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Poesias 

 
 

de Soares de Passos 

 
 
 
 
 

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Poesias 

de Soares de Passos 

 

 

 

1858 (1ª ed. em 1856) 

 
 

SOARES DE PASSOS 

 

(ESCORÇO BIOGRÁFICO) 

 

POR TEÓFILO BRAGA 

 
A  nova  época  literária  do  Romantismo,  iniciada  em  Portugal  por  Garrett  e 

Herculano, depois de cooperarem como cidadãos nas lutas da implantação do regime 
liberal,  ficara  bem  definida  nos  seus  dois  aspectos:  o  Romantismo  liberal,  que  se 
inspirava das tradições e do sentimento nacional, e o Romantismo emanuélico, em que 
o espírito religioso, suscitado pelos quadros da vida da Idade Média, favorecia, pela 
emoção  poética,  a  reacção  clerical  que  vinha  a  revelar-se  desde  que  Chateaubriand 
publicou o Génio do Cristianismo. Toda a obra de Garrett, acordando o sentimento da 
nacionalidade,  torna-o  um  dos  grandes  corifeus  do  Romantismo  liberal  na  Europa; 
Herculano, na Harpa do Crente e na sua predilecção pela Messíada de Klopstock, é 
um poeta emanuélico, que na idade da crítica se torna um polemista teológico. 

O Romantismo, esgotado na sua emotividade, recorria aos estímulos da sobre-

excitação,  aos  exageros  da  frase,  aos  quadros  tétricos,  ao  pessimismo  subjectivo  da 
passividade apática ou dos ímpetos da revolta Por estes extremos denunciou-se uma 
tal degenerescência ou Ultra-Romantismo. A Idade Média foi então representada pela 
sua exterioridade pitoresca, com um guarda-roupa cavalheiresco da extinta sociedade 
feudal.  O  romance  histórico,  da  vida  dos  castelos  medievais,  dos  torneios  e  das 
vinganças hereditárias, tem como forma poética correspondente a balada, a xácara, o 
solau, que se foram apagando na banalidade inexpressiva dos imitadores medíocres. A 
sentimentalidade  tornou-se  melancólica,  dando  ao  romance  uma  forma  subjectiva, 
numa  geração  de  tristes,  representada  nesses  tipos  de  René,  Werther,  Jacopo  Ortiz, 
Obermann, Manfredo, Lélia

; também o correspondente lirismo tornou-se a expressão 

de  uma  sentimentalidade  depressiva,  umas  vezes  convencional  como  nos  Laquistas, 
outras  patológica,  como  em  Millevoye,  ou  filosófica  como  em  Novalis.  Numa 
tendência  geral  dos  espíritos,  que  se  compraziam  na  admiração  das  falsificações 
literárias  de  Mac  Pherson,  dando  relevo  a  este  sentimentalismo  com  devaneios  em 
nome de Ossian, um bardo bretão do século sexto! 

Soares  de  Passos  também  traduziu,  depois  da  Marquesa  de  Alorna,  alguns 

trechos épicos do melancólico Ossian. Na transição da poesia romântica cavalheiresca, 
das xácaras e solaus, lírica na forma, mas na essência objectiva e descritiva como as 
baladas do Norte, para a poesia sentimentalista, verdadeiramente pessoal e subjectiva, 
vendo na natureza uma expressão moral da melancolia fatídica da alma, cabe a Soares 
de  Passos  o  lugar  proeminente  como  representante  desta  corrente  lírica  na  literatura 

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portuguesa. Esta corrente estética, que foi geral na Europa, é explicada pelo estado de 
depressão  dos  espíritos  depois  dos  grandes  abalos  morais  da  sociedade  moderna, 
depois da explosão temporal da Revolução Francesa. Compreende-se isto: passada a 
catástrofe, vem a emoção como reacção da sensibilidade, chora-se depois do perigo. 

Pela época em que nasceu Soares de Passos, e pelas crises tremendas da nação 

portuguesa em que desabrochou a sua vida, o seu espírito devia naturalmente pender 
para a reconcentração subjectiva. Esses acontecimentos influíram na sua constituição 
orgânica; fizeram dele um doente, um débil, com um retraimento que lhe agravou a 
sensibilidade com uma tristeza de incompreendido. A poesia apareceu-lhe como um 
recurso de expressão para esse subjectivismo melancólico, que a fatalidade da doença, 
que  o  vitimou  no  esplendor  do  seu  talento,  tornou  de  uma  sempre  impressionante 
verdade. Esse lirismo pessoal de Soares de Passos, aparece isento do artifício e mesmo 
da  pecha  de  atrasado  ultra-romantismo,  conhecendo-se  a  sua  biografia.  É  uma 
condição imprescindível para bem avaliar os seus versos. 

António  Augusto  Soares  de  Passos  nasceu  na  cidade  do  Porto  em  27  de 

Novembro  de  1826;  foram  seus  pais  Custódio  José  Passos,  estabelecido  na  Praça 
Nova, nº 111 a 113, com um armazém de drogas, em cujo prédio habitou sempre a sua 
família, e D. Ana Margarida do Nascimento Soares de Melo. Deste consórcio nasceu 
um  outro  filho,  também  de  nome  Custódio  José  Passos,  que  seguiu  o  comércio  e 
continuou a casa, e uma menina. Esse ano de 1826 era o início de uma nova época de 
perturbação  terrível: inaugurava-se o regime constitucional parlamentar com a Carta 
outorgada  por  D.  Pedro  IV,  mas  ia  desencadear-se  a  mais  tremenda  reacção  dos 
absolutistas apostólicos e realistas, começando pela regência pérfida da devassa Isabel 
Maria e pelo governo de D. Miguel, que atraiçoou a causa constitucional que jurara, 
proclamando-se rei absoluto, e exercendo a soberania pela violência canibalesca das 
forcas, dos confiscos, das perseguições, dos cárceres e dos caceteiros assalariados. O 
Porto foi o ponto escolhido para o absolutismo miguelino se impor pelo terror rubro; a 
fuga  dos  chefes  da  resistência  liberal  no  Belfast  justificava  a  repressão.  O  honrado 
negociante  Custódio  José  Passas,  pelo  seu  espírito  liberal,  foi  um  dos  inúmeros 
perseguidos,  tendo  de  fugir,  escondendo-se  e  homiziando-se  para  não  ser  preso  e 
sucumbir  no  cárcere.  Sob  a  pressão  destes  terrores,  a  mãe  do  poeta  contraiu  os 
sofrimentos,  que  nunca  mais  a  abandonaram;  e  diante  da  sua  casa,  na  Praça  Nova, 
foram levantadas as duas forcas, em que a Alçada miguelina mandou executar os nove 
liberais, com que entendeu cimentar o prestígio do realismo brigantino. Numa carta de 
Rodrigues  Cordeiro  ao  jornalista  Martins  de  Carvalho,  vem  uma  nota  pessoal  deste 
quadro tremendo, contado por Custódio Passas, irmão do poeta: «O irmão de Soares 
de  Passos  disse-me  que  defronte  da  janela  da  casa  da  sua  família,  na  Praça  Nova, 
estiveram  levantadas  duas  forcas  durante  três  anos;  que  o  irmão  se  lembrava  delas 
com horror; e que isso influíra bastante para o seu espirito liberal. 

Na  poesia  –  Ao  Porto  –  escreveu  ele,  referindo-se  ao  que  vira,  quando  os 

soldados de D. Pedro chegaram à Praça: 

 
Ei-los à Praça chegados, 
E os cadafalsos alçados 
Lá baqueiam derribados 
Aos gritos da multidão.

 

1

 

                                                 

1

  Carta  de  17  de  Junho  de  1874,  perguntando  a  Martins  de  Carvalho sobre as execuções 

políticas da Praça Nova de 1828 a 1831 (Conimbricense, nº 5 131 (1896); e nº 5 394 (1899). 

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4

 
Na Praça Nova, em 1829, levantaram-se as duas forcas, onde se trucidaram as 

nobres vítimas de um sentimento liberal burlado pela outorga da Carta de 1826, que o 
Porto  festejara.  As  cabeças  das  vítimas furam decepadas a esses nove cidadãos sem 
crime,  e  mandadas  colocar  em  postes  nas  terras  de  suas  naturalidades,  para 
intimidação e escarmento de quantos se não conformassem com a rara felicidade do 
absolutismo  paternal.  Quando  na  véspera  dos  enforcamentos,  à  noite,  se  batiam  os 
postes  das  forcas,  julgaram  nas  casas  vizinhas  que  esses  estalos  eram  de  foguetes, 
supondo alvorecer do dia seguinte campearam as forcas, e a cidade do Porto apareceu 
encerrada, como se em cada família houvesse luto. A execução realizou-se com todos 
os seus horrores, mas o absolutismo ferira-se a si mortalmente. A liando-se por isso a 
concessão da amnistia. Ao 

A linguagem dos periódicos mais graves proclamava o rigor, classificando esse 

inolvidável acto do canibalismo de 7 de Maio: 

«A sociedade, o estado, o trono e a espécie humana não podem existir sem que 

pereçam os inimigos da espécie humana, do trono, do estado e da sociedade; e eis aqui 
onde fulgura a justiça de Deus e de El-Rei, e ande a natureza não geme!» Parece-nos 
estar lendo o preâmbulo de João Franco à lei de 3l de Janeiro de 1908! O trono e o 
altar  nunca  hesitaram  diante  do  sangue.  Convulsionado  por  estes  actos  bestiais  do 
terror  realista,  o  Porto  tornou-se  o  apoio  de  toda  a  resistência para a reconquista da 
liberdade;  sem  muralhas,  teve  a  firmeza  de  suportar  um  terrível  cerco,  e  de  triunfar 
sem recursos, apesar da fome e da peste. E consideram os historiógrafos oficiais, que 
todo este sacrifício de um povo, e heroísmos incomparáveis foram motivados para a 
restauração  do  trono  da  jovem  D.  Maria  da  Glória!  dessa  rainha  D.  Maria  II,  que 
levada  pelo  germanismo  do  seu  segundo  marido,  fazia  a  Belenzada  em  1836,  e  em 
1842  violava  a  Constituição  de  1839,  e  em  1847  chamava  a  intervenção  armada 
estrangeira, para segurar-se no trono, tendo ainda para isso de submeter-se, depois de 
nova traição, ao movimento de 1851, chamado da Regeneração! 

Mas,  a  que  vêm  estes  factos  políticos,  que  tanto  convulsionaram  a  nação 

portuguesa? Foi através destas tremendas crises que Soares de Passos cresceu, estudou 
e se fez homem, actuando no seu temperamento sombrio, valetudinário e retraído. No 
meio  destes  abalos  que  perturbaram  profundamente  a  família,  e  das  tristezas  e 
misérias  domésticas  de  um  cerco  desesperado,  Soares  de  Passos,  criança  e  sem 
perceber os espantosos acontecimentos, vendo lágrimas e mortes em volta de si, sentiu 
duramente as consequências sofrendo uma doença prolongada, que o predispôs para a 
tuberculose,  que  o  vitimou  aos  trinta  e  quatro  anos,  quando  o  seu  talento  atingiu  o 
máximo esplendor. 

A primeira educação de Soares de Passos foi-lhe ministrada até aos catorze anos 

no Colégio do Corpo da Guarda, com destino para a vida comercial, na própria casa 
paterna; aí adquiriu o conhecimento das línguas francesa e inglesa. Desde 1840 a 1845 
Soares de Passos esteve efectivamente ao balcão do armazém de drogas de seu pai e 
encarregado também da escrituração da casa. Neste período angustioso em que se lhe 
acordava  no  espírito  a  paixão  literária,  ele  ensinava,  nos  momentos  vagos,  a  língua 
francesa a sua irmã, e o inglês a seu irmão Custódio Passos. A leitura das novas obras 
do  romantismo  mais  lhe  desvendava  a  vocação  literária.  No  Porto  é  frequente  esta 
aliança da prática do comércio com o interesse pelas letras, como já o notava o célebre 
erudito  João  Pedro  Ribeiro  dando  notícia  da  preciosa  livraria  de  um  negociante  do 
século  XIV.  Soares  de  Passos  revelou  ao  pai  a  aspiração  de  seguir  os  estudas 
superiores; conseguiu essa aquiescência em 1845, começando a frequentar a aula de 

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5

latim do celebrado professor José Rodrigues Passos, e lições de filosofia racional de 
António Fernandes da Silva Gomes, pai do poeta portuense Henrique Luso da Silva, 
falecido prematuramente, e Augusto Luso da Silva, ambos íntimas amigos de Soares 
de Passos e de Custódio Passos, que também cultivava com o maior segredo a poesia. 
Terminados  estes  preparatórios  de  latinidade  e  de  filosofia  elementar  em  1848,  e 
hesitando ainda em seguir o Curso matemático ou o jurídico, ele partiu para Coimbra, 
matriculando-se  em  Outubro  de  1849  no  primeiro  ano  da  Faculdade  de  Direito. 
Circunstância  digna  de  reparo:  neste  mesmo  curso  apareceu  matriculado  João  de 
Deus, o que se revelou como o renovador do Lirismo português depois de Garrett. Os 
dois poetas não se conheceram nesse primeiro ano de Universidade: João de Deus era 
um  boémio,  vivendo  com  os  estudantes  conterrâneos  seus  do  Alentejo  e  Algarve; 
Soares de Passos, naturalmente reservado, morava na Rua dos Militares, numa casa ou 
pequena  república,  em  que  tinha  por  companheiros  outros  poetas  portuenses, 
Alexandre  Braga,  o  autor  das  Vozes  da  Alma,  Silva  Ferraz  e  Aires  de  Gouveia, 
planeando  com  eles  o  continuarem  a  tradição  académica  do  jornal  de  versos  
Trovador

,  de  1844,  em  que  brilhavam  João  de  Lemos  e  Couto  Monteiro,  António 

Pereira  da  Cunha,  António  Xavier  Rodrigues  Cordeiro,  os  dois  Serpas  (José  e 
António), Augusto Lima, Evaristo Basto, Henrique O'Neil, Luís Augusto Palmeirim e 
Correia Caldeira. Era legítima a empresa de reatar a tradição poética; esse grupo da 
Rua  dos  Militares  empreendeu  em  1851  a  publicação  do  Novo  Trovador.  João  de 
Deus,  com  a  sua  tendência  apática,  deixara-se  ficar  em  Messines  em  1850, 
regressando  a  Coimbra  para  matricular-se  no  segundo  ano  em  1851-1852;  esta 
circunstância  explica  como  ficou  atrás  da  curso  de  Soares  de  Passos,  não tendo por 
isso  ensejo  para  se  aproximarem.  É,  certo  que  esses  dois  vultos,  que  a  vida  de 
Coimbra  ali  juntou  em  1849,  tinham  no  seu  talento  os  destinos  da  poesia  lírica 
portuguesa.  Era  o  influxo  daquela  encantada  Coimbra,  de  que  falava  Antero  de 
Quental com saudade. 

Assim como a Provença foi para a Europa do fim da Idade Média a capital de 

onde  irradiou  a  poesia  lírica  do  Amor,  que  todas  as  nações  imitaram  na  forma 
trovaderesca,  e  que  a  Itália  transformou  na  norma  definitiva  do  Lirismo  moderno, 
idealista e humano, também Coimbra, desde a Renascença, tornou-se para Portugal o 
centro fecundo de elaboração poética, e todos os génios portugueses ali foram receber 
a sugestão emocional e ali idealizaram, em estrofes imperecíveis, as emoções com que 
ainda nos encantam. A mudança da Universidade para Coimbra em 1537 determinou 
este  concurso  permanente  da  mocidade  de  todas  as  províncias  de  Portugal;  pela 
cultura  humanista,  e  predilecção  literária,  em  Coimbra  se  manifestaram 
constantemente as vocações poéticas, muitas das quais deixaram um traço luminoso 
na  história.  Em  Coimbra  inicia  Sá  de  Miranda  a  transformação  do  gosto  poético,  o 
dolce stil nuovo

 que ele soube encontrar através dos provençais nos líricos italianos; 

foi  em  Coimbra  que  Luís  de  Camões  e  o  seu  amigo  Jorge  de  Montemor,  na  livre 
expansão  da  mocidade,  nas  margens  do  Mondego,  acharam  os  primeiros  acentos da 
harmonia, com que imortalizaram a sua afectividade pessoal. No ruído das Escolas, e 
no  fervor  dos  estudos  de  Humanidades  e  da  Jurisprudência,  o  Dr.  António  Ferreira 
continua o impulso dado por Sá de Miranda, e compreende o valor artístico da lenda 
sentida  dos  amores da D. Inês de Castro, para modelar a primeira tragédia moderna 
segundo a estrutura da tragédia clássica directamente conhecida na forma grega. Em 
Coimbra,  Vasco  Mouzinho  de  Quevedo  e  Francisco  Rodrigues  Lobo  continuam  a 
tradição quinhentista, mau grado o Culteranismo, que assoberbou todo o século XVII. 
Enfim,  cada  escola  acha  em  Coimbra  os  melhores  representantes  da  emotividade 

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6

poética, como no século XVIII Garção, Dinis, Tolentino e José Anastácio da Cunha, 
árcades  e  proto-românticos,  e  no  princípio  do  século  XIX  os  autores  das  tragédias 
voltaireanas, que precederam a revolução liberal, os poetas didácticos como Castilho, 
os  românticos  como  Garrett,  os  ultra-românticos  como  João  de  Lemos,  os 
sentimentalistas  como  Soares  de  Passos  e  João  de  Deus,  os  revolucionários  como 
Antero  de  Quental,  parnasistas  como  Gonçalves  Crespo,  simbolistas,  decadistas, 
nefelibatas, de uma exuberante seiva da mocidade. 

Para  Soares  de  Passos,  a  poesia  foi  um  refúgio,  a  Turris  eburnea  em  que  se 

confinara. Era nesse meio turbulento da Coimbra das grandes troças, que ele passava 
absorvido e alheio a toda a expansão da mocidade, mal conhecendo os condiscípulos, 
resguardando-se na intimidade quase exclusiva de Silva Ferraz e de Alexandre Braga. 
Em Março de 1852 começou-se a publicar no Porto um jornal de versos intitulado 
Bardo

,  de  que  eram  fundadores  o  poeta  satírico  Faustino  Xavier  de  Novais,  e  o 

ncgociante metrificador António Pinheiro Caldas. Pela sua amizade pessoal obtiveram 
de  Soares  de  Passos  a  distinção  de  publicarem  poesias  suas.  Aí  apareceram  pela 
primeira  vez  a  balada  do  Noivado  do  Sepulcro,  as  odes  À  Pátria,  Rosa  Branca  (no 
álbum da Exª Srª D. J. Maria de Figueiredo), CançãoDesejoSaudade, com variantes 
que merecem estudar-se, porque revelam o seu processo artístico. No texto definitivo 
da  mais  popular  das  suas  composições,  o  Noivado  do  Sepulcro,  em  geral  as 
modificações que adoptou na edição de 1854 são inferiores à redacção primitiva d'
Bardo 

(Março de 1852). Confrontemos esta lição com as variantes ulteriores: 

 
Mulher formosa, que adorei na vida, 
E que inda adoro neste chão de horror, 
Porque tão cedo foi assim traída 
Tua promessa de constante amor?

 

2

 

 
Depois que em leito sepulcral repousa 
Inda há três dias não vieste aqui... 
Ai! quão pesada me tem sido a lousa 
Sobre este peito que bateu por ti.

 

3

 

 
Caí exausto neste abismo fundo 
Que em tua morte me cavou a dor.

 

4

 

Deixei a vida... que importava o mundo, 
O mundo em trevas sem a luz do amor! 
 
Saudosa ao longe vês no céu a Lua? 
– Ai, se a vejo? Bem a vejo, sim... 
Foi à luz dela que jurei ser tua, 
Na vida e morte, com amor sem fim.

 

5

 

                                                 

2

 (2) Mulher formosa, que adorei na vida, 

E que na tumba não cessei de amar, 
Porque atraiçoas, desleal, mentida,. 
O amor eterno que te ouvi jurar?  

3

 Abandonado neste chão repousa 

Há já três dias não vieste aqui... 

4

 Feliz que pude acompanhar-te ao fundo 

Da sepultura, sucumbindo à dor... 

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7

 
Em seguida a estas estâncias aparece uma estrofe, que o poeta omitiu na edição 

de 1856; não se compreende porque a desprezou; ei-la: 

 
Se em vida, ai triste, não no quis a sorte, 
Hoje eis cumpridos os protestos meus; 
Oh, dá-me, dá-me que no chão da morte 
Meus frios ossos eu reúna aos teus. 
 
O  Noivado  do  Sepulcro  é  cantado  numa  melopeia,  que  o  vulgarizou  entre  o 

povo, sem ter contudo condições de popularidade; no Porto ouvimo-lo bastantes vezes 
cantado  pelas  ruas,  em  noites  de  luar,  mas  deturpadas  as  palavras  cultas  pelos  mais 
deploráveis  plebeísmos.  A  extrema  vulgarização  desta  balada  chegou  a  produzir  a 
ilusão  mental  de  um  poeta  provinciano,  que  protestava  tê-la  escrito  e  recitado  à 
família  nas  férias  escolares  em  1853,  acusando  Soares  de  Passos,  depois  de  morto, 
como indigno plagiário. 

Adiante analisaremos este caso psicológico. 
Numa outra poesia intitulada A Pátria, inspirada pelo verso de Camões: – Esta é 

a  ditosa  Pátria  minha  amada

  –  acham-se  no  texto  d'O  Bardo  de  1852  estrofes 

inteiramente  diversas  da  lição  do  texto  definitivo  de  1856,  e  outras  omitidas. 
Confrontemo-las,  para  a  melhor  compreensão  do  processo  artístico  de  Suares  de 
Passos: 

 
Esta é a ditosa pátria minha amada, 
Ditosa noutro tempo, hoje abatida; 
Foi grande, foi potente... hoje coitada 
Ao mundo apenas dá sinais de vida.

 

6

 

 
Segue-se-lhe esta estrofe desprezada: 
 
Portugal! Oh, perdoa se o meu canto 
Em lugar de exaltar-te um ai suspira: 
Sou teu filho... nos olhos geme o pranto 
Banhando as cordas trémulas da lira. 
 
Pátria, pátria, que tens que em desalento 
Vergas a fronte que alterosa ergueste! 
Porque, às bordas do gélido moimento 
Teus brios e valor adormeceste?

 

7

 

                                                                                                                                       

5

 Saudosa, ao longe, vês no céu a Lua? 

Ah, vejo sim... recordação fatal; 
Foi à luz dela que jurei ser tua 
Durante a vida, e na mansão final, 

6

 (6) Esta a nação de laureada frente, 

Esta a ditosa pátria minha amada, 
Ditosa e grande, quando foi potente, 
Hoje abatida, sem poder, sem nada. 

7

 Pátria minha, que tens, que em desalento 

Vergas a fronte que alterosa erguias? 
Porque fitas o gélido moimento 

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8

 
Onde está esse génio de teus filhos, 
Que outrora avassalando o mar profundo 
Abria sobre as ondas novos trilhos, 
Mostrando ao mundo antigo um novo mundo?

 

8

 

 
Que fizeste do império desse Oriente 
Onde raiaram teus formosos dias, 
Quando sentado em trono refulgente 
O ceptro a imensos povos estendias.

 

9

 

 
Então eras tu grande! os reis da terra 
Vinham deixar-te aos pés ricos tesouros, 
O mar tinto de sangue em dura guerra 
Gemia sob o peso dos teus loiros.

 

10

 

 
Não  apontamos  todas  as  outras  variantes;  revelam  um  trabalho  intenso  de 

modificação de uma frase sempre enfática, que não era a expressão de um verdadeiro 
sentimento.  Henriques  Nogueira,  que  vira  essa  miséria  da  intervenção  armada 
estrangeira,  pedida  por  D.  Maria  II  em  1847,  teve  rasgos  de  suprema  eloquência 
proclamando  a  doutrina  do  Federalismo  peninsular;  Palmeirim  vibrou  por  um 
momento,  para  calar-se  depois;  Soares  de  Passos  sofria  intimamente, mas a retórica 
era então uma forma imperiosa. Notaremos apenas esta estância omitida: 

 
Tudo o mais acabou... cem fortalezas 
Com sangue de teus filhos cimentadas, 
Baquearam por terra, ou indefesas 
Choram de teus heróis sobre as ossadas. 
 
O  fenómeno  da  desnacionalização  actuava  na  depressão  tremenda  em  que  se 

afundou  Portugal,  por  forma  que  aquele  único  espírito  que  acordava  nas  almas  o 
sentimento  da  nacionalidade,  Garrett,  era  torpemente  caluniado  pelos  políticos 
palacianos, e odiado por D. Maria Libânia (pseudónimo usado por D. Maria II) na sua 
correspondência com os espiões cabralistas. 

Numa visita a Coimbra, António Xavier Rodrigues Cordeiro, um dos poetas do 

Trovador

,  procurou  em  1851  Soares  de  Passos,  movido  pelo  interesse  que  lhe 

suscitara  o  pensamento  do  Novo  Trovador;  morava  ele  então  na  Rua  do  Corpo  de 

                                                                                                                                       

Perdida a força dos antigos dias? 

8

 Onde está esse vasto capitólio 

De tuas glórias, o soberbo Oriente, 
Lá onde erguida em triunfante sólio, 
Empunhavas teu ceptro refulgente? 

9

 Que fizeste do génio destemido 

Com que douravas esse mar profundo, 
E sorrias das vagas ao rugido, 
Ignotas praias descobrindo ao mundo? 

10

 Então eras tu grande! os reis da terra 

Derramavam-te aos pés os seus tesouros, 
O mar saudando teus pendões de guerra 
Gemia ao peso de teus verdes louros. 

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9

Deus,  tendo  por  companheiros  de  casa  os  portuenses  Alexandre  Braga  e  António 
Aires de Gouveia. Deixou-nos em poucas linhas o retrato do poeta: «Era de estatura 
mediana, franzino, fronte larga, e de olhas rasgados, com cabelo castanho liso e pouco 
espesso,  bigode  aloirado;  e  quanto  ao  aspecto  moral  de  uma  vaga  tristeza,  pouco 
comunicativo».  0  engenheiro  Eduardo  Falcão,  que  igualmente  o  tratara  com 
intimidade, conversando sobre as modernas doutrinas científicas, também representa 
Soares  de  Passos  com  traços  realistas:  «Acanhado  entre  desconhecidos,  e  modesto 
diante de amigos, preocupando-se com os problemas do homem e da humanidade. Era 
apático,  passando  quase  sempre  deitado,  no  seu  quarto,  dando  apenas  um  pequeno 
passeio ao cair da noite». Apontamos estes factos para se reconhecer quanto absurda é 
a afirmativa de que esse tímido se apropriara de certas poesias que alguém declarou 
ter escrito em 1853, quando Soares de Passos as publicara n’O Bardo em Março de 
1852. Também tornam inexplicável a lenda, de que o poeta sofrera em Coimbra uma 
agressão  violenta,  às  Olarias,  por  causa  de  uma  aventura  amorosa;  nega-o 
terminantemente Aires de Gouveia. 

É  certo  que  nas  férias  de  1853  (  Junho  a  Setembro  )  Soares  de  Passos  jazeu 

doente em casa, indo tarde e ainda convalescente matricular-se no quinto ano jurídico. 
Erguendo-se  dessa  grave  doença,  não  se  lhe  proporcionava  ensejo  para  qualquer 
actividade literária; tal era o seu estado que só pôde começar a frequência às aulas no 
mês  de  Novembro.  Nesta  situação,  quebrantado  da  viagem  de  estafete,  difícil  e 
acidentada  para  Coimbra,  escreveu  Soares  de  Passos  a  inimitável  elegia  Partida
publicada pela primeira vez em 1855 na Grinalda (vol. I, pág. 99), jornal de versos de 
Nogueira  Lima.  Os  pressentimentos  da  morte  atravessavam-se  por  meio  das 
recordações  e  saudades,  prevalecendo  sobre  todos  os  outros  sentimentos  como  uma 
obsessão permanente: 

 
Mas se as flores do campo voltarem 
Sem que eu volte co'as flores da vida, 
Chora aquele que em tumba esquecida 
Dorme ao longe seu longo dormir; 
E cada ano que o sopro do Outono 
Desfolhar a verdura do olmeiro, 
Lembra-te ainda do adeus derradeiro, 
Deste adeus, que te disse ao partir. 
 
O  ano  da  formatura  findava;  mas  ficava  assinalado  esse  ano  de  1854  pelo 

estrondoso  conflito  entre  os  estudantes  da  Universidade  e  a  população  de  Coimbra, 
que  é  conhecido  pelo  nome  da  Tomarada.  Os  estudantes  resolveram  abandonar 
Coimbra,  e  retiraram-se  em  tropel  para  Tomar,  onde  o  governo  os  sustou  sem 
violência, mas por acordo, fazendo-os, sob promessa, voltar a Coimbra. Essa energia 
transformou-se então num sistema de resistência organizada na Liga Académica, sob a 
forma  de  associação  secreta.  Começava  assim  a  iniciar-se  entre  os  académicos  o 
espírito  associativo,  criando-se  nesse  ano  de  1854  a  Sociedade  Civilizadora,  de  que 
eram  membros  os  dois  companheiros  de  Soares  de  Passos,  Silva  Ferraz  e  Aires  de 
Gouveia,  Ernesto  Marecos  e  Tomás  Ribeiro,  também  poetas,  e  outros  que  lhes 
sucederam, como Silva Leal, Correia Harcourt, Filipe de Quental e Ernesto do Canto. 

O  poeta  deixava  Coimbra  no  período  mais  turbulento  da  vida  académica,  que 

retomava todo o seu espírito de revolta medieval. 

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10

Quem  entra  em  Coimbra,  ao  ver  os  estudantes  desfilando  unidos,  em  grupos, 

com as longas capas negras, batina e gorro, crê-se momentaneamente transportado a 
uma cidade da Idade Média, do tempo em que o Poder real protegia com privilégios 
excepcionais  as  corporações  escolarescas,  e  quando  o  clericus  andava  sempre  em 
conflito com o laicus, ou o burguês. O que parece uma ilusão torna-se uma realidade, 
porque, à medida que se toma conhecimento da organização íntima da Universidade, 
transparece  ali  o  espírito  medieval  em  todas  as  suas  feições.  A  grande  corporação 
escolar,  embora  hoje  submetida  ao  centralismo  administrativo,  persiste  em  ter  uma 
jurisprudência  sua,  não  reconhece  a  base  moderna  do  direito  constitucional  da 
igualdade  perante  a  lei,  fortifica-se  num  anacrónico  ou  fantástico  foro  académico,  e 
nas suas deliberações soberanas manda pôr fora de Coimbra, em vinte e quatro horas, 
o cidadão sobre quem, pela disciplina da matrícula, se arroga o poder de exercer uma 
acção  despótica.  Pelo  seu  lado,  os  estudantes  não  se  mostram  mais  adiantados;  ao 
envergarem a capa e a batina apossam-se do velho espírito da classe, da época em que 
clericus vivia na bambochata dos Goliardos e da tuna, dos sopistas e martinets, e ei-
los  durante  os  anos  da  formatura  entregues  com  todo  o  desplante  e  audácia  da 
mocidade aos arruídos das antigas Soiças e Investidas a que chamam – as troças

Ninguém  há  em  Portugal  que  não  conheça  as  troças  de  Coimbra:  a  troça  é  a 

alma da Universidade, a tradição escolaresca na plena inconsciência; é uma orientação 
secular,  com  que  o  corpo  catedrático  transige  paternalmente,  contanto  que  não  roce 
pela gravidade doutoral. 

O  uso  da  troça  encasou-se  tão  profundamente  em  Coimbra,  que  a  população 

burguesa  da  cidade  fala  com  o  calão  da  Universidade;  tudo  o  que  se  diz  ou  faz  é 
sempre em ar de troça, operando-se a transição para a seriedade por um modo brusco e 
instantâneo, como se se puxasse um cordel ou se pusesse uma máscara. O bom dito é 
a  piada,  que  persiste  até  na  linguagem  dos  conselheiros  de  Estado,  que  conservam 
essa  prega  de  Coimbra.  Daqui  provém  esse  fenómeno  psicológico  singular  do  tipo 
coimbrão

,  mantido  desde  o  que  chegou  a  ministro  da  Coroa  até  ao  mais  anónimo 

barbeiro: apresenta-se com uma gravidade olímpica na linguagem e nas maneiras, e de 
repente, quando menos se espera, enfia as mais pitorescas piadinhas da gíria com uns 
gestos  faiantes,  que  desconcertam  o  observador.  Não  existe  uma  transição  natural 
entre a troça do estudante e a autoridade catedrática do doutor; de modo que, quando 
este quer assumir a altura da respeitabilidade do seu grau, só tem o meio violento, a 
reprovação no fim do ano no acto, ou a resolução absurda de um conselho de decanos. 

O lente, que começou por ser estudante e obedeceu à orientação tradicional da 

troça escolar, sofre desde o dia em que toma capelo uma vesânia de respeitabilidade; 
adquire na fisionomia um ar meditabundo; emprega no andar o passo cadenciado do 
séquito, na conversa usa o tom dogmático, enfim todos as característicos exteriores de 
uma  seriedade  superior  a  que  internamente  não  corresponde  a  própria  consciência. 
Põe-se  imediatamente  em  antinomia  com  os  estudantes,  a  quem  só  fala  como  seu 
julgador. Esta moda doutoral é conhecida em Coimbra pela frase de gíria: – Aquele já 
botou a albarda aos ombros

 – com que designam a cerimónia do capelo. Quebra-se 

toda  a  relação  moral  do  mestre  com  o  discípulo;  aquele  julga-se  três vezes mais do 
que o estudante (magis ter), e este, na sua situação degradada, revoca-se ao passado e 
fortifica-se com o espírito sarcástico, mofador e irreverente da Idade Média, mantendo 
a independência intelectual pela troça. 

Observando estes costumes, pode-se recompor todo o viver íntimo das antigas 

Universidades  da  Europa,  ainda  persistente  em  Coimbra.  Além  do  hábito  talar  do 
clericus

, subsiste ali a antiga hostilidade entre o estudante e o burguês (scandala ac 

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11

dissentiones

), que motivou uma legislação privilegiada; para o estudante, o filhote ou 

cidadão  de  Coimbra  é  um  ente  desprezível,  a  que  dá  o  nome  de  futrica;  e  para  o 
burguês o bacharel que se vai deixa uma argola em Coimbra. O conflito da Tomarada 
de  1854  proveio  desta  hostilidade  imanente.  Em  geral,  a  lente  que  é  natural  de 
Coimbra ou casado com filha de lente, que o anichou na Universidade, é a favor do 
futrica

 e contra o estudante. 

Muitos dos costumes da vida académica de Coimbra, são em tudo semelhantes 

ao das Universidades francesas do século XIV, tais como se propagaram na Alemanha 
e  para  a  Suécia.  ainda  hoje  os  estudantes  em  Coimbra  se  dividem  em  três  classes, 
correspondentes  às  designações  medievais:  os  Recentiores,  a  que  equivalem  os 
Caloiros

; os Juniores ou Novatos, e os Seniores ou Veteranos, que compreendiam os 

terceiranistas  ou  Pés-de-banco,  sendo  esse  ano  denominado  a  ponte  dos  asnos,  as 
quartanistas  ou  Candeeiros  e  os  quintanistas.  As  relações  destas  diferentes  classes 
regulam-se  pelos  velhos  cerimoniais  da  Idade  Média,  por  uma  tradição  automática, 
que nem os próprios doutores saberiam explicar. 

É esse o drama da troça, conhecido nas antigas Universidades dos séculos XV e 

XVI pelo nome de Depositio, com o Vejamen e a Prise de la pierre. O personagem 
objectivo  da  troça  escolar  é  o  Caloiro,  da  classe  dos  Bancorum  ou  Becjaunes,  que 
vem da casa paterna como o jumentinho ainda coberto de pêlo. É preciso tosquiá-lo, 
cortar-lhe a trunfa, torná-lo gente. Às vezes a reacção da vítima produz consequências 
mortais. Leva-se depois o Caloiro a uma casa para lhe serem propostas as Captiosae 
quaestiunculae

  da  Idade  Média,  em  que  sumulam  do  modo  mais  grotesco  as 

cerimónias da defesa de teses e do doutoramento. O encarregado desta troça é sempre 
um  secundanista,  verdadeiro  Depositor,  que  faz  a  Vexatio  e  que  dá  o  grau  no 
Cornutus

. Nas Universidades espanholas conservou-se o costume dos Vejamens; nas 

poesias de Soropita vem um Vejamen a um lente zarolho de Coimbra no fim do século 
XVI. As teses são os mais fantásticos Quod libetus

O  grau  é  conferido  tendo  por  borla  um  capacho  das  pernas,  e  por  vezes  um 

bispote  de  barro  vidrado,  conforme  as  cores  simbólicas  das  Faculdades.  Os  graus 
degeneraram  em  violentas  brutalidades  na  Alemanha,  no  século  XVI;  o Novato que 
entra  na  Universidade  é  recebido  à  Porta  férrea  com  pontapés,  chamados  na  gíria 
coimbrã  canelão,  e  quando  protegido  sob  a  pasta  do  quintanista  apenas  é  permitido 
desmanchar-lhe o penteado e atirar-lhe algumas chufas. 

Em todas as vésperas das férias do Natal, Páscoa, ou do encerramento das aulas, 

renovam-se  as  troças,  que  reflectem  dos  Novatos  sobre  os  Caloiros.  O  fim  do  ano 
escolar assinala-se com o gáudio do toque das latas, espécie de grande Sabath, ao qual 
concorrem  todos  com  panelas,  tachos,  chocalhos,  búzios,  percorrendo  até  de 
madrugada as ruas de Coimbra. É a libertação do toque da Cabra, espécie de couvre-
feu

 ou sino corrido da gente escolaresca. 

No  meio  deste  tropel,  os  estudantes  agrupam-se  ainda  pela  antiga  forma  de 

Nationes

,  a  que  chamam  repúblicas:  associam-se  entre  si  os  ilhéus,  os  beirões,  os 

minhotos,  lisboetas,  alentejanos  e  algarvios;  nas  suas  choldras,  há  um  que  faz  de 
bolsa, como nas colegiaturas. Aos estudantes medíocres dão-lhes o nome de músicos, 
formando  a  coelheira;  cábulas  aos  que  não  abrem  livro,  e  urso  ao  que  alcançou  a 
benevolência  do  lente  que  o  faz  premiado.  Esta  notável  persistência  dos  costumes 
escolares  de  Coimbra  ressente-se  nos  métodos  e  no  espírito  pedagógico  da 
Universidade; ali subsiste o vicio dialéctico e da ostentação banal do tempo em que as 
Universidades eram exclusivamente teológicas; ali impera a Sebenta, representante da 
época em que não havia livros impressas e se apostilava o que o Lente ditava lendo 

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12

pelo seu caderno; e se ensebava passando de mão em mão. Quando se uniformizará a 
Universidade de Coimbra, no plano integral da instrução pública portuguesa, aberta ao 
livre magistério, mundificada dessa crusta medieval da sua organização interna? 

Desse agitado ano de 1854 deixou Soares de Passos uma recordação no Álbum 

do  seu  condiscípulo  Gaspar  de  Queirós  Botelho  de  Almeida  e  Vasconcelos,  um 
Soneto bocagiano, o único que escreveu, talvez por não lhe ser simpática esta forma 
poética. A primeira estrofe merece transcrever-se: 

 
Nossa lidas findaram. Chega o dia 
De deixar estas margens bonançosas, 
Onde colhemos as purpúreas rosas 
Da ciência, do amor e da poesia.

