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A Casa do Rochedo 

 

Franklin W. Dixon 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

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Espionando por Telescópio 

 
– Então, meninos, querem ajudar-me em outro caso? – indagou Fenton Hardy, detetive 

mundialmente famoso, sorrindo para seus filhos adolescentes. 

–  Pai,  o  senhor  disse  que  está  trabalhando  em  um  caso  muito  misterioso,  neste  exato 

momento  –  respondeu  Frank.  –  Não  teria  um  ângulo  qualquer  que  eu  e  Joe  pudéssemos 
explorar? 

O Senhor Hardy olhou pela janela do seu estúdio, no segundo andar, como se estivesse 

procurando a resposta em algum lugar da cidade de Bayport, onde vivem os Hardys. Finalmente, 
virou-se e observou cuidadosamente os dois filhos. 

– Está bem. Vocês gostariam de descobrir alguns contrabandistas? 
Os olhos de Joe Hardy brilharam: 
– Fala sério, pai? 
–  Espere  um  pouco.  –  O  detetive  ergueu  as  mãos.  –  Eu  não  disse  prendê-los.  Disse 

apenas procurar encontrá-los. 

– Já é uma grande coisa. Obrigado por nos entregar o caso – respondeu Frank. 
O ágil e atlético detetive caminhou até um dos cantos do estúdio, onde uma comprida e 

estreita maleta estava encostada. Abrindo-a, disse: 

–  Meninos,  vocês  aprenderam  a  manipular  este  telescópio  muito  bem.  Que  tal  levá-lo 

para aquele alto promontório do litoral e assestá-lo para alto-mar? O lugar a que me refiro dista 
três quilômetros do norte do fim da baía e doze daqui. 

–  Seria  genial  –  disse  o  loiro  Joe,  de  dezessete  anos,  com  os  olhos  faiscando  por 

antecipação. 

Frank, que era um ano mais velho e menos impetuoso do que o irmão, perguntou num 

tom de voz muito sério: 

– Pai, o senhor tem alguma idéia quanto à identidade de algum dos contrabandistas? 
– Sim, tenho – respondeu o Senhor Hardy ao seu filho alto e moreno. – Tenho grandes 

suspeitas de que um homem chamado Felix Snattman está operando neste território. Vou contar 
a você a coisa toda. 

O  detetive  prosseguiu  dizendo  que  tinha  sido  contratado  por  uma  companhia 

farmacêutica internacional para tentar localizar o paradeiro de cargas roubadas, constituídas por 
valiosas  drogas.  Os  relatórios  sobre  os  roubos  procediam  de várias partes dos Estados Unidos. 
As polícias regionais já tinham trabalhado no caso, mas até então não haviam conseguido prender 
nenhum suspeito. 

–  A  matriz  da  firma  é  na  índia  –  explicou  aos  rapazes.  –  Foi  por  seu  intermédio  que, 

afinal,  fui  consultado.  Estou  certo  de  que  os  roubos  são  o  resultado  de  contrabandos 
cuidadosamente realizados. É essa a razão pela qual suspeito de Snattman. Ele é um conhecido 
marginal envolvido anteriormente em crimes de contrabando. Esteve preso por muito tempo e, 
desde que deixou a cadeia, desapareceu de circulação. 

–  E  o  senhor  acredita  que  ele  esteja  trabalhando  nas  proximidades  de  Bayport?  –  Joe 

perguntou. E assobiou. – Isso não torna o local muito agradável ou saudável para se viver. 

– Nós vamos transformá-la num local agradável – declarou o Senhor Hardy, com um leve 

tom de severidade na voz. 

– Onde fica exatamente esse lugar, de onde usaremos o telescópio? – perguntou Frank, 

ansioso. 

–  Fica  em  Pollitt.  Vocês  verão  o  nome,  na  entrada.  Um  homem  chamado  Felix  Pollitt 

viveu lá, sozinho, por muito tempo. Foi encontrado morto na casa há um mês aproximadamente 
e, desde então, o lugar está vazio. 

–  Parece  que  de  lá  teremos  uma  espetacular  visão  para  cima  e  para  baixo  da  praia  e  de 

quilômetros de oceano adentro – observou Frank. 

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O Senhor Hardy olhou para o relógio. 
– É uma e trinta agora. Vocês devem ir até lá, já, passar o maior tempo possível fazendo 

observações e voltar para casa a tempo de jantar. 

–  Isso  será  fácil  –  respondeu  Joe.  –  Nossas  motocicletas  podem  realmente  “comer”  a 

estrada. 

Seu pai sorriu, mas advertiu: 
– Este telescópio é muito valioso. Quanto menos ele for sacudido, melhor. 
–  Já  entendi  –  disse  Joe,  perguntando  a  seguir:  –  Pai,  é  necessário  que  as  informações 

sobre  os  contrabandistas  fiquem  em  segredo  conosco,  ou  podemos  levar  o  pessoal  da  turma, 
também? 

– É claro que não quero que as informações sejam transmitidas pela televisão, mas estou 

certo de que podemos confiar em seus amigos. Podem chamá-los. 

–  Que  tal  Chet  e  Biff?  –  Joe  perguntou  a  Frank.  Quando  seu  irmão  fez  um  gesto  de 

consentimento, ele disse: – Leve o telescópio para sua moto. Eu vou telefonar. 

Chet Morton é um rapaz impetuoso e bem intencionado que adora comer. Além disso, 

gosta  de  acompanhar  os  Hardys  e  participar  de  suas  aventuras  entusiasmantes,  embora  em 
algumas  ocasiões,  quando  as  coisas  se  complicam,  ele  prefira  estar  bem  longe.  Chet  também  é 
amigo das máquinas e passa horas seguidas trabalhando na sua “máquina”, sempre envenenando 
cada vez mais o motor, a fim de obter “aquela” força. 

Contrastando com Chet, Biff Hooper é alto e desajeitado. 
Para  diversão  e  alegria  dos  outros  rapazes,  usa  as  pernas  como  o  faz  uma  aranha, 

cobrindo distâncias enormes no chão e pulando cercas. 

Minutos mais tarde, Joe reuniu-se a seu irmão, na garagem, e disse-lhe que os dois haviam 

concordado. Chet, esclareceu, se desculpara por não poder oferecer a sua máquina – o Queen – 
porque seu motor estava espalhado por todos os cantos da garagem. – Como sempre – observou 
Frank, enquanto, com seu irmão, tomava lugar na moto, para iniciar a aventura. 

Inicialmente,  os  Hardys  pararam  na  residência  de  Biff  Hooper.  Ele  correu  à  porta  para 

cumprimentá-los,  instalando-se  imediatamente  na  garupa  de  Joe.  Chet  vivia  num  sítio  nos 
arredores de Bayport, quinze minutos de estrada a partir da casa de Hooper. O rapaz já se tinha 
dirigido  para  a  estrada  e  estava  à  espera  dos  amigos.  Ajeitou-se  como  pôde  na  motocicleta  de 
Frank. 

– Nunca vi um telescópio possante – comentou. – A que distância se pode ver com essa 

coisa? 

– Depende das condições atmosféricas – respondeu Frank. – Em dias claros pode-se ver 

uma pessoa à distância de trinta e oito quilômetros. 

– Puxa – exclamou Chet. – Acho que será fácil descobrir esses contrabandistas. 
–  Não  me  arrisco  a  afirmar  isso  –  interrompeu  Biff.  –  Os  contrabandistas  têm  barcos 

exatamente iguais a todos os outros. Que distância se necessita para identificar uma pessoa? 

– Mais ou menos uns quatro quilômetros – explicou Joe. 
As  motos  pipocaram  ao  longo  da  praia,  enquanto  Frank  observava  seu  velocímetro 

cuidadosamente. 

– Estamos quase chegando à casa de Pollitt. Mantenham-se atentos, companheiros. 
Os rapazes avançavam em silêncio. De repente, todos exclamaram ao mesmo tempo: 
– Lá está a casa. 
Na  entrada  de  uma  pequena  estrada,  ladeada  de  árvores  e  arbustos,  havia  um  marco  de 

pedra no qual a palavra “Pollitt” fora gravada. Frank e Joe viraram e prosseguiram pela pequena 
estrada. A única parte da casa que podiam ver era a ponta da cumeeira. Finalmente, depois de um 
gramado excessivamente crescido, eles chegaram à casa, um edifício alto, decadente. Parecia uma 
gigantesca  ave  de  rapina,  sobressaindo  acima  do  mar.  Ouviam-se  os  ruídos  das  ondas 
arrebentando lá nas rochas. 

– Este lugar parece abandonado – observou Biff. 

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Uma  grama  alta  tomava  conta  de  tudo,  embaixo  de  gigantescas  árvores.  Raízes  e 

trepadeiras ameaçavam invadir totalmente a casa. 

–  Assustadora,  é  o  que eu  acho  –  murmurou  Chet.  –  Não  sei  por  que  alguém  desejaria 

morar aqui. 

A  casa  propriamente  dita  precisava  urgentemente  de  consertos.  Construída  de  madeira, 

apresentava grandes rachaduras, e a pintura praticamente não existia mais. 

– O coitado do Senhor Pollitt provavelmente estava muito doente para poder cuidar das 

coisas  –  comentou  Frank,  enquanto  olhava  os  canteiros  de  flores  completamente  tomados  de 
mato. 

Para  desapontamento  dos  Hardys,  o  céu  estava  encoberto,  e  eles  concluíram  que  a 

visibilidade  tinha  ficado  bastante  reduzida.  Mesmo  assim,  Frank  abriu  a  maleta,  enquanto  se 
dirigia para a frente da casa. 

Abertas  as  fechaduras,  Joe  ajudou  o  irmão  a  tirar  o  telescópio  e  o  tripé,  apanhando 

primeiro a parte da ocular. 

Biff e Chet soltaram uma exclamação de prazer. 
– Menino, essa coisa é um estouro – observou Chet. 
Ele  e  Biff  olhavam  fascinados,  enquanto  Joe  e  Frank  montavam  o  telescópio.  Primeiro 

retiraram a fita que mantinha juntos o tubo e o tripé. Joe abriu o tripé, ajustando as extensões à 
altura  desejada.  Frank  uniu  as  pernas  do  tripé  com  uma  corrente,  para  evitar  que  se  abrissem 
mais. 

– E agora? – perguntou Chet. 
–  Para  equilibrar  o  tubo  do  telescópio,  é  preciso  deslocá-lo  entre  esta  braçadeira,  na 

direção da ocular, assim. – Feito isso, Frank apertou as borboletas, fixando firmemente a peça ao 
tripé. 

Joe  apanhou  o  peso  de  compensação,  ajustando-o  no  lado  direito  do  telescópio,  a  uma 

distância aproximada de um terço da ocular. 

– Isso manterá a peça equilibrada – salientou. 
– Para que serve este pequeno telescópio ao lado do grande? – inquiriu Chet. 
– É um guia – explicou Frank. – Na realidade, é um pequeno telescópio-piloto que ajuda 

o observador a localizar o objeto no campo do telescópio propriamente dito com mais facilidade. 

–  Para  mim  está  explicado:  transparente  como  barro  –  disse  Chet  com  ironia.  Olhou 

cuidadosamente  pelas  duas  extremidades,  tanto  do  telescópio  grande  como  do  pequeno,  e 
concluiu: – Não consigo ver nada. 

Joe riu gostosamente e disse: 
–  Nem  conseguirá  ver,  enquanto  eu  não  colocar  uma  das  oculares  no  adaptador  do 

telescópio grande e outra no adaptador do guia. 

Em  poucos  minutos  os  Hardys  tinham  o  equipamento  funcionando.  Virando  um 

pequeno botão, Frank girou vagarosamente o telescópio da esquerda para a direita, e cada um dos 
rapazes fez seu turno de observações no mar a distância. 

– Nenhum barco à vista – disse Chet, desapontado. 
Frank  acabava  de  iniciar  seu  segundo  turno  de  observação,  quando  exclamou 

entusiasmado: 

– Estou vendo algo. 
Começou, então, a fazer um pequeno relatório do que estava observando. 
– Não está muito claro... mas vejo um barco... deve estar a uma distância de oito a nove 

quilômetros. 

– Que tipo de barco? – perguntou Joe. 
– Parece um navio de passageiros... ou um cargueiro... Está parado... Você quer dar uma 

olhada, Joe? 

O irmão de Frank trocou de lugar com ele. 
–  Ouçam,  alguém  está  saindo  pelo  lado,  descendo  por  uma  escada...  e,  oba,  há  um 

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barquinho menor embaixo. O homem está entrando nele. 

–  Você  está  vendo  o  nome,  ou  algum  número,  no  barco  maior?  –  perguntou  Frank 

excitado. 

– Não, o barco está numa posição difícil, que não permite a visão de nomes ou símbolos. 

Mesmo que o tempo estivesse mais claro e aberto, não haveria possibilidade de ver com clareza. 

– Para que lado o homem do barco menor está seguindo? – perguntou Biff. 
– Aparentemente ele se dirige para a baía de Barmet. 
Joe abandonou seu posto para Biff: 
– Mantenha-o em observação por algum tempo. O barco grande também. Talvez mude 

de posição, e então você poderá ler o nome ou um número de código. 

Chet estivera silencioso por algum tempo. Então, perguntou: 
– Você acha que eles podem ser os contrabandistas? 
– Talvez – respondeu Frank. – Acho que devemos comunicar isso a papai, pelo primeiro 

telefone que... 

Suas palavras foram interrompidas pelo repentino e terrível grito de um homem. 
– De... de onde veio isso? – Chet perguntou com um ar assustado. 
– Aparentemente, veio dali de dentro – respondeu Frank. 
Os rapazes olharam imediatamente para a casa do penhasco. Pouco depois ouviram um 

grito de socorro. Foi seguido de novo grito. 

– Alguém está lá e em perigo – exclamou Joe. – É melhor que descubramos o que está 

acontecendo. 

Abandonando o telescópio, os quatro rapazes correram para a porta da frente, tentando 

abri-la. A porta estava trancada. 

– Vamos dar a volta e procurar outra porta – sugeriu Frank. 
Joe e Frank dirigiram-se para um dos lados da casa, enquanto Biff e Chet se dirigiam para 

o outro lado. Encontraram-se nos fundos da velha casa, onde descobriram uma outra porta. Ela 
também estava trancada. 

– Há uma janela quebrada, aí do lado – disse Biff. – Vamos entrar por lá? 
– Acho melhor – disse Frank. 
No  momento  em  que  se  aproximaram  da  janela,  vindo  aparentemente  da  biblioteca  da 

casa, ouviram um novo grito. 

– Socorro, depressa, socorro. – Era uma súplica agonizante. 

 

Ladrão em Atividade 

 
Joe foi o primeiro a passar pela janela quebrada. 
– Esperem um pouco, companheiros, enquanto destranco isto. 
Rapidamente, soltou os trincos e levantou a janela, permitindo que os outros três rapazes 

entrassem na biblioteca. Ali não havia ninguém, e, por isso, todos correram para o saguão central 
da casa. 

– Ó de casa – gritou Frank. – Onde é que você está? 
Não houve resposta. 
– Talvez a pessoa que pediu socorro já esteja morta ou desmaiada – sugeriu Joe. – Vamos 

dar uma olhada. 

Os  rapazes  espalharam-se  em  várias  direções  e  investigaram  a  sala  de  estar  com  sua 

mobília  antiquada,  a  sala de  jantar,  com  sua  velha mobília  entalhada  de carvalho,  a  cozinha e  o 
que parecia ter sido o quarto da empregada, no passado. Estava agora entulhado de caixas vazias 
e  caixotes.  Não  havia  ninguém  nas  dependências,  e  os  Hardys  e  seus  dois  amigos  reuniram-se 
novamente, no saguão. 

– O homem deve estar lá em cima – decidiu Frank. 

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Começou a subir pela escada da frente, seguido pelos outros. Havia vários dormitórios. 

De  repente,  Chet  voltou  correndo.  Queria  continuar  com  os  companheiros,  mas  a  casa  o 
atemorizava.  Biff  e  os  Hardys  investigaram  cuidadosamente  todos  os  quartos,  chegando, 
finalmente, ao último. 

– Ninguém aqui também. O que é que você acha? – perguntou Biff, intrigado. 
Chet, que se reunira novamente ao grupo, observou: 
– Talvez o lugar seja mal-assombrado. 
Os  olhos  de  Joe  procuravam  atentamente  encontrar  a  entrada  para  o  terceiro  andar. 

Como  não  visse  nada,  abriu  três  portas  existentes  no  hall  superior,  na  esperança  de  encontrar 
uma escada para cima. Não havia. 

– Esta casa deve ter um sótão – disse, acrescentando: – Como será que se chega lá? 
–  Talvez  haja  uma  entrada  no  interior  de  um  dos  quartos  –  sugeriu  Frank.  –  Vamos 

procurar. 

Os rapazes separaram-se para investigar. De repente, Frank chamou os outros: 
– Venham, já encontrei. 
Os  outros  correram  para  onde  ele  acabara  de  descobrir  uma  porta  atrás  de  um  velho 

casaco  pendurado  no  interior  de  um  armário  embutido.  Ali  havia  uma escada,  e  o  grupo  subiu 
apressadamente, Chet em último lugar. 

A  dependência  do  sótão  era  enorme.  Jornais  e  revistas  velhas  estavam  espalhados  por 

toda parte, entre velhas malas e baús, mas não havia nenhuma pessoa à vista. 

– Acho que aquele grito de socorro não partiu desta casa – insinuou Biff. – Que faremos 

agora? Vamos investigar lá fora? 

– Acho que é o que devemos fazer – respondeu Frank. 
Frank começou a descer a escada. Chegando embaixo, tentou abrir a porta, que se fechara 

sozinha. Para espanto seu, não conseguiu. 

– Que é que há? – perguntou Chet, lá do alto. 
– Parece que estamos trancados – disse Frank. 
– Trancados? – indagou Chet. – Essa não. 
Frank tentou empurrar e puxar a porta, com toda força. Ela nem se abalou. 
–  É  engraçado  –  observou.  –  Eu  não  me  lembro  de  ter  visto  nenhuma  fechadura,  do 

outro lado. 

Repentinamente,  toda  a  seriedade  daquela  situação  pareceu  ter  invadido  as  mentes  dos 

rapazes. Alguém, deliberadamente, trancara-os ali. Os gritos por socorro haviam sido apenas uma 
armadilha para atraí-los ao interior da casa. 

– Você acha que alguém está brincando com a gente? – perguntou Biff. 
– Brincadeira mais besta – disse Chet. 
Frank  e  Joe  estavam  inclinados  a  crer  que  havia  algo  mais  do  que  uma  brincadeira 

envolvido  na  situação.  Alguém  vislumbrara  a  possibilidade  de  roubar  um  valioso  telescópio  e 
duas motos último modelo. 

– Precisamos sair daqui – disse Joe. – Frank, meta o ombro na porta. Eu o ajudo. 
Felizmente, a porta não era particularmente dura, e cedeu com relativa facilidade. Frank 

olhou  para  trás  e  percebeu  dois  grandes  ganchos  que  antes  não  notara.  Evidentemente,  ambos 
foram arrancados da estrutura, com o impacto do arrombamento da porta. 

Os outros  rapazes correram, saltando rapidamente sobre o lixo que juncava o caminho, 

dirigindo-se  imediatamente  para  o  pavimento  térreo.  Praticamente  arrombaram  a  porta  de 
entrada,  deixando-a  aberta  quando  saíram.  Para  grande  alívio  seu,  o  telescópio  continuava 
montado ali adiante, apontando para alto-mar. 

– Graças a Deus – disse Joe. – Seria terrível ter de dizer a papai que o telescópio estava 

perdido. 

Frank  apressou-se  a  fazer  uma  completa  observação  do  instrumento.  Ocorreu-lhe  que 

algum associado dos contrabandistas poderia tê-los visto espionando. Ele poderia, simplesmente, 

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tê-los atraído à casa durante os momentos em que se processava uma operação de contrabando 
no campo visual do telescópio. 

Quando  Frank  chegou  à  ponta  do  penhasco  e  tentou  olhar  pelo  telescópio,  sentiu-se 

frustrado. As oculares, tanto do telescópio, como do guia, haviam desaparecido. 

Quando se virou para contar a novidade para o grupo, os rapazes não estavam ali. Pouco 

depois, Joe veio correndo do lado da casa, gritando: 

– As motos estão salvas. Ninguém as roubou. 
– Graças a Deus – acrescentou Frank. 
Chet  e  Biff  chegaram  logo,  e  todos  deitaram-se  na  grama  para  discutir  os  misteriosos 

acontecimentos e elaborar um plano de ação. 

– Se esse ladrão está escondido na casa, vou encontrá-lo – declarou Joe, afinal. 
– Concordo – disse Frank, levantando-se de um pulo. 
– E você, Biff, quer cuidar das motos, enquanto Chet toma conta do telescópio? Assim as 

portas da frente e de trás também estarão cobertas, para o caso de o ladrão sair. 

– De acordo – disseram os amigos dos Hardys. 
Quando Frank e Joe entravam pela porta dianteira, Joe observou: 
– Há uma escada na parte de trás. Se não encontrarmos ninguém no térreo, eu vou por 

ela e você sobe pela escada da frente. 

Frank concordou e a busca foi iniciada. Não apenas o térreo, mas o primeiro andar e o 

sótão foram cuidadosamente investigados, sem resultados. 

– Só deixamos de olhar em um lugar – disse Frank. – O celeiro. 
Nessa área também não foi encontrado o ladrão. 
– Acho que o homem conseguiu fugir – sustentou Frank. – Não, talvez ele tenha descido 

o rochedo escapando num barco – sugeriu Frank. 

Desgostosos  e  insatisfeitos,  os  Hardys  contaram  seu  malogro  a  Biff  e  Chet.  A  seguir 

desmontaram o telescópio, instalando-o novamente na moto de Frank. 

– Acho que podemos ir para casa – disse Joe desanimado. – Vamos ter de apresentar um 

relatório muito desagradável a papai. 

– Desagradável? – disse Biff. – Há seis meses não me acontecia coisa tão entusiasmante. 
Os  rapazes  subiram  nas  motos.  No  momento  de  dar  partida,  os  quatro  gelaram.  De 

alguma  parte  embaixo  do  rochedo,  emergiu  uma  gargalhada  demoníaca.  Involuntariamente,  os 
quatro tremeram. 

– Vamos... vamos sair daqui – pediu Chet. 
Frank  e  Joe  arrancaram  com  suas  máquinas,  e  correram  na  direção  de  onde  viera  a 

gargalhada. 

– Pode ser outra armadilha. – disse Chet. – Voltem. 
Mas os Hardys continuaram. Quando acabaram de chegar à beira do penhasco, ouviram, 

com completo assombro, que a risada provinha agora de uma direção completamente oposta. Na 
realidade, vinha de sua retaguarda. 

– Que está acontecendo? – perguntou Joe. 
– Ajude-me. – gritou Frank. – O fantasma deve ter um associado. 
Os  irmãos  aproximaram-se  da  beira  do  rochedo,  observando  à  sua  volta.  Só  o  que 

puderam ver foram rochas que brilhavam no meio da espuma das ondas, lá embaixo. 

Frank  e  Joe  voltaram  às  motos,  desapontados  e  chateados  porque  não  conseguiram 

descobrir nada e não podiam explicar a segunda gargalhada. 

– De qualquer jeito, alegra-me que tenha parado – disse Chet. – A coisa me assustou e 

provocou arrepios e um friozinho desagradável na espinha. 

Biff olhou para o relógio. 
– Tenho mesmo de ir para casa, companheiros. Lamento ter de interromper esta caçada 

humana. Talvez vocês possam levar-me até um ônibus, e depois vocês voltam. 

Os  Hardys  não  concordaram,  e  disseram  que  era  melhor  mesmo  irem  embora 

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imediatamente. 

Tinham percorrido pouco mais de um quilômetro e meio, quando o motor da moto de 

Frank falhou e parou completamente. 

– Ótima hora para quebrar – disse com amargura, pedindo a Joe que parasse. 
Joe fez meia volta e parou ao lado de Frank. 
– Que está havendo? 
– Não sei – respondeu Frank. – Não é falta de gasolina. O tanque está cheio. 
–  Que  sorte  –  disse  Joe  com  ar  patético.  –  Vamos  dar  uma  olhada  no  motor.  Melhor 

pegar suas ferramentas. 

Ao  abrir  a  caixa  de  ferramentas  de  sua  moto,  uma  expressão  de  raiva  e  admiração 

apareceu no rosto de Frank. 

– Minhas ferramentas – gritou – desapareceram! 
Os outros se aproximaram. A caixa de ferramentas estava, mesmo, completamente vazia. 
–  Você  tem  certeza  de  que  elas  estavam  aí,  quando  você  saiu  de  Bayport?  –  perguntou 

Chet. 

– Claro que tenho. Nunca vou a lugar algum sem elas. 
Biff sacudiu a cabeça: 
–  Suponho  que  quem  levou  as  oculares  do  telescópio  roubou  as  suas  ferramentas 

também. 

Joe  examinou  a  caixa  de  ferramentas  de  sua  própria  moto  e  exclamou  com  ar 

profundamente desanimado: 

– As minhas também desapareceram. 

 

Deslizamento 

 
– É uma pena, companheiros – disse Chet Morton. – Sem dúvida, hoje foi o seu dia de 

má sorte. Primeiro as oculares do telescópio; agora as ferramentas das motocicletas. 

– E tudo feito pela mesma pessoa, tenho certeza – observou Frank com amargura. 
– Um sujeito rápido e eficiente, não importa quem seja – acrescentou Joe, aborrecido. 
Chet enfiou as mãos nos bolsos da calça, deles tirando dois alicates, uma chave de fenda e 

uma chave universal. 

– Eu estava trabalhando no Queen hoje cedo – explicou. – Foi bom ter posto isto nos 

bolsos. 

– Concordo – disse Frank, agradecido, e apanhou as ferramentas, entregues por Chet. 
Desparafusou  a  capa  do  motor  e  iniciou  uma  observação  cuidadosa  de  cada  porca  e 

parafuso da máquina. Finalmente, voltou a cabeça e anunciou: 

– Acho que encontrei a causa do problema: uma ligação malfeita. 
Frank  apertou  as  peças,  e  logo  depois  o  motor  funcionava  normalmente.  A  capa  foi 

recolocada,  as  ferramentas  de  Chet  foram  devolvidas  com  agradecimentos  e  os  quatro  rapazes 
mais uma vez iniciaram a viagem de volta. 

– Esperemos que nada mais aconteça ate chegarmos em casa – disse Biff com um sorriso 

pouco convincente. 

– É, vamos esperar – acrescentou Joe com ênfase. 
Por  cinco  minutos  o  grupo  avançou  em  silêncio,  com  os  pensamentos  parcialmente 

voltados  para  o  panorama  que  os  cercava,  mas  principalmente intrigados  com  os  mistérios  nos 
quais se viam envolvidos. 

A  idéia  de  Joe  corria  com  sua  moto.  Em  poucos  minutos  distanciara-se  bastante  da 

máquina  de  seu  irmão.  Frank  não  ousava  correr  mais,  temeroso  de  causar  danos  ao  telescópio 
amarrado à moto. 

Joe acabara de atingir um trecho da estrada que ocupava um corte efetuado na encosta à 

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direita. Havia uma curva acentuada no local. A moto acompanhava bem a curva, mas Joe e Biff 
mal atingiam seu final, quando ouviram um terrível estrondo, atrás. 

– Que foi isso? – gritou Joe. 
Biff voltou-se para olhar por cima do ombro. 
– Um deslizamento de terra – respondeu. 
Pedras  e  todas  as  variedades  de  sujeira  despregadas  pelas  recentes  tempestades  rolavam 

pela ribanceira com incrível velocidade. 

–  Frank  –  gritou  Joe,  aterrorizado.  Apertou  o  freio  e  desligou  imediatamente  o  motor. 

Quando  voltou  para  advertir  o  irmão,  Joe  percebeu  que  já  era  tarde.  Biff  correra  bastante  e 
ambos só conseguiram olhar assustados, quase sem respiração. 

Frank e Chet vinham fazendo a curva em boa velocidade e foram inteiramente apanhados 

pelo deslizamento. O barulho terrível fora encoberto pelo arrebentar das ondas, embaixo, e pelo 
ruído da própria moto. Os dois rapazes, a moto e o telescópio foram apanhados em cheio pela 
avalancha  de  pedras  e  de  terra.  Quando  finalmente  acabou  a  chuva  de  detritos,  Joe  e  Biff  se 
aproximaram. 

– Frank! Chet! – gritaram ao mesmo tempo. – Vocês estão bem? 
Frank  e,  depois,  Chet  sentaram  vagarosamente.  Além  de  parecerem  um  pouco 

estonteados, não sofreram maiores danos. 

– As rochas não me acertaram a cabeça – disse Frank, finalmente. 
–  Levei  uma  descarga  forte  no  ombro  –  disse  Chet,  enquanto  passava  a  mão  sobre  a 

região. 

– Vocês tiveram sorte – disse Biff. Joe concordou, aliviado. 
– Aconteceu alguma coisa com o telescópio? – perguntou Frank, preocupado. – Dê uma 

espiada, sim, Joe? 

A  caixa amassada,  retirada  das  cordas  que  a  prendiam  firmemente  à  motocicleta,  estava 

no chão, coberta de pedras e poeira. Joe examinou-a. Abriu a caixa cuidadosamente e verificou se 
tudo estava em ordem com o telescópio. 

– Parece que está tudo bem – disse aliviado. – Claro que só poderemos saber com certeza 

quando tentarmos com outras oculares. Mas pelo menos parece que não há nada quebrado. 

A essa altura Frank e Chet já estavam de pé, e Biff observou: 
– Enquanto vocês dois se recuperam, eu e Joe podemos ir tirando do caminho as pedras 

maiores. É possível que algum motorista se aproxime em alta velocidade e quebre o pescoço ou, 
pelo menos, amasse o carro, se este lugar não for limpo. 

– Eu estou bem – insistiu Chet. – A pedra que me atingiu foi como um tranco daqueles 

grandalhões do futebol. Eu já levei muitos trancos como esse, antes. 

Frank também disse que não estava sentindo nada. Juntos, os rapazes rolaram pedra por 

pedra  para  o  descampado  que  ficava  entre  a  estrada  e  a  água  e,  ajudando-se  uns  aos  outros, 
carregavam as mais pesadas. 

– Acho que agora acabamos – disse Frank. – Biff, acho que você não vai ter outro jeito, a 

não ser chegar atrasado em casa – acrescentou, pilheriando: – Quem é ela? 

Biff ficou um pouco vermelho: 
–  Como  é  que  você  sabe?  Eu  marquei  um  encontro  com  Sally  Sanderson.  Só  de 

brincadeira, e ela é muito boazinha. Não tem importância que ela espere um pouco mais. 

Mais uma vez, os rapazes ligaram as motos e arrancaram. Logo depois um  barulho que 

vinha  da  direção  do  mar  atraiu  a  atenção  de  Frank,  e  ele  ficou  observando  ao  longe,  sobre  as 
águas marulhantes. Um poderoso barco a motor apareceu de trás de um pequeno rochedo quase 
dois  quilômetros  adiante.  A  pouca  distância  vinha  outro  barco  igual,  mas  de  tamanho  maior. 
Ambos navegavam em alta velocidade. 

– Parece que é uma corrida – exclamou Joe. – Vamos observá-los. 
Os  Hardys  levaram  as  motos  para  debaixo  de algumas  árvores,  onde  pararam,  para  dali 

caminharem até a praia. 

