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ANALISTA JUDICIARIO DE TRIBUNAIS 

Direito Penal 

Fabio Roque 

1

 

DIREITO PENAL 

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE 

Trata-se  do  primeiro  artigo  do  Código  Penal 
que  assim  estabelece:  “não há  crime sem  lei 
anterior que o defina. Não há pena sem prévia 
cominação legal.”   

Encontra-se,  também,  inserto  no  art.  5º, 
XXXIX,  da  Constituição  Federal  brasileira,  o 
que  significa  dizer  que,  tal  princípio,  estando 
no rol dos direitos e garantias fundamentais, é 
acobertado pelo rol das cláusulas pétreas, nos 
termos do art. 60, §4º, IV, da respectiva Carta. 

A legalidade é um princípio que exige uma lei 
escrita,  certa  e  anterior,  nos  termos  em  que 
seguem: 

1º  LEI  ESCRITA:  Significa  dizer  que  os 
costumes  não  podem  definir  a  conduta 
criminosa  e  estabelecer  uma  respectiva 
sanção  penal.  Tal  entendimento,  porém,  não 
retira  a  característica  dos  costumes  como 
fonte  do  direito.  O  que  não  é  possível  é  os 
costumes sejam fontes de incriminação penal. 
O  papel  dos  costumes,  enquanto  fonte  do 
direito,  é  o  de  influir  na  interpretação  da 
legislação penal. 

A analogia não pode definir conduta criminosa 
e cominar respectiva sanção penal.  

Válido ressaltar que a analogia é perfeitamente 
aplicável  na  órbita  penal,  desde  que  seja 
benéfica ao réu. É o que a doutrina denomina 
de  analogia  in  bonam  partem.  Não  cabe, 
assim,  uma  analogia  em  malam  partem,  ou 
seja,  não  será  cabível  uma  interpretação 
analógica que venha a  prejudicar o réu. 

Exemplificando:  no  direito  penal,  a  união 
estável se equipara ao casamento? Depende. 
Serão aplicados os institutos do casamento à 
união estável se esta analogia vier a beneficiar 
o réu.  

 

Por  exemplo,  nos  crimes  patrimoniais  sem 
violência  ou  grave  ameaça  praticados  entre 
cônjuges na constância do casamento e se a 
vítima  não  tiver  idade  superior  a  60  anos, 
haverá a chamada escusa absolutória, ou seja, 
é crime, mas não há a respectiva pena. Neste 
caso, a união estável é perfeitamente aplicável 
a tal instituto, haja vista trata-se, aqui, de uma 
analogia  in  bonam  partem,  já  que  o  réu  será 
beneficiado.  

Em  contrapartida,  uma  pessoa  casada  que, 
sem desconstituir o primeiro vínculo conjugal, 
torna a se casar, comete o crime de bigamia. 
Mas  se  o  sujeito  é  casado  e,  sem  desfazer 
esse  primeiro  vínculo  matrimonial,  passa  a 
viver  em  união  estável  com  uma  segunda 
pessoa, também praticará a bigamia? Não. Por 
que,  neste  caso,  a  comparação  da  união 
estável ao casamento seria prejudicial ao réu 
(analogia em malam partem).  

2º LEI CERTA: Também chamado de princípio 
da taxatividade, princípio da certeza ou, ainda, 
princípio do mandado de certeza.  

De acordo com esse princípio a lei penal não 
poderá  ter  incriminações  vagas,  imprecisas. 
Não é possível que haja lei, por exemplo, que 
estabeleça como crime “violar a ordem pública 
e  os  bons  costumes”.  O  que  seria  a  ordem 
pública?  Tratar-se-ia  de  uma  incriminação 
vaga,  sujeita  à  livre  discricionariedade  do 
julgador. 

4º  LEI  ANTERIOR:  Princípio  da  anterioridade 
é  uma  decorrência  direta  da  legalidade. 
Legalidade sem anterioridade não faz sentido. 
Isso  porque,  a  idéia  da  anterioridade  é  a  de 
limitar  o  poder  de  punir  do  Estado  e  dar  a 
certeza ao cidadão de que ele não será punido 
senão  por  uma  circunstância  previamente 
estabelecida 

em 

lei. 

Portanto, 

lei, 

necessariamente, deverá ser anterior, ou seja, 
ela  não  poderá  retroagir  para  incriminar  um 
fato passado.  

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Direito Penal 

Fabio Roque 

2

 

O princípio da anterioridade pode também ser 
chamado de princípio da irretroatividade da lei 
penal  ou  de  princípio  da  retroatividade 
benéfica  da  lei  penal.  Lembrando  que  a  lei 
penal só retroage para beneficiar o réu. 

Importante destacar que, quando falamos em 
princípio  da  anterioridade,  estamos  nos 
referindo  à  lei  no  sentido  material  ou  formal. 
Não  pode,  por  exemplo,  haver  decreto, 
resolução,  portaria,  medidas  provisórias,  etc., 
que  definam  condutas  criminosas.  Acerca  do 
tema,  a  Constitucional  Federal,  no  art.  62, 
prevê, expressamente, que Medida Provisória 
não 

pode 

tratar 

de 

direito 

penal. 

Doutrinariamente  há  quem  entenda  que 
medidas provisórias poderiam ser aplicadas na 
esfera  penal  desde  que  venha  a  beneficiar  o 
réu (é o posicionamento, por exemplo, de Luiz 
Flávio 

Gomes), 

mas 

trata-se 

de 

um 

entendimento minoritário.  

Ainda  sobre  o  princípio  da  anterioridade, 
cumpre  lembrar  que  no  Brasil  a  lei  retroage 
para  beneficiar  o  réu  a  qualquer  tempo! 
Inclusive  após  o  trânsito  em  julgado  de  uma 
eventual  condenação.  Exceto  quando  a  pena 
já foi  extinta,  nesse  caso,  não  há mais  de se 
falar em retroatividade da lei benéfica, porque 
não há mais punibilidade.  

Lembre-se  que  ocorre  a  abolitio  criminis 
quando a lei deixa de considerar determinada 
conduta como criminosa.  

Não  devemos  confundir,  contudo,  a  abolitio 
criminis  com  a  revogação  de  tipo  penal.  Por 
exemplo: até 2009, o art. 213 do Código penal 
tinha  a  seguinte  redação  para  o  crime  de 
estupro: “constranger mulher, por violência ou 
grave ameaça, a manter conjunção carnal”. E 
o art. 214, que tratava do atentado violento ao 
pudor, 

previa  que:  “constranger  alguém, 

mediante  violência  ou  grave  ameaça,  a 
praticar  ou  permitir  que  se  pratique  ato 
libidinoso  diverso  da  conjunção  carnal”.  Em 
2009,  o  tipo  penal  do  atentado  violento  ao 

pudor foi revogado e o art. 213 passou a ter a 
seguinte redação:  

 

“Constranger  alguém,  mediante  violência  ou 

grave  ameaça,  a  ter  conjunção  carnal  ou  a 
praticar  ou  permitir  que  com  ele  se  pratique 
outro ato libidinoso”:  

Assim,  aquilo  que  era  atentado  violento  ao 
pudor  também  se  tornou  estupro.    Então, 
houve abolitio criminis do atentado violento ao 
pudor?  Não!  Abolitio  criminis  é  quando  a 
conduta  deixa  de  ser  criminosa.  No  caso  em 
tela, houve a revogação do tipo penal atentado 
violento ao pudor, mas a conduta não deixou 
de ser criminosa. Assim, a conduta que outrora 
se chamava atentado violento ao pudor hoje é 
uma das hipóteses de estupro. 

A abolitio criminis ocorreu, por exemplo, com o 
adultério,  a  sedução,  o  rapto  consensual.  O 
adultério era crime até 2005. Isso não significa 
dizer que o adultério foi legalizado. Ele apenas 
deixou  de  ser  um  ilícito  penal,  continuando  a 
ser um ilícito de natureza cível, por exemplo.  

Surge,  então,  a  seguinte  indagação:  qual  a 
conseqüência  da  abolitio  criminis?  A  abolitio 
criminis  faz  cessar  os  efeitos  penais  da 
condenação! 

Atenção:  é  possível  que  caia  na  prova  que  a 
abolitio criminis faz cessar todos os efeitos da 
condenação. Essa afirmação não está correta! 
A  abolitio  criminis  faz  cessar  os  efeitos 
PENAIS de uma eventual condenação.  

Assim,  se  o  sujeito  estava  sendo  investigado 
em 

inquérito 

policial 

por 

conduta 

posteriormente abolida do ordenamento penal, 
esse  inquérito  será  encerrado.  Se  ele 
respondia ação penal, o processo será extinto 
(trata-se 

de 

hipótese 

de 

extinção 

da 

punibilidade  prevista  no  art.  107  do  Código 
Penal).  Se  ele  já  foi  condenado  e  está 
aguardando julgamento de recurso, da mesma 
forma,  haverá  extinção  desse  processo. 
Contudo,  se  o  sujeito  já  foi  condenado  e  a 

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Direito Penal 

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3

 

sentença penal condenatória já tiver transitado 
em  julgado,  ou  seja,  se  o  processo  já  estiver 
em  fase  de  execução  penal,  sobrevindo  a 
abolitio  criminis,  a  aplicação  da  lei  nova  que 
beneficia  o  réu  ficará  a  cargo  do  juiz  da 
execução.  Frise-se  que  não  é  o  juiz  que 
sentenciou,  e  sim,  o  juiz  da  execução  penal, 
conforme preleciona o Súmula 611 do STF: 

 

“TRANSITADA  EM  JULGADO  A 

SENTENÇA  CONDENATÓRIA,  COMPETE 
AO JUÍZO DAS EXECUÇÕES A APLICAÇÃO 
DE LEI MAIS BENIGNA”. 

Pensemos na hipótese em que, já na fase de 
execução,  sobreveio  a  abolitio  criminis  do 
adultério. Como visto, a abolitio criminis cessa 
os efeitos penais. O primeiro dos efeitos penais 
é  o  cumprimento  da  pena  (se  o  sujeito 
estivesse preso, seria posto em liberdade, se 
fosse  obrigado  a  pagar  multa,  seria  extinta 
essa  exigência  etc.).  Outro  efeito  penal  da 
abolitio criminis é o de que o sujeito volta a ser 
portador  da  primariedade,  ou  seja,  se  ele 
praticasse  um  novo  fato  delituoso  não  seria 
considerado reincidente.  

Os  efeitos  extrapenais  da  condenação  não 
cessam! Um dos principais efeitos extrapenais 
da condenação é o de tornar certa a obrigação 
de  indenizar  a  vítima.  Esse  efeito  não  cessa, 
por ter natureza cível, logo, por ser extrapenal.  

DA  APLICAÇÃO  DA  LEI  PENAL  NO TEMPO 
E NO ESPAÇO 

a) 

Teoria da Atividade 

b) 

Teoria do resultado 

c) 

Teoria da ubiqüidade.  

1. 

DO TEMPO DO CRIME 

O tempo do crime, no direito penal brasileiro, é 
o  tempo  da  atividade,  ou  seja,  é  o  tempo  da 
ação ou omissão. Assim, não se aplica a teoria 
do  resultado  no  que  se  refere  ao  tempo  do 

crime,  tão  pouco  a  teoria  da  ubiqüidade,  vez 
que esta, diz respeito ao lugar, não ao tempo.  

2. 

DO LUGAR DO CRIME 

O art. 6º do Código Penal assim dispõe:  

 

“Considera-se praticado o crime no lugar em 

que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em 
parte, bem como onde se produziu ou deveria 
produzir-

se o resultado”. 

Portanto, no que se refere ao lugar do crime, o 
art. 6º do Código penal não aderiu à teoria da 
atividade e nem à teoria do resultado e sim, à 
teoria da ubiquidade. Assim, no que se refere 
ao  lugar  do  crime,  é  importante  ter 
conhecimento  de  quando  se  considera 
ocorrido o crime. 

A teoria da ubiquidade é aplicada nos crimes à 
distância.  Crimes  à  distância,  por  sua  vez,  é 
aquele em que a ação é realizada em um país, 
e o resultado ocorre em outro. 

Os  manuais  de  direito  penal  costumam 
exemplificar a teoria da ubiqüidade, no caso de 
uma  pessoa  que  mora  em  Brasília  e  manda 
uma  carta  bomba  para  Buenos  Aires.  Nesse 
caso,  qual  o  local  do  crime?  O  Brasil  (onde 
ocorreu  a  ação)  e  a  Argentina  (onde  se 
produziu, ou deveria se produzir o resultado). 

Outro  exemplo,  é  quando  uma  pessoa,  no 
Brasil, ameaça de morte outra pessoa que está 
na Argentina. Do mesmo modo, com base na 
teoria da ubiquidade, o lugar do crime será o 
Brasil  (onde  ocorreu  a  ação)  e  a  Argentina 
(onde  se  produziu  o  deveria  se  produzir  o 
resultado). 

 

CONCEITO 

ANALÍTICO 

OU 

EXTRATIFICADO DO CRIME 

A  doutrina  majoritária  no  Brasil  trabalha  com 
um  conceito  tripartido,  no  qual  divide  o  crime 
em  três  elementos,  fato  típico,  antijurídico  e 

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Direito Penal 

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culpável.  Mas  há  alguns  autores  que 
defendem  o  critério  bipartido,  no  qual  crime 
seria  fato  típico  e  ilícito.  Para  esses  autores, 
culpabilidade  não  seria  elemento  do  crime  e 
sim, mero pressuposto de punibilidade. 

Portanto,  para  a  doutrina  majoritária  crime 
possui  três  elementos:  fato  típico,  ilícito  e 
culpável.  

Importante 

observar 

que 

ilicitude 

antijuridicidade  são  consideradas  elementos 
sinônimos para o Direito Penal! 

1º DOS ELEMENTOS DO FATO TÍPICO 

1. 

Conduta 

humana 

penalmente 

relevante: Será uma ação ou omissão, dolosa 
ou culposa. 

2. 

Resultado:  a  conduta  humana  deverá 

produzir um resultado.  

3. 

Nexo  causal:  Também  chamado  de 

relação  de  causalidade:  É  o  elo  entre  a 
conduta e o resultado. 

4. 

Tipicidade 

     2° EXCLUDENTES DO FATO ILÍCITO. 

Antes de tudo é importante termos em mente 
que  o  fato  típico  é  presumivelmente  ilícito. 
Ocorre que essa presunção é relativa. Assim, 
o  fato  típico  deixa  de  ser  ilícito  se  estiverem 
presentes  algumas  de  suas  excludentes. 
Quais  sejam:  O  estado  de  necessidade,  a 
legítima  defesa,  o  estrito  cumprimento  do 
dever  legal, o exercício regular de um direito. 
Essas  excludentes  estão  previstas  no  art.  23 
do  Código  penal.  Mas  há,  ainda,  uma  causa 
supralegal: o consentimento do ofendido. 

1. 

Estado de necessidade 

2. 

Legítima defesa 

3. 

Estrito cumprimento do dever legal 

4. 

Exercício regular de direito 

5. 

Consentimento  do  ofendido 

–  causa 

supralegal.  

3º DOS ELEMENTOS DA CULPABILIDADE 

1. 

Imputabilidade 

2. 

Exigibilidade de conduta diversa.  

3. 

Potencial consciência da ilicitude.  

Observações: Lembrando que a coação moral 
irresistível  ou  a  obediência  hierárquica  são 
modalidade  da  inexigibilidade  de  conduta 
diversa.  E  o  erro  de  proibição  é  uma 
excludente  da  potencial  consciência  da 
ilicitude.  Excludentes  da  culpabilidade  que 
serão analisados adiante. 

1. 

FATO TÍPICO E SEUS ELEMENTOS:  

A) 

CONDUTA 

HUMANA 

CRIMES 

DOLOSOS  E  CULPOSOS:  Dolo  e  culpa 
constituem  elementos  subjetivos  da  conduta 
humana.  Também  chamados  de  elementos, 
psicológicos, volitivos, de vontade etc. 

Dolo  é  a  vontade  de  praticar  a  conduta  e  de 
produzir  o  resultado.  A  culpa  se  diferencia 
porque  a  intenção  não  é  a  de  produzir  o 
resultado, apenas a de praticar a conduta. 

Dolo  é  elemento  subjetivo  por  excelência. 
Culpa  é  elemento  subjetivo  por  exceção.  Ou 
seja, quando o tipo penal descreve a conduta, 
ali está descrita uma conduta dolosa. Porque o 
dolo é elemento subjetivo por excelência,  é a 
regra. Assim, quando o art. 121 explana “matar 
alguém”,  trata-se  de  tipificação  de  uma 
conduta dolosa.  

 

Conduta culposa é a exceção. Só existe crime 
na  modalidade  culposa  quando  houver 
expressa  disposição  na  lei.  Assim,  há 
homicídio na modalidade culposa porque o art. 
121, 

no 

§ 

3º 

dispõe 

acerca 

dessa 

possibilidade.  Mas,  por  exemplo,  o  Código 

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penal  não  prevê  o  crime  de  furto  na 
modalidade culposa. 

A.1)  DOLO: O código  penal  divide  o  dolo  em 
dolo direto e dolo eventual. 

 

Dolo direto 

 

Dolo direto de 1º grau 

 

Dolo direto de 2º grau 

 

Dolo Indireto 

 

Dolo Indireto eventual 

 

Dolo indireto alternativo 

a) 

DOLO DIRETO DE 1º GRAU: É o dolo 

clássico,  que  se  divide  em  dois  binômios: 
consciência e vontade. Consciência do que se 
está  fazendo  e  vontade  de  produzir  o 
resultado. 

b) 

DOLO  DIRETO  DE  2º  GRAU:  Ocorre 

quando  o  agente  não  quer,  diretamente, 
praticar o resultado, mas a sua conduta torna 
o resultado inevitável. 

c) DOLO INDIRETO EVENTUAL: O código diz 
que  ocorre  o  dolo  eventual  quando  o  sujeito 
assume  o  risco  de  produzir  o  resultado.  Em 
direito  penal,  “assumir  riscos”  significa  ser 
indiferente  para  com  o  resultado.  O  lema  do 
dolo eventual é: “der no que der, não deixo de 
agir”.  Logo,  no  dolo  eventual,  o  agente  é 
indiferente  ao  resultado,  apesar  de  não  ter 
certeza exata de qual será o resultado de sua 
conduta, por isso se afirma que ele assume o 
risco  de  produzir  o  resultado.  Risco,  então,  é 
zona de incerteza.  

 

d) 

DOLO  INDIRETO  ALTERNATIVO:  é 

uma  classificação  que  muitos  autores  já  não 
trabalham. É hoje considerada uma espécie de 
dolo eventual. Dolo alternativo ocorre quando 
o agente tem mais de um resultado possível e 
qualquer  deles  o  satisfaz.  Exemplificando:  o 

agente  atira  nas  costas  do  seu  desafeto. 
Qualquer  que  seja  o  resultado  (se  a  vítima 
morrer ou se ficar tetraplégica, por exemplo) o 
satisfaz. 

A.2)  DA CULPA 

Culpa consiste na inobservância de um dever 
objetivo  de  cuidado.  Ou  seja,  culpa  significa 
que o sujeito não adotou as cautelas devidas.  

Essa  inobservância  dos  deveres  objetivos  de 
cuidado  pode  ocorrer  mediante  Imprudência, 
Negligência  ou  Imperícia.  Logo,  podemos 
afirmar  que  imprudência,  negligência  e 
imperícia  são  modalidades  de  inobservância 
dos deveres objetivos de cuidado. 

a) 

IMPRUDÊNCIA:  É  a  inobservância  de 

um  dever  objetivo  de  cuidado  que  ocorre  por 
meio  de  uma  ação.  Assim,  imprudente  é 
aquele que fez o que não deveria fazer. 

b) 

NEGLIGÊNCIA:  É  o  contrário  da 

imprudência. Nessa modalidade, o agente não 
fez aquilo que deveria fazer. Então, negligente 
é,  por  exemplo,  o  pai  que,  de  forma 
descuidada,  não  adota  as  cautelas  devidas 
para retirar a arma do alcance do filho menor. 

c) 

IMPERÍCIA:  Poderá  ocorrer  mediante 

ação  ou  omissão.  Trata-se  da  inobservância 
de  um  dever  objetivo  de  cuidado  que  diga 
respeito  à  arte,  ofício  ou  profissão.  Um  erro 
médico, por exemplo.  

A culpa poderá ser inconsciente ou consciente. 

 

Primeiramente, é importante afirmar que, para 
que haja culpa, o resultado deverá ser sempre 
previsível. Logo, se o resultado é imprevisível 
não há de se falar em dolo ou culpa.  

Cite-se,  como  exemplo,  um  motorista  de 
trânsito que está dirigindo de acordo com todas 
as  normas  previstas,  (respeitando  o  limite  de 
velocidade, obedecendo a sinalização, com o 

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cinto de segurança, etc.) e uma pessoa se atira 
diante do carro com a intenção de suicidar-se. 
Nesse  caso,  não  há  de  se  falar  em  dolo  ou 
culpa,  porque,  de  acordo  com  a  conduta  do 
agente, não é previsível se que se espere um 
resultado criminoso.  

Assim,  se  não  é  possível  se  vislumbrar  o 
resultado, não há de se falar em dolo ou culpa. 
Lembrando, ainda, que dolo e culpa integram 
a conduta humana, (já que conduta humana é, 
por sua vez, toda ação ou omissão dolosa ou 
culposa),  e  que,  esta,  encontra-se  dentre  os 
elementos  do  fato  típico.  Dessa  forma,  a 
ausência de dolo ou culpa torna o fato atípico.  

Então, para que haja culpa o resultado deverá 
ser  previsível.  Ser  previsível  não  é  a  mesma 
coisa que previsto. 

Se o fato foi PREVISTO, a culpa é consciente.  
Se não foi previsto, a culpa será inconsciente.   

Imaginemos  o  exemplo  de  uma  pessoa  que 
passa  todos  os  dias  por  determinada  rodovia 
com  um  limite  de  velocidade  superior  ao 
permitido  em  lei,  não  havendo  radares  que 
controlem  essa  conduta  e  que  essa  prática 
seja  comum  dentre  todos  os  motoristas  que 
por ali trafegam. Ocorre que, em determinado 
dia, esse agente atropela e mata uma pessoa. 
Esse  fato  é  previsível.  Mas  é  previsto?  Não. 
Porque  o  sujeito  fazia  esse  trajeto  todos  os 
dias há anos, nessa mesma velocidade, e em 
momento  algum  imaginou  que  haveria  a 
possibilidade de matar alguém. Trata-se, pois, 
de hipótese de culpa inconsciente. 

