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Título: C

ASAMENTO

...

 

O

M

IRAGEM

Autor: Alexandra Scott 
Título original: Desert wedding 
Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1997 
Publição original: 1995 
Género: Romance contemprâneo 
Digitalização e correção: Nina 
Estado da Obra: Corrigida 
 
Uma terrível descoberta! 
Geórgia Maitland se escondeu no Oriente Médio para fugir do passado. E pensou ter encontrado seu futuro nos 
braços de Nathan Trehearn. Porém, a lua-de-mel ainda não havia terminado quando descobriu a cruel realidade 
do passado de Nathan: uma mulher charmosa, que se autodenominava "a sra. Trehearn". Seu casamento no 
deserto havia sido uma miragem ou uma farsa 

 

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CAPITULO I 

 
Após  meia  hora  à  beira  da  piscina,  Geórgia  sentia-se exausta e indolente. O calor era insuportável, 

mesmo à sombra das palmeiras. 

Foi um alívio quando entrou no bar do clube, e a intensidade do brilho do sol foi consideravelmente diminuída 

por vidros fume. Além disso, o ambiente com ar-condicionado e o murmurinho da água de uma fonte interna 
proporcionaram-lhe  uma  agradável  sensação.  Seus  olhos  ainda  não  haviam  se  adaptado  à  semi-escuridão, 
quando um homem baixo a cumprimentou. A figura pareceu-lhe vagamente familiar. 

 Srta.  Maitland?  Geórgia?  —  Diante  de  seu  olhar  surpreso, ele se apresentou: — Sou Grev Canning. 

Fomos apresentados na casa dos Kimberley, lembra-se? 

 Oh, 

claro! 

Desculpe-me, 

não 

consigo 

focalizar 

nada. 

Minha vista ainda não se adaptou a esta escuridão. 

 Realmente, isso leva algum tempo. Que tal um drinque para ajudar? Algo bem gelado e refrescante? 

 Obrigada, Grev, mas eu já estava de saída. Na verdade, só entrei para pedir um táxi. 

 Ora, enquanto espera, poderia muito bem me acompanhar num drinque! Então, aceita? 

E por que não?, Geórgia pensou. Afinal de contas, não estava com tanta pressa assim. 
Tudo bem — concordou, sentando-se numa poltrona de couro verde. — Eu gostaria de um suco de laranja 

natural com bastante gelo, por favor. E, enquanto Grev fazia o pedido, o senso artístico de Geórgia não 
pôde deixar de analisar o garçom que os atendia: um árabe muito alto e magro, usando uma túnica comprida 
de algodão cru e um turbante vermelho de veludo, colocado de lado sobre os cabelos negros como ébano. Como 
tudo naquele país, ele também exibia o ar exótico que a encantava! Então, Grev se esparramou na poltrona ao 
lado dela. 

 Você nadou? — ele perguntou, iniciando a conversa. 

 Infelizmente, não. Minha intenção era essa, mas criaria problemas. Sabe como são os árabes... 

 Bem,  no  início  é  sempre  um  choque.  Somos  alertados  sobre  os  costumes,  no  entanto  nada  nos 

prepara para o que realmente encontramos. Não se preocupe, acabará se acostumando. 

Ele  acendeu  um  cigarro  e,  entre  longas  baforadas  nervosas,  não  parava  de  falar,  contando  sobre  seu 

trabalho  no  porto.  Geórgia  o  ouvia,  distraída.  Sua  atenção  estava  mais  voltada  para  as  pessoas  dispersas 
pelo imenso salão. Todas desconhecidas, com exceção de um homem em meio ao grupo próximo à janela... 

Ela franziu o cenho, tentando se lembrar de onde o conhecia. O rosto lhe parecia familiar. 
Absolutamente distraída, não percebeu quando uma mulher de postura agressiva cruzou a porta de vidro do 

clube e, sem dar tempo ao porteiro de ajudá-la, marchou na direção deles. 

O olhar apreensivo de Grev e o súbito movimento para se levantar alertaram Geórgia. Instintivamente, 

virou-se  para  trás  e  viu  a  mulher  fitando-os,  enfurecida.  Tinha  cabelos  ruivos  e  vestia  uma  bermuda 
folgada e uma camiseta absolutamente fora de moda. 

Adiantando-se, a recém-chegada segurou possessivamente o braço de Grev, obrigando-o a sentar-se de 

novo. 

 Greville,  não  vai  me  apresentar  à  moça?  —  a  mulher  indagou,  com  voz  estridente  e  tom  de 

desconfiança. 

 Cia... Claro, amor. Esta é Geórgia Maitland. Lembra-se dela na casa dos Kimberley? 

 Lembro-me perfeitamente de não ter ido à casa dos Kimberley! Você me convenceu a não ir, e só 

agora estou percebendo o motivo. 

Diante  da  expressão  de culpa  de  Grev,  Geórgia  indignou-se.  Primeiro, porque,  odiava  ser  tomada  como 

cúmplice e depois, a última coisa que desejava era envolver-se em outra briga entre marido e mulher. 

Somente o orgulho a impediu de pegar a bolsa e levantar-se. O murmúrio de vozes no salão diminuiu, e os 

olhares voltaram-se para os três. Morrendo de ódio, Geórgia controlou a irritação. Terminou de tomar o suco e 
sem  pressa  levantou-se  com  um  ar  de  indolência.  Grev  parecia  envergonhado,  e  a  mulher  mantinha  sua 
postura desafiante e agressiva. 

Apesar de indignada, Geórgia sorriu, procurando falar com voz melodiosa: 

 Deixe-me ver.,. Hum... A senhora deve ser a mulher de Greville! Acertei? 

 Acertou e é melhor lembrar-se disso, mocinha. 

 Claro. — Apesar da raiva, Geórgia continuava a agir de maneira fria e afetada, ciente de que o trio 

chamava  a  atenção  do  salão  inteiro.  —  Na  verdade,  todos  os  presentes  irão  se  lembrar  de  sua 
recomendação. Quanto a mim, pode ficar com seu... — A expressão de humilhação estampada no  rosto 
de  Grev  a  impediu  de  continuar.  Mas  a  mulher  merecia  uma  lição.  —  Oh,  Grev,  obrigada  pelo  suco 
delicioso! Foi muita gentileza sua, e a conversa estava ótima, querido. 

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De queixo erguido e rebolando, Geórgia caminhou por entre as mesas até a recepção, torcendo para que 

ninguém notasse o tremor em suas mãos, as faces em fogo e os olhos rasos d'água. 

—  Por favor, chame um táxi para mim — pediu à moça da recepção. 
—  Cancele 

táxi 

— 

um 

homem 

ordenou 

atrás 

dela. 

Geórgia 

se 

virou 

de 

súbito 

encarou 

intruso, 

com 

fúria. 

Ele deu de ombros. 

—  Também estou de saída e vou para a mesma direção que você, senhorita... 
Ela hesitou. Aquela encenação não a convenceu. Ele devia saber seu nome ou quem ela era, pois também 

tinha a sensação de já o ter visto em algum lugar. 

— Srta. Maitland, não é? 
— Ora, mas que esperto! 
Ignorando seu sarcasmo, ele se virou para a moça do balcão. 
— Não precisa chamar o táxi. Estou indo para o mesmo lugar que a srta. Maitlând. 
Com naturalidade, segurou o cotovelo de Geórgia e a conduziu para a saída. Assim que transpuseram a 

porta, ela puxou o braço, sentindo-o queimar com o toque. 

— O que o faz pensar que a srta. Maitlând pretende ir para o mesmo lugar que o senhor? 
Ele sorriu, com malícia, antes de responder: 
— Moramos 

no 

mesmo 

bloco 

de 

apartamentos. 

Naquele  momento,  Geórgia  se  lembrou  de  que  já  o  vira  no  saguão  do  prédio  onde  alugara  um 
apartamento. 

— Ainda assim, isso não lhe dá o... 

 Não, claro. Mas poderíamos colocar um pouco mais de lenha na fogueira que se formou lá dentro. 

Seria uma pena privar todas aquelas pessoas de um pouco de especulação sobre o assunto, não acha? E, 
depois, acredito que gostaria de sair daqui o mais rápido possível, e apoio moral é sempre bem-vindo. 

 Não necessito de apoio algum, especialmente moral. E, se acaso... 

 Precisasse,  eu  seria  o  último  homem  a  quem  você  recorreria  —  ele  a  interrompeu  e  concluiu  a 

frase. 

 Eu não ia dizer isso. 

Apesar de irritada, Geórgia teve vontade de rir. Que situação mais estúpida! O que mais a intrigava era 

sua  própria  passividade  diante  da  gentileza  implacável  daquele  homem,  conduzindo-a  para  o 
estacionamento do clube. 

 Bem, eu ia dizer que, se precisasse de apoio moral, jamais pediria a um homem. 

 Hum... 

Ele estalou os dedos para chamar a atenção do garagista, e em instantes uma limusine parava à frente 

deles.  Quando  Geórgia  deu  por  si,  cruzavam  os  imponentes  portões  do  clube,  ladeados  de  palmeiras,  e 
enfrentavam a loucura do tráfego do centro de Raqat. 

Distraída  com  a  vista  e  os  sons  exóticos,  ela  nem  percebeu  quando  chegaram  ao  apartamento  que 

ocupava havia duas semanas. 

— Muito obrigada, sr... 
Qual seria o nome dele? Que estranho ainda não o ter perguntado! 

 Meu  nome  é  Nathan  Trehearn.  —  Ele  sorriu,  enquanto  estacionava  o  carro  sob  uma  sombra. 

— 

Muito 

prazer, srta. Maitlând. 

 Nathan! Bem que notei seu sotaque, só podia ser americano! 

 Fui pego em flagrante delito! 

 Oh, sinto muito... — Ela riu, já caminhando ao lado dele em direção ao apartamento. —Não queria 

ser grosseira. 

 Não  se  preocupe,  sou  apenas  meio  culpado.  Minha  mãe  é  inglesa,  e  passei  alguns  anos  na 

Inglaterra. 

 Desculpe-me,  fiquei  abalada  por  causa  daquele  episó  dio  tolo lá no  clube. Estou  cansada de  homens 

casados que... 

 Posso entendê-la. 

Geórgia  entrou no  elevador, lembrando-se do vexame pelo qual  passara.  Precisou  se  controlar  para  não 

chorar.  Na  verdade,  Nathan  não  entendera  nada.  Ninguém  podia  compreender  sua  humilhação,  muito 
menos um homem... 

—  Não, 

você 

nunca 

poderá 

me 

entender 

— 

ela 

sussurrou. 

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Felizmente, o elevador parou, e Geórgia saiu, apressada, estancando de repente. 

—  Ora, mas este não é meu andar! 
De  novo,  sentiu  no  braço  o  toque  de  Nathan,  responsável  pelo  arrepio  estranho  que  percorreu  sua 

espinha. 

—  Tem  razão,  este  é  meu  andar  —  ele  explicou.  —  Como  somos  vizinhos,  pensei  que  seria  uma  boa 

ideia oferecer-lhe uma xícara de café. 

Não! — Ela se soltou com brusquidão. — Obrigada, mas não estou de bom humor. 
Ele abriu os braços num gesto entre divertido e exasperado. 
—  Tudo bem. Não vou forçá-la. 
Como a porta estava aberta, Geórgia viu de relance uma pessoa limpando a sala, e hesitou. Pelo menos 

não estaria sozinha no apartamento de um estranho. Percebendo sua indecisão, Nathan a encaminhou para 
dentro. 

O hall de entrada era revestido de mármore branco, e a sala... Geórgia prendeu a respiração. Espaçosa e 

fresca terminava em arcos suaves, deixando entrever uma sacada, onde palmeiras, hibiscos e primaveras 
floridas enchiam o ar com a fragrância de suas flores. Era maravilhosa e de bom gosto, um deleite para 
seu senso artístico. 

A simplicidade e a quietude agiram como calmante para seu espírito agitado. Sofás forrados de seda crua 

e  paredes  brancas  convidavam  ao  relaxamento.  Dois  vasos  enormes  de  cerâmica  oriental,  revestidos  de 
mosaico azul-escuro e branco, davam o único toque colorido ao ambiente. 

O olhar de Geórgia foi atraído para um nicho, onde viu uma cabeça humana entalhada em pedra polida 

preta.  Com  certeza,  tratava-se  de  uma  antiguidade  egípcia,  cujos  traços  captavam  com  extraordinária 
perfeição a arrogância que vira em muitos nativos. 

Intrigada com a beleza da obra de arte, Geórgia deu um passo à frente. Nesse instante, ela viu a imagem 

de Nathan refle tida no espelho. Em pé, atrás dela, ele a encarava. 

Fingindo admirar a estátua, ela passou a examinar seu anfitrião, tentando ser objetiva. Era alto e magro, 

mas  emanava  poder.  Talvez  devido  à  autoconfiança.  Não  era  exata-mente  bonito,  com  exceção  dos  olhos 
cinzentos de brilho incomum, emoldurados por cílios longos e negros. Jamais vira olhos tão lindos! 

De  repente,  ela se deu  conta de sua indiscrição. Observava-o de modo atrevido, e  ele notara.  Rubra de 

vergonha, fingiu ajeitar seu colar de contas de âmbar enquanto afastava do rosto uma mecha de cabelos. 

 Que sala agradável! Há quanto tempo mora aqui, Nathan? 

 Um  ano  e  meio.  —  Ele  lhe  indicou  o  sofá  e  sentou-se  numa  cadeira  diante  dela.  —  Bem,  eu  lhe 

prometi  algo  para  beber.  Gostaria  de  café,  gim-tônica  ou  suco?  Que  tal  comermos  também?  A  esta  hora 
gosto de um sanduíche. 

 Oh, eu não... 

 Como não? — E sem lhe dar chance para argumentar, Nathan falou em árabe com um serviçal e depois 

explicou-lhe em inglês: — Já está tudo providenciado. Ismail foi preparar o café, mas, enquanto esperamos, 
que tal um gim-tônica? 

—  Está bem. 
Geórgia ouviu a própria voz, fraca e distante. Talvez fosse um reflexo de como estava se sentindo e agindo. 

Como se sua capacidade de decisão houvesse se evaporado de uma hora para a outra. Porém, não podia deixá-
lo pensar que era uma pessoa indecisa. Pelo menos nunca fora até aquele dia. 

—  Com 

pouco 

gim, 

por 

favor 

— 

ela 

pediu 

com 

firmeza. 

Após lhe entregar o copo, Nathan tornou a sentar-se na cadeira diante dela, esticando as pernas sobre a mesa de 
centro. 

 Fale-me sobre você, Geórgia — pediu gentilmente, observando-a com intensidade. 

 Ah! Isso pode levar muito tempo e ser cansativo. 

Na verdade, ela preferia se resguardar. Nathan a assustava. Era o tipo de homem para quem as pessoas 

se abriam com facilidade, sem perceber. 

 Bem, hoje é domingo, temos tempo de sobra, não? — ele insistiu, sorrindo. — Prometo não ficar nem um 

pouco entediado. Gostaria de saber o que a trouxe a Raqat, por exemplo? 

 Estou aqui para descansar... Sou estilista de moda. 

No momento, sem trabalho, ela acrescentou, em pensamento. Jamais contaria sua desgraça justamente a 

alguém cujo sucesso transparecia no rosto. 

Bem, eu me sentia esgotada, precisava de inspiração, de novas paisagens, e como sempre tive vontade de 

conhecer o deserto... aqui estou, em Raqat — Geórgia prosseguiu. — Está satisfeito? 

Havia algo de enervante na absoluta concentração dele, embora inspirasse simpatia. 