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Aparentemente  os  barcos  não  estavam  participando  de  uma  corrida  muito  amistosa.  O 

primeiro serpenteava de forma peculiar, enquanto o perseguidor se aproximava cada vez mais. 

– Vejam, o segundo barco está tentando pegar o outro – gritou Frank. 
–  É,  está  sim.  O  que  será  que  está  acontecendo?  –  perguntou  Joe,  tenso.  –  Pena  o 

telescópio não estar funcionando. Algum de vocês consegue ler os nomes dos barcos? 

– Não – responderam todos juntos. 
Os  dois  homens  que  estavam  de  pé  na  proa  do  barco  perseguidor  sacudiam  os  braços 

agitadamente.  O  primeiro  barco  fez  uma  curva  fechada,  como  se  tomasse  a  direção  da  praia. 
Então,  aparentemente,  o  piloto  mudou  de  idéia,  porque  em  um  minuto  a  proa  de  sua  lancha 
voltou-se como se fosse na direção do alto-mar. 

Mas  aquele  momento  de  hesitação  deu  aos  perseguidores  a  oportunidade  que  estavam 

esperando.  Rapidamente  a  distância  que  separava  os  dois  barcos  foi  diminuindo,  e  logo  ambos 
corriam lado a lado. Estavam tão próximos que parecia iminente um choque. 

– Vão todos morrer, se não tomarem cuidado – murmurou Frank, enquanto continuava 

acompanhando atentamente. 

No barco menor, o único homem que o ocupava estava completamente inclinado sobre a 

direção.  Um  dos  homens  que  vinha  no  de  trás  levantou  o  braço  direito.  Num  segundo  lançou 
alguma  coisa  no  ar.  O  objeto  caiu  no  compartimento  do  motor  do  barco  pequeno,  e 
imediatamente o outro se afastou em alta velocidade. 

– Que era aquilo? – perguntou Chet. – Eu... 
De repente, uma língua de fogo se desprendeu da lancha. Houve uma explosão enorme e 

imediatamente  uma  densa  nuvem  de  fumaça  se  espalhou  pelo  ar.  Pedaços  de  destroços  foram 
atirados a distância, e, entre eles, os rapazes viram o corpo do homem caindo na água. 

Repentinamente, o barco inteiro pegou fogo. As chamas se estendiam da proa à popa. 
– O homem – gritou Frank. – Ele está vivo. 
Os rapazes podiam vê-lo, lutando contra as ondas, tentando nadar até a praia. 
– Ele não vai conseguir – disse Joe. – Vai afundar. 
– Precisamos salvá-lo – gritou Frank. 

 

O Salvamento 

 
Os Hardys sabiam que não tinham tempo a perder. Era evidente que o homem tinha sido 

ferido pela explosão e não conseguiria nadar muito mais. 

– Não conseguiremos alcançá-lo – disse Chet, enquanto os quatro corriam e saltavam por 

cima das pedras e do capim, para chegar à água. 

Então, Frank avisou: 
– Estou vendo um barco a remo ali na praia. – Seus olhos penetrantes tinham descoberto 

um pequeno barco a remo quase inteiramente escondido numa pequena caverna, na encosta do 
rochedo. – Chegaremos mais depressa com aquilo. 

Uma  enorme  rocha  que  brotava  das  águas  separava  a  entrada  da  caverna  da  parte 

acessível da praia. 

– Teremos de subir na pedra e descer do outro lado – observou Joe. – Acho mais simples 

ir nadando, por trás. 

– Também acho – disse Biff. 
Os dois se atiraram na água e começaram a avançar na direção do homem ferido. 
Enquanto isso, Frank e Chet tinham ultrapassado a rocha e começavam a correr, descida 

abaixo, rumo ao barco a remo. 

– Aquele homem ainda está boiando – gritou Frank, olhando rapidamente para a água. 
Joe e Biff, que decidiram nadar até onde estava o homem, avançavam rapidamente, mas 

ainda  tinham  uma  grande  distância  pela  frente,  principalmente  depois  que  a  maré  começou  a 

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baixar, afastando-o ainda mais. 

Escorregando  e  rolando,  Frank  e  Chet  conseguiram  descer  a  encosta,  com  algumas 

pedras  e  muita  areia  descendo  pela  frente.  Finalmente  chegaram  onde  estava  a  canoa,  que 
examinaram  cuidadosamente.  Era  desbotada  e  velha,  mas,  aparentemente,  podia  ser  usada  com 
segurança. Havia dois pares de remos. 

– Segure firme – disse Frank a Chet. 
Os rapazes arrastaram a canoa sobre as toras e lançaram-na à água. Rapidamente fixaram 

os  remos  e  sentaram-se.  Remando  com  força,  Frank  e  Chet  dirigiram-se  para  onde  estava  o 
nadador ferido. A caminho, apanharam Joe e Biff, que subiram a bordo. O homem vira o grupo e 
pedia por socorro, febrilmente. 

– Mais depressa – disse Joe. – Ele parece a ponto de afundar. 
A  lancha,  a  distância,  ainda  queimava,  e  as  chamas  se  elevavam  no  ar.  Estava 

completamente destruída. 

Os rapazes remavam como melhor podiam e a canoa sulcava o mar. Quando estavam a 

alguns metros apenas do homem, ele perdeu as forças e afundou. 

– Ele está afundando – gritou Chet, dobrando-se para acionar o remo. 
Joe  deu  um  longo  e  profundo  mergulho,  desaparecendo  no  local  em  que  o  homem 

afundara  momentos  antes.  Frank  e  Chet  remaram  até  o  ponto  exato  e  inclinaram-se  na  borda, 
para examinar a água. 

Nesse  exato  momento,  Joe  e  o  desconhecido  apareceram  na  superfície.  O  rapaz 

sustentava seu corpo, apanhando-o por baixo do braço. A cabeça do desconhecido estava caída. 

– Ele está desmaiado – Biff disse com dificuldade, enquanto ajudava a colocar a vítima na 

canoa. O homem jazia no fundo da canoa, mais morto do que vivo. 

– Vamos tentar reanimá-lo. Depois vamos levá-lo para um hospital – sugeriu Frank. 
Fizeram um pouco de respiração artificial, forçando a saída de um pouco de água que se 

alojara nos pulmões do afogado, mas o desconhecido não recuperava a consciência. 

– Acho que ele desmaiou de cansaço – afirmou Joe. Frank e Chet tiraram suas japonas, 

enrolando-as naquela figura ensopada. 

– Que tal se nós o levássemos para aquela fazenda lá na beira da estrada? – sugeriu Chet. 
Os  outros  concordaram.  Enquanto  Frank  e  Chet  remavam  na  direção  da  fazenda,  os 

rapazes  discutiam  o  mistério.  Quem  seria  a  vítima  da  explosão  e  por  que  os  dois  homens  do 
outro barco tentaram matá-lo? 

O homem que salvaram jazia deitado de frente, no fundo da canoa. Era um homem alto, 

magro, de cabelos escuros e de semblante e feições duros e bem definidos. Usava roupas baratas 
e velhas. Biff procurou uma identificação em seus bolsos, mas não encontrou nenhuma. 

– Acho que não é daqui. Nunca o vi nas redondezas – disse Joe. 
Os outros rapazes disseram a mesma coisa. Ninguém o conhecia. 
O  barco  já  estava  perto  da  praia.  Joe  e  Biff  pularam  fora  e  arrastaram  o  casco, 

parcialmente, para a areia. Então os quatro rapazes carregaram o homem desmaiado, pela praia 
rochosa, até a fazenda. 

Quando se aproximavam, uma rechonchuda mulher veio correndo para encontrá-los. Do 

pomar, nas proximidades, surgiu um homem encasacado. 

– Meu Deus! O que aconteceu? – perguntou a mulher, aproximando-se rapidamente. 
– Acabamos de tirar este homem do mar. Vimos a sua casa e... – explicou Frank, nervoso. 
– Levem-no para dentro – disse o fazendeiro. – Vamos logo para dentro. 
A  mulher  adiantou-se,  mantendo  a  porta  aberta  para  que  pudessem  passar.  Os  rapazes 

levaram  o  homem  para  dentro,  colocando-o  numa  cama  arrumada  no  quarto  existente  no 
pavimento  térreo.  A  mulher  do  fazendeiro  correu  para  a  cozinha,  para  preparar  uma  bebida 
quente. 

– Façam massagens nas suas juntas, principalmente nos punhos, e tirem dele essas roupas 

molhadas – disse o fazendeiro. – Isso ajudará a reativar a circulação. Vou buscar um pijama seco. 

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– Não é melhor chamar um médico? – perguntou Frank. 
– Não será necessário. Tudo sairá bem – disse o fazendeiro. 
Logo  a  vítima  estava  coberta  e  aquecida.  Frank  e  Joe  continuaram  massageando  seus 

punhos. 

Afinal,  o  desconhecido  respirou  profundamente.  Moveu  os  lábios,  mas  não  disse 

nenhuma palavra. Então abriu os olhos e olhou fixamente para os que estavam à sua volta, como 
se não estivesse vendo nada. 

– Onde estou? – perguntou baixinho. 
– Está salvo – garantiu-lhe Frank. – Está entre amigos. 
– Vocês me recolheram? 
– Sim. 
– Eu estive... muito perto... da morte? – perguntou. 
– Você quase se afogou, mas agora está tudo em ordem. 
Quando tiver vontade de falar, pode contar-nos toda a história – disse Frank. – Enquanto 

isso, vamos chamar a polícia ou a guarda costeira, para fazer acusação contra aqueles homens que 
tentaram assassiná-lo. 

O homem estremeceu e olhou, assustado, para a janela. 
– Não. Não. Não façam isso. 
Os rapazes ficaram chocados. 
– Por que não? – quis saber Joe. 
O homem permaneceu silencioso e pensativo por algum tempo, depois disse: 
–  Obrigado,  mas  prefiro  deixar  as  coisas  como  elas  estão.  Tomarei  providências  assim 

que tiver forças novamente. – Voltando-se para o fazendeiro, acrescentou: – Pode permitir que 
eu fique aqui, por esta noite? Eu pagarei por isso, é claro. 

O homem estendeu a mão e disse: 
–  Meu  nome  é  Kane  e  você  é  bem-vindo  para  permanecer  aqui  enquanto  precisar. 

Ninguém jamais poderá dizer que eu expulsei um homem necessitado. E o seu nome, como é? 

O desconhecido hesitou um instante, mas logo disse: 
– Jones. Bill Jones. 
Era  um  nome  tão  evidentemente  falso  que  os  Hardys  se  entreolharam  com  ares  de 

suspeita.  Kane  não  pareceu  compreender  que  seu  hóspede  estava  tentando  esconder  sua 
identidade. 

A Senhora Kane apareceu com uma sopa quente e pão torrado. Sugeriu que o marido e 

os rapazes deixassem o homem descansar um pouco. Quando se reuniu a eles, na sala de visitas, 
convidou os rapazes para comerem alguma coisa. Chet aceitou rapidamente, falando em nome de 
todos. 

A “alguma coisa” consistia de sanduíches de presunto preparado em casa, queijo, copos 

de leite fresco e torta de limão, coberta com merengue. Chet se deliciou. 

–  Senhora  Kane,  a  senhora  deveria  abrir  um  restaurante.  Eu  seria  um  freqüentador 

assíduo. A senhora faz torta melhor do que qualquer pessoa que eu conheço. 

Frank, Joe e Biff riram, pois, afinal, não era a primeira vez que ouviam aquele inveterado 

esfomeado  dizer  a  mesma  coisa.  Mas,  no  caso  específico,  tinham  que  concordar  com  ele,  e 
confessaram-no à Senhora Kane. 

Ela sorriu e disse: 
– É o mínimo que posso fazer por vocês, rapazes, que acabaram de salvar a vida de um 

homem. 

Seus jovens hóspedes não disseram nenhuma palavra a respeito da aventura que tinham 

vivido  pouco  antes  na  Vila  Pollitt,  mas  Frank  perguntou  casualmente  aos  Kanes  se  tinham 
conhecido o falecido proprietário e se alguém estava vivendo na casa, na oportunidade. 

–  Lógico  que  conheci  Felix  Pollitt  –  respondeu  o  fazendeiro.  –  Homem  de  pouca  fala, 

aquele  miserável,  mas  certa  vez  eu  o  ouvi  dizer  alguma  coisa  a  respeito  de  um  mau  sobrinho. 

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Pollitt  disse  que  se  tratava  de  seu  único  parente  vivo  e  acreditava  que  teria  de  deixar  a 
propriedade ao sobrinho. 

– Mas quem desejaria um lugar daqueles? – perguntou a Senhora Kane. – Está caindo aos 

pedaços, e sua reconstrução custaria uma fábula. 

Joe concordou, acrescentando: 
– Parece uma casa mal-assombrada. 
– Curioso você dizer isso. – A Senhora Kane encarou Joe: – Outro dia, uma família parou 

aqui. Desejava comprar ovos. Uma das meninas menores disse que tinham tido um grande susto. 
Pararam  perto  da  Vila  Pollitt  para  um  pequeno  piquenique,  mas  foram  dissuadidos  de  suas 
intenções por ruídos, choros, lamentações e gargalhadas assustadoras, que partiam da casa. 

–  A  imaginação  da  criança,  logicamente,  desempenhou  importante  papel  nesse  caso  – 

disse o fazendeiro. 

–  Não  tenho  tanta  certeza  assim  –  disse  a  Senhora  Kane.  –  É  provável  que  moleques 

tenham ido lá para assustar os outros. 

Depois  que  Frank,  Joe  e  seus  amigos  partiram  da  fazenda,  discutiram  os  estranhos 

barulhos que ouviram na Vila Pollitt sob esse novo ângulo. 

Biff ficou furioso: 
– Se forem fantasmas de Bayport, certamente terão agora muito motivo para gozação. 
–  E  como  têm  –  respondeu  Chet.  –  Não  quero  nem  saber  deles  na  próxima  segunda-

feira. 

Frank  e  Joe  não  se  convenceram.  Depois  que  deixaram  seus  companheiros  nas 

residências dos Mortons e dos Hoopers, discutiram as estranhas e barulhentas aventuras do dia, a 
caminho de casa. 

–  Sempre  soube  que  esse  negócio  de  fantasmas  não  é  só  uma  brincadeira  –  declarou 

Frank. 

–  Concordo  –  disse  o  irmão.  –  Acabo  de  ter  uma  idéia,  Frank.  Talvez  não  tivesse 

ninguém na casa. Alguém pode ter ido lá e instalado um gravador com controle remoto. Que tal 
voltarmos em outra oportunidade e darmos uma boa olhada na casa toda? 

– Estou de pleno acordo. 
A essa altura os rapazes já estavam avançando pela longa estrada que leva até a residência 

dos Hardys, uma grande, espaçosa e bonita casa de madeira, de três andares, localizada na esquina 
das  ruas  High  e  Elm.  A  grande  garagem  de  dois  andares,  localizada  no  fundo  do  quintal,  no 
passado fora um celeiro. 

Frank e Joe estacionaram suas motocicletas, desataram a caixa do telescópio e levaram-na 

para a varanda. Quando entraram na cozinha encontraram a mãe, uma mulher bonita, de feições 
delicadas e grandes olhos azuis. Estava preparando o jantar. 

–  Alô,  meninos  –  disse  alegremente.  –  Passaram  um  bom  dia?  Encontraram  algum 

contrabandista? 

Os dois beijaram-na e Frank disse: 
– Temos um montão de coisas para contar à senhora e ao papai. 
–  Ele  está  no  estúdio,  lá  em  cima.  Subo  já,  e  poderemos  conversar  bastante,  enquanto 

assa o frango e as batatas tostam. 

Os  três  subiram  depressa,  dirigindo-se  ao  aposento  em  que  o  Senhor  Hardy  estava 

ocupado,  pesquisando  entre  as  fichas  de  um  grande  arquivo  metálico  em  que  guardava 
importantes informações. O detetive suspendeu o trabalho e ouviu atentamente, enquanto Frank 
e Joe contavam, com pormenores, as suas aventuras do dia. 

–  Claro,  nós  caímos  direitinho  naquela  do  grito  pedindo  ajuda  –  explicou  Joe.  –  Sinto 

muito quanto às oculares do telescópio que nos roubaram. 

–  Espero  não  ser  prejudicado  por  ter  sido  apanhado  pelo  deslizamento  de terra  –  disse 

Frank. – Certamente o senhor me despediria de sua equipe de detetives. 

–  Nada  disso  –  replicou  o  pai.  –  Mas  agora  vamos  analisar  o  que  vocês  viram  pelo 

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telescópio. Você disse que focalizou um homem que descia pela escada de um navio, embarcando 
numa pequena lancha. Poderia ser esse o homem que se diz chamar Jones? 

– Não conseguimos ver bem – disse Joe. – Mas acho que poderia ser. 
Frank estalou os dedos. 
– Sim, e também poderia ser um contrabandista. 
– Mas quem foi que jogou a granada em sua lancha? – perguntou Joe. – Ninguém da sua 

própria  quadrilha,  é  lógico.  E  aqueles  caras  que  estavam  na  outra  lancha  certamente  não  eram 
homens da guarda costeira, nem mesmo disfarçados. Eles não usariam granadas. 

–  Joe  está  certo  –  disse  o  Senhor  Hardy.  –  Mas,  mesmo  assim,  Jones  poderia  ser  um 

contrabandista. 

– O senhor quer dizer que ele poderia ter feito alguma coisa que irritou seu chefe, e este 

mandou aqueles dois homens para matá-lo? – perguntou Joe. 

O detetive concordou. 
–  Se  essa  teoria  for  certa  e  nós  conseguirmos  convencer  Jones  a  falar  antes  de  ele  se 

reconciliar com a quadrilha ou antes de decidir vingar-se, poderemos convertê-lo em testemunha 
de acusação. 

Os rapazes ficaram entusiasmados. Ambos levantaram-se de suas cadeiras agitadamente e 

Joe exclamou ansioso: 

– Vamos falar com ele, já. Ele vai embora amanhã cedo. 

 

Peter Pretzel 

 
– Um momento – disse a Senhora Hardy. – Vamos primeiro jantar. 
–  Podemos  comer  quando  voltarmos  de  nossa  conversa  com  Jones  –  respondeu  Joe.  – 

Mamãe, ele pode decidir ir embora a qualquer momento. 

A Senhora Hardy falou então com o marido: 
– Fenton, o que você diz? 
O detetive sorriu compreensivamente para a mulher e então disse a Frank e Joe: 
– Vocês não disseram que Jones está muito abatido? 
– Sim, pai – respondeu Frank. 
–  Duvido,  então,  que  ele  tente  deixar  a  casa  dos  Kanes  antes  da  hora  que  ele  mesmo 

marcou: amanhã cedo. Tenho certeza que podemos calmamente tomar aquela sopa gostosa que 
só a mamãe sabe fazer, e ainda assim teremos tempo suficiente. 

Joe concordou e, para deixar a mãe mais satisfeita, disse sorrindo: 
– Acho que posso arquivar o segredo mais um pouco. Pra dizer a verdade, com o vazio 

que estou sentindo no estômago, posso tomar até dois pratos de sopa. 

A  Senhora  Hardy  deu  um  puxão  de  orelha  no  filho  –  de  brincadeira,  como  era  seu 

costume há muitos anos. Ele sorriu afetuosamente e perguntou se podia ajudar a terminar a janta. 

–  Pode  por  água  nos  copos  e  preparar  leite  batido  para  você  e  Frank  –  respondeu  a 

Senhora Hardy, enquanto descia a escada ao lado de Joe. 

Durante o jantar, como acontecia freqüentemente na casa dos Hardys, a conversa girou 

em  torno  daquele  mistério.  Frank  perguntou  ao  pai  se  tinha  feito  algum  progresso  em  suas 
investigações sobre os contrabandistas. 

–  Muito  pouco  –  respondeu  o  detetive.  –  Snattman  é  um  indivíduo  muito  esperto.  Faz 

desaparecer as pistas com maestria. Mas já descobri alguma coisa. A administradora que cuida dos 
assuntos  do  velho  Pollitt  não  conseguiu  localizar  o  sobrinho  para  quem  a  propriedade  foi 
deixada. 

–  O  Senhor  Kane  disse  que  ouviu  Pollitt  insinuar  que  o  sobrinho  não  prestava  – 

observou Frank. 

– É exatamente esse o ponto – interrompeu o Senhor Hardy. – Os advogados da firma 

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foram informados pela polícia que se trata de um vagabundo sobre o qual pesam várias acusações 
de roubos e pequenos crimes. 

Frank assobiou. 
– Isso deixa o sobrinho em má situação, não é? Se ele aparecer para reclamar a herança, 

será apanhado pela polícia e acusado como criminoso. 

– Exatamente – concordou o pai. 
– O que acontecerá com a casa? – quis saber Joe. 
Seu pai disse que acreditava na possibilidade de os executores do testamento deixarem a 

casa vaga como estava, mas também existia a possibilidade de ela ser alugada. 

–  Poderiam  alugá-la  sem  contrato,  cobrando  aluguéis  adiantadamente,  proporcionando 

assim uma renda mais à herança. 

– O que não ajudaria muito o sobrinho, se ele estivesse na cadeia – observou seriamente a 

Senhora Hardy. 

– Tudo dependeria da duração da pena que lhe fosse aplicada – contestou o marido. – Ele 

pode  não  ser  um  criminoso  perigoso.  É  possível  que  se  tenha  metido  com  más  companhias  e 
convertido em cúmplice não intencional de pequenos roubos ou assaltos. 

– Nesse caso – disse Frank –, ele pode ter chegado à conclusão de que não passará muito 

tempo  na  cadeia.  Poderá  mais  tarde  reclamar  a  propriedade,  aceitar  o  castigo,  e,  depois  de 
cumprida a pena, poderá levar uma vida tranqüila e agradável na antiga residência do tio. 

–  É  isso  o  que  eu  espero  que  aconteça  –  acedeu  o  pai.  –  O  que  infelizmente  costuma 

acontecer é que um jovem se junte a um bando de criminosos e marginais, tornando se cúmplice 
e  objeto  de  chantagem  para  o  resto  da  vida,  mesmo  que  tente  agir  direito.  –  Sorrindo, 
acrescentou: – A melhor maneira de evitar essa situação é não se envolver nela. 

Nesse momento o telefone tocou. Frank atendeu e chamou: 
– Pai, é com o senhor. – E voltou para a mesa do jantar. 
O  Senhor  Hardy  passou  cerca  de  quinze  minutos  conversando  com  a  outra  pessoa. 

Enquanto  isso,  os  rapazes  e  a  Senhora  Hardy  acabaram  de  tomar  a  sopa  e  jantaram.  Depois, 
enquanto comiam a sobremesa, Hardy contou à família algumas das informações que acabara de 
receber por telefone. 

– Mais drogas desapareceram – disse nervoso. – Estou absolutamente convencido de que 

Snattman está metido nisso. 

– As drogas foram roubadas aqui por perto? – indagou Frank. 
–  Ainda  não  sabemos  –  foi  a  resposta  do  pai.  –  Uma  empresa  farmacêutica  do  centro-

oeste  estava  esperando  um  embarque  de  drogas  raras  da  índia.  Quando  a  encomenda  chegou, 
havia  só  a  metade.  Ficou  claro  que  alguém  abriu  a  embalagem,  removeu  parte  do  conteúdo  e 
refez  os  pacotes  com  tamanha  perfeição  que  nem  os  funcionários  da  alfândega,  nem  os  do 
correio desconfiaram que a encomenda fora violada. 

– Como é que as drogas foram enviadas para cá? – quis saber Joe. 
– Por via marítima. 
– Qual o porto de destino? 
– Nova York. Mas o navio parou em Bayport. 
– Há quanto tempo foi isso? 
– Aproximadamente dois meses. Aparentemente a empresa farmacêutica só precisou usar 

as drogas agora, quando abriu os pacotes e descobriu a fraude. 

–  É  possível,  então,  que  as  drogas  tenham  sido  removidas  da  embalagem  nas  próprias 

dependências da empresa e o caso não seja de contrabando – observou, seriamente, Joe. 

–  Pode  ser  –  interrompeu  o  Senhor  Hardy.  –  Cada  vez  que  se  tem  conhecimento  de 

novos  desaparecimentos  de  drogas,  surgem  novos  e  diferentes  ângulos  da  questão.  Embora  eu 
esteja  convencido  de  que  Snattman  está  por  trás  disso  tudo,  o  nó  do  problema  é  descobrir  a 
maneira de prová-lo. 

O Senhor Hardy explicou, então, que a informação que acabara de receber a respeito de 

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Snattman, segundo a qual ele estaria na região de Bayport, era merecedora de todo crédito. 

–  Vou  contar  a  vocês  um  pequeno  segredo.  Tenho  um  excelente  amigo  nas  docas.  Ele 

recolhe uma infinidade de diferentes informações para mim. Seu nome é Peter Pretzel. 

– Peter Pretzel?! – Frank e Joe gritaram ao mesmo tempo. – Que nome! 
–  Esse  é  seu  apelido  nas  docas  –  disse  o  Senhor  Hardy.  E  sorriu.  –  Nos  últimos  anos 

tenho comprado tantos dos palpites que ele vende que acho que sou seu melhor freguês. 

Nessa altura, o pai dos rapazes já tinha acabado de comer sua  sobremesa e  sugeriu que 

fossem imediatamente para a fazenda dos Kanes. Tirou o carro da garagem e os rapazes entraram 
logo.  Rapidamente  cobriram  os  nove  quilômetros  de  estrada  até  o  local  onde  Jones  ia  passar  a 
noite. 

– Vejam, a casa está escura – disse Frank, intrigado. 
– Talvez todos estejam dormindo – observou Joe. 
– A esta hora? – protestou Frank. 
O  Senhor  Hardy  avançou  até  as  proximidades  da  casa.  Não  havia  sinal  da  presença  de 

ninguém.  Frank  sugeriu  a  possibilidade  de  o  casal  Kane  ter  saído  para  um  passeio  ou  algum 
compromisso social. 

– O que me surpreende é o fato de eles terem deixado Jones sozinho, em seu estado – 

acrescentou. 

–  Estou  certo  de  que  não  o  fariam  –  disse  o  Senhor  Hardy.  –  Sinto  muito,  mas,  se 

estiverem dormindo, acho que teremos de acordá-los. 

Desceu do carro junto à porta da cozinha. Frank saiu do carro rapidamente, seguido de 

Joe. Bateu à porta, mas ninguém atendeu. 

–  Vamos  tentar  a  porta  da  frente  –  sugeriu  Joe.  –  Talvez  tenha  uma  campainha  ou 

qualquer coisa do gênero. 

Os rapazes caminharam pelo lado, dirigindo-se à parte da casa que ficava de frente para o 

mar. Embora batessem com bastante força, nem assim tiveram resposta. 

– Os Kanes devem ter saído – disse Joe. 
– E Jones, onde está? Deve ter ficado em casa. 
–  Provavelmente  está  muito  fraco  para  vir  até  a  porta  –  acrescentou  Frank.  –  Mas  ele 

poderia, pelo menos, responder. Não consigo entender. 

Os  rapazes  voltaram  à  porta  da  cozinha  e  contaram  ao  pai  o  que  acontecera.  Então, 

depois  que  Joe  bateu  novamente  e  com  insistência,  sem  obter  resposta,  um  sentimento  tomou 
conta dos dois irmãos. 

– Imagino que Jones, sentindo-se melhor, decidiu ir embora. Fomos iludidos – disse Joe. 
–  Experimente  a  maçaneta.  É  possível  que  a  porta  não  esteja  trancada  –  ordenou  o 

Senhor Hardy. Pelo tom de sua voz, os rapazes compreenderam que ele desconfiava da mesma 
coisa. 

Frank  girou  a  maçaneta  e  a  porta  se  escancarou.  O  Senhor  Hardy  procurou  um 

interruptor de luz, tateando a parede. 

– Vamos entrar – murmurou. – Se Jones estiver aí, falaremos com ele. 
O detetive localizou o interruptor e acendeu a luz. Com a claridade, surgiu  diante deles 

uma  cena  que  os  assustou.  Na  sua  visita  anterior,  os  rapazes  ficaram  impressionados  com  a 
limpeza e a ordem existentes naquela dependência da casa. O lugar parecia, agora, varrido por um 
furacão. 

Havia pratos e panelas espalhados por todo o chão. A mesa estava revirada. Num canto 

havia  uma  cadeira  de  pernas  para  cima.  Cacos  de  pires  e  xícaras  espalhavam-se  por  toda  a 
cozinha. 

– Que aconteceu? – exclamou Frank aturdido. 
– Houve uma briga, ou algo parecido – sugeriu o Senhor Hardy. – Vejamos como está o 

resto da casa. 

Os rapazes abriram a porta que dava para a sala de visitas, ao lado. Frank encontrou logo 

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o interruptor e acendeu as luzes. Os Hardys ficaram, então, chocados com uma cena horrível. 

O fazendeiro e sua mulher, bocas e mãos atadas, estavam amarrados às cadeiras, bem no 

meio da sala. 

Rapidamente, Frank, Joe e o pai correram para junto dos Kanes. Eles estavam amarrados 

com fortes cordas e suas bocas estavam tão bem atadas que nenhum dos dois podia nem mesmo 
emitir um som. Num minuto os Hardys soltaram as cordas e retiraram as ataduras. 

– Graças a Deus – disse a Senhora Kane com ar de alívio e esticando os braços. 
Seu marido, furiosamente irritado, levantou-se de um golpe e atirou longe as cordas. 
– Aqueles canalhas – exclamou furioso. 
Frank apresentou apressadamente o pai e perguntou: 
– O que houve? 
Por  algum  tempo  o  Senhor  e  a  Senhora  Kane  estavam  demasiado  emocionados  para 

poderem relatar o que acontecera. Afinal, o fazendeiro aproximou-se da janela e apontou para a 
estrada da praia. 

– Eles fugiram naquela direção – disse. – Sigam-me. 
– Eles quem? 
– Aqueles cafajestes que nos amarraram. Eles levaram Jones. 

 

Mensagem Estranha 

 
– Quando se foram os seqüestradores? – Frank perguntou rapidamente aos Kanes. 
– Há mais ou menos uns dez minutos – respondeu o fazendeiro. – É possível que ainda 

os encontrem, se se apressarem. 

– Venha, papai – gritou Frank. – Vamos atrás deles. 
Não  foi  preciso  chamar  duas  vezes.  Hardy  e  seus  dois  filhos  saíram  imediatamente  da 

casa, pulando para o interior do carro. 

– Coisa chata – disse Joe ao pai quando viravam para a estrada da praia. – Invadir uma 

casa, amarrar seus proprietários e seqüestrar um sujeito. 

– É – concordou o pai. – Parece que seu amigo Jones está envolvido em alguma espécie 

de encrenca. Aqueles homens deviam estar desesperados para se arriscarem a entrar numa casa 
ocupada. 

O  pai  dos  rapazes  podia  seguir  as  marcas  deixadas  pelos  pneus  de  um  outro  carro  na 

estrada poeirenta. Logo, no entanto, surgiram marcas de um segundo carro que entrou na estrada 
da praia, e as marcas ficaram confusas. 

Os Hardys passaram o caminho que levava à Vila Pollitt e continuaram até o alto de uma 

colina.  Daquele  ponto  podiam  observar  cuidadosamente  a  estrada,  que  serpenteava  por  muitos 
quilômetros ao longo do litoral. Não havia nem sinal de carro. 

– Acho que não conseguiremos – disse Frank desapontado, enquanto o pai encostava o 

automóvel. 