 

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Antes de atirar-se à luta da existência como bacharel formado, Soares de Passos, 

ao  terminar  o  acto  de  formatura,  fez  uma  excursão  ao  Buçaco  e  ao  Mosteiro  da 
Batalha, acompanhado de seu irmão Custódio José Passos, de Silva Ferraz e Augusto 
Luso;  as  poesias  que  lhe  inspiraram  a  floresta  secular  do  monumento  histórico  são 
frias,  enfáticas,  falhas  de  pensamento,  no  estilo  característico  da  plêiade  de  João  de 
Lemos.  Era  preciso  que  a  sua  sensibilidade  se  exacerbasse  para  tornar  a  achar  a 
eloquência  do  sentimento.  0  regresso  ao  Porto,  onde  a  vida  prática  prepondera  em 
absoluto, forçava-o a empenhar-se desde logo no exercício da sua formatura. Lançou-
se  à  acção,  inscrevendo-se  como  advogado  na  secretaria  da  Relação  do  Porto,  para 
contar os dois anos exigidos para despacho na carreira judiciária. Repugnavam-lhe os 
processos,  as  tricas  forenses;  mais  facilmente  se  lhe  votou  de  alma  e  vida  o  seu 
condiscípulo e também poeta Alexandre Braga, que deixou nome no foro português. 
Uma ocupação sedentária, que honraria com a sua índole artística e tendência apática, 
ter-lhe-ia  prolongado  a  vida.  Soares  de  Passos  concorreu  à  vaga  de  segundo 
bibliotecário da Biblioteca Municipal do Porto; como os lugares públicos servem para 
pagar  os  que  intrigam  nos  partidos  políticos,  o  ministro  que  fez  o  despacho  de  um 
outro  candidato,  nem  suspeitava  que  feria  mortalmente  aquela  pobre  alma  na  sua 
última  aspiração.  O  poeta  caiu  na  impotência  moral,  numa  tristeza  que  o  levava  a 
evitar  todas  as  relações,  confinando-se  entre  alguns  poucos  amigos,  e  chegando  a 
permanecer perto de quatro anos fechado no seu quarto. A vida de Coimbra deixa esta 
prega de atonia moral em muitos bacharéis que se anulam no isolamento da província. 
Em  casa  não era um ocioso; no artigo intitulado Os Dois Irmãos, escreveu Augusto 
Luso:  «António  Augusto  Soares  de  Passos,  formado  em  Direito  na  Universidade  de 
Coimbra,  e  poeta  conhecido,  não  se  recusava  a  auxiliar  seu  pai,  e  seu  irmão  nos 
trabalhos comerciais, quando a necessidade o exigia». 

12

 

Em  Setembro  de  1854,  tendo  Castilho  ido  ao  Porto,  aí  celebrou  um  sarau 

poético;  era  esse  árcade  póstumo  um  exímio  recitador,  dando  um  relevo 
impressionante a todas as composições que exibia. Para esse sarau convidou Castilho 
a  Soares  de  Passos,  já  bastante  conhecido  pelas  poesias  publicadas  n'O  Bardo
Passava-se então no seu espírito uma crise profunda, entrando na sua plena floração 
ou  idealização  poética.  Esse  estado  de  alma  apresentava-se  sob  dois  aspectos:  um 
elegíaco, pessoal, exprimindo na forma a mais dolorosa e bela, o desânimo de quem 

                                                 

11

 Foi publicado este soneto pela primeira vez no Almanaque de Lembranças de 1883, pág. 

151, peio possuidor do álbum condiscípulo e íntimo amigo. Está incorporado na sétima edição das 
Poesias

, pág. 197. 

12

 Museu Ilustrado, vol. I, pág. 10. 

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13

5e sente morrer, como no Desalento, Anelos, a Vida e Consolação; o outro era uma 
tendência  para  a  Ode  filosófica,  a  alta  contemplação  que  dá  a  visão  subjectiva  mas 
científica  do  Universo,  como  síntese  racional,  fase  que  deixou  esboçada  no 
Firmamento

 e na Visão do Resgate. Explica-se esta fase de idealização científica por 

sugestão de conversas do seu último ano de Coimbra. O Firmamento é a manifestação 
de uma nova maneira, em que a intenção filosófica e a forma sintética do quadro dão 
ao  lirismo  uma  grandeza  de  ideal,  mais  verdadeiro  e  belo  do  que  o  tema  da 
imaginação individual. 

Para  esta  alteração  do  processo  estético  houve  decerto  uma  forte  sugestão 

exterior. No Almanaque de Lembranças de 1875, contou Rodrigues Cordeiro: «Depois 
de uma conversa que se travou entre Soares de Passos e o seu amigo o Sr. Eduardo 
Augusto Falcão, que nas suas ambiciosas, por não dizer exageradas teorias, queria a 
poesia da ciência na arte moderna, e quase que não admitia outra, levou-lhe este um 
dia o Système du Monde de Laplace. O poeta leu-o, e daí a muito pouco tempo, diz-me 
o Sr. Falcão, apresentou-lhe a ode ao Firmamento, perguntando-lhe se havia ali poesia 
da  ciência».  A  história  psicológica  de  todas  as  obras  belas  provoca  o  mais  vivo 
interesse;  e  no  Firmamento,  além  da  sua  beleza  estrutural,  há  os  novos  recursos  de 
idealização do poeta. O Sistema do Mundo é uma grandiosa síntese cosmogónica, que 
tem  dominado  e  ainda  prevalece  na  astronomia,  e  dá  vontade  de  convertê-la  numa 
Epopeia, num hino. O génio surpreendente de Edgar Poe converteu essa alta hipótese 
cosmogónica  no  seu  belo  quadro  fantástico  Eureka!  Era  plausível  que  um  poeta 
elaborasse  algumas  estrofes  eloquentes  sobre  a  visão  subjectiva  da  formação  e 
destruição do universo sideral, saindo da grande Nebulose central pela condensação e 
voltando  a  ela  pelo  predomínio  das  forças  repulsivas.  Suares  de  Passos  não  era 
repentista;  e  a  leitura  rápida  do  Sistema  do  Mundo  só  depois  de  uma  laboriosa 
assimilação poderia sugerir ao seu deísmo uma nova idealização poética. Pelo menos 
a  obra  de  Laplace  serviu-lhe  para  sistematizar  ideias  vagas  recebidas  nas  conversas 
científicas de Coimbra, no meado do ano de 1854. 

O ano de 1856 foi-lhe tormentoso; quatro meses sucessivos velou à cabeceira de 

seu  irmão  Custódio  Passos,  durante  uma  grave  doença.  Na  biografia  do  Poeta,  este 
irmão  deve  ocupar  o  lugar  luminoso  que  lhe  compete;  conhecemo-lo  ainda  quando 
residimos no Porto; mas para o retratar condignamente, a ele, também tão reservado, 
transcreveremos alguns traços do estudo Os Dois Irmãos, do professor Augusto Luso, 
que assim o define: «Este era dotado de um espírito claro e pensador; pouca gente o 
conhecia bem. A sua honradez aparecia em todos os actos da sua vida... Conhecia o 
latim, entretendo-se mesmo em ler os clássicos nesta língua; havia estudado o grego; 
lia,  escrevia  e  falava  o  francês,  conhecia  o  inglês,  o  alemão  e  o  italiano.  Tinha 
estudado os três primeiros anos de matemática na Academia desta cidade (Porto), bem 
como a física e a química... Os seus conhecimentos em história, geografia e literatura 
eram em geral muito vastos, e sobrepujavam aos de seu irmão, apesar de este se tornar 
mais conhecido. 

Amava em extremo a Poesia, e tinha um fino tacto e delicado para a critica, que 

era  sempre  justa,  baseada  e  segura.  Viveu  quase  sempre  desgostoso,  vendo 
desaparecer-lhe,  roubada  pela  morte,  toda  a  sua  família,  com  quem  vivia  e  a  quem 
amava extremosamente: sua tia, seu caro irmão, a sua querida irmã, sua terna mãe e 
seu  bondoso  pai;  mas  forte  pela  resignação,  pôde  sobreviver  a  tudo,  porque  nunca 
desamparou  esta  virtude.  –  Custódio  José  Passos,  desde  que  deixou  as  aulas  da 
Academia,  viveu  sempre  doente,  aumentando-se-lhe  o  sofrimento  até  sucumbir 
também. – Escreveu alguns versos e algumas traduções, mas nada publicou, porque a 

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14

muita modéstia lho proibiu. 

13

 E Foi nesta crise da doença de seu irmão que Soares de 

Passos  elaborou  as  poesias  O  Mendigo,  o  Filho  Morto,  Infância  e  Morte,  Amor  e 
Eternidade

, a Mãe e a Filha, e Tristeza. Neste mesmo ano colige o seu livro Poesias

publicado  pelo  tacanho  livreiro  alfarrabista  Cruz  Coutinho.  O  pequeno  volume  de 
versos  produziu  uma  grande  impressão  no  público,  cansado  das  banalidades  de 
impertinentes versejadores. Em carta de 5 de Agosto de 1856, Alexandre Herculano 
felicitou  Soares  de  Passos  pela  sua  obra,  considerando-o  como  sucessor  de  Garrett, 
dizendo também de si: «Fui poeta até aos vinte e cinco anos». 

14

 Numa carta do grande 

tribuno Passos Manuel ao pai do poeta, afirmava-lhe com entusiasmo: «O jovem poeta 
era o primeiro, o maior e mais ilustre dos poetas da nova geração...» Depois de 1856 
parece que nada mais escreveu, além de uma tradução da Monja de Uhland, e ainda 
três versões de Heine, que apareceram em alguns números da Grinalda de Nogueira 
Lima,  incorporadas  na  sétima  edição  das  Poesias  de  1890.  O entusiasmo provocado 
pelo livro fez que logo em 1858, o tacanho editor fizesse uma reprodução, retocada e 
ampliada.  A  doença  de  sua  mãe  influiu  também  para  esta  apatia.  Fechado  quase 
sempre no seu quarto, junto dele reuniam-se alguns amigos íntimos, entre eles Gomes 
Coelho (Júlio Dinis), o autor d'As Pupilas do Senhor Reitor e de outros romances no 
tipo das novelas inglesas. Gomes Coelho fala dessas reuniões, «nas sempre lembradas 
noites em que, entre poucos mas escolhidos amigos, víamos na sua casa correrem as 
horas  como  instantes,  e  passarem  as  longas  noites  de  Inverno  como  um  sonho».  A 
família de Júlio Dinis, também se extinguiu completamente vitimada pela tuberculose, 
sendo o insigne romancista derrubado quando estava no apogeu do talento e da glória. 
Sob  o  peso  desta  fatalidade  morreu-lhe  seu  irmão  José  Joaquim  Gomes  Coelho; 
Soares  de  Passos  consagrou-lhe  estas  duas  quadras  até  hoje  ainda  não  incorporadas 
nas suas Poesias

 
Vinte anos! Ai, bem cedo arrebatado, 

                                                 

13

 Eis uma pequena Elegia de Anastacius Grün, traduzida por Custódio Passos: 

 
AS LÁGRIMAS DO HOMEM 
 
Tu viste minhas lágrimas um dia. 
Escuta; em vossas faces são os prantos 
Como o orvalho que o Céu à flor envia 
E que em seu cálix só derrama encantos. 
Ou o distile a noite húmida e escura, 
Ela, sorrindo, a manhã clara e formosa, 
Sempre à flor vem dar vida e cor mais pura, 
Fazendo-a erguer mais bela e mais viçosa. 
Porém os prantos que derrama o homem 
São a estimada goma do Levante 
Que os arbustos no seio, avaros, somem 
E não deixam correr a cada instante. 
Mas firam um na casca ressequida, 
Se o golpe o coração do arbusto vara, 
Vê-se correr então da larga f'rida 
Aurea resina, gotejando, rara. 
Breve, é certo, essa fonte não transuda, 
Esse arbusto persiste e frutifica, 
Mais duma primavera inda saúda; 
Mas o sinal do golpe esse lá fica. 

14

 Lemos esta carta, de que era possuidor o Sr. Leal Barroso. 

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15

O guardaste no seio, oh campa fria! 
Flor passageira, sucumbiste ao fado, 
E seus perfumes, exalou num dia. 
 
Quanta ilusão desfeita em seu transporte, 
Sonhou glórias talvez! sonhou amores! 
Tudo, tudo aqui jaz! Carpi-lhe a sorte; 
Derramai-lhe na tumba algumas flores.

 

15

 

 
Castilho  estava  trabalhando  na  versão  parafrástica  dos  Fastos  de  Ovídio,  e 

entendeu anotar esse poema com notas ilustrativas por vários escritores portugueses; 
escreveu,  pediu,  e  alcançou  diversas  monografias  mais  ou  menos  valiosas  com  que 
ampliou em três os volumes da sua tradução. Tendo conhecido Soares de Passos, na 
visita  ao  Porto  em  1854,  escreveu-lhe  pedindo  para  que  lhe  redigisse  uma  memória 
sobre Tibur; essa nota efectivamente foi escrita pelo poeta, e está publicada no tomo 
III dos Fastos, página 522, devendo ficar também ligada à sua obra. 

16

 É um exemplar 

da  sua  prosa  desataviada  mas  pura.  Transcrevemos  aqui  a  carta  que  em  23  de 
Dezembro de 1859 escreveu a Castilho, dando conta do desempenho do seu pedido; é 
um documento inédito valiosíssimo: 

 

Il.

mo

 e Ex.

mo

 Snr. 

 
Estou envergonhadíssimo do modo por que me tenho havido para com V. 

Exª,  deixando  de  cumprir  até  hoje  a  promessa  que  lhe  fiz de contribuir com o 
meu ténue contingente para os comentários à sua tradução dos Fastos de Ovídio; 
mas  eu  espero  que  V.  Exª  se  dignará  desculpar-me  acreditando  que  a  omissão 
proveio não de descuido ou desatenção para com um objecto que dizia respeito a 
V. Exª, e em que havia um compromisso da minha parte, mas da falta de saúde 
por um lado, e por outro de ocupações. que me impediram de ser pontual corno 
desejava. Bem sei que às mais urgentes ocupações devia antepor esta por todos 
os  motivos;  mas  a  consideração  de  que  V.  Exª  ampliava  o  número  dos 
convidados para esta obra (comum – riscada esta palavra) e por isso de que a 
execução  desta  talvez  se  prolongaria,  fez-me  cometer  o  que  eu  reconheço  ter 
sido um atrevimento. (Finalmente – riscada esta palavra.) Por último é menos 
em razões, do que na bondade de V. Exª que eu ponho a esperança. de obter a 
remissão desta falta. 

Permita-me agora V. Exª que lhe peça um grande favor. Depositando em 

suas mãos a nota que V. Exª (riscadas as abreviaturas) me encarregou de redigir, 
(intercalada a palavra anterior) reconheço quanto está longe de corresponder ao 
pensamento  que  V.  Exª  me  indicou.  Lembrou-me  V.  Exª  que  a  escrevesse  em 
verso ou em prosa entremeada de verso; tentei-o, mas não pude achar meio de 
realizá-lo de modo que ela fosse poesia e ao mesmo tempo (sem deixar de ser – 
riscado

) esclarecimento do texto, condição que V. Exª decerto me impunha. 

O que pois consegui escrever foi uma colecção de apontamentos em forma 

de artigo bem singelo e bem insignificante. Se V. Exª entender que o que fiz é 
uma  coisa  inútil,  peço-lhe  encarecidamente  queira  pô-la  de  parle  sem 

                                                 

15

 Citada no Discurso de Rodrigues de Freitas na Abertura da Academia Politécnica em 1 

de Outubro de 1867. 

16

 Foi publicada dois anos depois da sua morte; Nota quadragésima dos Fastos de Ovídio, 

tomo  I,  pág.  167,  §  21.  Traz  esta  versão  anotações  de  mais  de  cem  escritores  portugueses 
contemporâneos, 1862. 

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16

contemplação, porque me resultaria eterno remorso de haver lançado este joio no 
meio dos frutos e das flores do seu precioso livro. Eis o favor que lhe roga quem 
é 

 
De V. Exª 
O mais ard.

te

 adm.

or

 e 

respeitoso discípulo 
 
A. A. Soares de Passos. 

17

 

 
Porto, 23 de Dezembro de 1859. 

 
O  estado  do  poeta,  aparentemente  satisfatório,  encobria  um  inesperado 

desenlace;  entrava  na  crise  dos  projectos,  que  irisam  a  imaginação  dos  físicos. 
Projectava ir passar o Inverno em Lisboa, no Dezembro de 1859. Talvez que Castilho 
o  estimulasse  para  isso;  mas  um  ataque  de  hemoptise  em  6  de  Janeiro  de  1860,  e 
repetições sucessivas, anunciaram-lhe um fim breve, falecendo às 8 horas da manhã 
do dia 8 de Fevereiro de 1860. 

Em  carta  de  seu  irmão  Custódio  José  Passos  a  Rodrigues  Cordeiro,  vem  a 

narrativa do seu falecimento: 

«Pelas 8 horas da noite do dia 6 de Janeiro ainda ele conversava largamente e 

bom na aparência comigo e com o seu amigo Dr. Miguel Teixeira Pinto. Das 10 para 
as  11  sobreveio-lhe  uma  hemoptise.  A  esta  sucederam-se  outras.  Nunca  mais  pôde 
estar deitado; o seu estado foi piorando dia para dia, até que, conhecendo que o seu 
fim estava próximo, aceitou a sua morte com a maior resignação e coragem. Pelas 8 
horas  da  manhã  do  dia 8 de Fevereiro expirava Soares de Passos nos braços de sua 
mãe e irmãos, e no meio da família, que tanto o amava. Realizaram se nisto os nossos 
e os seus desejos.» 

Passos  Manuel,  o  iniciador  das  maiores  fundações  do  constitucionalismo, 

escrevia  então  ao  pai  do  Poeta,  em  carta  de  17  de  Dezembro  de  1860:  «Um  dos 
grandes  sentimentos  que  tenho,  é  o  de  não  ter  abraçado  em vida esse glorioso filho 
que V. Exª perdeu e com tanta razão pranteia». 

A morte prematura de Soares de Passos, e a sua organização débil para entrar na 

luta,  não  o  deixaram  elevar-se  acima  das  emoções  da  personalidade;  a  sua  bela 
organização  artística,  não  pôde  por  essa  fatalidade  orgânica  atingir  a  plenitude 
criadora e consciente. A obra de arte não pode ser unicamente elaborada pelo poeta 
com  os  elementos  que  constituem  a  sua  subjectividade;  há  um  factor  alheio  a  ele  e 
com  quem  tem  de  colaborar  é  a  multidão,  o  povo,  a  sociedade,  a  colectividade 
nacional, enfim, que lhe fornecem o elemento morfológico da tradição, que o artista 
idealiza,  dando-lhe  a  expressão  com  que  é  renovada  e  mais  vigorosamente 
universalizada. Em geral os grandes artistas modernos esquecem-se deste facto natural 
–  a  tradição  –  concentram-se  no  seu  espírito,  tiram  tudo  de  si,  e  assim  como  os 
organismos se tornam mais pequenos quando a sua evolução morfológica se exerce no 
sentido  interno,  também  os  artistas  são  mais  pessoais  e  mais  limitados  nos  intuitos, 
exercendo  a  sua  actividade  nos  detalhes  do  estilo,  da  metrificação,  da  rima,  das 
imagens,  nos  calculados  recursos  do  efeito.  São  como  as  lindas  plantas  de  estufa, 
alentadas  num  meio  artificial;  falta-lhes  a  grande  comunicação  do  ar  livre,  o  estro 
vivificante  da  multidão.  Os  talentos  novos  deviam  procurar  o  modo  de  restabelecer 

                                                 

17

 Ms. 449 da Biblioteca Nacional (Inventário). 

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17

esta aliança natural, que em tempos antigos produziu todas as formas esplêndidas da 
Arte grega, e ainda na Idade Média provocou um original vigor estético, que não saiu 
do seu estado rudimentar em virtude da instabilidade política dessa época fecunda e da 
posterior direcção erudita dos espíritos que iniciaram a Renascença pela imitação de 
obras  que  correspondiam  a  um  outro  estado  social.  É  certo  que  o  estado  mental 
moderno produz um novo estado de consciência humana, e que esta modificação que 
se revela pelas noções morais, actua sobre os costumes e formas da actividade social. 
Enquanto  se  fez  a  transição,  nesse  período  da  Revolução  Francesa  e  nas  reacções 
inconscientes da Santa Aliança, apareceu um espírito superior, Byron, que idealizou 
os  seus  cantos  dando  expressão  ao  mal-estar  moral  de  uma  época  perturbada  por 
forças  repressivas,  e  a  sua  eloquência  e  sublimidade  vem-lhe  da  oportunidade  do 
protesto. Byron, como o notou Comte, admiravelmente (Cours de Phil., IV, 366), foi o 
génio que deu uma enérgica expressão de revolta contra este estado de retrogradação 
transitória,  como  o  grito  de  uma  consciência  atropelada.  Essa  fase  passou; 
preponderam as forças propulsivas dos dois grandes poderes espiritual e temporal que 
se afirmam por novas manifestações, a unificação moral pelo regime da Ciência; e a 
cooperação  social  dirigida  ao  bem-estar  de  todas  pela  Indústria.  É  desta  fase 
organicamente construtiva que provém a missão de uma nova Poesia. Porém, como? 
Pondo a ciência em verso, como considera o boçalismo retórico? Não. Compreenda-se 
a  orientação  social  correspondente  a  estes  progressos  intelectuais,  e  formule-se  a 
aspiração aí implícita, esboçando a futura síntese do estado normal humano. Assim se 
estabelecerá o acordo entre a multidão e o artista, e só assim se conceberá e realizará a 
nova poesia, suprema pela sua missão construtiva. 

A poesia não consiste nos versos bem medidos, mas na verdade do sentimento 

humano,  tão  complexo  nas  suas  manifestações  individuais  e  sociais.  A  falta  de 
conhecimento  da  realidade  das  coisas,  não  deixa  o  poeta  impressionista  ver  para 
dentro do mundo moral, cobrindo esse vácuo com o efeito da frase, com os símiles e 
comparações, com rimas imprevistas e pitorescas as desvairadas correntes literárias. A 
individualidade do poeta é também uma obra faceada pela acção forte da sua época. 
Disse  Milton:  The  life  of  Poet  is  a  true  poem  –  a  vida  do  poeta  é  um  verdadeiro 
poema.  O  que  quer  isto  dizer?  A  vida  acidentada,  complicada  pelo  conflito  dos 
interesses e das aspirações ideais é que faz os Poetas, como Dante banido de Florença 
nas lutas políticas, como Milton envolvido na Revolução de Inglaterra, como Byron 
quebrando  o  convencionalismo  inglês  de  uma  aristocracia  hipócrita  e  verberando  o 
retrocesso  da  Santa  Aliança,  como  Vítor  Hugo  protestando  contra  os  vinte  anos  de 
traição  e  infâmia  do  segundo  Império;  e  se  olharmos  para  a  nossa  península  como 
Camões  desterrado  da  corte  beata  de  D.  João  III,  escrevendo  a  Epopeia  da  nação 
portuguesa nos cruzeiros doentios, nos cárceres e misérrimos hospitais, nos naufrágios 
e  perseguições,  como  Cervantes  escondido  no  convés  de  uma  nau  na  batalha  de 
Lepanto,  e  escrevendo  o  Dom  Quixote  no  cárcere  de  Argamasila,  ou  ainda  Garrett, 
colaborando  na  legislação  que  renovou  as  instituições  portuguesas,  e  acordando  a 
consciência  da  nacionalidade  nas  lutas  do  cartismo  e  do  cabralismo.  A  vida  destes 
poetas é na realidade um verdadeiro poema; não viveram em si e para si, e é por isso 
que foram grandes na sua obra. 

  

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18

 

NOTA BIBLIOGRÁFICA 

 

Até  aqui  o  tremendo  libelo  acusatório;  na  continuação  carta,  apelando  para  o 

nosso critério, termina: Faço v. juiz... 

Como  todas  as  composições  de  Soares  de  Passos  lhe  eram  assim  extorquidas, 

em 1886, pelo Dr. Lourenço de Almeida e Medeiros, suspeitei logo de uma vesânia, a 
que  já  me  tinham  aludido,  e  aceitei  o  mandato,  para  que  me  fornecesse  dados 
positivos da sua afirmação e reivindicação poética. 

Enviou-nos  um  artigo  que  publicara  no  Distrito  de  Aveiro  em  1886,  com  a 

narrativa da palestra literária que tivera com Soares de Passos na Rua dos Militares, 
em  Coimbra,  em  1854,  única  vez  em  que  se  encontraram;  é  desse  momento  que 
derivam todos os plagiatos; transcrevemos esse trecho: 

«Em  Coimbra,  no  ano  de  1854,  alguns  dias  antes  de  se  fecharem  as  aulas, 

querendo  recitar  ao  meu  amigo  o  Sr.  Aires  de  Gouveia,  hoje  bispo  de  Betsaida,  
Firmamento 

e o Noivado do Sepulcro, dirigi-me a sua casa na noite de uma quarta-

feira, por ser o dia seguinte feriado para os estudantes de Direito. 

Morava  o  Sr.  Aires  de  Gouveia  na  Rua  dos  Militares.  Encontrei-o  na  sala  de 

jantar  com  os  seus  comensais  Soares  de  Passos,  Silva  Ferraz  e  o  Sr.  José  Carlos 
Lopes. 

Acalorado um pouco, o Sr. Aires de Gouveia disputava com Soares de Passos, e 

perguntei-lhe eu qual era o assunto discutido; vira-se para mim rapidamente depois de 
alguns momentos de silêncio e disse-me: – As Folhas Caídas, de Garrett. 

E desta maneira instando-me a expor o meu conceito sobre aquelas pérolas da 

nossa  literatura,  ainda  que  não  desejasse  ser  desagradável  a  nenhum  dos 
interlocutores, pois era claro que discutiam o mérito dessas poesias, não ocultei que as 
julgava,  como  todos as julgam, a• par da nossa época, com a sua índole e modo de 
sentir, de uma forma espontânea, mas que é muito artística, nova, admirável, e além 
disso elevada e ao mesmo tempo um mimo, que ninguém até hoje excedeu ou igualou. 

A isto respondeu Soares de Passos: – Pois eu creio que se em vez do nome de 

Garrett, as firmasse um outro que não fosse conhecido, ninguém faria caso delas. 

Um  silêncio  constrangido  sucedeu  a  esta  observação,  pela  qual  ninguém 

esperava. 

Daí  a  pouco  levantou-se  o  Sr.  Aires  de  Gouveia,  e  eu  com  ele  fui  para  o  seu 

quarto,  onde  não  tardou  que  aparecesse  o  Sr.  José  Carlos  Lopes  com  uma  arte  de 

Quando  a  memória  de  Soares  de  Passos  estava  consagrada,  reconhecendo-o 

como  um  talento  primacial,  sucedeu  um  estranho  caso:  um  contemporâneo  seu  dos 
tempos  de  Coimbra,  veio,  anos  depois  da  sua  morte,  increpá-lo  de  plagiário, 
reclamando  insistentemente  na  imprensa  periódica  a  paternidade  das  melhores 
composições de Soares de Passos. É o Dr. Lourenço de Almeida e Medeiros, bacharel 
formado  em  Filosofia  pela  Universidade  de  Coimbra,  proprietário  rural,  vivendo  há 
longos anos na sua quinta da Fermelã. Em carta que nos escreveu em 4 de Julho de 
1886, queixando-se-nos de que Soares de Passos se apropriara da ode O Firmamento, 
acrescenta: «E não me roubou só isto; na noite a que me refiro, confiei-lhe todos os 
assuntos sobre que tencionava exercer-me, dei-lhe indicações, glosou a parte que lhe 
expliquei  com  mais  clareza,  e  assim  fez  o  Anjo  da  Humanidade,  os  Anelos,  
Desalento; 

roubou-me ainda mais, até estâncias desgarradas de outras poesias que já

esboçara, como da Noite, do Camões –estragou estes assuntos por não lhe alcançar a 
ideia principal ou não saber tratá-la!» 

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19

inglês, língua que presumo lhe andava ensinando, e ouvi ao Sr. Aires de Gouveia: – 
Hoje não pode ser; hei-de entregar amanhã uma dissertação, e só tenho esta noite para 
escrevê-la. 

– Também eu vinha tirar-lhe o tempo, disse eu; e visto isso, retiro-me. 
Insistindo em que me demorasse, supondo ser algum escrito, rogava-me que lho 

desse. 

–  São  versos,  que  trago  de  memória,  mas  o  assunto  precisa  de  longas 

explicações, e hoje não há tempo, nem ocasião para elas; e despedi-me. 

Ao sair, topo com Soares de Passos e Silva Ferraz defronte do quarto de Miguel 

Teixeira Pinto, para onde entrámos. 

Este  quarto  era,  por  sinal,  esquinado;  eu  sentei-me  perto  da  janela,  numa  das 

duas cadeiras que tinha, Soares de Passos na outra, Silva Ferraz debruçou-se sobre a 
mesa de estudo, e assim se conservou quase todo o tempo que ali estive com eles. 

 

1 – FIRMAMENTO 

 
Quando  em  direcção  à  minha  casa,  que  era  na  Rua  do  Correio,  passei  na  que 

corre por detrás do Observatório, de cujo nome me não recordo, soava uma hora na 
torre da Universidade. 

No  começo  da  conversação  observei  que  o  estudo  das  ciências  e  da  filosofia 

muito devia convir aos poetas. 

Então o Sr. Soares de Passos atalhou-me com a seguinte pergunta: 
– O Sr. Almeida nunca fez versos? 
A  esta  pergunta  deve  Soares  de  Passos  uma  parte  da  sua  glória,  e  eu  alguns 

dissabores de que podia ter-me dispensado; respondi: 

– Tenho apenas duas poesias em estado de poder recitá-las, mas uma delas ainda 

está  incompleta,  e  a  outra  desejo  corrigi-la  em  algumas  passagens.  Esta  versa  sobre 
um assunto tão original e inesperado, que receio, publicando-a, me chamem louco ou 
extravagante. Imagine o Sr. Passos, é a destruição de todo o universo suposta como 
provada pela ciência.» 

Até aqui a narrativa da palestra da Rua dos Militares antes das férias de 1854, 

que durou até à uma hora da noite. É natural que o Sr. Lourenço de Almeida, que por 
esse  tempo  se  graduara  na  Faculdade  de  Filosofia,  fantasiasse  um  quadro  poético, 
contrário às doutrinas de Laplace e de Marcel de Serres, e sugerido pelas novas 

teorias baseadas no cálculo, que demonstrava o encurtamento à órbita do cometa 

de  Encke;  é  portanto  improcedente  o  seu  argumento:  «Que  as  estâncias  do 
Firmamento 

se  baseiam  em  suspeitas  e  induções  só  minhas,  mas  de  um  carácter 

científico bastante para se afirmar – que só quem soubesse reflectir sobre certos factos 
astronómicos e outros geológicos os podia conceber e depois desenvolver em formas 
poéticas». 

18

 

Versos que trago de memória 

foi o que declarou a Aires de Gouveia; admitida a 

hipótese,  que  recitasse  esses  versos  sobre  a  destruição  de  todo  o  universo,  que 
desejava corrigir em algumas passagens, não é aceitável, que por uma simples audição 
de  uma conversa muito complexa, Soares de Passos retivesse de memória uma Ode 
constando  de  dezoito  estrofes  em  oitavas.  E  demais  sabendo-se  o  estado  de  doença 
nesse  ano  final  de  formatura.  Quando  o  Dr.  Lourenço  de  Almeida  quer  recorrer  à 
prova, cai em contradições que anulam a sua afirmativa; assim na aludi4a carta de 4 

                                                 

18

 Distrito de Aveiro, no 1498 (ano XV), 1886. 

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20

de Julho de 1886, escreve: «Aqui estão minha irmã e meu cunhado, que nas férias de 
1853  me  ouviram  na  minha  casa  em  Fermelã  recitar  o  Firmamento,  e  as  primeiras 
quadras do Noivado». 

É assombrosa a inconsciência! Em Março de 1852 publicou Soares de Passos, 

no número 4 d'O Bardo, pág. 50, o Noivado do Sepulcro, de que Lourenço se dá como 
autor, compondo em 1853 as primeiras quadras. 

Num  dos seus artigos de Reclamação das Poesias, confessa que só no fim do 

ano  de  1854  achou  a  verdadeira  forma  do  Firmamento  completando  a  concepção: 
«Explicarei  primeiro  a  ideia  original  do  Firmamento.  Do  contraste  da  natureza,  que 
supomos eterna, imensa, sempre jovem, sempre bela, com o homem, o mais nobre dos 
seres, mas efémero, que decai e não se remoça, e por fim se extingue, formara-se-me 
no intimo da alma uma dolorosa impressão, que nunca me largava. Eis aí o gérmen da 
poesia.  Como  se  vê,  estava  ela  pedindo  para  o  seu  começo  um  rápido  esboço  do 
universo – o sublime espectáculo da noite, em que se mostra o espaço cheio de sóis e 
de mundos, as suas multidões, as suas distâncias prodigiosas, e de envolta o mistério 
das origens e dos destinos que encerra o insondável abismo, ofereciam-me o assunto 
das primeiras estrofes. 

Estava pois no meu plano fazer sentir a grande mágoa do homem, pela sua breve 

decadência  em  face  dos  seres  que  a  não  conhecem,  em  face  da  eterna  juventude  da 
natureza.  Mas  o  supor-se  um  como  resumo  da  imensidade,  segundo  uma  teoria  que 
não  consegui  tornar  acessível  a  Soares  de  Passos,  o  atingir  pela  razão  o  infinito,  o 
sentir a beleza das coisas, o eternizar-se pelas gerações sucessivas, vinham consolá-lo 
e minorar-lhe aquela mágoa. 

Aqui rematava o Firmamento, na sua primeira concepção. 
Aproxima-se  o  fim  do  4º  ano  de  Filosofia,  que  eu  então  cursava.  Indagando 

como a Terra se constituiu (sobre o que o ensino e os livros do curso passavam mui de 
leve), concebi a suspeita de que assim como o nosso globo, no princípio diverso do 
que  hoje  é,  só  depois  de  longas  modificações  chegou  à  sua  forma  e  modo  de  ser 
actuais, da mesma sorte era provável que em época mui distante viesse a decompor-se, 
alterando pouco a pouco as condições de equilíbrio e de harmonia, que naquele tempo 
da Universidade e ainda muito depois se julgavam perpétuas. 

A Terra será sempre o que é agora? Durará com ela eternamente a humanidade? 
A estas interrogações dá hoje a ciência uma resposta negativa... 
Vem daí toda a parte do Firmamento, que a esse assunto se refere. E com isto a 

ideia da poesia se completou

». 

19

 

Como é que Soares de Passos, não falando já nas estrofes feitas, se apropria da 

ideia com que o Dr. Lourenço de Almeida completava o plano da sua trilogia, a que 
chegou depois da palestra da Rua dos Militares? 

É  sobre  estas  bases:  assuntos  em  que  tencionava  exercer-se,  indicações,  que 

Soares  de  Passos  glosou  no  pouco  que  compreendeu,  e  estâncias  desgarradas  de 
poesias esboçadas, que julga fundamentar os plagiatos. 

Bases inconsistentes em coisas de Arte, porque na idealização estética o poder 

criador  e  a  obra  genial  consistem  na  forma,  no  dom  da  expressão  em  que  se  uni-
versaliza o sentimento. Pode qualquer indivíduo ter indicações, tencionar ou projectar 
poemas,  mas  esses  temas  indeterminados  só  existem  no  mundo  da  Arte  e  só  per-
tencem  àquele  que  soube  dar-lhes  expressão.  Quem  negará  a  originalidade  das 
tragédias de Shakespeare por se encontrarem a maior parte dos seus argumentos nos 

                                                 

19

 A Locomotiva, nº 106, Aveiro, 1884. 

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21

Novelistas italianos em simples esboços, sem paixões, nem caracteres, nem situações 
definidas?  Quem  negará  a  La  Fontaine  a  originalidade  das  suas  Fábulas,  embora 
venham os seus temas de Esopo, de Fedro ou dos Fabliaux da Idade Média, se a forma 
é  incomparável,  pelo  cunho  de  individualidade  crítica,  pelas  alusões  ou  intenções 
morais ou históricas da época de Luís XIV? 

Quando  muito,  só  podemos  conceder  qualquer  influxo  sugestivo  de  uma 

exposição científica da cosmogonia, ainda assim menos poderosa do que a leitura do 
Sistema do Mundo, 

de Laplace, provocada pelo engenheiro Eduardo Falcão em 1854. 

A  forma  vesânica  da  Reclamação  das  Poesias,  verifica-se  na  insistência 

continua  do  Sr.  Lourenço  de  Almeida,  e  na  complicação  dos  plagiatos  abrangendo 
mais  cinco  das  melhores  poesias  de  Soares  de  Passos.  As  contradições  em  que 
escorrega  mostram  a  inanidade  das  afirmações;  diz  que:  «No  Porto,  em  1858,  a 
primeira vez que soube do embuste de Soares de Passos...» (Carta de 4 de Julho de 
1886.) E .antes desse ano, diz do poeta: «Humilhou-se diante de mim, e teve a fortuna 
de  eu  não  saber  do  seu  indiscreto  abuso  senão  em  Outubro  de  1860,  depois  da  sua 
morte». (Carta de 20 de Julho de 1886.) 

E desde 1854 até ao presente nunca teve ensejo para publicar uma obra poética 

que pelo menos justificasse a plausibilidade da delirante afirmativa. 

 

2 – O NOIVADO DO SEPULCRO 

 
Quando  nas  Modernas  Ideias  na  Literatura  Portuguesa  a  individualidade 

poética  de  Soares  de Passos, lírico obermanista, foi estudada como representante da 
fase  ultra-romântica,  referimos  este  caso  de  um  contemporâneo  da  Universidade  se 
atribuir a paternidade das suas principais composições, destacando a balada elegíaca 
Noivado do Sepulcro, 

e a grandiosa ode O Firmamento. Estas acusações de plagiário 

tantas vezes feitas pelo Dr. Lourenço de Almeida e Medeiros, em jornais da província, 
como o Distrito de Aveiro e a Locomotiva, não podiam passar indiferentes para o meu 
estudo crítico. Tendo falado em 1871 com o Sr. Dr. Lourenço de Almeida e Medeiros, 
formulou-me as suas provas, que se limitaram a afirmações verbais contra Soares de 
Passos, com quem conversara antes das férias de 1854, resultando daí o publicar com 
o seu nome as melhores composições que contém o livro de Poesias de 1856. No meu 
assombro,  o  Dr.  Lourenço  de  Almeida  disse  que  me  fazia  juiz  sobre  estas  suas 
reivindicações. A apreciação do talento de Soares de Passos obrigava-me a examinar 
este problema ou caso anedótico; há dados concretos de prioridades que se evidenciam 
bibliograficamente,  há  antecedentes  artísticos,  e  mesmo  tendências  vesânicas  que 
ajudam à solução. 

Sobre o Noivado do Sepulcro declarou em jornais o Sr. Lourenço de Almeida 

que o escrevera em Fevereiro de 1853, recitando-o ainda nesse ano à família e a outras 
pessoas  cujos  nomes  invoca.  Infelizmente  para  o  acusador,  esta  data  categórica 
patenteou  a  falsidade  da  imputação;  porque  em  Junho  de  1852,  publicou  Soares  de 
Passos O Noivado do Sepulcro no nº

 

4 do jornal de poesias O Bardo, pág. 50, do qual 

eram directores Faustino Xavier de Novais e A. Pinheiro Caldas. 

Depois  de  termos  expendido  esta  conclusão  em  1892  no  livro  supracitado, 

escreveu-nos o Sr. Dr. Lourenço de Almeida uma carta em 24 de Outubro de 1904, 
dizendo  ter  chegado  ao  seu  conhecimento  as  Modernas  Ideias  e  protestando:  «Li  a 
parte que se refere ao Firmamento Noivado... 

Diz  V.  que  já  estava  publicado  em  1852,  e  que  por  isso  dá  a  questão  como 

resolvida a seu respeito. 

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22

Não pode ser, protesto. 
Soares de Passos não compôs em 52 a poesia que eu compus em 53. 
É engano de V., e se não for corto a cabeça. 
Escrevi a Magalhães & Moniz pedindo uma edição d'O Bardo. Na carta em que 

a peço protesto contra este erro de data que V. me atribui, sem dúvida sinceramente, 
mas que me desacredita. 

Só se houve alguma reprodução d'O Bardo, onde fosse incluído o Noivado. 
Espero ainda que V., reconhecendo o seu engano, o repare em qualquer das suas 

publicações,  porque  assim  o  exige  a  minha  honra.  Não  sei  nunca  em  que  faltei  à 
verdade». 

