não é de 

Confúcio,  porque  quando  Confúcio  viveu  o  mundo  era  tão  grande  como  a  sua 

curiosidade. Não que pessoalmente considere a curiosidade um defeito. Chamar-lhe-

ei  antes,  portanto,  o  “desejo  de  saber”.  E  o  desejo  de  saber  tem  sido  a  perda  de 

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muitos homens. Será a sua. Você é jornalista. Tem deveres e obrigações. Perdoar-se-

ia uma intromissão passageira. Nunca uma iniciativa pessoal que tem por fim servir 

os interesses escuros de terceiros na aniquilação de uma sociedade organizada. Foi 

isso  exactamente  que  causou  a  sua  perda.  Uma  sociedade  organizada  à  escala 

internacional tem de conhecer a imprensa à mesma escala. O New York Sun é um 

órgão  conceituado.  E  dentro  do  Sun  existe  um  nome  que  em  determinado  sector 

granjeou  justa  reputação.  O  nome  vem  lá.  E  a  fotografia  também.  Encima  as 

crónicas assinadas por esse repórter. É o seu rosto que lá figura, reproduzido. E o 

seu nome é Chasey. Al Chasey. Estará correcto o raciocínio? 

Assenti.  

- Tem razão, Wu Tchao. É um mundo pequeno, sem dúvida. Mas passou a 

tornar-se ainda muito mais pequeno, para si, a partir do momento em que eu fiquei 

dentro de certos aspectos dos seus negócios... 

Wu Tchao levantou-se em gestos perfeitamente controlados, e pausadamente 

contornou a mesa e veio colocar-se perto de mim, um pouco atrás do sofá que eu 

ocupava. O meu campo de visão ficou assim limitado a Ko Nim e Pamela, ambos 

dando  a  impressão  de  ausência,  sobretudo  Pamela,  o  que  me  fazia  sentir 

absolutamente só, triste e infeliz. 

-  Engana-se,  Chasey.  É  você  apenas  quem  irá  sofrer  as  consequências. 

Porque  a  partir  do  momento  em  que  o  senhor  desapareça,  a  nossa  organização 

continuará,  e  com  uma  garantia  que  nos  foi  proporcionada  por  si:  a  de  que 

desaparecerão os competidores. 

Rodei  o  pescoço  para  o  encarar,  porém  a  posição  resultava  demasiado 

incómoda, de maneira que tornei à pose anterior. 

-  Não  será  abusar  da  sua  paciência,  Wu  Tchao,  se  lhe  pedir  que  me  troque 

isso por miúdos? 

- Absolutamente. Aliás, você sabe perfeitamente onde quero chegar. Alguém 

o  encarregou  de  nos  aniquilar.  Pois  bem,  o  tiro  saiu  pela  culatra.  Não  sei  se  me 

compreende agora... 

- Rita Grahame? - deixei cair.  

Silêncio. Depois:  

- Por exemplo, Chasey. Vejo que faz progressos.  

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- Liquidaram-na, não foi?  

-  Por  favor...  não  empregue  essa  palavra.  É  demasiado...  violenta.  Digamos 

antes que... 

Dei um safanão no sofá e levantei-me de um pulo, virado para o chinês. 

-  Vá  para  o  diabo,  seu  assassino,  com  as  suas  palavras  escolhidas!  O  diabo 

que o carregue, e mais aos seus maneirismos, chinês de uma figa. Diga-me só uma 

coisa: por que raio não me liquidaram a mim também, hem? 

A minha cara não devia ser bonita de ver, mas o esgar que lhe deformou o 

rosto também não convidava. Eu espumava ódio, o ódio que viera avolumando, e 

dentro  o  tão  em  pouco  iria  explodir  e  não  ficaria  um  pedaço  inteiro  de  chinês  ali 

dentro. 

O amarelo pronunciou: - “Chu Ling”, ao mesmo tempo que os dedos se lhe 

sacudiram  num  estalido  seco.  Então,  dois  movimentos  se  produziram  na  sala. 

Coincidindo com a saída de Pamela e de Ko Nim, deu-se a entrada do grandalhão 

de cabelo rapado. Materializou-se de trás do biombo, o corpo de gorila balouçando, 

e  com  ele  as  mãos  grossas  penduradas  ao  longo  das  pernas.  As  mãos  não 

empunhavam qualquer arma, mas também não vinham nuas. A direita, sobretudo. E 

a placa de metal de pontas aguçadas que lhe protegia os dedos não constituía apenas 

decoração. 

Wu  Tchao  pronunciou  entretanto,  nervosamente,  num  esforço  nítido  de 

autodomínio. 

-  Vou-lhe  dizer  porque  o  poupamos,  Chasey.  Porque  sabíamos  que  iria 

desempenhar-se capazmente da missão de que o incubiríamos. Portanto, até ao seu 

regresso,  a  sua  experiência  apenas  nos  poderia  ser  proveitosa.  Até  este  momento. 

Até já, Mister Chasey.  

E para o grandalhão 

- Chu Ling, leva-o para baixo. E sabes o que tens a fazer. 

O gigante soltou um ronco de prazer e deu duas passadas na minha direcção, 

fazendo  festas  nos  nós  da  mão  direita.  Wu  Tchao  saiu.  Os  meus  olhos 

concentraram-se  nas  pontas  de  aço.  A  minha  perna  direita  recuou,  e  depois  a 

esquerda, cedendo apenas a reflexos comandados pelos nervos tensos do corpo que 

sustentavam. 

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- Vamos descer - grunhiu o gorila.  

- Quem disse, seu filho da mãe?  

A bocarra escancarou-se num jeito de animal selvagem, e o arcabouço pôs-se 

a balouçar mais. Cuspiu na placa de ferro e poliu-a com os pêlos do braço esquerdo. 

- Disse Chu Ling, americano. Vamos descer. Apontou o maxilar para a porta. 

- Vai à frente. 

- Ora essa - discordei delicadamente. - Você primeiro. 

- Vai à frente.  

Fui adiante. 

- Abre.  

Corri o trinco e escancarei a porta. O barulho vindo de baixo chegou até nós, 

e com tal intensidade que nem o tiro de uma Mauser se conseguiria fazer ouvir no 

andar térreo. Considerei as probabilidades, espiando o chinês pelo canto do olho. E 

as probabilidades eram todas contra mim. Porque na mão esquerda dele encontrava-

se bem apertada uma arma, que eu não sabia donde surgira, mas o que interessava 

era que o buraco escuro estava bem apontado para mim. 

- Para a esquerda. Abre a porta.  

Encolhi os ombros, levei a mão à maçaneta, rodei-a e empurrei. 

- Entra.  

Fiz  isso  mesmo.  Mas  logo  a  seguir  estaquei,  porque  lá  dentro  estava  mais 

escuro que as noites de Chicago. 

- Ouve cá, meu estupor, não vejo nada!  

- Escada - proferiu.  

Simultaneamente o objecto fez-me pressão entre duas costelas, e eu passei a 

ver melhor. 

As escadas desciam. Não me dei ao trabalho de testar os degraus, porque os 

degraus estavam podres e o que em primeiro lugar me interessava era chegar ao fim, 

e depois logo se via. 

Chegamos ao fim daí a um bocado, e então  eu dei-me conta de  que  aquela 

era a segunda vez em doze horas que me metiam num buraco negro, desconfortável 

e malcheiroso. Tropecei num caixote, ou lá o que era, e fui esparramar-me de gatas 

no chão de cimento, depois de uma marrada na esquina de outro volume que não 

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devia ser um caixote, ou então a madeira era dura de mais. 

- Acenda lá a luz, ó filho de um dragão com cornos! resmunguei entre meia 

dúzia de palavrões, enquanto fazia força para me pôr de pé. Quando o consegui já a 

luz se acendera numa vela de estearina que o chinês inflamara, possivelmente com 

um sopro. Aproveitei para dar uma olhadela pelo ambiente. Não gostei. Chão, tecto 

e quatro paredes, tudo de cimento, do rijo. As escadas conduziam de um dos cantos 

até  acima,  e  a  porta  lá  de  cima  devia  ser  forte  e  encontrar-se  bem  trancada.  A 

mobília era pobre. Dois caixotes para dar comodidade, e uma viga de ferro do chão 

até ao tecto e que servia para eu dar cabeçadas no escuro. 