–  Eles  saíram  com  uma  boa  vantagem  de  tempo  –  observou  Joe.  –  Se  pelo  menos 

tivéssemos chegado antes à fazenda. Bom, acho que podemos voltar. 

O  Senhor  Hardy  concordou,  fez  a  volta  com  o  carro  e  dirigiu-se  novamente  à  fazenda 

dos Kanes. A caminho, discutiram o misterioso seqüestro, especulando quanto à identidade dos 
responsáveis. 

– Aposto como aqueles homens da lancha viram quando salvamos Jones, ou alguém lhes 

contou, não sei bem por que nem como, que o homem tinha sido levado para a casa dos Kanes – 
insinuou Joe. 

– Se forem eles os seqüestradores, não quero nem pensar no que pode estar acontecendo 

a Jones, neste instante – disse Frank, muito sério. – Eles tentaram matá-lo uma vez. 

–  Talvez  eles  apenas  o  mantenham  preso  –  disse  o  Senhor  Hardy,  muito  pensativo.  – 

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Provavelmente tinham medo que ele dissesse tudo que sabe e, por isso, não podiam deixá-lo na 
fazenda. 

Quando chegaram de volta à casa dos Kanes, encontraram o fazendeiro e sua mulher já 

quase recuperados do choque daquela horrível experiência. A Senhora Kane estava ocupada em 
restabelecer a ordem na cozinha. 

– Não foi possível encontrá-los – informou Frank com tristeza. 
– Aqueles vagabundos tinham um carro poderosíssimo e não perderam nem um pouco 

de tempo. Consegui acompanhar os movimentos deles, quando desciam para a estrada da praia. 
Nossa janela estava aberta – revelou o fazendeiro, bufando de raiva ao lembrar. 

– Por favor, Senhor Kane, diga-nos exatamente o que aconteceu – pediu Joe. 
– Eu e Mabel estávamos aqui na cozinha – começou o homem. – Mabel estava lavando 

os pratos do jantar quando aquele camarada veio para a porta. Era um homem alto e magro, de 
rosto fino. 

– Perguntou-nos  se estávamos cuidando do homem que quase se afogara horas antes – 

interrompeu a mulher do fazendeiro. – Quando dissemos que sim, o sujeito nos disse que Jones 
era seu irmão e que viera para levá-lo. 

–  Suspeitei  de alguma coisa  –  continuou  o  Senhor  Kane.  – Ele  não  se  parecia  nem  um 

pouco com Jones. Perguntei-lhe onde morava. 

–  Então  –  interrompeu  a  mulher  –,  ele  entrou  na  casa,  seguido  por  outro  camarada. 

Agarraram meu marido. Henry brigou muito bem, mas foi dominado porque lutava contra dois. 
Quando tentei ajudar, um terceiro homem apareceu, nem sei de onde, e me agarrou. 

– Eles nos arrastaram para a sala de visitas, amarraram-nos nas cadeiras e colocaram as 

bandagens em nossas bocas – acrescentou o fazendeiro. – Então, ouvimos barulho no quarto em 
que estava Jones. Logo depois eles o levaram para o carro, onde uma quarta personagem estava à 
direção. 

– Jones lutou enquanto o levavam? – perguntou Frank. 
– Tentou. Gritou por ajuda, mas, é claro, eu não podia fazer nada e ele, aparentemente, 

estava muito fraco para qualquer coisa. 

– Isso tudo é muito curioso – observou o Senhor Hardy. 
– Talvez Jones esteja envolvido nas operações de contrabando que se desenvolvem aqui. 

Mas estou curioso para saber quem seriam os quatro homens. 

A Senhora Kane sacudiu a cabeça. 
– Só sei é que estamos  muito contentes porque  o senhor e os  seus  filhos decidiram vir 

aqui nesta noite. É impossível prever quanto tempo ficaríamos amarrados ali até que alguém nos 
descobrisse. 

– Também nos alegramos de ter vindo – disse Frank. 
– Vocês disseram que seu nome é Hardy? – indagou o fazendeiro. – Alguma relação com 

Fenton Hardy? 

– Eu mesmo – sorriu o detetive. 
–  Satisfação  em  conhecê-lo  –  exclamou  Kane  emocionado,  estendendo  a  mão.  –  Se  há 

alguém capaz de desvendar essa história, é o senhor. 

– Vamos tentar – prometeu o pai dos rapazes. 
Os Hardys desejaram boa noite ao fazendeiro e sua mulher. Prometeram voltar à fazenda 

dos  Kanes  assim  que  tivessem  qualquer  nova  informação,  e  o  Senhor  Kane,  por  sua  vez, 
prometeu comunicar-lhes qualquer pista que descobrissem, de Jones ou de seus seqüestradores. 

Quando chegaram à sua casa, os rapazes acompanharam o pai até o estúdio. 
– O que acha disso tudo, pai? – perguntou Joe. 
O Senhor Hardy sentou-se ao lado de sua mesa de trabalho. Fechou os olhos, inclinando-

se para trás em sua cadeira por alguns momentos, em silêncio. 

–  Tenho  apenas  uma  opinião  –  disse,  finalmente.  –  Os  seqüestradores,  provavelmente, 

são  amigos  de  Snattman.  Isso  significaria  que  vocês  descobriram  o  fato  de  existir  toda  uma 

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quadrilha de contrabandistas nas redondezas. 

Os irmãos sentiram-se importantes pelo progresso. 
– O que faremos a partir de agora, pai? – perguntou Joe. 
–  Quero  avaliar  este  caso  sob  todos  os  ângulos  –  respondeu  o  pai.  –  Vou  pensar  a 

respeito  e  depois  volto  a falar  com  vocês.  –  Com essa  resposta  os  rapazes  tiveram  de  se  sentir 
satisfeitos pelo resto do fim de semana. 

Quando  os  rapazes  desceram  na  manhã  de  segunda-feira,  a  Senhora  Hardy  estava 

preparando a mesa para o café. 

Em resposta às perguntas dos rapazes, disse: 
– Seu pai saiu de carro bem cedo, hoje de manhã. Não disse quando voltará. Mas, como 

ele  não  levou  nenhuma  mala,  acredito  que  voltará  hoje  mesmo.  –  A  Senhora  Hardy  estava 
acostumada aos vaivens do marido nas horas mais estranhas em conseqüência de sua profissão, e 
jamais fazia perguntas. 

Frank e Joe ficaram desapontados. Eles esperavam ansiosos para reiniciar a discussão do 

caso com o pai. 

– Imagino que estejamos novamente por nossa conta para tentar descobrir alguma coisa a 

respeito de contrabando – observou Frank, com endosso de Joe. 

Mais  tarde,  quando  chegaram  ao  Colégio  Bayport,  os  rapazes  viram  Iola  Morton  nos 

degraus da escada. Com a encantadora morena Iola Morton estava sua amiga Callie Shaw, uma 
loira muito viva, de olhos castanhos, que era a favorita de Frank entre as centenas de colegas de 
escola. 

–  Como  estão  os  caçadores  de  fantasmas?  –  perguntou  Callie  com  um  sorriso 

zombeteiro. – Iola me contou as aventuras de vocês no sábado. 

–  Chet  estava  mesmo  assustado  –  Iola  observou.  –  Acho  que  alguém  fez  uma  boa 

brincadeira com vocês. 

–  Quem  quer  que  tenha  sido,  deveria  nos  devolver  as  oculares  do  telescópio  e  as 

ferramentas das motocicletas – disse Joe enfaticamente. 

Mas,  na  medida  em  que  o  dia  ia  passando,  sem  que  ninguém  mais  os  amolasse  com 

gozações,  ambos  se  convenceram  de  que  o  “fantasma”  fora  uma  realidade  e  não  apenas  uma 
brincadeira de mau gosto. 

–  Não  foi  nenhuma  brincadeira  –  disse  Joe  a  Frank,  quando  voltaram  para  casa.  –  Se 

tivesse sido uma brincadeira de alguém da escola, certamente todos estariam nos gozando a esta 
altura. 

–  Acho  que  sim  –  concordou  Frank.  –  Joe,  você  acha  que  os  seqüestradores-

contrabandistas tiveram algo a ver com o que aconteceu na Vila Pollitt? 

–  Pode  ser  –  exclamou  Joe.  –  Aquela  casa  abandonada  no  penhasco  poderia 

perfeitamente  ser  um  esconderijo  ideal.  Fazendo  com  que  a  casa  pareça  mal-assombrada,  os 
contrabandistas mantêm o local livre de curiosos. 

–  Gostaria  que  o  Velho  estivesse  em  casa,  para  que  pudéssemos  discutir  com  ele  essa 

possibilidade – observou Frank, pensativo. 

Mas  o  Senhor  Hardy  não  voltou  para  casa  naquele  dia.  Freqüentemente  ele permanecia 

em viagem por períodos de tempo sempre variáveis e imprevisíveis, mas naquele dia, como não 
levara nenhuma bagagem, os rapazes ficaram apreensivos e ansiosos. 

– Não vamos deixar mamãe preocupada por causa disso – disse Frank. – Mas, se o Velho 

não voltar até quarta-feira, acho que deveremos fazer algumas investigações. Talvez Peter Pretzel 
possa nos ajudar. 

Joe  concordou.  Quarta-feira  começariam  as  férias  de  verão  e  eles  poderiam  dedicar  o 

tempo inteiro à procura do pai. 

Na tarde de terça-feira a ausência do Velho Hardy assumiu aspectos estranhos. Frank e 

Joe  voltaram  da  escola  e  encontraram  sua  mãe  sentada  na  sala  de  visitas,  estudando 
cuidadosamente uma mensagem que, aparentemente, acabara de receber. 

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– Venham aqui, meninos – disse a Senhora Hardy, num tom apreensivo. – Vejam isto e 

digam-me o que acham – disse, entregando a mensagem a Frank. 

– O que é? – perguntou imediatamente. – Algum recado de papai? 
– Parece que sim. 
Os  rapazes  leram  o  bilhete.  Fora  escrito  a  máquina,  num  pedaço  de  papel  rasgado,  e  a 

assinatura parecia a de Fenton Hardy. A mensagem dizia: 

“Não voltarei para casa por vários dias. Não se preocupem. Fenton”. 
Só isso. Nada havia que identificasse onde se encontrava o detetive. Nada que indicasse 

quando o bilhete fora escrito. 

– Quando recebeu isto, mãe? – perguntou Frank. 
– Veio pelo correio da tarde. Estava endereçado a mim, e no envelope havia um carimbo 

de Bayport. 

– Por que está preocupada? – indagou Joe. – Pelo menos tivemos notícias de papai. 
– Mas não tenho certeza de que ele tenha enviado a nota. 
– Como assim? O que quer dizer? 
–  Seu  pai  e  eu  temos  um  acordo.  Sempre  que  ele  escreve  para  mim,  coloca  um  sinal 

secreto  embaixo  da  assinatura.  Fenton  sempre  teve  medo  de  que  alguém  falsificasse  sua 
assinatura  em  cartas  ou  mensagens,  logrando,  dessa  forma,  documentos  e  informações  em  seu 
nome. 

Frank apanhou novamente o papel. 
– Aqui não há nenhuma marca. Apenas a assinatura de papai. 
–  É  possível  que  seja  sua  assinatura.  Mas,  se  não  for,  certamente  é  uma  excelente 

falsificação – disse a Senhora Hardy, muito preocupada. 

– Se papai não escreveu este bilhete – perguntou Joe –, então, quem foi? 
– Seu pai tem muitos inimigos... criminosos que ele ajudou a pôr na cadeia. Se há alguma 

implicação séria, o bilhete foi enviado para nos distrair a atenção e atrasar qualquer investigação a 
respeito. 

–  Implicação  séria?  –  exclamou  Joe,  alarmado.  –  Então  a  senhora  acredita  que  tenha 

acontecido alguma coisa com papai? 
 

A Pista Escondida 

 
Joe passou o braço pelo ombro da mãe. 
–  Frank  e  eu  começaremos  a  procurar  papai  amanhã,  logo  cedo  –  disse  o  rapaz,  para 

consolá-la. 

Na manhã seguinte, enquanto se vestiam, Joe perguntou: 
– Por onde começaremos, Frank? 
– Lá embaixo, nas docas. Vamos tentar encontrar Peter Pretzel e procurar saber se papai 

conversou com ele na segunda-feira. É possível que ele nos dê alguma indicação. 

– Boa idéia. 
Os  rapazes  chegaram  bastante  cedo  às  docas  de  Bayport.  Mas  já  havia  uma  grande 

movimentação. Um petroleiro estava descarregando barris de petróleo e os estivadores rolavam-
nos pelo porto, levando-os para caminhões estacionados à espera da carga. 

Havia  um  navio  de  passageiros  atracado  logo  adiante.  Carregadores  percorriam  o  local 

apressadamente, levando malas e pacotes até as proximidades de uma longa fila de táxis. 

Muitos  marinheiros  andavam  pelas  ruas  repletas  de  gente.  Alguns  entravam  em 

restaurantes, outros nas casas de divertimentos. 

–  Gostaria  de  saber  onde  encontrar  Peter  Pretzel  –  disse  Frank.  Ele  e  Joe  já  tinham 

caminhado quatro quarteirões, sem ver qualquer sinal do homem. 

–  Talvez  não  esteja  usando  o  uniforme  –  Joe  sugeriu.  –  Sabe,  aquele  que  o  velho 

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descreveu? 

– Vamos voltar e caminhar na outra direção, para lá do petroleiro. – disse Frank. 
Os rapazes mudaram de direção e foram atravessando as docas atravancadas de gente e 

de mercadorias, andando seis quarteirões. 

De repente, Joe avisou: 
– Aí vem vindo nosso homem. 
Avançando na direção dos rapazes, exibindo a mercadoria que tinha para vender, vinha 

um  indivíduo  de  aparência  cômica.  Usava  um  terno  de  algodão  branco,  com  um  paletó  muito 
folgado. Ao redor do pescoço um lenço vermelho muito vivo, com âncoras bordadas. 

As  calças  do  vendedor  ambulante  estavam  presas  à  altura  da  canela  com  grampos  de 

bicicleta, para impedir que arrastassem no chão. Em conseqüência, acumulavam-se as dobras e o 
resultado era um grande amontoado de pano em redor do corpo. 

O  homem  usava  um  chapéu  branco,  enfiado  até  as  orelhas.  Na  fita  marrom,  larga,  seu 

nome gravado: Peter Pretzel. 

– Menino, o careta é o fim – murmurou Frank. 
A aparência de Peter era bizarra, mas sua expressão facial era honesta. 
Parou  de  gritar  o  seu  pregão:  “Rosquinhas.  Rosquinhas  quentes.  As  melhores  do 

mundo”. Sorriu para os Hardys e colocou no chão o aquecedor de metal que carregava. Da parte 
superior deste saíam três enormes espetos, nos quais estavam colocadas as rosquinhas fritas. 

– Vocês gostam quentes ou preferem frias? – perguntou. 
Joe sorriu e disse: 
– Se forem gostosas, posso comer de qualquer jeito. – E falou baixinho: – Somos filhos 

do Senhor Hardy. Queremos falar com você. 

Naquele exato momento passava um grupo de marinheiros. 
Peter nada disse enquanto eles estavam muito perto para ouvir. Então, falou: 
– Venham comigo até aquele armazém. 
Os irmãos o acompanharam pela rua e com ele entraram, por uma porta entreaberta, num 

enorme barracão que no momento estava praticamente vazio. 

– Vocês têm um recado de seu pai para mim? – perguntou o vendedor. 
Rapidamente, Frank explicou o que estava acontecendo e disse: 
– Achamos que talvez você possa ter noticias de papai. 
– Sim, eu tive notícias dele – respondeu Peter Pretzel. – Mas não me preocupei, porque 

sempre pensei que os detetives de vez em quando desaparecem deliberadamente, para confundir 
as pessoas. 

– Às vezes isso acontece, sim – respondeu Joe. – Mas parece diferente agora. Papai nos 

disse que vem aqui com freqüência para obter informações com você (porque você sempre tem 
excelentes palpites), e por isso achamos que talvez pudesse ajudar-nos agora. 

– Sim, eu estive com ele. 
– Quando? 
– Na manhã de segunda-feira. 
– Foi quando ele desapareceu. 
– Humm – fez o homenzinho, pegando uma rosquinha de um dos espetos. Ofereceu aos 

rapazes: – Sirvam-se. 

Frank  e  Joe  pegaram  cada  um  uma  rosquinha.  Assim  que  eles  deram  as  primeiras 

mordidas, Peter continuou: 

– Agora quem está preocupado sou eu. Seu pai é um grande sujeito e eu não gostaria que 

lhe acontecesse nada. Vou lhes indicar um lugar onde poderão procurá-lo. 

Peter Pretzel disse que tinha recebido uma série de informações que indicavam que um 

marinheiro indiano de nome Ali Singh poderia estar envolvido num contrabando. O ambulante 
não  sabia  informar  em  que  navio  estava  o  marinheiro,  mas  sabia  que  o  homem  descera  a  terra 
para uma reunião secreta de uma quadrilha. 

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–  Essa  reunião  –  acrescentou  –  estaria  sendo  realizada  em  algum  ponto  do  litoral,  nas 

proximidades  da  estrada  da  praia.  Provavelmente numa  fazenda abandonada  em  Hillcrest  ou  lá 
perto. Não me lembro se era estrada, rua ou sei lá o que. 

– A reunião seria na última segunda-feira? – perguntou Frank ansioso. 
–  Não,  isso  foi  há  três  semanas,  mas  quando  contei  a  seu  pai  ele  se  mostrou  muito 

interessado e disse que provavelmente iria até lá espiar. 

Joe interrompeu: 
– Papai provavelmente pensou que o resto da quadrilha poderia viver aqui. Talvez eles o 

tenham capturado. 

– Espero que não – disse Peter preocupado. – Mas é melhor que vocês dêem um pulo até 

lá, para terem certeza. 

Os  rapazes  agradeceram  a  Peter  pela  informação  e  foram  imediatamente  para  casa.  A 

Senhora  Hardy  não  estava  e,  por  isso,  não  havia  a  possibilidade  de  lhe  contar  o  que  estava 
acontecendo. 

– Deixaremos um recado – decidiu Frank, que rapidamente escreveu um pequeno bilhete. 
Esperançosos,  os  irmãos  Hardy  ligaram  suas  motos  e  saíram  rapidamente  à  procura  do 

pai.  Naquela  altura,  já  estavam  bastante  familiarizados  com  a  estrada  da  praia,  mas  não  se 
lembravam de ter visto nenhuma placa com o nome “Hillcrest”. 

– Imagine que não exista nenhuma indicação – disse Joe. – Jamais encontraremos o lugar. 
Frank segurou firme nas manoplas e disse: 
– Se papai encontrou o lugar, nós não desistiremos, enquanto não o encontrarmos. 
As motos deixavam para trás, rapidamente, umas após outras, as estradas laterais. Quanto 

mais distantes ficavam de Bayport, mais distantes entre si ficavam as estradas secundárias. 

Logo se aproximaram da fazenda dos Kanes e sentiram desejo de parar para perguntar se 

eles sabiam onde ficava Hillcrest. Então Joe viu, pouco adiante, quando um carro manobrou para 
entrar na estrada da praia. Aparentemente, procedia de trás de uma grande moita de arbustos e 
árvores. 

– Vamos, Frank. Vamos investigar aquilo ali. 
Os  rapazes  aceleraram  suas  máquinas,  esperando  poder  conversar  com  o  motorista  do 

carro.  Mas  ele  tomou  a  estrada  na  direção  oposta,  em  alta  velocidade.  Quando  Frank  e  Joe 
chegaram  ao  ponto  de  onde  aquele  carro  apareceu,  viram  que  existia  uma  estrada  de  terra  que 
dificilmente alguém poderia perceber passando rapidamente pela estrada principal. 

–  Vamos  dar  uma  espiada,  pra  ver  se  descobrimos  para  onde  vai  –  disse  Frank,  que 

desligou a moto, desceu e começou a caminhar pela velha e abandonada estrada, agora coberta de 
capim. – Estamos com sorte, Joe. Estou vendo uma placa de madeira com a inscrição “Hillcrest 
Road”. 

Os rapazes esconderam as motos entre as árvores e arbustos e começaram a percorrer a 

estrada, quase intransitável. 

– Não há marca de pneus – observou Joe. – Acho que aquele sujeito que acaba de sair 

daqui tinha deixado o carro na entrada. 

Frank concordou com um gesto e sugeriu, em voz baixa, que se aproximassem daquela 

casa vazia de fazenda em silêncio, pois algum elemento da quadrilha poderia estar lá. 

–  Na  realidade,  acho  melhor  não  ficarmos  nesta  estrada,  e  continuarmos  por  entre  as 

árvores. 

Joe disse que estava de acordo e, em silêncio, os Hardys escolheram seus caminhos entre 

as  árvores,  protegidos  pela  vegetação  mais  baixa.  Em  cinco  minutos  chegaram  a  uma  clareira 
onde existia uma casa de fazenda semidestruída. Pela aparência, fora abandonada há muitos anos. 

Os jovens permaneceram imóveis, observando cuidadosamente o edifício decadente. Não 

havia  o  mínimo  sinal  de  atividade,  nem  dentro,  nem  fora  da  casa.  Depois  de  esperar  vários 
minutos, Frank decidiu que era tempo de dar uma boa olhada pelas redondezas, para se certificar 
de  que  não  havia  mesmo  ninguém.  Apanhou  uma  pedra  bem  grande  e  lançou-a  com  força  e 

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precisão contra a porta da frente. O impacto foi violento e ruidoso. A pedra caiu secamente no 
chão do alpendre empoeirado. 

A iniciativa de Frank não provocou nenhum movimento na casa, e, finalmente, ele disse a 

Joe: 

– Acho que não tem ninguém lá. Vamos dar uma olhada. 
– Vamos – respondeu Joe –, e, se papai estiver preso lá, poderemos salvá-lo. 
Os  rapazes  avançaram  pela  clareira.  Não  havia  fechadura  na  porta  e  eles  entraram 

imediatamente.  Havia apenas  quatro  dependências térreas  e  todas estavam  vazias.  Um  pequeno 
sótão e uma adega à qual se chegava por uma escada sob um alçapão também estavam vazios. 

–  Não  sei  se  devíamos  ficar  contentes  ou  tristes  por  não  encontrar  papai  aqui  –  disse 

Frank. – Pode ser que ele tenha conseguido escapar da quadrilha, se é que foi capturado, e esteja 
escondido em alguma parte, sem possibilidade de nos enviar um recado qualquer. 

– Ou pode ser que continue preso em algum outro lugar – acrescentou Joe. – Vamos ver 

se encontramos por aqui alguma pista. 

Os  rapazes  efetuaram  uma  revista  sistemática  do  lugar.  Encontraram  apenas  uma 

indicação  que  talvez  pudesse  ajudar.  Um  pedaço  rasgado  de  toalha  no  qual  aparecia  a  palavra 
“Polo”. 

– Isto poderia ter vindo de um clube qualquer onde se pratica pólo – imaginou Frank. 
– Ou talvez de um haras de cavalos para pólo – acrescentou Joe. 
Intrigado,  Frank  colocou  aquele  trapo  no  bolso,  e  os  irmãos  começaram  a  descer  o 

caminho  de  volta  para  onde  deixaram  suas  motos.  Retiraram-nas  de  entre  os  arbustos  e  deram 
partida. 

– O que acha que devemos fazer agora? – perguntou Joe. 
–  Ver  Collig,  o  chefe  de  polícia  de  Bayport  –  respondeu  Frank.  –  Acho  que  devemos 

mostrar a ele este pedaço de toalha. Talvez ele possa identificá-lo. 

Meia  hora  depois,  ambos  estavam  sentados  no  escritório  do  chefe  de  polícia.  O  alto  e 

irrequieto homem se interessava muito pelos irmãos Hardy e freqüentemente trabalhava junto de 
Fenton  Hardy  em  seus  casos.  Collig  observou  cuidadosamente  aquele  trapo  e  bateu  forte  no 
tampo da mesa. 

– Encontrei – exclamou satisfeito. – É o pedaço de uma toalha do “Marco Polo”. 
– O que é isso? 
– Um navio de passageiros que atraca em Bayport de vez em quando. 
Joe  e  Frank  deram  um  pulo.  Seus  pensamentos  se  concentraram  imediatamente  em  Ali 

Singh, contrabandistas, uma quadrilha reunida na casa abandonada de Hillcrest Road. 

O  telefone  de  Collig  tocou.  Os  rapazes  esperaram  educadamente  enquanto  ele 

conversava,  esperando  discutir  com  ele  os  fatos.  Repentinamente,  no  entanto,  ele  desligou  o 
telefone, pôs-se de pé e declarou: 

– Emergência. Tenho de sair imediatamente. – E saiu correndo pela porta afora. 
Frank  e  Joe  levantaram-se  e,  muito  desapontados,  deixaram  a  delegacia.  Voltaram  para 

casa e contaram tudo à mãe, mas, ao vê-la tão perturbada, Frank disse, para confortá-la: 

– Aquele recado que você recebeu com o nome de papai pode ter sido realmente escrito 

por ele. 

A Senhora Hardy sacudiu a cabeça negativamente. 
– Fenton jamais se esqueceria de colocar o sinal. Eu sei disso. 
Rapidamente todos em Bayport sabiam que o famoso Fenton Hardy tinha desaparecido. 

Na  manhã  seguinte,  bem  cedo,  um  homem  robusto,  de  ombros  largos,  apareceu  na  casa  dos 
Hardys e disse que tinha  algo a lhes contar. A Senhora Hardy fê-lo entrar e ele ficou de pé no 
vestíbulo,  revirando  nervosamente  um  boné.  Quando  Frank  e  Joe  apareceram,  o  homem  se 
apresentou como Sam Bates. 

– Sou motorista de caminhão – disse. – O motivo pelo qual vim até aqui é que ouvi dizer 

que estão procurando o Senhor Hardy. Talvez eu possa ajudá-los. 

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Um Boné no Cabide 

 
– O senhor viu meu pai? – Frank perguntou ao motorista. 
– Sim, eu o vi na segunda-feira – disse Sam vagarosamente –, mas não sei dizer onde está 

agora. 

– Entre, sente-se e comece a contar tudo o que sabe – disse Frank. 
Os  quatro  foram  para  a  sala  de  visitas,  e  o  Senhor  Bates  se  ajeitou  como  pôde  numa 

grande poltrona. 

– Onde foi que o senhor viu meu marido? – perguntou a Senhora Hardy. 
Sam Bates não estava com pressa. 
–  Sou  motorista  de  caminhão,  sabe?  Em  geral  eu  dirijo  em  Bayport,  mas  às  vezes  vou 

também a outras cidades. Por isso aconteceu de eu estar por lá, naquela manhã. 

– Lá, onde? 
– Na estrada da praia. Estou seguro de que era segunda-feira, porque quando voltei para 

casa, para o jantar, vi que minha mulher acabara de fazer a faxina da casa, e ela sempre faz isso na 
segunda-feira. 

– Foi quando papai partiu – exclamou Joe. 
– Por favor, continue – interrompeu Frank, nervoso. – Onde foi que o senhor o viu? 
O  motorista  explicou  que  seu  patrão  o  mandara  a  uma  cidade  do  litoral  para  entregar 

alguns móveis. 

–  Eu  estava  a  uma  distância  de  pouco  mais  de  quilômetro  e  meio  da  velha  Vila  Pollitt, 

quando  vi  um  homem  caminhando  ao  lado  da  estrada.  Fiz  um  aceno  para  ele,  como 
normalmente  eu  faço  para  as  pessoas  que  vejo  à  beira  das  estradas.  Foi  quando  vi  que  era  o 
Senhor Hardy. 

– O senhor conhece meu pai? – Frank perguntou. 
– Somente de fotografia. Mas estou seguro de que era ele. 
–  Papai  saiu  daqui  num  automóvel  –  observou  Joe.  –  O  senhor  não  viu  um  carro  por 

perto? 

– Não, não vi. 
– Que roupa usava esse homem? – indagou a Senhora Hardy. 
– Vejamos se me lembro. Acho que calça marrom-escura e uma jaqueta preta e marrom. 

Não usava chapéu, mas, se não me engano, tinha na mão um boné marrom. 

A Senhora Hardy ficou branca. 
–  Sim,  era  meu  marido.  –  Após  uma  pequena  pausa,  acrescentou:  –  Pode  nos  dizer 

alguma coisa mais? 

–  Acho  que  não,  dona  –  disse  o  motorista.  –  Eu  estava  com  alguma  pressa  naquela 

manhã, e por isso não reparei em mais nada. – Levantou-se para ir embora. 

– Muito obrigado por ter vindo nos contar isso, Senhor Bates – disse a Senhora Hardy. 
– Certo, o senhor nos deu uma boa indicação. Agora sabemos onde é  preciso procurar 

papai – disse Frank. 

– Espero que ele apareça logo – observou o motorista. – Avisem-me se houver algo que 

eu possa fazer. 

Quando o homem saiu, Joe dirigiu-se a Frank, intrigado: 
– Você acha que o Velho tinha escondido o carro e estava indo a pé para a Vila Pollitt? E 

se for o caso, por que? 

– Talvez ele tenha encontrado alguma pista na casa abandonada de Hillcrest Road que o 

tenha  levado  à  Vila  Pollitt.  Se  deixou  o  carro  em  algum  lugar,  escondido,  e  porque  desejava 
investigar a casa sem ser visto – sugeriu Frank. 

–  Aconteceu  alguma  coisa  –  gritou  Joe.  –  Frank,  aposto  que  ele  foi  à  Vila  Pollitt  e  foi 

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apanhado pelo falso fantasma. Vamos procurar papai imediatamente. 

Mas a Senhora Hardy interrompeu-os. Sua expressão era firme. 
– Não quero, meninos, que vocês vão sozinhos àquela casa. Talvez seja melhor informar 

a polícia para que ela faça uma busca. 

Os rapazes se entreolharam. Finalmente, vendo como ela parecia assustada, Frank disse: 
– Mãe, é possível que papai apenas esteja lá, observando as atividades em alto-mar. Talvez 

esteja  tudo  bem  e  ele  simplesmente  não  possa  afastar-se  para  lhe  telefonar. O  telefone  daquela 
casa  deve  estar  desligado.  Se  eu  e  Joe  formos  até  lá  e  o  encontrarmos,  poderemos  voltar  com 
informações tranqüilizadoras. 

A Senhora Hardy deu um sorriso de mofa. 
– Você é muito convincente, Frank, quando coloca a coisa nesse pé. Está certo. Estou de 

acordo, mas vocês não devem ir sós. 

– E por que não, mãe? Nós já sabemos nos cuidar – disse Joe. 
– Levem alguns dos rapazes com vocês. Sabe, há uma certa segurança nos números, na 

quantidade – disse a mãe. 

Os  rapazes  concordaram  com  o  plano  e  começaram  imediatamente  a  telefonar  para  os 

colegas. Chet Morton e Biff Hooper concordaram imediatamente e sugeriram que se convidasse 
Tony Prito e Phil Cohen, dois outros amigos dos  Hardys na escola de Bayport. Phil tinha uma 
moto. Ele e Tony disseram que estavam dispostos a ir. 

Pouco  depois  do  almoço  o  grupo  se  reuniu.  Chet  foi  com  Frank,  Biff  com  Joe  e  Tony 

com Phil. As três motocicletas saíram de Bayport, passaram pelo Solar da Torre e prosseguiram 
pela estrada da praia. 