À vista desta intimativa fui outra vez examinar o nº 4 d'O Bardo publicado em 

1852, e lá encontrei a pág. 50 O Noivado do Sepulcro assinado por Soares de Passos, 
tendo demais a mais a folha impressos na cruzeira o lugar, ano e tipografia. Para mais 
confirmação fui à Biblioteca Nacional examinar os exemplares d'O Bardo e ali chamei 
a  atenção  de  dois  bibliógrafos  para  o  seu  exame.  Em  10  de  Novembro  de  1904  o 
ilustre  bibliotecário  actual  Dr.  Xavier  da  Cunha,  conhecido  por  trabalhos.  da 
especialidade, e o primeiro conservador da mesma biblioteca Alberto Carlos da Silva, 
diante do exemplar. d'O Bardo reconheceram que no nº 4, de 1852, a pág. 50, estava 
publicado com o nome de Soares de Passos O Noivado do Sepulcro, tendo essa folha 
tipográfica, como todas as outras que constituem o volume, autenticado o local, ano e 
tipografia, a que são obrigadas as publicações periódicas. 

Contra  este  facto  inegável  e  que  imediatamente  se  verifica,  opõe  o  Sr.  Dr. 

Lourenço de Almeida em carta de 28 de Outubro de 1904 variadas hipóteses curiosas: 

«Chegou à minha mão O Bardo, isto é, uma reprodução das poesias publicadas 

neste jornal desde 1852 até fim do ano de 1854. 

Logo  vi  o  engano  de  V.,  como  lhe  afirmei  sem  ainda  ter  visto  O  Bardo  para 

verificar a minha afirmativa. 

Enganou-se V., com a data das poesias que ali antecedem O Noivado. 
Repito, O Noivado ninguém o encontrará n'O Bardo de 1852, nem de 1853, nem 

mesmo no de 1854, antes de Fevereiro desse ano. 

Visto a fama e autoridade do autor das Ideias Modernas, fico desacreditado no 

conceito  de  todos  que  as  lerem,  pois  não  têm  O  Bardo  para  examinarem  e 
reconhecerem o engano de V. 

A  data  de  1852  e  o  nome  da  tipografia  na  reprodução  d'O  Bardo  e  na  linha 

vertical a pág. 64 iludiram a V., e talvez não me iludissem se o Sr. Teófilo Braga fosse 
o autor do Noivado e o reclamasse atestando tê-lo composto em Fevereiro de 1853. 

O Bardo 

primitivo é que o decidirá. 

Na primeira página vê-se no alto O Bardo; trazia pois o 1º número o nome do 

jornal – e devem tê-lo todos os números seguintes se fosse uma colecção de jornais 
primitivos. E não pode sê-lo – porque não podia estar publicado o Noivado no nº 4 de 
1852. 

Agora  explique  V.  o  facto:  Nas  férias  de  53  recitei  à  Sr.  D.  Maria  do  Carmo 

Sousa Brandão o Noivado; eu nunca li O Bardo, não soube da sua existência senão 
lendo as Ideias Modernas, como é que adivinhei? 

E  se  li  O  Bardo,  como  adivinhei  as  alterações  no  livro  de  v6rsos  de  Passos, 

publicado em 56? 

– P. S. – Como se acha o Noivado na reprodução d'O Bardo em 1854, e entre as 

poesias relativas ao ano de 1852? 

Aí vai uma hipótese: 

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23

Soares de Passos trouxe de Coimbra uma cópia da poesia incompleta em 1854. 

A reprodução d'O Bardo fez-se nesse ano. 

Se  publicou  alguma  poesia  em  1852,  sabendo  da  reprodução  d'O  Bardo,  quis 

substitui-la pelo Noivado com uns acrescentos e com umas correcções que rejeito. 

Resta agora O Bardo primitivo. 
Alguém já se incumbiu de obtê-lo. 
Mas, tendo a data de 52, se tiver o Noivado essa data é falsa, não é O Bardo de 

52. Indague-se bem, e a verdade há-de aparecer. 

Outros, e principalmente os indiferentes, que nada examinam ou nada sabem do 

assunto,  podem  dar  razão  às  Ideias  Modernas;  mas  eu,  que  sou  o  verdadeiro  autor, 
vejo  quanto  V.  se  engana  e  como  a  sua critica prevenida arbitrariamente me nega a 
elaboração artística e a atribui a Soares de Passos. 

–  P.  S.–  Ainda  uma  vez.  Como  não  é  uma  reprodução,  se  em  53  compus  o 

Noivado 

e só em 54 o recitei a Soares de Passos? 

Como  não  é  uma  reprodução  feita  em  54,  ao  menos  do  nº  4,  onde  acho  o 

Noivado

? 

Como explica V. isto? 
E  sendo  assim,  que  valor  têm  os  dados  bibliográficos  que  V.  assevera  serem 

rigorosos.» 

Depois  destas  argumentações  contra  o  facto  positivo  e  autêntico, reproduzidas 

pelo Sr. Dr. Lourenço de Almeida no jornal A Vitalidade, aí dá conta das pesquisas 
que mandou fazer no Porto para saber da reprodução do texto d'O Bardo que tem o 
frontispício de 1854: – «Que a edição se fez reunindo-se (os Bardos) o que mais se 
pudesse e imprimindo os que faltavam. 

(Alfarrabista da Rua Chã.) 

Não preciso eu de mais para saber como o Noivado do Sepulcro feito em 1853, 

aparece num suposto nº 4 d'O Bardo com a data de 1852. 

Muitas  vezes  me  rio  comigo  do  embuste  do  Sr.  Passos,  que  enganou  uma 

geração inteira, e do crítico prevenido a quem incumbia esclarecê-la, principalmente 
depois das minhas declarações e provas». (Vitalidade, nº 502, de 26 de Novembro de 
1904.) 

Muito se engana quem julgar que eu afirmo um facto ou qualquer circunstância 

em que possa desmentir-me. 

Quando  não  seja  pela  seriedade  de  que  me  prezo,  conceda-se  que,  pelo  brio, 

pelo orgulho, pelo capricho de ninguém ter motivo de vexar-me, eu ser capaz de uma 
impostura. 

O que diz a meu respeito o Sr. Teófilo Braga nas Ideias Modernas é um escarro 

na sua obra e sobre o meu nome». (Vitalidade, nº 503, de 3 de Dezembro de 1904.) 

 

___________ 

 
 
Por mais voltas que dê, o Sr. Dr. Lourenço de Almeida não invalida o facto de 

ter publicado Soares de Passos em Junho de 1852, no nº 4 d'O Bardo, Noivado do 
Sepulcro, 

que Sua Exª há muitos anos reclama como tendo-o escrito em Fevereiro de 

1853.  Todas  as  suas  hipóteses  se  esvaem  diante  da  descrição  bibliográfica  dessa 
colecção de versos: 

O  Bardo  –  Jornal  de  Poesias  inéditas  –  Publicado  desde  Março  de  1852  a 

Março  de  1854.  (Emblema  –  uma  Lira.)  Porto.  Na  Tipografia  de  Sebastião  José 
Pereira, Praça de Santa Teresa, nº

 

28, 1854. 

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24

É um volume in-8º grande de 384 páginas, com mais 6 de Índice. Publicava-se 

mensalmente  em  números  avulsos  de  16  páginas,  tendo  o  titulo  O  Bardo  só  na 
primeira folha, e nas folhas restantes ao baixo da página a par da indicação do nº da 
folha servindo também de numeração da série. Como publicação periódica, cada folha 
traz  na  cruzeira  declarado  o  local,  ano  e  tipografia  em  que  se  imprimia  O  Bardo. 
Depois de distribuídos pelos assinantes, ao fim de 24 números foi distribuído com o 
último o frontispício com a data de 1854. 

O  Bardo  (sem  frontispício)  começou  este  2º  volume  em  Março  de  1854  e 

interrompeu-se em Fevereiro de 1855, na folha 21, pág. 192; tem ainda o mesmo tipo 
e papel, com as indicações do ano, local e tipografia. 

A  suspensão  d'O  Bardo,  não  terminando  a  série  dos  24 números, foi devida à 

partida de Faustino Xavier de Novais para o Brasil. 

Em 1857, o livreiro Francisco Gomes da Fonseca comprou todo o depósito das 

folhas d'O Bardo, e brochou-as, fazendo frontispícios para os dois volumes: 

 
O Bardo, I Parte. 
O Bardo, II Parte. 
 
Como lhe faltassem as 12 primeiras folhas do volume de 1852-1854, para salvar 

algumas colecções reimprimiu em papel azulado, e noutro tipo, as 12 folhas (pág. 1 a 
192) e inteirando o volume com as que abundavam; pôs-lhe o título: 

O BardoJornal de Poesias inéditas – Redactores A. P. C. – F. X. de Novais. 

Nova edição (Emblema da Lira) Porto. Editor Francisco Gomes da Fonseca. 1857, 1 
volume in-8º. I Parte. 

Nesta  reprodução  de  1857,  vem  o  Noivado  do  Sepulcro  transcrito  do  texto  de 

1852, e isto quando já andava com variantes no livro das Poesias de Soares de Passos 
de 1856. 

O BardoJornal de Poesias inéditas – Redactor F. X. de Novais. Porto, Editor 

Francisco Gomes da Fonseca, 1857. In-8º. II Parte. 

É  um  frontispício  falso  posto  às  12  folhas  incompletas  de  1855,  impressas  na 

tipografia  de  A.  J.  de  Freitas  e  na  de  Sebastião  José  Pereira.  Neste  volume  vêm 
poesias  de  Soares  de  Passos  inéditas  ainda  em  1855,  mas  não  o  sendo  já  em  1857, 
depois do aparecimento do seu livro em 1856. 

Deste  quadro  bibliográfico  conclui-se,  que  o  texto  tipográfico  de  1852  se 

reimprimiu em 1857 em diferente papel e tipo, e sem intuito de falsificação, e que o 
Noivado  do  Sepulcro 

é  autenticamente  de  Soares  de  Passos. 

20

  Como  apagar  este 

irrefragável  testemunho?  São  curiosos  os  expedientes,  que  mais  agravam  a  situação 
em que se colocou o reclamante: 

«O  número  4  d'O 

Bardo  foi  todo  ou  parte  reimpresso,  quando  se  tratou  de 

reunir em volume em 1854.» 

Quando  a  entrega  do  nº  24,  Índice  e  Frontispício,  se  fez  aos  assinantes  d'

Bardo, 

já  havia  dois  anos  que  o  nº

 

4,  com  o  Noivado  do  Sepulcro,  lhes  estava 

distribuído e não era possível reavê-lo, destruí-lo e substitui-lo por outro texto; e além 
disso o Índice geral enviado aos assinantes d'O Bardo, inclui o Noivado do Sepulcro 
nas  páginas  do  número  respectivo.  Este  esforço  de  imaginação  do  Sr.  Lourenço, 
fazendo  que  Soares  de  Passos,  que  em  1854  cursava  o  quinto  ano  jurídico  em 
Coimbra,  obrigasse  Pinheiro  Cuidas  e  Faustino  de  Novais  a  refazerem  um  número 

                                                 

20

 Revista Literária, Científica e Artística, nº 320 do Século de 19.XII.904. 

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25

atrasado d'O Bardo, para incluir aí com antedata de 1852 o Noivado do Sepulcro, que 
um sujeito que casualmente encontrou lhe comunicara, só isto basta para reconhecer 
falta  de  sinceridade  na  ilusão.  E  nos  mesmos  voos  da  imaginação  continua  o 
reclamante com singular hermenêutica: 

«Os números de um periódico que nunca saiu do armazém da tipografia que os 

imprimia, não se pode negar que fossem reimpressos, não se revestem do carácter de 
autenticidade que o Sr. Teófilo levianamente lhe atribui.» 

O  Bardo 

imprimia-se  para  ser  distribuído  mensalmente  aos  seus  assinantes,  e 

pelas  colecções  particulares  e  bibliotecas  públicas  existem  exemplares,  e  todos  eles 
são  uniformes,  trazendo  o  Noivado  do  Sepulcro  com  a  data  de  1852  no  registo  da 
folha. Os números que ficaram em depósito ou armazenados foram adquiridos depois 
de  1855  pelo  livreiro  Gomes  da  Fonseca.  Depois  desta  segunda  fantasia  vem  uma 
exigência verdadeiramente fenomenal: 

«Apareça um Bardo de 52, ou mesmo de 53 (eu dou largas ao Sr. Teófilo) ou 

anterior  a  15  de  Fevereiro  de  1854,  e  só  então  se  justificará  da  insolência  que  me 
dirige. Tem obrigação de apresentá-lo. 

» 

Não se pode saber o que entende S. Exª por um Bardo de 52, ou mesmo de 53, 

ou  anterior  a  Fevereiro  de  54.  O  único  texto  do  jornal  O  Bardo  compreende  os  24 
números desde Março de 1852 a Março de 1854, formando um volume completo. É 
neste volume, e no nº 4, distribuído em Junho de 1852, que Soares de Passou publicou 
o seu Noivado do Sepulcro. Para indicar este facto não nos acusa a consciência de ter 
dirigido insolência a quem só carece de piedade, refugiando-se detrás da ininteligível 
exigência  de  um  Bardo  de  52.  E  acrescenta  ainda  o  reclamante,  torvado  se  não 
iracundo: 

«Não  era  bastante  ser  vilmente  espoliado  do  que  pensei  e  escrevi,  mas  sofrer 

agora  insultos  como  este,  que  sem  escrúpulo  deixou  cair  da  sua  pena  sobre  o  meu 
nome, o caso era para uni sério desagravo, 

se o riso medianeiro não viesse atenuar a 

indignação que me causa. (!) 

Felizmente para mim e infelizmente para o Sr. Teófilo, a falsidade do que me 

imputa é que está provada

». (!) 

Esta  cólera,  estas  afirmações  imperativas  e  explicativas  hipóteses,  encerram  o 

bastante  para  esclarecer  o  problema  literário  que  há  quarenta  e  seis  anos  o  Sr.  Dr. 
Lourenço de Almeida, a seu grado, propõe e resolve. Mas quem caiu na ingenuidade 
de acusar Soares de Passos de plagiário, ficou sujeito à alçada da crítica rigorosa de 
quantos  estudarem a obra poética daquele espírito, e às conclusões psicológicas que 
deduzirem. 

21

 

 

                                                 

21

 Revista Literária do Século, 16-1-905. 

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26

 

POESIAS 

 
 
A CAMÕES 
 
Ai do que a sorte assinalou no berço 
Inspirado cantor, rei da harmonia! 
Ai do que Deus às gerações envia 
Dizendo – vai, padece, é teu fadário; 
Como um astro brilhante o mundo o admira, 
Mas não vê que essa chama abrasadora 
Que o cerca d'esplendor, também devora 
     Seu peito solitário. 
 
Pairar nos céus em alteroso adejo, 
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias; 
E ver passar, quais sombras ilusórias, 
Essas imagens de fulgor divino: 
Tais s o vossos destinos, ó poetas, 
Almas de fogo, que um vil mundo encerra; 
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra 
     Teu mísero destino. 
 
A cruz levaste desde o berço à campa: 
Esgotaste a amargura ate às fezes: 
Parece que a fortuna em seus revezes 
Te mediu pelo génio a desventura. 
Combateste com ela como o cedro 
Que provoca o rancor da tempestade, 
Mas cuja inabalável majestade 
     Lhe resiste segura. 
 
Foste grande na dor como na lira! 
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto? 
Um anjo viste de celeste encanto, 
E aos pés caíste da visão querida... 
Engano! foi um astro passageiro, 
Foi uma flor de perfumado alento 
Que ao longe te sorriu, mas que sedento 
     Jamais colheste em vida. 
 
Sob a couraça que cingiste ao peito 
Do peito ansioso sufocaste a chama, 
E foste ao longe procurar a fama, 
Talvez, quem sabe? procurar a morte. 
Mas, qual onda que o náufrago arremessa 
Sobre inóspita praia sem guarida, 
A morte crua te arrojou a vida, 

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27

     E as injúrias da sorte. 
 
De praia em praia divagando incerto 
Tuas desditas ensinaste ao mundo: 
A terra, os homens, ‘té o mar profundo 
Conspirados achavas em teu dano. 
Ave canora em solidão gemendo, 
Tiveste o génio por algoz ferino: 
Teu alento imortal era divino, 
     Perdeste em ser humano: 
 
Índicos vales, solidões do Ganges, 
E tu, ó gruta de Macau, sombria, 
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia 
Desses hinos que o tempo não consome. 
Foi lá, nessa rocha solitária, 
Que o vate desterrado e perseguido, 
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido, 
     Deu eterno renome. 
 
«Cantemos!» disse, e triunfou da sorte. 
«Cantemos!» disse, e recordando glórias, 
Sobre o mesmo teatro das vitórias, 
Bardo guerreiro, levantou seus hinos. 
Os desastres da pátria, a sua queda, 
Temendo já no meditar profundo, 
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo 
     Em seus cantos divinos. 
 
E que sentidos cantos! d'Inês triste 
Se ouve mais triste o derradeiro alento, 
Ensinando o que pode o sentimento 
Quando um seio que amou d'amores canta: 
No brado heróico da guerreira tuba 
O valor português soa tremendo, 
E o fero Adamastor com gesto horrendo 
     Inda hoje o mundo espanta! 
 
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto! 
Da pátria e do cantor findava a sorte: 
Aos dois juraram perdição e morte, 
E os dois juntaram na mansão funérea... 
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio 
Além dos astros nos erguera um sólio, 
Decretaram por louro e capitólio 
     O leito da miséria! 
 
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso... 
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo: 

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28

«Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!» 
Dizia o triste a mendigar confuso! 
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes, 
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça, 
Vinde depor as c'roas da desgraça 
     Aos pés do cisne luso! 
 
Mas não tardava o derradeiro instante... 
O raio ardente, que fulmina a rocha, 
Também a flor que nela desabrocha, 
Cresta, passando, coas etéreas lavas! 
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue 
Aos alfanges mouriscos dava o peito, 
De mísero hospital num pobre leito, 
     Camões, tu expiravas! 
 
Oh! quem me dera desse leito à beira 
Sondar teu grande espírito nessa hora, 
Por saber, quando a mágoa nos devora, 
Que dor pode conter um peito humano; 
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço 
Sentir a imensidade do tormento, 
Combatendo-te n’alma, como o vento, 
     Nas ondas do Oceano! 
 
O amor da pátria, a ingratidão dos homens, 
Natércia, a glória, as ilusões passadas, 
Entre as sombras da morte debuxadas, 
Em teu pálido rosto já pendido; 
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras 
Nessas canções d'inspiração profunda, 
Exalando contigo moribunda 
     Seu último gemido! 
 
Expirou! como o nauta destemido, 
Vendo a procela que o navio alaga, 
E ouvindo em roda no bramir da vaga 
D'horrenda morte o funeral presságio, 
Aos entes corre que adorou na vida, 
Em seguro baixel os põe a nado, 
E esquecido de si morre abraçado 
     Aos restos do naufrágio: 
 
Assim, da pátria que baixava à tumba, 
Em cantos imortais salvando a pátria, 
E entregando-a dos tempos à memória, 
Como em gigante pedestal segura: 
«Pátria querida, morreremos juntos!» 
Murmurou em acento funerário, 

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29

E envolvido da pátria no sudário 
     Baixou à sepultura. 
 
Quebrando a lousa do feral jazigo, 
Portugal ressurgiu, vingando a afronta, 
E inda hoje ao mundo sua glória aponta 
Dos cantos de Camões no eterno brado; 
Mas do vate imortal as frias cinzas 
Esquecidas deixou na sepultura, 
E o estrangeiro que passa, em vão procura 
     Seu túmulo ignorado. 
 
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira 
Recorda o grã cantor... porém calemos! 
Silêncio! do imortal não profanemos 
Com tributos mortais a alta memória. 
Camões, grande Camões; foste poeta! 
Eu sei que tua sombra nos perdoa: 
Que valem mausoléus antes a coroa 
     De tua eterna glória? 
 

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30

 
O OUTONO 
 
Eis já do lívido outono 
Pesa o manto nas florestas; 
Cessaram as brandas festas 
De natureza louçã. 
Tudo aguarda o frio inverno; 
Já não há cantos suaves 
Do montanhês e das aves, 
Saudando a luz da manhã. 
 
Tudo é triste! os verdes montes 
Vão perdendo os seus matizes, 
As veigas e os dons felizes, 
Tesouro dos seus casais; 
Dos crestados arvoredos 
A folha seca e mirrada, 
Cai ao sopro da rajada, 
Que anuncia os vendavais. 
 
Tudo é triste! e o seio triste 
Comprime-se a este aspecto; 
Não sei que pesar secreto 
Nos enluta o coração. 
É que nos lembra o passado 
Cheio de viço e frescura, 
E o presente sem verdura 
Como a folhagem do chão. 
 
Lembra-nos cada esperança 
Pelo tempo emurchecida, 
Mil áureos sonhos da vida 
Desfeitos, murchos também; 
Lembram-nos crenças fagueiras 
Da inocência doutra idade, 
Mortas à luz da verdade, 
Criadas por nossa mãe. 
 
Lembram-nos doces tesouros 
Que tivemos, e não temos; 
Os amigos que perdemos, 
A alegria que passou; 
Lembram-nos dias da infância, 
Lembram-nos ternos amores, 
Lembram-nos todas as flores 
Que o tempo à vida arrancou. 
 
E depois assoma o inverno. 

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31

Que lembra o gelo da morte, 
Das amarguras da sorte 
Última gota fatal... 
É por isso que estes dias 
Da natureza cadente, 
Brilham n'alma tristemente 
Como um círio funeral. 
 
Mas ânimo! após a quadra 
De nuvens e de tristeza, 
Despe o luto a natureza, 
Revive cheia de luz: 
Após o inverno sombrio 
Vem a flórea primavera, 
Que novos encantos gera, 
Nova alegria produz. 
 
Os arvoredos despidos 
Se revestem de folhagem; 
Ao sopro da branda aragem 
Rebenta no campo a flor: 
Tudo ao vê-la se engrinalda, 
Tudo se cobre de relva, 
E as avezinhas na selva 
Lhe cantam hinos d'amor. 
 
Ânimo pois! como à terra, 
Também à nua existência 
Vem, após a decadência, 
Às vezes tempo feliz; 
E a vida gelada, estéril, 
Que o sopro da morte abala, 
Desperta cheia de gala, 
Cheia de novo matiz. 
 
Ânimo pois! e se acaso 
Nosso destino inclemente, 
Em vez de jardim florente, 
Nos aponta o mausoléu; 
Se a primavera do mundo 
Já morreu, já não se alcança, 
Tenhamos inda esperança 
Na primavera do Céu! 
 

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32

 
O NOIVADO DO SEPULCRO 
 
BALADA 
 
Vai alta a lua! na mansão da morte 
Já meia-noite com vagar soou; 
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte 
Só tem descanso quem ali baixou. 
 
Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe 
Funérea campa com fragor rangeu; 
Branco fantasma semelhante a um monge, 
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu. 
 
Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste 
Campeia a lua com sinistra luz; 
O vento geme no feral cipreste, 
O mocho pia na marmórea cruz. 
 
Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto 
Olhou em roda... não achou ninguém... 
Por entre as campas, arrastando o manto, 
Com lentos passos caminhou além. 
 
Chegando perto duma cruz alçada, 
Que entre ciprestes alvejava ao fim, 
Parou, sentou-se e com a voz magoada 
Os ecos tristes acordou assim: 
 
«Mulher formosa, que adorei na vida, 
«E que na tumba não cessei d'amar, 
«Por que atraiçoas, desleal, mentida, 
«O amor eterno que te ouvi jurar? 
 
«Amor! engano que na campa finda, 
«Que a morte despe da ilusão falaz: 
«Quem d'entre os vivos se lembrara ainda 
«Do pobre morto que na terra jaz? 
 
«Abandonado neste chão repousa 
«Há já três dias, e não vens aqui... 
«Ai, quão pesada me tem sido a lousa 
«Sobre este peito que bateu por ti! 
 
«Ai, quão pesada me tem sido!» e em meio, 
A fronte exausta lhe pendeu na mão, 
E entre soluços arrancou do seio 
Fundo suspiro de cruel paixão. 

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33

 
«Talvez que rindo dos protestos nossos, 
«Gozes com outro d'infernal prazer; 
«E o olvido cobrirá meus ossos 
«Na fria terra sem vingança ter! 
 
– «Oh nunca, nunca!» de saudade infinda 
Responde um eco suspirando além... 
– «Oh nunca, nunca!» repetiu ainda 
Formosa virgem que em seus braços tem. 
 
Cobrem-lhe as formas divinas, airosas, 
Longas roupagens de nevada cor; 
Singela c'roa de virgínias rosas 
Lhe cerca a fronte dum mortal palor. 
 
«Não, não perdeste meu amor jurado: 
«Vês este peito? reina a morte aqui... 
«É já sem forças, ai de mim, gelado, 
«Mas inda pulsa com amor por ti. 
 
«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo 
«Da sepultura, sucumbindo à dor: 
«Deixei a vida... que importava o mundo, 
«O mundo em trevas sem a luz do amor? 
 
«Saudosa ao longe vês no céu a lua? 
– «Oh vejo sim... recordação fatal! 
– «Foi à luz dela que jurei ser tua 
«Durante a vida, e na mansão final. 
 
«Oh vem! se nunca te cingi ao peito, 
«Hoje o sepulcro nos reúne enfim... 
«Quero o repouso de teu frio leito, 
«Quero-te unido para sempre a mim!» 
 
E ao som dos pios do cantor funéreo, 
E à luz da lua de sinistro alvor, 
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério 
Foi celebrada, d'infeliz amor. 
 
Quando risonho despontava o dia, 
Já desse drama nada havia então, 
Mais que uma tumba funeral vazia, 
Quebrada a lousa por ignota mão. 
 
Porém mais tarde, quando foi volvido 
Das sepulturas o gelado pó, 
Dois esqueletos, um ao outro unido, 

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34

Foram achados num sepulcro só. 
 

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35

 
DESEJO 
 
Oh! quem nos teus braços pudera ditoso 
No mundo viver, 
Do mundo esquecido no lânguido gozo 
D'infindo prazer. 
 
Sentir os teus olhos serenos, em calma, 
Falando d'além, 
D'além! duma vida que sonha minha alma, 
Que a terra não tem. 
 
Eu dera este mundo, com tudo o que encerra 
Por tal galardão: 
Tesouros, e glórias, os tronos da terra, 
Que valem, que são? 
 
A sede que eu tenho não morre apagada 
Com tal aridez: 
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada 
Depor a teus pés. 
 
E só desejando mais doce vitória, 
Dizer-te: eis aqui 
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória: 
Ganhei-os por ti. 
 
A vida, essa mesma daria contente, 
Sem pena, sem dor, 
Se um dia embalasses, um dia somente, 
Meu sonho d'amor. 
 
Isenta do laço que ao mundo nos prende, 
A vida que vale? 
A vida é só vida se o amor nela acende 
Seu doce fanal. 
 
Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo, 
Voando, subir; 
Depois que importava? depois no jazigo 
Sorrira ao cair. 
 

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36

 
BOABDIL 
 
ÚLTIMO REI MOURO DE GRANADA 
 
De Granada nas torres já se ergue 
O pendão de Castela temido; 
Boabdil, o rei mouro vencido, 
Deixa a terra em que há pouco reinou. 
Do Padul às alturas chegado, 
Fez parar o seu tímido bando, 
E o corcel andaluz volteando 
Tais adeuses à pátria mandou: 
 
«Ai, Granada, lá ficas entregue 
«Para sempre aos guerreiros de Cristo! 
«Quem teus fados houvera previsto, 
«ó sultana de tanto poder? 
«Acabou-se o domínio dos crentes 
«Neste solo tão belo de Espanha; 
«Não há força de heróica façanha 
«Que nos possa da ruína erguer: 
 
«De Toledo, de Córdova, e Murcia, 
«De Jaên, de Baêza, e Sevilha, 
«Eras tu, ó gentil maravilha, 
«Que inda as glórias fazias lembrar. 
«E perdemos-te, ó flor do Ocidente. 
«Do Xenil, ó princesa formosa! 
«E curvamos a frente orgulhosa 
«Nós, os filhos valentes d'Agar! 
 
«Deus o quis! nossa raça punindo 
«Fez baixar o seu anjo da morte, 
«E das iras d'Alá no transporte 
«Baqueou nossa altiva nação! 
«Nossos ódios civis nos perderam, 
«Neste abismo fatal nos lançaram, 
«E nem mesmo o valor nos deixaram 
«De morrermos com nosso pendão. 
 
«Ó guerreiros das eras passadas, 
«Vencedores da Espanha descrida, 
«Lá nesse Éden feliz da outra vida 
«Vossas faces cobri de rubor! 
«Este braço, que ousou vossos louros 
«Arrastar ante os pés de Fernando, 
«Não ousou neste peito nefando 
«Embeber um punhal vingador! 

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37

 
«Desonrado, do trono banido, 
«Que me resta por sorte futura? 
«Uma vida cobarde e obscura 
«No país em que outrora fui rei... 
«Nunca, nunca! o destino contrário 
«Dalém-mar nosso berço me aponta: 
«Lá irei resgatar-me da afronta, 
«Lá dos bravos a morte haverei. 
 
«Para sempre adeus pois, ó Granada! 
«Adeus, muros, e torres vermelhas, 
«Que brilhais como vivas centelhas 
«Nas verduras de tanto jardim! 
«Adeus, paços e fontes d'Alhambra! 
«Adeus, altas, soberbas mesquitas! 
«E vós, tronos das luas proscritas, 
«Ó Comares, ó forte Albaicim! 
 
«Para sempre, ai, adeus! té à morte 
«Viverás neste peito, ó Granada! 
«Mas debalde, ó mansão adorada, 
«Que estes olhos jamais te hão-de ver... 
«Acabou-se o domínio dos crentes 
«Neste solo tão belo de Espanha; 
«Não há força de heróica façanha 
«Que nos possa das ruínas erguer.» 
 
Disse, e o pranto nas faces corria 
Do rei mouro, dos seus que restavam. 
Longe, ao longe as trombetas soavam 
Em Granada já feita cristã: 
Era o canto d'alegre triunfo 
Em redor dos pendões de Fernando; 
Era o grito d'Alá desterrando 
Das Espanhas os crentes do Islã. 
 

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38

 
CANÇÃO 
 
Que noite d'encanto! 
Que lúcido manto! 
Que noite! amo tanto! 
Seu mudo fulgor! 
Oh! vem, ó donzela; 
Não temas, ó bela, 
Que a noite só vela 
Quem sonha d'amor. 
 
A luz infinita 
Dos astros, crepita, 
Arqueja e palpita, 
Serena a brilhar: 
Assim o teu seio, 
De casto receio, 
De tímido enleio 
Costuma pulsar. 
 
A lua, qual chama, 
Que os seios inflama, 
Fanal de quem ama, 
Desponta no céu; 
E a nítida fronte 
Retrata na fonte 
E estende no monte 
Seu cândido véu. 
 
E a fonte murmura 
Por entre a verdura, 
E ao longe d'altura 
Lá desce a gemer: 
Que sons, que folguedos! 
Parece aos rochedos 
Dizer mil segredos 
D'infindo prazer. 
 
Silêncio! o trinado 
Lá volta enlevado, 
Das noites o amado, 
Da selva o cantor; 
E o hino que entoa 
No bosque ressoa 
E ao longe revoa, 
Gemendo d'amor. 
 
O facho da lua 

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39

Coa sombra flutua, 
Avança e recua 
No chão do jardim; 
Nas asas da aragem, 
Que agita a folhagem, 
Recende a bafagem 
Da rosa e jasmim. 
 
Que noite d'encanto! 
Que lúcido manto! 
Que noite! amo tanto 
Seu mudo fulgor! 
Oh! vem, ó donzela; 
Não temas, ó bela, 
Que à noite só vela 
Quem sonha d'amor. 
 

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40

 
 
À PÁTRIA 
 
Ao meu amigo A. C. Lousada 
 
(1852) 
 
Esta é a ditosa pátria minha amada. 
 
CAMÕES – Lusíadas. 
 
«Esta é a ditosa pátria minha amada!» 
Este o jardim de matizadas flores, 
Onde os céus com a terra abençoada 
Rivalizam nas galas e primores. 
 
Este o país das tradições brilhantes, 
Onde cresceu a palma da vitória, 
Onde o mar conta às praias sussurrantes 
Longínquos feitos d'extremada glória. 
 
Esta a nação de laureada frente, 
Esta a ditosa pátria minha amada! 
Ditosa e grande quando foi potente, 
Hoje abatida, sem poder, sem nada. 
 
Pátria minha, que tens, que em desalento 
Vergas a fronte que alterosa erguias! 
Porque fitas o gélido moimento, 
Perdida a força dos antigos dias? 
 
Que fizeste do génio destemido 
Com que domavas esse mar profundo, 
E sorrias das vagas ao rugido, 
Ignotas praias descobrindo ao mundo? 
 
Onde está esse vasto capitólio 
De tuas glórias, o soberbo Oriente, 
Lá onde erguida em triunfante sólio 
Empunhavas teu ceptro refulgente? 
 
Então eras tu grande! os reis da terra 
Derramavam-te aos pés os seus tesouros; 
O mar, saudando teus pendões de guerra, 
Gemia ao peso de teus verdes louros. 
 
Então de lanças e d'heróis cercada, 
Avassalando a Índia e a África ardente, 

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41

A cada golpe da valente espada 
Mais uma palma te adornava a frente. 
 
Então prostradas mil hostis falanges, 
Retumbava o fragor de teus combates 
Desde as praias de Ceuta além do Ganges 
Fazendo estremecer o Nilo e Eufrates. 
 
Então eras tu grande! hoje esquecida, 
Um eco apenas do teu nome soa; 
Nos braços da vitória adormecida, 
Perdeste o ceptro e a majestosa c'roa. 
 
Os fortes pulsos entregaste aos laços 
Da tirania e rude fanatismo, 
E descaídos os potentes braços, 
Caminhaste sem forças ao abismo. 
 
Um livro apenas te ficou, ó triste, 
Por epitáfio da passada glória; 
Tudo o mais acabou, já nada existe 
De tanto resplendor mais que a memória. 
 
Das quinas os pendões já não revoam, 
Águias altivas, sujeitando os mares; 
Teus gritos de vitória, ai! já não soam 
Na Líbia e nos gangéticos palmares. 
 
Nações obscuras, quando o mundo inteiro 
Já tua glória aprendido tinha, 
Vendo apagado teu ardor guerreiro, 
Arrancaram teu manto de rainha. 
 
E repartindo entre elas seus pedaços, 
E soltando depois feroz risada, 
Disseram ao passar, cruzando os braços: 
«Oh! como essa nação jaz aviltada!» 
 
E teus heróis na tumba inquietos, 
Vendo insultadas tuas altas glórias, 
Agitaram seus frios esqueletos, 
Despedaçando as lápides marmóreas. 
 
E cada qual das pregas do sudário, 
Erguendo a dextra que empunhara a lança, 
De pés sobre o jazigo funerário, 
Com torva indignação bradou: vingança! 
 
Debalde! ao verem sem valor as quinas, 

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42

Eles murmuram nas geladas campas: 
Tu, quem sabe? ditosa te imaginas, 
E em tua história mil baldões estampas. 
 
Não que dormes do sepulcro à borda, 
Ergue-te, surge como outrora ovante! 
Teu génio antigo, teu valor recorda, 
E aprende nele a caminhar avante! 
 
Se longos anos d'opressão funesta 
Te pesaram na fronte hoje abatida, 
No seio de teus filhos inda resta 
Fogo bastante para dar-te vida. 
 
Longe da senda que gerou teu dano, 
Desata o voo por espaços novos; 
E o ardor que te levou além do oceano, 
Além te levará dos outros povos. 
 
Ah! possa, possa ainda a meiga aurora 
Desse dia feliz brilhar-me pura! 
Possa esta lira, que teus males chora, 
Dar-te cantos de alegria e de ventura! 
 
Mas ah! se negra página sombria 
Tens de volver em teus cruéis fadários, 
Se o arcanjo das ruínas há-de um dia 
Pairar sobre os teus restos solitários: 
 
Terra da minha pátria ouve o meu brado, 
Se inda da vida me restar alento, 
Tu que foste meu berço idolatrado, 
Sê minha tumba em meu final momento! 
 

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43

 
ROSA BRANCA 
 
Eu amo a rosa branca das campinas, 
A branca rosa, que ao soprar do vento 
Lânguida verga para o chão pendida. 
 
Como a rosa dos vales, pura e bela 
Nos campos da existência ela floria, 
Como a rosa dos vales que inda envolta 
No orvalho da manhã, desdobra o cálice 
Ao sol nascente, perfumando as auras. 
A idade das paixões mal despontava 
Em seu meigo horizonte. Estava ainda 
No declinar da melindrosa infância, 
Dessa quadra feliz em que a existência 
E sonho encantador em que os momentos 
Se deslizam na vida como as águas 
De brando arroio, humedecendo os prados. 
Mas quão formosas já, quão sedutoras, 
Por entre as graças da mimosa infância, 
As graças juvenis lhe transluziam! 
 
Com as sócias da infância ao vê-la às tardes 
Vagando em seu jardim, vós a disséreis 
A açucena viçosa entre as boninas, 
Ou, entre os lumes da sidérea noite, 
A estrela da manhã. E, todavia, 
Ignorava o poder de seus encantos: 
No mundo que a cercava, outras imagens, 
Outros amores não sonhava ainda, 
Além de sua mãe que a idolatrava, 
De seu pequeno irmão, de suas flores. 
 
E eu amava aquele anjo como se amam 
Os sonhos d'inocência doutra idade, 
Ou como essas visões que nos enlevam, 
De mundos d'harmonia a que aspiramos. 
 
Vi-a uma vez ao descair da tarde, 
No jardim assentada ao pé da fonte, 
Olhando o tenro irmão; que em seu regaço 
Depusera as boninas que ajuntara. 
No regaço também, junto das flores, 
Repousava, serena dormitando, 
A pomba que ele amava, e que sem medo 
Viera procurar tão doce ninho: 
Nunca a meus olhos se mostrou tão bela, 
Tão cheia d'inocência. D'alvas roupas 

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44

Suas formas angélicas cingidas, 
Se desenhavam, em gentil contorno, 
Nas verdes murtas que o jardim ornavam: 
Parecia qual cisne repousando 
Entre a verdura, do seu lago à beira. 
 
Uma rosa nevada, como as roupas, 
Lhe adornava as madeixas cor da noite, 
As formosas madeixas que nessa hora 
Contrastavam mais negras e mais belas, 
Coa leve palidez que reflectia, 
Em seu rosto adorável e sereno, 
O clarão melancólico da tarde. 
Com terna languidez a face meiga 
Recostava na mão, curvado o braço, 
Enquanto com a outra ora afagava 
Sua pomba querida, ora os cabelos 
Compunha ao doce infante, que, sorrindo, 
Uma após outra lhe mostrava as flores. 
 
Ao vê-la assim formosa, ao ver o grupo 
Que fazia com ela um par mimoso, 
A mente arrebatada figurou-ma 
Celeste arcanjo que baixara ao mundo 
A recolher as orações da tarde, 
E que o infante e a pomba achando juntos, 
E a inocência do céu vendo na terra 
Dos irmãos se esquecera e ali ficara. 
 
Arcanjo da inocência, ai foge, foge! 
Não te iluda este mundo onde pousaste, 
Este mundo falaz, de ti indigno, 
Que tuas asas de brancura estreme 
Com seu veneno talvez manche um dia. 
Arcanjo d'inocência, ai foge! foge! 
Procura teus irmãos, revoa à pátria! 
E fugiu, e voou. No mesmo sítio, 
Uma tarde também junto da fonte, 
A mãe a foi achar sozinha e triste. 
Em suas plantas uma rosa branca 
Jazia desfolhada: era das flores 
A flor que mais queria. Ao ver ao lado 
A mãe que idolatrava, estremecera. 
Pobre inocente! receou acaso 
Não poder por mais tempo disfarçar-lhe 
Seu cruel padecer. A ardente febre 
Lhe devorava o seio, e não gemia. 
Mas seu dia chegava... A exausta fronte 
Lhe pendeu sem alento, e imersa em pranto, 

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45

No regaço da mãe sumiu a face, 
Que já cobria a palidez da morte. 
Três dias depois deste a flor mimosa 
Que as grinaldas celestes invejavam, 
Caía desfolhada no sepulcro. 
 
Eu amo a rosa branca das campinas, 
A branca rosa, que ao soprar do vento 
Lânguida verga para o chão pendida. 
 
 

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46

 
ENFADO 
 
Dos homens, ai quem me dera 
Longe, bem longe viver! 
Junto de mim só quisera, 
Como eu sonho, um anjo ter. 
Que esse anjo surgisse agora, 
E o mundo folgasse embora 
Em seu nefando prazer. 
 