Virei-me  para  o  zebu,  o  qual  se  encontrava  a  um  metro  de  mim.  A  arma 

desaparecera, mas o arcabouço e as mãos descomunais e peludas haviam ficado. E 

as pontas de aço também. 

- Ouve cá, meu filho, se a gente vai pintar as paredes o melhor é começar já, 

que eu tenho mais que fazer. 

O gorila arquejou num rugido fenomenal, o peito alargou-se-lhe todo, de tal 

modo que o oxigénio do cubículo pareceu de repente ter sido todo consumido, e o 

braço incrivelmente grosso inchou mais antes de se projectar repentinamente direito 

ao  estômago.  Valeu-me  estar  de  sobreaviso,  mas  apesar  do  salto  com  que  me 

desloquei lateralmente o punho resforçado raspou as costelas do lado esquerdo, e a 

dor  entorpeceu-me.  O  instinto  da  conservação  é  porém  demasiado  forte,  e  foi  ele 

que me elevou até acima de um dos caixotes. Então, aproveitando a leve vantagem, 

concentrei toda a energia na perna direita e catapultei-a para diante, em direcção  à 

fuça do chinês. 

O barulho produzido foi pouco inferior ao do rebentamento de uma garrafa 

de  gás  butano,  porém  o  efeito  reflectiu-se  com  muito  maior  violência  na  minha 

perna do que na anatomia bestial do gigante, Isso porque o disparo falhou o alvo, 

indo antes atingi-lo no paiol do oxigénio, e o único resultado do lado de lá consistiu 

num suspiro mais ou menos prolongado. Foi aí que eu senti que não havia nada a 

fazer. Nem o karate valia a pena tentar, porque o karate pode pulverizar tijolos mas 

nunca derrubar muralhas. Foi essa a última reflexão profunda que me ocorreu antes 

de  o  pontapé  estrondoso  destruir  o  caixote  onde  eu  me  empoleirara,  fazendo-me 

cair desamparado para a frente, o maxilar inferior como que atraído por um iman de 

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encontro às pontas aceradas do punho que me aguardava. 

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CAPÍTULO XV 

 

A  chamazinha  bailava-me  defronte  da  vista  turvada.  Uma  chama  frágil  ao 

princípio, mas que a pouco e pouco se foi tornando mais e mais intensa, até que as 

proporções  excederam  o  que  os  olhos  podiam  abarcar  e  a  chama  passou  a  ser 

quente,  escaldante,  e  principiou  a  devorar-me  no  rosto,  dilacerando-o  de 

queimaduras  que  torturavam  terrivelmente.  Quis  fugir-lhe,  arrastar-me  para  longe, 

porém se é o cérebro que coordena os sentidos, no meu caso algo tão forte como as 

labaredas  que  me  consumiam  haviam  desligado  a  corrente  que  comanda  os 

impulsos. E eu permaneci sem saber onde, tendo apenas a noção de que as chamas 

me  envolviam  e  não  existia  qualquer  possibilidade  de  me  libertar  do  seu 

estrangulamento, 

O pior era a dor. Dessa infelizmente possuía percepção nítida, e a dor subia 

pelo peito acima, crescendo nos maxilares e na nuca para ir estoirar no crânio, frágil 

como  casca  de ovo.  Havia depois  o líquido. Aquele fluido de composição viscosa, 

que  -se  espalhava  no  queixo  e  por  debaixo  das  labaredas  para  gotejar  sobre  o 

pescoço, escorrendo depois pelo peito abaixo. Acho que era o líquido que afastava 

as  chamas,  visto  que  a  partir  do  momento  em  que  tomei  consciência  dele  o  fogo 

deixou de torturar como até ali. Apenas lambia. Forte e dolorosamente. 

Os  membros  não  doíam.  Ou  porque  já  não  estavam  lá,  ou  então 

encontravam-se  de  tal  modo  entorpecidos  que  o  sofrimento  não  queria  nada  com 

eles. Fosse como fosse, havia que tirar a cabeça de dúvidas. 

Não devia tê-lo feito. Ui, mãezinha, em que triste estado o meu pobre corpo 

devia estar! Os braços e as pernas permaneciam, era certo, mas eu quase desejei que 

tal  não  sucedesse,  porque  me  senti  tão  miserável  que  até  o  estômago  se  revoltou 

contra  a  minha  sorte  e  os  vômitos  treparam  até  à  boca,  trazendo  um  gosto 

desagradável a bílis. 

Tudo  isso  fez  que  eu  fosse  tomando  conhecimento  de  factos  básicos,  tais 

como quem era, como me chamava, onde me encontrava e o que acontecera. Pouco 

após ter alcançado esse ponto de discernimento, os objectos começaram a adquirir 

nitidez através das picadas agudas no rosto. 

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As  chamas  não  existiam.  Ou  antes,  existia  uma  apenas,  e  essa  era  bem 

insignificante  e  provinha  da  vela  de  estearina.  O  tamanho  desta  reduzira-se 

aproximadamente  de  uma  hora.  Os  caixotes  permaneciam,  um  deles  suportando  a 

vela  e  o  outro  transformado  em  pedaços  de  madeira  rebentada.  E  eu,  ali 

esparramado no chão de cimento, o tronco e os membros percorridos por tremores, 

mas,  a  sobrepor-se  aos  tremores,  o  estado  penoso  do  queixo  rebentado  a  escorrer 

sangue  em  fio.  Quis  apalpá-lo,  porém  desisti,  porque  não  é  fácil  levar  as  mãos  ao 

queixo quando elas estão bem presas, algemadas atrás das costas. 

Tentei dominar a dor física, a fim de poder raciocinar sobre a situação. Não 

foi  tão  fácil  como  desligar  o  botão  do  rádio,  mas  a  massa  encefálica  engrenou  e  a 

partir daí as reflexões afluíram. Tudo para, ao fim do espaço de tempo relativamente 

curto para o trabalho que deu, alcançar uma conclusão firme: havia que sair dali. 

O  como  custou  mais  cinco  difíceis  minutos,  no  entanto  valeu  a  pena.  E  o 

plano foi elaborado. Plano ingênuo, que por isso mesmo podia resultar. Para o pôr 

em  prática  havia  apenas  que  resolver  dois  problemas:  acumular  energias  e  em 

seguida atrair alguém lá de fora. Ambos se me afiguravam problemáticos, mas não 

impossíveis. Quanto ao primeiro, era questão de aguardar algum tempo; quanto ao 

segundo, eu apostaria em como do lado de fora da porta, ao topo da meia dúzia de 

degraus, um parceiro fora postado de guarda. E era bem melhor para a minha saúde 

que houvesse apenas um, e ainda melhor se esse não fosse o zebu. 

Deixei o tempo correr de mansinho, e com ele as pingas de cera e o sangue 

que me empapava o queixo e o pescoço. Foi quando ouvi tossir lá fora que a energia 

afluiu decisivamente, e eu ignorei as dores e decidi arrastar-me até à barra de ferro. 

Fi-lo  penosamente,  interrompendo  por  duas  vezes  o  percurso  de  cerca  de  três 

metros, até que Finalmente a alcancei e consegui sentar-me no chão de encontro a 

ela  e  de  frente  para  as  escadas,  o  tronco  de  tal  modo  encharcado  em  suor  que  a 

camisa  rasgada  se  colava  à  pele.  O  contacto  da  caixa  craniana  com  o  metal  frio 

soube-me  agradavelmente,  se  é  que  em  certas  ocasiões  um  sujeito  pode  sentir 

alguma sensação agradável. 