Passaram a fazenda dos Kanes, Hillcrest Road e, finalmente, avistaram o grande penhasco 

que se levantava da baía de Barmet e era coroado pela estranha e abandonada casa em que vivera 
Felix Pollitt. Durante todo o tempo, procuraram atentamente pelo carro de Fenton Hardy, sem 
descobrir nem sinal dele. 

– Seu pai o escondeu bem – observou Chet. 
–  É  possível  que  tenha  sido  roubado  –  disse-lhe  Frank.  Quando  os  rapazes  se 

aproximavam da Vila Pollitt, Phil disse a Tony: – Lugar mais solitário esse, não? 

– Se é. É o tipo da casa preferida pelos fantasmas – respondeu o outro. 
Quando estavam quase atingindo o caminho interno da propriedade, Frank, que liderava 

o grupo, encostou e fez sinal para que os outros também parassem. 

– Qual o problema? – perguntou Chet. 
– É melhor avançar separadamente e sem fazer barulho. Se avançarmos um pouco mais e 

o fantasma estiver lá, certamente ouvirá as motos. Acho melhor deixá-las aqui, sob as árvores, e 
caminhar até lá. 

Os  rapazes  esconderam  suas  máquinas  numa  moita  de  arbustos  ao  lado  da  estrada  e, 

então, os seis investigadores seguiram para a mansão. 

– Vamos nos dividir, aqui – decidiu Frank. – Três seguem por um lado do caminho e os 

outros  três  pelo  outro  lado.  Mantenham-se  o  mais  próximo  possível  da  vegetação.  Quando 
chegarmos à casa, todos devem deitar-se por uns momentos, para observar as coisas. Quando eu 
assobiar, todos podem sair do meio das plantas, dirigindo-se, então, para a casa. 

– Boa idéia – disse Joe. – Biff, Tony e eu vamos pelo lado esquerdo do caminho. 
– Está certo. Vamos. 
Os rapazes penetraram nas sebes e na vegetação rasteira que havia de ambos os lados do 

caminho, e em poucos minutos tinham desaparecido de vista. Ocasionalmente, apenas os ruídos 
de  folhas  e  galhos  secos  quebrados  sugeriam  sua  presença.  Os  seis  jovens  avançaram 
rapidamente,  aprofundando-se  na  vegetação.  Depois  de  dez  minutos,  Frank  levantou  a  mão  – 
uma advertência a Chet e Phil. Acabara de avistar a casa através da densa vegetação. 

Progrediram cautelosamente, até atingir o fim dos arbustos, por detrás da tela de folhas, 

olharam para o velho edifício. Uma expressão de surpresa marcou o rosto de Frank. 

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– Tem alguém morando aí – exclamou admirado. 
De onde estavam os rapazes, foi quase impossível reconhecer o lugar. O mato que cobria 

os canteiros de flores da última vez que estiveram na casa tinha sido completamente removido. 
As  folhas  secas  e  gravetos  que  antes  se  espalhavam  por  toda  parte  tinham  sido  recolhidos  e  a 
grama estava aparada. 

Na  própria  casa  ocorrera  uma  mudança  parecida.  As  persianas  quebradas  tinham  sido 

consertadas e os vidros quebrados das janelas da biblioteca foram substituídos. 

– O que será que aconteceu? – murmurou Chet. 
– Vamos esperar um pouco mais – disse Frank surpreso. 
Os rapazes permaneceram onde estavam, observando a casa. Pouco depois saiu da casa 

uma mulher carregando uma cesta de roupas. Caminhou até onde havia um varal esticado entre 
duas árvores e começou a pendurar a roupa para secar. Pouco depois apareceu um homem, que 
atravessou o pátio até o depósito de lenha, onde encheu uma cesta com pequenos toros. 

Os rapazes se entreolharam admiradíssimos. Esperavam encontrar o mesmo lugar sinistro 

e  deserto  que  tinham  visitado  anteriormente.  Ao  contrário,  encontraram  apenas  uma  cena  de 
tranqüilidade doméstica. 

–  Não  há  razão  para  continuarmos  escondidos  –  murmurou  Frank.  –  Vamos  até  lá. 

Quero fazer algumas perguntas a essa gente. – Assobiou como estava combinado. 

Os  outros  três  rapazes  saíram  e  o grupo  inteiro  caminhou  junto  e  despreocupadamente 

pelo  caminho,  até  o  pátio.  O  homem,  no  depósito  de  lenha,  foi  quem  os  viu  primeiro  e  se 
levantou  rapidamente,  olhando-os  com  expressão  de  amolação.  A  mulher,  no  varal,  ouviu  seus 
passos  e  voltou-se  para  encará-los,  com  as  mãos  nos  quadris.  Seu  rosto  enrugado  tinha  uma 
aparência desagradável. 

– Que desejam? – perguntou o homem, saindo do telheiro. 
Era  baixo e  magro.  Tinha  os  cabelos  encaracolados  e  curtos.  Estava  sem  fazer  a  barba. 

De compleição atarracada, tinha olhos estreitos debaixo de pesadas sobrancelhas negras. 

Simultaneamente,  outro  homem  saiu  pela  cozinha,  permanecendo  de  pé  na  escadinha. 

Era forte, ruivo e tinha um grande bigode. 

– Ei, quem são vocês? – perguntou. 
– Não sabíamos que tinha gente morando aqui – explicou Frank, dirigindo-se à porta da 

cozinha. Ele queria dar uma espiada para dentro da casa, se fosse possível. 

–  Nós  estamos  vivendo  aqui  agora  e  não  gostamos  de  estranhos  –  disse  o  ruivo, 

asperamente. 

–  Não  somos  estranhos  e  não  somos  vagabundos  –  replicou  Frank.  –  Estamos  apenas 

procurando um homem que desapareceu de Bayport. 

– Ah, sei – grunhiu a mulher. 
– Por que acha que ele estaria por aqui? – o magrinho perguntou. 
– A última vez em que foi visto estava nestas proximidades. 
– Como é ele? 
– Alto e moreno. Estava usando calças marrons, jaqueta e boné da mesma cor. 
– Ninguém apareceu por aqui desde que alugamos a casa e nos mudamos para cá – disse 

o ruivo. 

Parecia não haver perspectivas de obter nenhuma informação daquelas três desagradáveis 

personagens, e, por isso, os rapazes começaram a se afastar. Mas Frank conseguira chegar à porta 
da  cozinha.  Numa  rápida  olhada  para  dentro,  encontrou  sua  primeira  pista.  Pendurado  num 
cabide, lá estava um boné marrom. 

Era  exatamente  igual  ao de  seu  pai  –  o  que estava  usando  na  manhã em  que  fora  visto 

pela última vez. 
 

Plano de Ataque 

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–  Estou  com  muita  sede  –  Frank  disse  rapidamente  para  os  novos  ocupantes  da  Vila 

Pollitt. – Posso tomar um copo de água? 

O  ruivo  e  a  mulher  se  entreolharam.  Obviamente,  ambos  queriam  ver-se  livres  dos 

visitantes o mais depressa possível. Mas não podiam recusar um pedido tão razoável. 

– Venha até a cozinha – disse o ruivo, meio bronqueado. 
Frank  acompanhou-o  através  da  porta.  Ao  passar  pelo  boné,  deu  uma  boa  olhada, 

observando  os  pormenores,  cuidadosamente.  Era  o  boné  de  seu  pai,  e  havia  nele  algumas 
pequenas manchas que pareciam de sangue. 

O ruivo indicou uma pia do outro lado da cozinha. Havia um copo de plástico. 
– Sirva-se – disse estupidamente. 
Frank  atravessou  a  cozinha,  abriu  a  torneira  e  apanhou  um  pouco  de  água.  Enquanto 

erguia o copo à boca, suas idéias reviravam na cabeça. Ao sair, observou novamente o cabide. 

O boné não estava mais lá. 
Frank  não  deu  nenhum  sinal  de  ter  percebido  qualquer  coisa.  Caminhou  para  o  pátio, 

unindo-se aos outros rapazes. 

– Acho melhor irmos andando – disse normalmente. 
–  É,  é  melhor  mesmo  –  disse  a  mulher.  –  Posso  lhes  garantir  que  não  há  ninguém  de 

Bayport por aqui. 

Os rapazes começaram a descer o caminho de volta. Quando estavam a uma considerável 

distância da casa, Frank parou e disse, tenso, aos companheiros: 

– Sabem o que vi naquela cozinha? 
– O que? 
– O boné de papai, pendurado num cabide. 
– Então, ele esteve lá – gritou Joe. – Eles estavam mentindo. 
– Sim – continuou Frank –, e havia manchas de sangue no boné. 
–  Manchas  de  sangue!  –  exclamou  Joe.  –  Isso  significa  que  ele  provavelmente  está  em 

algum enguiço. Frank, temos de voltar lá. 

– Claro, mas primeiro eu queria contar-lhes o que descobrira. 
– O que acha que podemos fazer? – perguntou Chet. 
–  Perguntarei  àqueles  caras  da  casa a  respeito  do boné,  forçando  uma  definição  –  disse 

Frank quase desesperado. – Temos de descobrir onde papai está. 

Resolutamente, os rapazes voltaram para a Vila Pollitt. Chegando às proximidades, viram 

os  dois  homens  e  a  mulher,  conversando  animadamente  sob  o  telheiro.  A  mulher  percebeu  a 
presença deles e logo contou ao ruivo. 

– E agora, o que é que vocês querem? – perguntou, dirigindo-se ao grupo. 
– Queremos algumas informações a respeito daquele boné marrom que estava pendurado 

na cozinha – disse Frank com firmeza. 

– Que boné? Não há nenhum boné lá. 
–  Agora  não  há,  mas  antes  havia.  Estava  pendurado  num  cabide,  quando  entrei  para 

tomar água. 

– Não sei de nada a respeito de nenhum boné – insistiu o homem. 
– Talvez seja melhor pedir à polícia para dar uma olhada – sugeriu Joe. 
O ruivo olhou insistentemente para a mulher. O outro homem adiantou-se. 
– Sei de que boné este rapaz está falando. É meu. Qual é o problema? 
– Não é seu e o senhor sabe disso – interrompeu Frank. – Ele pertence ao homem que 

estamos procurando. 

–  Eu  lhes  disse  que  o  boné  é  meu  –  contestou  o  homenzinho,  mostrando  os  dentes 

amarelados,  numa  espécie  de  sorriso  sem  graça.  –  Você  está  insinuando  que  eu  sou  um 
mentiroso? 

O ruivo tomou a palavra. 

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–  Você  está  enganado,  Klein.  Sei  de  que  boné  eles  estão  falando.  É  aquele  que  eu 

encontrei na estrada há alguns dias. 

– Acho que é isso, Red – concordou Klein. 
– Vocês o acharam? – perguntou Frank, incrédulo. 
– Sim, claro. É um boné marrom com algumas manchas de sangue. 
– Esse mesmo. Mas por que você o escondeu quando eu estava bebendo água? 
– Para ser honesto, aquelas manchas de sangue me deixam nervoso. Eu não sei bem por 

que, mas sempre imaginei que elas tivessem alguma relação com encrenca, por isso achei melhor 
esconder aquele boné. 

– Onde o achou? – perguntou Frank. 
– Pouco mais de um quilômetro daqui. 
– Na estrada da praia? 
– Sim. Estava caído bem no meio da estrada. 
– Quando foi? 
– Há alguns dias... logo depois que nos mudamos para cá. 
– Deixem-nos ver o boné – sugeriu Chet Morton. – Queremos ter certeza. 
Quando Red se dirigia hesitante para a cozinha, a mulher disse: 
– Não sei porque tanta confusão só por causa de um boné. Perturbando gente honesta, 

por causa disso. 

–  Desculpe-nos  se  estamos  aborrecendo  –  disse  Joe  –,  mas  trata-se  de  um  caso  muito 

sério. 

Red saiu da cozinha, trazendo o boné, que entregou a Frank. 
O rapaz virou o boné pelo avesso, e lá estava o que ele queria encontrar: as iniciais F. H. 

impressas em letras douradas, na barra de couro. 

– É mesmo o boné de papai. 
– Não gosto dessas manchas de sangue – disse Joe em voz baixa. – Provavelmente ele foi 

seriamente ferido. 

–  Tem  certeza  de  que  isto  foi  encontrado  na  estrada?  –  perguntou  Frank,  ainda 

suspeitando. 

–  Você  não  acha  que  eu  mentiria  a  respeito  disso,  acha?  –  respondeu  Red  com 

hostilidade. 

–  Não  posso  contradizê-lo,  mas  vou  entregar  isso  à  polícia.  Se  sabe  mais  alguma  coisa 

sobre o boné, é melhor dizer agora. 

– Ele não sabe de nada sobre o boné – a mulher respondeu asperamente. – Vá embora e 

não nos aborreça mais. Já não está dito que o boné foi encontrado na estrada? Bem que eu lhe 
disse para queimar isso. Mas ele queria lavá-lo, para o poder usar. 

Os rapazes fizeram meia volta, com Frank segurando o boné. 
– Vamos, turma, vamos embora daqui. 
Quando começaram a descer pelo caminho, os rapazes deram uma última olhada para o 

pátio  da  casa.  A  mulher  e  os  dois  homens  estavam  exatamente  onde  tinham  sido  deixados.  A 
mulher  estava  imóvel,  com  as  mãos  nos  quadris.  Red  estava  de  pé,  com  os  braços  cruzados,  e 
Klein, o magrinho, estava encostado numa árvore. Os três olhavam firmemente e em silêncio a 
partida dos rapazes. 

– Tenho certeza de que aquela gente sabe mais alguma coisa sobre o boné de papai e não 

quer dizer – observou Frank com pessimismo, enquanto tomavam lugar nas motos para voltar a 
Bayport. 

– O que pretende fazer agora? – perguntou Phil emparelhando sua motocicleta com a de 

Frank. 

– Vou direto a Collig, para lhe contar a história toda – respondeu Frank. 
– Está bem, vamos juntos. 
A  turma  foi  diretamente  para  a  delegacia  de  polícia,  deixando  as  motos  no 

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estacionamento.  Collig  observou  os  seis  rapazes,  quando  o  grupo,  afinal,  tomou  de  assalto  seu 
escritório. 

– Vejam só, uma delegação. Que posso fazer por vocês? 
Com Frank e Joe se alternando na narrativa às vezes interrompida para ilustrações pelos 

outros, a história foi afinal inteiramente narrada e o boné colocado nas mãos do Chefe Collig. 

Ele assumiu uma expressão grave. 
– Essa história não me agrada. Precisamos encontrar seu pai, imediatamente. Este boné é 

uma boa pista. Vocês sabem que a área em que se localiza a Vila Pollitt está fora da jurisdição de 
Bayport,  e  por  isso  meus  homens  não  podem  operar  lá.  Vou  me  comunicar  com  o  Capitão 
Ryder, da polícia estadual, para que ele indique alguns de seus homens para o caso. 

Os rapazes agradeceram a Collig pela colaboração e saíram. Chet, Tony, Biff e Phil foram 

cada  um  para  seu  lado,  enquanto  Frank  e  Joe  voltavam  para  casa.  Decidiram  que  não  iriam 
aborrecer ainda mais sua mãe com a história das manchas de sangue no boné, mas simplesmente 
comunicar-lhe que a busca de Fenton Hardy estava agora entregue à polícia estadual. 

–  Ainda  acho  que  existe  alguma  relação  entre  o  desaparecimento  e  o  problema  dos 

contrabandos e a casa do rochedo – declarou Frank. 

– O que me intriga – disse Joe – é saber de onde saíram aqueles dois barcos, no dia em 

que Jones foi atacado. Não os vimos anteriormente no mar; pelo menos, não vimos os dois. 

– Tem razão. É possível que ambos tenham saído exatamente de baixo do penhasco. 
–  Pode  ser.  Acho  que  é  isto  o  que  se  passa.  Papai  suspeita  que  haja  contrabandistas 

trabalhando  neste  território,  de  uma  base  que  ele  ainda  não  conseguiu  descobrir.  –  Abrindo  os 
braços, exclamou: – A base é a velha Vila Pollitt. Que mais está faltando? 

– Mas a casa é no alto de um penhasco. 
– É possível que exista uma passagem secreta, da casa até um porto existente na base do 

rochedo. 

– Boa noite, Frank. Isso parece razoável. 
–  Isso  também  explica  por  que  os  seqüestradores  deram  sumiço  tão  rápido  a  Jones  no 

sábado.  Se  eles  saíram  da  fazenda  dos  Kanes  apenas  alguns  minutos  antes  de  lá  chegarmos, 
teríamos pelo menos visto o carro. O que não aconteceu. 

– Você quer dizer que eles talvez tenham feito uma conversão na altura da Vila Pollitt? 
– Por que não? Talvez Jones esteja escondido lá. 
– E talvez papai também – gritou Joe. 
– Tem razão. Olhe, não me agrada ficar aqui sentado à espera de que a polícia estadual o 

encontre.  Que  tal  pedirmos  emprestado  o  barco  de  Tony,  para  investigarmos  a  base  daquele 
penhasco? 

–  Ótimo!  –  disse  Joe  com  entusiasmo.  –  Se  descobrirmos  alguma  coisa,  levaremos  ao 

conhecimento da polícia estadual, para que ela dê uma batida na Vila Pollitt. 
 

10 

O Túnel 

 
Quando  chegaram  em  casa,  Frank  e  Joe  garantiram  à  mãe  que  brevemente  a  polícia 

estadual  encontraria  o  Senhor  Hardy.  Um  pouco  da  ansiedade  que  se  estampava  em  seu  rosto 
desapareceu ao ouvir as palavras otimistas dos filhos. 

Quando ela se dirigiu à cozinha para começar os preparativos do jantar, os irmãos deram 

um  telefonema  para  Tony  Prito.  Depois  que  Frank  lhe  explicou  seu  plano,  imediatamente  ele 
concordou em permitir que usassem seu barco, o “Napoli”, desde que pudesse acompanhá-los. 

– Não deixaria de participar por nada no mundo – disse. – Mas só posso ir à tarde. Tenho 

algumas  coisas  para  fazer  para  papai,  de  manhã.  Eu  os  encontro  no  ancoradouro,  às  duas  da 
tarde. 

– Ótimo, Tony. Eu também tenho o que fazer, de manhã. 

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Chet  telefonou  logo  depois.  Quando  Frank  acabou  de  lhe  narrar  os  planos,  soltou  um 

assobio. 

– Vocês têm muita coragem e disposição. Mas não deixem de me incluir na conta, sim? 

Eu  estou  com  vocês  desde  o  começo  e  acho  que  não  devo  abandonar  a  aventura,  agora. 
Precisamos encontrar seu pai. 

Depois que Chet se despediu, Joe perguntou ao irmão: 
– O que você pretende fazer de manhã? 
– Quero voltar às docas para falar novamente com Peter Pretzel. É possível que ele tenha 

alguma pista. Também quero descobrir quando o “Marco Polo” é esperado aqui novamente. 

Joe entendeu a situação. 
–  Acho  que  peguei.  Você  é  de  opinião  que  novas  coisas  poderão  acontecer  aqui,  nessa 

ocasião, não é? 

– Exato. E se conseguirmos encontrar papai e levar a guarda costeira aos contrabandistas 

antes de o navio atracar... 

– Menino, essa é uma boa pedida. 
Às nove da manhã seguinte Joe e Frank já estavam nas docas de Bayport. Peter Pretzel 

ainda não aparecera. 

– Precisamos agir cautelosamente ao perguntar sobre a próxima visita do “Marco Polo”. 

Os contrabandistas, provavelmente, terão espiões por perto, e nós dois devemos ser conhecidos. 

Atuando  como  se  não  tivessem  nenhum  problema  na  cabeça,  Frank  e  Joe  caminhavam 

despreocupadamente, assobiando.  Momentaneamente,  juntaram-se  a  um  grupo  de  curiosos  que 
observavam um camelô. O homem exibia sua mercadoria – pequenos animais saltadores. Frank e 
Joe riram gostosamente e compraram um macaco e um canguru. 

– Iola e Calhe vão gostar à beça destes bichinhos – predisse Joe. – Veja, Frank, aí vem 

Peter Pretzel. 

Disfarçando, para o caso de alguém estar ouvindo, Frank e Joe avançaram, dizendo, em 

voz alta, que estavam com fome e muito satisfeitos de ver Peter por perto. 

– Ninguém faz rosquinhas como as suas – exclamou Joe. – Quero uma dúzia. Duas para 

a boca e dez para os bolsos. 

Rindo,  Peter  Pretzel  apanhou  um  saco  de  celofane  para  entregar  o  pedido,  enquanto 

Frank perguntou, num murmúrio: 

– Alguma novidade? 
– Nada, filho – Peter respondeu, sem mover os lábios. – É possível que tenha novidades, 

amanhã. 

– Que novidade? 
– O “Marco Polo” vai atracar realmente muito cedo: cinco da manhã. Ouvi dizer que Ali 

Singh está na tripulação. Vou tentar um contato com ele. 

– Grande, Peter. Nós o veremos, então. 
Os rapazes se afastaram e, para não levantar dúvidas quanto aos motivos de sua presença 

na área, dirigiram-se ainda ao mercado de peixes. 

– Mamãe ficará surpresa com nossa pescaria da manhã – disse Joe sorrindo, ao apanhar 

um grande linguado. 

Os rapazes não discutiram a importante informação que lhes dera Peter Pretzel, enquanto 

não se encontravam na segurança de sua própria casa. Então, Joe explodiu: 

– Frank, se o “Marco Polo” se aproximar durante a noite, terá de permanecer ao largo até 

a hora de atracar. 

– O que dará aos contrabandistas uma excelente oportunidade de apanhar tranqüilamente 

a mercadoria – acrescentou Frank. – Talvez devamos levar nossas suspeitas à guarda costeira. 

– Ainda não – objetou Joe. – Tudo o que temos como fundamento são as declarações de 

Peter  Pretzel  sobre  Ali  Singh.  Talvez  descubramos  alguma  coisa  mais  hoje  à  tarde  e,  então, 
poderemos fazer uma declaração. 

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– Acho que você tem razão – concluiu Frank. – Se esses contrabandistas estão prendendo 

papai, e se descobrem que demos informações à guarda costeira, certamente se vingarão nele. 

– É, tem razão. 
Quando  Frank  e  Joe  chegaram  à  garagem  de  barcos  dos  Pritos,  às  duas  horas,  Tony  e 

Chet já estavam esperando. Tony estava “afinando” o motor, que parecia em perfeita ordem. 

– Nada sobre seu pai, ainda? – perguntou Tony. Os Hardys sacudiram a cabeça, enquanto 

subiam para bordo. 

O “Napoli” era um barco elegante e potente, de linhas muito bonitas. Era o orgulho de 

Tony.  Dirigiu-se  vagarosamente  para  as  águas  da  baía  de  Barmet,  acelerando  daí  para  frente, 
rumo ao mar alto. 

–  Mar  bravo  –  observou  Frank,  enquanto  grandes  ondas  quebravam  sobre  a  proa  do 

barco.  Respingos  salgados  se  espalhavam  por  toda  a  cabina  do  “Napoli”  enquanto  ele  se 
balançava sobre a espuma branca. Bayport logo se tornou apenas um ponto aninhado na curva da 
baía em formato de ferradura. Ao atingir mar alto, Tony virou para o norte. Os rapazes podiam 
ver a linha branca acompanhando a praia – a estrada litorânea –, subindo e descendo montanhas 
e  colinas.  Depois  de  três quilômetros,  enxergaram o  rochedo  sobre  o  qual estava  a Vila  Pollitt. 
Ela parecia distante e proibitiva sobre as rochas, com o telhado e as chaminés em silhueta contra 
o céu. 

–  Penhasco  bem  íngreme  –  observou  Tony.  –  Não  consigo  entender  como  alguém 

poderia fazer esse caminho, ida e volta, do mar à casa. 

–  Talvez  seja  por  isso  que  ninguém  suspeitou  que  o  lugar  pudesse  ser  uma  base  para 

contrabando – respondeu Frank. – Mas talvez encontremos uma resposta, quando olharmos do 
outro lado. 

Tony dirigiu o barco para mais perto da linha costeira, para que não ficasse ao alcance da 

vista de quem quer que estivesse na Vila Pollitt. Então reduziu a velocidade, para que o ruído do 
motor não chamasse a atenção, e o barco avançou para a base do penhasco. 

Havia  correntes  que  exigiam  grande  perícia  em  navegação,  mas  Tony  conduziu  o 

“Napoli” por entre elas com perícia, e logo o barco estava acompanhando tranqüilamente aquele 
paredão de pedras. 

Avidamente, os rapazes examinaram em pormenores a formidável parede de pedras. Ela 

era rachada e corroída e a base tinha sido erodida pelo incessante quebrar das ondas. Não havia 
nenhuma indicação da existência de uma passagem. 

Repentinamente,  Tony  virou  o  timão  com  força.  O  “Napoli”  girou  rapidamente  para  o 

lado. Acelerou e a embarcação se inclinou com um quase rugido. 

Tony  olhou  para  a  frente,  tenso  e  alerta.  Outra  virada  do  timão  e  o  barco  virou 

novamente. 

Então, Chet e os Hardys perceberam o perigo. Havia muitas rochas na base do penhasco. 

Uma  delas,  negra  e  escarpada,  como  um  dente  horrível,  despontava  da  água,  quase  tocando  o 
bordo do barco. Somente o olho atento e aguçado de Tony conseguiu evitar um choque. 

Eles tinham, na realidade, entrado no meio de uma linha de recifes que se alongava por 

vários metros. Os passageiros de Tony quase perderam a respiração e ninguém dizia uma palavra. 
Parecia impossível que conseguissem atravessar aquela linha de pedra, sem despedaçar o casco do 
barco. 

Mas eles estavam com sorte. O “Napoli” contornou a última pedra perigosa e deslanchou 

em águas calmas, novamente. 

Tony encostou o corpo, com alívio. 
– Quase, pessoal! – exclamou. – Eu não vi aquelas pedras. Só percebi quando estávamos 

praticamente em cima. Se tivéssemos batido numa delas, era uma vez... 

Frank, Joe e Chet concordaram solenemente. De repente, Frank soltou um grito: 
– Volte, acho que descobri o caminho. 
Tony  fez  uma  curva  fechada.  A  abertura  que  Frank  descobrira  era  um  túnel  longo  e 

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estreito. Ia direto para o interior do penhasco. 

– É possível que seja a entrada secreta – exclamou Joe. 
–  Acho  que  tem  largura  suficiente  para  o  barco  passar  –  disse  Tony.  –  Vocês  querem 

tentar? 

Frank concordou, muito tenso: 
– Vamos em frente. 
O  “Napoli”  atravessou  aquela  abertura  e  logo  depois  estava  numa  espécie  de  lago  de 

tamanho considerável. Encostas inclinadas cobertas de árvores deformadas e pequenos arbustos 
chegavam à beira da água. Mas não havia caminho, nem a menor indicação de que alguém tivesse 
estado ali. 

De repente, Frank teve uma expressão de surpresa e disse: 
– Olhem à minha direita, companheiros. 
Entre os arbustos, na base da mais íngreme das encostas, estava um homem. Era muito 

alto, o rosto estava molhado e seus lábios finos pareciam cruéis. Permanecia em silêncio, apenas 
observando os rapazes, sem a mínima sombra de expressão no rosto. 

Quando percebeu que estava sendo observado, o homem gritou: 
– Saiam já daqui. 
Tony afogou o motor e Frank disse: 
– Não causaremos problemas. 
– Eu disse para sair. Isto é uma propriedade particular. 
Os  rapazes  hesitaram.  Imediatamente,  como  se  quisesse  dar  autoridade  ao  que  dissera, 

aproximou a mão, perigosamente, de sua cartucheira. 

– Virem esse barco e acelerem – disse. – E jamais voltem aqui. Se é que vocês sabem o 

querem. 

Os rapazes compreenderam que, conversando, nada conseguiriam. Vagarosamente, Tony 

virou completamente o barco. 

– Está certo – disse Frank, concordando. 
O  desconhecido  nada  mais  disse.  Permaneceu  olhando  fixamente  para  eles,  a  mão 

esquerda  apontando  para  a  saída,  a  direita  sobre  a  cartucheira,  quase  acariciando  o  revólver, 
enquanto o barco seguia seu rumo, pelo túnel. 

– Parece que ele não queria a nossa presença – observou Tony ironicamente, assim que o 

“Napoli” entrou em águas abertas outra vez. 

– É, parece que não – exclamou Frank. – Eu já estava esperando que ele disparasse aquela 

arma, a qualquer momento. 

–  Suas  razões  devem  ser  muito  fortes.  Quem  ou  o  que  vocês  acham  que  ele  seja?  – 

perguntou Tony, curioso. 

– Companheiros, acho que aquele era Snattman – disse Frank. 

 

11 

Observando o Rochedo 

 
–  Frank,  acho  que  você  está  certo.  Aquele  homem  não  tinha  razões  para  agir  da  forma 

como agiu, a menos que esteja encobrindo alguma coisa – disse Joe. 

– Alguma coisa como contrabando, é o que você insinua – disse Chet. – É possível que 

seja Snattman, ou alguém de sua quadrilha. 

– O fato – acrescentou Frank – de estar naquela caverna indica que ele tem alguma coisa 

a ver com a casa do rochedo. 

– Snattman, o rei do contrabando – disse Tony, assobiando espantado. – Vocês têm uma 

estranha capacidade de se meter em situações diferentes. 

–  Aposto  que  é  um  dos  caras  que  raptaram  Jones,  ou  um  dos  que  o  atacaram  com  o 

explosivo – observou Joe. 

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– Um dos que quiseram matar Jones – concluiu Frank. 
– Vamos embora daqui – pediu Chet. 
– Por que devemos ir agora? – quis saber Frank. – Acabamos de descobrir alguma coisa 

importante. Aquele lado subterrâneo pode ser exatamente a base dos contrabandistas. 

–  Mas,  se  eles  usam  a  casa,  como  é  que  chegam  a  ela?  –  perguntou  Tony.  –  Aquelas 

encostas ao redor do lago eram muito inclinadas. 

–  Tem  de  existir  um  caminho  qualquer  que  nós  não  vimos  –  disse  Joe.  –  Olhem,  acho 

que devemos ficar por aqui um pouco mais, para ver o que podemos descobrir. 

Tony assimilou o entusiasmo dos Hardys e concordou em permanecer com o barco nas 

proximidades do penhasco. 

– Aquele cara deve estar nos observando, e nós não queremos que ele saiba que estamos 

investigando  o  local  –  observou  Frank.  –  Voltemos  para  a  baía.  Voltaremos  aqui  depois  de 
navegarmos um pouco sem destino. 

Chet suspirou: 
– Ainda bem que ninguém resolveu discutir com o homem. 
– É. Assim como aconteceu, ele deve ter pensado que nós estávamos apenas passeando 

um pouco e entramos no túnel por engano – disse Joe. 

Bem  mais  tarde,  Tony  levou  o  “Napoli”  novamente  para  perto  daquele  lugar  suspeito. 

Mantendo-se bem longe do ponto onde as ondas se quebravam, continuou navegando em volta 
do  penhasco.  Os  quatro  não  perderam  de  vista,  nem  por  um  minuto,  o  lugar  onde  o  túnel 
desembocava. Quando o barco passava por perto, eles já conseguiam distinguir facilmente o lugar 
exato da abertura. 

– Logo não conseguiremos mais entrar lá – disse Tony. – A maré está começando a subir, 

e tenho certeza de que com a maré alta aquele túnel fica completamente cheio de água. 

De repente Tony virou o barco para a direita com tanta violência que os outros perderam 

o equilíbrio. 