Que vista! cede a inocência 
À voz do crime traidor; 
Folga a devassa impudência, 
Nas faces não há rubor. 
Traz o vício a fronte erguida, 
E a virtude, sem guarida, 
Geme transida de dor. 
 
Vão ao templo da cobiça, 
Vão todos sacrificar: 
Consciência, fé, justiça, 
Tudo lhe deixam no altar. 
Devora-os a sede d'ouro; 
O seu deus é um tesouro, 
Porque o viver é gozar. 
 
E que importa que o infante 
Morra à fome, e o ancião? 
Que importa que gema errante 
O proletário, sem pão? 
Oh! que importa que o talento 
Esmoreça ao desalento? 
Que vale do génio o condão? 
 
Proclamou-se a lei do forte: 
A lei do fraco é gemer. 
Ai do triste a quem a sorte 
Fez entre espinhos nascer! 
É um dogma a tirania, 
A liberdade heresia, 
A servidão um dever. 
 
Que tempos, que tempos estes! 
Quem há-de viver assim 
No mundo que rasga as vestes 
Do justo; no seu festim? 
Quem há-de? mas esperança! 
Um dia foge; outro avança, 

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47

E a redenção vem no fim. 
 
Hoje, porém, quem me dera 
Longe dos homens viver! 
Junto de mim só quisera, 
Como eu sonho, um anjo ter. 
Que esse anjo surgisse agora, 
E o mundo folgasse embora 
Em seu nefando prazer. 
 

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48

 
ANELOS 
 
Que imenso vácuo neste peito sinto! 
Que arfar eterno de revolto mar! 
Que ardente fogo, que jamais extinto 
Somente afrouxa para mais queimar! 
Ai, esta sede que meu peito rala, 
Talvez a apague mundanal prazer: 
Ali ao menos poderei fartá-la, 
Ou num letargo sem paixões viver. 
 
Mas dessa taça já provei... não quero! 
Quero deleites que inda não senti... 
A luta, os riscos dum combate fero! 
Talvez encantos acharei ali. 
 
A luta, os riscos, em acção travadas 
Guerreiras hostes disputando o chão; 
O sangue em jorros, o tinir d'espadas, 
O fogo e o fumo do voraz canhão! 
Ali os gozos dum feroz delírio, 
À luz das armas, sentirei em mim, 
Ou numa delas o funéreo círio 
Que à paz dos mortos me conduza enfim. 
 
Mas não, não quero sobre a terra escrava 
A vis tiranos imolar o irmão... 
O mar, o mar, que em sua fúria brava 
Ninguém domina com servil grilhão! 
 
O mar, o mar! sobre escarcéus revoltos 
Em frágil lenho flutuar me apraz, 
Ao som das vagas e dos ventos soltos, 
E das centelhas ao clarão fugaz. 
Ali sorrindo da feroz tormenta, 
E dos abismos que me abrir aos pés, 
Dentro desta alma de prazer sedenta 
Sublime gozo sentirei talvez. 
 
Mas o mar livre tem um leito ainda 
Que os meus anelos poderá suster... 
O espaço, o espaço! na amplidão infinda 
Talvez que possa o coração encher. 
 
O espaço, o espaço! qual ligeiro vento 
Irei lançar-me nesse mar sem fim, 
E a longos tragos aspirar o alento, 
Sentir a vida que desejo em mim... 

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49

Ora águia altiva, desprezando o solo, 
O rei dos astros buscarei então 
Ora entre as neves do gelado pólo 
Voarei nas asas do veloz tufão. 
 
Mas solitário, sem cessar errante, 
De que valera na amplidão correr?... 
A glória, a glória, que em painel brilhante 
Me of'rece a imagem dum maior prazer! 
 
A glória, a glória! mil troféus ganhados, 
Mil verdes palmas e lauréis também; 
Triunfos, c'roas e sonoros brados 
Da turba – é ele! – repetindo além... 
Então em sonhos duma vida infinda 
Verei a chama d'imortal farol, 
Que eu meu sepulcro resplandeça ainda, 
Bem como a lua, quando é morto o sol. 
 
Mas não, que a inveja com a voz mentida 
A luz em sombras poderá tornar... 
O amor, o amor, que redobrando a vida, 
A vida noutrem me fará gozar! 
 
O amor, o amor, celestial perfume 
Que a mão dos anjos sobre nós verteu, 
Doce mistério que num só resume 
Dois pensamentos aspirando ao céu! 
O amor, o amor, não mentiroso incenso 
Que em frios lábios só no mundo achei, 
Mas imutável, mas sublime e imenso 
Qual em meus sonhos juvenis sonhei... 
 
O amor! só ele poderá nesta alma 
Risonhas crenças outra vez gerar, 
De minha sede mitigar a calma, 
E inda fazer-me reviver, e amar. 
 

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50

 
O FILHO MORTO 
 
No povo d'além da serra 
Vai a noite em mais de meio, 
E a pobre mãe velava 
Unindo o filhinho ao seio. 
 
«Acorda, meu filho, acorda, 
«Que esse dormir, não é teu; 
«E como o sono da morte 
«O sono que a ti desceu. 
 
«Tarda-me já um sorriso 
«Nos teus lábios de rubim; 
«Acorda, meu filho, acorda, 
«Sorri-te ledo pra mim.» 
 
Mas o infante moribundo 
Em seu regaço expirou; 
E a mãe o cobriu de beijos, 
E largo tempo chorou. 
 
Em seu pequeno jazigo 
Dois dias chorou também; 
Ao terceiro o sino triste 
Dobrou à morte dalguém. 
 
E à noite no cemitério 
Outro jazigo se via: 
Era a mãe que ao pé do filho 
Na sepultura dormia. 
 
 

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51

 
SÓCRATES 
 
Já próximo do ocaso vai descendo 
O sol ao mar inquieto, 
Os moribundos raios estendendo 
Nas alturas do Hymeto; 
E Sócrates, sentado sobre o leito, 
Inda aos alunos fala, 
No silêncio geral notando o efeito 
Da razão que os abala. 
A verdade sublime lhes revela 
Em palavras ignotas, 
Suaves como a voz de Filomela 
Ou do cisne do Eurotas. 
Cebes, o próprio Cebes emudece, 
Simias já não duvida: 
Nus olhos do inspirado resplandece 
Um Deus e a eterna vida! 
 
Mas o sol expirava: era o momento 
Que Atenas decretara: 
Cumpre os deuses vingar: o sábio atento 
À morte se prepara. 
Os discípulos tremem, contemplando 
O dia já no resto; 
Eis o servo das onze entra chorando 
No cárcere funesto. 
O círculo cruzando, a brônzea taça 
A Sócrates estende; 
O filósofo a empunha com a graça 
Que nos festins resplende. 
«Ergamos, disse, nossa prece Aquele 
«Que ao longe nos convida, 
«Por que seja feliz por meio d'Ele 
«A viagem temida.» 
E aproximando intrépido e sereno 
A líquida cicuta, 
Como néctar a esgota, e do veneno 
Entrega a taça enxuta. 
 
Um lamento geral, um só transporte 
Percorre em torno o bando 
Dos alunos fiéis, chorando a sorte 
Do mestre venerando. 
Apolodoro geme; sucumbindo, 
Críton lhe responde; 
Fédon abaixa os olhos, e carpindo 
No manto o rosto esconde. 

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52

Ele sem vacilar, ele somente, 
Sorrindo á turba ansiada: 
«Amigos, que fazeis? um sol fulgente 
«Me luz em nova estrada. 
 
«De presságios felizes rodeemos 
«Os últimos instantes! 
Chore quem não tem fé – nós que já cremos, 
«Nós sejamos constantes!» 
Disse, e deixando o leito em que jazia, 
Sereno move o passo, 
Que o veneno letárgico devia 
Obrar pelo cansaço. 
Das grades se aproxima, olha o Pártenon, 
Olha os muros d'Atenas, 
O Falero, o Pireu e as que lhe acenam, 
Regiões tão serenas; 
Olha os céus, olha a terra, a luz do dia 
Expirando nas vagas, 
E de harmonias tais se ergue à harmonia 
De mais ditosas plagas. 
Depois, volvendo ao leito, diz a tudo 
O adeus de despedida: 
Cobre o rosto co manto e aguarda mudo, 
O instante da partida. 
 
O veneno progride, e já do efeito 
Redobra a intensidade; 
Dos membros se apodera, sobe ao peito, 
E o coração lhe invade. 
Estremeceu! do gélido trespasse 
Era enfim a agonia... 
O executor lhe descobriu a face: 
Sócrates não vivia! 
 
Triunfa, cega Atenas, ao martírio 
O sábio condenaste, 
E d'olímpicos deuses no delírio 
A razão enjeitaste; 
À voz do Areópago, à voz de ferro 
Sufocaste a doutrina: 
A verdade sucumbe, a sombra do erro 
No mundo predomina. 
 
Mas que estrela futura se levanta 
Rasgando a escuridade? 
Que palavra ressoa, e o mundo espanta 
Pregando a alta verdade? 
E ele, e ele, o prometido às gentes 

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53

Na voz das profecias! 
Curvai, ó gerações, curvai as frentes 
Ao Verbo do Messias! 
 

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54

 
O GÓLGOTA 
 
(fragmentos inéditos) 
 
Vede-o na cruz erguido! sobre o peito 
Pendida a fronte na agonia extrema; 
Que sublime painel, que alto poema 
De sofrimento e amor! 
Um Deus, um Deus à terra se apresenta 
A resgatá-la dos grilhões do vício 
E a terra ingrata lhe fulmina o exício, 
Dá-lhe em troca o rancor! 
 
Ódio por afeição! tormento e morte 
Por vida e gozo prometido ao mundo; 
Noite escura por dia! um véu profundo 
Por luz de tanto sol! 
Martírio pela ideia! alto martírio 
A quem ao mundo proclamara o verbo 
Que às gerações em seu destino acerbo 
E qual doce farol. 
 
Mas que ideia e que sol jamais aos homens 
Surgiu benigno sem que a vista afeita 
À sombra escura, que o fulgor rejeita, 
Lhe não temesse a luz? 
Que vulto grandioso sobre a terra 
Ao soltar da verdade a voz tremenda 
Na sagrada missão não vê a senda 
Que ao martírio conduz? 
 
Oh! mas o teu foi tão grande! o que era a terra? 
Sangrento circo de leões raivosos, 
Mãe d'abominações, festim de gozos 
Dissolutos e vis. 
.................................... 
.................................... 
 
E ei-lo surge, e o fulgor da luz celeste 
Derramando na terra corrompida, 
Lhe regenera a fatigada vida 
Inspirando-lhe o amor. 
Existe um Deus somente: filhos todos 
Somos iguais, do Criador do mundo; 
Amarmo-nos, eis o profundo 
Verbo do Redentor. 
.................................... 
.................................... 

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55

 
Mas faltava morrer, faltava ainda 
Na extrema angústia proclamar seu Verbo, 
Do passamento no sofrer acerbo 
Ensinar-nos a amar, 
Ensinar-nos a dor, a crença viva 
Co próprio sangue assinalar na terra, 
Firmar a paz onde reinava a guerra, 
Erguer da cruz o altar! 
.................................... 
.................................... 
 
Ó Cristo! foi sublime a tua vida 
Mas foi mais que sublime a tua morte, 
Provando ao mundo no tremendo corte 
Tua origem dos céus. 
No amor, na crença, doutrinando o mundo 
Foste o Messias d'inspirado alento; 
Ensinando o perdão e o sofrimento 
Foste inda o homem Deus! 
 

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56

 
A*** 
 
Acaso és tu a imagem vaporosa 
Que me sorriu nos sonhos doutra idade, 
Como a luz da manhã sorri formosa 
Nos espaços azuis da imensidade? 
Es tu esse astro que minha alma anela, 
Que debalde busquei no mar da vida, 
Qual busca o nauta bonançosa estrela 
No meio da procela enfurecida? 
Ah! se és esse ente que meu ser domina, 
Se és essa estrela que meu fado encerra, 
Se és algum anjo da mansão divina 
Pairando sobre a terra; 
Já que baixaste a mim, já que a meu lado 
Me apontaste sorrindo o etéreo véu, 
Não me deixes na terra abandonado, 
Transporta-me ao teu céu! 
 

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57

 
ÚLTIMOS MOMENTOS DE ALBUQUERQUE 
 
Ao meu amigo A. Aires de Gouveia. 
 
Companheiros, sinto a morte 
Pairando já sobre mim; 
Cessaram vaivéns da sorte, 
Desço à terra donde vim... 
Do cálice da desventura 
Eis esgotada a amargura; 
No leito da sepultura 
Terei descanso por fim. 
 
Terei: a campa é um asilo 
Que ao ímpio deve aterrar, 
Mas eu dormirei tranquilo 
Sob a lájea tumular. 
Eu... desgraçado, que digo! 
Nem lá espero um abrigo, 
Que os meus restos no jazigo 
Irão talvez insultar. 
 
Murmurando: «aqui repousa 
Um desleal português», 
Irão partir minha lousa, 
Meu nome calcar aos pés; 
E o guerreiro que descansa 
Não poderá, por vingança, 
Brandir na dextra uma lança, 
Cingir ao peito um arnês... 
 
Quais foram, rei, os meus crimes 
Para haver tal galardão? 
Porque a fronte assim me oprimes 
Com a tua ingratidão? 
De vis intrigas cercado 
Ouviste seu ímpio brado, 
E sobre as cãs do soldado 
Lançaste negro baldão. 
 
Não merecia tal prémio 
Quem debaixo deste céu, 
Da roxa aurora no grémio 
Um novo império te deu; 
Quem à custa duma vida 
Nas batalhas consumida, 
Ante as quinas abatida 
A Índia inteira rendeu. 

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58

 
Por dar-te a c'roa brilhante 
Que em tua fronte reluz, 
Fiz a meus pés arquejante 
Cair a opulenta Ormuz: 
Malaca sentiu meu raio, 
E em Goa, roto o Sabaio, 
Entre o sangue, entre o desmaio, 
Alcei o pendão da cruz. 
 
Então desde o Nilo ao Ganges 
Cem povos armados vi, 
Erguendo torvas falanges 
Contra mim e contra ti; 
Vi os filhos do deserto 
Em ondas rugindo perto; 
Mas com ferro em campo aberto 
Às suas iras sorri. 
 
Contra as lanças portuguesas 
A Índia lutou em vão, 
Que em troca d'ouro e riquezas 
Veio comprar seu grilhão. 
Aos golpes dos meus soldados 
Vi seus tronos abalados, 
Vi ante mim ajoelhados 
Reis d'Onor e de Sião. 
 
Mas d’Ásia não pôde o ouro 
Cegar-me com seu fulgor, 
Porque a honra ó o tesouro 
Dos meus passados, senhor. 
Eu quis adornar-te a frente 
Cum diadema refulgente: 
Ganhei o ceptro do Oriente, 
E a teus pés o fui depor. 
 
Nesses campos de batalha, 
Onde audaz o conquistei, 
Das armas sob a mortalha 
Porque exangue não findei? 
Entre os louros da vitória 
Morrera ao menos com glória; 
Do teu soldado a memória 
Não a mancharas ó rei. 
 
Eu desleal?! se meus brados 
Podem chegar até vós, 
Erguei-vos, restos sagrados 

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59

De meus extintos avós! 
Erguei-vos da campa fria, 
E com sangue, à luz do dia, 
Lavai a nódoa sombria 
Que arrojaram sobre nós! 
 
Eu desleal?! mas ao mundo 
Que vale queixas mandar? 
As vozes dum moribundo 
Não vão na terra ecoar... 
Surge, ó morte!... e vós, amigos, 
Sócios de tantos perigos, 
Vinde... nem só inimigos 
Me restam ao expirar. 
 
No reino vos deixo um filho – 
N ossos feitos lhe ensinai; 
Dizei-lhe qual foi o trilho 
Que em vida seguiu seu pai... 
Dizei-lhe qual foi meu norte; 
Mas, enquanto à minha sorte, 
Oh! não lhe aponteis a morre, 
A vida só lhe apontai... 
 
E se falardes um dia 
A dom Manuel, o feliz, 
Dizei-lhe que na agonia 
Albuquerque o não maldiz; 
Que à beira da sepultura, 
Para um filho sem ventura, 
Invoco sua ternura, 
Se alguns serviços lhe fiz. 
 
E vós... e vós, portugueses, 
Nossa pátria defendei; 
Dai-lhe os peitos por arneses, 
Seja a pátria vossa lei. 
Num trono que ela não tinha 
Eu vo-la deixo rainha, 
Mas não sei o que adivinha 
Meu pensamento... não sei... 
 
Entre as sombras do futuro, 
Meu Deus! a pátria em grilhões!... 
Pelo mar em vão procuro 
Seus orgulhosos pendões... 
Coberta d'amargo pranto, 
Lá se envolve em negro manto... 
Lá roja a face em quebranto... 

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60

Ela, a grande entre as nações!... 
 
Oh! se este braço pudera 
A fria lousa quebrar, 
Este braço inda se erguera 
Da tumba, para a salvar; 
Apontando-lhe a vingança; 
Inda lhe dera esperança, 
E empunhando a antiga lança, 
À morte a fora arrancar. 
 
Mas eis marcado o momento 
No livro d'além dos céus... 
Eis a morte... o passamento... 
São findos os dias meus... 
Companheiros da vitória, 
De tantos dias de glória, 
Guardai... guardai na memória, 
D'Albuquerque o extremo adeus... 
 
A morte... a morte... que anseio! 
Sinto um gelo sepulcral... 
Abre-me, ó terra, o teu seio, 
Quero o repouso final. 
Desce, guerreiro cansado, 
Desce ao túmulo gelado... 
Mas a afronta... desonrado... 
Índia... filho... Portugal!... 
 

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61

 
A TI 
 
Oh! quão formoso me surge o dia 
Lá quando a noite se inclina ao mar, 
Quando na aurora que me extasia, 
Teu belo rosto cuido avistar! 
Não sei que esp'rança jamais sentida 
Então me adeja no peito aqui; 
E que na aurora saúdo a vida, 
Outrora escura, sem luz, sem ti. 
 
Correm as horas, a noite avança, 
A lua brilha com meigo alvor; 
Então minha alma, que em paz descansa 
Divaga em sonhos d'ignoto amor. 
No véu d'estrelas, na branca lua 
Meus olhos buscam olhos que eu vi, 
E o pensamento longe flutua, 
E uma saudade revoa a ti. 
 
Eis que adormeço, e um anjo assoma 
Todo cercado d'etérea luz; 
De seus cabelos recende o aroma 
Das castas rosas que o céu produz. 
O céu me aponta, sorri-lhe a face; 
Acordo, e o anjo foge dali; 
Mas em meu peito logo renasce 
Doce esperança que vem de ti. 
 
Já pela terra surgem verdores, 
Auras serenas baixam do céu, 
As aves cantam novos amores, 
Tudo se cobre dum glóreo véu; 
E céus c terra, montes, paisagem, 
Tudo a meus olhos, tudo sorri; 
É que ali vejo só Lua imagem, 
É que hoje vivo, mas só por ti. 
 
Talvez que eu sinta meu pobre enleio 
Passar qual brilho de luz fugaz: 
Que importa? ao menos dentro em meu seio, 
Já morta a esperança, tu viverás. 
Oh! sim, que os dias são mais serenos 
Com tua imagem gravada ali; 
Té mesmo a morte custará menos, 
Junto ao sepulcro pensando em ti. 
 

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62

 
INFÂNCIA E MORTE 
 
«Ó mãe, o que fazes? em cama tão fria 
«Não durmas a noite... saiamos daqui... 
«Acorda! não ouves a pobre Maria, 
«Pequena, sozinha, chorando por ti? 
 
«Porque é que fugiste da nossa morada, 
«Que alveja saudosa no monte dalém? 
«Depois que tu dormes na terra gelada, 
«Quão só ficou tudo, mal sabes, ó mãe. 
 
«A nossa janela não mais foi aberta, 
«O fogo apagou-se na cinza do lar, 
«As pombas são tristes, a casa deserta, 
«E as flores da Virgem se vão a murchar. 
 
«Oh! vamos, não tardes... mas tu não respondes... 
«Em vão todo o dia meu pranto correu; 
«No fundo da cova teu rosto me escondes, 
«Não ouves, não falas... que mal te fiz eu? 
 
«Escuta! na torre de frestas sombrias 
«O sino da ermida começa a tocar... 
«Acorda! que o toque das Avé-Marias 
«À imagem da Virgem nos manda rezar. 
 
«A lâmpada exausta de Nossa Senhora 
«Ficou apagada, precisa de luz: 
«Oh! vem acendê-la, e à Mãe que se adora 
«Ali rezaremos, e ao Filho na cruz. 
 
«Depois à costura, sentada a meu lado, 
«Tu hás-de contar-me, bem junto de mim, 
«Aquelas histórias dum rei encantado, 
«De fadas e mouras, dalgum querubim. 
 
«A d'ontem foi triste, pois triste falavas 
«De vida e de morte, dum mundo melhor; 
«E o rosto cobrias, e muda choravas, 
«Lançando teus braços de mim ao redor. 
 
«Depois em silêncio teus olhos fechaste, 
«Tão pálida e fria qual nunca te vi; 
«Chamei-te era dia, mas não acordaste, 
«E enquanto dormias trouxeram-te aqui. 
 
«Oh! vamos, não tardes, que as noites sombrias. 

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63

«Sem ti a meu lado, me causam pavor! 
«Acorda! que o toque das Avé-Marias 
«Nos diz que rezemos à Mãe do Senhor.» 
 
Tais eram as queixas da pobre Maria... 
O sino da ermida cessou de tocar... 
E a mãe entretanto dormia, dormia; 
Do sono da morte não pôde acordar. 
 
Três dias, três noites a filha sozinha 
No adro da igreja por ela chamou... 
Ao fim do terceiro já forças não tinha; 
Da mãe sobre a campa, gemendo, expirou. 
 

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64

 
O CANTO DO LIVRE 
 
Ao meu amigo Alexandre Braga. 
 
Gema embora a terra inteira 
Acurvada a iníquas leis; 
Esta fronte sobranceira 
Jamais de rojo a vereis. 
Oh! ninguém, ninguém a esmaga, 
Que eu sou livre como a vaga, 
Que sacode sobre a plaga 
O jugo d'altos baixéis. 
 
Liberdade é o mote escrito 
No céu, na terra, e no mar! 
Di-lo a fera no seu grito, 
E as aves cruzando o ar; 
Di-lo o vento da procela, 
A vaga que se encapela, 
E nos espaços a estrela 
Em seu contínuo girar. 
 
Di-lo tudo! mas ainda 
Mais livre me criou Deus 
Que os astros da altura infinda, 
Os ventos, e os escarcéus. 
Eu tenho mais liberdade 
Desta alma na imensidade, 
Pois tenho nela a vontade, 
Tenho a razão, luz dos céus. 
 
Eu sou livre! erguendo a fronte 
Diz-mo uma voz na amplidão, 
Quando de pé sobre o monte 
Me elevo rei da soidão; 
Quando além do firmamento 
Alçando meu pensamento, 
Solto nas asas do vento 
Meu canto d'inspiração. 
 
Eu sou livre! eis minha crença, 
Nem força contra ela vale. 
Que um tirano enfim me vença – 
Triunfarei por seu mal. 
Triunfarei, que algemado 
E diante dele arrastado, 
Sou livre! será meu brado 
Té ao momento final. 

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65

 
E que importa que o tirano, 
Jurando vingança atroz, 
Faça erguer, sorrindo ufano, 
Um cutelo à sua voz? 
Minha fronte sempre erguida 
Há-de encará-lo atrevida, 
E só cair abatida 
Ao rolar aos pés do algoz. 
 
Mas nunca! pois fora um preito 
Dar os pulsos ao grilhão. 
Tenho um ferro, e neste peito 
Tenho um livre coração! 
Não! jamais serei cativo! 
Se vencido restar vivo, 
Cairei, sorrindo altivo, 
Sob o punhal de Catão! 
 

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66

 
SAUDADE 
 
Assim, pálida lua, assim teu rosto 
Fulgurava tranquilo nessa noite 
Em que o adeus lhe murmurei sentido; 
Quando, após os momentos preciosos 
Em que inda pude vê-la, inda escutá-la, 
Afoutando meu ânimo indeciso, 
Sua trémula voz me disse: parte... 
Entanto que uma lágrima furtiva 
Lhe escorria na face melindrosa, 
Mais pálida que a tua... 
 
Astro saudoso 
Astro da solidão, quanto me aprazes! 
Eu amo o teu silêncio, amo o teu brilho, 
Mais que do sol os importunos raios. 
Que me importa desse astro a luz e a vida, 
Se a luz e a vida me ficaram longe? 
Se em meio do rumor que o dia espalha, 
A voz não ouço que responde à minha? 
 
Estes vales, e selvas, estes montes, 
À luz do dia, são talvez formosos; 
«ias não é este o ar que ela respira, 
Não são estes os sítios que ela encanta 
Com seu mago sorriso. O dia é mudo; 
Porém tu surges, solitária amiga, 
Tu vens falar-me dela, astro saudoso. 
 
Lua, desse áureo trono onde campeias, 
Tu vês os sítios caros. Que faz ela? 
Acaso; como pomba fatigada, 
Repousa adormecida? Verte, ó lua, 
Verte-lhe em torno o perfumado alento 
Que a noite rouba às orvalhadas flores. 
«ias não; talvez agora em mim pensando, 
Agora mesmo sobre o teu semblante 
Ela fixa também os olhos tristes, 
« nossos pensamentos, nossas vistas 
Se confundem em ti. Oh! não podermos, 
Adejando como eles nesse espaço, 
Embora por momentos, confundir-nos 
Em teu regaço, deslembrando a ausência! 
Ao menos, astro amigo, ordena, ordena 
Que o anjo da saudade, que em ti mora, 
Desça, e lhe diga o que minha alma sente. 
 

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67

Oh! quando solto d'importunos laços, 
Demandando outros céus, hei-de já livre 
Vê-la, ouvi-la, falar-lhe? Quem o sabe? 
Mas tu entanto, confidente meiga. 
Em cada noite vem falar-me dela; 
E em meu peito sombrio e solitário 
Derrama, envolto no teu doce brilho, 
O bálsamo suave da esperança. 
Assim possas tu ser, benigna deusa, 
A invocada dos tristes; e se acaso 
Amas também. se algum remoto lago 
Entre floridas margens escondido 
Te prende as feições, possas tu sempre 
No cristalino azul das suas águas 
Sem nuvens espelhar teu rosto ameno! 
 

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68

 
AMOR E ETERNIDADE 
 
Repara, doce amiga, olha esta lousa, 
E junto aquela que lhe fica unida: 
Aqui dum terno amor, aqui repousa 
O despojo mortal. sem luz, sem vida. 
Esgotando talvez o fel da sorte, 
Puderam ambos descansar tranquilos; 
Amaram-se na vida, e inda na morte 
Não pôde a fria tumba desuni-los. 
Oh! quão saudosa a viração murmura 
No cipreste virente 
Que lhes protege as urnas funerárias! 
E o sol, ao descair lá no ocidente, 
Quão belo lhes fulgura 
Nas campas solitárias! 
Assim, anjo adorado, assim um dia, 
De nossas vidas murcharão as flores... 
Assim ao menos sob a campa fria 
Se reunam também nossos amores! 
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto, 
Teu belo rosto no meu seio inclinas, 
Pálido como o lírio que ao sol posto 
Desmaia nas campinas? 
Oh! vem, não perturbemos a ventura 
Do coração, que jubiloso anseia... 
Vem, gozemos da vida enquanto dura; 
Desterremos da morte a negra ideia! 
Longe, longe de nós essa lembrança! 
Mas não receies o funesto corte... 
Doce amiga, descansa: 
Quem ama como nós, sorri à morte. 
Vês estas sepulturas? 
Aqui cinzas escuras, 
Sem vida, sem vigor, jazem agora; 
Mas esse ardor que as animou outrora, 
Voou nas asas de imortal aurora 
A regiões mais puras. 
Não, a chama que o peito ao peito envia 
Não morre extinta no funéreo gelo. 
O coração é imenso: a campa fria 
E pequena de mais para contê-lo. 
Nada receies, pois: a tumba encerra 
Um breve espaço e uma breve idade! 
E o amor tem por pátria o céu e a terra, 
Por vida a eternidade! 
 

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69

 
O ESCRAVO 
 
Tremes, escravo? baqueias 
Entre os muros da prisão? 
Vergado sob as cadeias 
Rojas a fronte no chão? 
Já da turba ao longe o grito 
Pede teu sangue maldito: 
Sentes, escravo proscrito, 
Vacilar teu coração? 
 
Não sinto! nada perturba 
Minha alegria feroz – 
Nem o bramir dessa turba, 
Nem a lembrança do algoz. 
Vinguei-me! nada me aterra, 
Curvai-vos, homens da terra! 
Contra mim juraste guerra; 
Guerra jurei contra vós. 
 
Eu era livre sem meta 
Como as ondas lá no mar; 
Era livre como a seta 
Quando sibila no ar: 
Em vossa avidez tirana 
Que me algemou desumana... 
Ó minha pobre choupana! 
Ó florestas do meu lar! 
 
Além, além nas florestas, 
Foi além onde eu nasci; 
Onde sem prisões funestas 
Já venturoso vivi. 
Foi dos bosques na espessura 
Que eu tive amor e ternura; 
Mas liberdade e ventura, 
Pátria, amor, tudo perdi. 
 
Perdi tudo! além da morte 
Já não me resta ninguém. 
Tinha um pai: a negra sorte 
Do filho sofreu também. 
Trouxe da pátria distante 
O férreo jugo aviltante, 
Inda eu era tenro infante 
Nos braços de minha mãe. 
 
Minha mãe!... oh! quantas vezes 

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70

Me vinha a triste abraçar, 
E carpindo os seus reveses 
Fitava os olhos no mar! 
Seu pranto caía ardente, 
Em bagas na minha frente; 
E eu, pobre infante inocente, 
Chorava de a ver chorar. 
 
Mais tarde, quando o navio 
Me trazia à escravidão, 
Nas praias do mar bravio 
Eu a vi cair no chão; 
Vi-a através dos espaços, 
Morrendo, estender-me os braços... 
Sacudi meus férreos laços; 
Mas, ai de mim! era em vão! 
 
Perdi-a! só me restava 
A virgem do meu amor, 
Que a mulher que eu adorava 
Quis partilhar a minha dor. 
Mas tinha sua beleza 
Só dum escravo a defesa... 
Devia, oh raiva! ser presa 
Do meu infame senhor. 
 
E eu, soberbo vezes tantas, 
Curvei-me daquela vez; 
Arrastei às suas plantas 
Minha feroz altivez. 
Debalde! que o vil tirano 
Escarneceu do africano; 
Maldição! vaidoso, ufano, 
Meu amor calcou aos pés. 
 
– É minha, só minha a escrava: 
A ti, pertence o grilhão: – 
Disse, e o sangue me escaldava 
No fundo do coração. 
Da vingança a torva imagem 
Me sorriu, me deu coragem – 
No meu gemido selvagem 
Rugiu irado o leão. 
 
Era noite! – negro sonho 
Que destes olhos não sai!- 
Era noite! um céu medonho 
Vi tua sombra, ó meu pai... 
Rojando um grilhão pesado, 

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71

Teu espectro ensanguentado 
Se ergueu sombrio a meu lado, 
Sem dar um gemido, um ai... 
 
Té que alçando a voz: – meu filho! 
Meu filho! – bradaste enfim, 
E os olhos turvos, sem brilho, 
Tinhas cravados em mim... 
Eu quis lançar-me em teus braços, 
Quis cingir-te em doces laços; 
Mas fugindo aos meus abraços, 
Volvias a olhar-me assim. 
 
Foste escravo... teu destino, 
Tua morte compreendi, 
E um nome, o do assassino, 
Delirando te pedi; 
Mas sem atender a nada, 
Erguendo a dextra mirrada, 
– Vingança! – com voz irada 
Bradaste, e não mais te vi. 
 
Sim, vingado foi teu sangue 
Por este braço afinal, 
Que um deles caiu exangue 
Aos golpes do meu punhal. 
Era amargo o fel da taça – 
Vinguei a nossa desgraça 
Num dos tigres dessa raça, 
No sangue do meu rival. 
 
Vinguei o meu e teu jugo! 
Que importam férreos grilhões, 
O cadafalso e o verdugo, 
O suplício e as maldições? 
Entre os gozos da vingança 
Reluz enfim a esperança; 
Já não receio a lembrança 
De seus cruentes baldões. 
 
Sinto correr-me nas veias 
O fogo que lhe ateei... 
Quebrai-vos, duras cadeias, 
Escravo não mais serei... 
Sou livre! a morte o proclama 
Neste peito que se inflama... 
Já nele circula a chama 
Do veneno que eu tomei! 
 

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72

 
O ANJO DA HUMANIDADE 
 
Era na estância cristalina e pura, 
Que além do firmamento rutilante 
Se ergue longe de nós, e está segura 
Em milhões de colunas de diamante; 
Jerusalém celeste, onde fulgura 
Do eterno dia o resplendor constante, 
E onde reside a glória e majestade 
D'Aquele que povoa a imensidade. 
 
Na mansão mais recôndita e profunda 
A soberana Essência o trono encerra, 
Donde a fonte de amor brota fecunda, 
Os astros animando, os céus e a terra; 
Um mar de luz seus penetrais circunda, 
Que o próprio arcanjo deslumbrado aterra, 
Luz que em triângulo ardente se condensa 
Quando o Eterno os oráculos dispensa. 
 
Por toda a parte o azul e as pedrarias 
Na cidade divina resplandecem; 
Mil arcadas de sóis, mil galerias 
De brilhantes estrelas a guarnecem; 
Os anjos em lustrosas jerarquias 
Nas harpas d'ouro melodias tecem, 
Outros em coros adejando voam 
E d'aromas e canto o céu povoam. 
 
Eis de repente nos umbrais divinos, 
Sobre as asas pairando, um anjo entrava, 
Parecendo de sítios peregrinos 
Que às regiões celestes assomava; 
Cruzando o empíreo, as legiões, e os hinos, 
Qual rápido luzeiro perpassava, 
Té que chegando ao trono do Increado, 
Nus últimos degraus ficou pousado. 
 
Pelos ebúrneos ombros o cabelo 
Em aneladas ondas lhe caía; 
A safira das asas sobre o gelo 
Das roupagens reluzentes refulgia. 
Mais brilhante não é, não é mais belo, 
Comparado com ele, o astro do dia, 
Ou a estrela que brilha quando a aurora 
De purpurina luz o céu colora. 
 
Ao trono augusto levantou a frente, 

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73

Mas com as asas a toldou ansioso, 
Não podendo suster o brilho ardente 
Que despedia o foco luminoso. 
A milícia dos anjos resplendente 
Fixou atenta seu irmão formoso; 
Os concertos pararam, e ele entanto 
Assim falou entre o geral espanto: 
 
«Eterno Ser, que as divinais moradas 
«Enches de glória em majestoso assento, 
«Fonte de vida e criações variadas, 
«Que dás ao mundo poderoso alento; 
«A cujo aceno tremem abaladas 
«As colunas do etéreo firmamento, 
«E cujo nome, que o universo entoa 
«No céu, na terra, e nos abismos soa! 
 
«Por teu mando supremo destinado, 
«A conduzir a humana descendência, 
«Desde que a mancha do cruel pecado 
«A fez cair da primitiva essência – 
«Venho afinal, Senhor, de teu mandado 
«Dar-te conta fiel, após a ausência; 
«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos, 
«E aguardar teus preceitos sacrossantos. 
 
«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre atento 
«Prosseguisse na terra a lei sob'rana 
«Que rege, na amplidão do firmamento 
«A criação que de teu seio emana: 
«Essa lei do progresso e movimento 
«Tenho cumprido na família humana, 
«Desde que ao mundo, a combater seu fado, 
«O desterrado do éden foi lançado. 
 
«Primeiro, sobre a terra esclarecendo 
«Seus duvidosos passos vacilantes; 
«Depois, o justo c seu baixel sustento 
«Nas águas do dilúvio sussurrantes: 
«De novo à terra de pavor tremendo, 
«Conduzindo mais puros habitantes: 
«Mais tarde junto ao berço do Messias, 
«Anunciando ao mundo novos dias. 
 
«Agora, sobre as ruínas dum império 
«Outro império de novo edificando; 
«Agora, as povoações dum hemisfério 
«Sobre as doutro hemisfério derramando: 
«Já do teu Verbo o divinal mistério, 

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74

«Com as santas doutrinas propagando; 
«Já mostrando por fim à humanidade 
«Nova luz de justiça e de verdade. 
 
«Quantos velhos sofismas desterrados! 
«Quantos ídolos falsos em ruínas! 
«Quantos sábios triunfos alcançados! 
«Quantas conquistas imortais, divinas! 
«Calcando o pó dos séculos passados, 
«O homem corre ao fim que lhe destinas; 
«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta 
«Seu amor esmorece e desalenta. 
 
«Seu valor esmorece! tantas lidas, 
«Tanto lutar contínuo das idades, 
«Tanto sangue e martírios, tantas vidas, 
«Tantas ruínas d'impérios e cidades: 
«E o homem sofre, e as gerações perdidas 
«Se revolvem num mar de tempestades, 
«Sem ver luzir esse fanal jucundo 
«Que por teu filho prometeste ao mundo. 
 
«Quantos males ainda! a lei sublime, 
«A lei d'amor que derramou teu Verbo, 
«Sobre a face da terra, à voz do crime, 
«Sucumbe e morre por destino acerbo. 
«O férreo jugo que as nações oprime, 
«Os humildes abate, ergue o soberbo, 
«E o rei da terra, sobre a terra escravo, 
«Sofre mesquinho seu eterno agravo. 
 
«Por toda a parte, em lastimoso acento, 
«Se ouve gemer a humanidade aflita. 
«A terra, a mãe comum, nega alimento 
«Dos filhos seus a à multidão proscrita: 
«Enquanto folga em vícios o opulento. 
«A indigência cruel na choça habita, 
«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho, 
«Aperta morto à fome o seu filhinho. 
 
«Entanto a guerra, que a ambição ateia, 
«Ensanguenta as campinas e as cidades; 
«A crua peste, que ninguém refreia, 
«Converte as povoações em soledades; 
«Destes males cruéis a terra cheia, 
«Cobre-se inda de mil iniquidades; 
«O vício, o crime, a corrupção devora 
«A pobre humanidade, como outrora. 
 

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75

«Ao ver tanta miséria, o bom padece, 
«O mau blasfema de teu nome santo, 
«A voz dos inspirados esmorece, 
«O futuro se envolve em negro manto... 
«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece 
«Que a humanidade te dirige em pranto, 
«Subi confuso ao eternal assento, 
«A depor a teus pés meu desalento.» 
 
Disse, e um gemido d'aflição pungente, 
Semelhante a dulcíssona harmonia, 
Soltou do peito, reclinando a frente 
Com celeste e ideal melancolia: 
Assim pendendo ao longe no ocidente, 
Se reclina saudoso o astro do dia; 
Assim reclina a pálida açucena, 
Açoutada do vento, a fronte amena. 
 
Depois, continuando: «Ó Deus, quem há-de 
«Sondar mistérios que teu seio esconde? 
«Tuas leis divinais, tua vontade 
«Cumprirei sobre a terra. Eia, responde: 
«Os passos da mesquinha humanidade 
«Aonde os levarei, Senhor, aonde?" 
Uma voz retumbou do céu radiante. 
Que ao anjo respondeu, dizendo: – AVANTE! 
 

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76

 
PARTIDA 
 
Ai, adeus! acabaram-se os dias 
Que ditoso vivi a teu lado; 
Soa a hora, o momento fadado: 
É forçoso deixar-te e partir. 
Quão formosos, quão breves que foram 
Esses dias d'amor e de ventura! 
E quão cheios de longa amargura 
Os da ausência vão ser no porvir! 
 
Olha em roda estas margens virentes: 
Já o outono lhe despe os encantos; 
Cedo o inverno com gélidos mantos 
Baixará das montanhas dalém. 
Tudo triste, sombrio, e gelado, 
Ficará sem verdura nem flores: 
Tal meu seio, privado d'amores, 
Ficará de ti longe também. 
 
Não sei mesmo, não sei se o destino 
Me dará que eu te abrace na volta... 
Ai! quem sabe onde a vaga revolta 
Levará meu perdido baixel? 
Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo, 
Açoutado por ventos funestos, 
Sumirá por ventura seus restos 
Nas voragens d'ignoto parcel. 
 