E logo depois comecei a pôr em prática o plano, materializado na forma de 

um roçar das algemas na barra de ferro. O maxilar inferior estava agora dormente, e 

eu  aproveitei  para  esfregar  com  mais  força.  E  com  barulho  também.  Porque  era 

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preciso  que  o  ruído  chegasse  aos  ouvidos  do  parceiro  lá  de  fora.  O  esforço  foi 

crescendo,  e  com  ele  o  som  de  roçar  de  metal  contra  metal.  Não  calculo  quanto 

tempo  me  entretive  assim  distraído,  mas  sei  que,  ou  a  distância  a  que  o  outro  se 

encontrava-se é que do lado de fora havia realmente alguém - era considerável, ou a 

chiadeira que eu fabricava não convencia. Nessas circunstâncias fui acometido por 

um arranque de grande decisão. Sempre encostado à barra logrei alcançar a posição 

que  os  homens  usam,  e  já  de  pé  iniciei  um  friccionar  que  dentro  em  pouco  faria 

saltar faísca. Isso sem  mencionar o barulho que se repercutia pelas paredes. E que 

chegou  ao  exterior  do  cubículo.  Tão  certo  quanto  os  meus  ouvidos  perceberam  o 

ruído  da  porta  a  abrir-se,  e  imediatamente  soube  que  alguém  pesadão  descia  a 

escada. E quem havia de ser? 

O grandalhão veio gingando sobre as mesmas  pernas grotescas, os mesmos 

braços  de  macaco  pendurados  ao  longo  do  arcaboiço,  a  mesma  fuça  de  guarda  de 

campo  de  concentração.  Os  lúzios  examinaram-me  e  a  boca  cavernosa  alargou-se 

até  às  orelhas  de  abano  para  deixar  sair  um  riso  explosivo  que  fazia  lembrar  um 

vulcão  do  Pacífico  em  plena  actividade.  O  gigante  ria.  “Vai  gozando,  irmão”, 

reflecti, enquanto ia enchendo os pulmões de ar. 

- Não és esperto, filho de uma cabra americana - rugiu  o chinês, meneando a 

cabeça com comiseração. 

Encolhi os ombros, desprendidamente.  

- Paciência, irmão. Um tipo tem a obrigação de tentar, não é? 

Roncando sempre, começou a aproximar-se. Precisamente o que eu desejava 

que ele fizesse. Rezava para que isso acontecesse. 

E aconteceu assim. Veio sem pressa. Fitou-me nos olhos. E depois começou 

a contornar-me. Ia examinar as algemas. Os meus nervos tensos começavam a dar 

de si. Os pulmões inchados rebentavam e toda a energia que conseguira acumular se 

concentrou-nos pulsos doloridos. Intensamente. Então o chinês veio atrás. Dei uma 

mirada rápida. Inclinava-se para observar. Tinha de ser agora. 

Tornar-se-ia  interessante  medir  todo  o  potencial  de  força  que  um  corpo 

inferiorizado  pode  ainda  conter  dentro  de  si.  Foi  essa  força  que  impeliu 

selvaticamente, num disparo fenomenal, os pulsos algemados para cima, e que fez o 

ferro  maciço  das  algemas  embater  estrondosamente  no  queixo  do  meu  adversário. 

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O golpe resultou fulminante, porque desta vez eu não subestimara o seu poder. O 

aço amassou-lhe o queixo, verticalmente de baixo para cima, Penso que teria sido, o 

suficiente, porquanto os ossos estalaram, e a despeito de o choque brutal se haver 

reflectido  nos  meus  pulsos,  os  ossos  desfeitos  não  me  pertenciam.  Mesmo  assim, 

para  confirmar,  dei  uma  rotação  rápida,  elevei  o  joelho,  que  afundei  com  fúria 

imensa na pança do suíno, e logo que ele se dobrou para a frente, de língua pendida, 

o outro joelho atingiu o ‘maxilar no mesmo sitio. O resultado fulgurante não se fez 

esperar. Os olhos já parados reviraram nas órbitas e o corpanzil contorceu-se para 

aos poucos se abater, até se ir esmagar violentamente de encontro ao cimento. Ali 

ficou, imóvel, de borco, o focinho amachucado no chão. 

Não havia quinze segundos a desperdiçar. Enfiei a biqueira do sapato sob a 

queixada  do  animal  e  revirei-o  de  barriga  para  o  ar.  Agachei~me  em  seguida  e, 

apesar  de  ter  os  movimentos  presos,  consegui  arranjar  maneira  de  lhe  apalpar  os 

bolsos. Procurava algo que não encontrei. Uma chave que me pudesse libertar das 

algemas. Topei somente a arma, entalada no cós das calças, e apoderei-me dela. Não 

que  constitua  empresa  fácil  um  tipo  disparar  de  costas,  porém  com  um  pouco  de 

boa  vontade  arranjei  processo  de  conseguir  mantê-la  apertada  na  mão  direita  e 

deslocar  lateralmente  ambos  os  braços  de  forma  que  o  cano  curto  emergisse  para 

diante, apoiado na cintura. E isso já constituía uma vantagem. 

Foi quando me preparava para abandonar o local que o som de passos leves 

me  chegou  aos  ouvidos,  de  início  confiantes,  depois  suspensos,  e  por  fim 

cautelosos,  à  medida  que  se  aproximavam  da  porta.  Os  passos  iniciaram  depois  a 

descida  dos  degraus,  lentamente.  E  eu  levei  o  dedo  ao  gatilho  e  apertei  com  mais 

força a coronha. 

Então  os  sapatos  surgiram,  em  seguida  as  pernas  e  logo  todo  o  resto.  A 

tensão aliviou. Não a pressão na coronha.  Quem vinha descendo era  uma mulher. 

Que eu conhecia. Pamela Wong. Cravou os olhos, primeiro no meu rosto, depois na 

arma que eu empunhava com dificuldade. 

- Al... 

- Sim?  

Deu uma breve corrida na minha direcção, sem se importar com o corpanzil 

estendido,  nem  com  a  arma.  Como  se  apenas  eu  lhe  interessasse.  O  corpo 

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aproximou-se do meu, mais e mais, até se colarem, e os braços avelulados rodearam-

me  carinhosamente  o  pescoço  para  em  seguida  as  pontas  acariciantes  dos  dedos 

macios deslizarem pela face massacrada. Podia sentir-lhe o coração bater fortemente 

sob o seio palpitante que se comprimia de encontro ao meu peito. A cabeça descaiu-

me sobre o ombro, os cabelos sedosos roçaram-me a cara, e a sensação transmitida 

por  aquele  simples  contacto  físico  era  tão  agradável  e  reconfortante  que  o  ânimo 

abatido foi recobrado depressa. 

- Al... querido, que te fizeram eles? - inquiriu num murmúrio soluçado, após 

o  que  o  rosto  lindo  voltou  a  fitar  o  meu,  os  olhos  humedecidos  aguardando 

ansiosamente que eu falasse. Afastei-a um pouco, meigamente. 

- Nada de importante, Pamela. Apenas isto - e indiquei o maxilar rasgado. - 

Mas  isso  não  importa.  Neste  momento  o  que  interessa  é  cavar,  e  quanto  mais 

depressa melhor. Podes ajudar-me? 

Fez que sim, enquanto uma das mãos se introduzia numa abertura do vestido 

para logo sair segurando um pequeno objecto que exibiu triunfante. 

-  Trouxe  isto,  Joe...  Al...  a  chave.  Estava  pendurada  na  parede,  lá  fora... 

Volta-te. 

Virei-me. As mãos de Pamela trabalharam agilmente, e daí a quinze segundos 

eu  esfregava  activamente  os  pulsos  magoados,  auxiliado  por  ela.  Os  vincos 

arroxeados  não  desapareceram,  mas  sem  dúvida  que  em  quaisquer  circunstâncias, 

desagradáveis ou não, eu queria continuar a ter aquela mulher bem perto de mim. 

- Onde vais, Al?  

Falei rapidamente. 

- Depende do que tiveres para me dizer. Quem são “os outros”? 

-  Não  sei,  querido.  Juro-te  que  não  sei  -  pronunciou  enquanto  me  passava. 

pelo  rosto  um  lenço  molhado  que  ficou  todo  sujo  de  sangue.  -  “Eles”  não 

pronunciaram  à  minha  frente  uma  palavra  sobre  o  assunto,  e  pela  minha  parte 

poderia tornar-se perigoso mostrar curiosidade. Depois de Chu Ling te trazer para 

aqui, Wu Tchao saiu e ainda não voltou. 

- Como conseguiste vir até cá?  