Já na culpa consciente o resultado é previsto, 
mas  não  é  aceito,  ou  seja,  o  agente  não 
assume o risco de produzir o resultado. Logo, 
na  culpa  consciente,  o  agente  sabe  da 
possibilidade 

de 

produzir 

determinado 

resultado, mas acredita que poderá evitá-lo. É 
o caso, por exemplo, de um atirador de facas. 
Ele  tem  consciência  de  que  poderá  atingir  a 
pessoa (o resultado  é  previsto),  mas  acredita 

que, com suas habilidades, esse resultado não 
irá se consumar.  

Perceba que há uma linha muito tênue entre a 
culpa  consciente  e  o  dolo  eventual.  Na  culpa 
consciente o agente acha que poderá evitar o 
resultado.  Já  no  dolo  eventual  o  agente  é 
indiferente para com o resultado.  

A.3) DO CRIME PRETERDOLOSO 

É  a  junção  do  dolo  e  da  culpa:  preterdolo 
ocorre  quando  o  agente  possui  dolo  na 
conduta  e  dano  no  resultado,  ou  seja,  ele 
queria  praticar  a  conduta,  mas  não  tinha  a 
intenção  de  que  sua  conduta  produzisse 
determinado resultado. É o caso, por exemplo, 
da lesão corporal seguida de morte. O agente 
não  tinha  a  intenção  de  matar  a  vítima,  mas 
tinha  a  intenção  de  praticar  a  lesão  corporal. 
Outro exemplo é o aborto quando há morte da 
gestante. Ou a tortura seguida de morte. 

B) RELAÇÃO DE CAUSALIDADE 

É  também  chamada  de  relação  causal,  ou 
nexo causal. 

Trata-se do elo entre a conduta e o resultado. 
Estudar  a  relação  de  causalidade  é  analisar 
qual  foi  o  motivo  que  acarretou  em 
determinado 

resultado. 

Lembrando 

que 

resultado,  no  direito  penal,  pode  também  ser 
chamado de evento. 

No que concerne à relação de causalidade, o 
Código Penal, no caput do seu art. 13, adotou 

TEORIA 

DA 

EQUIVALÊNCIA 

DOS 

ANTECEDENTES, também chamada de teoria 
da conditio sine qua non. 

De  acordo  com  essa  teoria,  causa  é  tudo 
aquilo  que  contribuiu  para  a  ocorrência  do 
resultado.  Assim, o Código Penal não adotou 
a teoria da concausa. Já que tudo aquilo que 
contribuiu para o evento é causa. 

Então para saber se determinada conduta é a 
causa  do  evento  danoso  devemos  trabalhar 

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Direito Penal 

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7

 

com  o  critério  de  eliminação  hipotética.  Ou 
seja,  para  saber  se  a  conduta  é  causa  do 
resultado, 

vamos 

eliminar 

determinada 

circunstância  e  nos  perguntar  se  o  resultado 
teria ocorrido com essa eliminação. 

Assim,  imagine  que  A  matou  B:  Antes  de  A 
matar B, adquiriu a arma, a munição e, antes 
de  chegar  na  residência  da  vítima,  ele  parou 
para almoçar. Chegando à residência de B, A 
armou  uma  emboscada  e  deflagrou  os 
disparos. Nesse caso, devemos nos perguntar: 
o que é causa do resultado? De acordo com a 
teoria da equivalência dos antecedentes, tudo 
o que contribuiu para que o resultado tivesse 
ocorrido,  é  causa.  Então,  devemos  eliminar 
hipoteticamente cada uma das circunstâncias 
a fim de chegarmos à causa. Então, vejamos: 

 

1. Se A n tivesse comprado a arma, o 

resultado  teria  ocorrido  da  forma  como 
ocorreu?  Não.  É  possível  que  A  tivesse 
matado B, mas não com aquela arma. Ou seja, 
se A não tivesse comprado a arma o resultado 
não  teria  ocorrido  da  forma  como  ocorreu. 
Assim,  podemos  afirmar  que  “comprar  a 
arma”, é causa que contribuiu para o resultado. 
O  mesmo  raciocínio  se  aplica  à  compra  de 
munição,  já  que,  sem  esta,  A  não  teria 
efetuado os disparos.  

 

 

2.  Parar para almoçar não é causa do 

resultado, já que essa ação não teve qualquer 
influência no crime.  

 

3.  Se  ele  não  tivesse  armado  a 

emboscada  o  resultado  não  teria  ocorrido  da 
forma  como  ocorreu.  Importante  lembrar, 
inclusive, 

que 

emboscada 

é 

causa 

qualificadora do crime de homicídio.  

 

4. Sem os disparos o resultado também 

não teria ocorrido da forma como ocorreu.  

O  grande  problema  dessa  teoria  é  que,  ao 
afirmar  que  tudo  o  que  contribuiu  para  o 

resultado 

é 

causa, 

poderá 

haver 

REGRESSUS  AD  INFINITUM,  já  que,  por 
exemplo, se o fabricante de armas não tivesse 
feito aquela arma utilizada por A, o crime não 
teria  ocorrido  da  forma  como  ocorreu.  Da 
mesma  forma,  se  a  mãe  de  A,  não  o  tivesse 
gerado, o crime também não teria ocorrido da 
forma 

como 

ocorreu, 

assim, 

sucessivamente.  

Então,  para  não  chegarmos  ao  infinito,  essa 
teoria  precisa  de  um  limite  que  seria  os 
ELEMENTOS 

SUBJETIVOS 

DOLO 

OU 

CULPA.  

Dessa  forma,  por  que  a  mãe  de  A  não  vai 
responder pelo crime? Porque o fabricante da 
arma  não  vai  responder  pelo  crime?  Por  que 
estes  não  tiveram  o  elemento  subjetivo  (dolo 
ou  culpa)  necessários  para  influírem  no 
resultado.  

Importante  destacar,  ainda,  que  a  teoria  da 
equivalência  dos  antecedentes  possui  uma 
exceção.  A  exceção  reside  na  causa 
relativamente independente e superveniente. 

Da  Causa  relativamente  independente  e 
superveniente:  

 

Trata-se  de  uma  causa  que  acontece  depois 
da  conduta.  O  exemplo  mais  emblemático  é 
aquela  hipótese  em  que,  um  sujeito  deflagra 
um  disparo  em  alguém  e  essa  pessoa  é 
socorrida.  Ocorre  que,  no  caminho  para  o 
pronto  socorro  a  ambulância  acaba  colidindo 
com  algum  outro  veículo  e  a  pessoa  que 
estava sendo socorrida morre em razão desse 
acidente.  Perceba  que  o  acidente  com  a 
ambulância  é  uma  causa  independente  ao 
disparo e superveniente a este.  

Quando 

há 

uma 

causa 

relativamente 

independente  e  superveniente  a  teoria  da 
condição sine qua non não será aplicada. Se 
essa teoria fosse aplicada a linha de raciocínio 

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seria: se o agente não tivesse atirado, a vítima 
não  estaria  na  ambulância  logo,  não  sofreria 
com  o  acidente  de  trânsito  e  não  morreria. 
Assim,  esse  agente  responderia  penalmente 
pelo homicídio consumado. O que não ocorre. 

O  art.  13,  §  1º  do  Código  Penal,  ao  tratar  da 
causa 

relativamente 

independente 

superveniente, 

adotou 

TEORIA 

CAUSALIDADE ADEQUADA. 

Perceba  que  a  regra  para  a  averiguação  do 
nexo  de  causalidade  é  a  teoria  da  condição 
sine  qua  non,  a  exceção  é  a  teoria  da 
causalidade adequada, esta, só será aplicada 
nos  casos  em  que  houver  uma  causa 
relativamente independente e superveniente.  

Pela  teoria  da  Causalidade  Adequada,  só  é 
causa aquilo que p

roduziu o resultado “por si 

só”, ou seja, causa é aquilo que, isoladamente, 
produziu o resultado.  

Dessa  forma,  o  art.  13,  §  1º  afirma  que, 
ocorrendo 

causa 

relativamente 

independente  e  superveniente  que,  por  si  só 
produziu  o  resultado,  o  agente  responde 
apenas pelos atos até então praticados.  

 

“Art.  13  -  O  resultado,  de  que  depende  a 
existência  do  crime,  somente  é  imputável  a 
quem  lhe  deu  causa.  Considera-se  causa  a 
ação ou omissão sem a qual o resultado não 
teria ocorrido. 

§ 1º - A superveniência de causa relativamente 
independente exclui a imputação quando, por 
si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, 
entretanto, imputam-

se a quem os praticou”.  

Portanto, no exemplo da ambulância, o agente 
responderia,  apenas  pelos  disparos  por  ele 
efetuados, ou seja, pela tentativa de homicídio. 

Importante 

destacar, 

contudo, 

que 

há 

situações  em  que  não  se  aplica  a  causa 
relativamente  independente  e  superveniente. 

Por exemplo: um agente efetuou disparos e a 
vítima foi levada até o hospital, mas, por conta 
do  grande  engarrafamento,  acaba  falecendo 
antes  de  ser  socorrido.  Nesse  caso,  não 
podemos  afirmar  que  o  agente  faleceu  por 
conta  do  engarrafamento,  ou  seja,  não  é 
possível  se  falar  em  causa  relativamente 
independente  e  superveniente.  O  mesmo 
raciocínio se aplica no caso de a vítima contrair 
uma  infecção  hospitalar,  após  ser  vítima  de 
disparos.  Nesse  caso,  há  um  desdobramento 
natural  da  conduta  criminosa,  logo,  o  agente 
responderia 

por 

homicídio 

consumado, 

aplicando-se,  pois  a  regra  da  teoria  da 
condição sine qua non.   

INSTITUTOS  RELACIONADOS  AO  ITER 
CRIMINIS 

Iter Criminis, literalmente, seria o “itinerário do 
crime”, o caminho produzido pelo crime. Trata-
se, pois, das fases do crime. 

 

O crime passa por até cinco fases. Nem todos 
os crimes vão passar pelas cinco.  

 

1ª  FASE:  Cogitatio  ou,  simplesmente, 

cogitação 

–  É  o  planejamento  do  crime. 

Cogitatio  não  pode  ser  punida.  A  simples 
vontade  de  praticar  um  crime  não  significa 
praticá-lo. 

2ª FASE: Preparação 

– Em regra, os atos de 

preparação também não são punidos. Diga-se 
“em regra”, por que há vezes em que os atos 
de  preparação  são  tão  graves  que  a  lei  os 
considera  como  crimes  autônomos.  Por 
exemplo,  adquirir  arma  de  fogo  é  um  ato 
preparatório  para  um  homicídio,  mas,  se  o 
sujeito não tiver porte de arma, ele já praticou 
um crime. A emissão de moedas falsas é um 
crime, mas a utilização de instrumentos para a 
falsificação  de  moeda  (o  que  se  classificaria 
como ato preparatório), já é outro crime. 

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3ª FASE: Execução 

– Em regra a punibilidade 

se inicia nos atos de execução.  

4ª FASE: Consumação 

– Ocorre quando todos 

os elementos do tipo penal estão preenchidos.  

5ª FASE: Exaurimento 

– Ocorre quando o tipo 

penal 

prevê 

uma 

hipótese 

além 

da 

consumação. 

Por 

exemplo, 

crime 

de 

corrupção de funcionário público: o funcionário 
público  que  solicita  vantagem  indevida  já 
praticou,  por  si  só,  um  crime.  Logo,  se  ele 
receber  aquilo  que  solicitou  estará  apenas 
exaurindo um crime que já estava consumado.  

Existem  cinco  institutos  relacionados  ao  Iter 
Criminis, quais sejam: 

1. 

Tentativa 

2. 

Desistência voluntária 

3. 

Arrependimento eficaz 

4. 

Arrependimento posterior 

5. 

Crime impossível 

1. 

CRIME TENTADO 

Ocorre quando, iniciado os atos de execução, 
o  crime  não  se  consuma  por  circunstâncias 
alheias à vontade do agente.  

Assim, há a tentativa quando o indivíduo inicia 
a  terceira  fase  (fase  de  execução),  mas  não 
alcança  a  quarta  fase  (de  consumação)  em 
razão de circunstâncias alheias à sua vontade. 

A  consequência  do  crime  tentado:  O  Código 
Penal nos diz que quando o crime é tentado o 
juiz  vai  aplicar  a  pena  do  crime  consumado 
diminuindo-a  de  1/3  a  2/3,  salvo  nos  casos 
previstos em lei.  

Excepcionalmente,  porém,  o  Código  (ou  a 
legislação  extravagante)  prevê  um  crime  em 
que  a  consumação  e  a  tentativa  possuem  a 
mesma  pena.  São  os  chamados  crimes  de 
atentado ou crime de empreendimento. Como 

exemplo,  podemos  citar  o  crime  eleitoral  de 
“votar  ou  tentar  votar  no  lugar  de  outrem”. 
Nesse  caso,  a  consumação  e  a  tentativa 
possuem a mesma penalidade. 

A  natureza jurídica  da  tentativa  é  a  de  causa 
de diminuição de pena prevista na parte geral 
do Código Penal. 

Classificação doutrinária da tentativa:  

a) 

TENTATIVA 

BRANCA 

OU 

INCRUENTA 

– É aquela em que a vítima sai 

ilesa. Exemplo: o agente deflagra disparos de 
arma de fogo na vítima, mas não a atinge.   

b) 

TENTATIVA 

VERMELHA 

OU 

CRUENTA 

–  É  aquela  em  que  a  vítima  sai 

lesionada.  

c) 

TENTATIVA  PERFEITA,  TENTATIVA 

ACABADA  OU  CRIME  FALHO 

–  Ocorre  na 

hipótese  em  que  o  agente  exauriu  a  sua 
potencialidade  lesiva  e,  ainda  assim,  não 
conseguiu consumar o crime. Por exemplo, o 
agente deflagrou todo o arsenal que possuía, 
ou  utilizou  de  toda  a  dose  veneno  de  que 
dispunha, enfim, ele fez tudo o que estava ao 
seu alcance para consumar o crime. 

d) 

TENTATIVA  IMPERFEITA:  O  sujeito 

não  exauriu  a  sua  potencialidade  lesiva,  ele 
não fez tudo o que estava ao seu alcance. Por 
exemplo, ele deflagrou o primeiro disparo, mas 
a vítima conseguiu fugir ou alguém o conteve.  

e) 

TENTATIVA  ABANDONADA 

–  Muito 

cuidado com essa classificação por que, o que 
a doutrina denomina de tentativa abandonada, 
em verdade, é a desistência voluntária. 

f) 

TENTATIVA INIDÔNEA 

– Trata-se, na 

verdade, do crime impossível! Nesta, não há a 
possibilidade de haver efetivação do delito. 

DAS  INFRAÇÕES  PENAIS  QUE  NÃO 
ADMITEM A TENTATIVA 

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1. 

As 

contravenções 

penais. 

Primeiramente,  é  importante  lembrar  que  as 
infrações  penais  são  gênero,  cujas  espécies 
são os crimes e as contravenções. O Decreto 
–  lei  nº  3688/1941  (lei  de  contravenções 
penais)  dispõe  expressamente  que  não  há  a 
possibilidade  de  tentativa  nas  contravenções. 
Trata-se, então, de uma opção do legislador.  

2. 

Crimes 

omissivos 

próprios 

(ou 

omissivos  puros):  são  aqueles  em  que  o  tipo 
penal  prevê  a  possibilidade  de  omissão.  A 
ação  pode  ser  fracionada  em  vários  atos,  a 
omissão,  por  sua  vez,  é  um  ato  só,  o  agente 
praticou ou não praticou. No crime de omissão 
de  socorro,  por  exemplo,  o  agente  não  tem 
como 

“tentar não prestar o socorro”.  

3. 

Crimes  Unissubsistente:  É  aquele  em 

que  a  ação,  ou  omissão,  não  pode  ser 
fracionada. 

Os 

crimes 

omissivos 

são 

unissubsistentes. 

Contudo, 

há 

crimes 

comissivos  que  também  não  podem  ser 
fracionados, é o caso, por exemplo, dos crimes 
praticados verbalmente, a exemplo da ofensa 
à  honra.  Perceba  que  os  crimes  de  ofensa  a 
honra  praticados  por  escrito  podem  ser 
fracionados,  por  exemplo,  o  agente  pode 
mandar  um  email  calunioso  e  a  vitima  não 
recebê-lo  por  que  está  com  a  sua  caixa  de 
email  lotada.  Nesse  exemplo,  houve  o  crime 
contra a honra em sua modalidade tentada, já 
que  não  houve  a  consumação  por  razões 
alheias à vontade do agente. 

4. 

Crimes  culposos:  Tentativa  pressupõe 

dolo!  Por  que,  de  acordo  com  a  definição  de 
tentativa,  o  crime  não  se  consuma  por 
circunstâncias  alheias  à  vontade  do  agente, 
logo,  o  agente  tinha  a  intenção  (dolo)  de 
produzir  o  resultado.  Existe  uma  exceção  a 
essa regra nos casos de CULPA IMPRÓPRIA 
(por  extensão  ou  por  assimilação).  A  culpa 
imprópria  (que  será  estudada  mais  a  frente) 
nada mais é do que a culpa que deriva do erro 
de tipo. Nesse caso, caberá a tentativa. 

5. 

Crimes 

pretedolosos: 

crime 

preterdoloso  é  aquele  em  que  há  dolo  na 
conduta e culpa no resultado. Se o resultado é 
produzido  culposamente,  não  há  de  se  falar 
em tentativa. 

Obs.:  Existe  uma  divergência  doutrinaria 
acerca  da  possibilidade  de  cabimento  da 
tentativa nos crimes de dolo eventual. A maior 
parte da doutrina entende que a tentativa só é 
cabível  para  os  casos  de  dolo  direto,  não  se 
aplicando, pois, ao dolo eventual. 

Obs. 2: Há quem diga que não cabe a tentativa 
nos  crimes  de  empreendimento  ou  crime  de 
atentado  (aquele  em  que  a  consumação  e  a 
tentativa  são  punidos  da  mesma  forma).  Na 
verdade,  a  questão  é  que,  nos  crimes  de 
empreendimento  a  tentativa  não  possui 
nenhuma  aplicabilidade  prática,  já  que  será 
punida da mesma forma. 

DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA 

 

 

É  também  chamada,  doutrinariamente,  de 
tentativa abandonada.  Contudo, a desistência 
voluntária se difere da tentativa por que nesta, 
o  crime  não  se  consuma  por  circunstâncias 
alheias à vontade do agente.  Já na desistência 
voluntária, o ato não se consuma por vontade 
do  agente,  ou  seja,  ele  pode  prosseguir  na 
execução do crime,  mas desiste de fazê-lo.  

Franklin,  um  teórico  alemão,  cunhou  uma 
fórmula  para  distinguir  a  tentativa  da 
desistência voluntária, qual seja: 

• 

Tentativa 

–  Quero,  mas  não  posso 

prosseguir na execução. 

• 

Desistência 

Voluntária 

– 

Posso 

prosseguir na execução, mas não quero. 

Válido ressaltar que a desistência é voluntária, 
mas  não  necessariamente  ela  é  espontânea! 

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Fabio Roque 

11

 

Por exemplo, o agente pode ser aconselhado 
a não prosseguir no crime. 

O  espontâneo,  como  se  percebe,  é  mais  do 
que o voluntário, por que não apenas exige um 
ato de vontade como essa vontade deve partir 
do agente, sem interferências externas ou de 
terceiros.  

Conseqüência da desistência voluntária: Diz o 
art.  15  do  Código  Penal  que,  na  desistência 
voluntária  o  agente  responde  apenas  pelos 
atos  praticados  até  o  momento  dessa 
desistência.  Ou  seja,  ele  não  responde  pela 
tentativa (que diminui a pena de 1/3 a 2/3).  

Assim,  se,  por  exemplo,  o  agente  está 
apontando a arma para a vítima, mas desiste 
de  atirar,  ele  responderá  pelo  crime  de 
ameaça.  Se  esse  mesmo  agente,  podendo 
matar  a  vítima,  desiste  de  fazê-lo,  e  atira 
apenas  em  seu  braço,  ele  não  responde  por 
tentativa  de  homicídio  e  sim,  por  lesão 
corporal. 

 

ARREPENDIMENTO EFICAZ 

Nesta,  o  agente  já  exauriu  toda  a  sua 
potencialidade  lesiva,  ou  seja,  ele  não  pode 
mais desistir por que ele já fez tudo o que podia 
para consumar o crime. A diferença está que, 
após  fazer  todos  os  atos  necessários  para 
consumar  o  crime,  o  agente  se  arrepende,  e 
evita, de todos os modos, a consumação.  

Por  exemplo,  ocorre  o  arrependimento  eficaz 
se o agente, após desferir disparos na vítima, 
a leva ao hospital e a salva. Perceba, portanto, 
que  o  arrependimento  deverá  ser  eficaz!  Ou 
seja,  os  esforços  do  agente  para  evitar  a 
consumação  devem  surtir  efeitos.  Caso 
contrário,  o  arrependimento  será  ineficaz  e  o 
agente  reponderá  pela  conduta  delitiva.  No 
exemplo  narrado,  ele  responderia  pelo  crime 
de homicídio.  

Conseqüência  do  arrependimento  eficaz:  É  a 
mesma  da  desistência  voluntária,  ou  seja,  o 
agente 

responderá 

apenas 

pelos 

atos 

praticados até aquele momento.  

• 

Desistência  voluntária:  O  agente  pode 

prosseguir, mas não quer. 

• 

Arrependimento  eficaz:  O  agente 

prossegue no ato (exaure a sua potencialidade 
lesiva)  e  depois  se  arrepende  e  envida 
esforços para evitar o resultado.  

Natureza  Jurídica  da  desistência  voluntária  e 
do arrependimento eficaz: Em outras palavras, 
o que significam esses institutos para o direito?  

Primeiramente  é  importante  lembrar  que,  a 
natureza jurídica da tentativa é a de uma causa 
de diminuição de pena prevista na parte geral. 

 

Para  a  doutrina  majoritária,  a  desistência 
voluntária 

arrependimento 

eficaz 

constituem 

CAUSA 

DE 

ATIPICIDADE 

RELATIVA DA CONDUTA!  

Atipicidade é quando o fato deixa de ser típico. 
Essa atipicidade poderá ser absoluta, (quando 
a conduta era criminosa e passou a não ser), 
como  poderá  ser  relativa,  quando  a  conduta 
seria um crime e passou a ser outro.  

Nesses  termos,  se,  por  exemplo,  a  intenção 
inicial do agente era a de matar a vítima, mas, 
desiste  (ou  se  arrepende  eficazmente),  a 
conduta  típica  deixa  de  ser  a  de  homicídio  e 
passa a ser a de ameaça.  

ARREPENDIMENTO POSTERIOR (art. 16 do 
Código Penal) 

Não devemos confundir arrependimento eficaz 
com arrependimento posterior. Dos 05 (cinco) 
institutos  do  inter  criminis,  o  arrependimento 
posterior é o único em que há a consumação. 