Mas ah! longe esta ideia sombria! 
Longe, longe o cruel desalento! 
Após dias d'amargo tormento 
Virão dias mais belos talvez. 
Dá-me ainda um sorriso em teus lábios, 
Uma esp’rança que esta alma alimente, 
E na volta da quadra florente 
Eu coas flores virei outra vez. 
 
Mas se as flores dos campos voltarem 
Sem que eu volte coas flores da vida, 
Chora aquele que em tumba esquecida 
Dorme ao longe seu longo dormir; 
E cada ano que o sopro do outono 
Desfolhar a verdura do olmeiro, 
Lembra-te ainda do adeus derradeiro, 
Deste adeus que te disse ao partir! 
 

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77

 
CANTO DE PRIMAVERA 
 
Eis surge a quadra florida, 
A quadra dos amores, 
Vertendo almos fulgores 
Do seio juvenil. 
Tudo revive ao hálito 
Que a natureza aquece; 
Tudo rejuvenesce 
À luz do ameno abril. 
 
Os bosques odoríferos 
Se cobrem de verduras: 
Nos montes e planuras 
Renasce a tenra flor; 
Dos perfumados zéfiros 
As músicas suaves 
Se juntam das mil aves 
Os cânticos d'amor. 
 
Salve, estação esplêndida, 
Ó luz apetecida, 
Que à terra dando vida, 
A tudo dás prazer! 
Minha alma em doces êxtases 
Festeja a tua vinda, 
E se ergue à luz infinda, 
Manancial do ser. 
 
D'onde. ó calor benéfico, 
Derivas teu alento? 
E d'onde o movimento 
Que dás à criação? 
Do foco sempre vivido 
Que anima a natureza 
Por toda a redondeza 
Da terra, e da amplidão. 
 
Como nos campos fulgidos 
Espalha essas estrelas, 
Assim as flores belas 
Nos campos terreais: 
Quão belo, ó Providência, 
É teu poder fecundo 
Enchendo o vasto mundo 
D'alentos imortais! 
 
Debalde o imenso vórtice 

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78

Retoma quanto gera: 
Tudo se regenera 
No perenal crisol, 
E tudo canta harmónico 
O Ser que, das alturas, 
Aos gelos dá verduras, 
Às sombras novo sol. 
 
Cantai, ó aves módulas, 
Cantai em coro ledo! 
Murmúrios do arvoredo, 
Cantai a Jeová! 
Campinas aromáticas, 
Erguei-lhe os mil perfumes 
Das flores em cardumes 
Que a primavera dá! 
 
Abriu-se o tabernáculo 
Da terra florescente; 
Todo sorri fulgente, 
Todo respira amor: 
Ressoem nele os cânticos 
De mística harmonia, 
Dizendo noite e dia: 
– Hossana ao Criador! 
 

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79

 
*** 
 
Voltai, voltai, ó flores das campinas! 
Revesti-vos de galas, ó colinas! 
Aves, cantai d'amor! 
E vós ó minhas caras esperanças, 
Voltai-me ao coração; das áureas tranças 
Derramai-lhe fulgor! 
 
Expulsou-vos do peito o desalento, 
Como no outono o proceloso vento 
As folhas do vergel; 
Mas como os dias da estação formosa, 
Novo dia surgiu, e cada rosa 
Da vida com seu mel. 
 
Oh! quem pudera em sua quadra triste 
Pensar que a alegre no futuro existe, 
Que existe a sombra e a luz! 
Que nos prantos do orvalho ri a aurora; 
Que a natureza, que imortal labora, 
Na ruína a flor produz; 
 
Da inconstância geral nada se esquiva; 
Toda a existência para o mar deriva 
Do incógnito porvir! 
Agora o riso, ou dor, logo outra sorte; 
Aqui a vida, mais além a morte; 
Depois o ressurgir! 
 

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80

 
CATÃO 
 
Como em tarde anuviada 
Em tarde de negros véus. 
Para a terra contristada 
Sorri o íris dos céus; 
Mas quando o sol esmorece, 
O íris desaparece, 
Tudo é negra escuridão; 
O mar ruge e se encapela, 
E nas asas da procela 
Corre bramindo o trovão: 
 
Tal ao sol da liberdade 
Que sobre Roma luziu, 
Qual íris em tempestade, 
Catão à pátria sorriu. 
Mas esse astro que fulgente 
Das águias brilhara à frente, 
Do Capitólio baixou; 
E ele, o íris da bonança, 
Ele, de Roma a Esperança, 
Com seu fulgor expirou. 
 
Contra as iras da tormenta 
Ó forte lutaste em vão: 
Que pode a virtude isenta 
Contra a geral corrupção? 
Já não luziam virtudes 
Como nos séculos rudes 
Dessa Roma consular; 
O templo da tirania 
A seus ministros abria 
As portas de par em par. 
 
Inda infante, viste Mário 
De Roma o sangue beber; 
E envolvida num sudário 
A pobre Itália gemer. 
Viste Sila, o monstro infando, 
Entre as cabeças folgando, 
Qual tigre, no seu festim; 
E, infante, bradaste ufano: 
– Dai-me um ferro, e o tirano 
Livremos a pátria enfim! – 
 
Não to deram: que lucrava 
O teu valor juvenil? 

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81

Dum tirano outro brotava, 
Nascia a guerra civil. 
Enxuto de Roma o pranto, 
Eis que envolto em negro manto 
Lá surge um conspirador: 
Cintila a morte, a ruína 
No punhal de Catilina, 
De Catilina, o traidor, 
 
Surge, víbora gerada 
Dos vícios do lodaçal! 
Sobre Roma descuidada 
Lança o veneno fatal! 
Eia, empunha o facho ardente! 
Entrega a pátria inocente 
Aos punhais da tua grei! 
E entre o sangue, à luz do incêndio, 
Num trono de vilipêndio 
Vem sentar-te como rei! 
 
Mas treme! lá soa o brado 
De Marco Túlio, orador. 
Treme! Catão no senado 
Já dos teus vence o furor. 
Sucumbiste, algoz ferino! 
Oh! mas vinga-te o destino 
Que Roma jurou perder. 
Catão, cobre-te de luto, 
Que da Gália já escuto 
A guerra civil descer. 
 
Gerou-a o triunvirato, 
Esse monstro d'ambição; 
Que as eras de Cincinato, 
Essas eras já lá vão. 
D'olhos fitos sobre a Itália 
Eis desce o leão de Gália, 
E Arimino já tomou. 
É César! ei-lo que assoma: 
Abre-lhe as portas, ó Roma, 
Que às tuas portas chegou! 
 
Ei-lo parte, e já na Espanha 
Os três legados venceu! 
Só em Dyrrachio lhe ganha 
A espada do grão Pompeu. 
Os mortos jazem aos centos: 
Sobre os seus restos sangrentos 
Um homem chora: é Catão. 

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82

É ele que ali deplora 
Essa guerra assoladora, 
Guerra d'irmão contra irmão. 
 
A liberdade expirava: 
O coração lho prediz. 
Roma, a livre Roma escrava 
Ia dobrar a cerviz. 
Não se enganou: lá troveja 
O fragor d'alta peleja 
Em Farsália inda uma vez; 
Pompeu vacila e fraqueia; 
A liberdade baqueia 
De Júlio César aos pés. 
 
Ei-la que expira, ei-la morta... 
Oh! que não! ressurge além! 
Catão é vivo: que importa 
Quanto César ganho tem? 
De Farsália aos naufragantes 
Sobre as areias distantes 
Da Líbia surge um fanal: 
São dele, dele as bandeiras 
Juntando as rotas fileiras 
Para um combate final. 
 
Mas César lá corre ovante, 
Vence Juba e Cipião; 
Tudo ante ele vacilante 
Se prostra enfim maldição! 
Não tarda a hora funesta: 
De liberdade só resta 
Dentro d'Utica um fulgor. 
Inda Catão lá impera: 
É lá que o vencido espera 
As iras do vencedor. 
 
Que venha, que ao seu aceno 
Curvado não há-de ver 
Aquele rosto sereno, 
Que nunca soube tremer. 
Caminha, César altivo, 
E acharás em teu cativo, 
Em vez de preito, o desdém! 
Sabes vencer, porém corre 
Vem saber como se morre, 
Aprende a morrer também! 
 
Catão, Catão, eis chegado 

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83

O momento de partir! 
Com que rosto sossegado 
Te vejo à morte sorrir! 
Antes do golpe supremo 
Tu paras inda no extremo 
A meditar com Platão: 
Assim a águia alterosa 
D'alta penha cavernosa 
Mede sublime a amplidão. 
 
E depois, assim como ela, 
Das nuvens rompendo o véu, 
Adeja sobre a procela, 
Deixa a terra, e busca o céu: 
Tal coa dextra sempre ousada 
Cravando no seio a espada, 
Partiste d'alma os grilhões; 
E dentre os vaivéns da sorte 
Voaste, calcando a morte, 
Às etéreas regiões. 
 
César vence, e ao Capitólio 
Lá sobe triunfador; 
Roma cai do altivo sólio, 
Rojando aos pés dum senhor. 
Catão, o livre, expirara... 
No suspiro que exalara 
A liberdade voou. 
Começava o negro império 
Que um Calígula, um Tibério, 
Um Nero, monstro, gerou. 
 
Ele, entanto, sepultado 
Nas praias junto do mar, 
Lá dormia descansado 
Sob a lájea tumular. 
Ali a queixosa vaga 
Vinha, rolando na plaga, 
Beijar do livre a mansão; 
E inda falar com saudade, 
Da pátria, da liberdade, 
à estátua de Catão. 
 

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84

 
AMO-TE 
 
Da aurora que surge com mantos lustrosos 
Eu amo os sorrisos d'encanto sem fim; 
Mas inda mais amo teus lábios formosos, 
Teus lábios sorrindo d'amor para mim. 
 
Eu amo as estrelas, dos plainos infindos 
Vertendo num lago sereno fulgor; 
Mas inda mais amo teus olhos tão lindos 
Vertendo em minh'alma seus raios d'amor. 
 
Em serras, ao longe, cobertas de gelos, 
As ondas eu amo d'argênteo luar; 
Mas inda mais amo teus louros cabelos 
Que em ombros de neve costumas soltar. 
 
Da brisa das tardes eu amo os lamentos, 
Dos bosques sombrios adoro o cantor; 
Mas inda mais amo teus brandos acentos 
Em termos descantes, em quebros d'amor. 
 
Eu amo a florinha d'ao pé da corrente, 
E o cálice puro da nívea cecém; 
Mas inda mais amo tu'alma inocente, 
Tão pura que os anjos mais pura a não tem. 
 
Eu amo dos astros a luz palpitante 
E as vagas longínquas arfando no mar; 
Mas inda mais amo teu seio d'amante, 
Unido a meu seio, d'amor a pulsar. 
 
Eu amo na brisa, que doce murmura, 
Colher os perfumes da rosa em botão; 
Mas inda mais amo sorver a doçura 
Dos beijos que, ardendo, teus lábios me dão. 
 
Eu amo-te, eu amo-te, ó virgem celeste, 
Meus dias na terra, minh'alma, são teus; 
Eu amo-te, ó anjo que à terra vieste, 
O amor ensinar-me dos anjos dos céus. 
 

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85

 
IMITAÇÃO DO ISLANDÊS 
 
Um dia eu te dizia: – se roubada 
Me fores, vem buscar-me – e tu não crias 
Que eu pudesse abraçar-te inanimada, 
Beijar teus olhos, tuas mãos já frias. 
 
Mas eu não te amaria, se inconstante 
Te pudesse esquecer na sepultura; 
Desbotou-se o frescor de teu semblante, 
Mas inda adoro tua imagem pura. 
 
Apagou-se em teus lábios o ar da vida, 
Mas um sopro imortal veio animar-te; 
E tu inda és formosa, inda és querida 
Ao que na terra começou a amar-te. 
 
Não me deixes em mísero abandono; 
Escuta ao longe, escuta a minha prece: 
Quando uma noite a viração do outono 
Gemer em nossas rochas, aparece! 
 
E se a lua brilhar, se de passagem 
Me estenderes a mão d'etérea alvura, 
Eu surgirei por ver a tua imagem, 
Por ouvir tua voz serena e pura. 
 
Depois, anjo celeste, no meu seio 
Repousa a fronte, aperta-me em teus braços; 
Deixa que eu te acompanhe sem receio, 
Desta existência desatando os laços. 
 
Sobre a aurora do pólo arrebatados 
Vamos, no seio d'imortais venturas, 
Em nuvens d'ouro e púrpura embalados, 
Cantar, sonhar, dormir nessas alturas. 
 

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86

 
LIBERDADE 
 
UM ECO NO CATIVEIRO 
 
Que tristeza quando penso 
Nos povos em servidão! 
Nos povos, gigante imenso 
Rugindo humilde no chão! 
Ao pensar assim comigo, 
Quantas vezes eu maldigo 
Essa campa de jazigo 
Que pesa sobre as nações! 
Quantas vezes eu deploro, 
Quantas estremeço e choro, 
Ouvindo o ranger sonoro 
De seus pesados grilhões! 
 
Ouvindo tão tristes queixas 
Retumbando por esse ar, 
Tantas sentidas endechas 
Sobre a terra a suspirar; 
Ouvindo-te, humanidade, 
Esse gemer de saudade, 
Que soltas na imensidade 
Sem que te escute ninguém; 
Ouvindo-te, ó malfadada, 
De teus filhos rodeada, 
Suspirar abandonada 
Como suspira uma mãe!... 
 
É triste a cena que vejo, 
É triste, mas ei-la aí... 
Aquém sofismas, sem pejo, 
Férreas algemas ali; 
Dum lado povos traídos, 
Pelos seus escarnecidos, 
Soltam queixas e gemidos 
Que ninguém quer acolher; 
Doutro povos humilhados, 
Sob um jugo avassalados, 
Por um peso recalcados 
Quase nem ousam gemer... 
 
Pobre raça deserdada 
Que aí suspiras em vão, 
Quando hás-de ter entrada 
Na terra da promissão? 
Quando hás-de resgatar-te? 

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87

Quando é que em toda a parte 
Há-de o mundo contemplar-te 
Semelhante a um homem só? 
Quando raiará o dia 
De cessar tua agonia? 
Quando terás alegria 
Erguendo a fronte do pó? 
 
Hás-de tê-la, que o desterro, 
Eia, ó triste, acabará, 
Que esse jugo vil de ferro 
Em pedaços cairá! 
Esgota o cálice inteiro 
De teu duro cativeiro; 
Porém do solo estrangeiro 
Fita ao longe a redenção!... 
Esta crença, força e vida 
Nos corações mal contida, 
Pode acaso ser retida? 
Acaso pode?... pode? – Não! 
 
Debalde tentam detê-la 
Porque a corrente caudal 
Hão-de majestosa vê-la 
Transpor o dique afinal... 
Tudo no mundo descansa, 
Nada progredindo avança, 
Tudo avante se abalança 
Num eterno caminhar... 
Fitai o sol, as estrelas; 
Vede se podeis sustê-las, 
Se podeis, loucos, fazê-las 
Ao vosso aceno parar... 
 
Quem me dera a mim agora 
Ter do fogo lá do céu, 
Daquele fogo que outrora 
Trouxe à terra Prometeu! 
Oh! que se eu pudera tê-lo, 
Eu havia de vertê-lo 
Nessa montanha de gelo 
Que inda dos seios não cai... 
Sobre a raça amortecida 
Dos homens soprara a vida, 
E com voz, do mundo ouvida, 
Lhes bradaria: – Acordai! – 
 

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88

 
ESPERANÇA 
 
Povo! que fazes? desmaias 
Sob o peso do sofrer? 
Oh! nesse abismo não caias 
Senão vê – tens de morrer: 
O teu colo não se dobre, 
Levanta essa alma que é nobre, 
Tens, ó povo, um coração! 
Ergue a fronte triunfante, 
Ergue-a qual cedro gigante, 
Não a rojes pelo chão! 
 
Os teus irmãos sucumbiram? 
Ao longe os viste expirar? 
Não importa, – eles sorriram 
De assim a vida exalar. 
Era pela humanidade, – 
Era pela liberdade: 
Que lhes custava morrer? 
Do céu te bradam: «esp'rança, 
Irmãos, irmãos a bonança 
Há-de um dia alvorecer!» 
 
Povo! olha ainda espumante 
O sangue desses heróis; 
Olha as ruínas fumantes 
Como sinistros faróis; 
Contempla todo esse estrago, 
Olha de prantos um lago, 
Olha um pai órfão além, 
Um amante aqui chorando, 
Acolá um filho orando 
Na campa de sua mãe! 
 
Mil cadafalsos aos ares, 
Repara, não vês erguer? 
São teus irmãos que aos milhares, 
Ai de ti! lá vão morrer! 
Tu aos cruéis perdoavas, 
A vida tu lhe ofertavas, 
Que não tinhas mais que dar. 
Eles querem tua morte... 
Dá-lha, povo não te importe, 
Que o teu sangue há-de medrar. 
 
Mas chora teus irmãos, chora; 
Quem é que o pranto retém? 

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89

Chora, sim, que escrava outrora 
Já chorou Jerusalém: 
Chora, sim, como chorava 
O povo que suspirava 
Pela mísera Sião, 
Ou como na soledade 
Suspirava de saudade 
A corrente do Cedron. 
 
Chora, mas em 'stragos tantos 
Não apagues teu ardor; 
Esgotaste sangue e prantos, 
Não esgotes teu valor: 
Recupera alento novo, 
O lume da esp'rança, ó povo, 
Não o deixes expirar; 
Guarda-o vivo na tormenta, 
Como a vestal que alimenta 
O sacro fogo no altar! 
 
Vossa aurora bonançosa, 
Povos da terra, esperai! 
Vós a vereis majestosa 
Como os fogos do Sinai; 
Vós a vereis radiante 
Vós a vereis triunfante, 
Qual no Gólgota brilhou, 
Quando a toda a humanidade 
Uma voz – fraternidade, 
Lá duma cruz ressoou. 
 
Um dia essa voz que encerra 
O resgate universal, 
Retumbará pela terra 
Como a trombeta final... 
Há-de ver-se o tenro infante 
Sorrir à mãe nesse instante, 
E ela unindo-o ao coração 
Que há-de dizer com ternura: 
«Filho, hás-de gozar ventura, 
Que chegou a redenção!» 
 
Povos, povos, esse dia 
Será um dia sem par: 
A campa que vos cobria 
Se há-de então despedaçar; 
As nações hão-de enlaçar-se; 
Os homens hão-de sentar-se 
Ao banquete fraternal, 

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90

E o céu olhando o mundo 
Há-de em silêncio profundo 
Ver o abraço universal. 
 
Nesse dia tão formoso, 
Astros! mostrai-vos sem véus! 
E tu, ó mar proceloso, 
Suspende teus escarcéus: 
Terra, cobre-te de gala, 
Os teus perfumes exala! 
Povos da terra, folgai! 
E entre mil nuvens d'incenso, 
Um hino geral e imenso, 
À liberdade entoai! 
 
 

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91

 
À MORTE DO MEU AMIGO 
LICÍNIO F. C. DE CARVALHO 
 
Morreste, amigo, partiste 
Desta mansão passageira! 
Bem depressa da carreira 
Tocaste a meta fatal! 
Com a folhagem dos bosques 
Gelou-te o vento do outono, 
E dormes o longo sono 
Do teu leito sepulcral! 
 
Já tua mão extremosa 
Não aperta a mão do amigo 
Que tantas vezes contigo 
Em sonhos vãos delirou. 
No seio da fria terra 
Já não me escutas nem falas, 
Contando lutos ou gaias 
Do teu viver que passou. 
 
Oh! quantas vezes, imersos 
Nesses íntimos enleios 
Que fazem um de dois seios, 
Sentimos horas fugir! 
Quantas, sonhando horizontes 
De poesia, amor, ou glória, 
Numa expansão transitória 
Criamos longo porvir! 
 
E morto jazes, ai! morto, 
Sem poder de teus anelos 
Realizar os sonhos belos, 
Cruzar a vasta amplidão? 
Morto sem ter dito ao mundo 
A palavra augusta e santa 
Que a turba ansiosa espanta, 
E que é do génio o condão? 
 
Morto à luz da tua aurora 
Sem que à luz da tua sesta 
Pudesses, na hora funesta, 
Sorrir ao passado teu? 
Morto, ai, morto sem ter ganho 
Mais lágrimas de saudade, 
Tão doces à soledade 
Daquele que já morreu! 
 

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92

Deus! se a vida é campo ameno 
Onde se vem colher flores, 
Porque, do sol aos fulgores, 
Não se hão-de as flores colher? 
Se é deserto ingrato e rude, 
Onde não brota uma fonte, 
Porque há-de em nosso horizonte 
A luz do dia nascer? 
 
Mas dorme, descansa, amigo, 
Que a vida é o deserto às vezes... 
Estrada de mil reveses, 
E de voragens fatais... 
E que é o poeta? o viajante 
Que fere os pés nos abrolhos, 
Enquanto levanta os olhos 
Às regiões divinais. 
 
Ave estrangeira que passa 
Neste clima proceloso, 
Com seu canto mavioso 
Levando as turbas d'após; 
Mas que chora de saudade 
Por sua pátria querida, 
Té que afinal abatida 
Cai sem alento e sem voz. 
 
Descansa! no frio leito 
De teu eterno repouso 
Não te irá o sol formoso 
Cada manhã despertar; 
Mas também, da aurora à noite, 
Não calcarás os espinhos 
Que em teus agrestes caminhos 
Verias da flor a par. 
 
Lá não irão festejar-te 
Ruidosos ecos do mundo, 
Que dizem, no som profundo, 
Qual é do génio o poder; 
Mas também tuas coroas 
Não regarás com teu pranto, 
Nem a inveja em negro manto 
Tua estrela há-de envolver. 
 
Descansa! que digo! surge! 
Ergue-te à luz, ó poeta, 
E revoa aonde inquieta 
Te levava a inspiração! 

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93

Sonhaste mundos brilhantes, 
Sonhaste amor e poesia: 
No país do eterno dia 
Vai colher teu galardão! 
 
Vai! das plagas do desterro 
Eis-te afinal resgatado: 
Procura regenerado 
A pátria que te sorri! 
Lá terás as harmonias 
Que soltam milhões d'esferas, 
E florentes primaveras 
Quais não terias aqui. 
 
Lá goza! lá, sacudido 
Sobre a terra o térreo manto, 
Desprende teu novo encanto 
De novos sóis ao fulgor! 
E, se lá pode chegar-te 
Esta nota de saudade, 
Escuta a voz da amizade 
Entre os mil hinos do amor! 
 

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94

 
O MENDIGO 
 
Nas turres soberbas da grande cidade 
O sol desmaiado não tarda a morrer; 
Recrescem as sombras: que importa? a vaidade 
No manto das sombras envolve o prazer. 
 
E u velho entretanto lá sobe a montanha, 
Caminha, caminha, no cimo parou: 
Em frígidas gotas o rosto lhe banha 
Suor copioso, que à terra baixou. 
 
Quis antes da morte, nas serras distantes 
Fitar inda os olhos cansados da luz; 
A aldeia da infância saudar por instantes, 
Depois satisfeito depor sua cruz. 
 
Olhou, e um suspiro de vaga saudade 
Juntou a seus prantos em funda mudez; 
Depois, ao volver-se, topando a cidade, 
Que em ébrio tumulto folgava a seus pés: 
 
«Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto 
«O pão da desgraça negaste cruel! 
«Mal hajas, mal hajas, que a terra do extinto 
«Talvez lhe negaras, à tumba infiel!» 
 
E exausto e sem forças, caiu de joelhos; 
E a fronte cansada firmou no bordão: 
Passados instantes, os olhos vermelhos 
Ao céu levantava, dizendo: perdão! 
 
Caíam-lhe soltas no colo vergado 
As longas madeixas em longos anéis: 
Que nobre semblante de rugas sulcado, 
Sulcado dos anos e mágoas cruéis! 
 
«Perdão para as vozes que solta a desgraça! 
«Perdão para o triste, perdão, ó meu Deus! 
«Bem hajas, que aos lábios lhe roubas a taça 
«De fel e amarguras, abrindo-lhe os céus. 
 
«Já filhos não tenho, levou-mos a guerra; 
«Esposa não tenho, finou-se de dor; 
«Amigos não vejo na face da terra: 
«Que faço eu no mundo? bem hajas, Senhor! 
 
«Às portas do rico bati sem alento, 

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95

«Eu rico n'outrora, mendigo por fim: 
«O rico sem alma negou-me o sustento, 
«Aqueles que amava fugiram de mim. 
 
«Vaguei pelo mundo, nas faces mirradas 
«Colhendo os insultos que ao pobre se dão; 
«Sem pão, sem abrigo, por noites geladas 
«Pousei minha fronte nas lájeas do chão. 
 
«Que vezes a morte chamei sem alento 
«Cansado dos anos, e fomes, e dor! 
«A morte não veio: sofri meu tormento... 
«Só hoje me ouviste! bem hajas, Senhor! 
 
«Os homens e o mundo negaram-me os braços, 
«Mas tu me recolhes, tu me abres os teus... 
«Minha alma te busca, desprende-a dos laços... 
«Perdão para todos, perdão, ó meu Deus!» 
 
E um ai derradeiro soltou d'ansiedade, 
Caindo por terra nas urzes do chão; 
Ao longe, no seio da grande cidade, 
Brilhava das festas nocturno clarão. 
 

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96

 
A VIDA 
 
A meu irmão 
 
Que! lutar sempre em afanosa guerra 
Contra os rigores dum feroz destino! 
A cada passo lacerar as plantas 
Nesta agra senda que nomeiam vida! 
Correr após um sonho, uma esperança 
Que leda nos sorria, a vê-la ao cabo 
Sumir-se, desfazer-se como o fumo! 
Ou, se tocamos o vedado pomo, 
Arrojá-lo de nós, murcho e vazio! 
Alcançar por um bem, mil dissabores! 
Por uma hora de gozo, mil de prantos! 
Sofrer, sempre sofrer, não vir um dia 
Em que possamos exclamar: ventura! 
E é este o cálice de aprazível néctar 
Que ao banquete do mundo nos convida? 
É este o éden que nos prende os olhos, 
E nos faz recuar ante o sepulcro? 
 
Nascemos: com que pena à luz do dia 
Surgimos logo do materno seio, 
Filhos da dor, obedecendo à origem, 
Nos vagidos da infância a anunciamos: 
E ainda assim no deslizar sereno 
Dos dias infantis, a vida encanta; 
A taça da existência tem doçura, 
Como se o mel lhe coroasse a borda 
Para mais fácil nos tentar os lábios. 
O horizonte dos anos se dilata; 
Vem a idade do amor. Que belos sonhos 
Em mágico painel a vista iludem! 
Um ser, que a mente em chama nos diviniza, 
Nosso oásis feliz anima todo, 
Bem como o sol anima toda a natureza, 
Ou a rosa do vale os flóreos prados. 
Mas quantos podem na manhã da vida 
Colher a rosa de seu mago enlevo? 
Quantos a estrela que adoraram crentes 
Sentem passar, e desfazer-se em breve, 
Não luzeiro do céu, porém da terra, 
Meteoro fugaz que baixa ao solo, 
E se dissipa, redobrando a noite! 
 
As ilusões do amor se desvanecem: 
Desse mundo feliz o homem baqueia 

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97

E devorando a mágoa segue avante. 
Prometeu afanoso ei-lo procura 
Dar alma e vida ás criações que inventa, 
Ai! já não belas, mas de impura argila. 
Honras, glórias, poder, bens de fortuna, 
Ciência austera, festivais prazeres, 
A tudo se abalança, aspira a tudo, 
E em tudo encontra desenganos sempre, 
Ao ponto que fitara jamais chega, 
Ou, se o alcança, não lhe dura o gozo. 
Ai do que envolto em miserandas faixas, 
Embalada sentiu a pobre infância 
Cos gemidos da fome! Esse à ventura 
Quase nem ousa levantar os olhos: 
Perpétuo desalento lhos abate 
À triste condição em que nascera. 
Planta gerada num terreno estéril, 
Não se ergue altiva, não estende os ramos, 
Vive entre espinhos, e entre espinhos morre. 
Em vão se cansa o triste: raras vezes 
A dura terra lhe concede o prémio 
Do suor e das lágrimas que verte 
No seio ingrato dessa mãe ferina 
Um pão acerbo que amassou com pranto, 
É o alimento que reparte aos filhos; 
E o marco do caminho à cabeceira 
Onde desprende o moribundo alento. 
Ai dele! mas não menos desditoso 
O que em púrpuras e ouro vendo o dia, 
Ou conduzido pela mão da sorte, 
Chegou ao cumes que a fortuna habita; 
E, na posse dos bens que o mundo anseia, 
Palpou tremendo seu medonho nada. 
Este empunhando o ceptro, empalidece, 
Sentindo às plantas vacilar-lhe o sólio; 
No fastígio da glória aquele geme, 
Ao ver o louro que lhe cinge a frente 
Pelo bafo da inveja emurchecido. 
Um as honras consegue, e as vê sem preço; 
Outro as riquezas, e lamenta os dias 
Que mais belos perdeu em seu alcance. 
Qual, a ciência devassando ousado, 
Após longas vigílias estremece 
Da dúvida ante o espectro; qual ardente 
Das festas no rumor despende a vida, 
E a taça do prazer lhe deixa o enfado. 
 
Feliz aquele que em modesta lida, 
Isento da ambição e da miséria, 

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98

No regaço do amor e da virtude 
A vida passa. Mas feliz ainda 
Se, das turbas ruidosas afastado, 
À sombra do carvalho, entre os que adora, 
Sente a existência deslizar tranquila. 
Como as águas serenas do ribeiro 
Que as herdades pacíficas lhe banha. 
Mas, que digo! nem esse. Infindos males 
Comuns a todos, seu viver não poupam, 
Dum lado a crua guerra lhe sacode 
O facho assolador às brandas messes; 
 
A pálida doença, doutro lado, 
Dos entes que mais ama o vai privando; 
E ele mesmo talvez, infausta presa 
Dessa serpente que nos liga à morte, 
Nos ecúleos da dor a vida exaure. 
E, como se estes males não bastaram, 
Sua mesma virtude lhe é suplício. 
Compassivo coa dor que os outros sofrem, 
A dor alheia o atormenta ainda. 
Justo, adora a justiça; e, olhando em torno, 
A injustiça e opressão verá reinando; 
Verá a inocência vítima do crime, 
A virtude humilhada, o vício altivo, 
Os prantos da miséria escarnecidos, 
Por toda a parte o mal, a dor; e as queixas, 
Ai dele, ai dele, se um momento pára 
Na atroz contemplação de tantos males! 
Ai dele, que turbado e confundido, 
Em maldições blasfemará terrível 
Da virtude, de si, de Deus, de tudo! 
 
Não! da vida no pélago agitado 
Um abrigo não há, não há um porto 
Onde possamos descansar tranquilos. 
Em nós, dentro em nós mesmos, ruge irada 
A tempestade que evitar queremos. 
Como a serpente no cristal da linfa, 
Na alma serena o sofrimento mora; 
Não pode o gozo dos mais belos dias 
Encher o abismo que no seio temos. 
Em vão, em vão ansiamos a ventura: 
Sumos na terra qual viajante exausto 
Que ouve o sussurro d'escondida fonte, 
E morre à sede sem poder tocá-la. 
 
Vida, tremenda herança d'amarguras, 
Eu te hei sondado nos meus próprios males, 

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99

E em meus irmãos na dor, nos homens todos: 
Grilhão pesado que nos dá o berço, 
E que depomos nos umbrais da tumba 
A luta, a mágoa, eis os teus dons funestos. 
Mas donde a causa do sofrer eterno 
Que as gerações às gerações transmitem? 
Que um século, tombando de cansaço, 
Como um peso importuno lega ao outro? 
Donde o crime feroz que um tal castigo 
Sobre nós atraiu? Se um Deus é justo, 
Que deus, que lei, sem escutar-nos, pôde 
A sentença lavrar? Silêncio é tudo! 
Em vão, para sabê-lo, em vão mil vezes 
Interroguei confuso o céu e a terra: 
O céu de bronze não me ouviu a prece, 
A terra obscura não me soube o enigma. 
Dos profetas na voz, na voz dos sábios, 
A dúvida cruel achei somente. 
Pedindo à morte a solução da vida, 
Desci às tumbas; apalpei as cinzas; 
Quis ver se um eco da gelada campa 
Surgirá à minha voz; mas foi debalde. 
Frias ossadas, carcomidos restos 
De quem sofreu também, só me disseram 
Que tudo acaba ali. A terra, a terra, 
O seio impuro dos famintos vermes: 
Eis o refúgio, a habitação amiga 
Que após a luta nos espera ao cabo! 
 
Morte, morte, bem vinda sejas sempre, 
Em nome da existência eu te saúdo! 
Tu reinas pela dor na espécie humana, 
E, quem sabe? talvez nesse universo; 
O sol, o mesmo sol envolto nas sombras, 
Parece reflectir-te as negras asas; 
E acaso à tua voz, a cada instante, 
Um cometa voraz fulmina um globo. 
Por que inda tardas a empunhar o ceptro 
Que neste ao menos te pertence há muito? 
Ao desterrado do éden por que deixas 
O resto do poder que inda te usurpa? 
Eia, desprende sobre a terra as asas, 
Sobre esta criação, que abandonada 
Talvez por seu autor como imperfeita, 
Qual nau perdida em tormentosos mares, 
Vaga sem rumo nesse espaço etéreo! 
 
Mas que sinistra voz! Silêncio, ó lira! 
Não mais prossigas teu cantar blasfemo! 

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100

Fanal de salvamento, luz d'esp'rança, 
Que na altura do Gólgota brilhaste, 
Desce à minha alma que a tristeza inunda! 
Desce! de todos resumindo as dores 
O cálice d'Ele foi o mais acerba. 
Ele sofreu! Soframos, e esperemos! 
Depois da noite escura vem o dia: 
Depois deste desterro, a eterna pátria! 
 

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101

 
UM SONHO 
 
Ah! si jamais le ciel j'était entre mes bras 
un des songes vivants attachés à mes pas 
 
LAMARTINE, Jocelyn
 
Inefável sentir, branda tristura 
Oh! quero-te sozinho aqui gozar... 
Eu te amo, tu não tens essa amargura 
Que nos seios, a mão da desventura 
Costuma derramar. 
Eu te amo qual amara a melodia 
De terna e melancólica canção, 
Ou o raio que o sol no fim do dia 
Como um beijo d'adeus, saudoso envia 
À rosa da soidão... 
Oh! sim, eu te amo, ó mística saudade 
Vem, quero no teu seio reclinar 
A minha fronte, aqui na soledade 
Como o lírio a que falta a humidade... 
Sim... quero aí chorar... 
Quantas vezes meu espírito elevando 
Ao céu em tuas asas de marfim, 
Os anjos um por um me andas mostrando! 
Oh! se desse gentil, celeste bando 
Tivesse um junto a mim!... 
Qual fonte que em deserto ressequido 
Dá conforto ao exausto viajor, 
Se houvesse sobre a terra um ente qu'rido 
Que terno respondesse a meu gemido 
Com meigo hino d'amor!.. 
 
Que vejo? as auras fendendo 
Nívea pomba eis desce a mim, 
Do céu à terra descendo!... 
«um génio, um querubim, 
Já desceu e a mim chegando, 
E meu pranto contemplando, 
Já me uniu ao coração..., 
E dois seios se entenderam, 
E dois corações bateram 
Em uma só pulsação... 
 
Virgem que à terra vieste 
Lá do seio do Senhor, 
Deixaste o coro celeste 
Pra vir dar-me o teu amor? 

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102

Vens os prantos enxugar-me 
Vens no teu sorriso dar-me 
O que ainda não senti? 
Vens do amor e da ternura 
Receber essa flor pura 
Que eu guardava para ti? 
 
Vem; tu surges qual estrela 
Que surge meiga no céu 
Quando após uma procela, 
Se mostra pura e sem véu; 
Tu surges qual meiga aurora, 
Qual ao Nauta que o implora 
Surge seu berço natal; 
Oh! quero pois adorar-te... 
Quero só viver d'amar-te... 
A vida sem ti que vale? 
 
Sim, aqui junto ao teu seio 
Tudo o mais quero esquecer... 
Nada no mundo receio; 
Junto a ti que hei-de temer? 
Este amor puro e ardente 
Só bem o conhece e sente 
Quem vive do coração,.. 
Cá na terra não no entendem, 
Só os anjos o compreendem, 
Só tu tens esse condão. 
 
Tu eras, anjo, tu eras 
Quem ao mundo em vão pedi: 
Oh! escuta, se souberas 
Todo o pranto, que verti!... 
Mas meu pranto que importava? 
O coração que eu buscava 
No mundo não no achei... 
Era em vão que lho pedia 
O que só em ti havia, 
O que em ti só encontrei. 
 
Mas nós somos tão felizes! 
É tão doce este viver!... 
Oh! essas falas que dizes, 
Torna-as, torna-as a dizer; 
Essas falas de ternura 
D'inocência e de candura 
Quero escutá-las sem fim... 
Diz-me, virgem celeste: 
Os anjos, donde vieste, 

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103

São inocentes assim? 
 
Tu és inocente e pura 
Como a cecém ao abrir 
Quando a aurora na candura 
Lhe vem um beijo imprimir... 
Por uma manhã formosa. 
Quando desabrocha a rosa, 
Quando o prado rescender, 
Hei-de ir em cada florinha, 
Em cada tenra folhinha, 
A tua inocência ler... 
 
Mas, repara neste dia 
Como é lindo o seu fulgor! 
Tudo nele é alegria, 
Tudo palpita d'amor... 
Não vês tu a natureza 
Revestida de beleza 
Nosso amor a festejar? 
Não vês como nos convida 
A lançarmo-nos na vida, 
A vivermos para amar? 
 
Eis pois, tudo olvidemos 
Vivendo juntos aqui: 
Eia, nosso amor gozemos; 
Sê minha, vivo pra ti... 
Sim, és minha, as nossas vidas, 
As nossas almas unidas, 
Quem as pode separar? 
Até no último suspiro, 
Como um anjo em leve giro, 
Hão-de ao céu juntas voar!... 
 
Um sonho... sim, um sonho e... feliz que ele era 
Porém cedo fugiu... 
Ai! não sei que terror, que medo gera 
Esta mudez que impera 
Dês que ele se esvaiu... 
Pra quem sonhou na terra um céu d'amores 
É tão triste o acordar! 
E, qual apaga o íris suas cores, 
Qual se vêem desbotar numerosas flores 
Ver o sonho expirar!... 
Meu Deus! só vejo um ermo onde caminho 
Sem protectora mão, 
Qual triste o peregrino vê sozinho, 
Longe do pátrio ninho, 

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104

Do deserto que pisa a solidão! 
 

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105

 
DESENGANO 
 
Vejo-a ainda! ressurge a meus olhos 
Como em tempos ditosos surgia, 
E, qual anjo de casta poesia, 
Desce às vezes num sonho d'amor; 
Vejo-a ainda nos céus e na terra, 
Nos encantos e risos da aurora, 
E, se o dia nas ondas descora, 
Das estrelas no meigo fulgor. 
 
Era a luz que brilhava em minha alma, 
Era o astro que em sombras luzira, 
Era o fogo sagrado que a lira 
Às doçuras d'amor acordou... 
Tudo c findo; debalde nas trevas 
Busco ainda seu facho luzente: 
Foi apenas um astro cadente, 
Meteoro fugaz que passou. 
 
Pobre seio que ardente pulsaste 
Embalado por falsas venturas, 
O fanal que na terra procuras 
Sobre a terra jamais acharás. 
Não há seio que entenda no mundo 
Esse ardor de teus vagos anelos; 
Não há luz que em seus raios mais belos 
Não te esconda uma sombra falaz. 
 
Que te resta? um futuro vazio 
D'ilustres que nutriu a esperança, 
E um passado de triste lembrança 
Como é triste a verdade sem véu... 
Olvidar! olvidar! que ao presente, 
Ai! só cabe o repouso do olvido. 
Olvidar! e que em gelo sumido 
Seja o fogo que em chamas ardeu! 
 
Sonho belo, que esta alma iludiste, 
Chama ardente nos céus ateada, 
Voa, voa à celeste morada! 
Lá nasceste, do mundo não és. 
E tu, lira de lânguidas cordas, 
Que de amor suspiraste em desleixo, 
Vai, oh, vai! em silêncio te deixo... 
Vai, oh, vai para sempre talvez! 
 