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—  Ah, entendo... 
Naquele instante, Ismail entrou na sala, empurrando um carrinho que colocou ao lado de Nathan. 
Obrigado, Ismail. Tudo parece perfeito. 
Realmente,  a  perfeição  era  incontestável.  O  aroma  do  café recém-coado e a visão dos sanduíches, de 

tamanhos variados, despertaram a fome de Geórgia. Lembrou-se então de que nao tomara café da manhã e, 
sem se fazer de rogada, aceitou a xícara de café, provando um dos sanduíches. 

 E os Taylor? — Nathan perguntou inesperadamente. 

 Quem?! 

 O dono do apartamento abaixo deste, onde você está hospedada. Pertence a um professor de inglês, 

mas ele e a mulher tiraram férias, pelo que sei. 

 Ah,  sim...  O  tio  dele  é  amigo  de  meu  pai.  Quando  eu  soube  que  estariam  fora  durante  este  mês, 

propus alugar o apartamento. E deu certo. 

 Sim, mas pensei que eles... 

 O quê? 

 Ora, esqueça! Com certeza, enganei-me. Aceita mais café? 

 Sim, está delicioso! — Geórgia esticou a xícara e pegou outro sanduíche de salmão, olhando ao redor 

com  certa  inveja  de  tanto  espaço.  —  O  apartamento  dos  Taylor  é  muito  menor  que  este,  claro.  Há  um 
único  quarto.  Você  deve  ter  a  cobertura  inteira,  não?  Bem,  pelo  menos  não  vi  outra  porta  no  hall 
quando saí do elevador. 

 Sim,  você  está  certa,  este  vasto  apartamento  é  só  meu.  Mas...  conte-me  como  se  envolveu  com  os 

Canning? 

 Oh,  os  Canning!  Foi  pura  coincidência,  juro.  Entrei  no  bar  do  clube  para  pedir  um  táxi,  e  de 

repente Grev surgiu em minha frente. Eu nem sabia de onde nos conhecíamos! Ele precisou apresentar-
se de novo. Bem, aí me persuadiu a tomar um suco em sua companhia, ou talvez eu não precisasse de 
tanta  persuasão.  Acho  que  eu  queria  me  sentar  um  pouco.  Mas  não  vem  ao  caso.  —  Geórgia  se 
interrompeu um pouco e pegou outro sanduíche. 

 E você não sabia que ele era casado? 

 Não,  imagine!  Bem,  eu  mal  havia  começado  a  tomar  o  suco  quando  aquela  mulher  apareceu, 

acusando-me de tentar conquistar o marido dela. Foi um prato cheio para os frequentadores do clube. 
A esta altura, Raqat inteira deve estar sabendo do assunto.  

Nathan assentiu, sorrindo. 
—  Não se preocupe com isso — consolou-a. — Viver numa pequena comunidade significa estar sujeito a 

críticas.  É  como  se  atuássemos  numa  peça  de  teatro.  Por  falar  nisso,  a  audiência  quase  caiu  da  cadeira 
quando ouviu sua resposta à mulher de Grev. 

 Oh, céus! Minha intenção não era fazer um papel leviano. Na verdade, pretendia dizer outra coisa. Queria 

que ela soubesse que o pobre Grev, casado ou solteiro, não oferecia nenhum perigo real. No entanto, quando 
olhei para ele, humilhado, abatido, acuado, decidi virar a mesa. Pobre homem! 

 É verdade. Grev tem a reputação de ser conduzido a rédeas curtas pela mulher. Se há motivo ou não 

para tanta desconfiança, não sei. Mas, pensando nas roupas estranhas e  na  ferocidade  da  sra.  Canning... 
acha que alguém pode censurá-lo? 

 Concordo  plenamente.  Entretanto,  foi  muito  desagradável  passar  por  aquela  situação  —  Geórgia 

confessou. 

 Claro, mas não a ponto de sentir-se desiludida com os homens em geral, como você deu a entender. 

O responsável por essa sua profunda aversão, com certeza, não foi o pobre Grev, ou foi? 

 Não, claro. E não sei se concordo com essa sua colocação de aversão ou antagonismo. — A conversa entrava 

num campo perigoso, e Geórgia achou melhor ir embora. Não tinha a intenção de explicar-lhe seus motivos. — 
Bem preciso ir... Obrigada pela ajuda e pelo lanche. Já me sinto muito bem. 

 Ora, já vai? Justo agora que a conversa se tornava interessante? 

 Sinto tê-lo aborrecido durante tanto tempo. 

 Quem disse isso? 

 Não acabou de falar que só agora a conversa estava se tornando interessante? 

 Desculpe-me,  não  me  expressei  bem.  Intrigante,  seria  a  palavra  correta.  De  qualquer  modo,  a 

conversa  estava  tão  interessante  que  gostaria  de  continuar  ouvindo-a  e...  Que  tal  jantarmos  fora  esta 
noite? 

Oh,  não!  —  ela  se  opôs  com  ênfase  e  depois  ficou  inibida  diante  do  olhar  surpreso  de  Nathan.  --- 

Desculpe-me e... obrigada pelo convite. 

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—Tudo bem. — Ele sorriu, acompanhando-a à porta. — O convite fica para uma outra ocasião, então. 
Geórgia não via a menor possibilidade de encarar um outro envolvimento, por mais inofensivo que fosse. No 

entanto,  ao  invés  de  se  desapontar,  Nathan  pareceu  achar  graça  da  decisão  dela,  provocando  um  certo 
ressentimento em "Geórgia. 

Ela se despediu mais uma vez e entrou no elevador, seguida por Nathan. Apesar da recusa de Geórgia, ele fez 

questão de acompanhá-la, deixando-a intrigada. Nathan era muito insistente, e isso a apavorava. Seria apenas 
gentileza ou... 

—  Esqueci um papel no  carro — ele explicou de repente, parecendo  adivinhar seus pensamentos. De 

certo, ria a sua custa. — Estou descendo simplesmente para pegá-lo. 

Então, o elevador parou, e ela saiu, apressada. 

 Obrigada mais uma... — A voz morreu nos lábios de Geórgia, ao ver um estranho tentando abrir a 

porta de seu apartamento, rodeado de malas. —Ei, moço! Onde pensa que... 

 Olá, Pete — Nathan a interrompeu, para cumprimentar o rapaz. — Tudo bem? 

 Nat!  Que  bom  vê-lo  de  novo,  amigo!  —  O  moço  exclamou,  sorrindo.  De  repente,  notou  Geórgia  e  ficou 

indeciso, sem saber se a cumprimentava ou não. — Como... vão os negócios? 

 Bem,  mas...  não  esperávamos  que  voltasse  tão  cedo  da  viagem.  —  E,  virando-se  para  Geórgia, 

apresentou o rapaz: — Este é Pete Taylor. 

Pete  Taylor?!  Ela  passou  a  mão  pelos  cabelos  num  gesto  de  desespero.  Será  que  escutara  direito?  Não 

podia ser! Recusava-se a admitir a realidade. 

 Sobrinho de Lew Taylor?! — ela perguntou, negando-se a crer em sua suspeita. 

 Sou eu mesmo — Pete afirmou. — Por quê? 

 Você não ia voltar agora! Deveria continuar de férias durante mais duas semanas! 

 Oh, céus! Não acredito... Você é a pessoa que alugou meu apartamento... — Foi a vez de Pete passar a 

mão  pelos  cabelos  enquanto  examinava  o  envelope  que  tirou  do  bolso  da  calça.  Havia  apanhado  suas 
correspondências  com  o  zelador  do  prédio,  antes  de  subir.  —  Esta  carta  é  de  Lew.  Aposto  que 
confundiu a data de minhas férias. 

 Confundiu? — Geórgia indagou, incrédula. 

 Isso  é  típico  de  meu  tio.  Como  sempre,  fazendo  confusões.  Veja  a  data.  Ele  escreveu  a  carta, 

informando  o  período  de  sua  permanência  aqui,  depois  que  já  havíamos  partido  para  o  Canadá.  Sinto 
muito. 

Abrindo  a  porta,  Pete  gesticulou  para  que  Geórgia  e  Nathan  entrassem  na  frente  e  os  seguiu, 

depositando  sua  bagagem  no  chão  do  hall,  antes  de  ir  para  a  sala  de  estar,  onde  os  outros  dois  já  se 
encontravam. 

—  O que vamos fazer agora? — Geórgia tornou a perguntar. 

 Para ser sincero, não sei. — Pôs  a mão  no queixo, pensativo. — A verdade é que estive viajando 

durante  trinta  e  seis  horas,  e  minha  cabeça  já  não  raciocina  muito  bem.  E  Angie,  minha  mulher,  só 
chegará daqui a um ou dois dias. Ela quis ficar mais um pouco com a tia idosa e... 

 Escute,  Pete...  —  Nathan  o  interrompeu.  —  Antes  de  mais  nada,  precisa  de  um  bom  sono  para 

descansar. 

Ao  ouvir  aquilo,  Geórgia  ficou  a  ponto  de  soltar  fumaça  pelo  nariz.  Que  ousadia  a  dele  de  querer 

controlar  tudo  mais  uma  vez!  Pelo  visto,  estava  acostumado  a  se  intrometer  nos  problemas  dos  outros, 
mesmo  quando  não  era  chamado!  Porém,  antes  que  pudesse  protestar,  Nathan  se  virou  para  ela  e 
continuou: 

 E você, Geórgia, por que não pega suas coisas e sobe a meu apartamento? Assim pensamos com calma 

numa solução. Tenho vários amigos na cidade. Posso ligar para um deles. 

 Mas...  —  Inconformada,  ela  ainda  pensou  em  argumentar, pois havia pago caro pelo mês inteiro. 

No entanto, ao olhar para Pete, percebeu a dificuldade com que ele mantinha  os  olhos  abertos  e  desistiu, 
virando-se 

para 

Nathan. 

— Bem, não estou bem certa se quero ir para... 

 Ora,  ninguém  quer  ir  a  lugar  algum!  —  Nathan  a  interrompeu, impaciente. — Enfrentamos uma 

situação difícil, concorda? Duvido que queira passar a noite nesse sofá minúsculo! E Pete, coitado, também 
não merece dormir no sofá depois de viajar tantas horas. Então, vamos? Pegue suas coisas, e pensaremos 
numa  solução  lá  em  minha  casa.  Contrariada  e  irritada,  ela  lhe  lançou  um  olhar  furioso.  Que  homem 
intrometido!  Quem  visse  aquela  cena,  pensaria  que  ela  era  a  encrenqueira,  e  não  a  vítima.  Porém,  anali-
sando a situação com frieza, Nathan tinha razão. Não lhe restava outra alternativa, senão acatar a sugestão 
dele. E concordar com sugestões parecia estar tornando-se um hábito, do qual não gostava nem um pouco. 

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—  Certo— ela disse, relutante. 
Enquanto  tirava  suas  roupas  do  armário  e  apanhava  no  banheiro  o  estojo  de  maquilagem,  Geórgia  se 

arrependeu de ter se comportado de forma grosseira e indelicada, porém fervia de raiva por dentro. Jogou toda a 
roupa dentro da mala, ouvindo Nathan e Pete sussurrarem na sala. Do que falavam? Infelizmente, não conseguia 
entender  nenhuma  palavra,  só percebia  que  um  sempre  usava  um  tom  mais  determinado  que  o  outro  e  não 
precisava ser adivinha para saber quem era. 

Assim que ela retomou à sala, carregando a mala pesada, Nathan a tomou de suas mãos e saiu, apressado, para 

o elevador. Pete se desculpou brevemente e fechou a porta em seguida. 

Na  cobertura,  Geórgia  andava  de  um  lado  para  o  outro  até  que  não  aguentou  mais  e  extravasou  a 

fúria: 

 Que ódio! Tudo acontece comigo. Maldição! 

 Isso mesmo, ponha para fora — Nathan a incentivou. —  Tem todo o direito de estar furiosa! 

 Ora,  veja  só  quem  fala!  Você  me  surpreende,  sabia?  Lá  embaixo,  no  apartamento  de  Pete,  eu  não 

tinha  um  pingo  de  razão.  Ele  podia  dar  um  jeito  na  situação,  mas...  Bem,  por  que  eu  deveria  esperar 
alguma gentileza da parte dele? Neste país, só o sexo masculino tem direitos! Até os carros são para o uso 
e o prazer exclusivo dos homens! 

 Não sei, não... — Nathan contestou, com suavidade. —  Quem a trouxe para casa hoje? 

—  Isso é uma afronta! Pensa que sou tola? Você vinha para sua casa de qualquer forma. Eu apenas... 

— Sua voz tremeu, como se fosse chorar. 

 Calma, não fique tão nervosa assim, nem se preocupe tanto. — Nathan se aproximou, tentando consolá-

la. — Pode ficar aqui o tempo que quiser. 

 Aqui?! O plano não era esse! Você disse que ligaria para alguns amigos... 

 Certo.  Eu  pretendia  mesmo  ligar,  mas  refleti  melhor.  O  fato  é  que tenho  quartos sobrando,  você já 

percebeu  isso.  Então,  por  que  ir  embora  quando  há  a  sua  disposição  uma  suíte  vazia?  Encontramos  a 
solução perfeita, pronto! 

 Não posso aceitar, ou melhor, não quero aceitar. Na verdade, eu deveria ter ficado lá embaixo. 

Por duas vezes consecutivas e num curto espaço de tempo, Nathan havia presenciado sua humilhação. Não 

ficaria, e ponto final! 

 Não  vê  que  é  humanamente  impossível?  —  ele  insistiu.  —  Quatro  daqueles  miniapartamentos  cabem 

dentro deste aqui. 

 Irei para um hotel, então. Deve haver muitos por aí. 

 Não  se iluda, Raqat  é  uma  cidade  pequena  comparada  a Riyadh ou Amman. Nos domínios do sheik, 

existem poucos hotéis, cujos quartos são reservados com muita antecedência e a diária, meu anjo, custa uma 
verdadeira fábula. Se estiver disposta a pagar... 

 Então, voltarei para casa — Geórgia o desafiou, embora interromper suas férias fosse a última coisa que 

desejava fazer. 

 O que seria uma pena... — Ele sorriu, e os olhos cintilavam com malícia. 

O  sorriso  encantador  a  distraiu  por  um  instante,  fazendo-a  rever  seu  julgamento  anterior  a  respeito  da 

beleza dele. Que sorriso fascinante! 

 Além do mais — ele continuou, com suavidade —, os voos também são raros e precisam ser reservados com 

antecedência. 

 Pois  começo  a  me  perguntar  o  que  vim  fazer  nesta  terra  de  loucos?  Será  que  algum  dia  conseguirei 

escapar daqui? 

— Quanto  à  primeira  questão,  eu  lhe  fiz  essa  mesma  pergunta e você, se bem me recordo, respondeu 

com evasivas e preferiu se despedir de mim na primeira oportunidade. 

 Perfeitamente 

:

— ela falou, com sarcasmo. 

 Quanto à segunda, fique. Só então poderá desistir. 

 Desistir do quê? 

 De escapar, de fugir ou qualquer coisa do género. 

 Pois duvido muito que esse dia chegue! 

 Bem, nesse meio tempo, por que não aceita minha sugestão? 

 Sugestão?! Qual? 

Nervosa e indecisa, Geórgia sentia-se uma gazela indefesa na mira de um caçador. Não via mais como se 

esquivar. 

— De jantarmos fora para... você continuar me contando sua vida. Reitero o convite. 
Desconfiada, ela o fitou, controlando-se para não parecer uma criança diante de um doce gostoso. Afinal, 

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talvez fosse bom jantar fora. 

 Bem, pelo jeito, não tenho escolha — ela concordou por fim. 

 Para ser sincero, não muita — ele afirmou, sorrindo. — Mas não me parece uma sugestão terrível e 

inaceitável. Bem, vamos levar sua bagagem para o quarto. 

Nathan a conduziu por um corredor, abrindo uma das várias portas que havia ali. Mais uma vez, Geórgia ficou 

boquiaberta. O quarto era espaçoso e bonito. Aliás, infinitamente mais charmoso do que o que ocupava na casa 
dos Taylor. 