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Direito Penal 

Fabio Roque 

12

 

Só é cabível o arrependimento posterior  para 
os  crimes  praticados  sem  violência  ou  grave 
ameaça  à  pessoa.  Ex.:  furto,  estelionato, 
apropriação 

indébita, 

crime 

de 

dano, 

corrupção, etc. Nessas hipóteses, o sujeito irá 
reparar  o  dano,  ou  restituir  a  coisa,  antes  do 
recebimento da denúncia ou queixa crime.  

Conseqüência  do  arrependimento  posterior: 
será  a  mesma  conseqüência  da  tentativa,  ou 
seja, haverá uma diminuição da pena de 1/3 a 
2/3. 

É importante destacar que, no arrependimento 
posterior  também  há  uma  conduta  voluntária 
do 

agente, 

mas 

não 

necessariamente 

espontâneo. 

Natureza jurídica: é a mesma natureza jurídica 
da  tentativa,  qual  seja,  a  de  CAUSA  DE 
DIMINUIÇÃO  DE  PENA  PREVISTA  NA 
PARTE GERAL DO CÓDIGO.  

Há casos, porém, em que a própria lei concede 
um  benefício  maior  do  que  o  arrependimento 
posterior.  Cite-se,  como  exemplo,  o  crime 
tributário, se o agente pagar o tributo antes da 
denúncia  ou  queixa,  haverá  a  extinção  da 
punibilidade. Perceba que, nesse caso, não se 
aplica  o  arrependimento  posterior  por  que  a 
própria  lei  concede  um  benefício  maior  ao 
agente. Outro exemplo em que a lei concede 
um  tratamento  mais  benéfico  é  o  caso  do 
peculato  culposo,  neste,  se  o  agente  se 
arrepende  e  restitui  a  coisa  até  a  sentença, 
haverá  a  extinção  da  punibilidade.  Portanto, 
nesses  casos,  não  há  de  se  falar  em 
arrependimento posterior por que a lei foi mais 
benéfica do que esse instituto. 

CRIME  IMPOSSÍVEL  (art.  17,  do  Código 
Penal). 

Ocorre  quando  é  impossível  se  consumar  o 
crime, e é por isso que doutrinariamente esse 
instituto é chamado de tentativa inidônea.  

É impossível se consumar o crime por: 

• 

Absoluta  impropriedade  do  objeto 

material do tipo penal. 

• 

ou ineficácia do meio.  

1) Absoluta impropriedade do objeto material:  

Objeto material é a pessoa ou a coisa sobre a 
qual recai a conduta criminosa. Diferencia-se, 
assim, do objeto jurídico do crime, este, refere-
se ao bem jurídico. Por exemplo, no crime de 
homicídio, o objeto jurídico é a vida humana e 
o objeto material é a pessoa que foi morta. No 
furto, o objeto jurídico é o patrimônio, o objeto 
material é a coisa subtraída.  

Falar-se em absoluta impropriedade do objeto 
material  significa  dizer  que  o  objeto  material 
não existe. Ou seja, a pessoa ou a coisa sobre 
a  qual  recairia  a  conduta  criminosa  não 
existem! À exemplo de um agente que dispara 
tiros  sobre  uma  pessoa  que  já  estava  morta. 
Nesse  caso,  o  objeto  material,  no  caso,  a 
pessoa que seria assassinada, não existe, por 
que não há mais vida humana.  

Recentemente  a  OAB  cobrou  uma  questão 
que tratava de um caso em que o agente, na 
intenção  de  roubar  um  cadáver  (crime  de 
vilipêndio  a  cadáver),  descobre,  ao  abrir  o 
caixão, que não havia corpo. Trata-se de mais 
um exemplo de crime impossível, em razão da 
absoluta impropriedade do objeto.  

2) Absoluta ineficácia do meio 

Trata-se do meio empregado para a prática do 
crime. A doutrina costuma citar o exemplo de 
um  agente  que  tenta  matar  uma  pessoa 
envenenada e, sem saber, acaba ministrando-
lhe açúcar, ao invés do veneno.  

Obs.: Perceba-se que só há crime impossível 
quando  a  impropriedade  do  objeto  ou  a 
ineficácia  do  meio  são  absolutas.  Se  forem 
relativas,  não  podemos  falar  em  crime 
impossível e sim, em tentativa!!! 

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Direito Penal 

Fabio Roque 

13

 

A  relativa  impropriedade  do  objeto  material  é 
quando o objeto material existe, mas ele não é 
alcançado. Então, se, por exemplo, um agente 
tenta furtar uma pessoa, colocando a mão em 
seu  bolso,  e  não  encontrar  nada,  será  uma 
hipótese  de  crime  impossível  por  absoluta 
impropriedade  do  objeto.  Porém,  se  essa 
pessoa  possuía  bens  no  outro  bolso,  a 
impropriedade  do  objeto  é relativa,  por que a 
coisa sobre a qual recairia a conduta criminosa 
existe,  mas  não  foi  alcançada.  Nesse  caso, 
não  é  crime  impossível  e  sim,  hipótese  de 
tentativa.   

A relativa ineficácia do meio ocorre quando o 
meio  empregado  naquele  caso  concreto  não 
conseguiu consumar o crime, mas poderia ter 
consumado.  É  o  caso  de  o  agente  ter 
ministrado  veneno  na  vítima,  contudo  a  dose 
não foi a suficiente para matá-la, nesse caso, 
não há crime impossível e sim, tentativa.  

SÚMULA 

145 

DO 

STF: 

FLAGRANTE 

PREPARADO 

–  ocorre  quando  o  policial 

provoca  o  agente  para  que  este  pratique  o 
crime  para  poder  prendê-lo,  o  STF  entende 
esse  crime  seria  impossível,  por  que  nesse 
caso, há uma absoluta ineficácia do meio.  

 

“NÃO  HÁ  CRIME,  QUANDO  A 

PREPARAÇÃO  DO  FLAGRANTE  PELA 
POLÍCIA  TORNA  IMPOSSÍVEL  A  SUA 
CONSUMAÇÃO”. 

Fim do inter criminis!!! 

HIPÓSTESES 

DE 

EXCLUDENTES 

DE 

ILICITUDE 

O  Código  Penal,  no  seu  art.  23,  previu  04 
hipóteses  de  excludentes  de  ilicitude,  quais 
sejam: 

1. 

Estado de necessidade 

2. 

Legítima defesa 

3. 

Estrito cumprimento de um dever legal 

4. 

Exercício regular de direito 

O  Consentimento  do  ofendido  é  considerado 
uma causa supralegal, já que o Código Penal 
não fez menção a tal instituto.  

As  excludentes  de  ilicitude  são  também 
chamadas  de  JUSTIFICANTES  ou  CAUSAS 
DE JUSTIFICAÇÃO. 

1) DO ESTADO DE NECESSIDADE (art. 24) 

Há duas teorias que versam acerca do estado 
de necessidade: 

a) 

Teoria  unitária  (adotada  pelo  Código 

Penal) 

b) 

Teoria  diferenciadora  (adotada  pelo 

Código Penal Militar) 

a) 

TEORIA  UNITÁRIA:  Para  esta,  toda 

hipótese  de  estado  de  necessidade  é 
justificante,  ou  seja,  é  uma  excludente  de 
ilicitude.  

b) 

TEORIA 

DIFERENCIADORA: 

Esta 

diferencia  o  estado  de  necessidade  entre 
justificantes  e  exculpante,  ou  seja,  ela  pode 
excluir a ilicitude ou a culpabilidade.  

O  art.  24  define  o  estado  de  necessidade 
dizendo que, “em estado de necessidade está 
quem  atua,  para  salvar  de  perigo  atual,  que 
não provocou por sua vontade e nem podia de 
outro modo evitar, direito próprio ou alheio cujo 
sacrifício,  naquelas  circunstâncias,  não  era 
razoável exigir-

se.” 

1. 

Salvar  de  perigo  atual:  Uma  das 

grandes  diferenças  entre  o  estado  de 
necessidade  e  a  legítima  defesa  é  que,  na 
primeira,  a  intenção  do  agente  é  salvar  de 
PERIGO.  Na  legítima  defesa  o  agente  quer 
repelir  uma  agressão.  Agressão  é  um  ato  de 
violência humana, ao passo que perigo, não se 
relaciona à uma conduta humana. 

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Direito Penal 

Fabio Roque 

14

 

Na situação de perigo, portanto, não há um ato 
de violência humana, poderá ser ato produzido 
por um animal, por um evento da natureza ou, 
até  mesmo,  uma  conduta  humana  que, 
indiretamente,  possa  vir  a  afetar  a  esfera  de 
direitos de outrem, mas não há uma agressão 
direta,  um  ato  de  violência  humana  dirigida 
diretamente contra alguém.  

Assim, se  um  cão raivoso  avança  sobre  uma 
pessoa e esta mata o animal, ela comete um 
fato  típico  (maus  tratos  aos  animais  constitui 
uma  infração  penal,  de  acordo  com  a  lei  de 
crimes ambientais), mas recairá na excludente 
de  ilicitude  “estado  de  necessidade”. 
Diferentemente,  se  uma  pessoa  vier  para 
agredir  outra  e  esta  ultima  a  repele,  será  o 
caso de legítima defesa.  

 

Importante  destacar  também,  que  o  perigo 
deverá ser ATUAL (cuidado na hora da prova, 
por que, na legitima defesa o Código fala em 
“agressão atual ou iminente”). 

2. 

Que  não  provocou  por  sua  vontade: 

nesse trecho, leia-se: perigo que não provocou 
dolosamente! Então, se, por exemplo, no caso 
dos náufragos, o agente provocou o naufrágio 
da embarcação e, depois, matou outrem para 
salvar-se,  não  incorrerá  em  estado  de 
necessidade  por  que,  em  que  pese  o  perigo 
ser  atual,  foi  produzido  dolosamente  pelo 
agente. 

Contudo, 

se 

perigo 

foi 

provocado 

culposamente,  poderá  caber  o  estado  de 
necessidade. 

3. 

Nem  podia  de  outro  modo  evitar:  Ou 

seja,  o  agente  não  tinha  alternativa  para 
salvar-se.  Se  havia  alternativa,  ou  seja,  em 
havendo  outro  meio  de  se  evitar  o  resultado, 
não há de se falar em estado de necessidade.  

Assim,  se,  por  exemplo,  um  cão  raivoso 
avança sobre uma pessoa que está dentro do 

carro com a porta aberta, basta apenas fechar 
a  porta,  ou  seja,  há  uma  alternativa  para 
salvar-se,  portanto,  se,  nessa  hipótese,  o 
agente  matar  o  animal,  não  incorrerá  em 
estado de necessidade. 

4. 

Direito  próprio  ou  alheio:  Caberá 

estado  de  necessidade  de  terceiro.  Por 
exemplo,  o  agente  dispara  tiros  sobre  o  cão 
raivoso que avança sobre outra pessoa.  

5. 

Cujo 

sacrifício, 

naquelas 

circunstâncias, não se poderia exigir. 

No  estado  de  necessidade,  basicamente,  a 
pessoa  sacrifica  algum  bem  jurídico  para 
salvaguardar  outro.  Um  exemplo  clássico 
ocorre  quando,  em  um  naufrágio  de  navio,  e 
tendo apenas uma tábua para salvar-se, uma 
pessoa mata a outra.  

Importante  destacar  que,  para  que  haja 
exclusão da ilicitude o bem jurídico sacrificado 
deverá  ser  de  igual  ou  menor  importância  se 
comparado ao bem que se deseja salvar.  

Assim, não há estado de necessidade quando 
o bem jurídico sacrificado é mais importante do 
que o salvaguardado. Por exemplo, é possível 
haver  o  sacrifício  de  uma  vida  para  salvar 
outra, ou de um patrimônio para salvar a vida. 
Contudo,  não  é  possível  o  sacrifício  de  uma 
vida para se salvar um patrimônio, neste ultimo 
caso,  não  haverá  excludente  de  ilicitude 
amparada  no  estado  de  necessidade,  mas 
poderá  haver  uma  hipótese  de  diminuição  de 
pena.  

O § 1º do art. 24 estabelece que “aquele que 
tem  o  dever  legal  de  enfrentar  o  perigo  não 
pode invocar o estado de necessidade”. 

2) DA LEGITIMA DEFESA 

Está em legítima defesa quem repele agressão 
injusta, atual ou iminente,  a direito próprio ou 
alheio,  utilizando-se,  moderadamente  dos 
meio necessários.  

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Direito Penal 

Fabio Roque 

15

 

1. 

Repele  agressão  injusta:  Agressão, 

como já vimos, é um ato de violência humana. 
Ela deverá ser injusta, assim entendida como 
aquela  agressão  que  não  possui  um 
fundamento idôneo para legitimá-la. A legítima 
defesa,  por  exemplo,  é  uma  agressão  justa, 
por que há um fundamento jurídico idôneo que 
a legitima. E é por esse motivo que não cabe, 
em regra, a legítima defesa da legítima defesa, 
salvo se houver excesso por parte daquele que 
está repelindo a agressão.  

Importante destacar que, conforme vimos, não 
é  cabível  a  “legítima  defesa  real  da  legítima 
defesa real”. Contudo, é perfeitamente cabível 
a  “legítima  defesa  real  da  legítima  defesa 
putativa”.    Putare  é  imaginar,  logo,  legítima 
defesa  putativa  significa  legítima  defesa 
imaginária.  

Ocorre  a  legítima  defesa  putativa  naquela 
hipótese  em  que  o  sujeito  imagina  estar  em 
legítima  defesa  quando,  na  verdade,  não  há 
agressão. Cite-se, como exemplo, uma pessoa 
que  dispara  tiros  em  outra  achando  que  esta 
possuía uma arma em mãos, mas na verdade, 
a  vítima  não  havia  sacado  uma  arma  e  sim, 
sua  carteira.  Neste  caso,  a  legítima  defesa  é 
putativa e a vítima poderá repeli-la já que, para 
ela,  há  uma  agressão  injusta.  Esse  seria  um 
caso  de  legítima  defesa  real  de  uma  legítima 
defesa putativa. 

Não devemos confundir o direito de repelir uma 
agressão  injusta  com  o  direito  de  revidar,  de 
revanche. O direito que existe é o de apenas 
se defender. Se a vítima repele a agressão e 
continua  a  reagir,  será  hipótese  de  excesso, 
não  havendo  mais  de  se  falar  em  legítima 
defesa, vez que o excesso é punível no Direito 
Penal. Esse excesso, por sua vez, poderá ser: 

a) 

Doloso ou culposo 

b) 

Extensivo  ou  intensivo:  o  excesso 

extensivo  é  aquele  em  que  a  reação  de 
estende,  se  protrai.  Por  exemplo,  se  um 

agressor tentar bater na vítima e esta, a fim de 
repelir  a  agressão,  revida  e  continua  a 
agressão  quando  não  há  mais  necessidade.  
Excesso  intensivo  é  uma  reação  que  não  se 
estende, ela é imediata, contudo, é muito mais 
gravosa  do  que  o  necessário  para  repelir  a 
agressão.  Ocorre,  por  exemplo,  quando  uma 
pessoa franzina  agride um  campeão  de  vale-
tudo  e  este,  podendo  repelir  a  agressão 
tranquilamente,  se  excede  e  dispara  tiros 
contra o agressor.  

2. 

Agressão atual ou iminente: Não existe 

legítima  defesa  de  agressão  pretérita.  Do 
mesmo  modo,  não  existe  legítima  defesa  de 
agressão  futura,  salvo  o  futuro  iminente. 
Iminente é o futuro imediato, que está prestes 
a ocorrer. Na agressão iminente a pessoa não 
tem tempo de recorrer ao Estado.  

Ocorre agressão futura, por exemplo, quando 
um  sujeito  liga  para  a  casa  do  outro  o 
ameaçando de morte. Essa ameaça não dá o 
direito  de  a  pessoa  matar  quem  a  ameaçou 
alegando legítima defesa.  

3. 

Direito  próprio  ou  alheio:  Da  mesma 

forma  que  existe  o  estado  de  necessidade 
próprio  ou  de  terceiro,  também  existe  a 
legítima defesa própria ou de terceiro.  

4. 

Moderação  e  necessidade:  Significa  o 

emprego dos meio que estão à disposição da 
vítima  da  agressão  e  que  sejam  suficientes 
para  fazer  cessar  a  agressão.  Moderação 
significa  “a  exata  medida  do  repelir”.  Uma 
reação  imoderada  é  aquela  que  extrapola  o 
que seria suficiente para repelir a agressão. No 
Brasil,  era  muito  comum,  por  exemplo,  a 
“legítima defesa da honra”, em que a pessoa 
matava a outra por motivo de adultério. Hoje, 
tal  legítima  defesa  não  se  aplica  no 
ordenamento  jurídico,  por  que  não  há 
necessidade e nem moderação. 

3)  ESTRITO  CUMPRIMENTO  DO  DEVER 
LEGAL 

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ANALISTA JUDICIARIO DE TRIBUNAIS 

Direito Penal 

Fabio Roque 

16

 

Primeiramente, é importante que se diga que o 
Código 

Penal 

não 

definiu 

estrito 

cumprimento  do  dever  legal,  há  apenas 
menção  dessa  hipótese  de  exclusão  da 
ilicitude. Dessa forma, coube a doutrina definir 
tal espécie de excludente.  

Para  o  entendimento  majoritário,  o  estrito 
cumprimento do dever legal é uma hipótese de 
exclusão  da  ilicitude  aplicada  apenas  aos 
funcionários públicos!   

Estrito  cumprimento  do  dever  legal  é  aquele 
dever  imposto  em  lei  ou  em  ato  infralegal. 
Portanto, haverá estrito cumprimento do dever 
legal  não  só  para  as  leis  em  sentido  estrito 
como  também,  por  exemplo,  no  cumprimento 
de decretos, portarias etc. Logo, o dever legal, 
enquanto excludente de culpabilidade, poderá 
ser interpretado de forma ampla.  

Não  devemos  confundir:  pelo  princípio  da 
legalidade,  a  norma  penal  incriminadora 
deverá  ser  uma  lei  em  sentido  material  e 
formal,  ou  seja,  decretos  ou  portarias,  por 
exemplo,  não  poderão  definir  uma  conduta 
criminosa  e  cominar  a  respectiva  sanção 
penal. Ocorre que, no estrito cumprimento do 
dever  legal  o  que  se  objetiva  é  definir  norma 
NÃO 

INCRIMINADORA, 

uma 

norma 

permissiva,  nesse  caso,  a  legalidade  não 
precisa ser estrita.  

No estrito cumprimento do dever legal (assim 
como  em  qualquer  excludente  de  ilicitude)  o 
excesso  será  punível!  Por  exemplo:  o  policial 
possui o dever legal de prender em flagrante e, 
para  isso,  ele  poderá  utilizar-se  da  violência 
NECESSÁRIA para fazer cumprir o seu dever 
legal. Neste caso, portanto, a violência será um 
fato típico, mas não será ilícito, pois incorrerá 
na  excludente  de  ilicitude  do  “estrito 
cumprimento  do  dever  legal”.  Contudo,  se 
esse  policial  vier  a  se  exceder,  responderá 
pelo crime. 

Não há de se falar em estrito cumprimento do 
dever  legal  no  caso  de  troca  de  tiros  entre 
policial e algum criminoso. Nesse caso, haverá 
hipótese  de  excludente  de  ilicitude  amparada 
na legítima defesa.  

4) EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO 

A conduta é típica, mas ao praticá-la, a pessoa 
estará  exercendo  um  direito.  Explica-se:  por 
que  o  boxeador  não  responde  por  lesão 
corporal?    Por  que  as  práticas  esportivas 
constituem  um  exercício  regular  de  direito, 
desde que nos limites das regras do esporte e 
da necessidade.  

O pai que castiga o filho. Ele está no exercício 
regular  de  direito,  desde  que  amparado  nos 
limites  da  necessidade  e  da  razoabilidade. 
Espancar  o  filho  é  excesso,  o  pai  será 
responsabilizado penalmente.  

OFENDÍCULOS:  São  aqueles  instrumentos 
colocados para a proteção da propriedade. Ex: 
cerca  eletrificada.  A  doutrina  majoritária 
entende que a utilização de ofendículos é uma 
hipótese de exercício regular de direito.  

Para que a utilização de ofendículo caracterize 
exercício  regular  de  direito  é  imprescindível 
que  esse  proprietário  torne  esse  ofendículo 
VISÍVEL!  

5)  CONSENTIMENTO  DO  OFENDIDO 

– 

CAUSA  SUPRA  LEGAL  DE  EXCLUDENTE 
DA ILICITUDE. 

 

REQUISITOS: 

 

 

1.  Bem  jurídico  Disponível: 

Ninguém  pode  consentir  a  lesão  a  um  bem 
jurídico  indisponível.  Por  exemplo,  não  é 
possível que haja o consentimento do ofendido 
ao bem jurídico “vida”. Cite-se como exemplo 
uma  pessoa  que  pede  para  que  a  matem. 
Quem  cometeu  o  homicídio  poderá  alegar 
consentimento do ofendido e, assim, excluir a 
sua culpabilidade? Não. Por que a vida é um 

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bem jurídico indisponível.  Já o patrimônio, por 
exemplo, é um bem jurídico disponível. Logo, 
se uma pessoa autoriza outra a destruir o seu 
carro,  não  haverá  crime  de  dano,  por  que 
houve consentimento do ofendido.  

 

 

A  integridade  física,  para  a 

doutrina  majoritária,  é  um  bem  jurídico 
disponível no caso de lesões leves. A exemplo 
do tatuador.  

 

      2.  Que haja manifestação anterior 

ou  concomitante  à  conduta  criminosa:  O 
consentimento  após  a  prática  do  fato  não 
exclui a ilicitude. 

 

 

      3.  Capacidade  para  consentir:  A 

liberdade  sexual,  por  exemplo,  é  um  bem 
disponível.  Porém,  o  menor  de  14  anos  não 
possui  a  capacidade  para  dispor  de  sua 
liberdade sexual.  

 

          Importante  destacar  que  essa 

capacidade não está ligada à capacidade civil. 
Ela  será  analisada  de  acordo  com  o  caso 
concreto.  

 

      4.  Legitimidade  para  consentir:  Só 

haverá 

excludente 

de 

ilicitude 

se 

consentimento for realizado pelo titular do bem 
jurídico.  Assim,  por  exemplo,  só  o  dono  do 
patrimônio poderá consentir que o depredem. 
 

 

 

      5.  Esse  consentimento  deverá  ser 

manifestado  sem  vícios,  ou  seja,  sem  erro, 
dolo ou coação.  

CULPABILIDADE 

Trata-se  do  terceiro  elemento  do  crime. 
Lembrando que há uma parcela minoritária da 
doutrina que defende que a culpabilidade não 
é  elemento  do  crime,  mas  apenas  mero 
pressuposto para a aplicação da pena. 