– Desculpem. Eu vi uma tora de madeira e... Desligou o motor rapidamente e deitou-se 

sobre a borda do barco, para observar alguma coisa na popa. Seus companheiros puseram-se de 
pé, indagando, curiosamente, o que acontecera. 

–  A  hélice  começou  a  prender,  enrolando  num  arame  ou  qualquer  outra  coisa,  naquela 

tora. – Tony começou a se despir imediatamente. – Pegue dois alicates para mim. 

Frank abriu um compartimento e pegou dois alicates. Tony agarrou-os e mergulhou. Um 

minuto depois, apareceu à tona e subiu no barco. 

– Estou com sorte, mas muita sorte mesmo. Um minuto mais e todo aquele arame estaria 

enrolado no eixo e a tora impediria qualquer movimento. 

–  Boa  noite  –  disse  Frank  pilheriando.  –  Seria  um  bom  pedaço  para  a  gente  nadar,  de 

volta para casa. 

Joe deu uns tapinhas nas costas de Tony e disse: 
– Bom serviço, menino. Eu não gostaria de ver o “Napoli” fora de operações. 
Chet e Frank puseram a tora a bordo, para que não prejudicasse nenhum outro barco. 
–  É  um  mourão  de  cerca  com  arame  farpado.  Ainda  bem  que  você  o  viu  a  tempo  de 

evitar maiores problemas. 

Tony  vestiu-se  novamente  e  colocou  o  motor  em  movimento.  Ficou  rodando  ali  por 

perto  mais  de  uma  hora,  mas  ninguém  viu  sinais  de  vida  nas  imediações  da  base  do  penhasco. 
Podiam ver a Vila Pollitt mas, para sua surpresa, não viram luzes depois que escureceu. 

– Por quanto tempo vocês acham que ainda ficaremos por aqui? Estou começando a ficar 

com fome – disse Chet. 

–  Tenho  aí  algumas  rosquinhas  e  um  doce,  o  que  não  é  o  suficiente  para  nós  quatro  – 

observou Joe. 

– Ahã... Tenho uma pequena surpresa, pessoal. Eu roubei um pouco de comida antes de 

partirmos – disse Tony, exibindo um saco plástico que tirou de dentro do porta-luvas. Havia um 

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sanduíche de queijo, um pedaço de bolo de chocolate e uma garrafa de soda para cada um. 

–  Você  merece  uma  medalha!  –  respondeu  Chet,  antes  de  abocanhar  um  pedaço  de 

sanduíche. 

–  Sem  dúvida  –  acrescentou  Frank.  –  Acho  que  devemos  ficar  aqui  por  algum  tempo, 

apenas observando. Tenho o palpite de que os contrabandistas vão trabalhar esta noite. Não se 
esqueçam de que o “Marco Polo” vai atracar amanhã bem cedo. 

– Entendi – disse Chet —, e acho que, se o navio permanecer ao largo durante a noite, ou 

se  entrar  na  baía  bem  lentamente,  dará  a  Ali  Singh  a  oportunidade  de  lançar  ao  mar  algumas 
sacolas plásticas que Snattman apanhará. 

– Correto – respondeu Frank. 
Tony olhou intensamente para os Hardys. 
– Vocês pretendem impedir que Snattman se encontre com Ali Singh? E seu pai? Pensei 

que tivéssemos vindo aqui para descobrir uma maneira de encontrá-lo e resgatá-lo. 

Os irmãos trocaram olhares indagadores e então Joe disse: 
– Claro que é esse nosso principal objetivo, mas, se for possível, faremos as duas coisas. 
O  lusco-fusco  converteu-se  em  escuridão,  e  dava  para  distinguir  uma  outra  iluminação, 

através de uma fraca neblina. O penhasco era apenas um grande sombreado negro e a casa, lá em 
cima, continuava escura. 

De repente os rapazes ouviram um ruído surdo. Tony desacelerou o “Napoli” e os quatro 

escutaram atentamente. 

– É um outro barco – murmurou Tony. 
O ruído parecia vir das proximidades do penhasco. Fixando o olhar naquela direção, logo 

conseguiram distinguir, pelo menos, uma pálida luz. 

– Você pode avançar um pouquinho naquela direção, Tony? – perguntou Frank em voz 

baixa, acrescentando: – E, por favor, apague as nossas luzes. 

– Claro. Lá vamos. O vento vem de terra, e isso impedirá que o nosso motor seja ouvido 

na praia. 

Os rapazes estavam tensos e emocionados, quando o barco se dirigiu para aquela pálida 

luz em movimento. Quando o “Napoli” se aproximava do penhasco, distinguiu-se a silhueta de 
uma  outra  lancha.  Aparentemente,  o  barco  parecia  estar  avançando  cuidadosamente,  saindo 
diretamente da frente do rochedo. 

– Provavelmente veio daquele túnel – Joe murmurou a Frank. 
– Acho que sim. 
O “Napoli” chegou bem perto, correndo o perigo iminente de ser descoberto, ou lançado 

violentamente às rochas. Afinal a outra lancha foi diminuindo a velocidade aos poucos, até parar. 
Então ouviu-se o ruído característico de remos e vozes baixas. Evidentemente, a lancha acabara 
de se encontrar com um barco a remo. 

Logo  depois,  e  com  grande  barulho,  a  lancha  virou  instantaneamente,  dirigindo-se  para 

alto-mar, com velocidade cada vez maior. 

– Para onde estará indo? – perguntou Tony intrigado. 
– Será que vai encontrar-se com o “Marco Polo”? 
– Provavelmente – disse Frank –, e acho que jamais conseguiremos pegá-lo. Gostaria de 

saber para onde foi o barco a remo. 

Os quatro rapazes permaneceram em silêncio por bastante tempo. Então deu para ouvir 

novamente o ruído de remos. O ruído estava cada vez mais perto. O barco vinha na direção do 
“Napoli”. 

– O que faremos, agora? – perguntou Tony. 
– Desligue o motor – ordenou Frank, e Tony obedeceu. 
Em meio ao enorme silêncio, de repente distinguiu-se a conversa que vinha do barco a 

remo. 

– Cem libras – foi o que ouviram alguém dizer precipitadamente, mas perderam o resto 

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da frase. Houve um prolongado som de vozes e então escutaram: 

– Não sei, é muito arriscado... 
O vento parou completamente naquele instante e então puderam-se distinguir claramente 

duas vozes. Um dos homens disse: 

– A parte de Ali Singh... 
– Tem razão, podemos deixá-lo de lado – respondeu uma voz rouca. 
– Espero que se saiam bem. 
– Porque está se preocupando? Claro que farão tudo direito. 
– Já nos localizaram, você sabe? 
– Acho que não passa de imaginação sua. Ninguém suspeita de nada. 
– Aqueles rapazes lá na casa... 
– Moleques inconseqüentes. Se meterem o nariz novamente, damos-lhes umas pancadas e 

pronto. 

– Não me agrada essa barra pesada. É muito perigoso. 
– Ou nós o fazemos ou acabaremos na lona. Que há com você hoje? Parece um bocado 

nervoso. 

– Estou preocupado. Algo me diz que devíamos cair fora daqui. 
–  Ei,  um  momento!  –  gritou  o  outro.  –  Você  está  ficando  louco.  Este  lugar  é  mais 

garantido que uma igreja. – O homem riu sarcasticamente. – Todos os curiosos estão trancados. 
Além disso, faremos hoje o grande negócio, a cartada final, e depois nos mandamos, para sempre. 

– Talvez você tenha razão. Mas, mesmo assim... 
Sua voz desapareceu, exatamente quando o barco entrou no túnel. 
Joe agarrou o braço de Frank. 
–  Você  ouviu  isso?  Todos  os  curiosos  estão  trancados?  Aposto  que  papai  é um  deles  e 

está preso aqui por perto. 

–  Sem  dúvida  isto  é  um  esconderijo  de  Snattman  e  dos  outros  contrabandistas  que  ele 

estava procurando – acrescentou Frank. 

– Isto não me agrada. Vamos cair fora e chamar a polícia – disse Chet. 
Frank sacudiu a cabeça, negativamente. 
– Levaremos tanto tempo que provavelmente acabaremos perdendo tudo. O que vamos 

fazer é o seguinte: Joe e eu vamos seguir aquele barco no interior do túnel. 

– Como? 
– Andando ou nadando. Não creio que seja profundo, nas margens. 
– E você está dizendo que eu e Chet devemos esperar aqui? 
– Não – respondeu Frank —, vocês dois voltam imediatamente para Bayport e notificam 

a guarda costeira. Contam a eles que estamos atrás de alguns contrabandistas e pedem para eles 
mandarem alguns homens até aqui. 

– Não se esqueçam de revelar nossas suspeitas a respeito de Ali Singh e do “Marco Polo”. 

Eles podem passar um rádio ao capitão, para que observe o indiano – concluiu Joe. 

– Bem. Vamos fazer assim. Primeiro, deixe-me desembarcar vocês. 
–  Não  chegue  muito  perto.  Você  pode  bater  nas  rochas  e  quebrar  o  barco  –  advertiu 

Frank. – Joe e eu podemos nadar até terra firme. Chegaremos até o túnel e veremos o que será 
possível fazer. Se descobrirmos alguma coisa, ficaremos na entrada, para mostrar aos homens da 
guarda costeira o caminho que deverão seguir, assim que chegarem aqui. 

Tony aproximou o barco o mais que pôde da praia, sem as luzes. Rapidamente Frank e 

Joe  tiraram  as  calças  e  os  sapatos.  Enrolaram  tudo  direitinho  e,  com  barbantes  que  Tony  lhes 
forneceu, amarraram os pacotes na cabeça. Então deslizaram para a água, enquanto o “Napoli” se 
afastava rapidamente. 

Frank  e  Joe  estavam  a  poucos  metros  da  linha  costeira  e,  depois  de  um  pequeno 

mergulho, emergiram no meio das rochas. 

– Vamos lá – murmurou Joe, dirigindo-se para o túnel. 

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12 

Passagem Secreta 

 
Cautelosamente, Frank e Joe avançaram pelas pedras escorregadias. De repente ouviu-se 

o ruído característico de quem cai na água. Joe perdera o pé nas pedras e rolara para a água. 

– Está tudo bem? – perguntou Frank, num murmúrio, aproximando-se do lugar onde o 

irmão ficara, na base das rochas. 

– Sim. Inicialmente me pareceu que tinha quebrado ou torcido o tornozelo, mas parece 

que não houve nada. 

–  Dê-me  a  mão  –  murmurou  Frank,  que,  rapidamente,  ajudou  Joe  a  subir  nas  pedras 

novamente. 

Os  Hardys  atingiram  o  litoral  num  ponto  distante  aproximadamente  vinte  metros  da 

entrada do túnel, mas o caminho sobre as rochas pontudas e escorregadias era tão árduo que a 
distância  parecia  muito  maior.  Estava  muito  escuro  na  base  sombria  do  íngreme  penhasco.  O 
quebrar das ondas contra as rochas produzia um som assustador. 

– Diabo de noite. Nunca chegamos a esse túnel? – disse Joe. 
– Calma, menino. Pode ser ainda muito mais longe – respondeu Frank. 
– Espero que Tony e Chet voltem logo com ajuda. Isto aqui não é fácil e esse pessoal não 

está para brincadeiras. 

–  Se  houver  alguém  tomando  conta  do  lugar,  certamente  vamos  ficar  em  posição  de 

desvantagem.  Observe  cuidadosamente  –  advertiu  Frank,  falando  tão  baixo  que  mal  dava  para 
escutar. 

Já  tinham  chegado  à  entrada  do  túnel.  Depois  de  alguns  passos  muito  cuidadosos, 

descobriram que a estreita faixa de terra entre as rochas e a água estava coberta por uma espécie 
dura de vegetação rasteira. 

Dirigindo-se a Joe, Frank disse: 
–  Se  tentarmos  caminhar  sobre  esse  mato  todo,  é  quase  certeza  que  acabarão  ouvindo 

nossos passos. Isto é, se aqueles dois sujeitos estiverem por aí em algum canto. 

Joe concordou e perguntou: 
– O que faremos, então? 
Experimentando, Frank pôs um pé na água, descendo da pedra sobre a qual pisava. 
– Não é fundo. Acho que podemos ir a pé pela água. 
Encostados  ao  muro  de  rochas,  os  rapazes  iniciaram  a  caminhada  cuidadosamente. 

Felizmente  a  água  chegava  apenas  até  os  joelhos  e  por  todo  o  caminho  havia  um  verdadeiro 
tapete  de  conchas  cobrindo  uma  espécie  de  plataforma  rochosa.  Podiam-se  ouvir  as  batidas  de 
seus corações. O que iriam descobrir, dali para a frente? 

Desde que entraram no túnel, os rapazes não ouviram o mínimo som de vozes e nenhum 

outro ruído. Tudo indicava que os homens que estavam no barco a remo tinham ido para algum 
outro esconderijo. 

–  Acho  melhor  acender  a  lanterna  –  disse  Frank,  baixinho,  quando  chegaram  ao  lago 

interior. – Sem a luz é impossível descobrir qualquer coisa. 

Apanhou  uma  lanterna  que  sempre  carregava  numa  bolsa  à  prova  de  água  e  ligou-a.  O 

raio amarelado brilhou sobre a superfície do lago. Não havia sinal do barco a remo. 

–  Como  será  que  aqueles  homens  saíram  daqui?  Será  que  existe  outra  passagem?  – 

perguntou Joe, curioso. 

Frank dirigiu o facho da lanterna para as paredes rochosas à sua volta. 
– Não vejo nenhuma. Meu palpite é que aqueles homens esconderam o barco em algum 

lugar por aí. Vamos procurar cuidadosamente. 

Devagar, os irmãos começaram a percorrer toda a volta do lago, abrindo caminho com as 

mãos por entre os arbustos e às vezes penetrando um pouco pelas margens. Já estavam a ponto 

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de desistir, sem esperanças, quando chegaram à parede mais distante do túnel. Então, quando a 
luz de sua lanterna atingiu um ponto à frente, exclamou Frank: 

– Veja. 
– Uma porta – murmurou Joe, nervoso. 
A  porta  era  tão  bem  disfarçada,  que,  mesmo  com  a  luz  diurna,  não  poderia  ser 

distinguida, a não ser bem de perto. O brilho da lanterna, no entanto, ressaltou contra o negro 
das rochas aquela moita artificial de vegetação. 

– Isso explica tudo – disse Frank. – Os homens e o barco passaram por aí. Gostaria de 

saber para onde vai isso. 

Para  não  ser  descoberto,  Frank  apagou  a  lanterna  antes  de  tentar  abrir  a  porta.  Foi 

abrindo com muito cuidado e vagarosamente, sempre esperando encontrar luz e gente por perto. 
Mas só havia escuridão. Felizmente a porta não fez nenhum ruído. Frank acendeu novamente a 
lanterna. 

À frente havia uma espécie de canal marítimo de três metros de largura por sete ou oito 

de comprimento, com um corrimão em um dos lados. Ao fundo um pequeno ancoradouro, com 
o barco a remo a ele amarrado. 

– Fantástico. E é provável que exista há muito tempo. Você acha que existe ligação com a 

Vila Pollitt? – indagou Joe. 

– Se existe, pode significar que o velho Felix Pollitt tinha ligações com os contrabandistas 

– exclamou Frank. – Escute: você acha que o tal Snattman pode ser o sobrinho desaparecido? 

Entusiasmados  com  esse  possível  novo  ângulo  do  caso  Frank  e  Joe  agarraram-se  ao 

corrimão e rapidamente avançaram para o ancoradouro. Observaram o que havia à sua volta e, ao 
apontar o facho da lanterna para a parede do fundo, Joe disse, assustado: 

– Pare um momento. 
Exatamente à frente havia um arco cortado na rocha nua. Por trás dele podia-se distinguir 

um primeiro lance de uma escada de pedra. Ambos ficaram entusiasmados e, ao mesmo tempo, 
tensos. 

– Descobrimos – disse Frank. – Esta deve ser a passagem secreta. 
–  Parece.  E,  pela  distância  que  percorremos,  diria  que  estamos  exatamente  embaixo  da 

casa do penhasco – concordou Joe. 

– Vamos subir. 
A luz da lanterna projetava estranhas sombras na passagem pelas rochas. Das paredes e 

do  teto  pingava  água.  Os  rapazes  hesitaram  um  pouco,  mas  avançaram  cuidadosamente  para 
cima. 

Quando  subiam  os  degraus  de  pedra,  Frank  dirigia  o  jato  de  luz  para  a  frente,  para 

iluminar  o  caminho.  Logo  perceberam  que  a  escada  acabava  numa  pesada  porta.  A  moldura 
estava firmemente fixada ao umbral de rochas. Acima de suas cabeças, apenas um teto rochoso. 

Frank adiantou-se, encostou o ouvido à porta e escutou atentamente. Não havia nenhum 

ruído, além. 

Desligou a lanterna e olhou cuidadosamente à volta toda, observando especialmente toda 

a porta, à procura de um pequeno claro de luz que indicasse a existência de iluminação do outro 
lado. Havia apenas escuridão. 

– Acho que não há ninguém lá. Vamos ver se conseguimos abrir – disse a Joe. 
Frank tentou de ambos os lados, mas a porta não se moveu. 
– Deve estar trancada – murmurou. 
– Tente novamente. Pode estar só emperrada. 
Frank  colocou  a  mão  na  maçaneta  novamente  e  ajudou  a  empurrar  com  o  ombro.  De 

repente, com um barulho que ecoou de ponta a ponta do lago e da escadaria, a maçaneta cedeu e 
a porta ficou entreaberta. 

Joe se adiantou, mas Frank impediu-o, com a mão. 
– Espere, o barulho pode ter atraído alguém – advertiu. 

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Nervosos  e  tensos,  ficaram  alerta  à  escuta  de  qualquer  som.  Mas  nada  aconteceu. 

Esperando que não houvesse ninguém pela frente, Frank acendeu a lanterna. 

O raio de luz atravessou as sombras e revelou uma imensa sala cortada na rocha viva, em 

pleno  centro  daquele  enorme  penhasco.  A  caverna  estava  repleta  de  caixas,  caixotes,  sacos  e 
diferentes embalagens, distribuídos pelo chão e empilhados de encosto às paredes. 

– Mercadorias contrabandeadas – os dois pensaram ao mesmo tempo. 
O  fato  de  a  maioria  das  caixas  ter  embalagens  estrangeiras  parecia  confirmar  suas 

suspeitas. 

Convencidos de que não havia ninguém ali, os rapazes atravessaram a porta e procuraram 

a localização de uma segunda porta. Mas nada encontraram. Seria ali o fim da linha? 

– Não é possível. Aqueles caras foram para algum lugar – pensaram. 
Peças de seda muito bonitas estavam espalhadas sobre os caixotes e havia muitos tapetes 

valiosos  abandonados  por  toda  parte.  Num  dos  cantos  havia  quatro  caixas  empilhadas. 
Acidentalmente, Frank esbarrou o cabo da lanterna em uma delas, provocando um som curioso. 

– Está vazia – murmurou. 
Surgiu-lhe então a idéia de que talvez aquelas caixas tivessem sido empilhadas apenas para 

esconder uma passagem de saída daquele armazém subterrâneo. Mencionou a suspeita a Joe. 

–  Como  poderiam  os  homens  empilhar  as  caixas  ali,  depois  de  saírem?  –  perguntou  o 

irmão. 

– Esta quadrilha é suficientemente sabida para fazer qualquer coisa. Vamos tirar as caixas 

dali e ver o que descobrimos. 

Frank  agarrou  a  primeira  caixa.  Ela  era  muito  leve,  e  ele  a  retirou  com  a  máxima 

facilidade. 

– Foi isso mesmo que pensei – disse Frank com satisfação. A luz da lanterna revelou a 

parte superior de uma porta que estivera escondida atrás das caixas. 

Os rapazes não perderam tempo e removeram imediatamente as outras três caixas. Então 

Joe descobriu como as caixas podiam ser empilhadas naquela posição, a despeito de as pessoas 
primeiro passarem e depôs fecharem a porta. 

Na base da porta havia uma pequena plataforma de madeira fina sobre a qual ficavam as 

caixas. 

–  Muito  interessante.  Cada  vez  que  alguém  sai  da  caverna  e  fecha  a  porta,  as  caixas 

acompanham o movimento e ficam numa posição que parece uma pilha normal sobre o piso de 
pedra. 

– Isso mesmo. Mas vamos ver para onde isto nos leva – sugeriu Frank. 
Desligou a lanterna e cautelosamente abriu a porta. Ela não fez barulho, e mais uma vez 

estava tudo escuro. 

– Que coisa demorada – exclamou enquanto acendia a luz. 
Outra passagem de pedra, levando a novo lance de escada, no fundo. 
De  repente,  Frank  pediu  silêncio  e  fez  uma  advertência,  colocando  a  mão  no  braço  do 

irmão. 

– Estou ouvindo vozes. 
Os  rapazes  escutaram  atentamente.  Podiam  ouvir  uma  voz  de  homem  a  distância.  Não 

era  possível  distinguir  o  que  diziam,  porque  ainda  estavam  muito  longe,  mas  gradativamente  a 
voz se tornava mais audível. Então, para surpresa e susto dos irmãos Hardy, ouviram-se passos. 
Rapidamente, voltaram para a caverna secreta. 

– Rápido, a porta – disse Frank. A porta foi fechada em silêncio. 
– Agora as caixas. Se esses caras vierem aqui, perceberão que as caixas foram tiradas do 

lugar. – Acendeu a luz, mas protegeu-a com a mão. 

Rapidamente, Joe empilhou as caixas vazias na plataforma de madeira da base da porta. 

Fez isso com a maior rapidez e o maior silêncio, enquanto ouvia a aproximação dos passos, cada 
vez mais perigosamente. 

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Finalmente, a última caixa estava no lugar. 
– Rápido, para a outra porta – Frank sussurrou no ouvido de Joe. 
Correram pelo chão da caverna, rumo à outra porta que dava para a escada que haviam 

subido há pouco. Mal eles haviam acabado de chegar a ela, quando ouviram o ruído da maçaneta 
da porta disposta na parede oposta da sala subterrânea. 

– Não dá tempo. Esconda-se – disse Frank. 
Com  a  lanterna,  descobriram  uma  grande  quantidade  de  caixotes  nas  proximidades  da 

porta. Em cima deles, alguém jogara uma pesada peça de seda, cujas dobras iam-se desenrolando 
até  o  chão.  Os  irmãos  enfiaram-se  rapidamente  atrás  daquelas  caixas,  espremendo-se  contra  a 
parede. Mal tiveram tempo de se esconder e desligar a lanterna, quando a outra porta se abriu. 

– Tem um bocado de drogas nessa carga que chegou há três semanas – ouviram alguém 

dizer  com  voz  áspera.  –  Vamos  levá-la  para  cima.  Burke  disse  que  pode  passar  adiante 
imediatamente.  Não  adianta  deixá-la  aqui  embaixo.  Além  disso,  é  preciso  arrumar  lugar  para  a 
nova remessa. 

– É verdade – os Hardys ouviram outra pessoa afirmar. – Alguma coisa mais para retirar 

daqui? 

– Não. Vou acender a luz. 
Houve um estalinho e, de repente, a caverna se inundou de luz. Havia instalação elétrica. 
Frank  e  Joe  se  afundaram  no  esconderijo,  segurando  a  respiração,  aterrorizados.  E  se 

fossem descobertos? 

Devagar,  os  passos  foram  chegando  cada  vez  mais  perto  das  caixas  atrás  das  quais  eles 

estavam escondidos. 
 

13 

Descoberta Espantosa 

 
Frank e Joe tentavam abaixar-se ainda mais, escondidos naquele canto, à medida que os 

homens se aproximavam. A lâmpada pendente do teto lançava uma luz tão difusa sobre toda a 
caverna que os rapazes estavam certos de que seriam descobertos. 

As  caixas  estavam  um  pouco  afastadas  entre  si  e  apenas  o  fato  de  as  dobras  de  seda 

cobrirem  os  espaços  abertos  entre  as  caixas  impedia  que  os  irmãos  Hardy  fossem  descobertos 
imediatamente. Através de um pequeno espaço descoberto, Frank podia ver as silhuetas de duas 
figuras humanas. 

– Aqui está uma parte daquela seda japonesa – os rapazes ouviram um dos homens dizer. 

–  É  melhor  levar  um  pouco  disso  também  lá  para  cima.  Burke  disse  que  tem  condições  de 
colocar um pouco dela. 

De  repente,  o  mesmo  pensamento  ocupou  as  mentes  dos  dois  irmãos.  Se  os  homens 

apanhassem a seda, é lógico que eles seriam descobertos. 

–  Não  perca  tempo  –  disse  um  dos  homens.  –  Você  sabe  que  não  receberá  nem 

reconhecimento  por  forçar  uma  venda.  Para  que  quebrar  os  braços  levando  tudo  isso  lá  para 
cima? 

– É que – explicou o primeiro, em tom conciliador -– achei que podíamos nos desfazer 

de um pouco mais dessa porcaria e ganhar um pouco de dinheiro. 

–  Ora  –  resmungou  o  companheiro  –,  você  está  com  esta  quadrilha  há  pouco  tempo. 

Ninguém por aqui lhe agradece por um pensamento. Se Burke não comprar a coisa, você terá de 
trazer tudo para baixo, outra vez. 

– Talvez você tenha razão. 
–  Claro  que  tenho.  O  que  eu  acho  é  que,  nesta  quadrilha,  só  devemos  fazer  o  que 

Snattman manda, e nada mais. 

– Nisso concordo, Bud. Vamos levar apenas as drogas e deixar o resto. 
Para  alívio  dos  Hardys,  os  dois  homens  dirigiram-se  ao  outro  lado  da  sala  subterrânea. 

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Frank e Joe não se arriscaram a respirar profundamente, mas continuavam ouvindo o ruído de 
caixas que estavam sendo removidas. 

Então, ouviram: 
– Tudo separado. Já tenho tudo o que queremos. Vamos. 
O  interruptor  foi  acionado  e  a  sala  ficou  escura.  Os  Hardys  começaram  a  respirar 

normalmente, outra vez. A porta para o corredor foi fechada e os rapazes podiam ouvir os passos 
dos dois homens, cada vez mais distantes. 

Quando não podiam ouvir mais nada, Frank acendeu a luz. 
– Puxa. Dessa vez chegamos perto. Cheguei a pensar que era o fim – disse com alívio. 
–  Eu  também  –  concordou  Joe;  –  e  o  pior  é  que  não  conseguiríamos  escapar  daqueles 

dois. Pareciam lutadores de luta livre. 

– Vamos segui-los, para ver aonde foram? 
–  Claro.  Acho  que  desvendamos  o  mistério  do  contrabando,  mas  ainda  precisamos 

descobrir se o Velho está em poder deles – acrescentou Joe com tristeza. 

– Precisamos  ser ainda mais cuidadosos. Não quero cair exatamente no meio de toda a 

quadrilha de contrabandistas – lembrou Frank. 

– É. Não posso imaginar nada mais dramático e difícil do que esse susto que acabamos de 

levar. Pensei que fosse morrer de agonia enquanto aqueles dois caras estavam aqui. 

Atravessaram  a  sala,  abriram  a  porta  e  começaram  a  avançar  pela  escura  passagem. 

Acabavam de atingir o lance de escada. Mais ou menos no meio havia um pequeno patamar, e, a 
seguir, novos degraus, até a outra porta, em cima. 

–  Vou  primeiro  –  disse  Frank  –,  enquanto  você  fica  bem  atrás.  Acho  que  não  vou 

acender a lanterna. 

–  Certo.  Snattman  pode  perfeitamente  manter  um  guarda  lá  em  cima,  e  não  acho 

necessário fazer publicidade em torno da nossa presença. 

Degrau  por  degrau,  os  rapazes  foram  subindo,  no  meio  da  escuridão.  Num  dado 

momento,  foram  de  encontro  a  algumas  pedras  pontudas.  Cuidadosamente,  reencontraram  o 
caminho  correto  e,  então,  mantiveram-se  encostados  à  parede,  até  chegar  ao  próximo  lance  de 
degraus. 

Pararam mais uma vez, perscrutando o espaço em redor. Silêncio. 
– Até aqui, tudo bem – murmurou Frank. – Mas  a coisa não está provocando em mim 

uma satisfação muito grande, não. Sinto que estamos indo para uma armadilha. 

– Não podemos desistir agora – acrescentou Joe –, mas admito que estou com um pouco 

de medo. 

Ainda tateando no escuro, os rapazes continuaram subindo até quase perder o fôlego. Joe 

perguntou: 

– Onde estamos? Estou tão cansado que tenho a impressão de estar subindo escada há 

uma hora. 

– Eu também – respondeu Frank –, e o pior é que o penhasco não parece assim tão alto, 

visto de fora. 

Descansaram  um  minuto  e  continuaram  a  jornada.  Tateando,  descobriram  uma  outra 

porta. Frank procurou e encontrou a maçaneta, que virou vagarosa e cuidadosamente, para ver se 
a porta estava trancada. 

– Está destrancada, mas acho que devemos esperar um pouco. 
– Cada segundo é importante, se papai estiver preso aí – disse Joe. 
Frank  estava  a  ponto  de  concordar  com  a  pressa  do  irmão,  quando  ambos  ouviram 

passos do outro lado da porta. Um calafrio desceu por suas espinhas. 

– Vamos correr? – perguntou Joe, com medo. 
– Não vai adiantar nada. Vamos escutar. 
Houve um som incompreensível e depois uma espécie de suspiro. Foi tudo. 
– Há alguém lá – Frank sussurrou na escuridão. Joe concordou sem dizer nada. 

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Os irmãos Hardy não sabiam o que fazer. Uma sentinela podia estar ali. Se fosse um só 

homem, os dois poderiam agarrá-lo e desarmá-lo. Mas isso só seria possível com algum barulho, 
que certamente atrairia a atenção dos outros. 

Frank e Joe cerraram os dentes. Não podiam desistir, exatamente agora. 
Enquanto procuravam decidir como agir, a situação assumiu uma direção completamente 

inesperada.  A  distância,  uma  porta  foi  aberta.  Então  surgiram  murmúrios  de  vozes  e  o  som  de 
passos que se aproximavam. 

–  Essa  loucura  já  está  se  alongando  muito  –  disse  um  homem,  com  raiva.  –  Ou  ele 

escreve aquele bilhete, ou vai me explicar por que não. 

Os rapazes se sobressaltaram. A voz era a do homem que os havia mandado embora do 

lago da caverna, horas antes, à tarde. 

–  Tem  razão,  chefe  –  disse  uma  outra  voz.  –  Faça  com  que  ele  lhe  obedeça  e  afaste  o 

perigo, pelo menos até que os tenha nos desembaraçado da carga. 

–  Se ele  não  o escrever,  jamais  sairá  daqui  com  vida  –  prometeu  o  primeiro  homem,  e, 

pelo tom da voz, falava sério. 

Imediatamente,  Frank  e  Joe  se  lembraram  do  recado  que  sua  mãe  recebera.  Seria  a 

respeito  de  seu  pai  que  esses  homens  estavam  falando?  Ou  seria  outra  pessoa  –  talvez  Jones  – 
que teria de obedecer-lhes ou perderia a vida? 

As  duas  pessoas  afastaram-se  um  pouco  da  porta  atrás  da  qual  estavam  Frank  e  Joe. 