— Pode ficar pelo tempo que quiser — ele informou. 

 Tanto 

assim? 

uma 

oferta 

muito 

tentadora. 

Nathan sorriu com malícia. 

 Sem 

laços 

ou 

compromisso. 

—Nesse caso... obrigada. 

 Que bom! — Ele colocou a mala que carregava sobre uma  mesinha  e  indicou  um  botão  perto  da 

cama. — Se precisar de qualquer ajuda, toque a campainha. Enna, a mulher de Ismail, virá até aqui. 
E, agora que está tudo acertado, que tal um chá? Vou pedir que Enna o traga. 

 Obrigada — ela agradeceu novamente, desejando que ele saísse logo do quarto. 

De repente, sentia-se exausta, como se tivesse feito uma caminhada de quilómetros. E perdera a vontade de 

lutar contra a má sorte. Naquele momento, seu único desejo era dormir. 

—  Bem,  sairemos  para  jantar  por  volta  das  nove  horas,  se  você  estiver  de  acordo  e...  —  Ele  hesitou, 

antes de continuar: — Tenho uma proposta para lhe fazer, Geórgia. 

Antes que ela tivesse tempo de assimilar as últimas palavras, Nathan já havia saído. Ela ainda se virou 

a tempo de ver a porta se fechar, porém faltou energia para correr e pedir uma explicação. 

Em  vez  disso,  examinou  o  quarto.  As  duas  camas  estavam  forradas  de  brocado  salmão,  o  chão  de 

mármore  continha  veios  cor-de-rosa  e  as  cortinas,  leves  e  transparentes,  combinavam  com  o  papel  das 
paredes. 

A  cúpula  do  abajur  de  cabeceira  era  feita  do  mesmo  tecido  da  cortina,  e  a  espreguiçadeira,  forrada  de 

seda. 

Sentando-se na banqueta diante da penteadeira localizada num canto do quarto, Geórgia suspirou, aliviada, 

por estar ali. 

Que dia longo!, pensou, fazendo um retrospecto. Logo ao se levantar, pela manhã, sentira-se indisposta. Por 

sorte, havia se  recuperado  com  certa  facilidade.  Depois,  quando  pensara  em divertir-se no  clube, acontecera 
aquele incidente desagradável do casal. Por último, a afronta de ter perdido sua casa. Sua casa não, a de Pete, 
lógico! Sim, os dias no Oriente Médio deviam ser mais longos que nas outras partes do mundo! 

Desanimada,  examinou-se  no  espelho.  Não  ficaria  nem  um  pouco  surpresa  se  tivesse  envelhecido  dez 

anos  naquelas  poucas  horas.  No  entanto,  qual  não  foi  sua  surpresa  ao  constatar  que  não  só  mantinha  o 
aspecto jovial como estava mais corada e vibrante. O sol bronzeara sua pele macia, tornando-a dourada e 
realçando os olhos verdes. Os cabelos loiros também haviam adquirido algumas mechas claras. 

De novo, suspirou. Daquela vez, em completo desespero. Viajara para tão longe na tentativa de colocar a 

vida  em  ordem,  de  esquecer  o  passado  e  o  que  lhe  acontecia?  Aparentemente,  havia  apenas  trocado  um 
problema por outro. 

Erguendo os braços, tirou o colar de âmbar, colocando-o sobre a penteadeira. Ao ficar em pé, olhou para 

sua figura refletida no espelho. Apesar de tudo, o vestido ainda mantinha uma aparência decente. O tecido 
leve de algodão e o modelo favoreciam seu porte esguio. Com certeza, ainda a reconheceriam como a srta. 
Geórgia Maitland, ex-assistente do famoso estilista de moda, Jordan Severs. 

Um pensamento inesperado quase a fez chorar. Por pouco, não se transformara na amante de Jordan. Se 

não fosse o bendito telefonema, revelando a existência da esposa e dos filhos dele, naquele exato momento, 
em vez de estar em Raqat, encontraria-se na cama com o cínico Jordan. E em alguma praia romântica do 
Caribe... 

Uma leve batida na porta a assustou. Rapidamente, pegou o vestido que acabara de tirar e o colocou em 

sua frente, antes de abri-la. Ficou feliz em ver Enna com a bandeja de chá e um sorriso simpático. 

Instantes  depois,  Geórgia  bebeu  o  chá,  tomou  banho  e  deitou-se  na  cama  macia.  Pouco  a  pouco,  foi 

sentindo  uma  sonolência  agradável.  Estava  quase  fechando  os  olhos  quando  um  pensamento  súbito  a  fez 
recostar-se novamente no espaldar da cama, com o olhar na parede. 

Proposta?!  Nathan  havia  dito  proposta  ou  plano?  Ela  fran-.  ziu  o  cenho,  desconfiada.  Em  seguida,  um 

sorriso tímido aflorou em seus lábios. Se Nathan pretendia lhe fazer uma proposta, ficaria surpreso com 
sua  habilidade  em  esquivar-se.  Fora  ingénua  e  fraca  apenas  uma  vez!  A  experiência  adquirida  com 

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Jordan  a  deixara  afiada  como  uma  lâmina  de  barbear.  Contudo,  se  a  proposta  tivesse  algo  de  positivo, 
tudo bem. Do contrário, ele perderia tempo. 

Afundando  a  cabeça  no  travesseiro  macio,  Geórgia  procurou,  em  vão,  render-se  ao  sono.  Sua  mente  não 

parava  de  pensar  nas  palavras  de  Nathan.  O  que  ele  dissera  mesmo?  De  repente,  lembrou-se:  proposta!  De 
casamento?! Ora, seria a última coisa que ele lhe proporia! Diante do absurdo da ideia, ela riu. Como podia 
ter pensado em tamanho absurdo? Justo ela que, em hipótese alguma, queria envolver-se num relacionamento, 
permanente ou passageiro. Jordan a curara de toda e qualquer propensão nesse sentido. E por muito tempo! 

Porém,  sem  querer,  ela  começou  a  analisar  os  dois  homens.  Dificilmente  duas  pessoas  tinham  tantas 

diferenças. Jordan possuía cabelos grisalhos, era esguio, sofisticado e caminhava com leveza. Nathan, ao 
contrário, andava com determinação, além de pentear os cabelos negros de maneira convencional. Fora isso, 
inspirava-lhe segurança. Pelo menos, até aquele momento. 

Sim,  aquele  pensamento  era  tranquilizador,  Geórgia  pensou,  acomodando  a  cabeça  no  travesseiro.  Na 

Inglaterra,  sempre  apreciara  a  companhia  de  homens  boémios,  de  temperamento  alegre  e  despreocupado 
como  Jordan.  Provavelmente,  sua  atração  por  ele  se  devia  à  aura  de  sofisticação  que  o  rodeava,  embora 
fosse pura  afetação.  Agora,  longe  dele, conseguia analisá-lo sem emoção. O hábito de cercar-se de  garotas 
altas e bonitas havia contribuído para criar a fama de Jordan e iludi-la. 

Graças aos céus, Nat Trehearn tinha um comportamento totalmente diferente. Seria impossível imaginá-

lo agindo de maneira teatral ou afetada e... 

De  repente,  Geórgia  se  deu  conta  de  que  não  tinha  a  menor  ideia  do  que  Nathan  fazia  ou  onde 

trabalhava! Que coisa estranha! 

Encontrava-se sozinha no apartamento de um homem que conhecera havia apenas algumas horas, e a 

única coisa que sabia sobre ele era seu nome... 

O  cansaço  a  venceu.  Sem  perceber,  fechou  os  olhos,  e  a  respiração  se  suavizou.  Então,  ela  dormiu 

profundamente. 

 
CAPITULO II 
 
Geórgia despertou depois de duas horas de sono repousante e logo começou a se arrumar. 
Por  alguma  razão  inexplicável,  vestiu-se  com mais  capricho,  escolhendo,  dentre  seus  conjuntos,  o  mais 

original.  A  calça  pantalona  parecia  uma  saia  longa  à  primeira  vista.  Porém,  ao  andar,  o  tecido  leve  de 
organza  se  moldava  ao  corpo,  deixando  entrever  as  pernas  esguias  e  bem-feitas.  O  tom  verde-escuro, 
salpicado de bolas creme, realçava seus olhos verde-claros. A blusa, uma túnica do mesmo tecido, tinha um 
bordado no decote, que lhe dava um toque especial. 

Depois  de  pronta,  examinou-se  no  espelho  e  ficou  apreensiva.  Embora  a  conjunto  fosse  clássico,  sua  figura 

estava elegante e imponente demais. Parecia até que se vestira para um encontro importante, com a intenção de 
conquistar Nathan! 

Se  ao  menos  não  tivesse  se  esmerado  tanto  na  maquila-gem... Felizmente, alguém totalmente leigo no 

assunto imaginaria  que  a  sombra  verde  nos  olhos,  o  blush  realçando  as maçãs do rosto e o batom suave 
eram meras casualidades, e não obra de uma especialista naquela arte. 

Talvez o efeito devastador de sua aparência devesse ao contraste da roupa sóbria com o penteado jovial. Com 

muito  custo  e  após  várias  tentativas,  conseguira  trançar  os  cabelos,  deixando  a  ponta  pender  sobre  um  dos 
ombros. Sim, estava atraente! 

Faltava  o  perfume,  claro.  Adorava  perfumes.  Distraída,  pegou  o  primeiro  frasco  que  viu  sobre  a 

penteadeira  e  passou-o  com  vontade,  entrando  em  pânico  em  seguida.  Por  que  escolhera  justamente 
aquele perfume sensual, se não 

estava  saindo  para  um  encontro  romântico?  Aliás,  não  gostaria  de  passar  esse  tipo  de  mensagem  ao 

homem que simplesmente sentia pena dela. 

Talvez fosse melhor trocar rapidamente de roupa e... 
Alguém bateu à porta. Com o coração disparado, Geórgia a abriu e deparou-se com Enna. 

 Meu amo mandou dizer que está pronto. 

 Obrigada, Enna. Já estou indo. 

Rapidamente,  Geórgia  calçou  as  sandálias  de  salto  alto,  pegou  a  bolsa  e  olhou-se  mais  uma  vez  no 

espelho. Talvez estivesse muito atraente, mas e daí? Afinal, sempre se vestira para agradar a si própria e 
não mudaria os hábitos de uma vida inteira de uma hora para a outra. Sorriu com satisfação e depois saiu 
para encontrar o "amo". 

Nathan  a  aguardava,  encostado  numa  parede  do  hall.  Bonito  ou  não,  certamente  chamava  a  atenção 

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onde quer que fosse. Em parte, devido à altura, aos ombros largos e aos quadris estreitos, tudo em perfeita 
harmonia.  Como  a  maioria  dos  homens  de  porte  atlético,  ele  também  inspirava  poder.  E,  como  se  não 
bastasse, ainda sabia escolher as roupas com muito gosto. 

A calça escura de pregas, a camisa branca e a gravata marrom combinavam perfeitamente. Jogado com 

displicência sobre os ombros, pendia um blazer esportivo. Estava impecável e sedutor! 

Será que sua admiração pelo estilo convencional de Nathan não passava de uma maneira de vingar-se de 

Jordan? Talvez... De qualquer modo, não teve tempo de considerar a questão, pois Nat caminhava em sua 
direção, exalando um perfume delicioso e másculo. 

 Hum... você está perfumada — ele disse. 

 Obrigada. 

Geórgia não se afetou pela falta de um elogio específico a sua aparência. Afinal, não se esmerara para 

ninguém e preferia passar despercebida. 

Desceram em silêncio pelo elevador. Um silêncio inibidor, ela pensou, consciente das batidas aceleradas de 

seu coração e da presença de Nat atrás de si. 

Permaneceram calados  também no carro, enquanto Nat mantinha  a  atenção no tráfego, desviando das 

ruas mais movimentadas e atravessando o labirinto do centro antigo da cidade com seus bazares fechados. 

Após  meia  hora,  cruzaram  um  portal  em  arco  e  percorreram  uma  alameda  ladeada  por  um  jardim 

florido. 

Geórgia admirava tudo, não perdendo um detalhe sequer. No passado, aquela propriedade devia ter sido 

uma casa de campo de algum milionário, agora reformada para abrigar o restaurante requintado. Sob um 
caramanchão de videiras bem cuidadas, havia mesas ao ar livre. 

 Que lugar maravilhoso! — ela exclamou, olhando ao redor. 

 Achei que gostaria daqui. Venha, vamos dar uma volta pelo jardim antes do jantar. 

Outra vez, ele a segurou pelo braço, guiando-a por um caminho entre árvores e arbustos, iluminado por 

refletores. De repente, surgiu uma clareira, onde havia um lago rodeado de pedras e uma fonte no centro, 
que produzia um murmúrio doce e sonoro. Esparramados pelo jardim, vasos de barro antigos, repletos de 
lírios azuis em plena floração, encantavam os olhos. 

Extasiada,  Geórgia  se  sentou  na  beira  do  lago  e  mergulhou  a  mão  na  água  cristalina  e  agradável.  No 

mesmo instante, peixinhos dourados a rodearam, beliscando as pontas de seus dedos. 

 Ei, vim aqui para jantar, e não para servir de comida! — ela exclamou, retirando a mão. 

 Esses  peixes  nunca  estão  satisfeitos,  mas  não  podemos  alimentá-los  demais.  Morrem  de  repente,  se 

ficarem obesos. Mas, pelo visto, você também está com fome. 

Eles  deram  a  volta  na  construção  imponente  e,  através  das  janelas  abertas,  puderam  ver  os 

frequentadores  jantando.  Havia  um  ar  de  esplendor  e  opulência  na  maioria,  provavelmente  reflexo  da 
recente riqueza trazida pela exploração do petróleo. 

 Essa é a sala principal, porém, se preferir, podemos comer no jardim... — Nathan explicou. 

 Oh,  vamos  sentar  aqui  fora,  por  favor!  —  E  fazendo  um  gesto  amplo  com  as  mãos,  ela  indicou  o 

jardim. — Olhe para isto! Que maravilha! 

Distraída  em  admirar  a  paisagem,  Geórgia  não  notou  o  olhar  embevecido  de  Nathan  diante  de  seu 

entusiasmo. 

— Claro! 

— 

ele 

disse. 

— 

Também 

prefiro 

ficar 

ao 

ar 

livre. 

O  garçom  os  acomodou  numa  mesa  afastada,  de  frente  para  o  jardim,  e  Nathan  lhe  pediu  para  que 
trouxesse uma garrafa de vinho de excelente qualidade. Geórgia não controlava o entusiasmo. 

 Perfeito! Como alguém pode preferir ficar lá dentro numa noite como esta, não acha? 

 Tem  razão.  Hoje  em  dia,  com  a  descoberta  das  minas  de  petróleo,  surgiram  vários  restaurantes  em 

estilo ocidental para atender ao paladar dos estrangeiros. Mas ainda prefiro os mais típicos. Gosto de ter a 
impressão de estar no seio da civilização antiga, da velha Raqat, cercada de tamareiras. 

De repente, ele percebeu que Geórgia examinava o cardápio, indecisa. 

 Espero que esteja com bastante fome, Geórgia. As porções neste restaurante costumam ser enormes. 

 Oh, estou morrendo de fome! — ela afirmou, esquecendo a inibição. — Esta é a primeira vez que 

sinto fome desde que cheguei a Raqat. Fiquei indisposta no primeiro dia, durante um passeio, e não senti 
mais vontade de comer. 

 Já entendi... 

Percebendo  o  próprio  erro  em  iniciar  aquele  assunto,  Geórgia  ficou  embaraçada  e  olhou  de  relance  para 

Nathan,  torcendo  para  que  ele  não  tivesse  notado  seu  rubor.  Entretanto,  a  expressão  jocosa  no  rosto  dele 
demonstrou o contrário. 