- Estive todo o tempo acordada, à espera que algo acontecesse. Sozinha não 

podia fazer nada. Decidi por isso que fosses tu a tomar a iniciativa. Sabia que farias 

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alguma coisa, e nessa altura eu viria ajudar-te. Quando senti Chu Ling abrir a porta, 

percebi que devia ter chegado a oportunidade. Oh, Al, como eu sofri, enquanto lá 

estiveste em cima, sem poder avisar-te, e depois, enquanto esperava! 

A  despeito  dos  esforços  não  conseguiu  conter  os  soluços,  que  lhe 

embargaram a voz. 

- Mas quero que saibas uma coisa, querido. - E concluiu com determinação: - 

Teria feito o que fosse preciso para te tirar daqui, em qualquer circunstância... 

- Eu sei, amor - disse, e só no instante que se seguiu me dei conta da palavra.  

-Vamos  sair,  já  -  aconselhou  após  curta  pausa.  -  Eu  vou  à  frente  e  se  o 

caminho estiver livre chamo-te. Não é preciso atravessares a sala do bar. Há outra 

saída. É mais seguro. 

Concordei.  Ela  afastou-se.  Esperei  que  subisse  as  escadas,  e  ouvi-a  chamar. 

Por  precaução,  antes  de  abandonar  o  cubículo,  deixei  cair  a  vista  no  fardo  que 

começava  a  dar  indícios  de  vida,  na  forma  de  um  arquejar  animal.  Abaixei-me, 

apanhei  as  algemas,  segurei  por  uma  extremidade  e  fiz  a  outra  descrever  um  arco 

que teve início acima da minha cabeça e terminou abruptamente de encontro à do 

chinês. Reflecti por um momento, e quando concluí que já tinha a sua conta dei-lhe 

as costas e rumei para onde Pamela me aguardava. 

Respirei fundo quando cheguei ao patamar. 

-  Sai  por  aqui  -  sussurrou,  indicando-me  uma  porta  baixa  que  se  abria  na 

parede a meio do segundo lanço de escadas. 

Segurei-lhe a mão, que apertei com força. 

- Okay, Pamela. Obrigado. Tens a certeza de que não corres perigo, ficando 

aqui? 

- Não. Chu Ling não se deu conta de nada, e podias perfeitamente ser tu a 

desembaraçar-te das algemas. 

Um pensamento súbito me ocorreu. 

- Mas ... nesse caso eu deixá-las-ia cá em cima, e não onde ficaram! 

- Não te preocupes, Al - tranquilizou. - Eu trago-as para cima. 

- Bem...  

- Para onde vais?  

- Não sei ... Dentro da cabeça tenho tudo em desordem! Acho que primeiro 

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que tudo vou para o hotel, pôr um aspecto apresentável. Que horas são? 

- Três. Três da manhã... Bonita noite!  

-  Achas  que  podes  ir  ter  comigo,  Pamela?  -  perguntei,  numa  decisão 

incontida. 

-  Sim  -  respondeu-me  imediatamente.  -  Quero  ir  ter  contigo.  Antes  disso 

tenho  de  tratar  de  uma  coisa  importante,  mas  depois  vou  ter  contigo,  aonde 

quiseres. 

- Sabes a que horas fecham os bares de Kowloon? inquiri. 

- Penso que a maioria se mantém aberta até às seis, ou sete. Porquê? 

-  Porque  não  é  aconselhável  ires  ao  Bay  View.  Poderias  antes  encontrar-te 

comigo  no  Golden  Bamboo.  Fica  na  mesma  rua,  em  Cameron  Road,  um  pouco 

mais acima. Às quatro e meia, pode ser? Espero-te num reservado. 

Acenou afirmativamente.  

- Está bem. Às quatro e meia. Colden Bamboo, não é? 

Confirmei e fiz menção de me pôr a andar. Sustive-me entretanto. 

- Ouve, Pamela: sobre aquilo que me disseste teres de resolver... não te metas 

em mais sarilhos por minha causa, ouviste? 

- Está bem, querido. Dá-me um beijo?  

Quem  poderia,  mesmo  num  covil  de  leões,  resistir  àqueles  lábios?  Beijei-a. 

Muito ao de leve, porém. Quer dizer, fiz por beijá-la. 

- Toma cuidado contigo, Al - pediu, quando as nossas bocas se descolaram. 

- Sim. E tu também. Até logo.  

- Até logo. E... tens a certeza que ele não acorda? 

- Hum - respondi negativamente. - Nem mesmo contigo ao lado. 

Sorriu-me em despedida. Rodei o fecho e saí. 

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CAPÍTULO XVI 

 

Decididamente  o  empregado  da  tarde  do  Bay  View,  o  tal  que  esta  malvada 

noite  substituía  o  desgraçado  do  George,  não  ia  tão  cedo  poder  voltar  a  trabalhar 

fora  de  horas.  O  átrio  encontrava-se  deserto  e  eu  tive  de  tocar  a  campainha  para 

acordar o rapaz. Quando abriu os olhos, os braços acompanharam a deformação do 

rosto num gesto horrorizado, como se o que estava na sua frente se tratasse de visão 

de pesadelo saída do sonho. 

A  boca  movimentou-se  como  a  de  uma  truta  fora  de  água  até  conseguir 

articular: 

- Mister Chasey!...  

- Pois, amigo. Sou eu. Quer fazer a fineza de me passar a chave? 

- Hem ... como? 

-  A  chave.  Aquela  coisinha  ali  pendurada  que  serve  para  abrir  a  porta  do 

quarto, percebeste? 

- Há...? Ah, pois claro, a chave!  

Procurou-a atarantado, e após prolongado esforço acabou por dar com ela. 

- Foi... George...? - gaguejou, ao estender-ma. 

-  Não,  filho.  Não  foi  George.  Até  logo,  rapaz.  Volta  para  o  teu  sono  e 

esquece que me viste, okay? 

Colei-lhe à palma da mão suada uma nota de cinco. E se até à altura o tipo 

podia não estar absolutamente em si, o que posso afirmar é a que a partir do meu 

gesto a caixa passou a funcionar perfeitamente. 

-  Ena,  Mister  Chasey...  Muito  obrigado!  Claro,  com  certeza,  pode  ficar 

descansado, por cinco dólares eu nem me recordo do seu nome ... Muito obrigado! 

Os agradecimentos acompanharam-me até ao elevador, onde premi o botão 

do quarto andar. 

Aparentemente os aposentos não haviam recebido durante a longa ausência a 

visita  de  estranhos.  No  entanto,  nunca  se  sabe...  De  qualquer  modo,  esse  aspecto 

não  me  preocupava.  O  mais  que  poderiam  ter  levado  era  a  mala  que  continha  as 

vestimentas e os chinelos que deixara debaixo da cama. E como ambas as coisas ali 

se achavam escolhi a muda de roupa, tirei de cima da pele tudo o que trazia e formei 

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um  embrulho  que  atirei  para  o  canto,  dirigindo-me  directamente  para  a  casa  de 

banho. 

Teria sido preferível não encarar assim tão de repente o espelho. Eu deveria 

ter espreitado, aos poucos, e nesse caso veria reflectido um primeiro golpe escuro, 

feíssimo,  sujo  de  sangue  coagulado,  que  rasgava  desde  o  canto  da  boca  até  ao 

queixo.  Ao  aproximar  mais  um  pedaço  surgiria  o  segundo,  a  rebentar  o  lábio  e  a 

triturar  a  cova  situada  por  debaixo  dele.  E  por  fim  o  terceiro,  um  bocado  mais 

fundo  que  os  anteriores,  e  que  apanhava  toda  a  zona  entre  o  canto  direito  e  o 

buraco  do  nariz.  Deste  ainda  escorria  sangue,  custosamente,  por  causa  da  massa 

coagulada que o entupia. 

Foi  na  realidade  este  o  espectáculo  que  se  me  deparou,  só  que  eu  não  o 

observei aos poucochinhos, mas todo de uma vez, e nesse momento compreendi a 

reacção do rapaz da recepção e até estranhei que ele não me tivesse vomitado para 

cima. Eu estava repelente. 