Então, ambos ouviram o ruído de um interruptor.  Um fraco raio de luz apareceu por baixo da 
porta.  Os  irmãos  imaginaram  que  havia  um  outro  corredor  e  que  três  ou  quatro  homens 
entravam numa dependência contígua a ele. 

–  Então,  você  ainda  está  aqui?  Você  verá  que  é  mais  difícil  sair  daqui  do  que  entrar  – 

disse o homem que havia sido chamado de chefe. 

Uma  voz  amargurada  respondeu.  Como  era  muito  baixa,  os  rapazes  encostaram  os 

ouvidos na porta, para tentar ouvir mais alguma coisa. 

– Você é nosso prisioneiro e ficará aqui até morrer, a menos que escreva o bilhete. 
A voz amargurada disse mais alguma coisa, mas os tons ainda eram tão indistintos que os 

rapazes não conseguiram ouvir a resposta. 

– Não vai escrever, não é? Vamos ver o que podemos fazer para convencê-lo. 
– Deixem-no passar fome por alguns dias. Talvez se convença – sugeriu um dos outros 

homens. A sugestão provocou risadas sádicas dos outros homens. 

– Você sentirá bastante fome, se não escrever o bilhete – concordou o chefe. – Como é, 

vai ou não escrevê-lo? 

– Não – foi só o que os rapazes ouviram o prisioneiro responder. 
O chefe disse em tom azedo: 
– Nós já concordamos demais. Não podemos mais permitir que se vá. Mas, se escrever a 

mensagem, deixaremos um pouco de comida para que você não morra de fome. Você conseguirá 
escapar, mas não a tempo de nos prejudicar. Então, o que diz? Quer comida? 

Não houve nenhuma resposta do prisioneiro. 
– Dê-lhe uma boa torcida de braço – sugeriu um dos contrabandistas. 
Nesse ponto, o sangue dos Hardys ferveu. O primeiro impulso que sentiram foi de abrir a 

porta  apressadamente  e  correr  para  ajudar  aquela  pessoa  que  estava  sendo  atormentada.  Mas 
reconheceram  que  nada  poderiam  fazer  contra  tantos  homens.  Sua  única  esperança  era  que 
chegassem os homens da guarda costeira, mas eles podiam chegar tarde demais. 

– Chefe, cuido deste homem? – perguntou um dos contrabandistas. 
–  Não,  nada  de  exageros  –  disse  o  chefe.  –  Faremos  da  forma  mais  fácil:  a  fome.  Vou 

proporcionar-lhe mais uma oportunidade. Ele ainda pode escrever o bilhete... agora!... ou nós o 
deixaremos aqui, sem comida, para que morra de fome, depois da nossa partida. 

Mais uma vez, não houve resposta. 
Chegou aos ouvidos de Frank e Joe o som de uma cadeira que estava sendo arrastada. 

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– Você não fala também, não é? – disse o chefe. Houve uma pausa de alguns segundos e 

então ele gritou: – Escreva o recado ou você se arrependerá, Hardy. Ou não me chamo Snattman. 
 

14 

Aprisionados 

 
Foi Joe quem começou: 
– É o Velho. Ele descobriu o esconderijo dos contrabandistas. 
Frank advertiu o irmão: 
– Não fale tão alto. 
Eram  verdadeiros  os  temores  dos  irmãos  Hardy.  O  pai  não  só  era  prisioneiro  dos 

contrabandistas, como também sua vida corria perigo. 

– Escreva o bilhete – Snattman ordenou. 
– Não vou escrever nada – Fenton Hardy respondeu em voz fraca, mas clara. 
O chefe insistiu: 
– Você ouviu o que eu disse. Escreva ou você vai morrer de fome, sem sair daqui. 
– Então, acho que vou morrer de fome. 
– Você mudará de opinião em um ou dois dias. Você sente fome agora, mas espere até 

ficar sem alimento, completamente. Então, verá. Ficará disposto a vender a própria alma por uma 
gota de água ou uma migalha de comida. 

– Não vou escrever. 
–  Ouça,  Hardy.  Não  estamos  pedindo  muito.  Só  o  que  queremos  é  que  escreva  à  sua 

mulher,  dizendo  que  está  bem  e  ordenando-lhe  que  mantenha  a  polícia  e  as  suas  crianças 
afastadas disso tudo. Eles nos prejudicarão. 

–  Mais  cedo  ou  mais  tarde,  alguém  vai  localizar-me  –  foi  a  resposta  débil  de  Fenton 

Hardy. – Quando isso acontecer contarei o suficiente para mandar você para a cadeia para o resto 
da vida. 

Houve um certo burburinho na sala e dois ou três dos contrabandistas começaram a falar 

ao mesmo tempo. 

–  Você  está  louco!  –  disse  Snattman,  mas  havia  uma  certa  insegurança  em  sua  voz.  – 

Você nada sabe a respeito da minha vida. 

–  Sei  o  suficiente  para  condená-lo  por  tentativa  de  assassínio.  E  exatamente  agora  você 

está tentando outra vez. 

–  Você  é  muito  esperto,  Hardy.  E  isso  é  mais  um  motivo  para  você  tentar  sair  daqui 

depois  que  nós  formos  embora.  E,  se  não  cooperar,  jamais  conseguirá.  Nosso  próximo  grande 
embarque chegará esta noite, e logo depois vamos abandonar o país. Se você escrever o bilhete, 
viverá. Se não escrever, é o seu fim. 

Frank  e  Joe  ficaram  chocados  com  a  ameaça  direta.  Mas  precisavam  decidir  se  iam 

procurar ajuda ou se permaneciam ali, arriscando-se a ser capturados, mas tentando salvar o pai. 

–  Você  não  me assusta,  Snattman.  Sinto  que  chegou  a  sua  hora.  Algo  me diz  que  você 

não conseguirá receber essa carga. 

Os rapazes sentiram que a voz do pai estava mais forte. 
Snattman riu. 
–  Pensei  que  você  fosse  esperto,  mas  a  sua  parte  do  jogo  já  está  perdida.  O  que  você 

pensa a respeito da sua família? Vai prejudicá-la dessa forma, só porque é tão teimoso? 

Houve um momento de silêncio. Depois Fenton Hardy respondeu pausadamente: 
– Minha mulher e meus filhos preferirão que eu morra cumprindo meu dever a ver-me de 

volta como protetor de contrabandistas e criminosos. 

–  Você  tem  um  elevadíssimo  senso  de  dever.  Mas  vai acabar  mudando  de idéia.  Já  está 

com sede? 

Não houve resposta. 

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– Tem fome? 
Nenhuma resposta. 
– Você sabe que sim. E sabe que será pior. Você vai morrer de sede e de fome, a menos 

que escreva o bilhete. 

– Jamais escreverei. 
–  Está  bem.  Vamos  embora,  pessoal.  Vamos  deixá-lo  por  conta  própria  por  algum 

tempo. Assim ele terá oportunidade de pensar melhor. 

Frank  apertou  o  braço  de  Joe,  sentindo  profundo alívio. Ainda  havia  a  possibilidade  de 

salvar o pai. 

Os  passos  ecoaram  quando  Snattman e  seus  homens  saíram  da  sala e  caminharam  pelo 

corredor. Finalmente os passos desapareceram. Uma porta bateu. 

Joe adiantou-se na direção da porta, mas Frank o conteve. 
– É melhor esperarmos um minuto – disse cautelosamente. – Alguém pode ter ficado de 

guarda. 

Os  rapazes  ficaram  em  silêncio,  escutando  cuidadosamente.  Nenhum  som  procedia  de 

trás daquela porta. Depois de algum tempo, satisfeito porque o pai tinha sido deixado sozinho, 
Frank girou a maçaneta. 

Sem nenhum ruído, abriu a porta alguns centímetros para observar o corredor fracamente 

iluminado por apenas uma lâmpada no teto. Não havia sinal da presença de nenhum guarda. 

Três  portas  davam  para  o  corredor  –  duas  no  lado  oposto  de  onde  se  encontravam  os 

Hardys e uma na extremidade. 

A  passagem  era  pavimentada  com  lajotas  e  tinha  o  teto  pontudo,  como  um  celeiro  de 

fazenda, ou como um sótão. Frank e Joe imaginaram onde seu pai estaria e correram rumo à sala. 
Abriram a porta da dependência, quase completamente escura, e procuraram ver lá dentro. Havia 
uma  mesa  rústica  e  várias  cadeiras.  Num  canto,  havia  uma  cama  de  campanha.  Nela  estava 
Fenton  Hardy.  Estava  com  as  mãos  e  os  pés  amarrados  à  cama,  de  forma  tão  apertada  que 
dificilmente conseguia mexer-se alguns centímetros para um ou para o outro lado. Estava deitado 
de costas, olhando fixamente para o teto de sua prisão. 

Numa  cadeira,  ao  lado  da  cama,  havia  uma  folha de  papel  e  um  lápis,  evidentemente  o 

material necessário para escrever a mensagem que Snattman queria. 

– Papai – disseram Frank e Joe, ao mesmo tempo. 
O  detetive  não  ouvira  a  porta  abrir-se,  mas  então  encarou  os  filhos,  com  admiração  e 

alívio. 

– Vocês estão aqui! Graças a Deus! – murmurou. 
Os  rapazes  ficaram  chocados  com  a  mudança  de  fisionomia  do  pai.  Normalmente  um 

homem  de  aparência  forte  e  bem  disposta,  Fenton  Hardy  estava  agora  emagrecido  e  pálido.  O 
rosto estava chupado e os olhos sem brilho. 

– Vamos tirá-lo daqui em um minuto – disse Frank. 
– Rápido. Aqueles demônios podem voltar a qualquer momento – respondeu o Senhor 

Hardy. 

Frank  apanhou  a  faca  e  começou  a  cortar  as  cordas  que  atavam  o  pai.  Mas  a  faca  não 

estava bastante afiada e a corda era bastante grossa. 

Joe descobriu que não tinha consigo a faca: 
– Provavelmente caiu na água quando tiramos as roupas, a bordo do “Napoli”. 
–  Eu  também  não  tenho  faca.  Snattman  tirou  tudo  o  que  eu  tinha  em  meu  poder, 

inclusive  as  rações  alimentícias  concentradas.  Um  de  vocês  tem  um  pedaço  de  qualquer  coisa 
doce? – perguntou o pai. 

Joe  tirou  do  bolso  o  doce  que  não  comera  quando  Tony  lhe  dera,  dando  ao  pai  um 

bocado  de  novas  energias.  Enquanto  isso,  todos  os  olhos  percorriam  a  sala  à  procura  de  algo 
pontudo que pudesse ser usado para cortar ou afrouxar todas aquelas dobras e aqueles nós. Mas 
não se viu nada. 

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Fenton  Hardy  comeu  todo  o  doce,  de  mordida  em  mordida.  Joe,  agora  com  as  mãos 

livres,  começou  a  ajudar  Frank,  tentando  desatar  os  nós.  Mas  eram  todos  muito  firmes  e  foi 
impossível afrouxá-los. 

Os minutos iam-se passando. Frank tentava cortar as cordas, mas a lâmina sem corte da 

faca  nada  estava  conseguindo.  Fenton  Hardy  não  estava  em  condições  de  fazer  nada.  Todos 
estavam silenciosos. O único som audível era o da respiração pesada dos rapazes e o arranhar do 
canivete contra a corda. 

Finalmente  Frank  conseguiu  “serrar”  uma  das  dobras,  soltando  os  pés  do  detetive.  Seu 

filho tirou as cordas e começou o trabalho para soltar mãos e braços. Quando começou a raspar a 
lâmina na corda, percebeu um som que aterrorizou os três Hardys. 

Era o barulho de passos, além, no corredor. Alguém se aproximava rapidamente. 
Frank trabalhou desesperadamente com a lâmina sem corte da faca, mas a corda resistia 

teimosamente.  A  lâmina,  aparentemente,  não  estava  nem  mesmo  marcando  a  corda.  A  custo, 
algumas  tramas  se  partiram.  Afinal,  com  Fenton  Hardy  fazendo  um  esforço  gigantesco  e  Joe 
arranhando a corda com as próprias unhas, ela cedeu. 

O detetive estava livre. 
Mas os passos estavam mais próximos. 
– Depressa – disse Frank, jogando as cordas para o lado. 
– Não posso apressar-me – disse o pai. – Estive amarrado tanto tempo que os pés e as 

pernas estão adormecidos. 

– Mas temos de correr, pai. Tente ficar de pé – disse Frank. 
– Vou fazer o possível – respondeu o pai, enquanto os rapazes faziam rápidas massagens 

em suas pernas, para reativá-las e à sua circulação. 

– Temos de correr antes que esses canalhas entrem aqui – afirmou Joe, nervoso. 
Fenton  Hardy  pôs-se  de  pé  como  melhor  conseguiu.  Mas,  ao  ficar  de  pé,  sentiu-se 

completamente  tonto,  e  teria  caído,  se  Frank  não  o  pegasse  pelo  braço.  Estava  tão  fraco,  de 
fome, que uma onda de tontura o acometera. Deu uma boa sacudida de cabeça e a sensação de 
zoeira passou. 

– Tudo bem, vamos – disse, apoiando-se nos dois filhos. Os três empurraram a porta e 

dirigiram-se ao corredor. 

Quando  acabaram  de  entrar  no  corredor,  os  joelhos  de  Fenton  Hardy  se  dobraram. 

Desesperados, os rapazes preferiram carregá-lo, quase arrastá-lo. 

– Vão vocês – murmurou –, e deixem-me aqui. 
– Estou certo de que todos conseguiremos ir juntos – respondeu Joe. 
Chegaram à porta da extremidade, rumo à caverna de baixo, mas a demora foi prejudicial. 

No  momento  em  que  Frank  ia  abrir  a  porta,  desligando  sua  lanterna,  a  porta  do  corredor  foi 
aberta de um empurrão e a luz do teto se iluminou. 

Frank  e  Joe  tiveram  uma  visão  confusa  do  homem  de  pele  escura  que  viram  no  lago 

subterrâneo naquela tarde. Snattman. Dois sujeitos muito mal-encarados vinham imediatamente 
atrás. 

Aparentemente sem reconhecer de imediato o grupo, Snattman indagou irritado: 
– O que está acontecendo? 
– São os Hardys – gritou um dos outros homens. 
O trio  fugitivo se lançou  correndo pelos degraus abaixo, mas não fez progressos muito 

grandes, porque, quando atingiu o patamar inferior, os três contrabandistas já estavam passando 
pela porta superior e iniciando a descida. 

– Parem – gritou Snattman, descendo de um salto os três últimos degraus daquele lance 

de  escada,  enquanto  sacava  uma  arma  automática  do  bolso.  O  lugar  estava  feericamente 
iluminado. 

Quando Snattman chegou bem mais perto, Frank apanhou um pedaço de fita de aço, que, 

usando como chicote, foi bater no punho de Snattman, lançando longe a sua arma. O revólver 

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bateu na parede, caiu no chão e escorregou pela parte restante da escada, parando vários degraus 
abaixo.  Frank  chegou  bem  perto  de  Snattman,  que,  completamente  surpreendido,  não  teve 
reação, permitindo que o rapaz o encantoasse quase indefeso. 

Enquanto  isso,  Joe,  aplicando  um  violento  cruzado  de  direita,  tirou  da  jogada  um  dos 

outros homens. Fenton Hardy, com as forças repentinamente recuperadas, atacava violentamente 
o terceiro contrabandista. 

A  certa  altura  os  rapazes  viram  quando  o  adversário  do  pai  correu  para  perto  de  uma 

parede e apertou um botão qualquer. Instantaneamente soou uma sirena de alarma no corredor. 
Em  alguns  segundos  apareceram  outros  integrantes  da  quadrilha.  Enquanto  alguns  apontavam 
suas armas para os Hardys, os outros os dominaram completamente. 

Diante das armas, pai e filhos viram-se forçados a se render e voltar para a dependência 

em que Hardy tinha sido mantido preso até então. 

Em menos de cinco minutos, Fenton Hardy estava novamente amarrado àquela cama de 

campanha,  enquanto  Frank  e  Joe,  completamente  atados  e  incapazes  de  qualquer  movimento, 
eram amarrados a duas cadeiras. 
 

15 

Ameaças Ousadas 

 
Snattman,  recuperado  da  consternação  e  da  surpresa  que  teve  ao  descobrir  os  rapazes 

Hardy  na  sala  subterrânea,  estava  de  excelente  bom  humor.  Voltou-se  para  seus  homens  e 
comentou: 

–  Viemos  na  horinha  certa  –  disse,  esfregando  as  mãos  de  contentamento;  –  e  se  não 

tivéssemos chegado naquele exato momento, eles todos teriam escapado. 

Os Hardys permaneceram em silêncio, desesperados. Frank e Joe estavam certos de que 

conseguiriam salvar o pai, e agora os três eram prisioneiros da quadrilha de contrabandistas. 

– O que vamos fazer com esses caras? – perguntou um dos homens. 
Aquela  voz  parecia  familiar,  e  os  rapazes  ergueram  os  olhos.  Não  se  surpreenderam  ao 

constatar que se tratava do ruivo que conheceram na Vila Pollitt quando Frank descobriu o boné 
do pai. 

– Vamos eliminá-los? – indagou Snattman com indecisão. – É realmente um problema. 

Agora  temos  três,  em  vez  de  um.  A  melhor  coisa  que  podemos  fazer  é  deixá-los  aqui  e 
trancarmos a porta. 

– E montar algumas armadilhas – sugeriu um dos homens. 
Red objetou: 
– Enquanto os Hardys estiverem por aqui, haverá perigo. Eles quase conseguiram escapar 

desta vez. 

– E o que você sugere? 
–  Devemos  fazer  o  que  pretendíamos  fazer  com  o  velho,  inicialmente  –  declarou  Red, 

ameaçador. 

– Você quer dizer, livrarmo-nos deles? – perguntou Snattman, pensativo. 
– Claro. De todos. 
– Bem – disse Snattman, olhando sinistramente para Fenton Hardy. 
– Acredito que você já tem bastante peso na consciência, Snattman – declarou o detetive. 

– Não espero que me deixe partir – disse amargamente —, mas os rapazes podem ser libertados. 
Tudo o que eles tentaram fazer foi resgatar o pai. Você também teria feito a mesma coisa. 

– Será? – indagou Snattman. – Não se preocupe com a minha consciência. Ninguém, mas 

ninguém mesmo, jamais se interpôs à minha frente. Você acha que eu sou um idiota para deixar 
os  rapazes  livres?  Se  vocês  três  são  tão  amigos  e  companheiros,  provavelmente  gostarão  de 
morrer de fome, juntos. 

O contrabandista riu ruidosamente do que considerou uma excelente anedota. 

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As  mentes  de  Frank  e  de  Joe  estavam  em  rebuliço,  concatenando  idéias.  Uma  coisa, 

apenas, estava clara. Snattman dissera que os Hardys quase escaparam. Isso  significava que não 
havia ninguém montando guarda à entrada secreta. 

“Se pudermos agüentar apenas mais um pouco”, pensaram, “o pessoal da guarda costeira 

chegará. Não haverá ninguém para impedi-los de chegar até aqui em cima.” 

De  repente,  ocorreu  a  ambos,  ao  mesmo  tempo,  uma  possibilidade  chocante.  “E  se  a 

guarda  costeira  não  conseguir  encontrar  a  porta  camuflada  que  dá  passagem  do  lago  para  as 
escadas?” 

Durante a conversa, quatro daqueles marginais permaneceram no corredor, murmurando 

frases incompreensíveis. Um deles entrou no quarto, dirigindo-se a Snattman: 

– Queria falar com você, chefe. 
– O que há desta vez? – perguntou o chefe, com voz desconfiada. 
–  É  a  respeito  do  que  faremos  com  os  Hardys,  agora  que  estão  todos  presos  –  disse  o 

homem,  com  alguma  hesitação.  –  O  que  fazer  com  pessoas  que  dificultam  as  coisas  é  assunto 
exclusivamente seu. O mesmo não acontece conosco. Estamos neste negócio apenas para tirar o 
melhor  proveito  possível  dos  resultados  do  contrabando,  mas  não  queremos  nos  envolver  em 
coisas mais complicadas e difíceis. 

– É isso mesmo – disse um dos outros homens do grupo. 
– É? De repente vocês decidiram assumir uma posição honesta? Tomem cuidado, ou dou 

um jeito em vocês. 

–  Não,  claro  que  não  dará  jeito  nenhum  –  respondeu  o  primeiro  que  tinha  falado.  – 

Somos  sócios  e  vamos  retirar  exatamente  a  parte  que  nos  cabe  nesse  negócio,  e  não  vamos 
arriscar vidas por amor. Você sabe. 

– Temos outra idéia a respeito do que fazer com estes três. E acho que a idéia é boa – 

disse um terceiro quadrilheiro. 

– De que se trata? – perguntou Snattman, com impaciência. 
– Estivemos conversando a respeito de Ali Singh. 
Frank e Joe ficaram atentos ao que o homem diria. 
– O que tem Ali Singh? – Snattman perguntou, impaciente. 
– Entregamos os prisioneiros a ele. Ali Singh tem um amigo, o capitão Foster, cujo navio 

parte hoje para o Extremo Oriente. Vamos embarcar os Hardys nesse navio. 

Snattman estava pensativo. A idéia parece ter atraído sua atenção. 
– Não é má idéia. Eu não me lembrara de Ali Singh. E, ele pode tomar conta dos três. 

Eles jamais voltarão para cá – concluiu com um sorriso sarcástico. 

– Pelo que ele me contou a respeito desse tal amigo, é provável que o capitão lance os 

três ao mar antes de navegar muito. Segundo eu sei, ele não costuma dar comida a passageiros 
dos quais se pode livrar. 

– Melhor para nós. Não seremos os responsáveis. 
– É, vamos entregá-los a Ali Singh – disse Red. – Ele saberá como cuidar desses três. 
Snattman caminhava em redor da cama, olhando para Fenton Hardy. 
–  Foi  uma  pena  que  os  rapazes  tenham  decidido  vir  bisbilhotar  aqui.  Agora  vocês  três 

terão de fazer uma pequena viagem oceânica. Vocês jamais farão contato com a guarda costeira 
para contar a história. 

O  detetive  ficou  quieto.  Ele  sabia  que  não  conseguiria  nada  tentando  convencer  o 

bandido. 

– Então, você não vai dizer nada? – perguntou Snattman. 
– Não, nada. Faça como quiser, mas deixe os rapazes livres. 
– Ficaremos com o senhor, pai – disse Frank. 
– Claro – acrescentou Joe. 
– Certamente. Não darei a nenhum de vocês a oportunidade de voltar a Bayport com essa 

história. 

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O chefão da quadrilha permaneceu no meio da sala por algum tempo, contemplando os 

seus prisioneiros com um sorriso irônico. Então, virou-se repentinamente. 

– Bem, acho que está tudo em ordem – disse, dirigindo-se a Red. – Temos que cuidar de 

nossos  negócios  com  Burke.  Vamos,  pessoal,  temos  de  carregar  o  caminhão  de  Burke.  Se  a 
polícia encontrar aquele caminhão estacionado lá em cima, estamos perdidos. 

– E esses sujeitos? – perguntou Red, indicando os Hardys. – Não devíamos deixar alguém 

aqui, cuidando de guardá-los? 

– Eles estão muito bem amarrados – disse Snattman, que acrescentou: – É, acho melhor 

deixarmos um guarda. Malloy, você fica para tomar conta. 

Malloy, um sujeito truculento e duro que estava de sobretudo e com uma malha grossa, 

acedeu  e  sentou-se  num  caixote,  perto  da  porta.  Snattman  parecia  satisfeito  com  a  decisão 
tomada. Depois de advertir Malloy para não dormir em serviço e cuidar que os prisioneiros não 
escapassem, saiu da sala. Acompanharam-no Red e os outros bandidos. 

Caiu  sobre  a  sala  um  pesado  silêncio  depois  que  os  homens  saíram.  Malloy  instalou-se 

pesadamente  sobre  o caixote,  olhando  fixamente  para  o  chão.  O  cabo  de  um  revólver  aparecia 
debaixo do casaco pesado. 

Frank tentou forçar as cordas que o amarravam à cadeira. Mas os contrabandistas tinham 

feito seu serviço direito. Mal podia mover os músculos. 

“Jamais conseguiremos sair desta”, pensou desanimado. 
Joe era um sujeito normalmente otimista, mas não estava conseguindo ver uma saída. “A 

situação está difícil”, pensou, “e, do jeito como as coisas vão, de manhã estaremos, todos, no tal 
navio.” 

Para  aliviar  os  pensamentos,  os  Hardys  decidiram que  era  melhor  conversar  um  pouco, 

esperando,  contra  todas  as  expectativas,  conseguir  distrair  o  homem  que  ficara  de  guarda  e, 
talvez, dominá-lo. 

–  Calem  a  boca  –  disse  Malloy  –,  porque,  se  vocês  não  ficarem  quietos,  eu  posso  criar 

encrencas. – Deu um tapinha sugestivo no revólver. 

Depois  disso,  um  silêncio  melancólico  dominou  os  prisioneiros.  Todos  ficaram 

deprimidos. Parecia que chegara a hora de seu destino. 
 

16 

Trabalho Rápido 

 
Desesperados, os rapazes olharam para o pai, na cama de campanha. Para sua surpresa, 

ele estava sorrindo. 

Frank já estava a ponto de lhe perguntar o que é que ele achava tão engraçado a respeito 

da  situação,  quando  Fenton  Hardy  sacudiu  a  cabeça,  numa  advertência.  Olhou  na  direção  do 
guarda. 

Malloy  não  estava  observando  os  prisioneiros.  Permanecia  sentado,  olhando  fixamente 

para o chão. De vez em quando sua cabeça pendia para a frente e ele se recompunha, como se 
estivesse lutando para ficar acordado. 

“Snattman  fez  uma  péssima  escolha  quando indicou  Malloy  para  ficar  aqui,  de  guarda”, 

pensaram os rapazes. 

Várias  vezes  o  homem  espreguiçou-se,  esticou  os  braços  e  esfregou  os  olhos.  Mas, 

sempre que sentava outra vez, a cabeça voltava a pender. 

Enquanto  isso,  os  rapazes  perceberam  que  o  pai  estava  tentando  se  desvencilhar  das 

cordas. Para surpresa geral, parecia que ele não estava tão fixamente amarrado. Os dois rapazes 
tentaram, mas não conseguiram fazer o mínimo movimento. 

Os  rapazes  trocaram  olhares,  imaginando  o  que  estaria  acontecendo.  Enquanto  Joe 

permanecia  quieto,  sem  nenhuma  expressão,  Frank  pensou:  “Acho  que  papai  apelou  para  um 
velho truque. Não sei como não pensei nisso.” 

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Fenton Hardy fizera uso de sua larga experiência. Quando os contrabandistas dominaram 

o  prisioneiro,  atando-o  à  cama  de  campanha  pela  segunda  vez,  ele  usara  um  truque 
freqüentemente  utilizado por  mágicos  e  prestidigitadores  profissionais  que  afirmam  que  podem 
desvencilhar-se de cordas fortemente apertadas e camisas de força. 

O detetive expandira o tórax e enrijecera os músculos. Também mantivera os braços tão 

afastados  do  corpo  quanto  fora  possível,  sem  que  ninguém  percebesse.  Dessa  forma,  quando 
esvaziasse os pulmões, encostasse os braços e relaxasse o corpo, as cordas não o prenderiam tão 
firmemente quanto os seus captores o desejariam. 

“Mas, por que eu e Frank fomos tão idiotas?”, pensou Joe. 
Frank  mordeu  os  lábios,  desgostoso  por  não  se  ter  recordado  do  truque.  Sentindo-se 

aliviado, lembrou: “É, papai também não se lembrou disso da primeira vez em que o amarraram”. 

Fenton  Hardy  descobriu  que  a  corda  que  prendia  seu  pulso  direito  à  cama  tinha  uma 

pequena parte roída. Começou imediatamente a tentar afrouxar a corda. Isso demorou bastante e 
a  trama  grossa  da  corda  chegou  a  arranhar-lhe  o braço,  mas  finalmente  conseguir  soltar  a  mão 
direita. 

Frank quase gritou de alegria. Olhou para o guarda e teve a impressão de que ele dormia 

profundamente. “Espero que continue assim até que consigamos escapar”, pensou com fervor. 

Frank e Joe observavam o pai, entusiasmados, enquanto ele tentava desatar mais um nó. 

O detetive fez várias tentativas, durante longo tempo. Era um trabalho lento e difícil, que tinha 
de executar com uma só mão. Mas os rapazes compreenderam, pela sua expressão facial, que os 
contrabandistas não ataram tão firmemente as cordas. 

Nesse momento o guarda levantou a cabeça ligeiramente e o detetive teve de recolocar a 

mão  rapidamente  sobre  a  cama.  Fechou  os  olhos,  como  se  estivesse  dormindo,  e  seus  filhos 
fizeram  a  mesma  coisa.  Mas,  abrindo  ligeiramente  as  pálpebras,  observavam  cuidadosamente  o 
guarda. 

O guarda grunhiu: 
– Está tudo em ordem. 
Mais  uma  vez,  tentou  ficar  acordado,  mas  não  conseguiu.  Pouco  a  pouco  a  cabeça  foi 

baixando, até que o queixo, finalmente, tocou o peito. A respiração profunda e ritmada revelou 
aos prisioneiros que ele dormia profundamente. 

Fenton Hardy reiniciou o trabalho no nó que mantinha sua mão esquerda presa à cama. 

Em alguns minutos conseguiu soltá-lo, e sua mão esquerda ficou livre. Depois de certificar-se de 
que o guarda dormia, sentou-se na cama e começou a soltar os pés. Era uma tarefa mais fácil. Os 
contrabandistas  apenas  passaram  uma  corda  pela  cama  para  fixar  as  pernas  do  detetive.  Em 
apenas alguns segundos estava completamente livre. 

“Agora ele vai nos libertar”, pensou Joe, “e vamos sair daqui.” 
Quando  caminhava  na  ponta  dos  pés,  para  onde  estavam  os  filhos,  Fenton  Hardy 

provocou leve ranger das tábuas do soalho. O guarda murmurou alguma coisa, como se estivesse 
dormindo, sacudiu a cabeça e sentou, firme. 

“Não, agora não”, disse Frank, temendo o que poderia acontecer. Viu seu pai apanhar do 

chão um pedaço de pano branco que alguém deixara cair. 

Uma expressão de estupefação apareceu no rosto de Malloy. Quando abriu a boca para 

pedir socorro, Fenton Hardy aproveitou-se do espaço de que dispunha, saltando sobre o homem. 

– Fique quieto – disse o detetive. 
Malloy mal teve tempo de esboçar uma reação, e a mão do detetive já estava em sua boca. 

Enfiou o trapo de pano na boca do guarda e jogou-o ao chão. Os dois rolaram de um lado para 
outro,  numa  luta  silenciosa,  mas  desesperada.  Os  rapazes  impossibilitados,  apenas  olhavam, 
enquanto seu temor aumentava. Eles sabiam que seu pai estava enfraquecido em conseqüência da 
prisão e da fome, enquanto o guarda era forte e musculoso. Mesmo assim, o detetive gozava da 
vantagem do ataque de surpresa. Malloy nem tivera tempo de reunir as idéias. 

Frank e Joe observavam a batalha em agonia e suspense. Tudo o que desejavam era poder 

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ajudar o pai. 

O detetive ainda levava vantagem, porque podia respirar com maior facilidade do que o 

adversário.  Malloy  cambaleou  e  levantou  os  dois  braços,  enquanto  caía  ao  chão.  O  detetive 
aproveitou-se para, lançando-se sobre ele, apanhar seu revólver. 