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 Ora, não foi nada grave... — Geórgia explicou, fingindo ler o cardápio. — Apenas tive medo de comer 

pratos exóticos ou picantes. 

 Que bom que já sarou! Mas seria melhor não abusar das comidas com muito tempero. Cuscuz é um 

prato muito gostoso e inofensivo. Um escocês, amigo meu, disse que é tão bom quanto mingau de aveia. 
Também pode experimentar um dos pratos com carneiro, todos são deliciosos. 

 Por favor, escolha por mim, sr... — Sem saber se deveria chamá-lo pelo primeiro nome ou pelo último, 

Geórgia  esperou  o  garçom  servir  o  vinho,  anotar  os  pedidos  e  sair,  então  brincou:  —  Sr.  Auxílio!  Na 
verdade, não sei como devo chamá-lo... 

 Pretendo chamá-la de Geórgia simplesmente. E meus amigos me chamam de Nat. 

 Nat  —  ela  repetiu  na  mesma  entonação.  —  Acho  que  não  conheci  ninguém  com  esse  nome.  Bem, 

muito  obrigada  por  me  trazer  a  um  lugar  tão  cheio  de  magia,  Nat.  —  Ela  se  recostou  na  cadeira  e 
admirou o  céu. — Por  que o  céu daqui parece tão diferente do da Europa? Olhe, há milhões de estrelas 
incrustadas no veludo negro sobre nós. 

 Foi esse o motivo que a trouxe a Raqat? Além da curiosidade a respeito do deserto? 

 Na verdade, é_ só uma das razões. 

 E as outras... quais são? 

 Ora,  não  vamos  estragar  a  noite  com  bobagens.  —  Ela  esboçou  um  sorriso  cativante.  Depois, 

apoiando os cotovelos sobre a mesa, levou o copo aos lábios. — Hum... este vinho está delicioso! Sabe, 
seria muito mais interessante, ou intrigante, ouvi-lo. O que faz aqui em Raqat, Nat? 

 Discordo plenamente, mas vamos lá... Fico contente em lhe contar o que quiser saber. 

 Apenas gostaria de saber o que perguntei. 

 Só isso?! Bem, sou um oceanografista biológico e, quando estudei em Cambridge, fiquei conhecendo o 

atual  sheik  de  Raqat.  Freddy  é  um  governante  liberal,  segue  a  cultura  ocidental,  apesar  de  seus 
comentários revoltados. 

 A respeito de mulheres dirigirem carros? 

 Isso mesmo. Entenda, ele precisa fazer mudanças gradativas, pois as crenças religiosas estão profundamente 

enraizadas no povo árabe. Por falar em crenças, acredito que muitos homens ocidentais achariam até bom que as 
mulheres não... 

 Pare! Não diga mais nada! 

 Acalme-se, Geórgia — Ele fez um ar de riso. — Cuidado para não agitar sua bandeira feminista com muito 

entusiasmo. Não é o momento e muito menos o lugar para certas rebeldias. 

— Pois  não  vejo  onde  está  a  rebeldia  em  uma  mulher  querer  dirigir  seu  próprio  carro  —  ela 

sussurrou. Em seguida, voltou a falar num tom de voz normal: — Bem, continue, por favor, Nat. 

 Obrigado. — Os olhos cinzentos pareciam sorrir, desafiando-a. — Como ia dizendo, o atual regime é 

liberal. A mina  de  petróleo  não  transformará  o  reino  num  país  milionário porque é pequena, mas trará 
alguns benefícios para o povo. O sheik está preocupado em preservar a vida selvagem, especialmente a 
flora  marítima  do  mar  Vermelho.  Não  quer  de  forma  alguma  prejudicá-la.  E  aí  ele  me  convidou  para 
trabalhar aqui. Pedi dois anos de licença na Universidade de Princeton, onde lecionava, para traçar um 
plano e dar assistência ao país pelo tempo que for necessário. Boa parte do projeto já está em andamento. 

 Oh, isso é fascinante! 

Quando  poderia  imaginar  que  ele  tinha  aquela  profissão?,  Geórgia  pensou.  E  que  fosse  um  professor 

universitário?! 

 Realmente, é excitante! — ele acrescentou, animado. —  Mergulhei  em  várias  partes  do  mundo  e 

nunca  havia  visto  um  rochedo  com  tanta  variedade  de  vida  marinha  como  o  daqui,  ao  sul  do  porto. 
Portanto,  poderíamos  considerar  uma  tragédia  global  se  esse  deslumbrante  mundo  subaquático  fosse 
danificado... Já mergulhou alguma vez, Geórgia? 

 Sim — ela afirmou e em seguida arrependeu-se. Não queria que Nathan soubesse de sua participação 

numa equipe de mergulho, principalmente porque fora um ex-namorado quem a convencera a mergulhar. 
— Oh, mas foi há tanto tempo, Nat! Acho que nem me lembro mais. 

 Ninguém  desaprende  a  mergulhar.  E  como  andar  de  bicicleta,  uma  vez  aprendido,  nunca  mais  se 

esquece. Além do mais, não pode ter sido há tanto tempo, como diz. Você não é tão velha assim. 

Naquele instante, o garçom trouxe a comida, e Geórgia ficou satisfeita com a oportunidade de mudar 

de assunto. 

 Este cuscuz é mesmo uma delícia! — elogiou-o depois de prová-lo.  

 Também  gosto.  Em  princípio,  estranhamos  os  temperos  exóticos  dos  árabes,  mas  com  o  tempo 

aprendemos  a  apreciá-los  cada  vez  mais.  Agora,  Geórgia,  conte-me  qual  foi  o  verdadeiro  motivo  que  a 

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trouxe a Raqat? Essa história de conhecer o deserto e ver as estrelas não me convenceu. 

Ela o fitou, pensativa. O que lucrava escondendo a causa de suas férias forçadas? Talvez fosse até bom 

revelar a verdade e livrar-se de uma vez por todas de sua angústia. 

 Como já deve ter desconfiado, Nat, fiz papel de tola perante um homem. 

 Acho  difícil  apreditar  nisso.  —  Num  gesto  afetuoso,  ele  lhe  segurou  a  mão,  estimulando-a  a 

continuar. 

 Acredite ou não, é a pura verdade. 

 Não teria acontecido algo para... Bem, se não quiser, não diga nada. 

 Se pensa que fui forçada, engana-se. E não há muito mais  para  contar.  Simplesmente  quando  me 

conscientizei  da  situação  crítica  na  qual  estava  metida,  afastei-me  o  mais  rápido  que  pude  — 
Geórgia  interrompeu-se,  com  um  ar  distraído,  e  começou  a  traçar  com  o  garfo  uma  espiral  no 
prato de comida. As feridas em seu coração ainda continuavam abertas. 

 

 E 

então? 

— 

Nat 

perguntou, 

tirando-a 

do 

devaneio. 

Ela sorriu com timidez e depois deu de ombros. 

 Infelizmente, esse homem era meu chefe. 

 O que virou sua vida de cabeça para baixo, não é? 

 Com  certeza.  Foi  duplamente  difícil  porque  perdi  o  homem...  e  o  emprego.  Oh,  a  confusão  no 

clube, hoje, deixou-me inconformada! Será possível que... 

 Foi  apenas  uma  falta  de  sorte  —  ele  a  interrompeu.  — Aposto como a mulher de Grev agiria da 

mesma forma se,  em  vez  de  estar  conversando  com  você,  ele  estivesse  acompanhado de  uma senhora 
de sessenta anos. 

 O que não alivia em nada a situação desagradável pela qual passei. 

 Não, claro. Porém, analise o seguinte: existe uma grande quantidade de homens solteiros aqui. 

 E daí? — Geórgia o fitou, sem entender nada. 

 Você  chama  muito  a  atenção...  —  Inclinando-se  sobre  a  mesa,  Nat  franziu  o  cenho,  com  um  ar 

preocupado. — Principalmente de tipos como Canning, não é verdade? 

 Não estou entendendo aonde pretende chegar. — Nathan a desconcertava, mais pela maneira como a 

encaravado que pela casualidade das palavras. — Sei me cuidar muito bem em situações semelhantes, 
acredite-me. 

 Oh, acredito, juro! Você foi notável, enfrentando a sra. Canning. Mas não acha que a vida se tornaria 

mais fácil se os aventureiros pensassem que você tem um namorado? 

 Pode  ser...  —  Geórgia  respondeu,  indecisa.  No  íntimo,  não  gostava  nem  um  pouco  do  rumo  da 

conversa. — Entretanto, não tenho namorado. 

 Sei  disso.  —  Ele  suspirou,  impaciente.  —  E  você  também,  mas  ninguém  mais  precisa  saber, 

entendeu? 

-

—  Quer  dizer...  —  A  ideia  era  tão  ridícula  que  Geórgia  sorriu,  sem  graça.  —  Não  me  diga  que  está 

pensando que você e eu... isto é, nós dois... 

 Exatamente. 

 Ora, mal nos conhecemos! Eu nem havia notado sua presença no prédio até hoje! 

 Que importância tem isso? Se quer saber, eu a vi muitas vezes, embora você tenha se recusado a 

me notar. 

 Para falar a verdade, eu o vi, sim. Apenas uma vez, de relance. 

 Ufa, finalmente confessou! Que bom! 

 Oh,  sinto  muito.  Mas  veja,  eu  tentava  me  recuperar  de  um  coração  partido  e  de  um  estômago 

enjoado... 

Nervosa, Geórgia riu. Acabara de fazer uma piada da própria desilusão. 
— Bem, pela quantidade que comeu agora, acho que seu estômago já sarou e... — Ela fez um gesto com a 

mão, querendo protestar. — Espere, deixe-me terminar. Não acha que para curar corações partidos nada 
melhor  do  que  diversão?  Com  muita  diplomacia,  isto  é,  usando  luvas  de  pelica,  podemos  dar  o  troco! 
Imagine como Myra Canning e a sociedade de Raqat irão se sentir quando perceber que enfiaram os pés 
pelas mãos? 

—  Bem,  eu  adoraria,  mas...  —  Geórgia  hesitou.  Sua  cabeça  estava  confusa,  tentando  pesar  todas 

aquelas ideias conflitantes. E havia um ponto que a intrigava mais do que a proposta. 

 Então, estamos combinados? — ele insistiu. 

 O que você ganha  com isso, Nathan? Para ser sincera, não tem  cara de filantropo para dedicar-se  a 

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uma ação humanitária e prejudicar sua reputação, ajudando-me. E tampouco me conhece. 

 Minha reputação?! — ele zombou. — Duvido que valha a pena salvá-la! No entanto, você tem razão, existe 

um interesse. Além de ajudá-la, claro, há alguém que quero desencorajar. 

 Oh, certamente! Os homens são sempre perseguidos contra a vontade deles! 

 Eu não disse isso — Nathan contestou, achando graça na indignação dela. — Você tem de concordar 

que,  em  algumas  circunstâncias,  os  homens,  assim  como  as  mulheres,  são  obrigados  a  fugir  de  alguns 
ataques indesejáveis. — Ele se debruçou sobre a mesa e tocou de leve a ponta do nariz de Geórgia. — O 
que estou sugerindo é uma boa saída para nós dois. De qualquer forma, aí está minha proposta. Então, o 
que me diz? 

Ainda desconfiada, ela fixou em Nat um olhar pensativo. Só tinha uma desculpa para recusar a proposta. 

Um argumento que ele não poderia negar. 

 Veja, não sei se daria certo. Vou ficar em Raqat só mais duas semanas. 

 Não  necessariamente  —  ele  falou  com  voz  suave.  —  Isso  só  depende  de  você,  Geórgia.  Pode 

permanecer aqui pelo tempo que quiser, não é? 

 Acho que não é uma boa ideia, Nathan — ela respondeu depressa. — E, com certeza, não serei abordada 

novamente. 

 Não?! — Ele olhou com malícia para Geórgia. — Se eu  fosse  você,  não  estaria  tão  certo.  Ainda 

mais vestida desse jeito! 

 O que  há  de errado  com minhas roupas? — Ela  abaixou os  olhos  para  examinar-se.  A  blusa  era  tão 

fechada quanto um hábito de freira! 

 Eu  não  disse  que  havia  algo  errado...  Muito  pelo  contrário,  você  está  linda.  E,  se  andar  por  aí 

vestida desse jeito, todos os homens frustrados desse lugar, solteiros ou não, ficarão apaixonados. 

Geórgia sorriu, enrubesceu e, sem se dar conta, gostou de ouvir o elogio, apesar de não acreditar no que 

ele acabara de afirmar. 

 Ora, vesti esta roupa especialmente para... 

 Sim? — Nathan insistiu, sorrindo com malícia, diante da hesitação dela. 

— Oh, 

esqueça! 

— 

Geórgia 

tentou 

desconversar. 

Como pudera ser tão ingénua e tola a ponto de cair na armadilha que ele preparara? 

 Não percebeu como os homens das outras mesas se viraram para vê-la quando chegamos? 

 O quê?! — Ela franziu a testa, procurando concentrar-se. 

 Esse  penteado,  Geórgia...  —  Nathan  estendeu  o  braço  para tocar  a trança loira,  caída sobre o ombro 

dela.— Alguns homens consideram irresistível o tipo colegial. 

Evitando  encará-lo,  ela  se  aprumou  para  fugir  ao  toque  inibidor  da  mão  máscula.  Bebericou  o  vinho, 

pensativa, e depois disse: 

—  Sabe, sempre desconfiei que alguns homens têm problemas psicológicos misteriosos. 
Os lábios de Nathan tremeram com vontade de rir. 

 Bem, não venha me dizer depois que  não a  avisei! — Após uma breve pausa, ele prosseguiu, com 

suavidade:  —  Mas  você  ia  explicar  por  que  escolheu  essa  roupa,  e  eu  a  distraí.  Especialmente  para  o 
quê, Geórgia? 

 Oh! — De novo, ela enrubesceu. — Ora, não sei. Creio que para enaltecer meu ego e me sentir mais 

forte.  Quando  disse  que  tinha  uma  proposta,  eu  não  fazia  ideia  do  que  se  tratava  e  então  resolvi  usar 
minhas armas femininas. 

Sem sorrir, ele a observou de maneira quente e profunda, provocando-lhe um arrepio. 
—  Estou contente por ter pensado assim, Geórgia. Tão contente que seria uma pena... 
Do que ele falava? Ela queria perguntar, mas a voz não saía. O olhar de Nathan parecia hipnotizá-la. 

Talvez fosse a luz da vela sobre a mesa que causava aquele magnetismo. 

 Como? O que seria uma pena? — ela finalmente indagou, com voz fraca. 

 Esconder-se. Você precisa aparecer um pouco mais. Que tal darmos uma volta após o jantar? Em 

geral, há um conjunto tocando no clube a esta hora. Poderíamos provocar a grande decepção agora mesmo! 

De certa forma, a resposta de Nathan a desapontara. Mas por quê? Qual o motivo de sua expectativa? 

Por  mais  que  pensasse,  não  encontrava  uma  resposta  concreta  para  a  súbita  excitação  que  a  dominava 
naquele momento. 

 Você quis dizer... — ela vacilou. 

 Apenas  isso,  Geórgia.  Por  que  não  terminamos  a  noite  dando  uma  passada  pelo  clube,  antes  de 

voltarmos ao apartamento? Proporcionaríamos ao pessoal um assunto para conversarem... 

 E se Grev estiver lá, com a mulher? 

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 E daí? Acabará encontrando com eles mais cedo do que imagina. Na verdade, ficarei desapontado 

se eles não estiverem no clube. 

 Acho  que  ainda  não  estou  pronta  para  esse  encontro,  Nathan. Não se esqueça de que tudo aconteceu 

hoje de manhã. 

O  lembrete  servia  mais  para  ela  própria  do  que  para  Nathan,  pois  começava  a  ficar  tranquila,  a  se 

esquecer das humilhações pelas quais passara. 