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106

 
AGAR 
 
De Bersabé nos areais ardentes 
O desmaiado sol ia esconder-se, 
E Agar, a expulsa Agar, gemendo aflita, 
Unia ao peito o moribundo filho. 
O vaso d'água que lhe dera o esposo 
Esgotara-se em breve, e no deserto 
Com seu pobre Ismael não descobrira, 
Desde o romper do dia, a ansiada fonte. 
O dia declinava: eis que o infante, 
Que pela mão a acompanhava exausto, 
Ardendo em sede lhe sucumbe às plantas. 
Ela vê-o cair, ela estremece, 
E, os olhos turvos em redor lançando, 
Aqui e ali correndo busca ainda, 
Mas debalde, um frescor. Enfim, cansada, 
Ela mesma também, eis volve ao filho, 
Prostra-se, abraça-o, com maternos beijos 
Tenta ansiosa prolongar-lhe a vida. 
 
«Filho, meu filho – murmurava a triste – 
«À sede vais morrer! Oh! se o pudesse 
«Adivinhar teu pai, cruel não fora; 
«E Sara, a própria Sara, enternecida 
«Emudecera seus fatais ciúmes. 
«Oh! não gemas, não gemas, que debalde 
«Invocas tua mãe. Ela te escuta, 
«Mas não pode salvar-te: dentro em pouco 
«Em seu regaço exalarás a vida. 
«E hei-de eu ver-te expirar? ver nesses olhos 
«Sumir-se a luz do dia? e nessas faces, 
«Que tantas vezes me sorriram ledas, 
«Ver as ânsias da morte? Oh! não, não posso 
«Ver morrer o meu filho». Disse, e ao tronco 
Duma árvore vizinha o recostava; 
Depois, com tristes, vagarosos passos, 
Foi noutros sítios aguardar a morte. 
Ali, ao ver o sol que esmorecia, 
Desatou a chorar, e estes queixumes 
Em voz convulsa murmurou ainda: 
 
«Sol do deserto, que o meu pobre filho 
«Vês expirando na soidão além, 
«Com teu suave, derradeiro brilho 
«Beijar-lhe a face carinhoso vem! 
«Oh! vem, que eu triste nessa face pura 
«Materno beijo nunca mais darei. 

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107

«Perdi meu filho: sobre a terra dura 
«Correi, meus prantos, sem cessar correi! 
 
«Quando o teu facho ressurgir do oriente, 
«Tudo na terra sentirá prazer; 
« E lá nos campos de Mambré virente 
«Mais bela a rosa te verá nascer: 
«Só ele em sombras duma noite escura 
«Adormecido ficará, bem sei. 
«Perdi meu filho: sobre a terra dura 
«Correi, meus prantos, sem cessar correi! 
 
«Por mim não choro, que infeliz escrava 
«Meus tristes dias findarei aqui: 
«Ai! choro aquele que no mundo amava, 
«Choro meu filho, que expirando vi. 
«Maternos mimos, filial ternura, 
«Lembrai-me os tempos que feliz gozei! 
«Perdi meu filho: sobre a terra dura 
«Correi, meus prantos, sem cessar correi! 
 
«Oh! quem dissera nos passados dias 
«Em que ao meu colo te cerquei d'amor, 
«Oh! quem dissera que a morrer virias 
«Neste deserto sem achar frescor? 
«Emurcheceste, já não tens verdura, 
«Mimoso arbusto que gentil criei! 
«Perdi meu filho: sobre a terra dura 
«Correi, meus prantos, sem cessar correi! 
 
«Tantas esp'ranças, que o Senhor gerara 
«Na escrava humilde, findarão assim. 
«Foi mais feliz a geração de Sara: 
«Cruel destino só me coube a mim. 
«Em vão, em vão me prometeu futura 
«Longa progénie: sem ninguém fiquei, 
«Perdi meu filho: sobre a terra dura 
«Correi, meus prantos, sem cessar correi! 
 
«Aves agrestes que me ouvis as queixas, 
«Com tristes vozes o seu fim chorai! 
«Brisas do ermo, suspirai-lhe endeixas! 
«Astros da noite, seu dormir velai! 
«Velai-o todos, que a final ventura 
«Que vos reservo nem sequer terei. 
«Perdi meu filho: sobre a terra dura 
«Correi, meus prantos, sem cessar correi! 
 
Mas Deus! que via ela, 

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108

Que um ai desprendeu? 
Que pomba tão bela 
No manto do céu! 
Que penas de prata, 
D'azul, d'escarlata, 
O espaço retrata 
Sereno, sem véu! 
 
É anjo voando! 
Que brilho que tem! 
Que véus ondulando 
De pura cecém! 
Que anéis de cabelo 
Nos ombros de gelo, 
No colo tão belo 
Caindo ao desdém! 
 
Descendo, descendo, 
Já perto chegou; 
E a pobre tremendo 
Calada ficou; 
E o anjo sorria 
Com doce magia, 
E à terra descia, 
Na terra pousou. 
 
E em roda mil lumes 
De brilho sem fim 
Lançava, e perfumes 
De nardo e jasmim; 
E a voz argentina, 
Suave, divina, 
Soltou peregrina 
Falando-lhe assim: 
 
«O que fazes, Agar, porque choras? 
«Nada temas, não tens que temer; 
«Se o teu filho perdido deploras, 
«Esses prantos converte em prazer. 
 
«Do deserto chegou seu gemido 
«Às alturas que habita o Senhor: 
«Surge, surge, e teu filho querido 
«Vai ao longe buscar sem temor! 
 
«Surge, surge, recobra a esperança 
«Que as promessas cumpridas serão! 
«O teu filho, o Senhor to afiança, 
«Será pai duma grande nação. 

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109

   
«Glória a Deus, que no céu ouve as mágoas 
«De quem sofre na terra a carpir! 
«Eis um jorro de límpidas águas: 
«Ide nelas a sede extinguir!» 
 
E, assim dizendo, lhe mostrava perto 
Uma fonte escondida entre verduras, 
Como nunca se vira no deserto, 
De tão grato frescor, d'águas tão puras. 
 
Depois, batendo as esmaltadas penas, 
Deixou na terra um luminoso traço; 
E, agitando seu manto d'açucenas, 
Sumiu-se ao longe na amplidão do espaço. 
 
Erguendo aos céus a radiosa fronte, 
A pobre mãe ao Senhor Deus louvava; 
E, enchendo o vaso no cristal da fonte, 
Com ele ao filho a salvação levava. 
 

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110

 
MARIA, A CEIFEIRA 
 
(IMITAÇÃO DE UHLAND) 
 
«Bons-dias, Maria: da lida do prado 
«Nem mesmo te afastam cuidados d'amor, 
«Se ao fim de três dias mo deixas ceifado 
«A mão do meu filho te quero propor.» 
 
Promessa é do rico, soberbo rendeiro: 
Maria, oh! quão ledo seu peito bateu! 
Seus olhos brilharam, seu braço ligeiro 
Mais forte nas messes a foice moveu. 
 
Soou meio-dia: que ardente secura: 
Já todos demandam a fonte, o pinhal; 
Somente nos ares a abelha murmura: 
Maria não pára, que é sua rival. 
 
O sol esmorece, bateram trindades: 
Debalde o vizinho lhe grita: bastou! 
Zagais e ceifeiros se vão às herdades 
Maria, coa foice, lidando ficou: 
 
O orvalho desliza; desponta a seu turno 
A estrela no espaço, na selva o cantor; 
Maria, insensível ao bardo nocturno, 
A foice incansável agita ao redor. 
 
Os dias e as noites assim por tais modos, 
Nutrida d'amores, mal sente passar, 
Três dias findaram: oh! vinde ver todos 
Maria ditosa d'esp'rança a chorar. 
 
«Bons-dias, Maria; já tudo ceifado! 
«Lidaste deveras: a paga hás-de ter. 
«Enquanto a meu filho, foi graça o tratado; 
«Quão loucos e simples o amor nos faz ser!» 
 
Tal disse, e passava... no peito constante, 
Ai pobre Maria, que transe cruel! 
Teu corpo formoso tremeu vacilante, 
E exausta caíste, ceifeira fiel. 
 
Um ano a coitada, sozinha consigo, 
Vivendo de frutos, vagou sem falar... 
No prado mais verde cavai-lhe o jazigo: 
Ceifeira como esta jamais heis de achar. 

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111

 

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112

 
A MONJA 
 
(TRADUÇÃO DE UHLAND) 
 
Sobre os jardins da clausura 
Brilha da lua o fulgor; 
Jovem monja entre a verdura 
Lá divaga e a face pura 
Lhe banham prantos d'amor: 
 
«Doce amigo, que tão cedo 
Foste na campa habitar, 
Posso eu amar-te em segredo? 
Ai, posso! aos anjos, sem medo 
Nosso amor podemos dar.» 
 
Aos pés da Virgem que adora 
Trémulos passos detém; 
O doce olhar da Senhora 
Lhe faz brilhar, como a aurora, 
O rosto cor de cecém. 
 
Na terra fria ajoelhando, 
À Virgem Santa rezou: 
Pôs nela os olhos chorando, 
E o longo véu abaixando, 
Muda e tranquila expirou. 
 

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113

 
O FIRMAMENTO 
 
Ao meu amigo J. S. da Silva Ferraz 
 
Glória a Deus! eis aberto o livro imenso, 
O livro do infinito, 
Onde em mil letras de fulgor intenso 
Seu nome adoro escrito. 
Eis do teu tabernáculo corrida 
Uma ponta do véu misterioso: 
Desprende as asas retomando a vida, 
Alma que anseias pelo eterno gozo! 
 
Estrelas, que brilhais nessas moradas, 
Quais são os vossos destinos! 
Vós sois, vós sois as lâmpadas sagradas 
De seus umbrais divinos. 
Pululando do seio omnipotente, 
E sumidas por fim na eternidade, 
Sois as faíscas do seu carro ardente 
Ao rolar através da imensidade. 
 
E cada qual de vós um astro encerra, 
Um sol que apenas vejo, 
Monarca doutros mundos como a terra 
Que formam seu cortejo. 
Ninguém pode contar-vos: quem pudera 
Esses mundos contar a que dais vida, 
Escuros para nós qual nossa esfera 
Vos é nas trevas da amplidão sumida? 
 
Mas vós perto brilhais, no fundo acesas 
Do trono soberano: 
Quem vos há-de seguir nas profundezas 
Desse infinito oceano? 
E quem há-de contar-vos nessas plagas 
Que os céus ostentam de brilhante alvura, 
Lá onde sua mão sustém as vagas 
Dos sóis que um dia romperão na altura? 
 
E tudo outrora na mudez jazia 
Nos véus do frio nada: 
Reinava a noite escura; a luz do dia 
Era em Deus concentrada. 
Ele falou! e as sombras num momento 
Se dissiparam na amplidão distante! 
Ele falou! e o vasto firmamento 
Seu véu de mundos desfraldou ovante! 

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114

 
E tudo despertou, e tudo gira 
Imerso em seus fulgores; 
E cada mundo é sonorosa lira 
Cantando os seus louvores. 
Cantai, ó mundos que seu braço impele, 
Harpas da criação, fachos do dia, 
Cantai louvor universal Àquele 
Que vos sustenta, e nos espaços guia! 
 
Terra, globo que geras nas entranhas 
Meu ser, o ser humano, 
Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas, 
E com teu vasto oceano? 
Tu és um grão d'areia arrebatado 
Por esse imenso turbilhão dos mundos 
Em volta do seu trono levantado 
Do universo nos seios mais profundos. 
 
E tu, homem, que és tu, ente mesquinho, 
Que soberbo te elevas. 
Buscando sem cessar abrir caminho 
Por tuas densas trevas! 
Que és tu com teus impérios e colossos? 
Um átomo subtil, um frouxo alento: 
Tu vives um instante, e de teus ossos 
Só restam cinzas que sacode o vento. 
 
Mas ah! tu pensas, e o girar dos orbes 
À razão encadeias; 
Tu pensas, e inspirado em Deus te absorves 
Na chama das ideias: 
Alegra-te, imortal, que esse alto lume 
Não morre em trevas dum jazigo escasso! 
Glória a Deus, que num átomo resume 
O pensamento que transcende o espaço! 
 
Caminha, ó rei da terra! se inda és pobre, 
Conquista áureo destino, 
E de século em século mais nobre 
Eleva a Deus teu hino! 
E tu, ó terra, nos floridos mantos 
Abriga os filhos que em teu seio geras, 
E teu canto d'amor reúne aos cantos 
Que a Deus se elevam de milhões d'esferas! 
 
Dizem que já sem forças, moribunda, 
Tu vergas decadente: 
Oh! não, de tanto sol que te circunda 

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115

Teu sol inda é fulgente. 
Tu és jovem ainda: a cada passo 
Tu assistes dum mundo às agonias, 
E rolas entretanto nesse espaço 
Coberta de perfumes e harmonias. 
 
Mas ai! tu findarás! além cintila 
Hoje um astro brilhante; 
Amanhã ei-lo treme, ei-lo vacila, 
E fenece arquejante: 
Que foi? quem o apagou? foi seu alento 
Que extinguiu essa luz já fatigada; 
Foram séculos mil, foi um momento 
Que a eternidade fez volver ao nada. 
 
Um dia, quem o sabe? um dia, ao peso 
Dos anos e ruínas, 
Tu cairás nesse vulcão aceso 
Que teu sol denominas; 
E teus irmãos também, esses planetas 
Que a mesma vida, a mesma luz inflama, 
Atraídos enfim, quais borboletas, 
Cairão como tu na mesma chama. 
 
Então, ó sol, então nesse áureo trono 
Que farás tu ainda 
Monarca solitário, e em abandono, 
Com tua glória finda? 
Tu findarás também, a fria morte 
Alcançará teu carro chamejante: 
Ela te segue, e profetisa a sorte 
Nessas manchas que toldam teu semblante. 
 
Que são elas? talvez os restos frios 
Dalgum antigo mundo, 
Que inda referve em borbotões sombrios 
No teu seio profundo. 
Talvez, envolto pouco a pouco a frente 
Nas cinzas sepulcrais de cada filho, 
Debaixo deles todos de repente 
Apagarás teu vacilante brilho. 
 
E as sombras pousarão no vasto império 
Que teu facho alumia; 
Mas que vale de menos um saltério 
Dos orbes na harmonia? 
Outro sol como tu, outras esferas 
Virão no espaço descantar seu hino, 
Renovando nos sítios onde imperas 

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116

Do sol dos sóis o resplendor divino. 
 
Glória a seu nome! um dia meditando 
Outro céu mais perfeito, 
O céu d'agora a seu altivo mando 
Talvez caia desfeito. 
Então, mundo, estrelas, sóis brilhantes, 
Qual bando d'águas na amplidão disperso, 
Chocando-se em destroços fumegantes, 
Desabarão no caos do universo. 
 
Então a vida, refluindo ao seio 
Do foco soberano, 
Parará, concentrando-se no meio 
Desse infinito oceano; 
E, acabando por fim quanto fulgura, 
Apenas restarão na imensidade – 
O silêncio aguardando a voz futura, 
O trono de Jeová, e a eternidade! 
 

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117

 
TRISTEZA 
 
Extingue-se o ano, são findos os dias 
Que os vales encheram de próvida luz; 
O inverno c'roado de névoas sombrias, 
Seus pálidos gelos à terra conduz. 
 
O rio em torrentes inunda as campinas, 
As veigas perderam seu flóreo matiz, 
Pesada tristeza reveste as colinas, 
E as selvas que há pouco sorriam gentis. 
 
Em tudo a meus olhos avulta uma imagem 
De triste abandono, de mística dor: 
Apraz-me este luto que veste a paisagem, 
Apraz-me esta cena d'extinto verdor. 
 
Como estas campinas outrora florentes, 
Meus dias formosos floriram também; 
Como elas agora, meus dias cadentes, 
Despidos d'encantos, já viço não tem. 
 
Quão rico de gozos o tempo corria! 
Quão triste o presente, quão pobre ficou! 
Só resta a saudade, qual vaga harmonia 
Que uma harpa nocturna de longe soltou. 
 
Mas essa que vale, perdida a esperança? 
Que vale um passado que já não é meu? 
àflor desbotada que importa a lembrança 
Da aurora suave que aroma lhe deu? 
 
Um dia outra quadra mais bela e mais pura 
Virá de boninas ornar os vergéis; 
Mas vós, ó meus tempos d'amor e ventura 
Sois findos pra sempre, jamais voltarei. 
 
Sondando o futuro, minha alma conhece 
Que os ermos do mundo já rosas não tem: 
Já tudo sucumbe, já tudo fenece, 
O sol da ventura, e a esp'rança também. 
 
Té mesmo em meu peito vacila agitada 
A chama da vida perdendo o calor; 
Meus dias declinam qual luz desmaiada 
Que doura as montanhas com tíbio fulgor. 
 
Se tudo, ah! se tudo findou no passado, 

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118

Se as trevas se estendem nos céus do porvir, 
Que esperas, minha alma? do livro do fado 
São negras as folhas: só resta partir. 
 
Ao longe, quem sabe? sulcando as alturas, 
Jardins mais formosos verás na amplidão, 
De flores eternas, d'eternas verduras 
Que os gelos da terra jamais secarão. 
 
Temendo os rigores do outono vizinho, 
As aves adejam buscando outros céus: 
Tu és, ó minha alma, qual ave sem ninho, – 
Procura outros climas, rasgando os teus véus! 
 

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119

 
A MÃE E A FILHA 
 
– Filha, filha, que linda alvorada! 
Anda ver este sol ao nascer: 
Há três dias que gemes deitada. 
Mas já hoje sorris de prazer. 
 
– Oh! que sonhos d'encantos divinos! 
Tudo em roda luzia em fulgor, 
E mil anjos cantavam seus hinos 
Em jardins d'açucenas em flor. 
 
Era longe dos olhos humanos, 
Numa terra mui longe daqui... 
Oh! que mundo tão livre d'enganos! 
Oh! que vida que nele vivi! 
 
– Olha o sol que tão belo se esconde 
Nas montanhas sombrias dalém... 
Tão calada, tão triste! responde, 
Que tens tu, minha filha, meu bem? 
 
Vou na pátria d'eternos amores, 
Vou ao longe ditosa viver, 
Mas, no seio de mundos melhores, 
Ai! não te hei-de a meu lado já ver! 
 
Eis um anjo que desce os espaços... 
Que harmonias! que brilho sem fim! 
Mãe, oh mãe, dá-me ainda os teus braços.. 
Já não sofro, não chores por mim. 

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120

 
IDADE MÉDIA 
 
Pelos salões e terrados 
Passeia o conde a gemer. 
É sombrio o seu aspecto, 
Nada lhe causa prazer. 
Os servos tremem ao vê-lo, 
Nem sequer lhe ousam falar. 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo, à beira-mar. 
 
Vive assim desde que a morte 
A dois inocentes deu, 
Causando também a doutro 
Que por amor os perdeu. 
Que noite aquela de sangue 
Para o seu nobre solar! 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo à beira-mar. 
 
Chegara o conde uma tarde 
Das guerras contra o Almanzor: 
«Alguém há, lhe diz seu aio, 
Que vos desonra, senhor 
Velai no jardim à noite...» 
Mais não quis acrescentar. 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo, à beira-mar. 
 
Brilhara a lua formosa 
Nos laranjais e jasmins, 
.................................... 
.................................... 
 
Um trovador, junto à fonte, 
Começara o seu cantar... 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo, à beira-mar. 
.................................... 
.................................... 
 
Eis-me aqui, diz ao amante, 
E nos braços lhe caiu; 
Na fronte de puro jaspe 
Ele um beijo lhe imprimiu. 
Quis falar-lhe, mas um ferro 
Sobre o peito viu brilhar... 
Vagam sombras, alta noite, 

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121

No castelo, à beira-mar. 
 
Mas logo, junto do conde, 
Ressoa um grito cruel: 
Matai-me, senhor, matai-me! 
Vossa esposa era fiel; 
Com as vestes da condessa, 
Quis meu amor ocultar... 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo, à beira-mar. 
 
Era da aia da condessa 
Essa voz que tal lhe diz. 
Ele estremece, olha em sangue, 
Banhada, a esposa infeliz. 
Vingativo, cravo o ferro 
Na donzela sem falar... 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo, à beira-mar. 
 
Desde essa noite funesta, 
Nunca mais sentiu prazer. 
Pelos salões solitários 
Passeia triste a gemer. 
Dizem todos em segredo 
Que os mortos lhe vêm falar. 
Vagam sombras, alta noite, 
No castelo, à beira-mar. 
 

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122

 
NUM ÁLBUM 
 
(do Ex.mo Sr. A. M. Cabral) 
 
Que valem versos escritos 
Sem o ardor da inspiração, 
Sem que por céus infinitos 
Esvoace o coração? 
A poesia é só poesia 
Quando eleva a fantasia 
Às regiões do ideal; 
Doutra sorte é apenas verso, 
Som pelo vento disperso, 
Murmúrio que pouco vale. 
 
É por isso que apagada 
Sentindo a chama sagrada, 
Meu nome vou escrever: 
Se é pobre, melhor escolha 
Fazei volvendo esta folha, 
E na seguinte ide ler. 
 

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123

 
O MOSTEIRO DA BATALHA 
 
Pulsemos a lira, que além se levanta 
Padrão de vitória que imenso reluz! 
Um templo e altares à Mãe sacrossanta; 
Um templo, um poema que altivo descanta 
Grandezas da pátria nos átrios da cruz. 
 
Grandezas da pátria quem traz à memória 
Que o peito não sinta d'orgulho bater? 
Pulsemos a lira! do livro da história 
Volvamos as folhas, que a musa da glória 
Em nuvens etéreas sentimos descer! 
 
Eis já d'Aljubarrota nas campinas 
Se encontram as hostes contendoras. 
Daqui tremulam portuguesas quinas: 
Dalém as castelhanas invasoras. 
Daqui é João primeiro, cuja lança 
A coroa defende e a pátria cara: 
Dalém o estranho rei, pedindo a herança 
Da princesa Beatriz que desposara. 
 
Refulge o sol nas armas, os cavalos 
Rincham fogosos, escarvando a terra; 
Dum lado e doutro os chefes a intervalos 
Correm as alas animando à guerra. 
Pouco avultam as hostes portuguesas; 
Tremendo é de Castela o poderio; 
Mas quem à pátria negará proezas 
D'alto valor, e generoso brio! 
 
A véspera é do dia consagrado 
À Assunção gloriosa de Maria; 
Os olhos levantando, o rei soldado: 
«Senhora, exclama, nosso esforço guia! 
«Se vencermos, um templo majestoso 
«Te erguerei sobre o campo de batalha!» 
Diz, e esporeando seu corcel fogoso 
Brios em todos com sua voz espalha. 
 
Soam trombetas; o sinal é dado; 
Flutuam soltos os pendões na frente: 
– São Tiago! – brada o castelhano ousado; 
– São Jorge e avante! – a portuguesa gente. 
Rédeas soltando, os esquadrões galopam, 
E dão em cheio com furor insano, 
Como torrentes que no vale se topam, 

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124

Ou como as ondas no revolto oceano. 
 
Retine o ferro, a multidão se agita; 
As achas d'armas, os broquéis lampejam; 
Peões, ginetes, com medonha grita, 
Num mar de sangue em turbilhão pelejam. 
O sol já desce a mergulhar no oceano, 
E inda referve a encarniçada lida; 
Eis redobra d'esforço o lusitano, 
E o estrangeiro leva de vencida. 
 
Foge o rei castelhano espavorido; 
Fogem os seus em debandada solta; 
Persegue-os João primeiro, e destemido 
A gozar do triunfo ao campo volta. 
Já se erigem troféus, já resplandece 
O céu da pátria co fulgor da glória; 
Faltava o monumento que dissesse: 
– Foi aqui! eis o campo da vitória! 
 

 
E ei-lo aí que se levanta 
Com majestosa grandeza, 
Daquela gentil proeza 
Sublime recordação: 
Fi-lo aí aos céus erguido, 
Como um colosso gigante 
Apontando ao caminhante 
O sítio da grande acção. 
 
Altos pórticos, lavores 
D'ostentosa arquitectura, 
Coruchéus d'imensa altura 
Roçando a fronte nos céus; 
Dentro, a nobre majestade 
Do santuário profundo, 
Onde, extinta a voz do mundo, 
Só lembra o passado, e Deus. 
 
Sobre os góticos pilares 
Brilham trémulos fulgores, 
Que das vidraças de cores 
Entorna a mística luz. 
Tudo cala, mas, se o órgão 
Por entre as naves ressoa, 
Tudo se anima, e apregoa 
O santo Verbo da cruz. 
 

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125

Então a mente se enleva 
Nas torrentes da harmonia 
Que da abóbada vazia 
Retumbam pela multidão; 
E, abrasada nos fulgores 
Dos vivos, sagrados lumes, 
Sobre as asas dos perfumes 
Revoa à etérea mansão. 
 
Se tudo cai em silêncio, 
Cai em si mesma, e medita, 
Recordando a data escrita 
Nesses góticos umbrais. 
Pensa então nos heroísmos, 
E crenças de meia idade, 
Combatendo a escuridade 
Daqueles tempos feudais; 
 
Pensa nos vultos heróicos 
Dos antigos cavaleiros, 
E em nossos feitos guerreiros 
Pela pátria e pela cruz; 
Pensa na grande vitória 
Que nos fez independentes, 
E que aos olhos dos presentes 
Nesse moimento reluz; 
 
Pensa num povo pequeno 
Mas esforçado e guerreiro, 
Triunfando do estrangeiro 
À voz do rei popular; 
Pensa no mestre valente; 
E sua sombra gigante 
Parece às vezes distante 
Entre as colunas vagar. 
 
E pensa também no artista, 
Nesse arquitecto inspirado, 
Que um poema sublimado 
Ali traçou a cinzel; 
Que cego da luz dos olhos 
Acendeu a luz do engenho, 
E consumou seu empenho, 
Ao grande assunto fiel. 
 
E Afonso Domingues surge 
Nesse padrão sobranceiro 
Ao lado de João primeiro, 
Seu imortal fundador; 

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126

Reis ambos: um pelo berço, 
Que lhe deu sua nobreza: 
Outro, rei pela grandeza 
Do seu génio criador. 
 
Lá dormem! um rodeado 
Dos brasões da sua glória, 
Como depois da vitória, 
Sob a tenda a descansar; 
Outro à sombra desses tectos 
Em campa singela e nua, 
Como querendo a obra sua 
Dalém da tumba guardar. 
 

 
E lá dormem também outros que a morte 
Juntou à sombra do lugar sagrado, 
D'infantes e de reis alta corte, 
Servindo de cortejo ao rei soldado. 
 
Reunidos enfim no chão funéreo, 
Fernando, Pedro, e Henrique, os três infantes; 
Henrique, o sábio audaz que outro hemisfério 
Primeiro abriu aos lusos navegantes. 
 
Duarte e João segundo descansando 
D'altas vitórias na mansão tranquila; 
Afonso quinto cos lauréis sonhando 
D'Alcácer, Tânger, e da forte Arzila. 
 
E no sopro do vento que perpassa, 
E lhes roça nas frias sepulturas, 
Parecem murmurar em voz escassa, 
E agitar suas ferozes armaduras. 
 
E lá quando o luar pelas janelas 
Lhes escoa nas lápides marmóreas, 
Talvez erguidos se recostam nelas 
A falar entre si de nossas glórias. 
 
Dormi em paz, ó chefes do passado, 
Heróico fundador, prole valente; 
Dormi em paz no túmulo calado, 
Recordando os lauréis da vossa gente. 
 
Enchei em roda os penetrais divinos 
De vossos gloriosos esplendores; 
E se tendes poder sobre os destinos, 

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127

Defendei-os do tempo e seus furores. 
 
Que as gerações passando reverentes 
Possam, volvendo as páginas da história, 
Largas eras saudar, curvando as frentes, 
Esse padrão d'imorredoira glória! 
 

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128

 
DESALENTO 
 
Cansado, ai! já cansado, quando a vida 
Em flor nascente desabrocha ao mundo! 
Quando a esperança, d'ilusões vestida, 
Sorri a todos num porvir jucundo! 
 
Alma que gemes em letal quebranto, 
Desprende as asas nos vergéis celestes! 
Amor, glória, prazer, dai-me inda o encanto 
Que nos dias passados já me destes! 
 
Mas que é o amor da terra? luz divina 
Que mal desce do céu logo se apaga; 
Cândida rosa que o tufão inclina, 
Que o tempo e a morte desfolhando esmaga. 
 
Doces imagens que em ditoso enleio 
Cerquei outrora d'ilusão infinda, 
D que é feito de vós? ai! neste seio 
Viveis apenas, se viveis ainda. 
 
E tu, que és tu, ó glória? um som que passa, 
E de século em século retumba, 
Mas que a frígida lousa não traspassa 
De quem já dorme na calada tumba. 
 
Astro que brilha e queima, espectro ovante 
Que a desgraça acompanha, e o génio ilude: 
Vós o sabeis, Camões, e Tasso, e Dante, 
Vós que gemeis ainda no ataúde. 
 
Que é o gozo, o prazer? fumo d'incenso 
Que embriaga um momento, e se evapora; 
Que é o saber, a ciência? espaço imenso 
Em que a verdade mal reluz na aurora. 
 
Que é este mundo, que eu sonhei tão belo? 
Profundo abismo de tormenta escura; 
Que é pois a vida? um fadigoso anelo 
Que levamos do berço à sepultura. 
 
A morte! oh! se além dela o porto amigo 
Nos surgisse afinal ledo e formoso! 
Se nesses mundos da esperança abrigo 
Despontasse outro sol mais bonançoso! 
 
Mas quem sabe da morte? o ouvido atento 

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129

No silêncio das campas nada escuta; 
E Sócrates não diz se um novo alento 
Achou, bebendo a gélida cicuta. 
 
Senhor, Senhor, por que vim eu ao mundo, 
E qual é sobre a terra o meu destino, 
De mim que homem geraste, e que fundo 
Deste vale d'angústia erro sem tino? 
 
Infeliz de quem nasce! a ave que gira, 
A fera, o tronco, o verme que rasteja 
Também nasceu, mas esse nada aspira, 
Ou se aspirou alcança o que deseja. 
 
E o homem nasce, pensa, e aspira ansioso 
Às ilusões que a mente lhe depara, 
E a cada passo lhe esmorece o gozo, 
E acha só trevas onde luz sonhara. 
 
E caminha, e caminha, e sem alento 
Cai abismado no seu térreo leito, 
Onde após a fadiga e o sofrimento 
A lousa sepulcral lhe esmaga o peito. 
 
Aqui, de dor um pélago profundo; 
Além, os vermes da feral jazida; 
Senhor, Senhor, por que vim eu ao mundo? 
Por que do nada me chamaste à vida? 
 

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130

 
NUM ÁLBUM 
 
(do Exº Sr. Gaspar de Queiroz) 
 
    Nossas lides findaram. Chega o dia 
de deixar estas margens bonançosas, 
onde colhemos as purpúreas rosas 
da ciência, do amor, c da poesia. 
    Quem sabe, amigo, o que a fortuna ímpia, 
nos guarda em suas ondas procelosas?... 
apertemos as destras extremosas, 
como quem um adeus eterno envia. 
    Errante, ou do teu lar no doce abrigo, 
recorda-te daquele a quem o fado, 
em serena amizade uniu contigo. 
Lembrança desse tempo que é passado, 
    meu nome aqui te deixo: o teu, amigo, 
dentro do coração levo gravado. 
 

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131

 
CONSOLAÇÃO 
 
Quando nas trevas de minha alma aflita 
A procela da dor mais se encapela, 
E o desalento, a dúvida, e a descrença 
Coas negras asas me escurece o dia, 
A ti, ó Deus, a ti com mais esforço, 
Através do infinito onde te escondes 
Busco elevar-me, demandando auxílio; 
E tu, Senhor, descendo a quem te chama, 
Fulguras entre as sombras, e a tormenta 
Que dentro d'alma rebramia fera, 
Vai pouco e pouco serenando as iras. 
 

 
Bem hajas! quem te procura 
Jamais te procura em vão: 
Tu desces, e a noite escura 
Se volve em doce clarão; 
Tu  desces e a luz da esp'rança, 
Como estrela de bonança, 
Brilha no mar da aflição. 
 
A vida é triste: no mundo 
Sofremos até morrer; 
Mas, Senhor, quem sonda a fundo 
Mistérios do teu poder? 
A vida é triste, mas breve; 
E o futuro que se eleve, 
Eterno, imenso há-de ser. 
 
Mundos e mundos no espaço 
Vão rolando à tua voz, 
Presos em místico laço 
Nesses jardins sobre nós; 
E tudo canta à porfia 
Aquela grande harmonia 
Que ensinam teus anjos sós. 
 
Tudo folga: só na terra 
Há-de o homem padecer? 
Acaso tão pouco encerra 
Seu fado? não pode ser. 
Se o homem foi obra tua, 
Neste mar em que flutua 
Há-de um porto enfim haver. 
 

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132

Bem hajas! a dor e o pranto 
Vem de ti, do teu amor; 
São crisol augusto e santo 
Que nos apura em fulgor; 
São a chama, o fogo intenso, 
Que nos ergue como incenso, 
E a teus pés nos vai depor. 
 
Tu sabes porque sombria 
Vaga a noite na amplidão, 
Porque a terra se anuvia, 
E ruge irado o tufão: 
É que o dia segue a noite, 
E das procelas no açoite 
Se esconde a flórea estação. 
 
Bem hajas, Senhor, bem hajas! 
O teu poder nos conduz; 
Se de luto um dia trajas, 
Outro dia além reluz. 
Neste giro sempiterno, 
Vem o estio após o inverno, 
E após as sombras a luz. 
 
Bem hajas! feliz no mundo 
Quem tua face entrevê, 
E deste abismo profundo 
Se ergue nas asas da fé! 
Feliz quem sorrindo às vagas, 
De olhos fitos sobre as plagas, 
Espera, confia e crê! 
 

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133

 
O BUÇACO 
 
Oh! salve, irmão do Líbano, 
Que altivo ergues a fronte, 
Monarca destas serras, 
Senhor da solidão! 
Salve, gigante cúpula, 
Que ostentas no horizonte, 
Erguida sobre as terras, 
A cruz da Redenção! 
 
Em teus agrestes píncaros 
O homem vive e sente 
Mais longe deste mundo, 
Mais próximo dos céus: 
Por isso, nos seus êxtases, 
O monge penitente 
Aqui meditabundo 
Se erguia aos pés de Deus. 
 
Por largo tempo o cântico 
Do pobre cenobita 
Soou na ermida rude 
Da tua solidão: 
Hoje o silêncio lúgubre 
Somente nela habita, 
Silêncio d'ataúde 
Em fúnebre mansão. 
 
Porém se os coros místicos 
Findaram sua reza, 
Se a voz do santo hossana 
Em ti já feneceu; 
Tu vives, e inda incólume 
Ao Deus da natureza, 
Calada a voz humana, 
Descantas o hino teu. 
 
Oh! como és belo, erguendo-te 
À luz do novo dia, 
Que os mantos de verdura 
Te banha de fulgor! 
Quando o gemer dos zéfiros, 
Das aves a harmonia, 
Acordam na espessura 
Louvando o Criador! 
 
Mas quanto mais esplêndido 

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134

Serás quando a tormenta, 
Sublime, rugidora, 
Em teu regaço cai! 
Quando de mil relâmpagos 
Teu cume se apresenta 
C'roado, como outrora 
O fulgido Sinai! 
 
Quando os tufões indómitos, 
Rugindo nas escarpas, 
Se abraçam às torrentes 
Com hórrido fragor! 
Depois, em negro vórtice, 
Desferem nas mil harpas 
De teus cedros ingentes 
Um cântico ao Senhor! 
 
Tu és grandioso; o ânimo 
Que a sós aqui medita 
Recolhe altas imagens 
De santa inspiração. 
Oh! porque veio túrbida 
A guerra atroz, maldita, 
Soltar nestas paragens 
As vozes do canhão? 
 
Dum lado eram as bélicas 
Hostes de Bonaparte; 
Do outro heróico e ufano 
O povo português: 
A liberdade e a pátria, 
Ergueu seu estandarte, 
E a história do tirano 
Contou mais um revés. 
 
Tudo passou: sumiram-se 
Vencidos, vencedores; 
Té mesmo do gigante 
Soou a hora fatal; 
Só tu, sorrindo impávido 
Do tempo e seus furores, 
Inda ergues arrogante 
Teu vulto colossal. 
 
E cada vez que fulgido 
Renasce o novo dia, 
De nova luz te banhas, 
Despindo os negros véus; 
E dizes, em teu júbilo, 

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135

Ao sol que te alumia: 
– O rei destas montanhas 
Saúda o rei dos céus. 
 
Depois, ao vê-lo pálido 
Nas vagas do horizonte, 
Pareces ao mar vasto 
Dizer com altivez: 
Em teu regaço, ó pélago, 
Tu lhe sumiste a fronte: 
Avança, que de rasto 
Virás beijar-me os pés. 
 

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136

 
A FONTE DOS AMORES 
 
Eis os sítios formosos, onde a triste 
Nos dias d'ilusão viveu ditosa; 
Eis a fonte serena, e os altos cedros 
Que os segredos d'amor inda lhe guardam. 
Oh! quantas vezes, solitária fonte, 
Após longo vagar por esses campos 
Do plácido Mondego, nestas margens 
A namorada Inês veio assentar-se, 
E ausente de seu bem carpir saudosa, 
Aos montes e às ervinhas ensinando 
O nome que no peito escrito tinha! 
E quantas, quantas vezes no silêncio 
Desta grata soidão viste os amantes, 
Esquecidos do mundo e a sós felizes, 
Nos êxtases da terra os céus gozando! 
 
Pobre, infeliz Inês! breves passaram 
Os teus dias d'amor e de ventura. 
Ao régio moço o coração renderas, 
E o que em todos é lei, em ti foi crime. 
Eis do bárbaro pai, do rei severo, 
Se arma a dextra feroz, ei-lo que aos sítios 
Onde habitava amor conduz a morte. 
Distante do teu bem, ao desamparo, 
Ai! não pudeste conjurar-lhe as iras. 
Debalde aos pés d'Afonso lacrimosa 
Pediste compaixão; debalde em ânsias 
Abraçando teus filhinhos inocentes, 
Os filhos de seu filho, a natureza 
Invocaste e a piedade: a voz dos ímpios, 
Dos vis algozes, te abafou as queixas, 
E o cego rei te abandonou aos monstros. 
Ei-los a ti correndo, ei-los que surdos 
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas, 
No palpitante seio cristalino, 
Que tanto amou, oh bárbaros! os ferros, 
Os duros ferros com furor embebem. 
Prostrada, agonizante, os doces filhos 
Por derradeira vez unes ao peito, 
E de teu Pedro murmurando o nome, 
Aos inocentes abraçada expiras. 
 
Inda, infeliz Inês, inda saudosos 
Estes sítios que amavas te pranteiam. 
As aves do arvoredo, os ecos, brisas, 
Parecem murmurar a infanda história; 

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137

Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte, 
A fonte dos amores, dos teus amores, 
Como que em som queixoso inda repete 
Às margens, e aos rochedos comovidos 
Teu derradeiro, moribundo alento. 
 

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138

 
A UM TEATRO ACADÉMICO 
 
Abrindo sepulcros, rasgando mistérios, 
Quem mortos gelados levanta de pé? 
Quem varre coas asas as cinzas d'impérios, 
E os vultos heróicos anima, quem é? 
 
Quem tira do nada uma forma divina? 
Quem finge uma imagem de negro terror? 
Quem ergue virtudes, e o crime fulmina? 
Quem risos excita, quem prantos de dor? 
 
– O génio do drama e o génio da cena! – 
São eles que traçam, em véu d'ilusões, 
D'Amor, de ciúme, de riso, e de pena 
O jogo travado, falando às paixões. 
 
São eles unidos que em chama inquieta 
Sentiu Gil Vicente na fronte escaldar? 
São eles que o bardo da terna Julieta, 
E a fronte de Talma vieram c'roar. 
 
São eles, mancebos, que em nuvens de flores 
A senda apontaram que afoitos seguis, 
De palmas e c'roas, de magos fulgores, 
Mas senda d'espinhos; co génio condiz. 
 
Em nobre fadiga, que os ócios despreza, 
D'acerbos estudos assim descansais! 
Foi belo o desígnio, difícil a empresa: 
Quem logra nas artes repouso jamais? 
 