A culpabilidade é um juízo de reprovação que 
recai sobre o autor do fato típico e ilícito. Esta 
culpabilidade é constituída por 03 elementos: 

1. 

Imputabilidade 

2. 

Exigibilidade de conduta diversa 

3. 

Potencial consciência da ilicitude 

1. 

DA IMPUTABILIDADE 

Imputar é “atribuir algo a alguém”. Imputável é 
aquele a quem eu posso atribuir alguma coisa. 
Como 

aqui 

estamos 

falando 

em 

“imputabilidade  penal”,  podemos  dizer  que 
imputável  é  aquele  a  quem  podemos  atribuir 
uma responsabilidade penal.  

 

Hipóteses  de  exclusão  da  imputabilidade  (ou 
seja,  hipóteses  em  que  não  é  possível  se 
atribuir  uma  responsabilidade  penal  ao 
indivíduo): 

a) 

Menoridade 

b) 

Doença mental 

c) 

Embriaguez completa e fortuita.  

a) 

Menoridade:  

Menor de 18 anos é inimputável, ainda que ele 
tenha  sido  emancipado  civilmente.  Isso  quer 
dizer  que  o  critério  para  a  aferição  da 
imputabilidade,  de  acordo  com  a  idade,  é 
puramente  biológico,  também  chamado  de 
cronológico ou etário.  

Em  alguns  países  o  critério  para  se  definir  a 
idade é biopsíquico, em que há o limite etário, 
contudo,  há  a  possibilidade  de  se  fazer 
exames  psicológicos  no  indivíduo  para  saber 
se ele possui imputabilidade psíquica, hipótese 
em que caberia a imputabilidade do menor. No 
Brasil  isso  não  ocorre,  o  critério  é puramente 
etário, não psicológico. 

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Logo, quando o sujeito é menor de 18 anos a 
lei  presume  que  ele  não  possui  aptidão 
psíquica. Trata-se de uma presunção absoluta 
(já  que  beneficia  o  réu),  não  admitindo, 
portanto, prova em sentido contrário.  

Importante  destacar  que  o  critério  etário  da 
imputabilidade  está  previsto  no  Código  Penal 
e na Constituição Federal, no art. 228. Assim, 
perceba que um projeto de lei não pode reduzir 
a  maior  idade  penal.  Para  a  doutrina 
majoritária uma emenda constitucional poderia 
prever  tal  redução.  De  acordo  com  essa 
corrente, a diminuição etária da imputabilidade 
não é inconstitucional por que ela não estaria 
abolindo um direito, mas apenas reduzindo-o.  

 

Como  a  menoridade  é  uma  hipótese  de 
exclusão  da  imputabilidade,  podemos  afirmar 
que  menor  não  comete  crime  e  sim,  ato 
infracional  equiparado  a  crime.  Por  que  o 
menor  não  pratica  crime?  Porque  ele  pratica 
fato típico, ilícito, mas não possui culpabilidade 
já  que,  por  ser  menor,  não  é  imputável  e, 
imputabilidade,  como  vimos,  é  um  dos  03 
elementos que integram a culpabilidade.  

Com base no mesmo raciocínio, não se aplica 
pena ao menor e sim, medida educativa.  

b) 

Doença Mental (art. 26) 

O  critério  para  aferir  a  inimputabilidade  por 
doença  mental  é  diferente  do  critério  etário. 
Isso por que, o critério para aferir a menoridade 
é  puramente  biológico  (também  chamado  de 
etário  ou  cronológico),  já  para  a  aferição  de 
doença mental, o critério é biopsíquico 

Inimputável é aquele que, por doença mental, 
ou  desenvolvimento  mental  incompleto  ou 
retardado (critério biológico ou etiológico) não 
era, ao tempo da ação ou omissão, capaz de 
entender  o  caráter  ilícito  do  fato  ou  de 
determinar-se 

de 

acordo 

com 

esse 

entendimento (critério psíquico).  

Perceba  que  no  caso  da  doença  mental  o 
critério  não  é  puramente  biológico,  ele  é 
biopsíquico.  

Não há como se dizer, a priori, qual a doença 
mental  que  vai  ensejar  a  inimputabilidade. 
Para saber se o sujeito é inimputável, ou não, 
devemos analisar o caso concreto. 

Perceba que a doença mental, por si só, não é 
o  suficiente  para  se  afirmar  que  a  pessoa  é 
inimputável  ou  não.  É  necessário,  então, que 
haja a doença mental (critério biológico) e, em 
razão  dela,  tal  pessoa  não  possa  entender  o 
caráter  ilícito  do  fato  ou  determinar-se  de 
acordo  com  esse  entendimento  (critério 
psíquico). Por isso é fundamental que se faça 
uma perícia no caso concreto.  

Obs.:  o  semi-imputável  (também  chamado, 
doutrinariamente, de fronteiriço) é aquele que, 
por perturbação mental (perceba que o Código 
não 

fala 

em 

doença 

mental), 

ou 

desenvolvimento 

mental 

incompleto 

ou 

retardado,  não  era,  ao  tempo  da  ação  ou 
omissão, INTEIRAMENTE capaz de entender 
o  caráter  ilícito  do  fato  ou  determinar-se  de 
acordo  com  esse  entendimento.  Portanto,  o 
semi-imputável  tem  parcial  capacidade  de 
entendimento! 

O  inimputável  não  é  condenado,  já  que  não 
comete  crime.  Aplica-se,  a  ele,  a  medida  de 
segurança! 

A sentença que reconhece a inimputabilidade 
por  doença  mental  é  absolutória.  O  juiz 
reconhece  a  inimputabilidade  por  doença 
mental,  absolvendo  o  indivíduo  e  aplicando a 
medida  de  segurança.  Trata-se  da  chamada 
SENTENÇA ABSOLUTÓRIA IMPRÓPRIA.  

A  semi-imputabilidade,  por  sua  vez,  é  uma 
causa de diminuição de pena. O juiz reconhece 
a  semi-imputabilidade,  condena  o  indivíduo 
(logo, 

nesse 

caso, 

sentença 

será 

condenatória) e aplica uma pena, diminuindo-
a. Contudo, o Código nos diz que o juiz poderá 

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converter essa pena em medida de segurança 
se  entender  que  essa  conversão  é  mais 
conveniente  para  o  tratamento  do  semi-
imputável. 

Antes da reforma de 1984 vigorava o sistema 
do duplo binário. Era um sistema que permitia 
aplicar,  ao  semi-imputável,  a  pena  cumulada 
com  a  medida  de  segurança.  Nosso  sistema 
atual  deixou  de  ser  duplo  binário  e  passou  a 
ser o VICARIANTE. 

Pelo  sistema  Vicariante  aplica-se,  ao  semi-
imputável, a pena OU a medida de segurança! 
Não é possível que haja a cumulação.  

MEDIDA DE SEGURANÇA 

No Brasil, só se aplica a medida de segurança 
nos  casos  de  inimputabilidade  por  doença 
mental. 

O  fundamento  da  medida  de  segurança  é  a 
periculosidade  do  inimputável.  O  Estado  não 
impõe a medida de segurança por reprovação 
(se não há culpabilidade, não há de se falar em 
“reprovabilidade”), e sim, por inaptidão mental 
do indivíduo para o convívio em sociedade.  

Existem dois tipos de medidas de segurança: 

1. 

Medida  de  internação:  nesta,  o  sujeito 

fica internado no HCT (Hospital de Custódia e 
Tratamento  Psiquiátrico).  Essa  internação 
possui  um  prazo  mínimo  de  01  a  03  anos. 
Portanto, a sentença fixará o prazo mínimo e, 
passado esse prazo, o sujeito será submetido 
a uma nova perícia, se essa perícia atestar que 
cessou  a  periculosidade  do  indivíduo,  a 
medida de segurança será extinta.  

Perceba  que  a  medida  de  segurança  não 
possui  um  prazo  máximo.  A  dúvida  é,  e  se  a 
periculosidade  do  indivíduo  não  cessar?  Em 
que pese a lei não ter previsto o prazo máximo 
para  a  medida  de  segurança,  o  STF  entende 
que,  quand

o  a  Constituição  fala  que  “são 

proibidas  as  penas  de  caráter  perpétuo”  ela 

quis dizer que são proibidas as sanções penais 
de  caráter  perpétuo,  e  não  apenas  as  penas 
(interpretação  extensiva).  E  sanção  penal  é 
gênero,  que  possuem  como  espécies,  as 
penas  e  as  medidas  de  segurança.  Dessa 
forma,  o  STF  empregou  como  limite  máximo 
para o cumprimento da medida de segurança 
o  prazo  de  30  anos,  por  conta  de  uma 
aplicação analógica do art. 75 do Código Penal 
que, por sua vez, afirma que o limite máximo 
para o cumprimento da pena é de 30 anos. 

 

2. 

Medida  de  tratamento  ambulatorial: 

nesta, o tratamento psiquiátrico não necessita 
de internação. 

d) 

Inimputabilidade 

por 

embriaguez 

completa e fortuita 

Primeiramente  é  importante  destacar  que 
quando  o  Código  Penal  trata  da  embriaguez, 
ele  não  se  refere  apenas  à  embriaguez 
decorrente  do  álcool  e  sim,  de  qualquer 
substância 

que 

afete 

capacidade 

psicomotora do indivíduo.  

Doutrinariamente  há  05  (cinco)  modalidades 
de embriaguez, quais sejam: 

1) 

Embriaguez preordenada 

2) 

Embriaguez voluntária (ou dolosa) 

3) 

Embriaguez involuntária (ou culposa) 

4) 

Embriaguez fortuita 

5) 

Embriaguez patológica 

Ao falar em embriaguez, é imprescindível que 
se mencione a TEORIA DA AÇÃO LIVRE NA 
CAUSA  (ou  teoria  da  actio  libera  in  causa): 
quando  falamos  em  culpabilidade,  devemos 
analisar  se  o  agente  tinha  o  livre  arbítrio  (o 
doente mental, por exemplo, não possuía livre 
arbítrio,  por  isso  ele  é  inimputável),  dessa 
forma, 

sujeito 

que 

está 

totalmente 

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embriagado  provavelmente  não  sabe  o  que 
está fazendo.  

A  grande  questão  é  que,  no  que  tange  à 
embriaguez, o livre arbítrio do agente não deve 
ser  aferido  no  momento  da  prática  do  fato  e 
sim  no  momento  em  que  ele  ingeriu  a 
substância. Actio libera in causa significa saber 
se  no  momento  em  que  o  agente  ingeriu  a 
substância  ele  era  livre,  se  poderia  agir  de 
outro modo. 

1) Embriaguez preordenada: é aquela em que 
o  sujeito  quer  ingerir  a  substância,  quer  se 
embriagar e quer praticar o crime.  

Na  embriaguez  preordenada  a  culpabilidade 
não será excluída, por que, conforme dispõe a 
teoria da ação livre na causa, o agente era livre 
para  ingerir  a  substância,  ele  tinha  a 
possibilidade  de  não  ingeri-la,  logo,  não  será 
caso de inimputabilidade penal.  

A  embriaguez  preordenada  além  de  não 
excluir a culpabilidade, agrava a pena é, pois, 
causa agravante!! 

2) Embriaguez voluntária (ou dolosa): é aquela 
em que o sujeito quer ingerir a substância, quer 
se embriagar, mas não quer praticar o crime. 

Nesse  caso, também  de  acordo  com  a  teoria 
da ação livre na causa, não haverá a exclusão 
da  culpabilidade  por  que,  o  ato  de  ingerir  a 
substância e de se embriagar (ou seja, a causa 
que deu ensejo ao crime) foi de livre vontade 
do agente.  

3) Embriaguez culposa: O agente quer ingerir 
a  substância,  mas  não  quer  se  embriagar  e, 
muito menos, cometer o crime.  

Também não haverá de se falar em exclusão 
da  culpabilidade  por  que  a  ação  do  agente 
(ingerir a substância) foi livre. 

4)  Embriaguez  fortuita:  É  aquela  em  que  o 
sujeito não quer ingerir a substância. É aquela 
hipótese  em  que  alguém  coloca  drogas  na 

substância do agente, ou alguém o obrigou a 
ingerir a substância.  

embriaguez 

fortuita 

vai 

excluir 

culpabilidade  quando,  além  de  fortuita,  ela  é 
completa!  

 

5)  Embriaguez patológica: É o vício do álcool 
ou  da  droga.  É  considerada  uma  doença 
mental.  

Portanto, para se averiguar a inimputabilidade 
do  indivíduo  que  possui  a  embriaguez 
patológica devemos analisar o caso concreto. 
Por que, como vimos, a doença mental só será 
causa  de  exclusão  da  culpabilidade  quando, 
em  razão  dela,  o  sujeito  não  é  capaz  de 
entender  o  caráter  ilícito  do  fato  ou  de 
determinar-se 

de 

acordo 

com 

esse 

entendimento.  

Importante  destacar  que  é  possível  que  haja 
exclusão  da  culpabilidade  do  embriagado 
patológico  ainda que  este  não  esteja  sobre o 
efeito  da  substância,  por  que  se  trata  de 
hipótese  de  excludente  da  imputabilidade  em 
razão  de  doença  mental,  não  em  razão  da 
embriaguez  propriamente  dita.  Cite-se,  como 
exemplo,  um  dependente  químico  que  esteja 
em  estado  de  abstinência  e  que,  para 
conseguir a substância, agride o pai. 

Encerramos  o  estudo  das  excludentes  da 
imputabilidade  que,  como  vimos,  é  um  dos 
elementos  da  culpabilidade.  Passaremos 
agora 

para 

segundo 

elemento 

da 

culpabilidade,  qual  seja,  a  exigibilidade  de 
conduta diversa.  

2. 

DA 

EXIGIBILIDADE 

DE 

CONDUTA 

DIVERSA 

De início, importante que se diga que o Código 
Penal 

não 

empregou 

expressão 

“exigibilidade de conduta diversa”. Contudo, tal 
diploma 

trouxe 

duas 

hipóteses 

de 

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inexigibilidade  de  conduta  diversa,  muito 
embora  também  não  utilize  essa  expressão. 
Essas hipóteses estão previstas no art. 22.  

Dessa forma, são causas de inexigibilidade de 
conduta diversa: 

 

a) 

A coação moral irresistível 

b) 

Obediência hierárquica.  

a) 

Coação  irresistível:  Coação  é  um  dos 

vícios  da  vontade.  Coação  irresistível  ocorre 
quando a vontade não é livre, quando o agente 
está sofrendo algum tipo de ameaça.  

O melhor exemplo de coação moral irresistível 
ocorre quando uma quadrilha, com o intuito de 
roubar  um  banco,  seqüestra  a  família  do 
gerente  e  o  ameaça,  exigindo  que  esse 
gerente entregue o dinheiro do banco. Perceba 
que,  nesse  exemplo,  ninguém  poderá  exigir 
desse agente uma conduta diversa. 

Nesse caso, haverá exclusão da culpabilidade 
da pessoa que foi coagida.  

b) 

Obediência 

hierárquica: 

Nesta 

hipótese,  o  superior  hierárquico  profere  uma 
ordem ao seu subordinado e esta ordem não é 
manifestadamente  ilegal.  Obviamente,  se  a 
ordem 

é 

manifestadamente 

ilegal, 

responderão  pelo  crime  o  superior  e  o 
subordinado.  

Um  exemplo  de  obediência  hierárquica  é 
quando  um  policial  invade  uma  residência 
imaginando que há um flagrante. Nesse caso, 
só quem responderá pela infração é o superior 
hierárquico. 

Nossa doutrina admite a existência de causas 
supralegais  de  inexigibilidade.  São  hipóteses 
em que, a depender do caso concreto, não se 
poderia exigir do agente outra conduta. 

Por  exemplo,  um  empregador  dá  uma  ordem 
não 

manifestadamente 

ilegal 

seu 

empregado.  Nesse  caso,  não  podemos  falar 
em obediência hierárquica por que a relação é 
de direito privado e a obediência hierárquica é 
um vínculo entre funcionários públicos.  

 

Passaremos agora para o terceiro elemento da 
culpabilidade. Vimos, então, a imputabilidade, 
a  exigibilidade  de  conduta  diversa  e,  agora, 
veremos, a potencial consciência da ilicitude.  

4. 

POTENCIAL 

CONSCIÊNCIA 

DA 

ILICITUDE 

A  ausência  de  potencial  consciência  da 
ilicitude ocorre quando o agente não tem como 
conhecer a ilicitude da conduta. Ou seja, esse 
agente sabe exatamente o que está fazendo, 
o seu erro não está em uma situação fática e 
sim em uma situação jurídica. Ele acha que a 
sua conduta é lícita. 

A  ausência  de  potencial  consciência  da 
ilicitude  vai  dar  ensejo  ao  ERRO  DE 
PROIBIÇÃO INEVITÁVEL. 

Erro  de  proibição  é  a  ausência  de  potencial 
consciência da ilicitude. Já o erro de proibição 
inevitável  é  quando  o  agente  não  tem 
consciência da ilicitude e não tinha como saber 
que a sua conduta é ilícita. 

Cite-se, como exemplo, o costume indígena de 
matar, logo após o parto, crianças que tenham 
nascido  com  algum  problema  físico.  Perceba 
que,  nesse  caso,  o  índio  não  integrado  em 
sociedade não tem como saber da ilicitude de 
sua conduta. Trata-se do que Zaffaroni chama 
de “erro culturalmente condicionado”.  

Frise-se,  mais  uma  vez,  que  o  erro  de 
proibição não repousa sobre a situação fática 
e  sim,  sobre  a  situação  jurídica.  Ou  seja,  o 
agente  sabe  o  que  está  fazendo,  tem 
consciência  de  sua  conduta,  o  que  ele  não 

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sabe (e não poderia saber) é que esta conduta 
é  considerada  ilícita  pelo  ordenamento 
jurídico. 

 

Erro  de  proibição  é  diferente  de  ERRO  DE 
TIPO. Este último é um erro sobre a situação 
fática. Ou seja, o agente sabe que determinada 
conduta  é  criminosa,  mas  ele  não  sabe  que 
está praticando a conduta.  

Um  exemplo  de  erro  de  tipo  ocorre  quando 
uma pessoa pega o celular de alguém achando 
que está pegando o seu. Nesse caso, o agente 
sabe que furto é um ilícito penal, o que ele não 
sabe é que está cometendo o furto (subtraindo 
para  si  coisa  alheia).  Perceba  que  o  erro  de 
tipo  recai  sobre  a  situação  fática,  que  é 
elementar do crime.  

O erro de proibição inevitável exclui a potencial 
consciência da ilicitude. Já o erro de tipo exclui 
o  dolo  e  permite  a  condenação  pela 
modalidade  culposa  se  houver  previsão  para 
tanto. Se não houver previsão de modalidade 
culposa,  não  haverá  conduta  penalmente 
relevante e o fato será considerado atípico. 

No  exemplo  narrado  acima,  não  há  previsão 
legal  de furto  na modalidade  culposa,  logo,  o 
fato será considerado atípico.  

Mas, se, por exemplo, um sujeito está em uma 
caçada,  avistou  um  animal  em  um  arbusto, 
dispara  tiros  e  depois  descobre  que  não  era 
um animal, mas um ser humano esta será uma 
hipótese de erro de tipo, já que o agente tem 
consciência  de  que  “matar  alguém”  é  uma 
conduta  típica,  mas  não  sabe  que  está 
praticando  esta  conduta  (é  um  erro  sobre  a 
situação fática). Nesse caso, como há previsão 
legal  de  homicídio  na  modalidade  culposa,  o 
dolo será excluído e essa pessoa responderá 
por homicídio culposo.  

Essa  exclusão  do  dolo  e  condenação  pela 
modalidade culposa, admitida no erro de tipo, 
é chamada de CULPA IMPRÓPRIA.  

 

Lembremos que não se admite a tentativa na 
sua  modalidade  culposa,  salvo  no  caso  da 
culpa  imprópria,  que  é  aquela  que  deriva  do 
erro de tipo. Então, se, no caso narrado acima, 
a pessoa que sofreu os disparos sobreviver, o 
agente  responderá  por  crime  culposo  (culpa 
imprópria) tentado. 

Portanto, a culpa imprópria é a única hipótese 
em  que  se  admite  a  culpa  na  modalidade 
tentada!!  

ERRO  SOBRE  A  PESSOA  (ou  error  in 
personae)  

O  agente,  por  engano,  pratica  o  crime  sobre 
pessoa diversa da qual ele pretendia.  

Assim,  o  agente  mata  B  acreditando  estar 
matando A. Nesse caso, ele vai responder pela 
morte de A. É um caso de ficção jurídica. Ele 
responde  pela  morte  de  uma  pessoa que,  na 
verdade, está viva.  

Ou  seja,  no  erro  sobre  a  pessoa,  o  agente 
responde de acordo com o seu dolo, com a sua 
vontade. 

Cite-se,  como  exemplo,  uma  mãe  que,  sob 
influência do estado puerperal, vai ao berçário 
para matar o próprio filho. Ocorre que, ela se 
enganou e matou o filho de outra pessoa. Se 
essa  mãe  responder  pela  morte  do  recém-
nascido,  que  ela  de  fato  matou,  incorrerá  em 
homicídio qualificado (pena de 12 a 30 anos). 
Mas, como se trata de hipótese de erro sobre 
a  pessoa,  ela  responderá  como  se  tivesse 
matado  o  seu  filho,  ou  seja,  como  se  tivesse 
cometido infanticídio,  cuja pena é de 02 a 06 
anos.  

O erro sobre a pessoa não beneficia o réu em 
todos  os  casos.  Veja  o  caso  de  uma  pessoa 

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que deseja matar o próprio pai, para ficar com 
a herança, mas se engana e mata o tio. Nesse 
caso ele responde como se tivesse matado o 
próprio  pai,  incorrendo  em  homicídio  por 
motivo torpe.  

ERRO NA EXECUÇÃO (previsto no art. 73 do 
Código Penal e também chamado de aberratio 
ictos). 

Ocorre quando o agente erra na execução do 
crime. Por exemplo, o agente deseja atirar em 
A, mas erra o tiro e acerta B.  

O  erro  de  execução  tem  a  mesma 
conseqüência do erro sobre a pessoa! Ou seja, 
o agente responde como se tivesse atingido a 
pessoa  que  realmente  queria  atingir.  Ele 
responde de acordo com a sua intenção.  

Um  exemplo  muito  comum  de  erro  na 
execução ocorre quando um policial, em troca 
de  tiros,  acaba  acertando  uma  pessoa 
inocente que estava passando na rua. Nessa 
hipótese, haverá erro na execução e, em assim 
sendo,  o  policial  responde  como  se  tivesse 
atirado  na  pessoa  que  ele  queria  acertar,  no 
caso,  o  bandido que  também  estava  atirando 
nele. E, se ele tivesse acertado esse bandido, 
estaria em legítima defesa, excluindo assim, a 
ilicitude do fato. 