—  Foi um dia longo para você, eu sei. Mas não está cansada, certo? 
Ela deu um largo sorriso. 

 Não!  Descansei  bastante  esta  tarde.  A  cama de  seu  apartamento é muito mais macia do que a da 

casa de Pete! Mal encostei a cabeça no travesseiro e já adormeci. 

 Então?  Estamos  decididos?  Seria  melhor  irmos  hoje,  porque  amanhã  partirei  para  a  Suíça  por 

alguns dias. 

 Suíça?! 

Geórgia desviou o olhar para não demonstrar seu desapontamento. Por algum motivo inexplicável, não 

se sentia eufórica, mesmo tendo consciência de que o apartamento maravilhoso ficaria só para si. 

— Vou a uma conferência — ele explicou, gentil. — E eu viajaria mais tranquilo se a acompanhasse ao 

clube hoje. Detesto deixá-la à mercê de Myra Canning. 

Geórgia nada comentou, e ele lhe segurou as mãos, antes de questionar: 
—  E 

então? 

Enfrentamos 

inimigo 

ou 

batemos 

em 

retirada? 

A pretexto de pegar algo em sua bolsa, ela retirou as mãos de cima da mesa. O conta to com Nathan lhe 
provocava sensações estranhas. 

 Bem, colocado dessa forma... não vejo como recusar o convite! 

 Não? 

 Ainda  não  lhe  contei,  mas  sou  filha  de  um  soldado.  E  o  certo  é  enfrentar  o  inimigo,  como  você 

disse. 

 Boa garota. E assim que eu gosto! 

Em seguida, ele chamou o garçom e pagou a conta. Depois, segurou o braço de Geórgia, com um sorriso 

irresistível. 

—  Podemos ir? 
Ela concordou, retribuindo o sorriso. Na verdade, o que seu coração queria o tempo todo era sentir a 

segurança e o conforto de estar ao lado de um homem como Nathan. 

 
CAPITULO III 
 
Nathan estacionou o carro no pátio do clube, e, enquanto caminhavam para a sede, Geórgia teve vontade 

de desistir do plano. De repente, ela percebeu que suava frio. Seria de covardia? Não. Pensando bem, não era 
apenas covardia ou medo. Quem não se abalaria tendo passado por tantas situações humilhantes como ela nos 
últimos tempos? Decepções que talvez nem o tempo curasse? 

Oh, que tolice a sua em concordar com Nathan! 
Logo ao entrarem na sede, permaneceram perto da porta, de onde tinham uma visão perfeita do salão e 

do conjunto tocando no palco. 

Apenas  por  um  segundo,  Geórgia  pensou  nos  Canning  e  chegou  à  conclusão  de  que  não  havia  motivo 

para  sentir-se  humilhada.  Uma  história  bem  diferente  acontecera  com  Jor-dan  Severs,  seu  ex-patrão.  A 
simples  lembrança  daquele  nome  a  fazia  tremer  de  ódio  e  de  vergonha.  Devia  ter  suspeitado  de  Jordan, 
claro! Tudo indicava a existência de uma esposa bem guardada em algum lugar, contudo... Como desculpar a 
si própria? No fundo, evitara certas perguntas e... 

Lágrimas afloraram em seus olhos, e ela imediatamente se virou para sair, porém Nathan a impediu, 

segurando seu braço com firmeza. Ele devia ter notado seu ar abatido. 

— Coragem! Vamos iniciar a execução de nosso plano. 
Geórgia ergueu os olhos tristes e amedrontados, sabendo muito bem a que plano ele se referia. Nathan, 

no entanto, sorriu com simpatia, incentivando-a. Depois, pegou-a pela mão, conduzindo-a gentilmente por 
entre as mesas para a pista de dança. 

Ao sentir os braços de Nat em sua cintura e a segurança com que ele dançava, Geórgia não se importou 

com mais nada, aderindo à brincadeira. Dançavam de rosto colado, como se fossem namorados. 

De  repente,  o  conjunto  iniciou  uma  música  familiar,  e  ele  falou  propositadamente  em  voz  alta  para 

todos à volta escutarem: 

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 Geórgia, querida, escute... O conjunto está tocando nossa música! 

 Oh, sim! — Ela o fitou com um olhar sonhador e depois sussurrou: — Se essa é nossa música, 

então todos terão dúvidas quanto a nosso namoro, Nat. 

Por alguns segundos, ele olhou fixamente para seus lábios, e ela quase perdeu o passo, sentindo uma espécie 

de vertigem. 

 Não estou conseguindo identificá-la... — ele murmurou finalmente. 

 Identificar o quê, Nat? Ah, o nome da música? 

 Não era sobre isso que falávamos, querida? 

 Bem... é algo parecido com "Por que não confia em mim, baby?" Lembra-se, fazia parte das paradas de 

sucesso de alguns anos atrás? Só não consigo lembrar o nome da banda. 

 Não faz mal. O título da música é mais apropriado do que imagina. 

Geórgia  ia  zombar,  quando  sentiu  as  mãos  fortes  escorregarem  até  seus  quadris,  enquanto  os  corpos 

moviam-se em perfeita sincronia. 

—  De  fato,  não  deveria  confiar  em  mim,  baby  —  ele  sussurrou,  perto  de  seu  rosto.  —  Nem  um 

pouquinho! 

Naquele instante, ela percebeu a aproximação de um casal muito agarrado e o olhar crítico e perscrutador 

de Myra Canning. Sem perceber, perdeu o ritmo, mas Nat continuou como se nada tivesse acontecido. 

—  Ou, talvez, deva confiar, baby — Nathan sussurrou de novo. — Deu certo, Geórgia. Myra fitou-nos 

com os olhos arregalados. Oh, foi maravilhoso! Vamos tomar um drinque? 

Segurando-a pela cintura, ele a levou para o bar e apresentou-a a um grupo de amigos. Havia um casal 

neozelandês, duas americanas e os outros eram ingleses. 

Se os homens foram receptivos, as mulheres, com olhares disfarçados, examinaram-na da cabeça aos pés. 

Principalmente,  uma  das  americana.  Rindo  e  conversando,  a  moça  parecia  analisar  suas  roupas  e  o 
penteado. 

Geórgia,  no  entanto,  não  deixou  por  menos.  Por  telepatia,  como  só  as  mulheres  sabem  fazer,  as  duas 

passaram a medir-se sem os demais perceberem. 

O olhar da americana era insistente, e Geórgia começava a ficar inquieta e sem graça quando se lembrou 

do  acordo  que  fizera  com  Nat.  Portanto,  devia-lhe  um  favor.  Recompondo-se,  Geórgia  apoiou  a  mão 
displicentemente no braço dele. No mesmo instante, Nat lhe dirigiu um sorriso sedutor  e,  para  sua grande 
perplexidade, pegou-lhe a mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo. 

De repente, ela se deu conta de que a cena havia despertado a curiosidade de todos e, em particular, de 

sua examinadora. Realmente, os olhos miúdos e hostis de Melaine Jacobs não perderam um só detalhe! 

A agressividade da moça era tão explícita que Geórgia teve um súbito pensamento, do qual não gostou 

nem um pouco. Nathan havia dito que precisava desencorajar uma mulher. E se aquela mulher estivesse ali 
naquele momento? E se fosse Melaine? Nathan a apresentara como uma velha amiga! Era americana, como 
ele, e ambos haviam estudado em Princeton! As coincidências eram tantas... 

Dave, um dos neozelandeses aproximou-se, interrompendo seus pensamentos. 
— Tenho a impressão de tê-la visto outro dia na casa dos Kimberley. Estou certo? 
Geórgia  lhe  devolveu  um  sorriso  amável,  grata  pela  oportunidade  de  virar-se  de  costas  para  Melaine, 

fugindo assim da análise persistente. 

 Estive lá, sim. Eles viajaram para Santiago, devem estar se divertindo com a filha! 

 E você... se bem me lembro, alugou o apartamento dos Taylor. Eles também foram viajar, não? 

 Oh, sim, mas... 

Ela sentiu as faces quentes pelo rubor. Como iria explicar a situação sem ficar embaraçada ou demonstrar 

culpa? Desesperada, olhou para Nathan, que, notando imediatamente sua perturbação, virou-se para Dave. 

—  Na verdade, houve uma grande confusão com as datas, Dave — explicou, com naturalidade. — Pete 

regressou  antes  do  esperado,  e,  por  isso,  adotamos  a  solução  mais  simples  e  óbvia.  Geórgia  mudou-se 
para meu apartamento. — E, virando-se novamente para Geórgia, beijou-a na face. — Simples, não foi, 
querida? 

Ela  apenas  concordou  com  um  gesto  de  cabeça.  Se  pudesse,  faria  um  buraco  no  chão  para  fugir  dos 

olhares es-tupefatos que lhe foram enviados. 

Aquelas  palavras  tiveram  o  efeito  de  uma  bomba,  principalmente  para  Melaine.  Sua  expressão  perplexa 

deixou evidente que não gostara nem um pouco da solução simplista de Nathan. 

Foi um alívio quando mudaram de assunto, passando a conversar sobre teatro, por causa da chegada de 

um  grupo  de  atores  da  Inglaterra  a  Raqat.  Além  de  se  recompor,  Geórgia  fez  comentários  inteligentes  e 
notáveis  sobre  o  teatro  vaudeville.  Explicou  a  todos  que  esse  tipo  de  teatro,  também  chamado  teatro  de 

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variedades, era constituído por peças leves e situações imprevistas, com a participação do público. Melaine, 
de propósito ou não, opôs-se a todos, argumentando com exaltação. 

Percebendo o clima tenso, Nathan disse a Geórgia que já era tarde, e  então se despediram  dos  amigos  e 

foram embora. 

Imersa em seus pensamentos, Geórgia quase se chocou com Grev Canning, que tomava um drinque no 

balcão do bar, na companhia da esposa. 

—  Olá, 

Grev 

— 

ela 

cumprimentou 

depois 

sorriu 

vaga  

mente para Myra, que parecia pouco à vontade. 

Geórgia ficou espantada com sua própria espontaneidade. Nunca imaginara ser capaz de tanta frieza. No 

entanto, irritou-se quando Nat começou a conversar com o casal e ouviu o convite de Grev para tomarem 
um drinque juntos. 

—Talvez num outro dia, Grev — Nat respondeu. — Hoje, estamos exaustos e loucos para nos deitar. 
Mais uma vez, Nat surpreendia a todos com a resposta imprevisível, inclusive a Geórgia. A fisionomia 

atónita do casal deu a ela uma vontade imensa de rir, mas conteve-se até saírem do clube. 

Porém, assim que transpuseram a porta do salão, Geórgia deu um grito eufórico e, rodopiando de alegria, 

fingiu hastear a bandeira da vitória. 

 Oh, foi tão engraçado, Nat! Viu a cara deles? 

 Engraçado?!  —  Ele  a  segurou  pela  cintura,  olhando-a  intensamente.  —  Trata-se  de  uma 

conspiração para confundir o inimigo, Geórgia. De um plano estratégico, e não de uma diversão. 

 Oh,  desculpe-me,  meu  amo  —  ela  ironizou,  aproveitando  para  se  afastar.  Aquele  contato  dava-lhe 

arrepios. — Não imagina como me sinto bem agora. A raiva que sentia pela mulher de Grev desapareceu. 
Viu a cara dela? — perguntou de novo e depois ficou séria. — Acha mesmo que nosso plano deu certo, 
Nathan? 

 Claro! Nosso sucesso foi total, querida. 

 Tem razão. 

Algo na expressão de Nát a fez recordar-se da fisionomia perplexa de Melaine quando ele contou a todos que, 

com a chegada de Pete, ela havia se mudado para a cobertura. Que tipo de relacionamento existiria entre Nat e a 
garota americana? 

 Quando  me  apresentou  a  Melaine...  —  Geórgia  hesitou,  não  querendo  parecer  muito  interessada  — 

disse que a conhecia bem, não? 

 Ela é o que podemos chamar de... uma velha amiga da família. 

 Ah, sim! 

Infelizmente, suas suspeitas se confirmavam. Mas... infelizmente, por quê?, ela pensou, desanimada, ao 

entrar no carro. Não havia explicação para seu desânimo e muito menos para a euforia de momentos antes! 

O plano estratégico, como Nathan o chamara, havia abalado a reputação de Geórgia. E ela começava a 

cair em si, abismada com a própria conivência, pois sempre dera muita importância a sua reputação, jamais 
aprovando a constante troca de namorados das colegas da faculdade. 

Sim, fora complacente, naquela noite, ao permitir que a sociedade a julgasse uma mulher volúvel! Mal 

sabiam eles que estava bem longe de ser esse tipo de pessoa. 

Durante  todo  o  trajeto  de  volta,  ela  se  manteve  calada,  meditando  sobre  sua  vida  e  os  últimos 

acontecimentos.  Suas  incertezas  e  indignações  haviam  alcançado  o  ponto  máximo  quando  desceram  do 
elevador. 

Assim que Nathan abriu a porta do apartamento, ela entrou, furiosa. 

 O que as pessoas pensarão de mim, Nathan? 

 Ora! Exatamente o que esperávamos que pensassem que você e eu somos um só! 

 Oh, Céus! Pois é disso que estou falando! 

 É tão importante assim o que os outros pensam, Geórgia? Mesmo que fosse verdade, não se trata de 

nenhuma catástrofe. Ao contrário, com o tempo, vai salvá-la de muita dor de cabeça. 

 Mas foi tudo invenção! Desonestidade! 

 Bem... — Ele suspirou, jogando a jaqueta com displicência sobre o sofá. — Só existe uma maneira de tornar 

esse assunto honesto. Porém, não pretendo levantar a questão agora. 

 Uma maneira — ela repetiu, distraída, abaixando-se para pegar a jaqueta que caíra no chão. — E 

qual é... 

De repente, compreendeu a que maneira ele se referia e ergueu a vista, desconfiada, deparando-se com o 

olhar cínico de Nathan. 

 É isso mesmo — ele afirmou, vendo-a enrubescer. — Ei,  fique  calma,  sua  virtude  não  está  sendo 

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ameaçada. 

 Ora,  não  estou  nervosa!  Sei  muito  bem  que  não  corro  perigo  e  que  você  não  pretende...  —  Não 

estava  nervosa,  ela  pensou,  mas  de  mau  humor.  E  por  quê?  —  Por  favor,  não  me  trate  como  uma 
adolescente ingénua, sim? 

 Então, não aja como uma. 

Nathan se dirigiu ao bar, despejou um pouco de água tónica num copo e ofereceu-o a ela. Diante da 

recusa de Geórgia, ele se apoiou no balcão e examinou-a com um olhar duvidoso, antes de beber o conteúdo 
do copo de uma vez. 

—  Desculpe-me, não percebi que agia assim — Geórgia falou, sem graça. 
Ele apenas continuou fitando-a, em silêncio. Pelo jeito, Nathan já se arrependera de tê-la acolhido no 

apartamento, Geórgia pensou, sentindo um nó na garganta. 

—  Bem, obrigada pela noite... interessante e boa noite —- ela acrescentou, controlando-se para não 

chorar. 

Geórgia já se virava para sair na direção de seu quarto, quando ele disse, interrompendo-a: 

 Você deve estar cansada. — Suspirou e colocou o copo sobre o balcão. — Também estou, e, como já a 

avisei,  amanhã  viajarei  para  Basle,  na  Suíça.  Vou  participar  de  uma  conferência  sobre  ecologia.  E 
engraçado  como  os  conferencistas  se  preocupam  tanto  com  o  futuro  ecológico  do  planeta  e  viajam  de 
avião, sem sequer notar quanto gastam das reservas naturais na própria locomoção. 

 Realmente. Eu nunca havia pensado sobre o assunto. Vai ficar fora por muito tempo? 