– Acabou a brincadeira – disse o detetive em voz baixa. Sem que ninguém lhe ordenasse, 

o guarda levantou os dois braços, sentando no chão, praticamente perdido. 

– Ele tem uma faca, pai – disse Joe com cuidado. – Pegue a faca também. 
–  Obrigado,  Joe.  Muito  bem,  passe  a  faca  para  cá  –  disse  a  Malloy,  apontando  a  arma, 

ameaçadoramente. 

Sem  poder  fazer  outra  coisa,  o  guarda  tirou  a  faca  da  bainha  de  couro  que  levava  no 

cinto, entregando-a a Fenton Hardy. 

Frank e Joe sentiam vontade de gritar de satisfação, mas apenas sorriram levemente para 

o pai. 

Sempre observando Malloy, o detetive caminhou para trás, até chegar ao lado de Joe. Sem 

tirar  os  olhos  do  contrabandista,  abaixou-se  e,  com  a  faca,  cortou  a  corda  que  atava  seu  filho. 
Felizmente a faca estava afiada e a corda rompeu-se logo. 

– Agora, sim, está tudo bem. Obrigado, pai – murmurou Joe. 
Levantou-se  da  cadeira,  pegou  a  faca  e,  enquanto  seu  pai  observava  Malloy,  cortou  a 

corda que amarrava Frank. 

–  Malloy  –  disse  o  detetive  –,  venha  para  cá.  Dirigiu-se  à  cama  e  indicou,  com 

movimentos, que o contrabandista devia deitar-se na cama de campanha. Malloy sacudiu a cabeça 
vigorosamente, mas foi empurrado por Joe. O guarda deitou-se. 

As cordas que amarraram o detetive não tinham sido cortadas. Rapidamente, Frank e Joe 

amarraram  Malloy  exatamente  como  seu  pai  tinha  sido  amarrado  antes.  Em  menos  de  cinco 
minutos, os Hardys estavam livres. 

– E agora? – perguntou Frank, sem que Malloy ouvisse. – Vamos nos esconder até que a 

guarda  costeira  chegue  aqui?  –  Rapidamente,  contou  ao  pai  que  enviara  Tony  a  Bayport  para 
buscar socorro da polícia. 

Joe observou: 
– Já era tempo de eles terem chegado aqui. Pode ser que não tenham encontrado aquela 

porta secreta. Vamos descer para ajudar. 

Todos concordaram com o plano, mas, mal tinham chegado ao primeiro lance de escada, 

ouviram vozes elevadas e aparentemente raivosas. 

–  Não  é  possível  que  sejam  policiais  da  guarda  costeira  –  disse  o  detetive.  –  Vamos 

escutar  um  pouco.  Talvez  possamos  correr  na  outra  direção.  Conheço  o  caminho  para  sair  do 
subterrâneo. 

De baixo, chegavam as frases iradas da conversa: 
– Seu traidor. Esse material pertence à quadrilha toda, e não se esqueça disso. 
–  Ouça  –  disse  a  segunda  voz  –,  eu  não  preciso  obedecer  a  ordens  suas.  Achei  que 

podíamos confiar um no outro. Agora você não quer dar prosseguimento ao nosso plano. Quem 
vai ficar sabendo, se tirarmos uns dez ou cinco pacotes daquele amigo de Ali Singh? 

– Está certo. O material é mais facilmente passável do que drogas. As drogas são muito 

perigosas  para  mim.  Snattman,  se  quiser,  pode  arcar  com  a  responsabilidade  do  rapto.  Eu  não 
quero. 

As vozes já estavam tão próximas que os Hardys não ousaram continuar esperando por 

mais tempo. 

– Vamos embora – disse o pai. 
Avançou  de  volta  para  o  corredor,  atravessando-o,  rumo  à  porta  da  extremidade.  De 

repente, Frank e Joe perceberam que o pai cambaleava e tiveram medo de que desmaiasse. Joe 
lembrou-se de que o pai só comera um pequeno doce nas últimas horas. Enfiou a mão no bolso e 
apanhou  outro  doce  e  alguns  pedaços  de  rosquinhas.  Rapidamente  colocou  tudo  nas  mãos  do 

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pai.  Fenton  comeu  tudo  avidamente,  enquanto  seus  filhos  o  apoiavam,  conduzindo-o  para  a 
porta. 

Quando abriram cuidadosamente a porta, viram um novo lance de escada, que, de acordo 

com a informação do pai, ia até o telheiro existente perto da Vila Pollitt, onde havia uma porta 
disfarçada, um alçapão. 

– Foi por lá que Snattman me trouxe para baixo. Têm uma lanterna? Não temos tempo a 

perder – disse o detetive, que já se sentia mais forte. – Eu vou na frente. 

Enquanto subiam, Frank e Joe ficaram imaginando se sairiam no telheiro de lenha onde 

viram Klein apanhando pedaços de madeira. 

Quando  atingiu  o  fim  da  escada,  Fenton  Hardy  mandou  que  desligassem  a  lanterna  e 

empurrou a porta. Mas não conseguiu movê-la. 

–  Tentem  vocês,  rapidamente  –  disse  aos  rapazes.  –  Aqueles  homens  que  estavam 

subindo podem ter encontrado Malloy. 

– Se isso acontecer, tudo ficará mais difícil. 
Os irmãos forçaram a porta com os ombros. Logo ouviu-se o ruído de toras de madeira 

caindo. A porta cedeu rapidamente. 

Frank  saiu.  Parecia  não  haver  ninguém  por  perto.  Foi  para  o  lado  do  telheiro,  seguido 

pelos outros. 

Os  três  permaneceram  em  silêncio.  A  noite  estava  escura.  O  vento,  passando  pela 

vegetação, fazia ruídos surdos. Diante dos Hardys erguia-se a sombria massa da casa do rochedo. 
Não se via nenhuma luz. 

Da  direção  do  pátio  vinham  ruídos  monótonos,  ritmados.  Os  rapazes  e  seu  pai 

imaginaram que o caminhão dos contrabandistas estava sendo carregado com as mercadorias que 
deveriam ser colocadas no mercado pelo tal Burke. 

De  repente,  os  Hardys  ouviram  vozes  procedentes  da  escada  que  acabavam  de  subir. 

Rapidamente,  Frank  fechou  a  porta  do  alçapão  e  Joe  empilhou  lenha  sobre  ela.  Então,  em 
silêncio, os Hardys dirigiram-se para o pátio. 
 

17 

Reféns 

 
Ágeis  como  índios,  os  três  Hardys  correram  através  do  pátio  e  desapareceram  entre  as 

árvores. Dirigiram-se à estrada, bem distante dali. 

“Espero  que  passe  um  ônibus.  Então  poderemos  ir  até  um  telefone  para  informar...”, 

imaginou Frank. 

Seu  pensamento  foi  interrompido  quando  ouviram  um  barulho  que  lhes  infundiu  um 

sentimento de terror – o ruído de toras de madeira rolando de cima da porta do alçapão. 

Em um instante ouviu-se um grito ameaçador: 
– Chefe, Red, os Hardys fugiram. Vamos encontrá-los. 
“Esse  deve  ser  um  daqueles  homens  que  vinham  subindo  da  caverna.  Provavelmente 

encontraram Malloy amarrado”, pensou Joe. 

Imediatamente o lugar assumiu o burburinho da vida, com os contrabandistas apontando 

suas lanternas em todas as direções. Alguns dos homens correram do caminhão para a estrada, 
aos gritos. Outros começaram a procurar entre as árvores. Outro homem surgiu do alçapão. Ele e 
um outro companheiro rumaram para o lado do mar. 

Dois  musculosos  quadrilheiros  abriram  a  porta  da  cozinha  e,  saindo  para  o  pátio, 

anunciaram: 

– Não há ninguém na casa. 
– Também não estão na praia – disse uma outra voz. – Acabo de falar com Klein, pelo 

telefone. 

– Fenton Hardy tem uma arma. Ele pegou a de Malloy – advertiu uma voz procedente 

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das proximidades da casa. 

–  É  melhor  que  vocês  não  deixem  os  Hardys  escapar,  senão  terão  de  acertar  contas 

comigo – gritou Snattman. 

– Ele não perde sua marca pessoal – disse um dos quadrilheiros. 
Quando  começara  a  correria,  o  detetive  obrigara  seus  dois  filhos  a  deitar  no  chão, 

dizendo-lhes que permanecessem em silêncio, sem fazer nenhum movimento. Naquele instante, 
podiam ouvir as passadas rápidas dos contrabandistas que corriam entre as árvores. Seus corações 
batiam desordenadamente. Não parecia possível que eles não fossem encontrados. 

Mesmo assim, um depois do outro, vários homens passaram a apenas alguns metros dos 

Hardys,  correndo  para  a  estrada.  Fenton  Hardy  ergueu  a  cabeça  e  disse  aos  filhos,  enquanto 
olhava para a Vila Pollitt: 

–  Rapazes,  vamos  dar  uma  esticada  até  a  porta  da  cozinha.  Esses  homens  jamais 

esperarão que a gente se esconda exatamente lá. 

Os três se levantaram. Rápida e silenciosamente, atravessaram o pátio escuro e entraram, 

sorrateiramente, na casa. Aparentemente, ninguém os viu. 

– Quando Snattman não nos encontrar lá fora, será que não procurará aqui, pelo menos 

para ter certeza? – perguntou Joe. 

–  Sim  –  respondeu  o  pai  –,  mas  espero  que  até  lá  a  guarda  costeira  e a  polícia estadual 

tenham chegado. 

–  Joe  e  eu  descobrimos,  no  outro  dia,  uma  escada  dissimulada  que  leva  ao  sótão. 

Snattman não se lembrará de procurar lá. Vamos para cima – disse Frank. 

–  Você  se  esqueceu  do  fantasma  –  disse  Joe  –,  e  ele  sabe  que  nós  descobrimos  aquela 

escada. 

–  Mesmo  assim,  acho  boa  a  sugestão  de  Frank.  Vamos  para  o  sótão.  Havia  roupas  no 

armário,  roupas  que  possam  ser  usadas  para  esconder  a  porta  de  entrada?  –  perguntou  Fenton 
Hardy. 

– Sim, existe um roupão de banho, pendurado num cabide. 
Os  Hardys  não  ousaram  usar  a  lanterna  e  percorreram  todo  o  caminho  tateando  as 

paredes  e  os  corrimões  das  escadas,  com  Frank  na  frente  e  o  detetive  entre  os  dois  filhos. 
Chegando ao segundo andar, Frank observou através da janela que dava para a parte traseira da 
casa. 

– Os contrabandistas estão voltando. As luzes apontam para cá – disse em voz baixa. 
Os  Hardys  dobraram  a  velocidade,  mas  mesmo  assim  avançavam  pouco,  porque 

esbarravam  em  cadeiras,  e  logo  deram  de  cara  com  um  guarda-roupa  enquanto  procuravam 
encontrar o caminho no hall superior, rumo ao dormitório onde existia a escada oculta. 

Afinal o trio encontrou o local. Exatamente quando Frank ia abrir a porta para o sótão, 

ouviu-se o ruído de outra porta que se abria no primeiro andar. 

– Revistem tudo e procurem em todos os quartos – disse a voz de Snattman. 
– Estamos encurralados – murmurou Joe. 
– Talvez não – respondeu Frank. – Não sei por que, mas acho que o fantasma era Klein. 

É  possível  que  ele  seja  o  único  que  sabe  da  existência  desta  escada,  e  por  enquanto  ele  está  lá 
embaixo, na praia. 

–  Vamos  arriscar-nos,  indo  lá  para  cima,  mas  é  preciso.  Não  façam  nenhum  barulho  – 

disse  o  detetive,  enquanto  colocava  o  cabide  do  roupão  bem  na  frente  da  porta  disfarçada, 
tentando escondê-la ainda mais. 

– A escada range – foi a informação que Joe lhe deu. Fenton Hardy disse aos filhos que 

forçassem  decididamente  cada  degrau,  com  as  mãos,  firmemente,  até  colocar  o  pé  no  lugar,  e, 
então, levantassem o corpo de uma só vez e repentinamente. 

– Inclinem-se para a frente, para não perder o equilíbrio – advertiu. 
Temendo não conseguir fazer o que o pai dissera, Frank abriu a porta e iniciou a subida, 

no mais absoluto silêncio e em plena escuridão. Mas o terrível medo de ser capturado fez com 

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que usasse de extrema cautela, e ele conseguiu chegar ao sótão sem fazer o mínimo ruído. 

Depois  de  fechar  a  porta,  Joe  e  o  pai  seguiram  seus  passos,  rapidamente.  Os  três  se 

deslocaram sem o mínimo ruído, dirigindo-se para um canto escondido e bem distante da escada, 
atrás  de  uma  grande  arca.  Sentaram-se  e  esperaram,  sem  ousar  nem  mesmo  respirar  com 
normalidade  e  sem  fazer  o  mínimo  barulho.  Lá  de  baixo,  ouviam  passos  rápidos,  o  bater  de 
portas repetidas vezes e conversa em voz alta. 

– Aqui, não. 
– Ninguém aqui. 
– Aqui também não. 
A busca parecia estar chegando ao fim, pois o grupo que revistava o pavimento superior 

estava reunido exatamente no quarto onde começava a escada disfarçada. 

“É  isso  mesmo.  Acho  que  é  o  fim.  Eles  agora  vão  subir  para  procurar  aqui  em  cima”, 

pensou Frank, preocupado. 

O  pai  aproximou-se  e  colocou  uma  das  mãos  sobre  o  ombro  de  cada  um  dos  filhos, 

como  se  quisesse  transmitir-lhes  segurança.  Alguém  abriu  a  porta  do  armário  embutido.  Os 
Hardys ficaram mais nervosos. Será que o roupão estava disfarçando suficientemente a passagem 
para enganá-los? 

–  Vazio  –  anunciou  o  homem,  que  fechou  a  porta.  Os  quadrilheiros  foram  para  o 

pavimento térreo. 

Houve  acalorados  apertos  de  mãos  entre  os  rapazes  e  seu  pai.  Mas,  além  disso,  não 

moveram um só músculo do corpo, embora internamente se sentissem mais relaxados. 

Agora  os  Hardys  já  tinham  outras  preocupações.  É  possível  que  Snattman  e  sua 

quadrilha, agora alertados, preferissem ir embora, desaparecendo antes que a polícia estadual e a 
guarda costeira pudessem chegar à casa do rochedo. 

Frank  teve  um  sobressalto.  Repentinamente,  ele  percebeu  que  seu  pai  estava  escondido 

para proteger os filhos. Se estivesse sozinho, certamente o intrépido detetive estaria lá embaixo, 
lutando para dominar Snattman e romper o elo da cadeia de contrabandistas. 

“Ele é um pai muito legal”, pensou Frank, que, no entanto, logo teve uma idéia. “Talvez 

não  seja  um  plano  tão  ruim,  ficar  aqui  onde  estamos.  Papai  teria  sido  fatalmente  morto,  se 
estivesse em algum outro lugar da propriedade.” 

Um  minuto  depois,  os  Hardys  perceberam  que  vinham  vozes,  novamente,  do  andar 

superior. Uma das vozes era a de Snattman. A outra era a de Klein. 

– Sim, existe uma escada secreta que leva ao sótão. Eu a encontrei quando me fazia de 

fantasma.  Os  irmãos  Hardy  também  a  descobriram.  Aposto  todo  o  meu  lucro  nesse  excelente 
carregamento de drogas que temos hoje como o detetive e seus filhos estão lá em cima. 

Os  Hardys  sentiram-se  completamente  perdidos.  Afinal,  seriam  capturados  novamente, 

depois de tanto trabalho. 

Ouviram quando se abriu a porta aos pés dos degraus, dentro do guarda-roupa. 
– Suba e dê uma olhada lá, Klein – ordenou Snattman. 
– Eu não, chefe. Hardy está com a arma de Malloy. 
– Eu mandei você subir. 
–  Você  não  pode  obrigar-me.  Eu  seria  um  alvo  facílimo,  porque  inicialmente  não  teria 

condições  de  vê-los.  Ele  está  escondido  e  vai  matar-me  tão  rapidamente  que  eu  jamais  ficarei 
sabendo como foi. 

A despeito da gravidade do momento, Frank e Joe estavam rindo da situação criada entre 

os contrabandistas. Mas ficaram desanimados quando Snattman disse: 

– Eu mesmo vou. Dê-me essa lanterna. 
Daí  a  pouco  um  forte  facho  de  luz  iluminava  o  interior  do  sótão.  Aumentava  de 

intensidade à medida que os passos subiam a escada. 

– Hardy, se você quer viver, fale – advertiu Snattman, com entonação maldosa na voz. 
O detetive não respondeu. 

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– Desta vez você está encantoado. 
Hardy não respondeu. 
– Ouça, Hardy – gritou Snattman –, eu sei que você está aí em cima, porque mexeu no 

roupão. Dou-lhe exatamente um minuto para sair daí do sótão. 

Ainda não houve resposta e seguiu-se um intervalo de silêncio. 
Então, ouviu-se novamente a voz de Snattman. 
– Esta é a sua última oportunidade, Hardy. 
Quase  um  minuto  se  passou  sem  o  mínimo  sinal  de  vida  de  nenhum  dos  lados 

contendores. Então Snattman subiu mais alguns degraus da escada. 

– Hardy, tenho uma proposta a fazer. Sei que não deseja morrer e que quer conservar a 

vida dos seus meninos. Eu também quero viver. Digamos que estamos empatados. 

O detetive manteve seu silêncio e Snattman continuou subindo. 
– Dou-lhe minha palavra. Não vou disparar minha arma. Sei que você não atira, a menos 

que seja atacado antes. 

Um momento depois ele apareceu na ponta da escada, com as mãos vazias, com exceção 

de uma lanterna. 

–  Eis  a  minha  proposta:  a  sua  vida  e  a  de  seus  filhos,  pela  minha  e  pelas  dos  meus 

homens. 

– De que maneira? – perguntou Hardy friamente. 
– Simples; vocês são meus reféns. 
– Reféns! – gritaram Frank e Joe ao mesmo tempo. 
–  Sim.  Se  eu  e  meus  homens  conseguirmos  tirar  nossa  mercadoria  daqui  antes  que 

cheguem a polícia e a guarda costeira, vocês estarão livres pouco depois. 

– E se eles vierem? – perguntou Frank. 
– Então vou negociar com eles. E não acho que desprezem minhas ofertas, pois farei o 

possível para que compreendam que se trata de uma troca mesmo. Se tentarem me pegar, vocês 
três morrerão. 

Frank  e  Joe  engasgaram.  O  famoso  Fenton  Hardy  e  seus  filhos  iriam  ser  usados  como 

escudo de proteção para uma grande quadrilha de bandidos. 

Os  rapazes  olharam  para  o  pai,  consternados.  Para  sua  admiração,  ele  parecia  calmo, 

embora sua boca estivesse apertada, numa linha de preocupação. 

–  Não  adiantará  nada  você  me  matar,  Hardy.  Malloy  disse  que  apenas  uma  bala  está 

inteira  nessa  arma.  Se  meus  homens  ouvirem  um  disparo,  virão  aqui  imediatamente  e  matarão 
vocês três. 

Os  Hardys  compreenderam  que,  se  Snattman  estivesse  falando  a  verdade  a  respeito  da 

arma, então os três estavam mesmo à mercê daqueles contrabandistas. Snattman começava a se 
afastar para a escada. 

– Acho que sou um sujeito muito justo – disse com um sorriso sarcástico. 
“E um sujeito facilmente odiado e temido”, pensou Joe irado. “Temos de nos livrar desse 

camarada,  de  qualquer  maneira”,  concluiu  seu  pensamento.  Mas,  no  momento,  não  havia 
possibilidade. 
 

18 

A Guarda Costeira Age 

 
Enquanto os Hardys estiveram investigando o esconderijo dos contrabandistas, acabando 

por ser capturados junto com o pai, Tony e Chet faziam o melhor que podiam para cumprir as 
determinações de Joe e de Frank. 

Durante  a  primeira  parte  da  viagem  de  volta  a  Bayport  para  estabelecer  contato  com  a 

guarda  costeira,  o  “Napoli”  atravessara  a  escuridão  como  uma  flecha.  De  repente,  Tony 
exclamou: 

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– Ora vejam, minha luz de estibordo apagou. 
Chet deu uma olhada a bombordo. 
– Esta luz está em ordem. A lâmpada do outro lado deve ter queimado. 
– Era o que eu temia. Aposto que não tenho outra. 
–  Você  quer  dizer  que  alguém  poderia  não  nos  enxergar  e  abalroar-nos?  –  perguntou 

Chet, temeroso. 

– Precisamos tomar muito cuidado – respondeu Tony. – Chet, dirija um pouco, sim? Vou 

ver se encontro outra lâmpada. 

Chet  trocou  de  lugar  com  Tony,  acelerou  um  pouco  o  motor  e  ficou  observando 

cuidadosamente à sua frente. A lua ainda não aparecera e era difícil ver alguma coisa. 

– Encontrou? – perguntou Chet quando Tony acabou de procurar em todos os cantos e 

começava a procurar no último. 

– Ainda não – respondeu, enquanto puxava um saco de lona, algumas roupas e material 

de pesca. Quando atingiu o cantinho posterior do compartimento, soltou um suspiro de alívio e 
de  satisfação.  –  Aqui  há  uma  lâmpada...  uma  só.  Faça  figa,  companheiro.  Se  não  estiver  boa, 
estamos bem arrumados. 

– E violando as leis, também – acrescentou Chet. Segurou a respiração, enquanto Tony 

foi para a frente, ajoelhando-se na parte interna da proa. Com a ajuda de uma lanterna, localizou a 
capa  protetora  da  lâmpada  de  estibordo,  soltando-a.  Depois  de  retirar  a  lâmpada  queimada, 
rosqueou a nova. Quando a luz apareceu, Tony respirou aliviado e voltou da proa, engatinhando. 

– Ótimo – disse Chet. – Se nós... 
Mas  não  conseguiu  terminar  a  frase.  Nesse  exato  momento,  viu  surgir  à  sua  frente  um 

outro  barco,  rápido.  Como  um  relâmpago,  virou  rapidamente  o  volante,  passando  a  alguns 
centímetros da outra lancha. 

– Seu idiota – gritou o piloto da outra lancha. – Porque não olha para a frente? 
Chet não respondeu. Tremia. Além disso, ele tinha reduzido tanto a força do motor, que 

este,  não  agüentando  a  resistência  provocada  pela  curva  excessivamente  rápida,  afogara 
completamente, morrendo. 

– Era só o que faltava – disse o rapaz. 
Tony estivera em silêncio por longo tempo. Ele tinha sido lançado violentamente contra a 

beira da lancha, no momento da curva rápida, e estava ainda meio tonto. Mas logo imaginou o 
que estava acontecendo e engatinhou rapidamente para o lado de Chet. 

– O que aconteceu? – perguntou. 
Chet contou o que acontecera e disse: 
– É melhor você assumir o comando. Sou um piloto falido. 
Tony  tomou  o  acento  atrás  do  volante,  deu  nova  partida  e  acelerou,  rumo  à  baía  de 

Barmet. 

– Perdemos um bocado de tempo, sem dúvida. Estou curioso de saber o que Frank e Joe 

estão conseguindo fazer. 

– Espero que tenham encontrado o pai – acrescentou Chet. 
Não houve mais nenhuma conversa até que chegaram à baía. A estação da guarda costeira 

para  aquela  região  ficava  a  pequena  distância,  ao  longo  da  costa  sul  da  baía,  e  Tony  levou  o 
“Napoli”  diretamente  para  lá.  Desembarcou  rapidamente  no  ancoradouro,  onde  estavam 
atracados dois patrulheiros e um pequeno veleiro. 

Os  dois  rapazes  saíram  correndo  na  direção  do  edifício  branco.  Quando  iam  entrar  no 

prédio,  Chet  e  Tony  ficaram  admirados  ao  ver  que  Biff  Hooper  e  Phil  Cohen  vinham  saindo. 
Jerry Gilroy, outro amigo de Bayport e colega de escola, estava com eles. 

–  Afinal.  Como  estamos  satisfeitos  de  vê-los  de  volta.  Onde  estão  Frank  e  Joe?  – 

perguntou Biff. 

– Ainda caçando contrabandistas – respondeu Chet. – Por que vocês estão aqui? 
Biff explicou que há uma hora a Senhora Hardy telefonara, perguntando se tinha notícias 

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de Frank e Joe. Ela confessara que estava profundamente preocupada por causa dos filhos. Ela 
sabia  que  ambos  tinham  ido  procurar  o  pai  e  estava  em  pânico,  imaginando  que  poderiam  ter 
sido capturados pelos mesmos homens que, possivelmente, prenderam Fenton Hardy. 

–  Eu  lhe  disse  que  reuniria  alguns  amigos  e  tentaria  encontrá-los.  Jerry  imaginou  que 

talvez Frank e Joe tivessem voltado à cidade e estivessem por aí, em alguma parte. Procuramos 
bastante, mas não conseguimos localizá-los em nenhum lugar. Pedimos o carro do Senhor Gilroy 
e  viemos  até  aqui  para  avisar  a  guarda  costeira.  Eles  vão  enviar  algumas  lanchas.  Melhor  vocês 
entrarem e explicarem a situação ao Oficial Robinson. 

Os rapazes correram para dentro. Rapidamente, Chet e Tony relataram as suspeitas dos 

Hardys de que teriam encontrado a entrada para o esconderijo dos contrabandistas. 

–  Vocês  podem  enviar  ajuda  para  lá,  imediatamente?  –  perguntou  Chet.  –  Podemos 

mostrar a vocês onde fica o túnel secreto. 

–  Isso  tudo  é  de  causar  grande  surpresa.  Vou  ordenar  ao  “Alice”  que  siga  para  lá, 

imediatamente. Vocês poderão começar o trabalho em cinco minutos. 

– Vou telefonar à Senhora Hardy – sugeriu Jerry. – Todavia, acho que a notícia não será 

recebida com muita satisfação. 

Quando Jerry foi embora, Chet contou ao Oficial Robinson que os Hardys acreditavam 

saber os nomes de pelo menos dois dos homens que estavam envolvidos em contrabando. Chet 
revelou as suspeitas dos Hardys a respeito de Snattman e do marinheiro indiano Ali Singh. 

– Acreditamos que Ali esteja na tripulação do “Marco Polo”, navio que atracará amanhã 

cedo  em  Bayport.  Frank e  Joe  receberam  informações  que  os  levam a  imaginar  que  seja este  o 
negócio: enquanto o navio estiver ao largo, Ali Singh apanha as drogas roubadas, a bordo, e um 
dos contrabandistas recolhe a mercadoria, usando uma pequena lancha. 

Robinson ergueu ligeiramente a sobrancelha. 
–  Aqueles  rapazes  Hardy,  certamente,  estão  no  mesmo  caminho  do  pai.  Eles  têm  tudo 

para serem bons detetives. 

Biff contou ao oficial da guarda costeira as aventuras dos rapazes na casa aparentemente 

mal-assombrada do penhasco, durante sua primeira visita à Vila Pollitt. 

– Frank e Joe estão certos de que existe alguma relação entre a casa e os contrabandistas. 
– E provavelmente eles têm razão – observou o policial. – Vou telefonar já para a polícia 

estadual, para contar-lhes os últimos fatos a respeito do caso. 

Os rapazes esperaram, enquanto ele contava as novidades. Jerry, que acabara de telefonar 

à  Senhora  Hardy,  disse  que  ela  parecia  ainda  mais  preocupada  do  que  da  primeira  vez,  mas 
aliviada por saber que a guarda costeira já estava tomando as providências necessárias. 

Então  o  oficial  disse  aos rapazes  que  poderia  entrar  em  contato  com  o comandante  do 

“Marco  Polo”,  por  telefone.  A  ligação  foi  feita  e  os  rapazes  ouviram,  com  grande  interesse,  a 
conversa. O comandante tinha uma voz forte que eles podiam ouvir perfeitamente. 

– Sim, tenho um marinheiro chamado Ali Singh – disse em resposta à pergunta do Oficial 

Robinson. – Ele é ajudante da cozinha. 

Depois de ser informado de que havia suspeitas de que Ali Singh estava roubando drogas 

que eram depois lançadas ao mar para serem recolhidas por um cúmplice, disse: 

–  É  algo  que  ele  poderia  fazer  facilmente.  Singh  provavelmente  joga  as  drogas  ao  mar 

quando  lança  o  lixo  para  fora,  embora  não  seja  exatamente  essa  a  sua  função.  As  drogas 
poderiam ser colocadas numa sacola cheia de ar e à prova de água. 

– Comandante, o senhor pode mandar alguém observar esse Ali Singh, sem que ele saiba 

que  está  sendo  observado?  –  perguntou  Robinson.  –  Enviarei  uma  patrulha  para  observar  se 
alguém de sua quadrilha estaria dirigindo-se para as proximidades do “Marco Polo” numa lancha 
de pequenas dimensões com o objetivo de recolher esses sacos especiais. A que distância da costa 
está o navio? 

– Aproximadamente a vinte e quatro quilômetros da sua estação – foi a resposta. 
–  Por  favor,  fique  em  contato  com  a  patrulheira,  sim?  Trata-se  da  “Henley”,  sob  o 

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comando do Oficial Brown. 

– Certo, de acordo. 
– É possível que Ali Singh seja preso, quando seu navio atracar. 
Concluída  a  conversa,  entrou  na  sala  um  guarda  uniformizado.  Foi  apresentado  como 

Oficial  Bertram,  no  comando  do  “Alice”,  que  seguiria  Tony  e  Chet  até  o  ninho  dos 
contrabandistas. 

–  Estou  pronto,  senhor  –  disse  ao  seu  superior,  perguntando  aos  rapazes:  –  Está  tudo 

combinado? 

Chet e Tony acederam. Virando-se para acompanhar Bertram, viram que Biff, Phil e Jerry 

pareciam aborrecidos. 

Notando a expressão de desânimo dos três rapazes, Robinson inclinou-se sobre sua mesa 

e disse: 

–  Acho  que  vocês  estavam  esperando  participar  disso,  não?  Que  tal  irem  a  bordo  do 

“Henley”, com o Oficial Brown, para acompanhar a movimentação? 

Os olhos dos três rapazes brilharam e se arregalaram; então Phil perguntou: 
– O senhor está falando sério? 
– O que querem vocês? Um convite formal e por escrito? – respondeu Robinson com um 

largo sorriso. 

Telefonou  a  Brown  e,  depois  de  apresentar  os  rapazes,  explicou  qual  seria  a  missão  do 

“Henley”. 

– Compreendi, senhor. Partiremos imediatamente – disse Brown. 
Os três rapazes acompanharam-no até o ancoradouro e subiram a bordo. Lá já estavam 

os  patrulheiros,  e  a  lancha  partiu  imediata  e  rapidamente.  Para  os  rapazes,  os  vinte  e  quatro 
quilômetros  foram  percorridos  numa  rapidez  que  parecia  incrível.  As  luzes  do  “Marco  Polo” 
faiscavam a distância. 

– Está-se deslocando muito lentamente, não? – perguntou Biff ao comandante. 
– Sim, sua velocidade é de apenas quatro nós – respondeu Brown. 
–  Portanto,  seria  fácil  para  uma  lancha  aproximar-se  por  um  dos  flancos  e  receber  até 

mesmo uma carga de bordo, não é? – perguntou Phil. 

– Sim, é possível. – Enquanto respondia, o oficial apanhou uma luneta, que apontou para 

o navio. – O vento está à esquerda, para onde vai a corrente. A maré vai subir e tudo o que for 
lançado à água flutuará rumo à praia. 