Que importa? na luta se provam alentos, 
Somente na luta se colhem lauréis; 
Aos peitos ardentes, de glória sedentos, 
Reluz a bonança por entre os parcéis. 
 
Avante! e que o génio das artes potente 
D fogo das artes vos possa trazer! 
Que em cenas de prantos o pranto rebente, 
Que em cenas alegres se goze o prazer. 
 
As artes e as letras nasceram amigas: 
Às aras das duas incensos levai, 
E os louros colhidos em sábias fadigas, 
Os louros do palco viçosos juntai! 
 

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139

 
NUM ÁLBUM 
 
Do sofrimento o arcanjo lamentoso 
Sobre a face do mundo estende o braço; 
Um diadema ofertava, e pavoroso: 
«Para o que mais sofreu!» gritou no espaço. 
 
Eis logo imensa turba se atropela, 
Todos querem ganhar a prenda infausta; 
Mas nenhum dos que chegam por obtê-la 
Mostrava a taça da amargura exausta. 
 
«Afastai-vos!» lhes brada o génio esquivo, 
«Nenhum tocou do sofrimento a meta: 
«Tu, só tu mereceste o prémio altivo; 
«Ergue a fronte, coroa-te, poeta!» 
 

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140

 
NO ÁLBUM 
 
DO DR. MANUEL TEIXEIRA PINTO 
 
Um nome é uma lembrança: neste mundo 
De que servem lembranças e memórias? 
Tudo se esvai no pélago profundo 
Que sorve gerações, vidas e glórias. 
 
Tudo se esvai na tumba regelada, 
Tudo morre, afinal tudo se esquece, 
E após o esquecimento resta o nada, 
Como os espaços onde um som fenece. 
 
Busquemos, já que tudo se consome, 
Busquemos à memória um doce abrigo; 
Eu só quisera soletrar meu nome 
Gravado em mais dum coração amigo. 
 
Porto – Agosto de 55. 
 

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141

 
JOSÉ JOAQUIM GOMES COELHO 
 
Vinte anos! Ai, bem cedo arrebatado 
O guardaste no seio, oh campa fria! 
Flor passageira, sucumbiste ao fado, 
E seus perfumes exalou num dia. 
 
Quanta ilusão desfeita em seu transporte? 
Sonhou glórias talvez, sonhou amores! 
Tudo, tudo aqui jaz! Carpi-lhe a sorte, 
Derramai-lhe na tumba algumas flores. 
 

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142

 
À MORTE 
DO TALENTOSO JOVEM 
HELIODORO AUGUSTO DE SOUSA 
 
Passou por junto dele revoando 
O arcanjo do Senhor: 
Tocou-lhe com as asas perpassando, 
E a vida lhe ceifou qual tenra flor!... 
 
Poucos passos no mundo apenas dera... 
Ai! mancebo, era ainda a primavera 
Sua quadra louçã... 
Ainda da existência os amargores 
Os sorvia entre aromas, entre flores, 
Da vida na manhã! 
 
Porém na primavera eis arrebenta 
O vulcão, e ao embate da tormenta, 
Cai o lírio do vale: 
Da vida na manhã eis soa a hora, 
E a existência a sorrir inda na aurora 
Cai ao brado fatal! 
 
Oh! meu Deus, porque à morte assim condenas 
A flor que o seio tímido abre apenas 
Do sol ao resplendor! 
Porque assim a desfolhas indiferente, 
Remessando-a dos tempo na corrente, 
Desbotada e sem cor? 
 

 
É noite, na escura igreja 
Vê-se passar um caixão... 
Luz de tochas relampeja, 
O sino brada: – oração!... 
Eram tão negras as telas 
Em que a chama dessas velas 
Ia soturna expirar!... 
Era tão negro o esquife, 
Aquele triste recife 
Em que se vai naufragar!... 
 
Quem vinha na fria tumba? 
Por quem era o funeral? 
O brado que além retumba 
Com estridor sepulcral? 
1: que há pouco ainda havia 

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143

Um coração que batia 
Em Juvenil pulsação. 
Havia um peito que amava, 
Uma fronte que pensava 
E que gelados estão... 
 
Ai, dessa tão curta vida 
Toda esp'rança e juventude 
Que restava? – uma jazida 
Nas tábuas dum ataúde... 
Restava uma mão gelada, 
Uma face descorada 
Como o mármore duma cruz... 
Restava uma testa fria, 
Um seio que não batia, 
Uns olhos mortos à luz! 
 
Mas já cessara o memento... 
Tudo na igreja calou... 
Eis que um triste saimento 
Dali a tumba levou... 
Aonde? – ao leito gelado... 
Porém que importa o finado, 
E onde o foram conduzir 
Que te importa a ti, ó mundo 
Com esse sono profundo 
Que o cadáver foi dormir?... 
 
Mas o sino lá na torre 
Sempre – Morte! – a retumbar 
E o brado que ao longe morre 
O cadáver a chamar... 
O luar no cemitério 
Brilhava com tal mistério!... 
Com tão sinistro fulgor! 
A terra estava tão fria! 
O mocho que lá carpia, 
Inspirava tanto horror! 
 
E em mim recolhido 
Pensei no coitado, 
Ao mundo trazido 
Pra ser já ceifado 
Tão cedo em botão... 
E a fronte pendida, 
No peito caída, 
E os olhos no chão, 
Meus lábios tremeram... 
O que eles disseram, 

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144

Oh! não sei eu, não!... 
Nem sei se rezei, 
Se ali blasfemei... 
 

 
Perdão. Perdão, meu Deus, tu és imenso... 
Tu recolhes nos céus o sacro incenso, 
Deixando à terra a cinza sem valor: 
À terra deixas vir noite sombria, 
Mas logo no oriente o novo dia 
Lá mostras em fulgor! 
 
Que vale, Senhor, a morte, quando a alma 
Voa a ti, qual incenso, roto o véu? 
Que vale da tumba a noite, quando a palma 
Tu lhe of'reces da aurora lá do céu? 
 
Silêncio, pois, homem, silêncio, não murmures, 
Sondar os seus mistérios não procures, 
Curva a fronte no chão! 
Quem põe freio de bronze ao mar irado, 
Quem povoa do mundo cum só brado 
Dos céus a imensidão? 
 
Quem só com leve aceno a terra abala, 
Quem cerce pla raiz cum sopro estala 
O cedro secular, 
Acaso sobre o chão, livre e sem custo, 
Não pode derribar o pobre arbusto 
Que fizera também do chão brotar? 
 

 
Feliz tu que buscaste um asilo 
Entre os coros dos anjos no céu; 
Que sorris desse porto tranquilo 
Ao furor do mundano escarcéu. 
 
Qual a pomba do arroio à beira, 
Mal a onda acabou de tocar, 
Parte logo voando ligeira 
Doces brisas no céu a aspirar. 
 
Assim tu, assim tu peregrino 
Cá na terra onde o génio é cruz, 
Procurando o teu foco divino 
Revoaste à origem da luz. 
 

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145

Não tardou que aos irmãos que choravas 
Lá te foste no céu confundir 
E que aos entes que tanto amavas 
Para sempre te fosses unir... 
 
Oh! que hinos de maga doçura, 
Oh! que hossanas celestes d'amor, 
Num abraço de meiga ternura 
Se elevaram de vós ao Senhor! 
 
Mas se ainda em presença do Eterno 
Entre os gozos é dado chorar, 
Oh! dizei, no amplexo fraterno 
Não sentistes o pranto assomar? 
 
Um suspiro, uma prece piedosa 
Não roçou vossos lábios também, 
Ao pensar que deixastes saudosa 
A gemer solitária uma mãe? 
 
Oh! mas esse suspiro profundo, 
Como prece ao Eterno se ergueu... 
O que importa deixá-la no mundo 
Se por ela rogais lá no céu! 
 

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146

 
VISÃO DO RESGATE 
 
Ao meu amigo Alexandre Braga. 
 
E eu achei-me assentado solitário 
Junto dum grande mar triste e sombrio, 
Cujas ondas d'aspecto funerário 
Se agitavam, qual trémulo sudário 
Sobre um cadáver macilento e frio. 
 
E eu era triste! sepulcrais gemidos 
Me vinham dessas ondas tormentosas; 
Seu fragor penetrava em meus ouvidos, 
Como o arfar de mil peitos oprimidos 
Em duros transes d'aflições penosas. 
 
E por cima na abóbada do mundo 
Um véu de nuvens se estendia baço; 
Rebramava o trovão rouco e profundo, 
E o mar respondia gemebundo, 
E a tristeza reinava em todo o espaço. 
 
E um suor frio me escorreu na fronte, 
Como o orvalho na cruz dum cemitério; 
E cie meus prantos desatou-se a fonte, 
E pedi ao Senhor que do horizonte 
Me tirasse esta nuvem do mistério. 
 
E o Senhor deu ouvidos a meu rogo, 
Pois vi descer a mim do firmamento 
Um facho ardente de celeste fogo, 
Que as trevas de meus olhos varreu logo, 
Qual varre as nuvens num tufão violento. 
 
E eu vi tudo! esse mar de ondas sombrias 
Era um mar de nações que se agitava; 
E eu conheci que em leito d'agonias, 
Chorando em vão seus miserandos dias, 
Aquela multidão gemia escrava. 
 
Ali fraco de pavor transido 
Arrastava grilhões aos pés do forte; 
O perverso ostentava o rosto erguido, 
E o justo era qual pombo foragido 
Que nas garras do açor encontra a morte. 
 
O mendigo nos átrios do opulento 
Pedia amparo e maldições colhia; 

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147

O filho do trabalho, sem alento, 
Comprava o escasso pão ao avarento 
A troco dos andrajos que despia. 
 
E entre as garras da fome devorante 
O mancebo lutava enfraquecido, 
O velho desmaiava agonizante, 
E a mãe sem forças apertava o infante 
Ao peito como a urze ressequido. 
 
E um espectro medonho e ensanguentado 
Por entre aqueles povos divagava, 
Brandindo um ferro com medonho brado; 
E o chão que ele pisava era abismado 
Como em torrentes d'incendida lava. 
 
É que esses povos, como iradas feras, 
Ao seu brado feroz se levantavam: 
E a matança era tanta, que disseras 
Ver um circo de hienas e panteras 
Que entre as garras cruéis se espedaçavam. 
 
E no meio de tudo em alto monte 
Se erguia um trono de rubins acesos, 
No qual um anjo, coroada a fronte, 
Dominava soberbo esse horizonte 
De povos algemados e indefesos. 
 
E no semblante desse arcanjo ardente 
O dedo do Senhor estava escrito; 
E eu pude ler-lhe na sombria frente, 
Gravadas em caracter refulgente, 
As sinistras palavras: – sê maldito! 
 
E outro arcanjo de negras armaduras 
De joelhos aos pés se inclinava; 
E, infausto mensageiro d'amarguras, 
Na sinistra empunhava algemas duras, 
Na dextra férrea urna sustentava. 
 
E ofertando-lhe a urna com respeito, 
Lhe dizia com voz assustadora: 
«Anjo do mal, que o homem tens sujeito, 
«Neste vaso de dor recebe o preito 
«Das lágrimas cruéis que o mundo chora. 
 
«Eis o penhor fiel que a tirania 
«Por mim, seu anjo, te conduz às plantas. 
«Os humanos resistem noite e dia, 

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148

«Mas o laço do amor não concilia 
«As suas turbas, que feroz suplantas. 
 
«Mal haja o Cristo, que o amor ensina! 
«Seu vil reinado sucumbiu na terra. 
«Triunfa, anjo do mal, reina e domina, 
«E mil flagelos às nações fulmina, 
«De crime, divisões, de luto e guerra!» 
 
E o arcanjo brandindo seu ceptro ardente, 
Sorria com feroz perversidade: 
E ao longe murmurava um som fremente 
Como o rugido dum vulcão latente, 
Ou a voz de longínqua tempestade. 
 
E eu cedi ao vaivém de minhas mágoas, 
Como ao sopro do vento a frágil hera, 
Té que uma voz, como a das grandes águas, 
De minhas penas abrandando as fráguas, 
Me bradou aos ouvidos: – crê e espera! 
 

 
E súbito uma aurora 
Serena, refulgente, 
Das trevas do oriente 
Desfez os negros véus; 
Lavrou, como um incêndio, 
Nas sombras horrorosas, 
E alfim cobriu de rosas 
A cúpula dos céus. 
 
E um astro despontando 
Na franja do horizonte, 
Alçou a meiga fronte 
Coberta d'áurea luz: 
Sobre ele campeando 
Cercada d'alta glória, 
Promessa de vitória, 
Brilhava a eterna cruz. 
 
E logo ardente nuvem, 
Relâmpago soltando, 
Baixou do céu, voando 
No carro dos trovões; 
Bem como de trombeta 
Soltava estranho acento, 
E prestes como o vento 
Rolou sobre as nações. 

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149

 
E nela a glória imensa 
Do Deus que o mundo adora 
Brilhava como outrora 
No topo do Sinai; 
E o grito da trombeta 
Dizia em som de guerra: 
– Surgi, povos da terra, 
Num só vos ajuntai! – 
 
E o trono do mau anjo 
Tremeu nos fundamentos, 
E eu vi passar nos ventos 
O espírito de Deus; 
Seu brado erguia aos povos, 
Bem como a tempestade 
Do mar na imensidade 
Levanta os escarcéus. 
 

 
E as turbas procelosas remoinharam 
Como as areias que o tufão agita: 
E alçando todas pavorosa grita, 
Com laços fraternais se coligaram. 
 
E enquanto erguiam seus pendões de guerra 
Eis que as asas batendo nas alturas, 
Cingidos de brilhantes armaduras, 
Dois arcanjos pairaram sobre a terra. 
 
Cobriam-lhes as formas delicadas 
Escudos e couraças diamantinas, 
Áureos elmos as frontes peregrinas, 
Nas dextras empunhando ígneas espadas. 
 
E eu vi-os, como sóis relampejantes, 
Adejarem velozes sobre a terra, 
Brandindo irados, em sinal de guerra, 
As terríveis espadas flamejantes. 
 
Té que chegado o instante do resgate, 
Fitando os povos que os olhavam mudos, 
Bateram coas espadas nos escudos, 
Bradando às multidões: – cia ao combate! 
 

 
E os povos ao brado, 

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150

Qual mar agitado 
Fervendo em cachões, 
Erguiam-se fortes 
Em densas cortes, 
Em mil turbilhões; 
E à guerra corriam, 
E feros bramiam 
Quais feros leões. 
 
Corriam, chegaram, 
E o trono cercaram 
Do anjo do mal; 
Mas ele! – maldito! – 
Das lutas o grito 
Soltara fatal; 
Na mão, qual espectro, 
Luzia-lhe um ceptro 
De lume infernal. 
 
Com fúria sombria, 
Da vil tirania 
Ao anjo acenou, 
E o pronto ministro 
Seu mando sinistro 
Fiel aceitou; 
E eis rápido logo 
As armas de fogo 
Medonhas tomou. 
 
E enormes serpentes 
Vermelhas, ardentes, 
Soltou pelo chão; 
Das férreas escamas 
Saíam-lhe chamas 
De torvo clarão; 
Cada uma nos povos 
Saltava em corcovos 
D'horrenda visão. 
 
Os povos, que as viam, 
Debalde investiam 
Seus giros mortais: 
Cruéis labaredas 
Abriam veredas 
Às serpes fatais; 
E a turba d'exangue 
Caía do sangue 
Nos rios caudais. 
 

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151

Mas nisto ligeiros 
Os anjos guerreiros, 
No ar inda então, 
Baixaram luzentes, 
Quais astros cadentes, 
À térrea mansão; 
E aos anjos malvados 
Correram irados 
Com voz de trovão. 
 
E todos, alçadas 
As ígneas espadas 
Brandiam a par; 
Cada uma semelha 
Luzente centelha 
Cruzando no ar; 
Semelha no embate 
A onda que bate 
Na rocha do mar. 
 
Seus olhos vibravam, 
Seus gritos soavam 
Em ecos d'horror; 
As turbas rugiam, 
As armas tiniam 
Com novo rancor: 
O carro da guerra 
Rolava na terra 
Com torvo fragor. 
 
Até que um ribombo 
Soou, como tombo 
Ruidoso e fatal 
De penha que d'alto 
Desaba, e dum salto 
Retumba no vale: 
Era alto ruído 
Do trono abatido 
Do génio do mal. 
 
E logo infinitos 
Ouvi ledos gritos, 
E ouvi maldições; 
E soltos aos ventos 
Vi centos e centos 
D'ovantes pendões; 
Vi feitos pedaços 
Algemas, e laços 
E férreos grilhões. 

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152

 
Vi tronos caídos 
Vi ceptros partidos 
Rolarem no pó; 
Vi áureos emblemas, 
Vi mil diademas 
Calcados sem dó; 
Vi povos diversos 
Outrora dispersos, 
Unidos num só. 
 

 
Vi a terra já livre d'ansiedade 
Rasgar altiva seu funéreo manto; 
Vi os homens à voz da liberdade 
Surgirem fortes do letal quebranto. 
 
Vi-os, tecendo fraternais abraços, 
Sem ódios, sem rancor, e sem vinganças 
Estreitarem d'amor serenos laços, 
Unidos em sublimes alianças. 
 
E eu louvei o Senhor! já não reinava 
O anjo do mal coa tirania fera: 
Seu trono demolido semelhava 
D'apagado vulcão torva cratera. 
 
Coberto de mantos de pura safira 
Que dia tão ledo brilhava sem véus! 
A estrela formosa que aos homens surgira 
Reinava em triunfo no campo dos céus. 
 
Seu facho divino cercado de rosas 
Vertia no mundo torrentes de luz, 
E o mundo coberto de galas formosas 
Saudava nesse astro do Gólgota a cruz. 
 
Dos vales, dos montes, da terra, e dos mares, 
Saíam murmúrios de paz e d'amor, 
Coa voz dos humanos soando nos ares 
Em cantos infindos d'infindo louvor. 
 
Batendo serenos as asas douradas, 
Os anjos formosos pairavam no céu, 
Qual nítido bando de pombas nevadas 
Cruzando os espaços num dia sem véu. 
 
Nem elmos agora, nem malhas luzentes 

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153

Cobriam dos anjos as formas gentis: 
De branco trajados, seus véus inocentes 
Ondeavam tremendo nas auras subtis. 
 
Caíam-lhe soltos os longos cabelos 
No colo, nos ombros d'alvura louçã, 
Seus rostos ornando, mais puros, mais belos 
Que a estrela argentina da rósea manhã. 
 
Traziam pousadas nas cândidas frentes 
Grinaldas singelas de casta cecém, 
E as harpas ebúrneas tangiam cadentes, 
C'roadas de rosas e lírios também. 
 
Um coro celeste voando em cardumes 
Seguia os arcanjos com doces canções; 
E todos lançando na terra perfumes 
Assim descantavam por sobre as nações; 
 
 
O ARCANJO DO CRISTIANISMO 
 
Salve, dia que meigo fulguras, 
Despontando no mundo sem véu! 
Salve, estrela d'amor e de venturas, 
Que ressurges formosa no céu! 
 
Pura e bela surgiras outrora, 
Densa névoa cobria tua luz; 
Pura e bela ressurges agora, 
Vem reinar sobre os homens, ó cruz! 
 
Vem remi-los da negra maldade, 
Vem na face do mundo luzir; 
Vem trazer-lhes a luz da verdade, 
Que o Messias lançou no porvir! 
 
Era um anjo das trevas maldito 
Quem do mundo regia as nações; 
Foi o Verbo, o Messias predito, 
Que desceu a partir seus grilhões. 
 
Novas crenças brotando dos lábios 
Revelou em seu Pai um Deus só, 
E, caladas as vozes dos sábios, 
Falsos deuses caíram no pó. 
 
Viu as gentes sepultas no crime, 
E eis que armado d'augusta missão 

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154

Deu lições de virtude sublime, 
D'inocência, d'amor e perdão. 
 
Ensinou a brandura ao tirano 
Ao soberbo dos justos a lei; 
Ao avaro bradou: – sê humano! 
E ao perverso e ao ímpio: – tremei! 
 
Deu ao fraco palavras de vida, 
Deu ao triste consolos na dor, 
Deu a todos a esp'rança perdida 
D'outro reino de paz e d'amor. 
 
E cumprindo do mundo a sentença 
No tormento da cruz expirou; 
Mas com sangue dum Deus sua crença 
Sobre a terra gravada ficou. 
 
Do Calvário, librado nas penas, 
A mil povos com ela voei; 
Mil coroas teci d'açucenas, 
Com que tantos martírios ornei. 
 
Foi então... dá-me queixas, ó lira, 
Dá-me notas de fundo pesar... 
Cristo, ó Cristo, a calúnia, a mentira, 
Ai! ousaram teu Verbo ultrajar. 
 
Teus ministros, sem fé na verdade, 
Renegaram da santa missão, 
E entregaram a lei da igualdade 
Aos tiranos, à voz da ambição. 
 
Logo o facho sangrento da guerra 
Acenderam com ímpio furor, 
E em teu nome cobriram a terra 
D'extermínio, de sangue e d'horror. 
 
D'ouro e sangue mantendo seus vícios 
Teus preceitos calcaram no pó; 
E mil cenas de horrendos suplícios 
Ostentaram ao mundo sem dó. 
 
Então eu à celeste morada 
D'entre os homens voando subi, 
E a teus pés com a fronte curvada 
Largas eras, ó Cristo, gemi. 
 
Mas das trevas não pôde o combate 

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155

Apagar o teu astro de luz: 
Aos cativos, sinal do resgate, 
Ei-lo surge brilhante na cruz. 
 
Povos, povos, secai vosso pranto! 
Levantai-vos do leito da dor! 
Terra, entoa de novo o teu canto, 
Doce canto de paz e d'amor! 
 
Da maldade, dos ódios, da guerra, 
Para sempre o reinado morreu. 
Paz aos homens na face da terra! 
Glória a Deus nas alturas do céu! 
 
 
CORO DOS ANJOS 
 
Hossana! hossana! sinal de vitória, 
A cruz do resgate já brilha às nações: 
Hossana! e se eleva nos cantos de glória 
Dos anjos, dos homens, de mil gerações! 
 
 
O ARCANJO DA LIBERDADE. 
 
Bem-vindo sejas, bonançoso dia, 
Que ao mundo trazes a perdida luz! 
Bem-vindo sejas! teu fulgor lhe envia 
No facho eterno que as nações conduz! 
 
Assim de galas e esplendor vestida 
À voz do Eterno a criação rompeu; 
E a liberdade se ligou à vida, 
No mar, na terra, na amplidão do céu. 
 
– Vivei, sois livres, caminhai avante! – 
O Eterno disse, e me entregou a lei: 
Seu dedo a terra me apontou distante, 
E eu das alturas com prazer baixei. 
 
E a lei dos mundos vim gravar na selva, 
No leão das brenhas, e no açor do ar, 
No cedro altivo, na modesta relva, 
Nas bravas ondas do revolto mar. 
 
No ser humano, d'entre os mais aceito, 
Gravei mais fundo o universal condão, 
E d'entre as asas lhe verti no peito 
Viva centelha d'imortal clarão. 

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156

 
Então, qual fumo d'abrasado incenso, 
Voou da terra festival louvor; 
E a natureza no seu giro imenso, 
Pulsou de vida, liberdade e amor. 
 
Mas ai! que o homem de seus dons celestes 
No altar dos vícios holocausto fez: 
Rasgou impuro da inocência as vestes, 
Calcou tirano seus irmãos aos pés. 
 
Tomando o ferro de cruel verdugo, 
Fartou com sangue mil cruéis paixões; 
Impôs ao fraco seu tirano jugo, 
E o fraco às plantas lhe arrastou grilhões. 
 
Então a terra suspendeu seus hinos, 
A luz do dia se turvou no céu, 
E esta harpa triste, nos umbrais divinos, 
Aos pés do Eterno desde então gemeu. 
 
De negras sombras se toldara o mundo, 
Mas eis que os tempos eram findos já; 
Eis que uma estrela de fulgor jucundo, 
Sorrindo à terra, alumiou Judá. 
 
Em vão; só hoje triunfar devia 
Esse astro imenso de serena luz: 
Eis surge, eis surge do resgate o dia, 
Brilhando aos homens sobre a eterna cruz. 
 
Povos, sois livres, enxugai o pranto! 
Do leito amargo do penar surgir! 
Terra, modula teu festivo canto, 
Que o novo dia já reluz em ti! 
 
Dum Deus o sangue resgatou a afronta: 
Quebrai a taça da agonia e dor! 
Novo porvir às gerações desponta 
De liberdade, de ventura e amor. 
 
Eterna glória ao que desceu à terra! 
Eterna glória do universo ao Rei! 
Que o fraco exalta, que o soberbo aterra, 
Que impõe aos orbes e às nações a lei! 
 
 
CORO DOS ANJOS 
 

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157

Hossana! hossana! seu nome infinito 
Refulge de glória, qual astro seu véu, 
Na luz da verdade, no Verbo predito, 
No mar, nos abismos, na terra, e no céu! 
 

 
E subindo através do espaço imenso 
O coro – hossana, hossana – repetia 
Entre nuvens d'azul, d'ouro, e d'incenso, 
E entre notas d'angélica harmonia. 
 
Entanto eu com a face unida à terra 
Do novo dia o resplendor saudava, 
E sobre o campo da passada guerra 
Ao Senhor dos exércitos orava. 
 

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158

 
AO PORTO 
 
Doce pátria que amo tanto, 
Onde a luz primeira vi, 
Erga-se hoje a ti meu canto, 
Pois que em teu seio nasci. 
Foi a tua heroicidade 
Quem me inspirou, ó cidade: 
– Atleta da liberdade, 
Voem meus versos a ti! 
 
Pelo clarim das batalhas 
Vou modular a canção... 
Dizem guerra essas muralhas 
Que cingem teu morrião: 
A teus pés di-lo o rugido 
Desse Douro embravecido, 
Entre penhas escondido 
Rugindo como o leão. 
 
Guerreiro e livre, uma serra, 
Quiseste pra te encostar; 
A águia não quer a terra, 
Quer as penhas, quer o ar: 
Do oceano junto às plagas 
Quiseste um leito de fragas, 
Donde além visses as vagas 
Correndo livres no mar... 
 
Que insofrido como as ondas 
A natureza te fez; 
A pátria d'Epaminondas 
Foi menos livre talvez... 
Erga-se o véu do passado: 
Em combates empenhado, 
Sempre lá te vejo ousado 
Campear com altivez. 
 
Mas a glória do presente 
Foi maior que essa d'então; 
Hoje abriu-se ao combatente 
Doutra arena a vastidão; 
Que se à pátria inda n'aurora, 
Tinhas dado o nome outrora, 
Coa lança a remiste agora 
Dos ferros da escravidão. 
 
Jazia a triste arquejante, 

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159

Ninguém dela tinha dó... 
O seu rei fora distante; 
Seu rei a deixará só... 
Mas tu calaste a viseira, 
Tu bradaste, e a Europa inteira 
Viu à tua voz guerreira 
Portugal surgir do pó. 
 
Que valeu? – correram anos... 
Jaz aos pés calcada a lei; 
Pesa o jugo dos tiranos 
No colo da pobre grei... 
Que negro porvir tão triste! 
Liberdade, sucumbiste... 
Mas o forte ainda existe; 
Ei-lo que se ergue – tremei! 
 
Lá não tendes vis escravos 
Que saibam rojar grilhões: 
Os ferros daqueles bravos 
São espadas e canhões... 
Pararam na marcha sua? 
Também a vaga recua, 
Mas depois à praia nua 
Arroja cem galeões. 
 
Pararam... porque o martírio 
É preciso inda afrontar, 
Que das crenças o alvo lírio 
Do sangue deve brotar. 
Pararam... agora, avante! 
Surja o cutelo brilhante, 
Que o mártir estende ovante 
O colo sem vacilar... 
 
Raiou o dia do pranto, 
Ó nova Jerusalém... 
Não vês trajar negro manto 
A liberdade também?... 
Não vês... não vês decepadas 
Cabeças ensanguentadas, 
Palpitando desgrenhadas 
Nos postes aqui e além?... 
 
Mas não tarda do desterro 
Quem há-de o mártir vingar: 
Dos livres já brilha o ferro 
Por entre as ondas do mar. 
Enxuga teu pranto ardente, 

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160

Que nas vagas do ocidente 
Já do exército valente 
Descubro as naus a alvejar. 
 
Ei-los correndo a teus braços 
Muros adentro já são; 
Das masmorras em pedaços 
Estala o férreo portão. 
Ei-los à praça chegados... 
Os cadafalsos alçados 
Por mil ombros derrubados 
Caem prostrados no chão. 
 
No regaço da cidade 
Que espectáculo não vai! 
Do longo exílio a saudade 
Em beijos d'amor se esvai. 
Findara a ausência amargosa, 
Tudo sorri, tudo goza, 
O esposo abraça a esposa, 
Abraça o filho seu pai. 
 
Foi prazer dum só momento, 
Prazer que aos contrários dói... 
Eis corre um bando sedento 
De ver se o Porto destrói. 
Mas não treme o sitiado; 
Guerra! guerra! – eis o seu brado, 
Cada livre é um soldado, 
Cada soldado um herói. 
 
Rufa o tambor a rebate 
Retreme a voz do clarim... 
Eia, ó livres, ao combate 
Que hoje é dia de festim. 
Querem morte? – reine a morte! 
Que importam filhos, consorte? 
Triunfar é vosso norte, 
Heis de alcançá-lo por fim. 
 
Por entre a fuzilaria 
Restruge a voz do canhão; 
O fogo da artilharia 
Faz do reduto um vulcão. 
Vós que tentais no estrago 
Sumir a nova Cartago, 
Vinde de sangue num lago 
Rojar as fúrias em vão! 
 

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161

E tu, soldado atrevido, 
Vencedor da forte Argel, 
À tirania vendido, 
À liberdade rebel, 
Contra os muros da cercada, 
Ergueste feroz a espada; 
Procura-a no chão quebrada 
Onde jaz com teu laurel... 
 
Ó cidade, nos teus valos 
Quantos viste o pó morder, 
E sob os pés dos cavalos 
Seus tiranos maldizer!.. 
Debalde as hostes escravas 
Bramiam quais ondas bravas, 
Tu sorrindo as afrontavas 
Qual rochedo, sem tremer. 
 
Debalde vinha a granada 
Teu seio despedaçar, 
Cada pedra ensanguentada 
Era à glória um novo altar. 
A fome, a pálida fome 
Tuas entranhas consome, 
Mas q'rias d'invicta o nome 
Tudo soubeste afrontar. 
 
Té que afinal a vitória 
Teu estandarte empunhou, 
E o caminho para a glória 
Aos teus livres apontou... 
Eram águias altaneiras 
Voando, suas bandeiras; 
Ante essas hostes guerreiras 
Tudo o joelho curvou, 
 
Largo tempo era passado 
E num leito de broquéis 
Descansavas reclinado 
À sombra dos teus lauréis... 
Mas eis no Tejo distante 
A liberdade arquejante... 
Ergue-te, ergue-te, ó gigante, 
Com teus soldados fiéis. 
 
Cingiu as suas muralhas... 
Vinde deitar-lhe grilhões 
Ao colosso das batalhas 
Eriçado de canhões. 

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162

Glória à tua valentia, 
Escolho da tirania, 
Para conter-te a ousadia 
Mal bastaram três nações. 
 
Cederas... por toda a parte 
No meio de sangue e horror, 
Cai dos livres o estandarte 
«s plantas do vencedor... 
Que vista! – o herói de Novara 
Que a pátria n'alma abrigara 
Hoje busca, e não depara 
Um abrigo à sua dor... 
 
Vem, altivo e nobre cedro 
Derribado sobre o chão, 
Junto ao coração de Pedro 
Asilar teu coração... 
Nesses muros inda o brado 
Se escuta do rei soldado; 
Vem ouvi-lo, ó malfadado, 
Do desterro na soidão... 
 
Veio... mas enfim à morte 
O herói ali cedeu... 
Ali nas cinzas do forte 
Um povo carpiu, gemeu... 
Eras escrava, ó cidade; 
Foi teu pranto de saudade 
Um hino que à liberdade 
Dentre as algemas se ergueu. 
 
Eras escravo, ó guerreiro 
Surgirás inda outra vez? 
Nos ferros do cativeiro 
Acabaremos? – talvez!... 
Oh! mas não! – se a forte lança 
Inda ao lado lhe descansa 
Tiranos, vossa esperança 
Jaz para sempre a seus pés. 
 
Dizei que somos escravos. 
Que hemos de ter perros vis: 
Nesses muros inda há bravos 
Para bradar-vos – mentis! 
Inda existes, ó gigante, 
Sempre indómito e possante, 
Para calcar triunfante 
Grilhões e jugos servis... 

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163

 
Se aos golpes da tirania 
Vires tremer Portugal, 
À sua voz d'agonia 
Surge outra vez colossal! 
Do teu peito dá-lhe o abrigo, 
Defende-o, salva-o contigo, 
Ou no pó do seu jazigo 
Dorme o teu sono final. 
 

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164

 

VERSÕES DE H. HAINE 

 

 
Quero enterrar os meus cantos, 
Os meus sonhos de tristeza; 
Ide buscar-me um esquife, 
Mas d'espantosa grandeza; 
 
Um esquife em que se guarde 
O que em muitos não se albergue, 
Que seja mais largo ainda 
Do que o tonel de Heidelberg. 
 
Que seja de tábuas firmes 
E duma extensão imensa; 
De mais comprimento ainda 
Do que a ponte de Mayença. 
 
E venham doze gigantes 
Que façam julgar pequeno 
O vulto de São Cristóvão 
De Colónia, sobre o Reno. 
 
Pois têm de levar o esquife 
Ao mar que a terra nos banha; 
Um caixão de tal grandeza 
Pede uma cova tamanha. 
 
Sabeis para que preciso 
Esquife de tal largura? 
Para encerrar dentro dele 
Meu amor e desventura. 
 
 
II 
 
Quando ao sepulcro desceres 
Eu contigo descerei; 
E ao meu peito hei-de apertar-te 
Ó tu a quem tanto amei. 
 
Hei-de apertar-te em meus braços, 
Muda, fria e já sem cor, 
Estremecer, invocar-te 
E depois morrer d'amor. 
 
À meia-noite os espectros 

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165

Para as danças surgirão: 
Nós ficaremos unidos 
Sem quebrar nossa união. 
 
No dia do julgamento 
A trombeta há-de soar; 
Mas nós para sempre unidos 
Nada havemos d'escutar. 
 
III 
 
    Se as florinhas da campina 
Soubessem o meu penar, 
Em minha chaga verteram 
Seu bálsamo salutar. 
    Se os rouxinóis do arvoredo 
Conhecessem minha dor, 
Cantavam por distrair-me 
Suas cantigas d'amor. 
    Se ao longe, as estrelas d'ouro 
Notassem minha aflição, 
O firmamento deixaram 
Por dar-me consolação. 
    Mas nada sabem as flores, 
Aves, nem astros do céu; 
Ela só conhece tudo, 
Aquela que me perdeu. 
 

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166

 

VERSÕES D'OSSIAN 

 
AO SOL 
 
(fragmento do poema de «Carthon») 
 
Ó tu que rolas nesse campo etéreo, 
Semelhante ao broquel dos meus passados, 
Donde vêm os teus raios, sol brilhante? 
Donde recebes tua luz eterna? 
Tu despontas solene e majestoso; 
As estrelas se escondem quando passas, 
A lua fria e pálida mergulha 
Nas vagas do ocidente; e tu caminhas 
Solitário nos céus. Quem na carreira 
Te pode acompanhar? Os altos robles 
Baqueiam das montanhas, e elas mesmas 
Sob o peso dos anos se arruínam; 
O oceano ora se eleva, ora se abaixa; 
A própria lua na amplidão fenece: 
Só tu caminhas sempre, e sempre o mesmo, 
E de tanto fulgor te vanglorias! 
Quando a borrasca entenebrece o mundo, 
Quando rolam trovões, e adeja o raio, 
Tu olhas dentre as nuvens sobranceiro, 
E sorris da tormenta! Mas debalde 
Olhando Ossian procuras, que os teus raios 
Ossian não mais verá, quer teus cabelos 
Em nuvens orientais flamejem soltos, 
Quer descendo os espaços estremeças 
Às portas do ocidente. Sol, um dia 
Talvez como eu serás; talvez, quem sabe? 
Dos anos teus acabarás o giro, 
E insensível à voz da madrugada, 
Em tuas nuvens ficarás dormindo. 
Mas folga, folga entanto majestoso 
No verdor de teus anos: a velhice 
É solitária e triste; é semelhante 
Ao clarão melancólico da lua 
Quando brilha entre nuvens, quando o norte 
Revoa na planície, e o caminhante 
Pára convulso e de pavor transido. 
 
 
COLMA 
 
(fragmento dos cantos de Selma) 
 

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167

Era em Selma e nas festas. Começava 
Dos bardos o cantar: eis se adianta 
D'olhos fitos no chão, banhada em pranto, 
A doce, a amável Minona. Os cabelos 
Lhe ondeavam soltos ao soprar da brisa 
Que vinha das montanhas. 
As almas dos heróis se enterneceram 
Mal que as primeiras notas 
De seu canto dulcíssimo soaram. 
Muitas vezes o túmulo de Sálgar, 
E o túmulo de Colma tinham visto, 
Da triste Colma abandonada às queixas, 
Na colina deserta. Um dia Sálgar 
Prometera de vir e não viera: 
Em torno dela já descia a noite: 
Ouvi da triste Colma 
A queixa solitária: 
 
«É noite! sozinha no monte elevado 
«Dos ventos ruidosos escuto o bramir... 
«Sombria a torrente sussurra a meu lado... 
«Em triste abandono me é doce carpir. 
«Descobre-te, ó lua, refulge brilhante! 
«Estrelas formosas, mostrai-vos também! 
«Guiai os meus passos ao sítio distante, 
«Onde ora cansado repousa o meu bem! 
 
«Ó Sálgar, ó chefe dos montes valente, 
«Quebraste a promessa que em balde te ouvi... 
«D tronco, os rochedos, a voz da torrente 
«São estes, ó Sálgar, mas faltas aqui... 
«Deixei por seguir-te na dor abismados 
«O irmão que estremeço, meu pai que olvidei: 
«São velhos os ódios dos nossos passados, 
«Mas eu, ó meu Sálgar, jamais te odiei. 
 
«A lua calada fulgura na selva, 
«Nas águas, nas rochas, com doce clarão... 
«Quem jaz em distância dormindo na selva 
«És tu, ó meu Sálgar? és tu, meu irmão? 
«Falai, meus amigos: imóveis, deitados, 
«Porque inda em silêncio me não respondeis? 
«Ai mortos! ai mortos! em sangue banhados! 
«E tintos de sangue seus ferros cruéis! 
 
«Mataste, ó meu Sálgar, o irmão de minha alma! 
«E tu, doce amigo, tu jazes também! 
«Perdi-vos; só resta chorar-vos sem calma... 
«Como eu vos amava não ama ninguém. 

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168

«Tu eras formoso nas tuas colinas: 
«Ele era terrível das lutas no ardor. 
«Quem vossas espadas guiou assassinas? 
«Quem pôde inspirar-vos da morte o furor? 
 
«Mas, ai! já não ouvem meus longos gemidos... 
«Na terra gelada gelados estão... 
«Falai dentre as nuvens, fantasmas queridos, 
«Que as vossas palavras medonhas não são! 
«No monte sombrio que além se divisa, 
«Dizei-me a caverna que triste habitais!... 
«Calados! calados! nem sopro da brisa, 
«Nem voz de tormenta me traz os seus ais! 
 
«Sentada no monte, cos olhos absortos, 
«Espero chorando do dia o raiar. 
«Erguei-lhes as tumbas, amigos dos mortos, 
«E nelas a Colma guardai um lugar! 
«Passou de meus dias o sonho tão ledo, 
«Passou para sempre! não mais viverei... 
«Ao pé da torrente que banha o rochedo, 
«Oh! dai-me o repouso daqueles que amei! 
 
«De noite, na serra batida dos ventos, 
«Meu triste fantasma de pé surgirá; 
«E ao som da rajada soltando lamentos, 
«No meio das nuvens gemendo errará. 
«Ao longe o viandante nos bosques perdido 
«Ouvindo-lhe as queixas terá compaixão; 
«As queixas, o pranto de Colma sentido 
«Chorando os amigos que mortos já são.» 
 