 Apenas durante quatro dias. E gostaria que ficasse à vontade no apartamento,  como se  fosse sua 

própria  casa.  Enna  a  ajudará  no  que  for  preciso  e  se,  por  acaso,  quiser  sair  ou  passear,  peça  a  Ismail 
para levá-la. 

 Obrigada, mas vou procurar não aumentar o trabalho deles. 

 Ora, não seja tão humilde! — Nathan sorriu, aparentemente refeito do mau humor. Depois, num gesto 

afetuoso, 

puxou-lhe 

trança 

de 

leve. 

— 

Não 

combina 

com 

você, 

sabia? 

Seria falta de personalidade! 

 Verdade?! Sabe, estou contente por não ter gasto meu dinheiro com um tratamento psiquiátrico, antes 

de ter vindo para cá. Você possui uma percepção excelente. 

 Minha análise foi perfeita, não? 

Ela riu, apesar de estar levemente irritada. 
—  Contraditória,  eu  diria.  Num  momento,  diz  que  pareço  uma  adolescente  ingénua  e,  no  outro,  uma 

mulher diabólica que gosta de fazer charme. 

 Eu disse isso?! 

 Algo parecido. 

 Então, perdoe-me. Não costumo ser tão direto e rude. 

 Oh, agora quem está surpresa sou eu! 

 Sinto  muito,  mereço  a  repreensão.  —  Ele  riu,  deliciado.  —  Deixei-me  levar  por  uma  irritação 

momentânea. 

 Tudo bem. Todos nós sofremos desse mal uma vez ou outra. 

 Bem, acho melhor esquecermos esse episódio. Então, estou perdoado? 

 Desde  que  fui  acolhida  nesta  casa  graças  a  sua  boa  vontade,  sim,  está  perdoado.  E  vou  procurar 

seguir as regras da casa. 

 Que diplomacia! 

Geórgia  fez  uma  reverência,  aceitando  o  elogio.  Estava  gostando  da  brincadeira.  Respostas  vivas  e 

espirituosas sempre foram seu jogo preferido. Além disso, parecia que flertavam. Seria possível? 

De repente, ela ficou séria. Precisava tocar num assunto delicado. Um assunto que já deveria ter discutido 

com Nathan antes de haver concordado em ficar no apartamento dele. 

 Nathan, preciso saber quanto vou pagar pelo aluguel do quarto, pelas refeições, enfim, por tudo. 

 Não se preocupe com isso. 

 E impossível. 

 Ora,  está  sendo  antipática  e  sem  personalidade  outra  vez!  Só  para  tranquilizá-la,  vou  contar  um 

segredo.  Também  não  pago  pelo  apartamento.  Este  prédio  pertence  ao  sheik  e  moro  aqui  por  cortesia. 
Como vê, seria uma falta de ética de minha parte cobrar de você. 

 Enquanto isso, meu débito com você vai aumentando? 

 Claro. É parte de meu plano. Não havia desconfiado ainda?! Logo farei minha primeira cobrança. 

 E a ética? 

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De repente, ele ficou sério, fitando-a mais de perto. 
—  Conte-me,  Geórgia,  qual  foi  o  verdadeiro  motivo  que  a  trouxe  a  Raqat?  Para  ser  sincero,  essa 

história de passar por tola, por causa de um homem, não me convenceu. 

 Ora, é uma história simples e banal, como tantas outras! É comum isso acontecer com as mulheres, 

não? 

 Acredito  que  todos  nós  passamos  por  tolos  às  vezes.  Mas você?! E por causa de um homem? Acho 

difícil acreditar. 

 Oh, muito obrigada pelo voto de confiança! — ela caçoou, subestimando-se. — Diga-me, então, o que 

notou em mim de diferente da maioria das mulheres? Com certeza, não posso ser tão... 

 O  olhar,  a  personalidade,  o  estilo...  —  Nathan  a  interrompeu, encarando-a com intensidade. — Eu 

poderia continuar enumerando qualidades, mas não vou. Você mencionou algo a respeito de seu patrão e... 

Geórgia suspirou, desapontando-se quando ele parou de elogiá-la. 

 Bem, foi uma dessas situações estúpidas ou ridículas, tanto faz — ela começou, com relutância. — O 

fato é que, quando uma pessoa tem vinte e seis anos e supostamente deixou de ser uma garota ingénua, 
acaba fazendo papel dê tola, concorda? 

 Sim — ele disse simplesmente. 

 Pois  bem,  trabalhei  para  esse  homem  durante  seis  meses.  Na  época,  o  fato  de  eu  ter  sido 

contratada por uma griffe  famosa  parecia  ser  a  grande  oportunidade  de  minha  vida.  Ainda  mais  sendo 
em Londres. Jordan, meu chefe, enaltecia meu ego, elogiando meus desenhos. Ele me fez crer que eram 
muito melhores do que os dos outros, quando na verdade não eram. — Ela deu um sorriso triste. — Tudo 
não passava de uma preparação para o golpe final. 

 E você também não sabia que ele era casado, lógico. 

 Oh,  como  fui  ingénua!  Agi  tal  uma  adolescente,  como  você  me  comparou.  Uma  adolescente 

perdidamente  apaixonada.  Acho  que  por  isso  não  gostei  de  sua  comparação.  Enfim,  por  mero  acaso, 
descobri  que  ele  tinha  mulher,  filhos  e  uma  mansão  no  campo,  de  onde  a  família  quase  não  saía.  Não 
participavam da vida glamourosa de Jordan. Ele praticamente os escondia. — Geórgia se virou de costas 
para esconder os olhos rasos d'água. — É uma história banal como tantas outras, como pode ver. 

Mas  não  fora  tao  banal  assim,  ela  pensou,  caminhando  devagar  para  a  sacada.  Pensativa,  debruçou-se 

sobre a grade de proteção, admirando as luzes cintilantes da cidade e o brilho do mar ao longe. 

Não, jamais dividiria com alguém seu drama íntimo e particular. 
Lembrava-se  perfeitamente  daquele  dia  terrível.  Logo  pela  manhã,  bem  cedo,  havia  acontecido  uma 

situação de emergência na loja, que somente Jordan poderia resolver. A secretária lhe dera  um número 
de telefone, pedindo a ela para chamá-lo. 

Uma  criança  atendera  à  ligação  e,  em  seguida,  a  mãe.  Enquanto  falavam,  Geórgia  ouvira  o  choro  de  um 

bebé.  Nesse  momento,  imaginara  um  lar  agitado,  com  as  tarefas  do  dia-a-dia,  principalmente  na  parte  da 
manhã. Talvez tivesse se enganado de casa, pensara, quando a mãe pedira à criança: 

—  Charlotte, meu bem, corra ao quarto e diga ao papai para atender ao telefone. Alguém quer falar 

com ele. 

Passados  alguns  segundos,  em  estado  de  choque,  Geórgia  ouvira  a  voz  de  Jordan,  alta,  clara  e  nítida.  Não 

houvera engano. 

Controlando-se, dera o recado da loja e depois acrescentara, com a voz embargada de ódio: 

 E, Jordan... esqueça o Caribe. Eu não sabia que você tinha outros compromissos. 

 Como?! Ora, não se preocupe, Geórgia... — ele sussurrara.  — Não posso  falar  agora, telefonarei 

numa hora mais conveniente. 

 Acho  que  sua  mulher  está  preparando  seu  café  da  manhã,  Jordan.  Sinto  o  cheiro  do  bacon 

tostado, juro. 

Assim que desligara o telefone, ela recolhera de cima da mesa e das gavetas todo seu material artístico, 

inclusive os desenhos, e voltara para casa. 

A  tarde,  Jordan  ligara  para  ela  e  tentara  de  todas  as  formas  fazê-la  voltar  atrás  em  sua  decisão  de 

não viajar mais para o Caribe. Até mesmo argumentara que já tinha ás passagens e que, caso desistissem, 
ele perderia o dinheiro. 

—  Mas  você  não  precisa  perder  nada,  Jordan  —  Geórgia  respondera,  com  candura.  —  Pode  levar 

outra pessoa com você. Sua mulher, por exemplo. 

 Não seja ridícula! 

 Bem, e por que não Wendy, sua secretária? Desconfio que ela queria que eu soubesse que é casado e que 

tem filhos. 

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Para não ouvir mais a conversa fiada de Jordan, ela apoiara õ fone na mesa e o deixara falando sozinho. 

Não quisera correr  o  risco  de  perder  a  cabeça  e  acabar  gritando  feito  uma mulher traída e  abandonada. 
Não tinha a menor ideia de quanto tempo ele gastara com justificativas, sem saber que ela não o escutava. 

Geórgia odiava-se por ter sido tão ingénua a ponto de não suspeitar que Jordan devia sair com Wendy 

também.  Fora Wendy  quem havia lhe pedido para telefonar para ele! Apesar  de  estranhar  o  pedido,  não 
desconfiara de nada, nem por um momento sequer. Só depois, ao chegar em casa, lembrara-se de ter notado 
uma expressão esquisita no rosto da secretária. 

Três dias depois, Geórgia viajara para Raqat. 
Nathan aproximou-se da balaustrada, trazendo-a de volta à realidade. 
—  Você vai superar tudo isso, prometo, Geórgia — falou suavemente. 
Virando-se, ela sorriu. 

 Promete?! 

 E por que não? Todos nós nos arrependemos de algo que nunca deveria ter acontecido... 

Geórgia o fitou. Talvez ele quisesse lhe contar algum segredo. Talvez até sofresse e gostaria de desabafar, 

mas, naquele momento, não queria ouvi-lo. Sentia-se vulnerável e, se não fugisse dali rapidamente, faria papel 
de tola outra vez. 

 É  verdade,  Nathan  —  concordou  por  fim.  —  Bem,  preciso  dormir  um  pouco.  O  dia  foi  muito 

longo. 

 Oh, claro! 

Ele a acompanhou até a porta do quarto e beijou-lhe a face. 

 Boa noite, Geórgia. 

 Obrigada, Nat. Você praticamente salvou minha vida hoje, 

e  nunca  vou  esquecer.  Boa  noite.  —  De  repente,  lembrou-se  da  viagem  à  Suíça.  —  Vejo-o  amanhã, 

antes que parta? 

— Acredito que não. Vou sair muito cedo, Geórgia. Mas não  esqueça  que Enna e  Ismail  estarão  a sua 

disposição. E, quando eu voltar, pretendo levá-la a uma expedição de mergulho. Quero que fique acertado 
desde já. 

Enquanto  lavava  o  rosto,  antes  de  deitar-se,  Geórgia  pensava  sobre  a  expedição  de  mergulho.  Como 

participaria  dessa  atividade,  se  não  tinha  prática?  Quando  ele  voltasse,  faria  com  que  desistisse.  E, 
naquele momento, uma outra preocupação surgiu em sua mente: a causa das sensações estranhas que vinha 
sentindo. 

Quando  Nathan  se  inclinara,  encostando  os  lábios  em  seu rosto, num beijo inocente  e carinhoso, ela 

foi obrigada a controlar o desejo súbito de abraçá-lo e de se aninhar no aconchego do peito másculo. 

Pobre Nathan!, ela pensou, rindo. Ele ficaria chocado com a atitude dela e, provavelmente, iria se trancar 

no quarto, temendo outras investidas. 

Apesar  do  rápido  momento  de  descontração,  Geórgia  ficou  acordada  por  muito  tempo,  ponderando  o 

significado de sua reação e, infelizmente, não chegou a conclusão alguma. 

Cada vez que pensava nos lábios macios de Nat, ondas de prazer espalhavam-se pelo corpo dela. Outras 

lembranças  intrigantes  juntaram-se  a  essa:  o  toque  da  mão  quente  de  Nathan  em  sua  pele  durante  o 
jantar, o cheiro agradável da colónia masculina... 

Aquele perfume seria a lembrança de uma noite especial para o resto de sua vida: a noite em que finalmente 

esquecera  Jordan  Severs.  E  por  que  o  havia  esquecido  não  fazia  a  menor  diferença.  Um  dia,  com  certeza, 
Geórgia descobriria... 

De qualquer forma, seria eternamente grata a Nathan Trehearn por sua contribuição. 
Satisfeita  por  ter  superado  a  dor,  suspirou  profundamente.  Depois,  afundou  a  cabeça  no  travesseiro, 

colocando a mão na face, onde fora beijada. 

 
CAPITULO IV 

Gr

eórgia  estava  adorando  passar  alguns  dias  I  sozinha  no  apartamento  de  Nat.  Além  de  descansar  e 

desfrutar a vista maravilhosa, o fato de ter um carro a sua disposição fez uma diferença incrível no apro-
veitamento das-férias. 

Seguindo ao pé da letra a recomendação do "amo", Ismail se mostrava ansioso para lhe agradar, levando-

a  para  conhecer  o  centro  antigo  de  Raqat  e  lugares  que  nunca  teria  encontrado  sem  um  bom  guia.  Ela 
sempre  carregava  uma  prancheta  e,  apoiando-a  no  colo,  desenhava  durante  horas,  retomando  um  antigo 
hobby, 

que interrompera ao começar a trabalhar. Adorou desenhar as casas antigas, as ruas e os becos 

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misteriosos, assim como os domos das mesquitas. Realmente, aquele era um mundo exótico e fascinante. 

Porém, nunca descobriu o que Ismail fazia enquanto a aguardava. Uma única vez, viu-o sentado num 

bar,  com  um  grupo  de  homens.  Tomavam  café  e  discutiam  com  ênfase,  como  se  fossem  resolver  os 
problemas do mundo. 

Sem  ser  vista,  ela  aproveitou  para  fazer  um  esboço  rápido  do  motorista,  captando  apenas  os  traços 

marcantes  de  sua  fisionomia:  os  cabelos  pretos  sob  o  turbante  de  veludo  azul,  o  nariz  adunco  e  as 
sobrancelhas bem delineadas. Depois de pronto, examinou o desenho e sentiu-se orgulhosa. Qualquer um o 
reconheceria entre os amigos. E, quando o mostrou a ele, a caminho de casa, Ismail sorriu, eufórico, emo-
cionando-a também. 

De  todos  os  lugares  que  conheceu,  a  rua  principal  da  cidade foi sua preferida. Parecia um caldeirão 

fervente. Pessoas recém-chegadas do interior, em ônibus carcomidos, misturavam-se aos sofisticados turistas, 
à procura das últimas novidades nos bazares coloridos. 

Além de desenhar, Geórgia fotografava tudo o que via, para registrar as sombras mágicas e ilusórias que 

a  percepção  humana  não  conseguia  captar  inteiramente.  Infinitas  nuanças  de  marrom  colocavam  em 
destaque  o  verde  e  o  azul intenso  nas  diversas  paisagens.  No  entanto,  encantou-se  com  a  cor  exótica do 
amarelo-cítrico,  cujo  tom  associou  à  neblina  londrina:  que  podia  ser  ténue  e  transparente  ao  mesmo 
tempo, permitindo a infiltração de uma luminosidade mística. 

A  semana  transcorreu  rapidamente,  e,  embora  estivesse  se  divertindo,  a  expectativa  do  retorno  de 

Nathan despertou-lhe um excitamento estranho e amedrontador. Então, quando o telefone tocou à noite e 
ela ouviu a voz forte e serena, avisando que não chegaria naquele dia, não conseguiu evitar a decepção. 

 Sinto muito, Geórgia. Terei de passar a noite no Cairo. 

 Oh, 

não! 

— 

exclamou 

em 

seguida 

arrependeu-se. 

Que ridículo! Estava fazendo o papel típico da esposa que se arrumava com esmero para esperar o marido, e 
este lhe dizia para ir dormir porque chegaria muito tarde em casa. 

Erguendo o olhar para um espelho a sua frente, ela suspirou, vendo os cabelos brilhantes, a maquilagem 

delicada e a saia reta e elegante combinando com a blusa de seda, recém-comprada. 

Nat era apenas um amigo, e em hipótese alguma podia deixá-lo perceber seu desapontamento. 