Ordenou ao timoneiro que passasse pelo “Marco Polo” contornando-o pelo lado oposto, 

a uma distância de duzentos e cinqüenta metros, para então desligar o motor e as luzes. 

Quando  atingiram  o  ponto  previsto,  Brown  ordenou  que  todos  a  bordo  do  “Henley” 

fizessem  o  mais  absoluto  silêncio.  Ninguém  devia  falar  ou  fazer  o  mínimo  movimento.  Os 
conveses  do  “Marco  Polo”  e  pontos  da  água  à  sua  volta  eram  iluminados  pelos  raios  de  luz 
procedentes de suas janelas e escotilhas da ponte de comando. Biff, Phil e Jerry juntaram-se perto 
do  comandante,  que  apontava  seu  poderoso  binóculo  para  as  escotilhas  do  portaló,  com  o 
objetivo de informar a todos o que estava se passando a bordo. O comandante disse que havia 
pequena  atividade  no  “Marco  Polo”  e  os  rapazes  deduziram  que  ou  os  passageiros  estavam 
dormindo ou preparavam suas bagagens, esperando o desembarque da manhã seguinte. 

De  repente,  o  Comandante  Brown  percebeu  que  uma  das  escotilhas  se  abrira.  Um 

homem  mirrado,  de  compleição  fraca  e  de  cabelos  ligeiramente  compridos  e  muito  negros 
apareceu na abertura redonda. Olhou em volta e, rapidamente, despejou no mar o conteúdo de 
uma grande vasilha, fechando a escotilha a seguir. 

“Ali Singh”, os três rapazes pensaram simultaneamente, assim que Brown contou o que 

tinha visto. 

Ficaram observando atentamente, para ver o que aconteceria a seguir. 
Num  dado  momento,  Phil  sentiu  que  Biff  apertava  seu  braço  e  apontava  para  o  mar. 

Vagamente eles perceberam que havia uma longa vara, com uma espécie de cesta de caça atada na 

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extremidade. A vara surgiu no meio do círculo de luz projetado pela escotilha e “pescou” alguma 
coisa. Brown informou que, aparentemente, a pessoa que sustentava a vara apanhou o que queria 
no meio daquele lixo e rapidamente recolheu o instrumento, tirando-o do foco de luz. 

Os rapazes aguçaram os ouvidos, à espera do ruído de um barco. Nada ouviram, o que os 

deixou intrigados. Também se perguntaram por que o Comandante Brown não adotava nenhuma 
medida destinada a capturar aquela pessoa. 

O tenso comandante cedeu o binóculo para que Phil desse uma espiada. Sem dizer nada, 

o intrigado rapaz observou através das oculares, focalizando o ponto indicado por Brown. Para 
sua admiração, percebeu a silhueta de uma pequena lancha, com duas pessoas a bordo. Cada uma 
tinha  um  remo,  e  ambas  levavam  a  lancha  para  longe  do  “Marco  Polo”  o  mais  rapidamente 
possível. 

– Apanhamos os contrabandistas no momento do crime – disse Brown em voz baixa. 
– O senhor não vai prendê-los? – perguntou Phil. 
– Ainda não – respondeu o oficial. – Temo que nada se possa fazer sem que ocorra um 

tiroteio. Não quero assustar os passageiros do “Marco Polo”. Vamos esperar um pouco mais. 

De  repente,  o  motor  da  lancha  dos  contrabandistas  começou  a  roncar.  Sem  perder 

tempo, Brown começou a dar ordens a seus homens. Os motores entraram em funcionamento 
no mesmo instante. 

Estava iniciada a caça! 

 

19 

A Caçada 

 
Logo  depois  o  holofote  de  buscas  do  “Henley”  foi  aceso.  Captou  logo  a  posição  da 

lancha, que se dirigia rapidamente para a praia, com potência máxima. Gradativamente o barco da 
guarda costeira foi diminuindo a distância entre os dois. 

O Comandante Brown apanhou um megafone e gritou aos fugitivos que parassem. Eles 

não deram a mínima atenção. 

– Temos de mostrar a eles que estamos falando sério. Vamos disparar sobre a cabina – 

disse Brown, dirigindo-se a Phil, Biff e Jerry. 

Ordenou-lhes que se afastassem da linha de tiro, para o caso de os bandidos responderem 

ao fogo. Obedeceram, e, embora de seu abrigo não pudessem ver a lancha dos contrabandistas, 
ouviam perfeitamente o que estava acontecendo. 

O  “Henley”  acelerou  para  a  frente  e  os  rapazes  ouviram  o  assobio  de  um  disparo 

cortando o ar. 

–  Desliguem  o  motor  –  ordenou  Brown.  Um  segundo  depois,  acrescentou:  –  Larguem 

essas armas. 

Aparentemente  os  contrabandistas  obedeceram  às  duas  ordens,  porque  logo  a  seguir 

Brown se dirigiu aos rapazes: 

– Vocês já podem sair. 
Os  três  foram  para  o  lado  do  comandante.  Biff  chegou  a  tempo  de  ver  que  um  dos 

homens presos, ligeiramente voltado para o lado, levava a mão até o bolso grande de sua japona 
esportiva. Biff esperava que ele tirasse dali um revólver, e já estava pronto para advertir Brown, 
quando percebeu que o bandido jogara alguma coisa ao mar. 

“As drogas raras”, pensou Biff. 
Instintivamente  começou  a  se  despir  e,  quando  os  outros  lhe  perguntaram  o  que 

pretendia fazer, disse: 

– Tenho uma tarefa submarina a cumprir. 
Num  instante  saltou  a  estibordo  e  nadou  rapidamente,  na  direção  da  lancha  dos 

contrabandistas. Passou por ela, dirigindo-se ao outro lado. 

Enquanto isso, Brown ordenara aos bandidos que colocassem as mãos sobre as cabeças. 

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Na  medida  em  que  o  “Henley”  se  aproximava,  dois  homens  da  guarda  costeira  fizeram  a 
abordagem e colocaram algemas nos dois bandidos. Brown ordenou a seus homens que levassem 
os bandidos para a estação da guarda costeira, usando a própria lancha. 

– Vocês não podem nos acusar de nada. Vocês não têm o direito de nos prender – gritou 

um dos capturados. 

Nesse exato momento, a cabeça de Biff Hooper surgiu ao lado da lancha, e num instante 

ele estava a bordo. Falou bem alto: 

– Há muitas acusações contra esses homens. Aqui está a prova. 
Ele segurava uma sacola à prova de água, fortemente selada. Era transparente e podiam-

se facilmente ler os rótulos do conteúdo. 

– Acontece que sei que o que está aí é uma droga extremamente rara. Ouvi referências a 

ela há alguns dias – disse Biff. 

Essa  afirmação  tirou  o  entusiasmo  dos  contrabandistas.  Os  dois  homens  insistiram  que 

haviam sido contratados apenas para dirigir a lancha e recolher a “encomenda”. Mas negaram-se 
a revelar o nome da pessoa que os contratara e o local para onde deviam levar a mercadoria. 

–  Já  sabemos  as  duas  respostas  –  disse  Brown  aos  bandidos,  e,  dirigindo-se  ao  seu 

timoneiro,  ordenou:  –  Vamos  para  a  casa  do  rochedo.  É  possível  que  estejam  precisando  da 
nossa ajuda, lá. 

Biff tinha voltado para bordo e, enquanto vestia as roupas, o “Henley” voltou a sulcar as 

águas. Ele murmurou para os companheiros: 

– Acho que ainda vamos ver muita coisa interessante. 
Um  pouco  antes  desses  acontecimentos,  Chet  e  Tony  tinham  chegado  à  área  onde  se 

encontrava  o  túnel  secreto.  A  grande  lancha  patrulheira  que  os  acompanhara  estava  com  seu 
holofote ligado, tentando descobrir o local exato. 

– Vejam – gritou Chet. 
Uma lancha com dois homens a bordo acabara de entrar nas águas agitadas e juncadas de 

rochas, na frente do túnel. 

– Parem – ordenou o Comandante Bertram, do “Alice”. 
O homem que estava na direção obedeceu à ordem e desligou o motor. Mas, ao invés de 

se entregarem, os dois homens saltaram na água, depois que um deles gritou: 

– Mergulhe, Sneffen. 
Rápidos  como  o  raio,  os  dois  contrabandistas  desapareceram  sob  as  águas,  pelo  lado 

oposto de sua lancha. Não voltando eles à tona, Chet disse: 

– Aposto que estão avançando de mergulho, rumo ao túnel. Não vamos persegui-los? 
–  Claro  –  disse  o  Comandante  Bertram.  –  Tony,  você  seria  capaz  de  encontrar  o  canal 

que leva até aquele túnel? 

– Acho que sim – respondeu Tony, olhando para a lancha dos contrabandistas, que, agora 

abandonada, acabara de ser violentamente jogada pelas ondas contra as rochas. 

– Então, iremos a bordo do seu barco – afirmou o oficial. Deixou dois dos seus homens 

a bordo do “Alice”, tanto para cuidarem do barco como para permanecerem atentos à possível 
chegada de outros bandidos. 

–  Os  dois  bandidos  que  nos  escaparam  devem  ter  dado  o  alarma  –  disse  Bertram.  – 

Provavelmente colocaram alguma coisa pesada em cima da porta para nos atrasar. 

O resto da tripulação, incluindo o Comandante Bertram, embarcou no “Napoli”, e Tony 

dirigiu-se à estreita passagem entre as rochas, rumo ao túnel. Um dos patrulheiros, instalado na 
proa da lancha, efetuava observações com um poderoso facho de luz. Todos procuravam os dois 
homens  que  se  haviam  lançado  ao  mar,  mas  sem  encontrá-los.  Quando  o  “Napoli”  chegou  ao 
lago interior, o homem da proa procurou localizá-los nas margens. 

– Lá estão eles – gritou Chet. 
Os  dois  contrabandistas,  ensopados,  acabavam  de  abrir  a  porta  secreta  que  levava  ao 

interior do penhasco. Passaram e a porta se fechou. 

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Tony  virou  sua  lancha  rumo  à  direção  da  porta,  desligou  o  motor  e  saltou  para  terra, 

junto com os outros. Para sua surpresa, a porta estava trancada. 

– Vou na frente. – anunciou Bertram. 
–  Seja  cuidadoso  –  advertiu  Chet.  –  É  possível  que  haja  um  homem  armado  do  outro 

lado. 

O  oficial  ordenou  a  todos  que  se  afastassem,  enquanto  ele  próprio  arrombava  a  porta. 

Apontou a lanterna para dentro. Não havia ninguém lá. 

– Venham, homens – disse entusiasmado. 
Rapidamente o grupo todo percorreu o caminho anteriormente descoberto pelos Hardys. 

Quando  chegaram  ao  corredor  e  viram  as  três  portas,  Tony  sugeriu  que  examinassem  as 
dependências, para ver se os Hardys não estavam presos numa delas. Um a um, os quartos foram 
examinados. Estavam vazios. 

Os  homens  avançaram  pelo  corredor  e  pelo  próximo  lance  de  escada  que  levava  ao 

telheiro de lenha da Vila Pollitt. Empurraram a porta do alçapão, mas não conseguiram abri-la. A 
lanterna revelou que não havia trincos nem fechaduras. 

– Então, podemos arrancá-la – sugeriu Chet. 
Ele e Tony, com mais dois patrulheiros, encostaram os ombros na porta, empurrando-a o 

mais que podiam. Finalmente ela se deslocou alguns centímetros, mas voltou à posição original. 

– Não tem nada travando do outro lado. Vamos tentar mais uma vez – sugeriu Bertram. 
Os  quatro  fizeram  uma  nova  tentativa.  Dessa  vez,  puderam  ouvir  alguma  coisa  pesada 

rolando para um dos lados. 

– Todos juntos agora – disse Chet, contando: – Um, dois e três. 
Conseguiram. Um pesado objeto que estava em cima da porta caiu com grande ruído, e a 

porta  do  alçapão  se  abriu.  Como  já  acontecera  antes,  o  Comandante  Bertram  insistiu  em  ser  o 
primeiro.  Não  havia  o  mínimo  ruído,  nem  fora  nem  dentro  da  casa,  e  não  havia  nenhuma  luz. 
Disse aos outros para subir, mas advertiu cautelosamente: 

–  Isto  pode  ser  uma  emboscada.  Andem  com  cuidado  e,  se  alguma  coisa  começar  a 

pipocar, você dois, rapazes, voltem imediatamente para o subterrâneo. 

De repente, ouviu-se o ruído de carros que se aproximavam pelo lado oposto do pátio, 

rumo à Vila Pollitt. Eram tão brilhantes as luzes dos carros que Bertram observou: 

– Deve ser a polícia estadual. 
Um minuto mais e os carros paravam na parte traseira da casa, enquanto policiais desciam 

apressadamente.  Bertram  apressou-se  a  se  apresentar  ao  Capitão  Ryder,  da  polícia  estadual.  Os 
dois  conversaram  rapidamente,  em  voz  baixa.  Pelo  que  conseguiram  entender,  os  rapazes 
chegaram à conclusão de que a polícia estadual ia invadir a casa. 

Quando pareciam ter chegado a uma decisão, todos se surpreenderam ao ver um homem 

surgir na janela de trás, no hall do pavimento superior. Tinha uma arma na mão direita, mas com 
a esquerda tentava atrair as atenções. 

–  Meu  nome  é  Snattman.  Antes  que  invadam  esta casa,  quero  falar  com  vocês.  Sei  que 

estão  procurando  por  mim  e  por  meus  homens  há  muito  tempo.  Mas  não  permitirei  que  me 
levem sem que alguém do seu próprio lado morra. – Então, parou de falar, dramaticamente. 

– Diga logo o que quer, Snattman – disse o Capitão Ryder. Também ele tinha uma arma 

preparada para disparar no caso de necessidade. 

– O que quero dizer – gritou o chefe dos contrabandistas – é que tenho nesta casa três 

reféns: Fenton Hardy e seus dois filhos. 

Chet  e  Tony  saltaram.  Os  rapazes  haviam  encontrado  o  pai,  mas  apenas  para  serem 

presos, eles próprios. E agora os três estavam sendo usados como reféns. 

– O que mais? – perguntou o Capitão Ryder, azedo. 
– Isto: se permitir que eu e meus homens nos afastemos, iremos para longe daqui. Um de 

nós ficará para dizer onde encontrar os Hardys. Mas, se alguém vier aqui e tentar nos pegar, os 
Hardys morrerão. 

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Chet  e  Tony  não  sabiam  o  que  pensar.  Qual  acabaria  sendo  o  resultado  desse  terrível 

dilema? 

Frank, Joe e o pai perderam as esperanças de escapar antes que Snattman tivesse tempo 

de  executar  seu  plano  sinistro.  Depois  que  os  bandidos  saíram  do  sótão,  ouviram  marteladas  e 
desconfiaram  que  os  contrabandistas  tinham  pregado  barras  fechando  a  porta  da  escada 
disfarçada dentro do armário embutido. Desceram cuidadosamente até a base da escada, só para 
constatar que seus temores tinham fundamento. 

– Se as barras forem de madeira – murmurou Frank –, talvez possamos tentar cortá-las 

com nossas facas, sem muito barulho. 

– Tentaremos – disse o pai –, e com aquela faca que tiramos de Malloy. 
Enquanto  o  detetive  Hardy  permanecia  sentado  num  degrau,  recostado  na  parede,  seus 

dois filhos iniciavam o trabalho. Conseguiram passar as facas pelo vão existente entre as tábuas 
da  porta,  perto  da  fechadura.  Descobrindo  a  parte  superior  das  pesadas  travas,  os  rapazes 
começaram a tentar o corte, sem produzir ruído algum. A faca de Frank já estava sem corte e não 
demorou muito para que a de Joe também o perdesse. O progresso era muito pequeno. 

Meia  hora  depois,  os  braços  dos  rapazes  doíam  tanto  que  Frank  e  Joe  não  estavam 

conseguindo continuar. Mas, só de pensar que suas vidas corriam perigo, conseguiram forças para 
prosseguir. Finalmente, Joe conseguiu cortar uma das tábuas e começou a cortar a segunda das 
três que eles descobriram. Frank levou mais dez minutos para completar sua parte. 

–  Podemos  fazer  a  coisa  por  etapas  –  disse  ao  irmão.  Trabalhando  por  turnos,  com 

paradas para descanso, os rapazes acharam que o trabalho era menos árduo. 

– Estamos quase livres – disse Joe, finalmente, com esperança. 
Foi  nessa  altura  que  os  Hardys  ouviram  o  ruído  dos  carros  chegando.  Estavam 

convencidos de que a polícia tinha chegado, por causa das luzes que iluminavam tudo por perto 
da casa e até mesmo o interior da Vila Pollitt, onde alguns raios chegavam à porta do sótão. 

Acompanharam  o  movimento  dos  carros  e  perceberam  quando  Snattman  começou  a 

negociar a sua própria vida, em troca das vidas dos seus reféns. 

– Vamos quebrar esta porta e assumir nossos riscos – disse Frank já meio irritado. 
– Não – respondeu o pai. – Snattman ou um de seus homens nos mataria. 
Nesse momento Frank teve uma surda expressão de contentamento. Sua faca acabara de 

cortar  a  última  das  travas  de  madeira.  Virando  a  maçaneta  da  porta,  abriram-na  em  silêncio, 
libertando-se da prisão. 

Atravessaram  o  dormitório  e  chegaram  ao  local  onde  Snattman  estava  tentando 

barganhar  com  a  polícia. Não  havia  mais  ninguém  por  perto.  Os  rapazes  e  seu  pai  deram  uma 
rápida  piscada  de  olhos,  numa  espécie  de  telegrama  de  pensamentos.  Atacariam  o  rei  dos 
contrabandistas, para dominá-lo. 
 

20 

O Pedido do Bandido 

 
Quando os três Hardys se precipitaram com a esperança de dominar Snattman antes que 

ele os visse, ouviram uma voz afirmar fora da casa: 

– Você jamais conseguirá sair dessa, Snattman. É melhor você se entregar sem tiros. 
– Jamais me entregarei. 
– A casa está completamente cercada pela polícia e por homens da guarda costeira. 
–  Que  me  importa?  –  gritou  Snattman,  agitando  os  braços  pela  janela.  –  Tenho  três 

reféns, e já prendi também um patrulheiro. 

– Ele também está aqui? 
Snattman riu. 
– Tentando me confundir, hein? Não vou responder a essa pergunta. 
Houve silêncio fora da casa. Isso pareceu preocupar Snattman. Gritou: 

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– Não adianta nada ficar discutindo. Eu arrastei vocês exatamente para onde eu queria e... 
Como  três  panteras  acuadas,  Frank,  Joe  e  Fenton  Hardy  saltaram  sobre  o  bandido 

desprevenido. Fenton tirou a arma da mão do homem, lançando-a pela janela. O revólver caiu no 
chão, um andar abaixo. Os rapazes torceram-lhe os braços para trás e obrigaram-no a se ajoelhar. 

De baixo ouviu-se um grito de alegria. 
– Os Hardys dominaram Snattman. – Era Chet Morton, entusiasmado. 
– Meus homens jamais deixarão vocês entrarem aqui – berrou Snattman. Ele se agitava, 

torcendo-se entre as mãos dos captores. 

O detetive, temendo que ele chamasse por seus homens, tapou-lhe a boca com uma das 

mãos.  Nesse  momento  surgiu  uma  terrível  confusão  dentro  e  fora  da  Vila  Pollitt.  Policiais  e 
patrulheiros tinham invadido a casa tanto pela frente como pela porta traseira. 

Outros  montavam  guarda  aos  lados  da  casa,  para  impedir  fugas  pelas  janelas.  Houve 

alguns disparos, mas logo a quadrilha inteira se entregou sem prosseguir a luta. A prisão do líder e 
o repentino avanço da polícia foram suficientes para tirar-lhes o ânimo. 

Os Hardys ficaram esperando em cima, com o prisioneiro. Em alguns segundos Chet e 

Tony apareceram, e, atrás deles, para surpresa de Frank e de Joe, vinham Biff, Phil e Jerry. 

Houve uma rápida troca de informações e Fenton Hardy agradeceu aos amigos de Frank 

e de Joe pelos seus esforços. Durante todo o tempo, Snattman sorria maliciosamente. 

Logo  depois  os  Comandantes  Bertram  e  Brown  apareceram  no  pavimento  superior, 

seguidos do Capitão Ryder. Imediatamente o policial colocou algemas nos punhos do prisioneiro. 
Estava pronto para levá-lo, quando Frank falou: 

– Ainda há uma outra pessoa envolvida nesse contrabando e que ainda não foi presa. 
– Você diz o homem que fugiu daqui com o caminhão? Já mandei efetuar um bloqueio 

das estradas para apanhá-lo – disse Ryder. 

Frank sacudiu a cabeça. 
–  Ali  Singh,  o  tripulante  do  “Marco  Polo”,  tem  um  amigo  que  é  proprietário  de  um 

pequeno  cargueiro  que  neste  exato  momento  está  fundeado  ao  largo  da  costa.  Snattman 
pretendia levar meu pai, eu e Joe para bordo, ajeitando as coisas para que nunca mais voltássemos 
para casa. 

O  rei  dos  contrabandistas,  que  permanecera  silencioso  por  algum  tempo,  pôs-se 

imediatamente a gritar: 

– Você está ficando maluco. Não há uma só palavra de verdade no que ele acaba de dizer. 

Não há nenhum cargueiro ao largo. 

Ninguém  prestou  atenção  no  que  disse.  Assim  que  parou  de  gritar,  Joe  entrou  na 

conversa. 

– Tenho a ligeira impressão que descobrirá que seu patrulheiro está preso nesse barco. O 

nome do comandante é Foster. 

– Você insinua que nosso patrulheiro Ayres está nesse navio? – perguntou o Comandante 

Brown, incrédulo. 

–  Não  conhecemos  ninguém  chamado  Ayres  –  respondeu  Frank,  olhando  atentamente 

para  o  irmão.  Trocaram  significativos  acenos  de  cabeça.  Então,  Frank  perguntou:  –  Será  que 
Ayres também usa o nome de Jones? 

– Poderia, se fosse muito apertado. Ele é uma espécie de contra-espião da guarda costeira. 

Ele se preparava para uma associação qualquer com os contrabandistas, e não temos notícias dele 
desde sábado. 

– Eu descobri tudo a respeito dele – interrompeu Snattman. – Usando o nome Jones ele 

não  conseguiu  nos  enganar.  Eu  vi  quando  ele  fez  uma  viagem  camuflada  até  o  seu  barco 
patrulheiro. 

Frank  e  Joe  chegaram  à  conclusão  de  que  fora  essa  a  cena  que  presenciaram  pelo 

telescópio.  Contaram  a  história  do  resgate  de  Jones  depois  que  uma  granada  de  mão  quase  o 
matou. Também relataram como seus seqüestradores foram à fazenda dos Kanes, amarraram o 

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fazendeiro e sua mulher e seqüestraram Jones. 

O  Comandante  Brown  disse  que  enviaria  uma  lancha  patrulheira  investigar  as  águas  da 

região, numa tentativa de localizar o navio de Foster. 

–  Esperaremos  por  vocês  –  disse  o  Capitão  Ryder.  –  Este  caso  parece  interessar  aos 

nossos  dois  ramos  de  serviços.  Dois  seqüestros  em  terra,  um  roubo  no  “Marco  Polo”  e  a 
presença em nossas águas de um navio sem matrícula. 

Enquanto esperavam, os Hardys tentaram interrogar Snattman. Ele se recusava a admitir 

qualquer culpa em relação às operações de contrabando, bem como em referência ao transporte 
de mercadorias roubadas de um Estado para outro. Frank decidiu falar com o homem, seguindo 
uma  linha  completamente  diferente,  esperando  que,  inadvertidamente,  o  contrabandista 
confessasse algo que não pretendia fazer. 

– Ouvi dizer que herdou esta casa de seu tio, o Senhor Pollitt – começou Frank. 
– É verdade. O que você tem com isso? 
Frank estava deliciado. 
–  Estava  curioso  a  respeito  do  túnel,  das  escadas  e  da  caverna.  Foi  seu  tio  que  os 

construiu? – perguntou com satisfação. 

–  Não,  não  construiu  –  respondeu  o  bandido.  –  Meu  tio  os  encontrou  por  acaso.  Ele 

começou a escavar nas proximidades da parede da adega e deu com aquele corredor. A idéia era 
apenas aumentar a construção. 

– Interessante. O senhor tem alguma idéia de quem teria construído tudo aquilo? 
Snattman  disse  que  o  tio  chegara  à  conclusão  de  que  o  túnel,  a  caverna  e  as  passagens 

teriam  sido  feitos  por  piratas,  há  longo  tempo.  Eles,  aparentemente,  acharam  que  seria  um 
excelente esconderijo e resolveram construir o caminho até o alto do penhasco. 

– É claro que não havia ainda o telheiro de lenha. Pelo menos não havia esse que aí está 

agora.  Havia  a  porta  do  alçapão,  mas  com  um  outro  tipo  de  construção  por  cima  –  explicou 
Snattman. 

– E o corredor? Era desse tamanho, quando seu tio o descobriu? 
– Sim – respondeu o contrabandista. – Meu tio achava que se tratava de uma residência 

temporária usada pelos piratas, quando eles deixavam seus navios. 

– História bonita e fascinante – observou Tony Prito. 
Seguiram-se vários segundos de silêncio completo. Os olhos de Snattman se moviam de 

um dos rapazes para o outro. Finalmente, fixaram-se em Frank Hardy, e ele disse: 

–  Agora  que  vou  para  a  cadeia,  as  oculares  do  seu  telescópio  e  as  ferramentas  das 

motocicletas não terão mais utilidade. Pode apanhá-las numa gaveta, lá na cozinha. 

– Obrigado – respondeu Frank. 
Houve  um  período  de  silêncio.  Então  o  bandido  continuou,  de  cabeça  baixa  e  com  os 

olhos quase fechados: 

–  Senhor  Hardy,  eu  o  invejo.  Eu,  eu  jamais  imaginei  que  um  dia  faria  este  tipo  de 

confissão. O senhor sabe praticamente tudo o que eu estive fazendo. Mais tarde contarei o resto 
da história. Uma vez que eles vão mesmo encontrar aquele patrulheiro Ayres que está no navio 
de Foster, não me adianta nada esconder os fatos. 

“Eu  disse  que  o  invejo”,  prosseguiu,  “porque  o  senhor  educou  muito  bem  esses  dois 

rapazes e porque eles são excelentes amigos. Eu... bem, eu não tive essa sorte. Meu pai morreu 
quando  eu  ainda  era  pequeno.  Eu  era  muito  cabeça-dura  e  minha  mãe  não  conseguia  me 
controlar. Comecei a fazer o tipo errado de amizades e, depois disso, o senhor sabe como são as 
coisas.” 

“Meu tio, que possuía esta casa”, continuou Snattman, “poderia ter-me ajudado, mas ele 

era egoísta e miserável e jamais nos ajudou com dinheiro. O máximo que fazia era convidar-nos, 
a mim e à minha mãe, para passarmos temporadas esporádicas neste lugar. Eu o odiava, porque 
ele  obrigava  minha  mãe  a  trabalhar  no  pesado  sempre  que  estávamos  nesta  casa.  Para  ela,  não 
havia temporada de férias.” 

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“Numa das vezes em que estava aqui, meu tio me mostrou o esconderijo dos piratas, e eu 

jamais o esqueci. Logo que me meti no meio de marginais, comecei a pensar neste lugar e no que 
ele poderia representar para uma quadrilha de contrabandistas. Tinha medo de tentar enquanto 
meu  tio  estava  vivo.  Mas,  quando  soube  que  tinha  morrido,  achei  que  havia  chegado  minha 
oportunidade.” 

“Não me preocupei em reclamar a propriedade como herdeiro legal. Mas agora acho que 

vou fazê-lo. É claro que não terá muita utilidade para mim, porque sei que passarei um bocado de 
tempo na cadeia. Mas vou pedir aos executores do testamento de meu tio que administrem esta 
casa como lar de crianças. Um lugar onde os desprotegidos possam viver.” 

O grupo que ouvia Snattman, o rei dos contrabandistas, estava ligeiramente abobalhado 

com essa repentina mudança de intenções, e durante muito tempo ninguém conseguiu dizer uma 
única  palavra.  Mas,  quando  o  homem  levantou  a  vista,  quase  pedindo  aos  ouvintes  que 
acreditassem em suas palavras, Fenton Hardy disse: 

–  É  muito  bom  que  faça  isso,  Snattman.  Tenho  certeza  de  que as  crianças beneficiadas 

pela estada aqui serão eternamente gratas a você. 

A cena solene foi inesperadamente interrompida com a volta do Comandante Brown. 
– Uma outra lancha patrulheira recebeu a mensagem a respeito do navio de Foster e em 

alguns  minutos  informou  que  já  o  havia  localizado.  Um  quarto  de  hora  mais  tarde  fomos 
informados  de  que  o  Capitão  Foster  já  estava  preso  e  que  o  patrulheiro  desaparecido  fora 
encontrado no navio, bem como uma grande quantidade de mercadoria que Foster esperava que 
Snattman apanhasse. 

Os prisioneiros foram então removidos da Vila Pollitt, ficando sozinhos os Hardys e seus 

amigos. 

De repente, Chet perguntou: 
– Como voltaremos para casa? 
Tony respondeu: 
– Acho que no “Napoli” há lugar para todos. 
O grupo se dirigiu ao telheiro de lenha, abriu a porta do alçapão e começou a descer o 

longo  caminho  para  o  lago  subterrâneo.  Subiram  no  “Napoli”,  e  Tony  se  colocou  atrás  do 
volante. Os patrulheiros haviam esquecido o farolete de buscas na proa do barco, e Tony fez seu 
caminho de volta pelo túnel e pelo estreito canal oceânico, sem acidente. 

De repente, Frank perguntou: 
– Pai, que houve com seu carro? 
O Senhor Hardy sorriu: 
– Está numa garagem, em Bayport. Eu estava sendo seguido. Por isso, decidi despistar e 

tomei  um  ônibus.  Mas  não  adiantou  muito.  Os  homens  de  Snattman  me  atacaram  e  me 
prenderam, na estrada. 

O famoso detetive disse, então: 
–  Enquanto  tenho  a  possibilidade,  quero  agradecer  a  cada  um  de  vocês,  rapazes, 

individualmente,  por  tudo  o  que  fizeram.  Sem  vocês  sete,  talvez  este  caso  jamais  pudesse  ser 
resolvido e eu talvez não tivesse sido encontrado com vida. 

Modestamente, Frank e Joe e seus cinco amigos retribuíram o agradecimento, esperando 

que  brevemente  tivessem  pela  frente  um  novo  mistério.  E  foi  o  que  aconteceu  quando,  ao 
descobrir  O  SEGREDO  DO  VELHO  MOINHO,  os  Hardys  enfrentaram  uma  poderosa 
quadrilha de malfeitores. 

De repente, Joe observou: 
–  Os  cumprimentos  são  muito  importantes,  mas  parece  que  nos  esquecemos  de 

mencionar uma pessoa sem a qual teria sido impossível encontrar papai. 

– Quem é? – perguntou Biff. 
– Peter Pretzel – respondeu Joe. 
–  Isso  mesmo  –  disse  Frank,  e  sugeriu:  –  Todos  juntos,  vamos  dar  um  viva  a  Peter 

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Pretzel. 
 

Fim 

 
 

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