Tal foi, tal foi, ó Minona, o teu canto, 
Doce filha de Tórman. Tristes eram 
Nossas almas por Colma, e em nossas faces 
Deslizavam as lágrimas em fio. 
 
 
FINGAL 
 
(CANTO PRIMEIRO) 
 
Assentado de Tura junto aos muros 
Estava Cuthullin, perto do tronco 
De folhas rumorosas. Tinha a lança 
Encostada ao rochedo, e aos pés o escudo. 
No poderoso Cárbar meditava, 
Nesse herói que vencera: eis lhe aparece 
Nóran, filho de Fithil, sentinela 

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169

Do proceloso oceano. «Ergue-te», disse, 
«Ergue-te, ó Cuthullin! Eu vi ao largo 
«Os navios do norte. Numerosos 
«Os inimigos são; muitos os bravos 
«Do potente Swáran.» 
«Sempre tremes, 
«Sempre, ó filho de Fithil, lhe responde 
«O belicoso chefe, e assim aumentas 
«As forças do inimigo. Fingal era, 
«Fingal, rei dos desertos, que o socorro 
«Traz a Erin dos ribeiros.» 
«Vi seu chefe, 
«Replica Móran, qual rochedo avulta! 
«Como um pinho sem rama é sua lança! 
«Como a lua nascente o seu escudo! 
«Assentado na praia semelhava 
«Nuvem que pousa no calado serro! 
«– Muitos, ó rei dos heróis, muitos, lhe disse, 
«Nossos guerreiros são. Chamam-te o forte, 
«Mas os fortes em guerra não têm conta 
«Junto às muralhas da nublosa Tura. – 
«Com estrondoso acento semelhante 
«Ao da vaga na rocha, ele me brada: 
«– Resistir-me quem ousa? os mais valentes 
«Aos meus golpes sucumbem. Só pudera 
«Fingal, o rei de Selma, ele somente, 
«Meu ímpeto arrostar. Já combatemos 
«Uma vez em Malmor. Com nossas plantas 
«Volvíamos a terra; as duras rochas 
«Despegadas caíam; as torrentes 
«Recuavam de susto murmurando. 
«Três dias combatemos; os guerreiros 
«Nos olhavam ao longe e estremeciam. 
«Diz Fingal que cedi, que o rei do oceano 
«Caiu por terra ao quarto: o rei do oceano 
«Resistiu sempre firme! Ceda-lhe hoje 
«O torvo Cuthullin! ceda ao que é forte 
«Como as tormentas de seu pátrio berço! – 
«Oh! não, lhe torna o chefe, a nenhum homem 
«Cuthullin cederá, mas há-de em campo 
«Triunfar ou morrer! Toma esta lança: 
«Parte, ó filho de Fithil, vai com ela 
«Bater de Semo no sonoro escudo! 
«De Tura à porta vê-lo-ás suspenso. 
«Sua voz estridente é voz de guerra: 
«Hão-de ouvi-la os heróis e obedecer-me.» 
 
Partiu. Bateu no escudo. Espavorida 
Tremeu na selva a corça; em torno os montes, 

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170

Os côncavos rochedos retumbaram. 
Dos íngremes penhascos saltam logo 
Curach, e Cónnal de sanguínea lança. 
Bate de Crúgal o ansioso peito; 
O filho de Favi deixa a caçada; 
«É o escudo de guerra?» brada Rónnar; 
«De Cuthullin a lança!» brada Lúgar, 
Empunha, ó Calmar, a soante espada! 
Ergue-te, ó Puno, temeroso chefe! 
Deixa, ó Caírbar, o ramoso Cromla! 
Eth, aproxima-te; à planície desce 
Das torrentes de Lena! Os alvos peitos 
Mostra, ó Cathol, atravessando o plaino 
Sussurrante de Mora; os peitos alvos 
Como as espumas que arremessa a vaga 
Aos rochedos de Cúthon! 
Eis os chefes! 
Ei-los soberbos dos antigos feitos! 
Inflamados recordam as proezas, 
As glórias do passado. Os olhos torvos 
Chamejantes revolvem, procurando 
Inimigos da pátria. As mãos valentes 
Descansam nas espadas. Cada vulto 
Lampeja armado de brunido ferro. 
Brilhantes são os chefes da batalha 
Coas armas de seus pais! Sombrios, torvos 
Os seguem seus heróis, como a caterva 
De pluviosas nuvens segue os ígneos 
Meteoros do céu. Por todo o campo 
Ressoa o estrondo d'armas, e d'envolta 
Os uivos dos mastins; de quando em quando 
Rompem cantos de guerra, e o alarido 
Se repercute no fragoso Cromla. 
Sobre o plaino de Lena estão postados, 
Como a névoa do outono sobre o outeiro. 
A movediça névoa tenebrosa 
Que aos céus levanta a retalhada fronte. 
 
«Filhos dos vales, Cuthullin exclama, 
«Caçadores do gamo, eu vos saúdo! 
«Uma nova caçada nos convida: 
«O inimigo se adianta como as vagas 
«Que se arrojam sombrias sobre a costa. 
«Combateremos nós, filhos da guerra, 
«Ou cederemos nossa Frin viçosa 
«Aos filhos de Lochlin? Responde, ó Cónnal, 
«Tu primeiro entre os homens, tu que partes 
«Os escudos na guerra! Já mais vezes 
«Com Lochlin pelejaste: empunhar queres 

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171

«A lança de teu pai?» 
«De há muito sabes, 
«O chefe lhe responde, se nas guerras 
«Minha lança fulgura. Seu deleite 
«É ferir nos combates, é banhar-se 
«No sangue d'inimigos. Mas se o braço 
«Arde por combater, sereno o peito 
«É pela paz d'Erin. Ó tu na guerra 
«De Curmac o primeiro, observa ao longe 
«A frota de Swáran. São mais densos 
«Os seus mastros na costa do que os juncos 
«Na lagoa de Lego. Os seus navios 
«São florestas nublosas, cujos troncos 
«Cedem a espaços ao soprar do vento. 
«Os seus chefes guerreiros não têm conta. 
«Cónnal é pela paz. O próprio Fingal 
«Que dormes junto à rocha! Eis-te caída 
«Evitara a peleja, ele que sabe 
"Dispersar os heróis como dispersa 
«O vento os sons de Colna quando a noite 
«Carregada de nuvens cobre o outeiro.» 
 
«Ah! foge, homem de paz, foge! lhe brada 
«Cálmar filho de Matha. Vai, regressa 
«Aos teus montes calados, onde a lança 
«Jamais brilha na guerra! Vai, acossa 
«O veado do Cromla com teus dardos 
«Fere a corça de Lena! Tu, entanto, 
«Tu, ó filho de Semo, desta guerra, 
«Ó árbitro supremo, abate o orgulho 
«Dos filhos de Lochlin! Suas fileiras 
«Rompe atrevido! Que nenhum navio 
«Das regiões da neve ouse de novo 
«Galgar as ondas d'Inistor sombrias! 
«Negros ventos d'Erin, rugi! Erguei-vos, 
«Ó turbilhões de Lara! Que entre as nuvens 
«Me espedacem as iras dos fantasmas 
«Se há prazer para Cálmar como a guerra! 
 
«Quando, ó filho de Matha, lhe responde 
«Cónnal com lenta voz, quando me viste 
«Aos combates fugir? Embora obscuro 
«Seja o nome de Cónnal, sempre à guerra 
«Cos amigos corri, sempre dos fortes 
«O triunfo ajudei. Mas a ti falo, 
«A ti, filho de Semo, e tu me escuta. 
«A metade das terras e presentes 
«Dá em troca da paz, até que Fingal 
«Aporte às nossas praias. Mas se a guerra 

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172

«Desejas antes, minha lança e espada 
«Erguerei satisfeito! os inimigos 
«Correrei a afrontar! e como sempre 
«Brilhará o meu ânimo na luta!» 
 
«Eu, tornou Cuthullin, amo o som d'armas 
«Como a voz do trovão acompanhado 
«Dos chuveiros do estio. Vossas tribos 
«Ide pois ajuntar, para que eu possa 
«Ver os filhos da guerra. Que eles passem 
«Brilhantes como o sol antes que o vento 
«Acumulando as nuvens remurmure 
«Nos carvalhos de Mórven. Mas que é feito 
«Dos amigos que eu tinha? Onde os que ajudam 
«Meu braço nos perigos? Onde páras, 
«Ó Cathba d'alvo peito? Onde te escondes, 
«Nuvem da guerra, varonil Duchómar? 
«Tu, Fergus, onde estás? Porque me deixas 
«No dia da tormenta? Ei-lo que chega! 
«Fergus, filho de Rossa, tu primeiro 
«No prazer dos festins, braço da morte, 
«Vens de Malmor acaso? vens correndo 
«De tuas serras como leve gamo? 
«Salve, filho de Rossa! que tristeza 
«Assombra a alma da guerra? 
«Quatro pedras, 
«Responde o chefe, a sepultura cobrem 
«Do valoroso Cathba; e já na terra 
«Dorme também o varonil Duchómar. 
«Tu eras para Erin, eras, ó Cathba, 
«Como um raio do sol! e tu, Duchómar 
«Como a névoa do Lane, que no outono 
«Rola sobre a planície, e leva a morte 
«A viventes sem conta! ó Morna, ó bela 
«Entre as mais belas, sossegado é o sono 
«Que dormes junto à rocha! Eis-te caída 
«Entre as sombras da morte, como a estrela 
«Que se esvai no deserto, e o caminhante 
«Deixa saudoso de seu raio esquivo.» 
«Ah! conta-nos, lhe diz de Semo o filho 
«Conta-nos, Fergus, como foram mortos 
«Os guerreiros d'Erin. Caíram ambos 
«Em combate de heróis? Diz-nos, Fergus, 
«Porque é que a terra nos esconde os fortes?» 
 
«Cathba, lhe torna o chefe, caiu morto 
«Aos golpes de Duchómar: caiu junto 
«Do roble das torrentes. Exultando 
«O fero vencedor foi ter com Morna 

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173

«À caverna de Tura. – Amável filha 
«Do valente Cormac, ele lhe disse, 
«Porque saudosa no fragoso serro, 
«Na caverna da rocha venho achar-te? 
«O ribeiro murmura; a árvore anosa 
«Geme ao sopro do vento; o lago é turvo; 
«Negras as nuvens que no céu revoam! 
«Mas tu és como a neve da planície: 
«Como o vapor do Cromla é teu cabelo. 
«Como o vapor do Cromla quando brilha 
«Aos raios do poente! São teus peitos 
«Como os lisos rochedos que se avistam 
«De Branno dos Ribeiros; são teus braços 
«Como as alvas colunas espalhadas 
«Pelas salas de Fingal! 
«– Donde, inquieta 
«Lhe diz a virgem de formosas tranças, 
«Donde vens, ó Duchómar, tu dos homens 
«O mais torvo e sombrio? Carregado 
«Trazes o rosto, e ensanguentada a vista. 
«Descobriu-se o inimigo! Que notícias 
«Trazes tu lá do mar? –  
«– É da montanha 
«Que eu venho, ele responde; da montanha 
«Dos escuros veados. Três caíram 
«Traspassados por mim; três foram mortos 
«Por meus ágeis lebréus. Um deles tinha 
«Majestosa a cabeça, e os pés movia 
«Ligeiros como o vento. Amo-te, ó bela! 
«Para ti o matei; não mo rejeites! – 
«– Ah! foge, homem sinistro! ela lhe torna. 
«Carregado e terrível tens o rosto, 
«E duro o peito como rocha dura! 
«Tu, ó filho de Tórman, tu, ó Cathba, 
«És meu único amor! és a meus olhos 
«Como um raio de sol em tempestade! 
«Oh! diz-me se o viste, o jovem belo 
«Na serra dos seus gamos, pois há muito 
«Que neste sítio o espero! –» 
«– E largo tempo 
«O esperaras, ó Morna, ele responde! 
«Olha esta espada nua: aqui o sangue 
«De Cathba inda escorre. Caiu junto 
«Da torrente do Branno: sobre o Cromla 
«Lhe erguerei o sepulcro. Volta os olhos, 
«Volta-os para Duchómar: é seu braço 
«Forte como a tormenta. –» 
«– Morto, exclama 
«Em desespero a angustiada virgem, 

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174

«Morto o filho de Tórman! nos seus montes 
«Extinto o jovem de nevado peito! 
«O primeiro em caçadas, e inimigo 
«Dos guerreiros do Oceano! Eu te detesto, 
«Ó Euchómar cruel! Dá-me essa espada! 
«Nesse bárbaro ferro quero ao menos 
«Ver o sangue de Cathba! – » 
«– Ele movido 
«De suas queixas, lhe confia a espada, 
«E ela no peito varonil lha embebe. 
«Bem como se despenha a ribanceira 
«Da torrente da serra, ele baqueia. 
«Na agonia mortal estende à virgem 
«A mão convulsa, e diz: Por ti fui morto 
«No verdor de meus anos. Sinto a espada 
«Fria, ai, fria no peito! Meu cadáver 
«Entrega à bela Moina: Eu era o sonho 
«Das noites dessa virgem. Compassiva 
«Meu sepulcro há-de erguer; e há-de o meu nome 
«Cantar o caçador. Mas vem do peito, 
«Oh! vem tirar-me este gelado ferro! – 
«De lágrimas banhada acode a virgem, 
«O agudo ferro extrai e ei-la que a furto 
«O cristalino seio lhe atravessa. 
«Vacilando ela cai: o sangue em ondas 
«Lhe tinge os braços níveos, a madeixa 
«Desgrenhada lhe roja, e na caverna 
«Seus extremos gemidos escoaram.» 
«Paz, disse Cuthullin, paz e descanso 
«Às almas dos heróis! Sublimes foram 
«Seus feitos de valor! Que eles me cerquem 
«Pairando sobre as nuvens! que eu lhes veja 
«As guerreiras figuras! Então forte 
«Nos perigos serei; será meu braço 
«Como o fogo do céu! E tu, ó Morna, 
«Sobre um raio da lua me aparece! 
«Às horas do descanso quero ver-te 
«Quando em paz estiver, quando cessarem 
«Os tumultos da guerra. Mas as hostes 
«Ordenai, meus amigos, e marchemos 
«Para a guerra d'Erin! Tomai por norte 
«Meu carro de batalha! extasiai-vos 
«Ao rumor do seu curso! Eia, a meu lado 
«Três lanças colocai! De meus cavalos 
«O galope segui! Que eu possa afoito 
«Com meus sócios contar quando esta espada 
«Relampejar nas sombras da peleja!» 
 
Como espúmea torrente que se arroja 

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175

Do tenebroso Cromla, quando rola 
O trovão pelos céus, e a escura noite 
Impera na montanha, quando os rostos 
Dos lívidos fantasmas aparecem 
Nas fendas da borrasca: assim furiosa, 
Vasta, e medonha se arremessa a turba 
Dos guerreiros d'Erin. Na frente avança 
O valoroso chefe, semelhando 
A baleia do oceano acompanhada 
Do marulho das ondas, ou torrente 
Que arrasta as águas através dos campos; 
Aos filhos de Lochlin chega o ruído 
Como o surdo rumor da tempestade: 
No pesado broquel bate Swáran 
Chamando o filho d'Arno. «Que sussurro, 
«Lhe diz, é este que nos montes soa, 
«Semelhante ao zumbido que levantam 
«Os insectos da tarde? Acaso descem 
«Os guerreiros d'Erin? Rugem acaso 
«Os ventos na floresta? É assim que às vezes 
«Eles soam no Gormal quando querem 
«Das minhas vagas açoitar o dorso. 
«Sobe já, filho d'Arno, sobe ao monte, 
«E estende a vista pelo escuro plaino.» 
 
Partiu. Em breve regressou tremendo. 
Em torno os olhos revolvia inquieto; 
O coração lhe palpitava ansioso; 
As palavras a custo proferia 
Cortadas, vagarosas. «Surge, disse, 
«Surge, ó filho do Oceano, altivo chefe 
«Dos escuros broquéis! Eu vi a negra 
«Caudalosa torrente da batalha! 
«As movediças forças numerosas 
«Dos guerreiros d'Erin! Já temeroso 
«Como a chama da morte se aproxima 
«De Cuthullin o belicoso carro! 
«Na parte posterior é recurvado 
«Como a vaga ante a rocha, ou como a névoa 
«Dourada pelo sol. São embutidos 
«De pedraria os lados, e resplendem 
«Como em torno da barca ondas nocturnas. 
«É de polido teixo fabricado 
«O comprido timão; e o liso assento 
«D'osso branco e macio. Tem os bordos 
«Recheados de lanças, e no fundo 
«O degrau dos heróis. Diante do carro, 
«À dextra parte, relinchando avulta 
«O d'amplas crinas, largos peitos, forte, 

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176

«Agil, fero cavalo da montanha. 
«Estrondoso galopa; a crina esparsa 
«Pelo pescoço, os turbilhões imita 
«Do vapor que se estende pelas rochas. 
«de brancas espáduas, e chamado 
«Sulin-Siffada. Do outro lado, o esquerdo, 
«Resfolga ardente o d'elevado colo, 
«De raras crinas, duros pés, ligeiro 
«Filho da serra, saltador ginete. 
«Tem por nome Durósnnal entre os filhos 
«Da guerra procelosa. Os duros freios 
«Entre frocos d'espuma resplandecem. 
«Cheias de pedraria as finas rédeas 
«Batem no colo dos frisões soberbos, 
«Que ligeiros resvalam na planície 
«Como o vapor nos paludosos vales. 
«Seu rápido galope é como a fuga 
«Do trépido veado, e irresistível 
«Como a descida da águia sobre a presa. 
«Dentro do carro se divisa armado 
«De rijas peças o valente chefe. 
«Chama-se Cuthullin, progénie ilustre 
«De Semo, rei das taças. Tem corado 
«O belo rosto como este arco liso 
«Sob as negras arcadas dos sobrolhos 
«As pupilas azuis amplas revolve. 
«Como uma chama lhe flutua a coma 
«Quando se inclina ao manejar a lança. 
«Ah! foge, rei do Oceano! Ele se adianta 
«Como vasta procela que rugindo 
«Corre ao longo do vale!» 
«Fugir? e quando 
«Fugir me viste? responde Swáran. 
«Quando medroso se esquivou meu braço 
«À batalha das lanças? Quando, ó chefe 
«D'alma pequena, recuei eu nunca 
«Em frente do perigo? Eu já do Górmal 
«Encarei as tormentas, quando as ondas 
«Espumavam raivosas; já das nuvens 
«Arrostei os combates: hei-de agora 
«Ante um homem tremer? Oh não; nem Fingal 
«Me pudera assombrar. Eia, ao combate, 
«Ó valentes guerreiros! Rodeai-me, 
«Como túrbidas águas! Cercar vinde 
«De vosso rei o chamejante gládio! 
«A firmeza mostrai das nossas rochas, 
«Dessas montanhas que a tormenta encaram 
«E opõe ao vento os pinheirais sombrios!» 
 

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177

Como duas procelas que no outono 
Correndo opostas de diversos montes 
Se avizinham medonhas, assim torvos 
Uns contra os outros os heróis correram. 
Como duas torrentes que à planície 
D'altas rochas descendo as bravas ondas 
Encontram restrugindo, assim ruidosa, 
Fera, e terrível se encontrou a gente 
De Lochlin e Inisfail. Chefe com chefe, 
Homem com homem se travou em luta. 
O ferro bate no sonoro ferro; 
Abrem-se os capacetes; jorra o sangue; 
As cordas zumbem nos polidos arcos; 
Atravessando o espaço as frechas voam; 
As lanças descem como a luz que doura 
Os véus da noite em alongadas curvas. 
Como o rumor do Oceano quando as vagas 
Encapela raivoso, como o extremo 
Rebramar do trovão, assim ressoa 
O fragor do combate. Quando mesmo 
Para a luta cantar ali viessem 
De Cormac os cem bardos, ao estrago 
Dos cem bardos a voz não bastaria, 
Muitas foram as mortes, muito o sangue 
De heróis valentes nesse chão vertido. 
 
Chorai, filhos do canto, chorai morto 
O nobre Sithallin! Que de Fiona 
Os suspiros ressoem na planície 
Do seu Ardan querido! Ambos caíram 
Como dois gamos do deserto aos golpes 
Do potente Swáran. Na refrega 
Ele rugia dominando as hostes 
Como o espírito fero da tormenta 
Que entre as nuvens campeia, e olha em triunfo 
 
O nauta que soçobra. Nem ocioso, 
Chefe da ilha das neves, foi teu braço! 
Muitos, ó Cuthullin, à morte deste! 
Era o teu gládio como o fogo etéreo 
Que incendeia as montanhas, e fulmina 
Os íncolas do vale. Calcando os mortos 
Relinchava Durósnnal; e no sangue 
Galopava Siffada. Todo o campo 
Destroçado deixavam, como as selvas 
Ficam no Cromla quando passa o vento 
Carregado d'espíritos da noite. 
 
Sobre a rocha dos ventos chora aflita, 

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178

b virgem d'Inistor! Inclina às ondas 
A formosa cabeça; tu mais bela 
Que o espírito da serra quando às vezes 
Do meio-dia sobre um raio desce 
Ao silêncio de Mórven! Teu amigo, 
O teu jovem amigo já não vive! 
Pálido vacilou, caiu extinto 
De Cuthullin sob a tremenda espada! 
Nunca mais teu amor em valentia 
«À grandeza dos reis há-de elevar-se. 
Trénar, o belo Trénar caiu morto, 
ó virgem d'Inistor! Debalde o chamam 
Seus cães uivando: no solar só vêem 
Seu espectro vagar. Pende na sala 
Desarmado o seu arco, e no aposento 
Dos seus veados, o silêncio reina! 
 
Como rolam mil vagas contra a rocha, 
Tais arremetem de Lochlin as hostes. 
Como o rochedo vagas mil afronta, 
Tais lhe resistem as d'Erin seguras. 
À pavorosa grita que ressoa 
O tinido das armas se reúne. 
É cada herói como um pilar de névoa; 
Sua espada na dextra é como um raio 
De lado a lado todo o campo soa 
Semelhando a fornalha onde retumbam 
Na vermelha bigorna cem martelos. 
Quem são esses que tétricos pelejam 
Na campina de Lena? Quem são esses 
Que duas nuvens na figura imitam, 
Cujas espadas sem cessar lampejam? 
Em derredor os montes espantados, 
Os rochedos medrosos estremecem; 
Quem são eles senão d'Erin o chefe, 
Senão o filho do Oceano? Pelo campo 
Coa vista inquieta os acompanham sempre 
Seus guerreiros ansiosos. Mas a noite 
Os envolve nas sombras, e crescendo 
À batalha terrível põe remate. 
 
Do emaranhado Cromla sobre a encosta 
Depositara Dorglas o veado 
Que ao romper da manhã fora colhido; 
Estando ainda na montanha as hostes, 
Eis ajuntam a lenha cem mancebos, 
Dez guerreiros acendem a fogueira, 
E trezentos escolhem lisas pedras: 
O fumo do banquete sobe aos ares. 

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179

O poderoso espírito concentra 
Cuthullin meditando; e recostado 
À lança refulgente a voz dirige 
Ao filho das canções encanecido, 
A Cárril doutros tempos. «Devo acaso 
«Do banquete gozar, e há-de isolado 
«Longe do gamo das montanhas suas, 
«Longe das festas dos salões ruidosos, 
«O chefe de Lochlin ficar na praia? 
«Vai, ó Cárril anoso, vai levar-lhe 
«Amigáveis palavras. Anuncia 
«Ao que as ondas ruidosas nos trouxeram, 
«Que vai dar Cuthullin o seu banquete. 
«Venha ouvir o murmúrio dos meus bosques 
«Pelas sombras da noite, pois gelado 
«Sussurra o vento nas espúmeas vagas. 
«Venha gozar os trémulos acentos 
«Da harpa melodiosa; escutar venha 
«O louvor dos heróis!» 
  Obedecendo 
Parte o velho cantor, e em tom benigno 
Dos escuros broquéis diz ao monarca: 
«Acorda, ó rei das selvas, eia acorda! 
«Dentre as peles da caça te levanta! 
«Na alegria das taças, no banquete 
«Do príncipe d'Erin vem tomar parte!» 
Como o sinistro sussurrar do Cromla 
Antes da tempestade, ele responde: 
«Quando mesmo, Inisfail, as tuas virgens 
«Me estendessem os braços cor de neve, 
«E descobrindo os palpitantes seios 
«Os amorosos olhos me lançassem, 
«Firme neste lugar, como são firmes 
«As rochas de Lochlin, ficara ainda! 
«Neste lugar esperarei que o brilho 
«Da matutina luz venha chamar-me 
«De Cuthullin à morte. Eu amo o sopro 
«Dos ventos de Lochlin! Eles cruzaram 
«Os espaços do mar! Eles me falam 
«No zumbir das enxárcias, e me trazem 
«Minhas verdes florestas à lembrança; 
«As florestas do Górmal, que eu ouvia 
«Rugir ao seu bafejo, quando a lança 
«Do javali na caça manejava. 
«Oh! vai: que o torvo Cuthullin me ceda 
«O trono de Cormac, ou em torrentes 
«Correrá das montanhas à planície 
«De seus guerreiros o espumoso sangue!» 
 

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180

«Funestos são, diz Cárril doutros tempos, 
«Os ditos de Swáran!» –»Sim, funestos, 
«Responde Cuthullin, lhe hão-de ser eles. 
«Mas ergue a voz, ó Cárril, e reconta 
«Os feitos do passado. Com teus cantos 
«Nos abrevia a noite; em nós desperta 
«O gozo da tristeza. Heróis infindos, 
«E mil virgens amantes hão passado 
«Na terra d'Inisfail. Doces ressoam 
«Os cantos do infortúnio que se elevam 
«Nas rochas d'Albion quando emudece 
«O rumor da caçada, e às vozes d'Ossian 
«Se casa o murmúrio das correntes.» 
 
«No tempo que passou, começa o bardo, 
«Os guerreiros de oceano a Erin vieram. 
«Numerosos baixéis galgando as ondas 
«Aportaram d'Erin às mansas praias. 
«Os filhos d'Inisfail se levantaram 
«Dos escuros broquéis sustando a raça. 
«Militava no exército Caírbar, 
«Dos homens o primeiro. e o jovem Grúdar, 
«De garbosa figura. Desde muito 
«Que entre si contendiam pela posse 
«Do imaculado touro que mugia 
«Na campina de Golbum; desde muito 
«Que a morte viam nos agudos ferros. 
«Contra os filhos do mar um tempo unidos 
«Combateram a par, venceram juntos. 
«Quem na montanha possuía a glória 
«De Caírbar e Grúdar? Mas, oh pena! 
«Porque mugia o imaculado touro 
«Na campina de Golbum? Mal que o viram 
«De novo a sanha lhes brotou nos peitos. 
 
«Sobre as margens do Lúbar combateram: 
«Grúdar caiu sem vida. Então Caírbar 
«Caminhou para o vale, onde Brassolis, 
«Sua irmã formosíssima, entoava 
«O canto da tristeza. Ela narrava 
«As façanhas de Grúdar, o mancebo 
«De seu íntimo afecto; ela chorava 
«Seus perigos no campo, e sua volta 
«Esperava com ânsia. O branco seio 
«Lhe transluzia sob as roupas leves 
«Como a lua entre nuvens; e mais doce 
«Era seu canto que os gemidos da harpa. 
«Em seu bem adorado tinha a mente, 
«E seus olhos gentis falavam dele. 

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181

«– Quando virás enfim? ela dizia; 
«Quando virás, ó poderoso em guerra? – 
 
«– Guarda, lhe diz o irmão, guarda, ó Brassolis, 
«Este escudo sangrento: vai fixá-lo 
«Da minha sala no elevado tecto. 
«É o escudo de Grúdar! – Mal que o ouve 
«A donzela estremece, e a cor perdendo, 
«Sem tino, ei-la que parte. Envolto em sangue 
«Na planície de Cromla vê o amante, 
«E junto dele, vacilando, expira. 
«É este, Cuthullin, é este o sítio 
«Em que repousam ambos! Estes cedros 
«Lhes brotaram nas campas, e saudosos 
«Do furor das tormentas os defendem. 
«Formosa era Brassolis na planície! 
«Elegante era Grúdar na montanha! 
«Hão-de os cantos dos bardos memorá-los 
«E ao remoto porvir levar seus nomes!» 
 
«Suave é tua voz, suave, ó Cárril, 
«Diz o chefe d'Erin. São aprazíveis 
«Os contos do passado, como o orvalho 
«Da amena primavera quando brilha 
«Pelos campos o sol e a nuvem leve 
«Revoa nas colinas. Ao som da harpa 
«Celebra o meu amor, a luz serena 
«Da solitária estrela de Dunscaith. 
«Canta a gentil Bragela, a terna Esposa 
«Que saudosa deixei na ilha das névoas. 
«Que fazes, doce amiga? acaso elevas 
«Sobre a rocha escarpada a bela fronte, 
«E meus navios descobrir procuras? 
«O mar se agita ao longe: a branca espuma 
«Por minhas velas tomarás acaso? 
«Recolhe-te, que é noite, amor querido: 
«Em teu cabelo o vendaval murmura. 
«Aos meus paços festivos te recolhe, 
«E pensa em outros dias. Aos teus braços 
«Não poderei voltar sem que serene 
«A tormenta da guerra. Fala, ó Cúnnal, 
«Fala-me d'armas só: quero as saudades 
«Do meu seio expulsar, quero esquecê-la.» 
«– Dos guerreiros do oceano te acautela, 
«Responde o lento Cónnal. Sem demora 
«Manda escoltas nocturnas que vigiem 
«O campo do inimigo. Sou de voto, 
«Ó Cuthullin, que a pelejar não vamos 
«Sem que Fingal, dos homens o primeiro, 

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182

«Aporte às nossas praias, sem que brilhe 
«Como os raios do sol em nossos campos.» 
 
Sobre o escudo d'alarma bate o chefe, 
E o nocturno esquadrão se põe em marcha. 
O restante do exército no campo 
Ao serena da noite se adormece. 
Dos derradeiros mortos os espectros 
Divagavam em torno e flutuavam 
Entre as nuvens sombrias. Longe, ao longe 
– Por sobre a escura solidão do Lena 
Funéreas vozes murmurar se ouviam. 
 

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183

 

TÍBURE 

 

 
Deixam então os tiburtinos muros,  
Povo que o nome tem do irmão  
Tiburto, Catilo e Coras, os argivos moços. 
 

(En., 

liv. VII, vera. 670.) 

 
Ao  que  parece,  era  esta  cidade  já  antes  da  fundação  de  Roma  uma  das  mais 

poderosas do Lácio, segundo os versos do mesmo poeta: 

 
Cinco grandes cidades já concertam 
As armas para a guerra: Átina forte, 
Tíbure soberba, Ardeia, Crustumero, 
E a turrígera Antemna. 
 
(En., 

liv. VII, vera. 629.) 

 
O seu poder não a isentou porém do jugo dos Romanos, que sob o comando de 

Camilo a submeteram cerca do ano 400 da fundação de Roma. 

Com  o  andar  do  tempo  fez-se  Tíbure  mui  afamada  em  toda  a  Itália  pela 

formosura  da  sua  situação,  e  pela  presença  e  amenidade  dos  seus  contornos. 
Sobranceira  à  queda  magnífica  do  Anho,  dominando  da  sua  altura  extensos 
horizontes, cercada de águas, de pomares e de verduras, 

 
Et preceps Anio, et Tiburni lucus, et uda 
Mobilibus pomaria rivis........................ 
 

ela  devia  a  estas  qualidades  a  reputação  em  que  era  tida.  Muitos  poetas  romanos,  e 
principalmente Horácio que nela residiu, falam da sua amenidade, e celebram as suas 
belezas. A frescura do seu clima era tal, que, segundo uma crença popular, fazia mais 
branco o marfim, ao que se refere Marcial no epigrama: 

 
A trigueira Licoris foi-se a Tibure 
Crendo que tudo lá se torna branco. 
 
(Liv. IV, Ep. L.) 

 

A  cidade  chamada  antigamente  Tíbure,  e  hoje  Tivoli,  acha-se  situada  a  cinco 

léguas pouco mais ou menos distante de Roma, sobre um monte escamado que é parte 
duma  ramificação  dos  Apeninos.  Da  altura  em  que  está  assente  se  despenha  o  rio 
Teverone  (antigamente  Anho),  formando  junto  dela  uma  grande  catadupa,  Preceps 
Anio, 

de  Horácio.  A  sua  origem  remonta  a  mui  afastada  antiguidade.  Foram  seus 

fundadores, segundo se crê, o grego Tiburto, e seus irmãos Catilo e Coras, que depois 
da morte de seu pai, Anfiarau, no cerco de Tebas, passaram à Itália; de onde lhe veio o 
nome  de  Tíbure,  tomado  do  mais  velho  dos’  três  fundadores.  Desta  origem  fazem 
menção os versos de Virgílio: 

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184

A salubridade dos seus ares era também proverbial entre os Romanos, como o 

indicam  os  seguintes  versos,  em  que  o  mesmo  poeta  contrapõe  Tíbure  à  Sardenha 
naquele tempo mui doentia: 

 
Não há lugar onde escapeis à morte: 
Quando ela chega, Tíbure é Sardenha. 
 
(Liv. IV, Ep. XLVIII.) 
 
Com estas vantagens, e pela sua proximidade de Roma, era Tíbure, ou antes os 

seus arredores, o lugar predilecto onde os romanos costumavam ir passar os verões. 
Ali  tiveram  suas  villas,  ou  casas  de  recreio  deliciosas,  Horácio,  o  grande  lírico 
romano, os poetas Catulo seu antecessor, e Tíbulo seu contemporâneo, o ministro de 
Augusto e célebre protector das Letras Mecenas, Quintílio Varo, o cônsul que depois 
foi morto com, as suas legiões na Germânia; e o imperador Adriano. De todas estas 
vilas 

existem  ainda  hoje  mais  ou  menos  restos,  sendo  os  mais  consideráveis  os  das 

sumptuosas residências de Mecenas e de Adriano. 

A vila de Mecenas, que dominava do alto da colina o vale onde corre o Ânio, 

ostenta  ainda  em  seus  pórticos  derrocados  soberbos  vestígios  do  que  foi.  A  de 
Adriano,  mais  sumptuosa,  e  que  abrangia  um  circuito  de  dez  milhas,  apresenta  em 
suas  ruínas  menos  o  aspecto  de  uma  habitação  particular  que  o  de  uma  cidade 
destruída,  tal  era  a  sua  grandeza,  e  o  número  de  construções  que  encerrava.  Tendo 
visitado as províncias do seu vasto Império, este príncipe quis imitar nesses jardins os 
monumentos e os sítios que mais admirara nas suas excursões. Bastará enumerar estas 
obras,  juntamente  com  os  edifícios  propriamente  romanos  incluídos  no  mesmo 
recinto,  para  se  fazer  ideia  da  grandeza  daquela  vila;  é  Chateaubriand  quem  os 
menciona fazendo no Itinerário a descrição das suas ruínas. O palácio do imperador, a 
biblioteca, os hospícios, a praça de armas, as termas, o hipódromo, o teatro, o estádio, 
a  naumaquia,  os  templos  de  Hércules,  de  Júpiter,  de  Diana,  de  Vénus,  de  Plutão  e 
Proserpina, as imitações dos edifícios gregos da Academia, do Liceu, do Pescilo, do 
Odeon,  do  Teatro,  do  Pritaneu,  um templo imitando o de Serápis no Egipto, prados 
fingindo  o  vale  de  Tempe,  outeiros  figurando  o  Ossa  e  o  Olimpo,  tudo  isto ali fora 
aglomerado pelo capricho desse senhor do universo. 

Bem  menos  sumptuosa,  porém  destinada  a  não  menor  celebridade,  era  a 

residência em que um século antes de Adriano habitara nesses mesmos lugares outro 
príncipe pela realeza do entendimento. Ainda ao pé da vila arruinada de Mecenas se 
descobrem  hoje  no  cimo  de  um  outeiro  os  últimos  vestígios  da  que  pertencia  a 
Horácio. No dizer de Chateaubriand, que ali passou, a natureza do lugar não permitia 
que  ela  fosse  grande;  mas  em  compensação  estava  belissimamente  situada, 
desfrutando  daquela  altura  uma  vista  imensa  de  paisagem.  Era  nesse  retiro, descrito 
pelo poeta no começo da epístola XVI do liv. I dirigida a Quíntio, que ele costumava 
passar o melhor tempo do ano, trocando pela solidão do campo a corte de Augusto, e 
gozando da convivência com Mecenas. Era à sombra ameníssima desses bosques, e ao 
suave murmúrio dessas fontes, que ele colhia, como o diz na ode 3ª do liv. IV, muitas 
das inspirações que, a sua musa encantadora nos legou. Ali foram compostas a ode 7ª 
do liv. I, em que ele antepõe esses lugares aos mais formosos da Grécia, a ode 13ª do 
liv. III em que celebra a fonte de Blandusio, mais esplêndida que o vidro, a epístola vi 
do  liv.  I  dirigida  a  Mecenas,  a  l0ª  do  mesmo  liv.  dirigida  a  Fusco  Arístio,  a  16ª  do 
mesmo liv. dirigida a Quíntio, e outras poesias. 

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O que fica dito refere-se propriamente à antiga Tíbure. A moderna Tívoli, é uma 

cidade apenas de cinco mil habitantes, e cuja importância está longe de igualar a que a 
tradição atribui à antiga. O que a faz notável, e muito frequentada pelos viajantes, são 
as eternas belezas da sua situação e dos seus contornos, e não menos o espectáculo das 
ruínas que apresenta. Entre estas as que mais avultam são as da vila de Adriano, e as 
dos  templos  de  Vesta  e  da  Sibila  Tiburtina,  situados  sobre  o  precipício  de  onde  se 
despenha o Teverone. Entre as belezas naturais sobressai esta cascata que forma o rio, 
caindo ruidosamente na fraga chamada pelos modernos a gruta Neptuno, a cinquenta 
pés  de  profundidade.  Além  desta  outras  cascatas  menores,  formadas  por  braços  da 
principal corrente, despenham suas águas no mesmo vale, dando todas a estes sítios os 
mais belos aspectos, e essa frescura que os antigos tanto apreciaram. 

Nos arredores de Tívoli ainda hoje, como nos tempos da antiga Roma, se vêem 

muitas villas magníficas pertencentes a nobres e opulentas famílias romanas. A mais 
sumptuosa é a que no século XVI mandou construir o cardeal d'Est, e onde afirmam 
alguns que Ariosto compôs o seu imortal poema Orlando. 

 

 

Os  Fastos  de  Públio  Ovídio  Nasão, 

com  tradução  em  verso  português  por 

António Feliciano de Castilho, t. IIIpágs. 522 a 526. (Nota quadragésima, p. 167, v. 
21.) 

 
 
 
 
 
 

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ÍNDICE 

 
SOARES DE PASSOS (escorço biográfico) 
NOTA BIBLIOGRÁFICA  
 
A Camões  
O Outono  
O Noivado do Sepulcro  
Desejo  
Boabdil  
Canção  
A Pátria  
Rosa Branca  
Enfado  
Anelos  
O Filho Morto  
Sócrates  
O Gólgota  
A***  
Últimos Momentos de Albuquerque . 
A Ti  
Infância e Morte  
O Canto do Livre  
Saudade  
Amor e Eternidade  
O Escravo  
O Anjo da Humanidade  
Partida  
Canto de Primavera  
Catão  
Amo-te  
Imitação do Islandês  
Liberdade  
À Morte do Meu Amigo Licínio P. C. de Carvalho. 
O Mendigo  
A Vida  
Um Sonho  
Desengano  
Agar  
Maria, a Ceifeira  
A Monja  
O Firmamento  
Tristeza  
A Mãe e a Filha  
Idade Média  
Num Álbum  
O Mosteiro da Batalha  
Desalento  

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187

Num Álbum  
Consolação  
O Buçaco  
A Fonte dos Amores  
A Um Teatro Académico  
Num Álbum  
No Álbum do Dr. Manuel Teixeira Pinto (inédita) 
José Joaquim Gomes Coelho  
À Morte de Heliodoro Augusto de Sousa . 
Visão do Resgate  
Ao Porto  
Versões de H. Heine  
Versões d'Ossian: 
. Ao Sol  
. Colma  
. Fingal  
Tíbure 
 
 
 
 
 

 

 

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