Dei-me por isso pressa em meter a cabeça debaixo de água morna, iniciando 

assim um série de operações que levaram meia hora e terminaram em quatro pensos, 

um duche quente e um copo meio de uísque que emborquei, já vestido, no quarto 

de dormir, o qual quanto a mim não merecia absolutamente tal designação. 

Preparava-me para estender em cima da cama o que restava da configuração, 

a fim de restabelecer dentro do possível o corpo amassado, quando  ouvi baterem. 

“Pamela”, pensei. “Mas porquê aqui?” Ocorreu-me então que podia não se tratar de 

Pamela, e a mão remexeu nervosamente o bolso das calças descuidadamente atiradas 

para o canto em busca da arma que subtraíra ao chinês. 

As pancadas repetiram-se, mais rápidas e violentas. 

- Já vou! - soltei num berro.  

Segui para a porta, a automática firme na mão. 

- Quem é?  

- Mister Chasey, abra, sou eu, Ko Nim!  

Raios  me  partissem  se  eu  percebia  alguma  coisa!  Corri  cautelosamente  o 

trinco, recuei um metro e convidei: 

- Pode entrar... Devagarinho!  

A  porta  foi  empurrada,  e  Ko  Nim  deslizou  silenciosamente.  A  arma 

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continuava grudada aos dedos e eu não tencionava largá-la tão depressa. 

- Que queres?  

Os  olhos  vivos  do  rapaz  miraram-me.  O  peito  subia  e  descia,  ofegante,  e  a 

testa  vinha  coberta  de  suor.  Trajava  à  ocidental,  o  que  lhe  conferia  uma  aparência 

quase irreconhecível. 

- Que queres daqui? Foi Wu Tchao quem te mandou? 

- Por favor, Mister Chasey, deixe-me entrar ... 

- Seguiste-me?  

Assentiu com a cabeça.  

- Foi a minha mãe quem mo pediu. Eu tive conhecimento do que o senhor 

pretendia saber e ... 

- Eh, alto aí! Só uma pergunta: quem é a tua mãe?  

A face denotou estupefacção. 

-O  senhor  conhece-a!  Trouxe-a  de  Cantão.  O  nome  dela  é  Pamela,  Pamela 

Wong, não se lembra...? E eu ... 

Diabos, quem é que estava a delirar?  

-Como? Que parvoíces estás para aí a dizer...?  

-  É  verdade,  Mister  Chasey.  Julguei  que  sabia  E  preciso  que  me  acredite! 

Pamela é minha mãe, e mandou-me vir dizer-lhe aquilo que lhe perguntou e a que 

ela não soube ... 

A  interromper-lhe  as  palavras  aconteceu  algo  tão  rápido,  inesperado  e 

desconcertante  que  dificilmente  pude  depois  coordenar.  Ouviu-se  um  “plof” 

abafado, como de rolha a saltar, a frase quebrou-se como fita de gravação, o jovem 

Ko Nim imobilizou-se para no instante seguinte tombar para diante, de encontro a 

mim, e a porta foi fechada bruscamente, puxada do corredor. 

Também eu, nos momentos imediatos, fiquei como que paralisado, sustendo 

o  corpo  leve  de  Ko  Nim  contra  o  meu,  sem  atingir  o  que  se  desenrolara.  Só 

decorridos uns dez segundos, quando o depositei suavemente sobre a alcatifa e lhe 

notei por altura da omoplata esquerda o orifício minúsculo donde escorria um fio de 

sangue, a razão me voltou ao cérebro e eu compreendi que alguém disparara do lado 

de fora, pelo intervalo da porta aberta, usando silenciador na arma de que se servira. 

Ajoelhei ao lado de Ko Nim e segurei-lhe o pulso. O rapaz vivia, o que não, 

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era de surpreender dado que o ferimento não devia apresentar gravidade de maior, 

isso  porque  o  criminoso  dispusera  de  um  ângulo  difícil.  Pus-me  de  pé  num  salto, 

lancei a mão ao fecho da porta e precipitei-me para o corredor. 

De  um  lado  e  outro  não  se  tornava  perceptível  qualquer  movimento,  e  eu 

corri  para  o  elevador  e  carreguei  desesperadamente  o  botão  de  chamada.  A  seta 

luminosa  indicou  que  o  ascensor  subia.  Chegado  ao  andar  onde  eu  aguardava 

febrilmente, as portas abriram-se. Entrei e comandei para o átrio. Enquanto descia, 

um perfume estranho e agradável penetrou-me nas narinas. Alguém se utilizara do 

elevador. Não certamente o criminoso, o qual  além do  mais, a esta altura, devia já 

ter-se posto a milhas. Porque ele contara com o meu descontrolo e indecisão. 

Quando  alcancei  o  hall  pude  verificar  que  continuava  deserto.  Apenas  a 

coberto do balcão o rapazote dormitava. Abati o punho fechado no tampo. O tipo 

saltou. 

-  Chama  a  polícia.  Pede  uma  ambulância.  Está  um  rapaz  ferido  no  meu 

quarto. Apanhaste? 

Os  olhos  embaciados  fitavam-me  parados.  Debrucei-me  sobre  o  rebordo, 

apanhei o gajo pelas bandas do casaco, puxei-o até a fronha ficar junto da minha, e 

como  não  gostei  do  hálito  dele  sacudi-lhe  o  sono  com  um  par  de  chapadas  que 

ressoaram pelo vasto átrio e lhe fizeram a cabeça desarticular-se. 

- Ouviste? - gritei.  

- Sim... Polícia... Vou já chamar, Mister Chasey!  

Atirou-se  ao  PBX  e  fez  nervosamente  a  ligação.  Certifiquei-me  de  que  se 

desempenhava do recado, após o que interroguei: 

- Alguém passou por aqui depois de mim?  

A pergunta tornava-se obviamente inútil. 

- Sim ... passou, realmente! 

- Quem? 

- Miss Cynthia Roberts. Subiu para o quinto. 

Uma  ova.  Cynthia  era  prima  da  esposa  do  governador,  informação  que 

obtivera casualmente através de Fernandes. 

- Mais ninguém?  

- Não senhor... quer dizer, acho que não...  

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- Tens a certeza? Absoluta?  

- Bem, Mister Chasey, Miss Cynthia pediu a chave... 

-  Quer  dizer,  é  possível  que  alguém  tivesse  subido  sem  que  tu  o  tivesses 

notado, visto que o criminoso não te pediria a chave, não é? Tal como sucedeu com 

o rapazito que se dirigiu ao meu quarto! 

- Um ... rapaz? 

Apeteceu-me esmurrá-lo. Desisti. 

- Passa para cá a nota! 

- Mas...  

- A nota de cinco. Depressa!  

Estendeu-ma relutantemente, e eu virei as costas, em direcção à saída. 

Um  velhote  britânico  regressava,  mais  grosso  que  um  marinheiro.  bêbado. 

No passeio, na altura em que ia voltar para seguir para o Golden Bamboo, um frear 

de travões rente à berma obrigou-me a olhar. Tratava-se de um Bentley prateado, e 

da porta traseira emergiu Vikki Allen, sorridente. Acenou-me efusivamente. 

- Viva, Al? Vinha buscar-te. Por onde tens andado? Aonde é a ida? 

Correu  saltitante  até  ao  sítio  em  que  me  encontrava  especado,  o  rosto 

fechado ao que me rodeava. 

- Al, meu Deus...! Que sucedeu?! Querido, fala, diz qualquer coisa...! 

Acabava  certamente  de  reparar  no  meu  estado.  As  mãos  enluvadas 

percorreram  com  suavidade  a  zona  coberta  de  pensos,  e  a  face  traduzia  enorme 

ansiedade. 

- Nada, Vikki, nada... Desculpa, mas tenho de ir.  

Prendeu-me carinhosamente o braço.  

- Mas, querido, eu vinha buscar-te! Liguei para o hotel uma dezena de vezes, 

a  última  há  mais  de  duas  horas,  e  como  ainda  não  tinhas  aparecido  assustei-me. 

Resolvi passar por cá, a saber o que se passara. Que aconteceu, Al? Por favor, diz-

me...! 

Olhei-a quase sem lhe prestar atenção, pois que o meu espírito não estava ali. 