 Pois é, marcaram uma reunião de última hora — ele explicou. 

 Que aborrecimento para você, não? Bem, obrigada por ter telefonado. Vou avisar Enna. 

 Está tudo bem por aí? 

 Sim, tudo em ordem. Ismail foi muito prestativo e me levou para passear todos os dias. Mostrou-me 

vários pontos interessantes da cidade. 

 Otimo. E... — ele hesitou. 

 O quê? 

 Nada... Mas... 

Geórgia esboçou um sorriso. Seria imaginação sua, ou Nathan relutava em despedir-se? Oh, que besteira! 

Só porque estava agitada e feliz ele também deveria estar? 

 Outro dia, conversei com Pete Taylor — ela se lembrou. — Ele me ligou antes de buscar a esposa no 

aeroporto. Queria saber se eu estava bem acomodada aqui. 

 E? 

 Respondi  que  era  muito  difícil  tolerar  o  luxo  de  seu  apartamento,  assim  como  a  responsabilidade 

dos empregados e os passeios de carro. 

Nathan deu uma risada sonora. 

 Você foi maldosa! 

 Imagine! 

 Bem,  prepare-se,  pois  a  partir  de  amanhã  pretendo  mudar  as  regras  da  casa.  E  terá  de  trabalhar  para 

continuar usufruindo o conforto. Chegarei bem cedinho, e iremos mergulhar. 

 Oh, Nat! Não tenho certeza se irei. Faz séculos desde a última vez que mergulhei. 

 Não  aceito  desculpas  e  quero  que  fique  pronta.  Preciso  muito  descansar,  Geórgia.  A  semana  foi 

agitada,  e,  para  mim,  mergulhar  tem  um  efeito  relaxante.  Se  quiser,  podemos  alugar  algumas  fitas  de 
vídeo com documentários sobre mergulho. Garanto que terá inspiração para o resto da vida. 

 Hum... Peixes inspiram o quê? 

 Eles fascinam e incendeiam a imaginação! Quando vir as cores, os movimentos suaves... 

 Tudo bem, você me convenceu. Estarei pronta, prometo. 

 Boa menina. Agora preciso desligar, estão me chamando. Vejo-a amanhã. Chegarei aí junto com o nascer 

do sol. 

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 Não é nesse horário que os duelos acontecem, Nathan? 

 Com certeza — ele sussurrou. — Boa noite, Geórgia. Durma bem. 

 Boa noite, Nat. 

Assim que desligou, ela suspirou profundamente, sentindo um calafrio suave percorrer-lhe a espinha. E 

a única palavra para exprimir aquela sensação era alegria. 

Dirigindo-se à sacada, rodopiou e suspirou de novo, inalando o perfume exótico do Oriente. Por que se 

sentia  tão  excitada?  Nunca  pensara  que  a  expectativa  de  mergulhar  na  costa  de  Aberystwyth  pudesse 
deixá-la exultante. Bem, mas a baía de Cardigan e o mar Vermelho deviam ser tão diferentes  quanto  os 
instrutores  de  mergulho,  Richard  e  Nat.  E  a  grande  diferença  era  que  Nathan  Trehearn,  e  só  ele, 
preenchia uma equipe inteira. 

Rindo  do  próprio  pensamento,  ela  entrou  para  avisar  Enna  da  alteração  de  planos,  como  havia 

prometido. Precisava fazer alguma coisa para ajudar o tempo passar. 

No  dia  seguinte,  Geórgia  apenas  teve  a  confirmação  da  véspera:  mergulhar  no  mar  Vermelho  tinha 

pouca ou nenhuma semelhança com a mesma atividade na costa do Reino" Unido. 

Uma  das  vantagens  era  a  água  limpa,  cuja  temperatura  morna  dispensava  as  incómodas  roupas  de 

borracha.  A  outra,  e  mais  importante,  tratava-se  de  Nat  Trehearn,  que,  demonstrando  um  profundo 
conhecimento do assunto, inspirava confiança. 

Ela  já  devia  ter  desconfiado,  pois,  desde  que  o  conhecera,  ele  sempre  demonstrara  a  mesma 

autoconfiança. 

Pilotava  o  barco  com  firmeza  ao  afastaram-se  do  porto  e,  enquanto  percorriam  a  costa  marítima, 

mostrava-lhe com igual segurança os pontos geográficos mais importantes. 

Porém, mais do que com as habilidades, Geórgia surpreendeu-se com o porte atlético de Nathan. Por que 

a  camisa  dele,  aberta  no  peito,  perturbava-a  tanto,  a  ponto  de  não  conseguir  desviar  os  olhos  daquela 
imagem?  Justamente  ela  que,  como  estilista  de  moda,  estava  acostumada  a  ver  homens  e  mulheres  nus? 
Homens com corpos tão bonitos e bronzeados quanto o de Nathan? 

De repente, ela teve uma vontade louca de desenhá-lo. Pegou o bloco e, observando-o de vez em quando, 

iniciou um esboço. 

 Estamos quase chegando — Nat a avisou de súbito. 

 Como? — Geórgía se assustou e ficou feliz por estar de óculos escuros. — Em quanto tempo, Nat? 

 Em dez minutos. 

Tornando  a  se  concentrar  no  desenho,  ela  percebeu  que  também  era  observada  disfarçadamente  e 

sentiu-se pouco à vontade. 

Naquele  dia,  antes  de saírem  do  apartamento, havia  procurado se vestir com simplicidade. Prendera os 

cabelos num rabo-de-cavalo, passara apenas um batom suave e escolhera um biquini discreto, próprio para 
esportistas. Contudo, quando viu sua imagem refletida no espelho, quase desmaiou de susto. Não entendia 
como um maio de duas peças, preto, que não era cavado, podia ser tão sedutor. Afinal, sempre soubera que 
aquela  cor  era  o  símbolo  da  discrição!  Desesperada,  vestira  uma  camisa  folgada  sobre  o  biquini,  com  o 
intuito de esconder o corpo. Mas, infelizmente, não havia escondido totalmente as pernas esguias. 

 Pronto,  chegamos  —  Nathan  avisou-a  novamente.  —  Deixe-me  ajudá-la  com  a  aparelhagem  de 

mergulho. 

 Dê-me apenas um minuto. 

Depressa, ela se levantou, colocou o bloco no assento que ocupava, com o desenho virado para baixo, e, 

com certo constrangimento, tirou a camisa. Então, Nat se aproximou para prender em suas costas o tanque 
de oxigénio. 

Geórgia precisou de todo seu autocontrole para não suspirar, quando as mãos fortes encostaram em sua 

pele,  testando a tensão e o conforto das alças nos ombros dela. Então, virando-se  para  que  ele  verificasse  o 
encaixe de sua máscara, Geórgia sentiu o coração disparar ao notar que Nathan tinha os músculos do rosto 
crispados, como se também estivesse controlando-se. 

Ainda  faltavam  os  pés-de-pato!  Será  que  a  agonia  não  teria  fim,  ela  pensou,  vendo-o  se  abaixar.  A 

serenidade dele a espantava, porque teve vontade de gritar de prazer quando Nat lhe passou o talco protetor 
nos pés. 

Foi um alívio quando ele se afastou para colocar seu equipamento de mergulho. E, a fim de disfarçar a 

respiração  acelerada,  Geórgia  olhou  para  o  oceano,  fingindo  admirá-lo,  até  a  pulsação  se  normalizar.  O 
esforço era tal que nem notou quando ele ficou pronto. 

— Podemos mergulhar? — Nathan indagou de repente. 
Sem confiar na própria voz, ela simplesmente assentiu, com um movimento de cabeça. E, com um sorriso 

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nos lábios, seguiu as instruções dele. Posicionou-se na lateral do barco e, firmando a máscara junto ao rosto, 
deixou-se cair de costas na água. 

Após  alguns  segundos  de  pânico,  descobriu  que  Nat  estivera  certo.  Mergulhar  era  como  andar  de 

bicicleta: uma vez aprendido, nunca mais se esquecia. 

Segurando-a pela mão, ele a guiou para o rochedo. 
Um mundo fantástico descortinava-se a sua frente, e nada do que Nat pudesse ter dito a prepararia para 

aquilo. Até mesmo um filme seria incapaz de retratar a beleza do mar Vermelho. 

De  tempos  em  tempos,  ele  chamava  sua  atenção  para  algum  detalhe  espetacular,  escrevendo  num 

quadro  à  prova  d'água.  E,  assim,  ela  percebeu  as  ferragens  do  esqueleto  de  um  navio,  praticamente 
encobertas por corais e mariscos. 

De  repente,  um  cardume  de  peixes  transparentes  surgiu  do  fundo  de  uma  caverna.  Ela  se  assustou,  e 

Nathan então escreveu no quadro: "peixes de vidro", "inofensivos" e tentou abraçá-la. Geórgia esquivou-se e, 
sinalizando um pedido de desculpas, observou o cardume com interesse. 

Os milhares de peixinhos pareciam dirigidos por um controle remoto. Primeiro, formaram um círculo denso 

e perfeito e, em seguida, o desenho de uma flecha numa coreografia digna dos mestres do bale. 

Acompanhando  a  corrente  natural  da  maré,  Nat  tornou  a  pegar  a  mão  dela,  contornando  o  navio 

naufragado  para  mostrar  as  escotilhas  de  latão.  Uma  barracuda  enorme  nadava  em  espiral  por  entre  as 
ferragens.  Entretida  em  admirá-la,  Geórgia  se  assustou  quando  ele  a  puxou  com  violência  para  trás, 
apontando para os tentáculos perigosos de uma água-viva gigante bem próxima deles. 

Quando voltaram ao barco, ela não cabia em si de tão eufórica. Vibrava de excitamento, e, como Nat 

previra, sua alma artística estava mais estimulada do que nunca. 

Com gestos nervosos, ela tirou a máscara e tentou se livrar do tanque de oxigénio. 

 Oh, foi simplesmente maravilhoso! — exclamou, suspirando.  —  Mas  não  consigo  tirar  as  alças  do 

tanque. 

 Deixe-me ajudá-la. Quando as alças estão molhadas, ficam difíceis de tirar. E então? Valeu a pena? 

 Oh,  sim!  Se  me  contassem,  nunca  teria  acreditado.  —  Geórgia  ergueu  o  olhar,  agradecida.  — 

Obrigada por ter me trazido, Nat. 

 Bem, prometi que seria algo sensacional, não  foi? — Ele  pegou  uma  toalha  e  começou  a  secá-la, 

observando-a com intensidade. O olhar e os movimentos provocaram em Geórgia uma súbita tentação de 
acariciá-lo. — E, para uma garota medrosa que se dizia ignorante no assunto, você foi muito bem. 

Ela não pôde impedir um sentimento de orgulho com o elogio, apesar de considerar um absurdo. Para ele, 

devia ser um cumprimento banal e automático, sem nenhum significado. 

 E  verdade?!  —  Ela  pegou  a  toalha  das  mãos  de  Nat  e enxugou o rosto, para esconder o rubor. — 

Não tive medo porque... acho que me senti mais à vontade aqui no mar Vermelho. Fiquei deslumbrada 
com  a  água  morna  e  límpida  e  com  as  criaturas  maravilhosas.  Sabe  o  nome  de  todas? 
Das espécies, quero dizer. 

 Da maior parte, sim. Vou começar a ensiná-la da próxima vez que mergulharmos. — Ele pegou dois 

refrigerantes no isopor. — Aceita um? 

 Sim, obrigada, estou morrendo de sede. 

 Se eu fosse você, iria me sentar à sombra do guarda-sol. Para  quem  não  está  acostumado,  este  calor 

pode  provocar    queimaduras  terríveis.  E,  depois  do  lanche,  se  não  estiver  muito  cansada,  podemos 
mergulhar de novo. 

Ambos comeram os sanduíches que levaram em silêncio. Além de faminta, Geórgia queria meditar sobre 

tudo que vira no fundo do mar. 

—  É muito triste pensar no navio naufragado, não acha? — ela perguntou de súbito. 
—- Sim, e há centenas deles ao longo da costa. Mesmo antes do canal ser construído, já existia uma rota 

de comércio intensa entre o Egito, Arábia e o Leste. 

—  Você... 
Geórgia  ergueu  os  olhos  e,  notando  a  expressão  de  puro  desejo  de  Nat,  esqueceu-se  do  que  pretendia 

falar  e  até  do  que  pensara  minutos  atrás.  O  mais  estranho,  porém,  era  que  jamais  dera  importância  a 
olhares daquele tipo. A não ser quando tivera o caso com Jordan. E, mesmo assim... nunca experimentara 
aquela sensação de vertigem, como se o mundo houvesse virado de cabeça para baixo. 

—  Você... — ela tentou de novo, mas as palavras fugiram novamente. 
Nathan sorriu com ternura, inclinando-se em sua direção. O brilho intenso no olhar dele sugeria o que ela 

não ousava pensar, mas, no íntimo, desejava. Então, muito suavemente, Nat encostou os lábios em sua boca 
entreaberta. 

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Geórgia  fechou  os  olhos,  e  o  mundo  começou  a  girar  em  câmara  lenta,  como  se  quisesse  oferecer-lhe 

tempo para gozar as sensações novas que experimentava. 

Enfim,  o  tempo  parou,  e  apenas  ela  parecia  viva  e  consciente  das  fraquezas  inebriantes  do  mundo. 

Fraquezas que havia pouco se gabara de não as possuir. 

Entreabrindo  os  olhos, examinou  o  contorno  do  peito  viril  e bronzeado, sentindo-se novamente tentada a 

acariciá-lo. Seria imaginação, ou havia um magnetismo entre os corpos... 

 O que ia falar, Geórgia? — Ele acariciou sua face rosada. 

 Oh, sim... — Ela sorriu, sem graça. — Você parece conhecer e entender muito de mergulho. 

 Hum... Você é observadora! 

 Não  estou  brincando.  Falo  sério,  você  parece  fazer  parte  da  vida  marinha,  um  verdadeiro  peixe 

dentro 

d'água! 

 Realmente,  mergulhar  é  o  que  sei  fazer.  Mergulho  desde os sete anos. Está no sangue da família 

esta afinidade  com  a  vida  marinha.  Meu  bisavô  iniciou uma  firma  de  resgate  de  navios  e  salvamento  há 
mais ou menos cem anos. E, hoje em dia, com as invenções modernas e a alta tecnologia, as possibilidades 
passaram  a  ser  infinitas.  Já  ouviu  falar  da  TMI,  Trehearn  Marine  International?  —  Diante  do  gesto 
afirmativo de Geórgia, ele continuou: — Nossa companhia resgatou os tesouros do galeão espanhol da Com-
panhia das índias no ano passado. 

 Acho que me recordo. 

 Mas  a  TMI  também  lida  com  exploração  de  petróleo,  oceanografia,  pesquisas  e  outras  atividades 

relacionadas  ao  oceano,  claro.  Meu  antigo  hobby,  que  acabou  se  transformando  em  profissão,  é  proteger  a 
vida marinha do planeta. Uma tarefa nada fácil, num mundo cada vez mais destruidor. 

Geórgia estava surpresa com a nova faceta de Nathan. Mesmo já tendo ouvido falar da Trehearn Marine, 

não imaginava que ele fosse tão atuante. 

 Mas estudou na Universidade de Princeton! 

 E verdade. Sou um homem de muita sorte... tive inúmeras oportunidades. Meu pai sempre tocou a 

companhia sozinho e com sucesso, porém, ultimamente, começou a demonstrar vontade de descansar. E isto 
quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, terei de assumir sua posição. 

 Entendo... E gosta dessa ideia? 

Ele riu, focalizando o horizonte por alguns minutos e depois a encarou novamente. 
-—  Eu  sempre  soube  o  que  era  esperado  de  mim.  E  esta,  pode  ter  certeza,  não  é  uma  posição  digna  de 

inveja.  —  Suspirando,  Nat  juntou  os  apetrechos  do  lanche.  —  Agora,  chega  de  conversa  mole,  e  vamos  em 
direção ao sul, onde existe um rochedo que gostaria de lhe mostrar. E mais espetacular ainda. 