CONCURSO DE CRIMES 

Concurso  de  crimes  (também  chamado  de 
concursos  delictorum)  se  diferencia  do 
concurso 

de 

pessoas 

(concursos 

deliquentium)  por  que,  no  primeiro,  a 
pluralidade  é  objetiva,  ou  seja,  diz  respeito  a 
mais de um crime. Já o concurso de pessoas 
diz  respeito  a  mais  de  um  criminoso,  nesse 
caso, a pluralidade é subjetiva. 

O concurso de crimes pode ser: 

1. 

Concurso material (ou concurso real) = 

mais de uma ação ou omissão 

1.1. 

Homogêneo:  Crimes  iguais.  Ex.:  Dois 

homicídios 

1.2. 

Heterogêneo:  Crimes  distintos.  Ex. 

Homicídio e lesão corporal 

2. 

Concurso formal (ou concurso ideal) = 

uma ação ou omissão 

2.1. Homogêneo 

2.2. Heterogêneo 

2.3.  Próprio: O agente não tinha a intenção de 
praticar mais de um crime 

2.4.  Impróprio:  O  agente  tinha  a  intenção  de 
praticar mais de um crime 

3. 

Continuidade 

delitiva 

(ou 

crime 

continuado) 

1. 

CONCURSO MATERIAL:  

Ocorre quando há mais de um crime mediante 
mais  de  uma  ação  ou  omissão.  Ex:  estupro 
seguido de morte. Nesse caso, são duas ações 
distintas  que  deram  ensejo  a  dois  crimes 
(estupro e homicídio).  

O concurso material poderá ser homogêneo ou 
heterogêneo.  Será  homogêneo  quando  o 
agente  pratica  o  mesmo  crime  várias  vezes 
(ex.  dois  homicídios).  Será  heterogêneo 
quando os crimes praticados pelo agente são 
distintos (ex. estupro e homicídio).  

Consequência:  “aplicação  do  critério  de 
cúmulo material das penas”, ou seja, haverá a 
soma das penas. No exemplo narrado acima, 
o agente responderá pelo estupro e pelo crime 
de homicídio.  

2. 

CONCURSO  FORMAL  (ou  concurso 

ideal) 

Nesse  caso,  há  mais  de  um  crime  praticado 
mediante apenas uma ação ou omissão.  

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O  concurso  formal  também  poderá  ser 
homogêneo ou heterogêneo. Será homogêneo 
quando  a  ação  praticada  pelo  agente 
ocasionar vários crimes semelhantes (ex.: uma 
bomba que mata várias pessoas). O concurso 
formal  heterogêneo  ocorre  quando  o  agente 
pratica  crimes  distintos  mediante  uma  ação 
(ex.:  o  agente  aciona  uma  bomba  que  mata 
pessoas e fere outras).  

O concurso formal também poderá ser dividido 
em próprio ou impróprio. 

a) 

Concurso 

formal 

impróprio: 

Há 

concurso  formal  impróprio  quando  existem 
desígnios  autônomos.  Significa  dizer  que  o 
agente,  desde  o  início,  tinha  a  intenção  de 
praticar  mais  de  um  crime  com  a  sua  ação. 
Ocorre,  por  exemplo,  quando  uma  pessoa 
aciona  explosivos  em  um  carro  sabendo, 
desde o inicio, as pessoas que estariam nele. 
Nesse  caso,  o  indivíduo  tinha  a  intenção  de 
matar as pessoas que estavam naquele carro.  

Quando  o  concurso  é  impróprio  serão 
aplicadas  as  mesmas  regras  do  concurso 
material, ou seja, haverá cumulação de penas. 
Nesse  caso,  o  agente  responderia  pelos  dois 
crimes, com as penas somadas.  

b) 

Concurso  formal  próprio:  não  existem 

desígnios  autônomos.  O  agente  não  tinha  a 
intenção (o dolo) de praticar mais de um crime. 
O  concurso  formal  será  próprio  se,  por 
exemplo, o agente aciona o explosivo no carro 
da vítima acreditando que ela estaria sozinha, 
e acaba matando outra pessoa, o que não era 
a sua intenção. Ou seja, não havia o dolo de 
praticar dois crimes.  

Quando o concurso é próprio, em regra, aplica-
se o critério da exasperação (e não do cúmulo 
material). De acordo com esse critério, a pena 
será somada de 1/6 até 1/2. Portanto, haverá 
a  aplicação  da  pena  mais  grave  e  a 
exasperação desta, de 1/6 até 1/2.  

Importante destacar, contudo, que poderá ser 
aplicado o critério do cúmulo material se este 
for  mais  benéfico  para  o  réu  que  cometeu  o 
crime formal próprio. Nesse caso, afasta-se o 
critério da exasperação e aplica-se o critério do 
cúmulo material.  

 

Portanto, para o concurso impróprio aplica-se 
s

empre o critério do “cúmulo material”. Mas se 

o concurso é próprio, o critério a ser aplicado 
será o do “cúmulo material benéfico”.  

Em síntese, no concurso formal próprio, a priori 
será  aplicado  o  critério  da  exasperação, 
contudo, aplica-se o critério do cúmulo material 
se este for mais benéfico ao réu. 

3. 

CRIME 

CONTINUADO 

(ou 

continuidade delitiva) 

Ocorre quando existem mais de um crime, da 
mesma  espécie,  praticados  nas  mesmas 
circunstâncias  de  tempo,  lugar,  modo  de 
execução  ou  outras  circunstâncias.  Neste 
caso, 

os 

crimes 

subseqüentes 

são 

considerados  meras  continuações  do  mesmo 
crime. Trata-se de uma ficção jurídica. 

Exemplo: imagine um empregado que comete 
pequenos  furtos,  em  pequenos  espaços  de 
tempo,  na  empresa  em  que  trabalha.  Nesse 
caso,  não  haverá  a  soma  das  penas  de furto 
por tratar-se de hipótese de crime continuado.  

Conseqüência: 

aplica-se 

critério 

da 

exasperação,  de  modo  que  será  aplicada  a 
pena  do  crime  mais  grave  (se  forem  crimes 
diferentes), aumentando-a de 1/6 a 2/3.  

Contudo,  se  a  regra  do  cúmulo  material  for 
mais benéfica ao réu, esta será aplicada. 

STJ 

defende 

que 

“as 

mesmas 

circunstâncias  de  lugar”  deve  ser  entendida 
como a mesma municipalidade.    

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Para  a  doutrina,  “crimes  da  mesma  espécie” 
são aqueles crimes que atingem o mesmo bem 
jurídico.  É  possível  se  falar  em  continuidade 
delitiva  no  caso  de  furto  e  estelionato,  por 
exemplo, já que ambos atingem o bem jurídico 
“patrimônio”.  

 

Contudo,  a  jurisprudência  não  entende  da 
mesma  forma!  Para  os  tribunais,  “crimes  da 
mesma  espécie”  devem  ter  o  mesmo  tipo 
penal.  De  acordo  com  esse  entendimento, 
poderia haver  crime continuado entre dois ou 
três furtos, mas não seria possível a aplicação 
de tal instituto no caso de furto e estelionato, 
por  que  são  dois  tipos  distintos.  Importante 
destacar,  contudo,  que  esse  entendimento 
jurisprudencial  foi  flexibilizado  em  2012, 
quando  o  STJ  admitiu  a  aplicação  da 
continuidade  delitiva  entre  o  crime  de 
apropriação  indébita  previdenciária  (art.  168-
A)  e  o  crime  de  sonegação  de  contribuição 
previdenciária (art. 337-A). 

Aplica-se  a  continuidade  delitiva  em  caso  de 
sucessivos crimes contra a vida? CUIDADO! A 
Súmula  605  do  STF  afirma  que  não  cabe  o 
instituto  da  continuidade  delitiva  no  caso  de 
crimes  contra  a  vida.  Essa  súmula  não  se 
aplica  mais!  A  reforma  de  1984  foi  clara  ao 
permitir  a  aplicação  de  tal  regra  em  caso  de 
crimes contra a pessoa, e crimes contra a vida 
nada  mais  são  do  que  espécies  do  gênero 
“crimes contra a pessoa”.  

Portanto, aplica-se o instituto da continuidade 
delitiva  nos  casos  de  crime  contra  a  pessoa. 
Contudo,  nesse  caso,  é  possível  que  haja  a 
exasperação  da  pena  até  o  triplo,  caso  a 
aplicação  do  cúmulo  material  não  seja  mais 
benéfica ao réu.  

CONCURSO  DE  PESSOAS  (Concursus 
deliquentium) 

É a pluralidade subjetiva no crime, ou seja, é a 
pluralidade  de  criminosos,  de  agentes,  de 
sujeitos ativos. 

1.  Classificação  dos  crimes  quanto  ao 
concurso de pessoas: 

a) 

Crimes 

monossubjetivos 

(também 

chamados  de  unissubjetivos  ou  crimes  de 
concurso  eventual):  é  aquele  em  que  pode 
haver,  ou  não,  pluralidade  de  agentes.  Ex.  o 
homicídio  pode  ser  praticado  por  uma  ou  por 
várias pessoas. 

b) 

Crimes 

plurissubjetivos 

(Também 

chamados de crimes de concurso necessário): 
é  aquele  crime  em  que  necessariamente 
haverá  concurso  de  pessoas.  Ex.  crime  de 
quadrilha  ou  bando,  art.  288  do  CP (tem que 
haver,  no  mínimo,  04  pessoas),  crime  de 
associação  para  o  tráfico  (no  mínimo  02 
pessoas), crime de rixa, etc.  

2. REQUISITOS 

a) 

Pluralidade de agentes 

b) 

Unidade delitiva: esses agentes devem 

praticar o mesmo crime.  

c) 

Relevância  causal  e  jurídica  de  cada 

uma das condutas: Para que haja o concurso 
de  pessoas  é  necessário  que  mais  de  um 
agente  tenha  contribuído  para  o  crime,  se 
apenas um tiver feito absolutamente tudo, não 
há de se falar em concurso de pessoas. 

d) 

Liame subjetivo entre os criminosos: é 

o  acordo  de  vontade  entre  os  criminosos. Os 
agentes 

precisam 

querer 

praticar, 

em 

conjunto,  o  crime.  Se,  por  exemplo,  A, 
quisesse matar B e C também quisesse matar 
a  mesma  pessoa,  no  mesmo  momento,  mas 
não tivessem planejado praticar o crime em co-
autoria, não haverá concurso de pessoas, por 
que  não  há  liame  subjetivo  entre  esses 
agentes. Em síntese, no exemplo narrado não 
existe  co-autoria  e  sim,  autoria  colateral,  em 

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26

 

que A é autor do crime assim como C, mas não 
há concurso entre eles. 

Importante 

destacar 

que 

esse 

vínculo 

psicológico 

deverá 

ser 

anterior 

ou 

concomitante  à  conduta  criminosa!  Ocorre  o 
vínculo anterior quando os agentes planejam, 
previamente,  praticar  o  crime.  Já  o  crime 
concomitante  ocorre  quando  alguém  adere  a 
uma  conduta  criminosa  que  já  se  iniciou,  por 
exemplo,  uma  pessoa  que  vê  o  amigo 
espancando  alguém  e,  ao  invés  de  evitar  a 
conduta criminosa (no caso, a lesão corporal), 
passa  também  a  espancar  a  vítima.  Logo,  o 
vínculo subjetivo jamais poderá ser posterior à 
conduta.  

3.  MODALIDADES  DE  CONCURSOS  DE 
PESSOAS 

a) 

Coautoria: quando há mais de um autor 

do crime. Autor é aquele que pratica a conduta 
principal,  ou  seja,  é  o  principal  agente  do 
crime. 

b) 

Coparticipação: partícipe é aquele que 

tem  uma  conduta  de  menor  relevância.  É, 
portanto,  o  agente  secundário  do  crime.  Não 
existe partícipe se não houver autor (no direito 
penal também vige a regra de que “o acessório 
segue o mesmo destino do 

principal”). Logo, se 

A  induz  B  a  matar  alguém  e  este  comete  o 
crime, A será partícipe do crime de homicídio, 
no qual B é o autor. Contudo, se A não cometer 
o  crime,  apesar  do  induzimento  de  B,  não 
haverá autoria, portanto, não haverá partícipe.  

A participação poderá ser: 

 

b.1)  Moral  (também  chamada  de 

participação intelectual): será o induzimento ou 
a instigação.   Induzir é criar a idéia do crime. 
Na  instigação,  o  partícipe  reforça  uma  idéia 
pré-existente.  

 

b.2)  Material:  É  o  auxílio.  Ex:  fornecer 

munição para que o autor pratique o crime, dar 
carona  ao  autor  (sabendo  de  sua  intenção 

delitiva) até o local onde a vítima se encontra, 
etc. 

Importante  destacar,  ainda,  que  não  existe 
participação culposa em crime doloso. Dolo é 
consciência e vontade, assim, se o autor tiver 
agido  com  dolo  só  haverá  partícipe  se  este 
também  tiver  agido  com  dolo.  Logo,  se  A 
vende  munição  para  B  e  este  pratica, 
dolosamente, o crime de homicídio, A só será 
considerado  partícipe  se  tiver  consciência  da 
intenção de B. Mas se A tiver agido com culpa, 
ou seja, se ele tiver sido imprudente ao vender 
a arma, mas não tinha consciência da vontade 
delitiva de B, ele não poderá responder como 
partícipe no crime de homicídio.  

4.  Teorias  que  estudam  a  punibilidade  no 
concurso de pessoas.  

a) 

Teoria  Monista  (também  chamada  de 

teoria unitária): Para esta, autores e partícipes 
respondem pelo mesmo crime, na medida da 
sua  culpabilidade.  Essa  é  a  regra  no  Brasil, 
conforme  prevê  o  art.  29  do  Código  Penal. 
Então,  aquele  que  é  partícipe  no  crime  de 
homicídio responderá pelo mesmo tipo penal, 
ocorrendo apenas uma diminuição da pena. 

b) 

Teoria  Dualista:  O  autor  responde  por 

um  crime  e  o  partícipe  por  outro  crime.  Se  o 
Brasil  adotasse  a  teoria  dualista  haveria,  por 
exemplo,  o  crime  de  homicídio  e  outro  crime 
cujo  tipo  seria  “participação  no  crime 
homicídio”.  

c) 

Teoria  Pluralista:  Para  esta  teoria,  há 

tantos crimes quantos forem os agentes.  

O  Brasil  adota  a  teoria  monista  mitigada 
(moderada,  matizada  ou  temperada),  já  que 
admite exceções. Portanto, em regra, autores 
e partícipes respondem pelo mesmo crime, na 
medida  de  sua  culpabilidade, salvo  quando  a 
lei  dispõe  em  sentido  contrário.  No  crime  de 
corrupção, por exemplo, o funcionário público 
corrupto  responde  pelo  crime  de  corrupção 
passiva  e  o  particular  (corruptor)  responderá 

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pelo crime de corrupção ativa. Outro exemplo 
ocorre no caso de aborto. A gestante que vai 
até a clínica a fim de fazer o aborto responde 
por  um  tipo  de  aborto  cuja  pena  é  de  1  a  3 
anos, já o médico, que é um terceiro, responde 
por outro tipo de aborto, cuja pena é de 1 a 4 
anos. Outra exceção é o crime de contrabando 
ou  descaminho  auxiliado  por  funcionário 
público, neste caso, o particular responde pelo 
tipo  penal  contrabando  (art.  334  do  Código 
Penal)  e  o  funcionário  público  responde  pelo 
crime de facilitação ao contrabando, art. 318.  

5. Teorias sobre a autoria (Conceitos de autor) 

Analisando  quem  é  o  autor,  chegamos  ao 
partícipe  já  que  este  pode  ser  definido  como 
aquele  que  contribui  com  o  crime  sem  ser  o 
autor.  

a) 

Teoria  objetivo-formal  (que  trabalha 

com um conceito restritivo de autoria): Durante 
muito tempo, foi a teoria majoritária no Brasil. 
Para esta, autor é aquele que realiza o núcleo 
do tipo (o verbo do tipo penal). Dessa forma, o 
autor do homicídio é aquele que realiza o verbo 
“matar”, o autor do furto é quem realiza o verbo 
“subtrair”. Nesse caso, partícipe é qualquer um 
que tenha contribuído, de alguma forma, para 
o crime sem realizar o verbo.  

b) 

Teoria  objetivo-material  (que  trabalha 

com um conceito extensivo de autoria): Nunca 
foi  acolhida  no  Brasil.  Essa  teoria  não 
diferencia  autores  e  partícipes.  Assim, 
qualquer pessoa que tenha colaborado para o 
crime seria autor. 

c) 

Teoria  Subjetiva:  Também  nunca  foi 

adota no Brasil. Para esta, autor é aquele que 
quer o crime como próprio e partícipe é aquele 
que quer o crime como alheio. “Querer o crime 
como  próprio”  é  ter  o  interesse  pessoal  na 
conduta criminosa.  

Dessa forma, imaginemos a hipótese de uma 
pessoa que  deseja  se  vingar  da  outra  e  para 
isso,  induz  alguém  a  praticar  lesão  corporal. 

Para  a  teoria  objetivo-formal,  aquele  que 
praticou  a  lesão  será  o  autor  e  aquele  que 
praticou  o  induzimento  seria  o  partícipe.  Já 
para a teoria objetivo-material, os dois seriam 
autores,  já  que,  de  acordo  com  esta,  não  há 
diferença  entre  autoria  e  participação.  Para  a 
teoria  subjetiva,  no  entanto,  o  autor  seria 
aquele  que  tinha  o  interesse  pessoal  em 
praticar a lesão corporal, (ainda que não tenha 
sido  ele  a  praticar  o  crime),  e  partícipe  seria 
aquele que tinha o interesse alheio na conduta. 

d) 

Teoria do domínio do fato (que trabalha 

com  um  conceito  chamado  de  “objetivo-
subjetivo):  É  a  teoria  consagrada  pelo 
ordenamento jurídico brasileiro, de acordo com 
o entendimento do STF. Surgiu com o objetivo 
de  suprir  algumas  deficiências  da  teoria 
objetivo-formal e a principal delas repousa na 
questão do “mandante”.  

Assim, de acordo com a teoria objetivo-formal, 
se A contrata B para matar alguém, apenas B 
seria o autor do crime, já que só ele praticou o 
verbo  do  tipo  (matar)  e  A,  apesar  de  ser  o 
mandante, responderia penas como partícipe. 

Com o objetivo de suprir essa lacuna, a teoria 
do  domínio  do  fato  propugna  a  idéia  de  que 
autor não é apenas aquele que realiza o núcleo 
do  tipo  e  sim  aquele  que  tem  pleno  domínio 
sobre  o  desdobramento  causal  da  conduta 
criminosa, ou seja, é aquele que domina “se o 
crime  vai  ocorrer”,  “como  vai  ocorrer”  e 
“quando vai ocorrer”. 

6.  Teorias  da  Acessoriedade  (são  as  teorias 
acerca da punibilidade do partícipe): 

a) 

Teoria da acessoriedade Mínima: Para 

esta, o partícipe será punido se o autor praticar 
um fato típico.  

b) 

Teoria  da  acessoriedade  limitada:  O 

partícipe  será  punido  se  o  autor  praticar  um 
fato típico e ilícito. Essa é a doutrina adotada 
no Brasil. Assim, o partícipe não responde pelo 
crime  se  o  autor  praticar  um  fato  típico,  mas 

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amparado  por  uma  das  excludentes  de 
ilicitude.  Contudo,  o  partícipe  responde  de 
acordo com a sua culpabilidade e não com  a 
culpabilidade  do  autor.  Assim,  se,  por 
exemplo,  A  instiga  B  a  matar  alguém,  A 
responderá como partícipe do crime ainda que 
o  autor  seja  menor  de  idade.  Ou  seja,  nesse 
caso,  o  autor  cometerá  um  fato  típico,  ilícito, 
mas  não-culpável  (já  que  menoridade  é  uma 
das 

hipóteses 

de 

excludente 

da 

imputabilidade), 

responderá 

como 

partícipe no crime de homicídio.  

c) 

Teoria  da  acessoriedade  máxima:  o 

partícipe  será  punido  se  o  autor  praticar  um 
fato típico, ilícito e se tiver culpabilidade 

d) 

Teoria  da  hiperacessoriedade:  Só  há 

punição do partícipe de o autor praticar um fato 
típico, ilícito, culpável e punível. 

7. Cooperação dolosamente distinta 

Neste caso, há dolos distintos: um dos agentes 
possui o dolo de praticar um crime mais grave 
e o outro de praticar um crime menos grave. 

Um  exemplo  muito  ventilado  em  nossa 
doutrina 

ocorre 

quando 

duas 

pessoas 

ingressam  em  uma  residência  para  furtar  e, 
acreditando  que  a  residência  estava  vazia, 
esses  agentes  se  separam,  um  deles  se 
dirigindo à região dos quartos. Chegando a um 
dos  quartos,  um  desses  agentes  encontra  a 
dona  da  residência  dormindo  e  a  estupra. 
Perceba  que  o  sujeito  que  estava  no  andar 
térreo  não  tinha  consciência  de  que  tinha 
alguém  na  casa,  só  tendo  a  intenção  de 
praticar  o crime  de furto.  Nesse  caso,  aquele 
que tinha a intenção de praticar crime menos 
grave, reponde apenas pelo seu dolo. 

Contudo, 

digamos 

que, 

nessa 

mesma 

hipótese,  o  agente  não  praticou  o  crime  de 
estupro, mas tinha consciência de que haveria 
essa possibilidade, ou seja, ele quis praticar o 
crime  de  furto,  mas  sabia  que  o  estupro  era 
possível, neste caso, esse agente continuará a 

responder  pelo  crime  menos  grave,  mas 
haverá um aumento de pena de, até, a metade.  

8.  Comunicabilidade  das  condições  pessoais 
do agente 

Reza o art. 30 do nosso Código Penal, que as 
condições  pessoais  de  um  agente  não  se 
comunicam ao outro (ao co-autor ou partícipe) 
salvo  se  forem  elementares  do  crime. 
Condição pessoal é aquela que diz respeito ao 
criminoso, e não ao crime. 

Portanto,  a  condição  pessoal  de  um  dos 
agentes não se comunica ao outro, salvo se for 
uma condição elementar do crime. Elementar, 
por sua vez, é aquilo que integra o tipo penal 
como  parte  essencial,  ou  seja,  elementar  é 
aquilo  que,  se  retirado,  o  tipo  penal  não 
sobrevive.  