Notei vagamente que trajava uma elegante saia e casaco cinzento-claro, e pendurada 

do lado direito uma carteira de pele amarela, talvez grande de mais e que destoava 

do resto do conjunto. Prendi-lhe a mão. 

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- Desculpa, querida. Amanhã explicar-te-ei tudo. Neste momento não posso. 

Perdoa,  Vikki,  mas  estou  metido  numa  embrulhada  enorme  e  tenho  de  ir. 

Compreendes, não? 

Concordou  com  um  gesto  de  desalento,  e  rugas  de  preocupação  a 

desenharem-se-lhe na testa. 

- Está bem, Al, se preferes assim. Mas peço-te, amor: não te metas daqui para 

diante em nada que possa ser perigoso, está bem? 

- Lamento desapontar-te, Vikki - disse -, mas já estou enterrado até aqui. Até 

amanhã, sim? 

- Boa noite, Al. Eu vou para o Hot Spot. Se precisares de mim, estarei lá. 

Soltei  a  mão  e  recomecei  a  andar.  Pouco  depois  o  Bentley  ultrapassou-me. 

Distingui  a  luva  branca  de  Vikki  a  acenar-me,  e  correspondi.  O  carro  desapareceu 

rua  acima.  Prossegui,  mais  depressa,  quase  a  correr.  A  uma  vintena  de  metros  do 

Golden  Bamboo  chegaram  até  mim  as  sirenes  da  polícia,  vindas  da  parte  baixa  de 

Cameron  Road.  Gritar  aflitivo,  lancinante.  E  aquele  estupor  de  perfume  que 

apanhara  no  elevador,  e  que  não  me  saia  das  narinas...  Um  perfume  esquisito. 

Estranho...  Agradável?  Já  não...  Mais  intenso,  desde  há  momentos...  Um  perfume 

QUE NÃO ERA NOVO PARA MIM! 

Só  quando  arredei  o  reposteiro  do  Golden  Bamboo,  onde  desejava 

ardentemente que Pamela já houvesse chegado, os mínimos entalhes da chave que 

viera a fabricar tomaram num repente brutal uma forma definitiva. A chave entrava 

na fechadura, e rodava o trinco, permitindo-me escancarar a porta e abranger tudo. 

Como  um  filme  que  se  desbobinasse  à  velocidade  do  pensamento.  Uma  excitação 

nunca antes experimentada, misto de euforia e angústia, apoderou-se de mim, e foi 

nesse  estado  de  espírito  que  descobri  Pamela  no  terceiro  “reservado”.  Adivinhei  a 

impaciência  e  nervosismo  com  que  me  aguardava,  porém  o  rosto  sempre  belo 

mantinha-se sereno, embora pálido, como marfim amorosamente trabalhado. 

Cerrei a cortina e sentei-me defronte dela. Os seus lábios entreabriram-se. 

- Falaste com Ko Nim? 

- Sim, Pamela. - As palavras tinham dificuldade em sair. - Falei. É certo que 

ele é teu filho?  

- É. - Suspendeu-se para pedir um cigarro, que eu acendi. Soprou o fumo e 

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continuou, ligeiramente inclinada para diante. - Ko Nim é meu filho, e eu adoro-o. 

Essa foi a razão por que depois da morte do meu marido, que só então soube ser o 

chefe  da  organização,  Wu  Tchao  o  conservou  consigo,  com  o  fim  de  poder 

controlar-me,  e  ao  dinheiro  que  recebi  da  parte  da  herança  que  me  coube.  Nunca 

amei  o  homem  com  quem  me  casaram.  Mas  ele  foi  muito  bom  para  mim,  e  até  à 

morte ocultou-me todas as suas actividades ilegais. O único erro que cometeu foi ter 

confiado em Wu Tchao. 

O rosto adquiriu subitamente uma rigidez que era ódio, puro e simples. De 

águia a quem arrebataram a cria. 

- Agora,  graças a ti, Wu Tchao está liquidado. Ele e os “outros”. E Ko Nim 

pertencer-me-á outra vez. - Entrelaçou os dedos nos meus, e um arrepio de prazer e 

desconforto percorreu-me. A pergunta inevitável ia surgir. - Onde o deixaste, Al? 

Despejei o saco rapidamente. 

- O teu filho foi ferido, Pamela. Quando tentava dizer-me o que sabia. - Senti 

a pressão crescer sobre a minha mão poisada no tampo e vi os nós dos dedos dela, e 

o rosto, ficarem brancos. Os dentes trincaram com força o lábio inferior até quase o 

fazer sangrar. 

-  Está ... mal? - murmurou com a voz sufocada. Disse o que sabia, e mais o 

que não sabia mas que desejava firmemente acreditar. Falei com uma tranquilidade 

falsa. 

- Não, querida. A arma utilizada foi de pequeno calibre, e o projéctil apenas 

lhe  perfurou  a  omoplata,  sem  gravidade.  Acaba  de  ser  transportado  numa 

ambulância  da  policia.  Agora,  sim,  está  salvo,  porque  no  sítio  onde  se  encontra 

ninguém se atreverá a procurá-lo. Vai recuperar facilmente. Daqui a pouco poderás 

ir vê-lo. 

A pressão abrandou e a palidez diluiu visivelmente. 

- Sabes quem foi?  

- Sim, Pamela. Sei. Como conheço o nome que ele pretendia comunicar-me. 

- Vikki Allen? 

- Vikki Allen. 

- Como descobriste? 

- Fica para depois. Neste momento desejo apenas dizer-te a verdade. - Fixei 

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o reposteiro. - Fui eu o culpado do que se desenrolou. Não acreditei nele. A porta 

ficou entretanto entreaberta. E o criminoso aproveitou-se do facto. 

Pamela puxou-me levemente para si. 

- Não te censuro, Al. Eu é que não devia ter-lhe pedido aquilo. Tomei essa 

resolução porque mal saíste fui ao quarto de Ko Nim e ele me revelou o que ouvira 

antes  da  salda  de  Wu  Tchao.  Entretanto  este  regressou  e  disse  que  queria  falar 

comigo. Era preciso avisar-te. Por isso mandei Ko Nim. - E concluiu, com tristeza e 

desalento: - Afinal, era desnecessário... 

- Não, querida - discordei. - Também não podias lá deixar o teu filho. Deste 

modo,  tens  a  certeza  de  que  ele  está  salvo.  -  Procurei  dissimular  a  sensação 

extraordinária de  mal-estar. - E tu também. Agora vou dizer-te o que tens a fazer. 

Vais procurar, no Departamento do Quartel-General da Polícia, aqui em Kowloon, 

o  chefe  da  Divisão  de  Detectives,  capitão  McDermott.  É  provável  que  ele  não  se 

encontre aí, mas pedes para te porem em comunicação com ele, para casa, e se lhe 

disseres que é da parte de Al Chasey daí a um quarto de hora ele está lá. Comunicas-

lhe que pedi para ele ir ter ao Hot Spot com um punhado de homens. Eu estarei no 

junco. Ao mesmo tempo, poderás tranquilizar-te a respeito do estado do teu filho. 

Acompanho-te à polícia e sigo imediatamente para o Hot Spot. Okay? 

- Não, Al! - tentou protestar. - Não quero que vás sozinho. Vamos os dois à 

policia e ... 

Interpus:  

- Vou eu adiante, e a polícia depois. Um assunto particular, compreendes? 

Pela determinação com que falei percebeu que não valia a pena acrescentar o 

que quer que fosse. Levantámo-nos, paguei a despesa que ela fizera e saímos. 

Notei  que  o  ar  era  mais  abafado,  amolecendo  os  corpos  ao  penetrar  pelos 

poros. Caminhamos por Nathan. Pamela enfiou o braço no meu, cosendo-se a mim. 

Experimentei uma ternura infinita. Passei-lhe o braço pelos ombros, sob os  cabelos 

sedosos, e apertei-a. 

- Pamela... 

- Sim...? 

- Como pudeste acreditar em mim, apesar de tudo?  

Sem me fitar, pronunciou simplesmente: 

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- Amo-te. Amar-te-ia, quer te chamasses Joe, ou Al, ou outro nome qualquer. 

E se senti isto por ti, foi porque acreditei sempre que tu eras alguém a quem podia 

amar e entregar-me. Dir-me-ás tudo mais tarde, se puderes. Neste momento apenas 

tenho a certeza de que me queres, e de que me vais ajudar, e ao meu filho. Vamos 

depressa, sim? 

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CAPÍTULO XVII 

 

O  sampan acostou de mansinho, demonstrando que o cérebro pequeno do 

chinês enfezado que o conduzia assimilara perfeitamente as instruções que lhe havia 

dado.  Decerto  a  nota  que  transitara  do  meu  bolso  para  o  dele  constituíra  factor 

decisivo. 

A  escada  de  madeira  fora  recolhida  e  substituída  por  outra,  de  corda,  que 

pendia  da  amurada.  A  certa  distância  do  junco  certificara-me  de  que  apenas  as 

lanternas da proa e da popa localizavam a embarcação e de que embora o horizonte, 

para  lá  de  Victoria  Peak,  se  tingisse  já  de  um  tom  avermelhado,  não  se  divisara 

qualquer vulto no convés. 

Agarrei-me  com  força  às  cordas  ásperas,  verifiquei  que  a  arma  continuava 

entalada  no  cinto,  e  quando  senti  os  pés  bem  firmes  no  primeiro  troço  despedi  o 

sampan com um gesto. A pequena embarcação afastou-se tão silenciosamente como 

viera. 

Trepei  pelas  cordas,  tentando  evitar  a  todo  o  custo  que  o  extremo  inferior 

das escadas batesse de encontro ao casco. Chegado à extremidade superior, assomei 

a  cabeça  cautelosamente  por  sobre  o  rebordo  da  amurada.  Um  tipo  encontrava-se 

imóvel, enroscado no mastro pequeno. Talvez dormisse. Ou talvez não. Só que eu 

não podia arriscar. 

-  Eh,  psst!  -  chamei  num  volume  não  demasiado  elevado,  suficientemente 

audível para atrair a atenção do parceiro no caso de ele afinal estar acordado. Era o 

que  sucedia  na  realidade,  porquanto  ao  chamamento  iniciou  um  movimento  em 

direcção aonde eu me achava. 

Sumi depressa a cabeça, segurei a arma pelo cano e aguardei. Os seus passos 

dirigiam-se para cá. Logo o rosto surgiu. 

- Quem...?  

A coronha da automática era razoavelmente dura e o golpe foi bastante rude 

para  o  adormecer  instantaneamente.  O  homem  ficou  na  posição  que  escolhera, 

dobrado sobre a amurada, a cabeça pendida para fora. 

Saltei para o convés, conservando a pistola na mão. E andei sem barulho até 

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à portinhola pela qual penetrara da outra vez que ali estivera. 

A  sala  infernalmente  barulhenta  e  agitada  apresentava-se  desoladoramente 

vazia e silenciosa, dando a impressão de se haver tornado mais ampla. O mobiliário 

espalhado  em  desordem  indescritível  fazia  imaginar  que  a  noite  anterior  devia  ter 

sido igual a todas as outras, Ao fundo, na parte rebaixada do soalho, amontoavam-se 

a esmo os instrumentos da orquestra, e por cima do buraco, para a direita, abriam-se 

três  janelas  altas,  de  batentes  a  imitar  vitral  formando  desenhos  de  composição  à 

base de azul, vermelho e dourado. As duas dos lados estavam fechadas, porém a do 

meio  ficara  entreaberta,  e  pelo  intervalo,  e  através  dos  vidros,  coava-se  a 

luminosidade fosca do alvorecer. 

Dei  alguns  passos  até  ao  meio  da  sala,  para  o  pé  do  bar  medonhamente 

varrido, os copos sujos entornados sobre o tampo, alguns ainda vertendo restos de 

líquido  que  pingava  o  chão,  onde  igualmente  se  espalhavam  cacos  de  garrafas  de 

uísque partidas. 

- Vikki! - chamei, bem alto, a ouvir-se em todo o barco. 

Uma porta bateu algures. 

- Vikki! - gritei, mais alto ainda, e senti as cordas esticarem. 

Aguardei  em  silêncio,  os  braços  descaídos  e  a  arma  na  mão.  Uma  garrafa 

meio vazia achava-se próxima. Agarrei-a, meti  o gargalo à boca e deixei correr um 

bom  gole.  A  garganta  e  as  entranhas  arderam.  O  líquido  derramou-se  por  todo  o 

corpo e entrou nas veias. 

-  Vikki!  Anda  cá!  -  Levei  de  novo  a  garrafa  às  goelas,  e  depois  de  a  retirar 

passei  as  costas  da  mão  pelos  lábios  molhados.  -  É  o  teu  querido,  Al,  Vikki! 

Lembras-te? 

Atirei  a  garrafa  pelo  ar,  com  força.  Deu  três  reviravoltas  e  acabou  por  ir 

espatifar o enorme espelho cor-de-rosa atrás do balcão. 

- Estou aqui, Al.  

Os dedos crisparam-se-me na coronha da automática. Rodei o corpo e fiquei 

de  frente  para  ela.  Sorria  para  mim.  Um  sorriso  diferente.  Não  era  bonito,  como 

anteriormente  ela  sabia  sorrir.  Manchas  roxas  circundavam-lhe  os  olhos,  agora  de 

um  brilho  que  não  emitia  os  reflexos  habituais,  antes  era  mortiço,  sem  irradiar 

aquele  calor  que  lhe  fazia  resplandecer  a  face.  Vikki  Allen.  A  que  ali  estava,  era 

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apenas uma mulher de mais de quarenta anos, arruinada súbita e irremediavelmente. 

Não  estava  só.  Atrás  dela,  dois  parceiros  entroncados  apontavam-me  a 

artilharia pesada que transportavam duas “calibre” 12 mm. Decidi que seria perda de 

tempo prestar-lhes atenção de maior e volvi a vista outra vez para Vikki. 

- Porquê eu, Vikki? - inquiri roucamente. Os lábios sem pintura tiveram um 

trejeito quase imperceptível, e falou tão baixo que mal percebi. 

- Podia talvez ser outro... mas preferi que fosses  tu, Al. Servias melhor que 

ninguém para ajudar a destruir os meus adversários... E chegaste na altura exacta ... 

Senti as veias do pescoço inchadas. Como se de um momento para o outro 

fossem estourar. 

- Que te levou a crer que aceitaria? A boca repuxou-se numa tentativa vã de 

dar firmeza às palavras. 

-  Conheço-te.  Como  poucas  pessoas  te  poderão  conhecer,  Al.  E  tinha  a 

certeza de que na dúvida não te arriscarias a desperdiçar uma oportunidade. 

- O perigo que iria correr... nada disso te apoquentava ao ponto de te impedir 

de seguires o teu caminho, pois não? Apesar dos velhos tempos, das recordações e 

de tudo o resto ... 

Sacudiu a cabeça. 

-  Preferi  convencer-me  de  que  com  a  tua  experiência  os  riscos  seriam 

pequenos... e de que nada de mal te sucederia. Como podia desejar que algum mal te 

acontecesse, Al? 

Não contive um palavrão, que expeli brutalmente. Era inútil prosseguir. Mas 

tornava-se-me impossível parar, também. 

-  Mandaste-me  Rita  Grahame,  e  ela  morreu.  Nem  isso  te  deteve,  no  meu 

regresso de Cantão? 

-  Estavas  próximo  do  fim,  Al.  E  era  demasiado  tarde.  Deter-te  nessa  altura 

seria trair-me. 

Cerrei os dentes com fúria. 

- E preferiste isso ao pior que me podiam ter feito? 

O corpo vibrou e ela desviou o rosto para não ter de suster o meu olhar. 

-  Não  sei.  Acho...  que  não.  Eu...  eu  gosto  de  ti,  Al.  Sei  que  não  podes 

compreender.  Mas,  por  favor,  não  me  perguntes  aquilo  a  que  sou  incapaz  de 

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responder! 

Não ouvi. Continuei a falar, mas a voz não se parecia nada com a minha. 