Assim, digamos que A, funcionário público no 
exercício de sua função, contando com a ajuda 
de  B,  particular,  subtrai  algum  bem  da 
repartição  pública.  Esse  funcionário  público 
responderá  pelo  crime  de  peculato.  Neste 
caso,  ser  funcionário  público  é  condição 
pessoal  do  autor,  contudo,  essa  condição 
pessoa é elementar do crime, por que, sem a 
característica “funcionário público”, o crime de 
peculato perde a sua natureza. Então, perceba 
que  ser  funcionário  público  é  condição 
fundamental  para  que  possamos  falar  em 
crime  de  peculato.  Portanto,  nessa  hipótese, 
B,  particular,  passa  a  ser  tratado  como 
funcionário  público  (pois  se  trata  de  hipótese 
de  condição  pessoal  elementar  do  crime) 
incidindo, também, em crime de peculato. 

Quando  a  condição  pessoal  do  agente  não  é 
elementar  do  crime,  será  uma  circunstância. 
Portanto, circunstância do crime é aquilo que, 
se  for  retirado  do  tipo  penal,  não  o 
descaracterizará. Ex.: furto mediante repouso 
noturno.  O  crime  de  furto  não  será 
descaracterizado  se  não  ocorrer  mediante  o 
repouso noturno, ou seja, o repouso noturno é 

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mera circunstância, não é condição elementar 
do crime. 

Uma  questão  muito  debatida  em  sede 
doutrinária  diz  respeito  à  hipótese  do 
infanticídio, crime praticado pela mãe, durante, 
ou logo após, o parto, durante a influência do 
estado puerperal. Se, por exemplo, a mãe, sob 
a influência do estado puerperal, se dirige ao 
berçário com o intuito de matar seu filho e, lá 
chegando,  conta  a  ajuda  de  uma  enfermeira, 
que a auxilia na consumação do delito. Nesse 
caso,  ser  mãe  sob  a  influência  do  estado 
puerperal  é  condição  elementar  para  a 
configuração  do  crime  de  infanticídio,  logo, 
essa  condição  pessoal  da  mãe  irá  se 
comunicar  à  enfermeira  e  esta  responderá, 
também, pelo crime de infanticídio. Trata-se de 
uma solução esdrúxula do Código Penal. É por 
isso que Nelson Hungria entende que o estado 
puerperal  da  mãe  não  é  condição  pessoal  e 
sim, personalíssima, pelo que não haveria de 
se falar, nesse caso, em condição elementar. 
Ocorre que essa tese defendida pelo autor não 
vigorou em nosso ordenamento.  

PARTE ESPECIAL DO CÓGICO PENAL 

         CRIMES CONTRA A PESSOA 

1. 

CRIMES CONTRA A VIDA 

Estes se dividem em 04 espécies, a saber: 

a) 

Homicídio 

b) 

Infanticídio 

c) 

Instigação e auxílio ao suicídio 

d) 

Aborto 

1) HOMICÍDIO 

O homicídio poderá ser doloso ou culposo. É o 
único  crime  contra  a  vida  que  admite  a 
modalidade culposa. 

O  homicídio  doloso  poderá  ser  privilegiado, 
simples ou qualificado. 

• 

HOMICÍDIO 

a) 

Doloso:  

a.1)  Privilegiado 

a.2) Qualificado (pena de 12 a 30 anos) 

a.3) Simples (pena de 06 a 20 anos) 

b) 

Culposo 

a.1) Homicídio Privilegiado 

 

Não  é  uma  expressão  utilizada  pelo 

Código.  Em  verdade,  homicídio  privilegiado 
nada mais é do que um homicídio (simples ou 
qualificado) com uma causa de diminuição de 
pena.  Há  duas  hipóteses  em  que  se  incidem 
causas de diminuição de pena: 

1. 

Quando  o  homicídio  é  praticado 

mediante  motivo  de  relevante  valor  social  ou 
moral 

2. 

Quando  o  homicídio  é  praticado  por 

alguém que está sobre o domínio de violenta 
emoção  logo  após  a  injusta  provocação  da 
vítima. 

1. 

Motivo de grande valor social ou moral 

Valor  social  é  um  valor  que  diz  respeito  à 
coletividade,  ela  não  exclui  a  reprovabilidade 
da 

conduta, 

mas 

ameniza 

essa 

reprovabilidade  já  que  diminui  a  pena  do 
homicídio em até 1/3. Um exemplo de motivo 
de  grande  valor  social  é  “matar  o  traidor  da 
pátria”. 

Valor  moral  não  diz  respeito  à  coletividade, 
mas a valores intrínsecos ao indivíduo. Ex. Um 
sujeito  que  mata  o  estuprador  de  sua  filha.  
Perceba  que,  nesse  caso,  não  haverá 
exclusão  da  ilicitude  com  base  em  legítima 
defesa  de  outrem  por  que  a  agressão  não  é 
atual  e  nem  iminente.  Da  mesma  forma,  não 
haverá  exclusão  da  culpabilidade  por  que  o 
Estado  não  confere  à  ninguém  o  direito  de 
exercitar  a  vingança  privada.  Contudo,  será 

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uma hipótese de diminuição da pena em razão 
do grande valor moral. 

2. 

Homicídio  praticado  sob  o  domínio  de 

violenta 

emoção 

logo 

após 

injusta 

provocação da vítima. 

Primeiramente,  é  importante  destacar  que  o 
homicídio só será privilegiado se for praticado 
sob  o  domínio  de  violenta  emoção,  ou  seja, 
não haverá se falar em causa de diminuição de 
pena  se  o  agente  estiver,  apenas,  sob  mera 
influência da emoção.  

Outra  questão  que  importante  para  se 
configurar  o  homicídio  privilegiado  é  a 
existência de provocação da vítima. Não se faz 
necessário  que  haja  agressão  da  vítima,  a 
mera provocação já configura uma hipótese de 
atenuação da pena. 

a.2) Homicídio qualificado 

Hipóteses de incidência: 

1. 

Quando  o  homicídio  é  praticado 

mediante paga, promessa de recompensa ou 
outro  motivo  torpe:  A  diferença  entre  os  dois 
casos é que, na “paga” o mandante do crime já 
pagou  ao  executou,  e  na  “recompensa”  o 
mandante ainda irá pagar. Motivo torpe é um 
motivo  de  maior  reprovabilidade  como,  por 
exemplo, matar o pai para ficar com a herança. 

2. 

Motivo  Fútil:  fútil  é  o  motivo  banal, 

irrelevante, insignificante. Por exemplo, matar 
por dinheiro é um motivo torpe, mas matar por 
uma quantia ínfima de dinheiro deixa de ser um 
motivo  torpe  e  passa  a  ser  um  motivo  fútil, 
banal. 

3. 

Homicídio  empregado  mediante  o 

emprego  de  arma  de  fogo,  veneno,  asfixia, 
tortura,  explosivo  ou  algum  outro  meio 
insidioso ou cruel de que possa resultar perigo 
comum. Como se nota, a terceira hipótese de 
homicídio qualificado se relaciona diretamente 
com  os  meios  de  execução.  Quanto  ao 

emprego  de  fogo,  é  importante  distinguir  o 
agente que mata a vítima queimada, incidindo, 
assim,  em  uma  hipótese  de  qualificadora,  e 
aquele  que  mata  a  vítima  e  depois  queima  o 
corpo, nesse caso, o fogo não é uma hipótese 
qualificadora  da  pena  de  homicídio  por  que 
não  houve  a  utilização  deste  para  executar o 
crime.  

4. 

Homicídio 

praticado 

mediante 

emboscada, dissimulação ou mediante algum 
outro  artifício  que  possa  dificultar  ou 
impossibilitar a defesa da vítima.  

5. 

Homicídio  praticado  para  assegurar  a 

execução, 

ocultação, 

impunidade 

ou 

vantagem de algum outro crime.  

5.1. 

Hipótese  de  homicídio  praticado  para 

assegurar  a  execução  de  outro  crime:  uma 
pessoa mata outra que sabia de sua intenção 
de roubar um banco. 

5.2. 

Ocultação: O crime já ocorreu e apenas 

uma pessoa o presenciou, para que esta não 
denuncie, o agente a mata. 

5.3. 

Impunidade: é aquela hipótese em que 

o crime já foi descoberto, mas o sujeito mata a 
testemunha. 

5.4. 

Assegurar a vantagem de outro crime: 

Dois  ladrões  roubam  um  banco  e  um  mata  o 
outro para ficar com todo o produto do roubo. 

Quando não houver nenhumas das hipóteses 
de  qualificadora  e  privilegiadora  o  homicídio 
será simples.  

O homicídio pode ser qualificado e privilegiado 
ao mesmo tempo? Sim, nas hipóteses em que 
houver  uma  qualificadora  objetiva,  nunca 
quando a qualificadora for subjetiva. 

Qualificadora  subjetiva  é  aquela  que  diz 
respeito à intenção do agente. Ex.: motivo fútil, 
torpe. Não podemos afirmar, por exemplo, que 
o  homicídio  praticado  por  um  agente  foi  por 

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motivo fútil e, ao mesmo tempo, de relevante 
valor social.  

Portanto, as privilegiadoras são incompatíveis 
com as qualificadoras subjetivas, aquelas que 
dizem respeito à intenção do agente. 

Contudo, 

é 

possível 

haver 

homicídio 

privilegiado  com  uma  qualificadora  objetiva. 
Por exemplo, um sujeito mata o estuprador da 
vítima (motivo de relevante valor moral) e, para 
tanto,  ele  mata  mediante  asfixia,  ou  veneno, 
explosivo, tortura enfim, qualquer qualificadora 
objetiva.    Neste  caso,  a  pena  do  homicídio 
qualificado (de 12 a 30 anos) e será diminuída 
em até 1/3. 

O homicídio qualificado é hediondo.  

O  homicídio  simples  só  será  hediondo  em 
apenas um caso: homicídio simples praticado 
em  atividade  típica  de  grupo  de  extermínio. 
Perceba  que  a  atividade  não  precisa  ser  de 
grupo de extermínio,  basta, apenas, que seja 
uma  atividade  típica  de  grupo  de  extermínio, 
ainda  que  seja  praticado  por  apenas  uma 
pessoa.  

Já  o  homicídio  privilegiado  nunca  será 
hediondo! Portanto, naquela hipótese em que 
há  um  crime  qualificado  e  privilegiado,  essa 
privilegiadora  retirará  o  caráter  hediondo  do 
crime. 

Além  das  qualificadoras,  existem,  para  o 
homicídio,  algumas  causas  de  aumento  de 
pena.  Portanto,  aumenta-se  a  pena  de 
homicídio quando este é praticado: 

a) Contra menos de 14 ou maior de 60 anos.  

b)  Em  2012,  foi  acrescido  o  §4º  ao  art.  121, 
para  contemplar  a  hipótese  de  aumento  de 
pena  quando  o  homicídio  é  praticado  por 
milícia.  

Milícia  é  uma  modalidade  específica  de 
quadrilha  (art.  288-A).  Trata-se  de  grupos 

armados  que  praticam  crime  a  pretexto  de 
garantir a segurança dos indivíduos.   

B) Homicídio Culposo 

Primeiramente,  é  importante  lembrar  que 
existe um homicídio culposo no Código Penal 
e  outro  no  Código  de  trânsito.  A  pena  de 
homicídio no código penal é de 01 a 03 anos, 
e no Código de Trânsito a pena é de 02 a 04 
anos.   

Para  o  homicídio  culposo  cabe  o  instituto  do 
perdão judicial!  

O perdão judicial ocorre nas hipóteses em que 
a lei permite que o juiz deixe de aplicar a pena 
quando as conseqüências do crime, por si só, 
já  são  graves  demais  para  o  agente.  Por 
exemplo,  um  pai  que,  culposamente,  mata  o 
filho. Neste caso, o Estado não precisa arbitrar 
nenhuma  penalidade  à  vítima,  pois  as 
conseqüências 

do 

seu 

ato 

já 

são 

demasiadamente graves para ele.  

No homicídio doloso não cabe perdão judicial! 

2)  INDUZIMENTO,  INSTIGAÇÃO  E  AUXÍLIO 
AO SUICÍDIO (art. 122) 

Neste  caso,  o  agente  não  é  partícipe,  ele  é 
autor,  porque  a  conduta  criminosa  é  induzir, 
instigar e auxiliar, cuja pena será a reclusão de 
02 a 06 anos. 

É  um  crime  que  só  existe  na  modalidade 
dolosa e só se consuma se a vítima realmente 
se  suicidar  ou,  quando  a  sua  tentativa  gera 
lesões  graves.  Se  as  lesões  forem  leves,  o 
agente também não responderá pelo crime.  

 

A  pena  para  o  induzimento,  instigação  ou 
auxílio  ao  suicídio  é  a  reclusão  de  02  a  06 
anos.  Mas  se  a  vítima  apenas  sofre  lesões 
graves  (não  chegando  a  se  suicidar)  a  pena 
será reduzida à metade, de 02 a 03 anos. Caso 

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ANALISTA JUDICIARIO DE TRIBUNAIS 

Direito Penal 

Fabio Roque 

32

 

a vítima seja menor ou estiver em situação de 
vulnerabilidade, essa pena será duplicada. 

Contudo,  só  haverá  crime  de  induzimento, 
instigação ou auxílio ao suicídio contra menor 
de  idade  se  este  menor  tiver  capacidade  de 
autodeterminação.  Portanto,  ajudar  uma 
criança  de  02  anos  a  pular  da  janela,  não  é 
caso de auxílio ao suicídio e sim, uma hipótese 
de  homicídio  qualificado.  Diferentemente 
ocorre  se  esse  auxílio  for  a  um  menor  de  17 
anos, neste caso, o menor possui capacidade 
de autodeterminação. 

Uma questão freqüente em prova diz respeito 
ao  pacto  de  morte.  Por  exemplo,  quando  um 
casal  resolve,  juntos,  cometer  um  suicídio, 
mas  um  deles  desiste  ou  sobrevive.  Outro 
exemplo é a prática da chamada “roleta russa”. 
O  sobrevivente,  nesses  casos,  responderam 
criminalmente pelo induzimento, instigação ou 
auxílio ao suicídio, conforme o caso concreto. 

3) INFANTICÍDIO (art. 123, CP) 

Pratica  o  infanticídio  a  mãe  que  mata  o  seu 
filho  durante,  ou  logo  após,  o  parto  sob  a 
influência  do  estado  puerperal,  incidindo  em 
pena de detenção de 02 a 06 anos. 

É uma hipótese de crime próprio (classificação 
que  toma  como  parâmetro  o  sujeito  ativo  da 
conduta).  Crime  próprio  é  aquele  que  exige 
uma qualidade especial daquele que o pratica, 
no caso, a agente deverá ser a mãe.  

A  doutrina  costuma  se  referir  ao  infanticídio 
como  um  crime  bipróprio,  por  que  ele  exige 
uma qualidade especial do agente e exige uma 
qualidade  especial  da  vítima.  Ou  seja,  é  um 
crime em que o sujeito ativo deve ser a mãe e 
o passivo (a vítima) deve ser o filho.  

Para  que  se  configure  o  infanticídio,  o  crime 
deverá ter sido praticado durante ou logo após 
o parto. Lembrando que o parto se inicia com 
a dilatação do colo do útero. Antes do inicio do 
parto não há de se falar em infanticídio e sim 

em aborto, vez que antes da dilatação do colo 
do útero a vida é intra-uterina.  

Caso  a  mãe,  sob  a  influência  do  estado 
puerperal,  mate,  por  engano,  o  filho  de  uma 
pessoa achando que era o seu filho, ela será 
responsabilizada  como  se  tivesse  matado  o 
próprio  filho.  Seria  uma  hipótese  de  erro 
quanto a pessoa.  

4) ABORTO 

Existem mais de uma espécie de aborto, como 
se pode observar: 

1. 

Aborto 

praticado 

pela 

gestante 

(autoaborto) 

2. 

Aborto praticado por terceiro 

2.1. 

Sem o consentimento da gestante 

2.2. 

Com o consentimento da gestante 

Lembrando que o único crime contra a vida em 
que  se  admite  a  modalidade  culposa  é  o 
homicídio.  Portanto,  só  existe  aborto  em  sua 
modalidade dolosa. 

Portanto, se a gestante ingere uma substância 
abortiva  sem  ter  conhecimento,  ela  não  será 
punida  pelo  crime  de  aborto  já  que  não  esse 
tipo penal não admite a modalidade culposa.  

O aborto praticado pela gestante (autoaborto) 
possui uma pena de 01 a 03 anos.  

No  crime  praticado  por  terceiro  com  o 
consentimento  da  gestante,  esse  terceiro 
responderá pelo crime de aborto com pena de 
01  a  04  anos  e  a  gestante  que  consentiu 
responde  como  se  tivesse  praticado  o 
autoaborto, cuja pena é de 01 a 03 anos.  

Se  o  crime  é  praticado  por  terceiro  sem  o 
consentimento  da  gestante  a  pena  será  mais 
grave,  de  03  a  10  anos.  E  se,  em  virtude  do 
aborto,  a  gestante  morrer,  será  o  caso  de 
aborto qualificado pela morte. 

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Direito Penal 

Fabio Roque 

33

 

Há  casos  de  aborto  que  são  permitidos  pelo 
nosso  Código  Penal.  Nesses  casos,  o  aborto 
deverá  ser  realizado  por  médico,  conforme 
dispõe  Código  Penal.  Contudo,  se,  incidindo 
em alguma das hipóteses de aborto permitido 
no  Brasil,  este for realizado  por  outra  pessoa 
que  não  um  médico  (uma  parteira,  por 
exemplo), é possível que se faça uma analogia 
em bonam partem.  

Hipóteses de aborto permitidas no Brasil: 

a) 

Aborto  necessário:  é  aquele  realizado 

por  médico  quando  há  risco  de  vida  da 
gestante. 

b) 

Aborto  Humanitário:  ocorre  quando  a 

gravidez resulta do estupro. 

Não se faz necessário uma autorização judicial 
para  que  se  realize  qualquer  dessas  duas 
espécies de aborto permitidas pela legislação.  

Importante  lembrar,  ainda,  que  o  Supremo 
Tribunal  Federal  permitiu  a  antecipação 
terapêutica  da  gravidez  na  hipótese  de  feto 
com anencefalia.  

Encerramos,  aqui,  as  hipóteses  de  crime 
contra a vida. Lembrando, contudo, que crimes 
contra a vida nada mais são do que espécies 
do  gênero  “crimes  contra  a  pessoa”.  Dessa 
forma, passaremos para uma outra espécie de 
crimes  contra  a  pessoa,  qual  seja,  crimes 
contra a honra. 

DOS CRIMES CONTRA A HONRA 

Os  crimes  contra  a  honra  podem  ser 
praticados  verbalmente,  por  escrito  ou,  até 
mesmo, gestualmente.  

Se os crimes contra a honra forem praticados 
verbalmente  eles  serão  unissubsistentes  e, 
portanto,  não são admissíveis na modalidade 
tentada. 

Se  tais  crimes  forem  praticados  por  escrito, 
neste caso já se admite a tentativa. 

Primeiramente,  é  imprescindível  traçarmos 
uma  diferenciação  entre  Honra  objetiva  e  a 
subjetiva. 

1. 

Honra Objetiva - Há violação da honra 

objetiva nas hipóteses de: 

1.1. 

Calúnia 

1.2. 

Difamação 

2. 

Honra Subjetiva 

– Há violação da honra 

subjetiva nos casos de: 

2.1 Injúria 

1. 

Honra  Objetiva 

–  É  a  reputação  do 

indivíduo,  a  imagem  que  ele  tem  em 
sociedade.  “É  a  idéia  que  os  outros  têm  de 
você”. Todos os indivíduos têm honra objetiva. 
Até a pessoa jurídica possui honra objetiva, já 
que esta também possui uma reputação social 
diante 

de 

seus 

consumidores, 

sócios, 

concorrentes, etc.  

2. 

Honra  Subjetiva 

–  Diz  respeito  à 

autoestima.  ”É  a  idéia  que  você  faz  de  si 
mesmo”.  A  pessoa  jurídica  não  tem  honra 
objetiva por que ela não tem consciência de si.  

1) CALÚNIA 

Caluniar  é  imputar,  falsamente,  fato  definido 
como crime.  

Se, por exemplo, uma pessoa se dirige a outra 
e  a  xinga  de  corrupta,  isso  seria  hipótese  de 
calúnia?  Não.  Porque,  neste  caso,  não  há  a 
imputação  de  um  fato  criminoso,  a  pessoa 
estará, 

apenas, 

adjetivando 

outra, 

constituindo, então, crime de injúria. 

Caluniar  alguém  é  imputar  um  fato  definido 
como  crime.  Por  exemplo,  dizer  que  uma 
pessoa 

estava 

em 

determinado 

local, 

praticando  o  crime  de  peculato  contra  outra 
pessoa.  Nesta  hipótese,  não  há  apenas 
adjetivação (chamar alguém de corrupto), há a 
imputação de um fato criminoso. 

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Direito Penal 

Fabio Roque 

34

 

Importante  salientar  que,  para  se  falar  em 
calúnia,  a  imputação  deverá  ser  de  um  fato 
definido  como  crime,  ou  seja,  não  há  calúnia 
se, por exemplo, uma pessoa imputar à outra 
um fato definido como contravenção.  

Portanto, 

afirmar, 

falsamente, 

que 

um 

funcionário público está envolvido em práticas 
de  jogos  de  azar,  não  constitui  calúnia,  mas 
difamação (já que a prática desses jogos não 
se  qualifica  como  crime  e  sim  como 
contravenção). Neste caso, não é possível se 
falar em analogia, já que a pena da calúnia é 
maior do que a pena da difamação e no Direito 
Penal,  não  é  cabível  a  analogia  em  malam 
partem. 

Não existem crimes contra a honra praticados 
na modalidade culposa.  

Portanto,  para  haver  a  calúnia  faz-se 
necessário que o agente tenha consciência da 
falsidade de sua imputação criminosa, ou seja, 
ele sabe que o que ele está dizendo é mentira. 
Dessa forma, se ele acredita na veracidade de 
sua  afirmação,  não  será  hipótese  de  calúnia, 
por  que  não  há  dolo.  Nesse  caso,  a  vítima 
poderá processar esse agente na esfera cível, 
mas  não  será  cabível  nenhuma  imputação 
penal.   

O  dolo  dessas  condutas  é  também  chamado 
de animus: 

1. 

Animus caluniandi 

2. 

Animus difamandi 

3. 

Animus injuriandi 

Isso significa que deve existir o dolo de ofender 
a  honra.  Por  conta  disso,  afirma-se  em  sede 
doutrinária que não há crimes contra a honra 
na hipótese de animus jocandi.  

O  animus  jocandi  é  a  “intenção  de  brincar”, 
trata-se  de  um  argumento  muito  utilizado  por 
humoristas  a  fim  de  se  eximir  de  qualquer 
imputação criminal referente à honra. Assim, o 

autor da brincadeira poderá até responder na 
esfera cível, mas não responderá penalmente 
já  que,  tal  animus  afasta  o  dolo  nos  crimes 
contra  a  honra  excluindo-se,  assim,  a  sua 
aplicabilidade.  

Outra  hipótese  que  exclui  o  dolo  nos  crimes 
contra a honra é o animus narrandi (intenção 
de  narrar  um  fato).  É  um  argumento  muito 
invocado pelos jornalistas. 

Em  síntese,  o  animus  jocandi  e  o  animus 
narrandi  excluem  a  aplicabilidade  dos  crimes 
contra a honra.  

Cabe  a  calúnia  contra  pessoa  jurídica?  É 
importante lembrarmos, primeiramente, que o 
único  crime  que  a  pessoa  jurídica  pode 
praticar,  no  Brasil,  é  o  crime  ambiental. 
Portanto,  só  caberá  calúnia  contra  pessoa 
jurídica quando alguém imputa falsamente fato 
definido como crime ambiental.  

Na calúnia é possível que haja a exceção da 
verdade (exceptio veritatis). Por exemplo, se A 
afirma  que  B  praticou  o  crime  de  peculato  e 
este  o  processa  por  calúnia,  A  (agora  réu) 
poderá  se  defender  provando  que  estava 
falando a verdade.  

Não  será  cabível  a  exceção  da  verdade 
quando  o  agente  imputa  fato  criminoso  a 
Presidente  da  República  ou  a  chefe  de 
governo estrangeiro. Ou quando a vítima já foi 
absolvida pelo fato que lhe foi imputado. 

CALÚNIA X DENUNCIAÇÃO CALUNIOSA 

Para começar, importa destacar que a calúnia 
é  um  crime  contra  a  honra, já  a  denunciação 
caluniosa  é  um  crime  contra  a  administração 
da justiça. Consequentemente, a calúnia é um 
crime  de  ação  privada  e  a  denunciação 
caluniosa  é  um  crime  de  ação  pública 
incondicionada.  

Na  denunciação caluniosa  o  agente  imputa  a 
alguém fato definido como crime e, em virtude 

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Direito Penal 

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35

 

dessa  imputação  falsa,  é  instaurado  um 
processo  ou  uma  investigação  (ex.  inquérito 
policial,  processo,  administrativo,  ação  de 
improbidade  etc.).  Por  conta  disso,  a 
denunciação  caluniosa  é  mais  do  que  um 
crime contra a honra porque o agente, além de 
ofender a honra da pessoa ainda prejudicará a 
administração da justiça. 

2) DIFAMAÇÃO 

Neste, o agente imputa a outrem um fato que 
não  é  definido  como  crime.  Portanto,  caberá 
difamação  se  o  fato  imputado  for  uma 
contravenção penal (prática de jogos de azar, 
por  exemplo),  ou  fatos  que  não  sejam 
condutas típicas, por exemplo, dizer que uma 
pessoa  pratica  atos  de  prostituição,  por 
exemplo, que não é conduta típica. 

Não cabe, em regra, a exceção da verdade. Ou 
seja,  na  difamação  o  agente  responde  pelo 
crime  ainda  que  o  fato  por  ele  imputado  seja 
verdadeiro.  

Portanto,  calúnia  pressupõe  que  o  ato  seja 
falso,  a  difamação  não,  ou  seja,  ainda  que  o 
fato  imputado  seja  verdadeiro,  se  houver  a 
intenção de ofender a honra da vítima, incidirá 
o  crime  de  difamação.  É  por  isso  que,  em 
regra, cabe exceção da verdade na calúnia, e 
não cabe exceção da verdade na difamação. 

Contudo,  caberá  exceção  da  verdade  na 
difamação se o ato imputado disser respeito a 
funcionário  público  no  exercício  das  suas 
funções  eu  em  razão  delas.  Assim,  se,  por 
exemplo,  o  agente  afirmar  que  determinado 
funcionário  público  está  praticando  ato  de 
prostituição  durante  o  horário  de  expediente, 
este  agente  poderá  invocar  exceção  da 
verdade.  

3) INJÚRIA 

É um crime contra a honra subjetiva. 

Injuriar  é  adjetivar  negativamente  outrem. 
Portanto, na injúria não há imputação de fato, 
há, apenas, a adjetivação.  

A injúria poderá ser de 3 formas: 

1. 

Injúria simples 

2. 

Injúria real 

3. 

Injúria qualificada 

INJÚRIA  REAL:  É  aquela  praticada 

mediante  lesão  corporal  ou  “vias  de  fato”.  A 
injúria  real  é  aquela  que  pressupõe  uma 
agressão  física,  ou  seja,  na  injúria  real  um 
sujeito bate no outro para humilhá-lo.  

O que diferencia a injúria real da lesão corporal 
é  o  dolo.  Se  o  agente  agrediu  o  outro  com  a 
intenção de humilhá-lo, será uma hipótese de 
injúria real. Neste caso, esse agente responde 
pela  injúria  sem  prejuízo  de  responder, 
também, pela lesão corporal.  

3. 

 

INJÚRIA 

QUALIFICADA: 

É 

chamada, 

doutrinariamente, 

de 

injúria 

preconceituosa.  É  aquela  ofensa  à  honra  em 
que se faz menção à raça, cor, etnia, origem, 
religião  ou  condição  de  pessoa  portadora  de 
deficiência ou de idade superior a 60 anos.  

No  que  concerne  ofensa  causada  pela  raça, 
parte  da  doutrina  a  denomina,  também,  de 
injúria racial.  

Existe diferença entre injúria racial e racismo. 
Na  injúria  racial  existe  a  ofensa  à  honra  por 
intermédia de alusão à raça. Já no racismo, o 
agente  impede  a  prática  de  algum  direito  da 
vítima  em  razão  da  raça.  Racismo,  é  não 
contratar pessoa por ser de determinada raça, 
é não permitir que ela estude em determinada 
instituição  de  ensino,  etc.  Tal  diferenciação  é 
de  fundamental  importância  haja  vista  que,  o 
racismo é crime imprescritível e inafiançável, a 
injúria racial, não. 

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Direito Penal 

Fabio Roque 

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Injúria simples é aquela que não se enquadra 
nem na injúria real e nem na injúria qualificada. 

Existem  duas hipóteses de perdão judicial na 
injúria simples: 

1) 

Na hipótese em que a vítima provocou 

a injúria de forma reprovável 

2) 

Revide  imediato:  quando  a  vítima 

responde,  de  forma  imediata,  ofensa  a  honra 
proferida primeiramente contra ele. 

É importante deixar claro, para finalizar, que os 
crimes contra a honra são de menor potencial 
ofensivo. A calúnia tem pena de 06 meses a 2 
anos;  A  difamação  de  03  meses  a  1  ano;  a 
injúria  simples  de  1  a  06  meses.  Lembrando 
que infração de menor potencial ofensivo são 
as  contravenções  penais  e  os  crimes  com 
pena máxima de até 02 anos. 

Contudo, o único crime contra a honra que não 
é  de  menor  potencial  ofensivo  é  a  injúria 
qualificada, cuja pena é de 1 a 3 anos. 

Essas penas podem ser majoradas: 

1) 

Quando  o  crime  é  praticado  contra  o 

Presidente da República ou chefe de governo 
estrangeiro. 

2) 

Quando  praticado  contra  funcionário 

público em razão de suas funções. 

 

3) 

Quando praticado por meio que facilite 

a divulgação.  

4) 

Contra  pessoa  maior  de  60  anos  ou 

portador de deficiência, desde que o crime não 
seja a injúria qualificada. 

AÇÃO  PENAL  NOS  CRIMES  CONTRA  A 
HONRA 

Os  crimes  contra  a  honra,  em  regra,  são  de 
ação  penal  de  iniciativa  privada,  ou  seja,  o 
próprio  ofendido  é  o  titular  da  ação  penal, 

devendo ingressar com uma queixa crime, por 
intermédio 

de 

advogado 

com 

poderes 

específicos para ingressar no feito. 

Contudo,  os  crimes  contra  a  honra  serão  de 
ação penal pública condicionada à requisição 
do  Ministro  da  Justiça  quando  for  praticado 
contra o Presidente da República ou chefe de 
governo estrangeiro. 

Os crimes contra a honra serão de ação penal 
pública  condicionada  à  representação  do 
ofendido  quando  for  o  caso  de  injúria 
qualificada.  Portanto,  a  injuria  qualificada  é 
crime  de  ação  penal  pública  condicionada  à 
representação do ofendido! 

A Súmula 714 do STF afirma que, se o crime é 
contra a honra do funcionário público em razão 
das  suas  funções,  ele  poderá  ser  de  ação 
penal  privada  ou  poderá  ser  de  ação  penal 
pública  condicionada  à  representação  do 
ofendido.  

SÚMULA  714,  STF:  “É  CONCORRENTE  A 
LEGITIMIDADE  DO  OFENDIDO,  MEDIANTE 
QUEIXA,  E  DO  MINISTÉRIO  PÚBLICO, 
CONDICIONADA  À  REPRESENTAÇÃO  DO 
OFENDIDO,  PARA  A  AÇÃO  PENAL  POR 
CRIME  CONTRA  A  HONRA  DE  SERVIDOR 
PÚBLICO  EM  RAZÃO  DO  EXERCÍCIO  DE 
SUAS FUNÇÕES”. 

Encerramos aqui os crimes contra a honra e, 
ainda  dentro  de  crimes  contra  a  pessoa, 
iniciaremos  os  estudos  dos  crimes  contra  a 
liberdade individual. 

CRIMES 

CONTRA 

LIBERDADE 

INDIVIDUAL 

São 04 os crimes contra a liberdade individual: 

1) 

CONSTRANGIMENTO  ILEGAL  (art. 

146) 

2) 

AMEAÇA (art. 147) 

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3) 

SEQUESTRO E CÁRCERE PRIVADO 

4) 

REDUÇÃO  À  CONDIÇÃO  ANÁLOGA 

A DE ESCRAVO 

1. 

DO CONTRANGIMENTO ILEGAL 

Constrangimento  ilegal  ocorre  quando  o 
agente obriga uma pessoa, mediante violência 
ou grave ameaça, a fazer aquilo que a lei não 
manda,  ou  a  proíbe  de  fazer  aquilo  que  a  lei 
permite. 

Trata-se de um crime subsidiário, ou seja, ele 
só ocorre quando a conduta criminosa não se 
enquadra  em  um  tipo  penal  mais  grave.  Por 
exemplo,  obrigar  uma  pessoa  a  manter 
conjunção  carnal  não  poderá  ser  crime  de 
constrangimento ilegal, e sim crime de estupro; 
outro  exemplo,  é  obrigar  uma  pessoa  a  dar 
dinheiro  à  outra,  nesse  caso,  também  não 
haveria de se falar em constrangimento ilegal, 
mas em extorsão.  

Importante  destacar  que  a  intervenção 
cirúrgica 

de 

emergência 

não 

constitui 

constrangimento  ilegal.  Da  mesma  forma, 
impedir  o  suicídio,  ainda  que  mediante 
violência  ou  grave  ameaça  também  não 
constitui hipótese de constrangimento ilegal.  

2. 

AMEAÇA (art.147) 

Ameaça  é  a  promessa  de  um  mal  futuro. 
Contudo,  não  é  qualquer  promessa  de  mal 
futuro que configura a ameaça. Tal promessa 
deverá ter aptidão para incutir temor à vítima. 

É  um  crime  de  menor  potencial  ofensivo.  De 
ação 

penal 

pública 

condicionada 

à 

representação do ofendido. 

O  crime  de  ameaça  poderá  ser  praticado 
verbalmente, por escrito ou gestualmente.  

Se  praticada  verbalmente  será  um  crime 
unissubsistente  não  admitindo,  portanto,  a 
tentativa.  

Se  praticada  por  escrito,  o  crime  será 
plurissubsistente,  por  que  a  conduta  poderá 
ser fracionada (escrever o email, por exemplo, 
é  um  ato  preparatório,  enviá-lo  é  um  ato  de 
execução,  mas  se  por  acaso  a  vítima  não 
chegar  a  ler  esse  email,  ou  seja,  se  a 
mensagem não chegar ao destinatário, o crime 
não se consumará por circunstâncias alheias à 
vontade  do  agente,  configurando,  pois,  a 
tentativa). 

Portanto, 

ameaça 

poderá 

ser 

unissubsistente 

ou 

plurissubsistente, 

depender  da  forma  de  execução  da  conduta 
típica.  

3. 

SEQUESTRO E CÁRCERE PRIVADO 

(art. 148) 

Trata-se  de  um  crime  à  liberdade  individual, 
mais  precisamente,  à  liberdade  ambulatorial 
(de ir e vir).  

SEQUESTRO  E  CÁRCERE  PRIVADO  X 
EXTORSÃO  MEDIANTE  SEQUESTRO:  A 
extorsão mediante seqüestro é um crime muito 
mais  grave  do  que  o  seqüestro  e  cárcere 
privado,  primeiramente  por  que  o  primeiro  é 
crime hediondo. 

A principal diferença entre esses tipos penais 
repousa no fato de que, na extorsão mediante 
seqüestro  existe  o  cerceamento  da  liberdade 
com um pedido de resgate, ou seja, o objetivo 
da extorsão mediante seqüestro é a obtenção 
da  vantagem  econômica  indevida,  trata-se, 
pois, de um crime de finalidade patrimonial.  

No  seqüestro  há  apenas  o  cerceamento  da 
liberdade  ambulatorial  da  vítima,  não  há  a 
exigência de pagamento financeiro. 

Importa  mencionar  que  é  cabível  habeas 
corpus contra ato de particular. Então se, por 
exemplo,  um  hospital  proíbe  uma  pessoa  de 
sair enquanto esta não pagar a conta, haverá 
o  crime  de  seqüestro  e  cárcere  privado 
praticado 

pelo 

responsável 

por 

essa 

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autorização  (o  responsável  não  poderá  ser  o 
hospital já que pessoa jurídica só comete crime 
de  natureza  ambiental),  nesse  caso,  será 
cabível a impetração de habeas corpus. 

Qual  a  diferença  entre  seqüestro  e  cárcere 
privado?  No  Código  Penal,  seqüestro  e 
cárcere  privado  comportam  um  tipo  só. 
Contudo,  há  alguns  doutrinadores  que 
defendem a idéia de que, no cárcere privado o 
cerceamento  da  liberdade  ocorre  de  forma 
mais  restrita.  Com  base  nesse  raciocínio, 
trancar uma pessoa dentro de sua casa é uma 
hipótese de seqüestro, mas trancafiá-la dentro 
de um armário, é caso de cárcere privado. 

Apesar 

dos 

diferentes 

entendimentos 

doutrinários, o Código Penal não faz nenhuma 
distinção  entre  o  seqüestro  e  o  cárcere 
privado. 

Qualificadoras  do  crime de  seqüestro (nestas 
hipóteses,  elencadas  no  §1º  do  art.  148,  a 
pena será de 02 a 05 anos): 

1) 

Se 

vítima 

é 

ascendente, 

descendente, cônjuge, companheiro do agente 
ou maior de 60 anos. 

2) 

Se  o  crime  é  praticado  mediante 

internação  da  vítima  em  casa  de  saúde  ou 
hospital. 

3) 

Se  a  privação  da  liberdade  dura  mais 

de 15 dias: Esta é uma modalidade de crime a 
prazo,  que  só  se  consuma  depois  de 
determinado tempo. 

4) 

Crime  praticado  contra  menor  de  18 

anos. 

5) 

Se  o  crime  é  praticado  com  fins 

libidinosos: não precisa ter havido a pratica do 
ato sexual. Basta haver a finalidade de praticar 
o ato libidinoso. Dessa forma, se o ato sexual 
forçado  se  consumar,  o  agente  responderá 
pelo seqüestro e pelo crime sexual, nesse caso 

não haveria de se falar em bis in idem por que 
são dois atos diferentes.  

O  §  2º  do  mesmo  diploma  legal  (art.  148), 
haverá  uma  outra  hipótese  de  majoração  de 
pena,  no  caso  de  o  seqüestro  ou  cárcere 
privado resultar em grave sofrimento físico ou 
moral à vítima. Nesse caso, a pena será de 02 
a 8 anos. 

Lembrando  que  se  houver  exigência  de 
resgate,  não  será  hipótese  de  crime  contra  a 
liberdade 

individual 

sim, 

de 

crime 

patrimonial, mais precisamente o da extorsão 
mediante seqüestro, prevista no art. 159.  

4. 

REDUÇÃO  À  CONDIÇÃO  ANÁLOGA 

A DE ESCRAVO (ART. 149) 

O art. 149 estabelece possibilidades de reduzir 
alguém  à  condição  análoga  a  de  escravo, 
quais sejam: 

1) 

Submetendo a trabalhos forçados ou a 

jornada exaustiva 

2) 

Sujeitando a condições degradantes de 

trabalho 

3) 

Restringindo, por qualquer meio, a sua 

locomoção em razão de dívida contraída com 
o empregador ou preposto. 

 

Trata-se  de  hipóteses  alternativas,  não 
cumulativas,  ou  seja,  qualquer  das  hipóteses 
configura a redução a condição análoga a de 
escravo. É o que a doutrina denomina de tipo 
misto alternativo.  

Tipo penal misto é aquele em que há mais de 
uma conduta descrita, no caso em questão, as 
condutas  são:  SUBMETER  a  trabalhos 
forçados; SUJEITAR a condições degradantes 
de trabalho; RESTRINGIR sua locomoção. No 
tipo misto alternativo, portanto, o sujeito pode 
praticar  qualquer  das  condutas  descritas,  ou 
várias delas, incorrendo em apenas um crime. 

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39

 

Com  base  nesse  raciocínio,  o  agente  poderá 
submeter  o  indivíduo  a  trabalhos  forças  E 
sujeitá-lo  a  condições  degradantes  e,  ainda 
assim, responderá por apenas um tipo penal. 

Pena: Reclusão de 02 a 08 anos e multa, além 
da pena correspondente à violência. 

O  §  1º  trata  da  figura  equiparada  à  condição 
análoga a de escravo, quais sejam: 

I  -  Cercear  qualquer  meio  de  transporte  por 
parte  do  trabalhador,  com  o fim  de retê-lo  no 
local de trabalho. 

II 

–  Manter  vigilância  ostensiva  no  local  de 

trabalho  ou  se  apoderar  de  documentos  ou 
objetos pessoais do trabalhador, com o fim de 
retê-lo no local de trabalho. 

5.  CRIME DE LESÃO CORPORAL 

A lesão corporal poderá ser dolosa ou culposa. 
A dolosa, por sua vez, poderá ser leve, grave 
ou gravíssima. 

A  lesão  corporal  leve  possui  pena  é  de  06 
meses  até  01  ano,  contudo,  se  praticada  no 
âmbito  doméstico  ou  familiar  a  pena  será 
elevada  para  até  03  anos,  lembrando,  ainda, 
que  essa  lesão  praticada  em  ambiente 
domiciliar  não  será  apenas  contra  mulher, 
como ocorre mais precisamente na lei Maria da 
Penha. 

A  lesão  grave  é  de  natureza  qualificada  e  a 
pena máxima atinge 05 anos. Um exemplo de 
lesão  grave  ocorre  quando,  em  decorrência 
desta,  o  sujeito  fica  inabilitado  de  exercer  as 
suas  funções  por  até  30  dias,  quando  dessa 
lesão resulta aceleração do parto, quando há 
debilidade de membro, órgão ou função. 

O código fala, ainda, de uma outra modalidade 
de lesão qualificada cuja pena poderá chegar 
a  08  anos.  Essa  modalidade  foi  denominada 
pela  doutrina  de  lesão  gravíssima.  Ocorre  a 
lesão  gravíssima,  por  exemplo,  quando,  em 
decorrência  desta  há  a  perda  do  membro, 

sentido  ou  função;  quando  há  o  aborto,  o 
perigo de vida, a debilidade permanente.  

A lesão corporal admite a modalidade culposa. 

A  lesão  leve  (se  não  cometida  no  âmbito 
residencial  ou  domiciliar)  e  a  culposa  são 
infrações de menor potencial ofensivo. 

LESÃO CORPORAL 

1. 

DOLOSA 

1.1. 

Leve 

1.2. 

Grave 

1.3. 

Gravíssima 

      2. CULPOSA  

CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO 

1. 

CRIME 

DE 

FURTO 

DE 

COISA 

CONVENCIONAL (Art. 155, CP) 

Furto  é  subtrair  para  si  ou  para  outrem  coisa 
alheia  móvel.  Trata-se  de  um  crime  de  ação 
penal pública incondicionada. 

 

Importante  lembrar  que  não  é  crime  o 
chamado “furto de uso”, que é aquela hipótese 
em  que  o  sujeito  subtrai,  mas  não  para  si  ou 
para outrem, e sim para usar e devolver. 

a) 

Sujeitos: 

a.1) Sujeito ativo: quem pode praticar o crime 
de  furto?  Qualquer  pessoa.  Logo,  podemos 
afirmar que o furto é um crime comum, o que 
significa dizer que ele não é um crime próprio 
(aquele  crime  que  exige  uma  qualidade 
especial  do  agente)  e  nem  crime  de  mão 
própria  (que,  além  de  exigir  uma  qualidade 
especial do agente, não admite a coautoria). 

a.2) Sujeito passivo direto: é o proprietário ou 
possuidor da coisa. 

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40

 

a.2)  Sujeito  passivo  indireto:  Para  todo  e 
qualquer  crime,  o  sujeito  passivo  indireto 
sempre é o Estado. 

b) 

Objetos 

b.1)  Objeto  jurídico:    É  a  posse  e  a 
propriedade. 

b.2)  Objeto  material:  É  a  coisa  alheia  móvel. 
Objeto material é a pessoa ou a coisa sobre a 
qual  recai  a  conduta  criminosa.  No  caso  do 
furto, o objeto material recai sobre uma coisa, 
é a “coisa alheia móvel” que é subtraída. 

     Coisa  móvel:    Para  o  direito  penal,  o 
conceito de mobilidade é puramente material. 
Dessa  forma,  coisa  móvel  é  qualquer  coisa 
passível de remoção, assim, não importa se a 
coisa  é  adquirida  pela  transcrição  do  registro 
ou pela tradição.  

Ainda sobre o tema, é importante destacar que 
o  Código  Penal  equipara  à  energia  elétrica, 
bem 

como 

outras 

energias 

de 

valor 

econômico,  a  coisa  móvel.  Então,  existe  o 
crime de furto de energia elétrica, por exemplo. 
Contudo, o STF entende que o sinal de TV a 
cabo  não  é  coisa  móvel  e  nem  é  energia 
equiparada a coisa imóvel. Então, a subtração 
do  sinal  de  TV  a  cabo  não  é  crime  de  furto, 
para  a  suprema  corte  essa  subtração  é  fato 
atípico. 