- Foste tu também quem matou o verdadeiro Joe Coslow em Nathan, dentro 

da cabina telefónica? Foi por acaso que o fizeram mesmo debaixo da minha vista? 

A fisionomia transtornada denotou espanto que podia ser autêntico. 

- Joe Coslow, em Nathan Road? Não era ele, Al Coslow, temo-lo em nosso 

poder... Mas não foi assassinado. Tens de me acreditar ... Esse era outro. Não matei 

ninguém, juro-te! 

Tanto se me dava. Claro que, se Coslow tivesse mesmo sido despachado, o 

dedo que puxara o gatilho não pertencera a Vikki Allen. 

- E o rapaz, no Bay View? Ko Nim. És capaz de jurar que não foste tu? 

Seguiu-se silêncio, após o que admitiu, baixinho. 

- Sim... Fui eu. Como... descobriste? 

-  O  teu  perfume,  Vikki.  É  único.  Soube-me  bem  respirá-lo,  das  vezes  que 

estive  contigo.  Agora  dá-me  náuseas.  Desde  que  o  notei  no  elevador,  e  depois  cá 

fora, logo que te deixei. E a mala amarela. Ficava-te mal, e tu vestes bem. A rapariga 

mais  elegante  de  Denver,  e  depois  uma  das  mulheres  mais  elegantes  de  Nova 

Iorque, lembras-te? Aqui, igualmente. Aquela mala grande demais, onde guardaste a 

arma e o silenciador. Diz-me só: porque voltaste ao hotel? 

- Queria ... desejava certificar-me de que ele não falara. E disse-te para onde 

vinha, porque no caso de poderes ainda descobrir queria que fosses tu a procurar-

me. 

- Eu já sabia, quando te encontrei à saída - menti. - Já tinha conhecimento do 

teu  nome,  antes  sequer  de  entrar  no  ascensor,  como  sendo  o  de  quem  dirigia  a 

organização rival da de Wu Tchao. 

Foi sacudida por um sobressalto tremendo. 

-  Mas...  como  podias  saber?  Quem  foi,  Al?  Só  se...  o  rapaz?  Só  podia  ser 

ele...! 

 -Sim,  foi  o  rapaz  -  menti  outra  vez.  Apetecia-me  mentir.  Sujar-me  um 

bocado na lama. - Está vivo. Foi ele quem mo disse. 

O pânico apoderara-se inteiramente dela. 

- Então... a polícia...  

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- Exacto - completei. - A policia já sabe. E vem a caminho. 

Levou as mãos à boca, e o rosto neste momento era feio. Um rosto que não 

agradava olhar. 

- Meu Deus...!  

Um dos guarda-costas falou. 

- Que fazemos, patroa? Liquidamo-lo?  

Vikki  Allen  encarou  o  que  abrira  a  boca  e  permaneceu  assim  um  minuto, 

como  se  o  cérebro  se  houvesse  tornado  demasiado  obstruído  para  qualquer 

reflexão. Depois pronunciou: 

- Vão-se embora. Avisem os outros e fujam daqui. 

- Isso não, patroa - interpôs o outro. - Nós não vamos sem si. 

A voz dela ergueu-se com firmeza inesperada, e as palavras coincidiram com 

o ecoar afastado de sirenes. 

-  Quem  dá  as  ordens,  Mike?  Os  rapazes  entreolharam-se,  a  ponderarem  o 

que  haviam  escutado,  e  acabaram  por  virar  costas  e  sair  lentamente.  Ela  voltou-se 

para mim. Envelhecera muitos anos. 

- Ficas comigo, Al. 

- Não.  

A cortina de névoa transformou-se em lágrimas soltas que escorreram pelas 

faces sulcadas de rugas. As vedetas da polícia aproximavam-se velozmente, porque 

os  silvos  chegavam  de  muito  mais  perto.  Ela  deu  dois  passos  inseguros  na  minha 

direcção. 

-  Al...  querido...  apesar  do  que  te  fiz...  sinto  o  mesmo  por  ti.  Por  amor  de 

Deus, fica! - implorou. 

Recuei, a pistola apontada.  

- Fica onde estás, Vikki Allen. Sabes, ainda me resta um bocado de estômago. 

E tenho comida lá dentro. Não acredito que seja capaz de aguentar, se te chegas a 

mim.   

Não  podia  escapar-me  por  onde  viera.  As  vedetas  deviam  vir  perto  e  não 

tardariam  a  cercar  o  junco.  E  eu  não  desejava  permanecer  ali.  Por  várias  razões. 

Havia outra saída - uma das janelas do fundo, a que continuava aberta. O mergulho 

até lá abaixo não devia ser grande. Dirigi-me para aí, escancarei a vidraça e passei as 

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pernas para fora. A manhã rompia. Lancei um, último relance para trás. Vikki Allen 

permanecia no meio da sala, a face sem vida e os olhos sem verem. 

Deixei-me  cair,  de  pé,  para  as  águas  turvas  da  baía.  A  distância  afinal  era 

maior do que previra. O contacto brutal com a superfície e o mergulho de uns três 

metros que se lhe seguiu comprimiram-me violentamente os pulmões, cortando-me 

a respiração. 

O  impulso  trouxe-me  ao  de  cimo,  em  estado  de  semi-inconsciência.  Não 

calculo qual poderia ter sido o desfecho da aventura se o pequenino bote que divisei 

a cortar a água tivesse tardado. 

Dois  braços  possantes  pescaram-me  com  facilidade  e  depositaram-me  no 

fundo,  com  jeitinho.  A  medida  que  fui  recuperando  o  fôlego,  e  com  ele  a 

consciência  total,  tive  a  noção  de  que  as  remadas  poderosas  faziam  o  bote 

distanciar-se. Daí a algum tempo resolvi erguer as pálpebras. 

- Viva, amigo Chasey! - saudou com sentimento a cara conhecida de sorriso 

transbordante  e  bigodinho  malandro.  -  Ena,  rapaz,  como  você  está  molhado!... 

Costuma fazer esta ginástica todos os dias, ou foi hoje por acaso? 

Finquei  os  cotovelos  nas  travessas,  soergui  o  tronco,  e  não  me  perguntem 

como, mas a verdade é que os meus lábios estragados se distenderam e ocorreu-me 

a ideia estúpida de que sorria. 

-  Olá,  amigo  Fernandes!  -  rouquejei  a  gorgolejar  água  salgada.  -  Por  aqui  a 

estas horas? 

Ah,  como  era  agradável  à  vista  a  bonita  camisa  estampada  de  flores  a  sair 

fora das calças! 

- É verdade, Chasey! - As remadas não perdiam o vigor. - Cada qual com as 

suas manias, não é? 

- Certo - concordei. - O dia vai pôr-se lindo, não vai? 

Contemplou  o  horizonte,  de  onde  o  Sol  emergira  já,  fazendo  que  a 

madrugada fosse dia. 

- Lindo, de verdade! A baía é magnífica, não é? 

- Sim - disse eu. - Gosto disto, a esta hora. E você é um tipo fixe. Havemos 

de passear aqui mais vezes, está bem? 

- Hum... - discordou. 

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- Que é?  

- Bem, amigo. Se quer que lhe diga, acho que não. Desde que você arranjou 

uma companhia daquelas, quando é que vai querer passear comigo? 

- Hem?! - fiz eu, franzinho o sobrolho.  

- Desejo apenas tranquilizá-lo, amigo. Pamela está bem. E o filho não sofreu 

nada de grave. - E rematou, em duas fiadas de dentes esplêndidos e uma piscadela 

requintadamente  carregada  de  significado  profundo:  -  Afinal  de  contas,  amigo 

Chasey,  você  é  um  tipo  de  sorte...  Porque,  além  do  mais,  se  quer  saber,  posso 

passar-lhe uma informação confidencial... 

- Diga... Raios o partam... Depressa! 

- Bom, aí vai ... Ela pediu-me para lhe dizer que esperava por si no hotel. 

Endireitei-me de esticão, e o barco quase virou.  

-  Diabos  o  levem!  -  berrei.  -  Amigo  Fernandes,  o  senhor  não  é  capaz  de 

remar um bocadinho mais forte? 

 

 

 

 

 

 

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