  Coisa alheia: Para a configuração do crime de 
furto,  o  objeto  subtraído  deverá  ser  alheio, 
logo: 

1. A coisa alheia exclui a idéia de coisa própria, 
ou  seja,  não  é  possível  o  crime  de  furto  de 
coisa própria, ainda que seja o possuidor que 
venha a subtrair. Então, se, por exemplo, uma 
pessoa  alugar  um  carro,  ela  será  legítima 
possuidora  desse  veículo,  ocorre  que,  o 
proprietário poderá pegá-lo de volta, ainda que 
sem o consentimento do possuidor, e esse ato 
não configuraria crime de furto. 

2. A coisa alheia não é “coisa de ninguém” (res 
nullius):  então,  coisa  que  não  tem  dono  não 
poderá ser objeto material de crime de furto. 

3. Res delericta ou coisa abandonada: a coisa 
abandonada  também  não  poderá  ser  objeto 
material do crime de furto. 

ESPÉCIES DE FURTO: 

1. 

SIMPLES:  É  aquele  que  não  é  nem 

privilegiado  e  nem  qualificado.  A  pena,  para 
esse tipo de furto, será de reclusão de 01 a 08 
anos e multa. Sobre esse furto simples poderá 
incidir  uma  causa  de  aumento  de  pena  se  o 
crime for praticado durante o repouso noturno!  

2. 

PRIVILEGIADO: 

Ele 

possui 

dois 

requisitos, 

que 

são 

cumulativos. 

Primeiramente,  a  coisa  subtraída  deverá  ser 
de pequeno valor e, em segundo lugar, o réu 
deverá ser primário.  

A doutrina vem sedimentando o entendimento 
de que coisa de pequeno valor é aquela inferior 
a  um  salário  mínimo,  o  que  se  diferencia  de 
valor insignificante, este, deverá ser analisado 
de acordo com cada caso concreto. 

Dessa  forma,  no  furto  de  coisa  de  valor 
insignificante, o aplicador da pena irá aplicar o 
princípio da insignificante e afastar a tipicidade 
material, tornando o fato atípico.  

Já  o  furto  de  coisa  de  pequeno  valor  não 
enseja,  por  si  só,  uma  hipótese  de 
privilegiadora  do  crime, para que  isso  ocorra, 
faz-se  necessário,  ainda,  que  o  réu  seja 
primário, 

se 

estiverem 

presentes, 

cumulativamente,  esses  dois  requisitos,    03 
consequências poderão ocorrer, quais sejam: 

1) 

O juiz poderá diminuir a pena 

2) 

Substituir a reclusão pela detenção 

3) 

Aplicar, apenas, a pena de multa. 

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Fabio Roque 

41

 

3. 

QUALIFICADO:  Primeiramente,  válido 

ressaltar  que,  para  a  nossa  doutrina,  não  se 
aplica causa de aumento de pena para o furto 
qualificado.  O  Código  Penal  enumera  05 
hipóteses de furto qualificado: 

1ª  Quando  o  furto  é  praticado  mediante 
destruição  ou  rompimento  de  obstáculo  à 
coisa.  Ex:  arrombar  um  cofre,  arrebentar  o 
vidro de um carro.  

2ª  Praticado  mediante  emprego  de  chave 
falsa.  O  STJ  entende  que  o  crime  será 
qualificado  quando  houver  o  emprego  de 
qualquer  instrumento  equiparado  à  chave 
falsa. 

3ª  Furto  praticado  mediante  concurso  de 
pessoas 

4ª Praticado mediante dissimulação, destreza, 
escalada, fraude ou abuso de confiança, esse 
abuso  de  confiança,  porém,  não  poderá  ser 
presumido. 

 

Não  devemos  confundir,  no  entanto,  o  furto 
mediante  fraude  do  estelionato.  Fraude  é  o 
engodo,  fraudar  é  ludibriar,  enganar.  No 
estelionato  também  existe  essa  enganação. 
Ocorre  que,  no  furto  mediante  fraude  esta  é 
apenas  o  meio  empregado  para  a  prática  da 
subtração.  No  estelionato,  a  fraude  é 
empregada pelo agente para que a vítima lhe 
entre a vantagem patrimonial. 

No  caso  de  um  agente  instalar  um  programa 
espião  no  computador  da  vítima  e  com  isto, 
conseguir o acesso à sua conta bancária, será 
um  exemplo  de  furto  mediante  fraude  ou  de 
estelionato?  A  doutrina  e  a  jurisprudência 
entendem  que  se  trata  de  hipótese  de  furto 
mediante  fraude  por  que,  senha  não  é 
vantagem patrimonial. 

5ª  Furto  de  veículo  automotor  destinado  a 
outro estado ou a outro país. 

Obs:  As  quatro  primeiras  hipóteses  de 
qualificadora possuem pena de 02 a 08 anos, 
já a quinta hipótese, a pena será reclusão de 
03 a 08 anos. 

É cabível o furto qualificado e privilegiado, ao 
mesmo  tempo?  Sim!  Todas  as  qualificadoras 
do 

furto 

são 

objetivas, 

portanto, 

é 

perfeitamente cabível, por exemplo, o furto de 
coisa de pequeno valor, com réu primário mas 
empregado  por  meio  de  chave  falsa,  por 
exemplo.  

2. 

FURTO DE COISA COMUM (art. 156, 

CP) 

O furto de coisa convencional é subtrair coisa 
ALHEIA móvel. O furto comum é subtrair coisa 
que também é do agente. Quem pode praticar 
o crime de coisa comum: o condômino, o sócio 
e o herdeiro. 

Perceba  que  se  trata  de  hipótese  de  crime 
próprio! Ou seja, não é um crime que pode ser 
praticado  por  qualquer  pessoa  (como  ocorre 
no crime comum), o agente precisa ter alguma 
qualidade  especial,  no  caso,  a  qualidade  de 
ser sócio, condômino ou herdeiro. 

É  um  crime  de  ação  penal  pública 
condicionada à representação do ofendido. 

3. 

ROUBO (art. 157, CP) 

Roubo é subtrair, para si ou para outrem, coisa 
alheia  móvel  mediante  violência,  grave 
ameaça  ou  após  haver  reduzido  a  vítima  à 
impossibilidade de resistência. 

O  crime  de  roubo  poderá  ser  próprio  ou 
impróprio.  

a) 

Roubo  próprio:  O  agente  emprega  a 

violência ou a grave ameaça PARA subtrair. 

b) 

Roubo  impróprio:  é  aquele  em  que  a 

subtração já se iniciou e o agente emprega a 
violência ou a grave ameaça para assegurar o 
êxito  da  subtração.  Ex.:  O  agente  invade  a 

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42

 

casa,  acreditando  que  ela  estava  vazia  e, 
quando estava saindo com os bens, o dono da 
casa  chega  e  esse  agente  o  agride  a  fim  de 
assegurar o êxito de sua subtração. 

Antigamente, 

se 

entendia 

que 

havia 

consumação do crime de roubo com a posse 
pacífica  do  bem,  ou  seja,  quando  o  agente 
puder  usar,  gozar  ou  dispor  da  coisa 
livremente.  Dessa  forma,  entendia-se  que  a 
coisa  subtraída  (também  chamada  de  res 
furtiva) teria que sair da esfera de vigilância da 
vítima. 

Hoje em dia, contudo, a jurisprudência do STJ 
trabalha  com  a  teoria  da  apreensão  (ou 
apreensio). A teoria da apreensão dispensa a 
posse pacífica do bem! Logo, a coisa subtraída 
não  precisa  sair  da  esfera  de  vigilância  da 
vítima,  basta  que  ela  saia  da  esfera  de 
disponibilidade  dela.  Dessa  forma,  o  agente 
que  saca  uma  arma  e  subtrai  a  carteira  da 
vítima,  a  roubou,  ainda  que  essa  vítima 
consiga que os policiais o prendam.  

A  violência  ou  grave  ameaça,  por  si  só, 
descaracteriza  o  princípio  da  insignificância, 
ainda  que  a  coisa  subtraída  seja  de  valor 
ínfimo. Portanto, se um agente saca uma arma 
para  roubar  dez  centavos,  por  exemplo,  não 
haverá 

aplicação 

do 

princípio 

da 

insignificância.  

CAUSAS  DE  AUMENTO  DE  PENA  (§  2º): 
Aumenta-se  a  pena  do  roubo  (que  é  de 
reclusão  de  04  a  10  anos),  (hipóteses 
chamadas  pela  jurisprudência  de  roubo 
circunstanciado): 

 

1ª  Roubo  praticado  mediante  o 

emprego  de  arma.  Arma  de  brinquedo  não 
enseja causa de aumento! 

 

Em  relação  à  arma,  o  STJ  tem  uma 

jurisprudência  no  seguinte  sentido:  1)  Não  é 
preciso  que  haja  um  laudo  pericial  para  se 
aferir a potencialidade lesiva da arma, mas se 
houver  um  laudo  pericial  que  diga  que  arma 

não tinha potencialidade lesiva, não incidirá a 
causa de aumento. 

 

2ª  Roubo  praticado  em  concurso  de 

pessoas. 

 

3ª  Roubo  praticado  mediante  a 

restrição da liberdade. Ex.: praticar o roubo e 
deixar a vítima amarrada. Importante destacar 
que  aquilo  que  a  imprensa  chama  de 
“seqüestro  relâmpago”  não  é  roubo  e  sim  é 
hipótese de extorsão. 

 

4ª Roubo praticado contra pessoa que 

está  em  serviço  de  transporte  de  valores, 
desde que o criminoso saiba disso 

 

5ª  Roubo  de  veiculo  automotor 

destinado a outro estado ou outro país. 

O  §3º  do  art.  157,  são  hipóteses  em  que  as 
penas mínimas e máximas do crime de roubo 
são  majoradas,  são,  portanto,  casos  de 
qualificadora  da  pena.  Essa  hipótese  de 
majoração  ocorre  quando,  do  emprego  da 
violência,  ocorre  a  lesão  corporal  grave  ou  a 
morte da vítima. 

Lembrando  que  o  roubo  seguido  de  morte  é 
chamado  de  latrocínio!  Ocorre  que  a 
expressão  “latrocínio”  não  está  prevista  no 
Código Penal, apesar de ser empregada pela 
doutrina,  jurisprudência  e  por  outras  leis 
extravagantes,  a  exemplo  da  leis  de  crimes 
hediondos.  

O latrocínio é um crime hediondo!  

SUMÚLA  603,  STF:  Afirma  que  o  crime  de 
latrocínio é de competência do juiz singular, e 
não do tribunal do júri.  

Crimes que vão à júri são os dolosos contra a 
vida, o latrocínio é, na verdade, crime contra o 
patrimônio. 

SÚMULA 610, STF: Consumado o homicídio e 
ainda  que  não  consumada  a  subtração  dos 
bens, o latrocínio será tentado, e não tentado.  

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Tanto o roubo quanto o latrocínio serão crimes 
pluriofensivos e complexos!  

1) 

Crime pluriofensivo: é aquele que tutela 

mais de um bem jurídico, ou seja, é aquele que 
se consuma mediante a ofensa a mais de um 
bem jurídico. 

2) 

Crime  complexo:  é  aquele  que  resulta 

mais  de  um  crime,  mais  de  um  tipo  penal.  O 
roubo, por exemplo, é um furto (subtrair para si 
ou para outrem coisa alheia móvel), somado a 
uma  lesão  corporal  (mediante  violência)  ou 
crime  de  ameaça  (ou  grave  ameaça)  ou 
constrangimento ilegal (após haver reduzido a 
vítima  à  condição  que  impossibilite  a 
resistência). 

4. 

EXTORSÃO (ART. 158, CP) 

Extorsão  é  constranger  alguém,  mediante 
violência ou grave ameaça e com o intuito de 
obter  uma  vantagem  econômica  indevida,  a 
fazer,  deixar  de  fazer  ou  tolerar  que  se  faça 
alguma coisa. A pena, nessa hipótese será de 
04 a 10 anos. 

É  um  crime  formal,  ou  seja,  a  extorsão  se 
consuma  independente  da  produção  do 
resultado  naturalístico.  Ou  seja,  é  um  crime 
que  se  consuma  ainda  que  o  agente  não 
obtenha  a  vantagem  patrimonial  indevida. 
Portanto, a obtenção da vantagem indevida se 
dará  após  a  consumação  e  será  mero 
exaurimento.  

A grande diferença entre a extorsão e o roubo 
é  que,  no  roubo,  a  conduta  da  vítima  é 
dispensável, ou seja, o agente não precisa da 
conduta da vítima para obter a vantagem ilícita. 
Já  na  extorsão,  o  agente  precisa  do 
comportamento  da  vítima  para  obter  a 
vantagem indevida.  

Exemplo de extorsão: Uma pessoa se dirige à 
vítima,  que  está  em  um  caixa  eletrônico,  e 
exige  que  ela  saque  todo  o  seu  dinheiro, 
ameaçando-a de morte. Veja que, nesse caso, 

o  agente  não  tem  como  obter  a  vantagem 
econômica  indevida  se  a  vítima  não  sacar  a 
quantia por ele exigida. 

Extorsão qualificada (art. 158, § 3º): 

É  a  hipótese  vulgarmente  chamada  de 
seqüestro  relâmpago.    Ocorre  quando  o 
criminoso pega a vítima e a leva para sacar o 
dinheiro contido na sua conta. É uma hipótese 
de extorsão por que, nesse caso, esse agente 
precisa  da  conduta  da  vítima  para  obter  a 
vantagem patrimonial que ele deseja.  

A extorsão é de natureza qualificada por mera 
deliberação  do  legislador  que,  em  2009 
modificou  a  redação  do  §  3º  do  art.  158, 
elevando a pena para de 06 a 12 anos. 

5. 

EXTORSÃO 

MEDIANTE 

SEQUESTRO (art. 159, CP) 

 

Nesse caso, há um cerceamento da liberdade 
ambulatorial  da  vítima  (sequestro)  para  a 
obtenção de vantagem econômica indevida, se 
tratando, pois, de um crime patrimonial. Assim, 
ocorre o crime de extorsão mediante seqüestro 
quando o agente cerceia a liberdade da vítima 
e  exige  o  pagamento  de  quantia  para  a  sua 
liberação. 

É  um  crime  hediondo!  É,  inclusive,  um  dos 
poucos crimes em que há previsão de delação 
premiada.  

Delação  premiada  é  uma  hipótese  de 
diminuição  de  pena  para  o  delator.  Não 
confunda  delação  premiada  com  confissão 
espontânea!  Esta  ultima  é  válida  para  todo  e 
qualquer  crime  e  ocorre  quando  o  agente 
confessa  fato  típico  cometido  por  ele,  na 
delação  premiada  esse  agente  não  apenas 
confessa  o  crime  que  ele  praticou  como  ele 
delata os comparsas. Além disso, a confissão 
espontânea  é  mera  atenuante,  já  a  delação 
premiada é uma causa de diminuição de pena.  

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Outra  diferença  muito  importante  é  que  a 
delação premiada só é válida se for eficaz! Ou 
seja, só haverá a delação premiada se esta for 
eficaz para a descoberta do crime. A confissão 
espontânea,  por  sua  vez,  irá  atenuar  a  pena 
ainda  que  o  fato  confessado  já  esteja 
comprovado no processo, ou seja, a pena será 
diminuída ainda que o agente confesse fato já 
sabido por todos. 

6.  

APROPRIAÇÃO  INDÉBITA  (art.  168, 

CP) 

Ocorre quando o criminoso tem a posse ou a 
detenção  legítima  da  coisa.  Ou  seja,  não  é 
possível a ocorrência da apropriação indébita 
quando  o  sujeito  tiver  empregado  meios 
fraudulentos para a obtenção da posse. 

 

Ocorre  a  apropriação  indébita  quando  o 
agente  adquire  legitimamente  a  posse  da 
coisa,  tem  a  pretensão  de  devolvê-la,  mas, 
com o passar do tempo ele passa a agir com o 
animus rem sibi habendi, ou seja, ele passa a 
ter a intenção de se apropriar da coisa, de ser 
dono, de haver a coisa para si. Logo, o agente 
muda o dolo, no início ele tinha a pretensão de 
restituir a coisa para o dono, mas depois passa 
agir como se proprietário fosse.  

6. 

APROPRIAÇÃO 

INDÉBITA 

PREVIDENCIÁRIA (art. 168-A) 

É um crime que envolve contribuições sociais 
e,  por  isso,  é  de  competência  da  Justiça 
Federal. 

O  responsável  tributário  é  aquele  que  tem  o 
papel  de  pegar  o  dinheiro  do  contribuinte  e 
repassá-lo aos cofres da previdência.  Ocorre 
o crime de apropriação indébita previdenciária 
quando esse responsável tributário desconta o 
valor referente à contribuição social, do salário 
do  contribuinte  e  não  repassa  aos  cofres  da 
previdência.  

Para  a  doutrina  essa  é  uma  hipótese  do 
chamado crime de conduta mista, que é aquela 
espécie de crime em que o agente pratica uma 
ação e uma omissão. No caso em questão, o 
responsável  tributário  pratica  a  ação  de 
descontar 

valor 

da 

contribuição 

previdenciária,  e  a  omissão  de  não  repassar 
esse  valor  aos  cofres  públicos.  Contudo,  a 
jurisprudência  do  STF  e  do  STJ,  esse  é  um 
crime omissivo próprio!!! 

De  acordo  com  a jurisprudência,  no crime  de 
apropriação  indébita  previdenciária  não  se 
exige o animus rem sibi habendi.  

O  §  3º  do  art.  168-A,  trata  de  hipóteses  que 
podem  beneficiar  o  réu;  nessas  casos,  o  juiz 
poderá  deixar  de  aplicar  a  pena  (perdão 
judicial) ou aplicar apenas a pena de multa: 

• 

Requisito  subjetivo:  se  o  agente  for 

primário e tiver bons antecedentes, desde que 

• 

Requisito  objetivo:  tenha  promovido, 

após  o  início  da  ação  fiscal  e  antes  de 
oferecida  a  denúncia,  o  pagamento  da 
contribuição  social  previdenciária,  inclusive 
acessórios 

– Dessa forma, se o agente fizer o 

pagamento  antes  do  inicio  da  ação  fiscal, 
haverá  a  extinção  da  punibilidade.  Se  for 
depois da ação fiscal mas antes de oferecida a 
denúncia,  será  uma  causa  de  perdão  judicial 
ou aplicação da pena de multa. 

• 

O  valor  das  contribuições  devidas, 

inclusive  acessórios,  seja  igual  ou  inferior 
àquele  estabelecido  pela  previdência  social, 
administrativamente,  como  sendo  o  mínimo 
para o ajuizamento de suas execuções fiscais 
–  Existe  um  valor  mínimo  a  partir  do  qual  a 
Fazendo  Nacional  é  obrigada  a  fazer  a 
execução do devedor, atualmente esse valo é 
de R$ 20.000,00.  

ESTELIONATO (art. 171, CP) 

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Estelionato  é  levar,  ou  manter  a  pessoa  em 
erro  e,  com  isso,  obter  uma  vantagem 
econômica indevida. 

O  dolo  bilateral  não  exclui  o  estelionato!  Ou 
seja, se a vítima do estelionato também estiver 
agindo  com  dolo,  ou  seja,  a  pretensão  da 
vítima de  “se dar  bem”, não afasta  o dolo  do 
estelionário. 

Existem 03 tipos de estelionato: 

1)  Art.  171,  §  3º:  Estelionato  previdenciário 
(contra  a  previdência  social) 

–  Ocorre,  por 

exemplo,  quando  uma  pessoa  recebe  um 
beneficio  previdenciário  ao  qual  não  tem 
direito.  

O STF entende que, para quem pratica fraude, 
mas  não  recebe  o  benefício,  o  crime  é 
instantâneo. Ex. funcionário do INSS q recebe 
quantia para falsificar a documentação de uma 
pessoa a fim de que esta receba o benefício. 
Para  esse  funcionário  o  crime  é  instantâneo. 
Mas,  para  quem  faz  a  fraude  e  recebe  o 
benefício  previdenciário  todos  os  meses  o 
crime  é  permanente!!  Dessa forma,  enquanto 
esse agente estiver recebendo o benefício, ele 
permanece  na  pretensão  e  criminosa  e  a 
prescrição  nem  começa  a  correr,  esta,  só 
começará a correr no momento em que cessar 
a permanência!  

2)  Emissão  dolosa  de  cheque  sem  fundo 

– 

Nesta  hipótese,  o  estelionatário  é  o  titular  da 
conta. Para o STF, o pagamento do cheque até 
o  recebimento  da  denúncia  extingue  a 
punibilidade!  

Súmula 244, STJ: “compete ao foro do local da 
recusa  processar  e  julgar  o  crime  de 
estelionato mediante cheque sem provisão de 
fundos” 

Súmula 521, STF: “O foro competente para o 
processo  e  o  julgamento  dos  crimes  de 
estelionato,  sob  a  modalidade  de  emissão 
dolosa  de  cheques  sem  fundos,  é  o  do  local 

onde  se  deu  a  recusa  do  pagamento  pelo 
sacado” 

De  acordo  com  a  jurisprudência,  portanto,  a 
competência  para  julgamento  de  crime  de 
emissão de cheque sem fundos é o local onde 
houve  a  recusa  do  pagamento  do  cheque. 
Importante  destacar,  contudo,  que  o  local  da 
recusa  será  o  local  em  que  o  estelionatário 
possui  a  conta  bancária.  Assim,  se,  por 
exemplo, ele tem conta bancária em Salvador 
mas  emite  o  cheque  em  Sergipe,  o  local  da 
recusa  será  Salvador,  por  que  este  é  o  local 
em  que  o  agente  possui  a  conta  bancária.  A 
recusa do pagamento se dá no lugar em que o 
agente titulariza a conta bancária. 

3) Estelionato mediante falsificação de cheque 
- Neste caso, o correntista é vítima do crime. O 
foro  competente  para  processar  e  julgar  o 
crime  de  falsificação  de  cheque,  é  o  do  local 
onde  houve  a  obtenção  da  prova  ilícita, 
conforme prescreve a súmula 48, do STJ: 

Súmula 48, STJ: “compete ao juízo do local da 
obtenção da vantagem ilícita processar e julgar 
crime  de  estelionato  cometido  mediante 
falsificação de cheque” 

OUTROS  ENTENDIMENTOS  SUMULADOS 
ACERCA DO ESTELIONATO 

Súmula 73, STJ: “A utilização de papel moeda 
grosseiramente falsificado, configura, em tese, 
o  crime  de  estelionato,  da  competência  da 
justiça estadual” – O crime de moeda falsa é 
incompatível com o “falso grosseiro”, ou seja, 
quando a falsificação for grosseira, não haverá 
de  se  falar  em  crime  de  moeda  falsa  (cuja 
competência é da Justiça Federal) e passará a 
ser, em regra, o crime de estelionato, que é de 
competência da justiça estadual.  

Súmula 17, STJ: Quando o falso se exaure no 
estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é 
por este absorvido

”.  

 

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