 Duvido! Não pode existir nada mais fascinante do que já vimos. 

 Prometo  a  você  que  é  a  visão  do  paraíso!  Desde  a  primeira  vez  em  que  a  vi,  prometi  a  mim 

mesmo que seria eu, e mais ninguém, quem lhe mostraria o paraíso. 

Como  que  hipnotizada,  Geórgia  não  conseguia  desviar  a  vista,  consciente  apenas  de  sua  respiração 

acelerada e dos olhos cinzentos fixos em seus lábios. 

Finalmente, Nathan virou-se, relutante, para pegar o equipamento de mergulho. 
Pelo  resto  da  tarde,  ela  se  deixou  levar  pelas  mãos  seguras  e  fortes.  Ora  nadavam  na  superfície,  ora 

mergulhavam nas profundezas para admirar as formações de corais, ora simplesmente boiavam, observando 
os cardumes de cores vivas executarem seus bales. Com uma câmara à prova d'água, Nat filmava tudo. 

O  mundo  submarino  era  tão  perfeito  e  maravilhoso  que  as  palavras  ditas  por  Nat,  antes  de 

mergulharem, sempre voltavam à lembrança de Geórgia. No íntimo, sabia que não se contentaria com a 
simples visão do paraíso. Queria fazer parte dele. 

Observando a figura de porte atlético nadando em sua direção, concluiu que nunca havia conhecido alguém 

como  Nathan  Trehearn.  E,  se  realmente  existisse  um  paraíso  na  face  da  Terra,  ele  seria  o  homem  que  a 
levaria para conhecê-lo. 

 
CAPITULO V 
 
De  volta  ao  apartamento,  Geórgia  se  deitou  para  descansar.  Quando  acordou,  sentia-se  incrivelmente 

disposta e feliz. Imóvel, na cama, saboreou seu estado de contentamento por alguns instantes, antes de 
analisar o motivo. 

A  primeira  ideia  que  lhe  ocorreu,  a  qual  descartou  de  imediato,  foi  que  seu  bom  humor  se  devia  à 

expedição-de  mergulho.  Realmente,  fora  fascinante,  mas  não  podia  ser  apenas  aquilo.  Havia  uma  outra 
explicação,  e,  no  fundo,  sabia  qual  era!  Flertava  disfarçadamente  com  Nat!  Apesar  de  nunca  ter  achado 

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graça em flertar, na volta do passeio, qualquer um que os visse juntos diria... 

Sim!  Era  melhor  encarar  os  fatos,  pensou.  A  explicação  para  seu  bom  humor  só  podia  ser  Nathan 

Trehearn,  pois  até  então  ele  não  existia  em  sua  vida.  Seria  tão  simples  assim,  como  dois  e  dois  são 
quatro? 

Com os olhos semi-abertos e um sorriso maroto nos lábios, espreguiçou-se indolentemente. A imagem do 

corpo viril e bronzeado era tão vívida em sua mente que ela deixou escapar um suspiro de frustração por 
não poder tocá-lo. 

Acomodando-se melhor na cama, seus olhos se voltaram para o relógio de cabeceira: estava na hora de 

vestir-se.  Talvez  Nat  estivesse  precisando  de  sua  ajuda  para  preparar  o  jantar,  já  que  Ismail  e  Enna 
tinham viajado. 

Geórgia  sentiu  um  arrepio  na  espinha,  ao  se  dar  conta  de  que  não  teria  seus  "anjos  da  guarda"  por 

perto. Aquela seria a primeira noite sozinha com Nat no apartamento, desde que estava ali. 

Ressabiada,  levantou-se  e  abriu  as  portas  do  armário,  à  procura  de  uma  roupa  prática.  Talvez  jeans  e 

camiseta?  Lógico.  Porém,  quando  esticou  a  mão,  esbarrou  sem  querer  em  seu  vestido  favorito  e,  no  mesmo 
instante, ficou tentada a vesti-lo. Na verdade, admitiu em seguida, cultivava aquela tentação desde que soubera 
que Ismail e Enna estariam de folga. 

Um  vestido  simples,  ela  pensou,  rodopiando  em  frente  ao  espelho.  Oh,  como  era  fácil  enganar  a  si 

mesma! Mas quem seria capaz de afirmar que um vestido reto, preso nos ombros por duas alças torcidas, 
não era simples? O charme  estava  no  tecido  de  seda  pura  e  na  estampa  de  cores suaves! E talvez Nat 
nem notasse sua sofisticação. 

Prometendo  a  si  mesma  não  se  entusiasmar  demais,  começou  a  se  maquilar.  Dispensou  o  blush  

escolheu um batom de cor clara para realçar a pele bronzeada. 

Antes  de  sair  do  quarto,  examinou-se  outra  vez  no  espelho.  Realmente  o  vestido  não  apenas  lhe  caía 

muito bem, como estimulava seu bom humor e o ar de abandono feminino em que se encontrava. Será que 
estava se viciando naquele tipo de sedução? Viciando?! Que estranho! Ela riu da ideia. 

Mas, afinal, o que havia de errado em ser viciada em flerte e feminilidade? 
Depois de passar perfume, foi para a cozinha, deixando um rastro de Balenciaga por onde passava. 
—  Olá, Nathan. Já está trabalhando? 
Com uma colher de pau na mão, ele se virou, mirando-a da cabeça aos pés. O olhar admirado detinha-se 

em cada detalhe de sua aparência. 

 Você está... 

 Exagerei na roupa, é isso? — perguntou, nervosa. — Bem, não sabia o que usar num jantar ínt... 

em casa. 

 De  jeito  algum!  —  Nathan  tornou  a  examiná-la  intensamente.  —  Está  maravilhosa,  Geórgia.  No 

entanto, para ser sincero, nunca imaginei que necessitasse de aprovação. 

Sorrindo, ele largou a colher e, segurando-a pelo braço, dirigiu-se à sala. De um armário sobre o bar, 

tirou dois copos de cristal, onde despejou vinho branco. 

Então, virou-se novamente para Geórgia e ofereceu-lhe um deles, com uma expressão séria. 

 Nunca mais deixarei de ter o prazer de lhe dizer que está bonita. 

 Obrigada. 

Ela  aceitou  o  copo  e  imediatamente  o  levou  aos  lábios  para  disfarçar  o  nervosismo.  Já  havia  recebido 

vários elogios em sua vida, mas jamais sentira aquele efeito devastador. 

 Quem fez seu vestido, Geórgia? — Nat a fitou, demorando-se nos ombros descobertos. — Você? 

 Apenas o desenho. Não fui eu quem o costurou, se essa foi sua pergunta. 

 Oh, claro! Que ingenuidade a minha! É que sempre imaginei as estilistas de moda debruçadas horas 

a fio sobre uma máquina de costura, como perfeitas escravas! Pelo visto, estou totalmente errado, não? 

 Um pouquinho, se é que está sendo sincero. E, se desconhece mesmo o assunto, nunca lhe ocorreu 

que artistas também trabalham duro? 

Nat ergueu uma sobrancelha, divertido. 

 Bem... 

 Eu sabia! 

 Digamos que um estilista signifique para mim o mesmo que um oceanografista para você. É como falar 

grego, certo? 

 Ainda  assim,  acho  difícil  acreditar  em  sua  ignorância,  embora  a  comparação  seja  verdadeira.  Bem, 

durante  nosso curso, além de desenharmos os  modelos, tínhamos de  costurar  a  peça.  Para  ser  sincera, 
eu detestava essa parte. Sempre me interessei mais pela história da moda porque retratava os costumes 

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de cada época. 

 Entendo... Como pode ver, realmente sou um ignorante nesse assunto. 

 Nat, às vezes, você me surpreende por... 

Geórgia  parou  no  meio  da  frase.  Talvez  ele  não  gostasse  de  ouvir  que  ela  se  impressionava  com  sua 

elegância.  Embora  não  entendesse  nada  de  moda,  como  ele  próprio  afirmara,  Nathan  era  a  essência  do 
modelo  do  século  XX.  A  calça  de  algodão  escura,  que  usava  naquele  momento,  não  poderia  ser  mais 
charmosa e combinar tanto com a camisa de seda de mangas largas. Aliás, a figura viril era muito mais 
atraente do que supusera logo que se conheceram. 

A constatação despertou sua vontade de acariciar-lhe o peito sob a camisa entreaberta. A sensação devia 

ser delici... 

 De que maneira eu a surpreendo, Geórgia? 

 O  quê?!  —  Ela  corou,  percebendo  que  seus  dedos  tremiam  ao  redor  do  copo.  —  Bem,  pensei  que 

soubesse tudo sobre moda e confecção! Como já disse antes, tive a impressão de que você dominasse todos 
os assuntos. 

 Pois, a partir de hoje, minha responsabilidade para com os alunos vai dobrar! 

 Com certeza. Aliás, eles vão adorar ter uma aula sobre moda! E, por falar em trabalho escravo, pensei 

que  fosse  ficar  debruçada  sobre  o  fogão  horas  e  horas,  em  vez  de  tomar  vinho  tranquilamente.  Não 
precisa de ajuda? 

 Que  pena!  —  ele  brincou.  —  Agradeço  a  boa  vontade,  mas  Enna  deixou  vários  pratos  prontos  no 

congelador. Pelo visto, você está tão faminta quanto eu. Vamos comer? 

A mesa de tampo de vidro já estava posta com jogos americanos de linho bordado e talheres de prata 

na  sala  de  jantar.  Um  candelabro  no  centro  iluminava  o  ambiente,  dando  um  toque  de  intimidade.  Nat 
puxou a cadeira para ela e serviu-lhe sopa de lentilha. 

 Hum... E um perfeito maitre também! — Geórgia brincou, quando ele finalmente se sentou. 

 Também, por quê? Trabalhei duro numa lanchonete enquanto cursava a faculdade. 

 Ora, vejam só! Você continua me surpreendendo. Eu pensava que somente jovens humildes trabalhavam 

para estudar. 

 Fui  um  estudante  pobre,  Geórgia.  Meu  pai  jamais  mimou  os  filhos.  E  quanto  a  você?  Não 

trabalhava durante as férias? 

 Algumas  vezes...  Já  trabalhei  embalando  frangos,  acredita?  Nós,  as  moças,  ficávamos  enfileiradas 

perto de um balcão, colocando elásticos nas pernas dos frangos mortos. 

 Devia ser engraçado. 

 Horripilante,  isso  sim! Bem, também  havia  o  lado  divertido,  claro.  Uma  das  moças  tinha  uma  vida 

amorosa  bem  intensa,  e  todas  as  manhãs  ouvíamos  histórias  com  os  mínimos  detalhes  do  que  havia 
acontecido na noite anterior. Talvez fosse tudo invenção, não sei. Mas ajudava a distrair. 

 Parou de comer carne de frango nessa época? 

 Não... — ela respondeu, lembrando-se de que as histórias eróticas a afetaram mais que o trabalho. 

Porém, não queria expor sua vida sexual para Nat. — Não permaneci muito tempo nesse emprego. 

 Que  sorte!  Quanto  a  mim,  deixei  de  comer  carne  durante  um  bom  tempo.  E,  por  falar  em  carne, 

acabo de me lembrar do forno! — Geórgia fez menção de levantar-se. —Não se levante! Hoje, o escravo 
sou eu. 

Pouco depois, ele voltou com uma travessa de bolinhos de carne de carneiro, conhecidos como kebabs, 

salada de alface. 

 Está cheiroso! 

 Realmente 

— 

ele 

falou, 

sentando-se 

novamente. 

Em seguida, comeram em silêncio, até que Nat pediu: 

 

 Mas me conte, Geórgia, seu pai é um oficial do Exército, segundo me disse. Vocês mudavam muito de 

cidade? 

 Ele, sim, nós, não. Meus pais se divorciaram quando eu tinha nove anos, e nessa época fui estudar 

num colégio interno.  Tenho  uma  irmã,  Lissa,  bem  mais  velha  do  que  eu, que continuou morando com 
minha mãe e meu padrasto. Eu os visitava apenas nas férias. 

 E manteve contato com seu pai? 

 Três anos atrás, passei as férias de verão com papai, na Austrália. Oh, foi maravilhoso! Dessa época 

em diante, ficamos muito amigos. Ele já se  aposentou  e mora na  Inglaterra  atualmente.  Minha  mãe  e 
meu padrasto moram na Escócia, e Lissa, no País de Gales com o marido. E você? Tem irmãos? 

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Sem responder, Nathan pegou os pratos vazios e levantou-se abruptamente. 
Geórgia  ergueu  a  vista,  pronta  para  repetir  a  pergunta,  mas, notando-lhe os músculos da face tensos, 

achou melhor ficar quieta. 

 Tive um irmão mais novo do que eu — ele falou da porta da cozinha. — Morreu num acidente de 

esqui. 

 Oh! Sinto muito. 

Havia  quanto  tempo  teria  acontecido  o  acidente?  A  dor  estampada  na  fisionomia  de  Nathan  era  tão 

visível que ela sentiu um nó na garganta, incapaz de dizer mais nada. 

Quando ele retornou da cozinha com o café, parecia mais calmo e convidou-a para irem à sala de estar. 

 Obrigada  pelo  passeio,  Nat  —  ela  agradeceu,  procurando  distraí-lo  e  retomar  o  clima  de 

descontração  entre  eles.  —  Que  experiência  maravilhosa!  Foi  muita  bondade  sua  me  levar  para 
mergulhar. 

 Acha mesmo que fiz isso por bondade?! 

Geórgia ergueu os olhos e estremeceu. Nat, mais bonito do que nunca, fitava-a com um brilho intenso 

no olhar e um sorriso estonteante. A beleza dele não tinha nada de convencional, mas era incrivelmente 
atraente. 

—  Do jeito que você fala, até parece que o insultei — ela ironizou, para disfarçar. — Acontece que 

foi  bondade  sua  me  receber  nesse  apartamento  quando  eu  não  sabia  para  onde  ir  e  também  quando 
deixou de trabalhar, perdendo seu tempo precioso para passear comigo! 

O  tom  de  desafio  entre  eles  a  atraía  ao  mesmo  tempo  que  despertava  sua  timidez.  Principalmente 

quando ambos estavam conscientes da provocação. Ou flerte? 

Naquele momento, Nat parecia zombar de sua ingenuidade. Sentindo o rosto corar, ela desviou o olhar, 

colocando a xícara sobre a mesa de centro. 

 Lembra-se do que eu disse quando  nos  conhecemos,  Geórgia? — Ele perguntou, inclinando-se para 

acariciar seus lábios trémulos. — Caso eu não tivesse tomado a iniciativa, seus admiradores teriam feito fila 
para mostrar-lhe os prazeres de... Raqat. 

 E eu... 

E você... — ele continuou, abaixando as mãos. —Terá de  me  aguardar  porque  vou  estar  ocupado  nos 

próximos dias. Entretanto, na próxima semana, daremos continuidade a nossa exploração, com certeza. 

Próxima  semana?  ela  pensou,  sentindo  uma  dor  súbita  no  peito.  Sua  viagem  de  volta  à  Inglaterra 

estava marcada para segunda-feira! Teria de contar a ele, mas não naquele momento. E nem pensaria mais 
sobre o assunto. 

A claridade fraca, vinda da sacada, sombreava de forma irregular as paredes, os móveis e os objetos de 

arte, transformando a sala num ambiente misterioso. 

Afundada  no  sofá  macio  de  couro,  Geórgia  tinha  a  exata  sensação  de  estar  dentro  de  um  casulo.  Porém, 

todos  os  seus sentidos  estavam  em  alerta,  e  até  aguçados,  pela  influência  da música escolhida por Nat. Os 
sons indecifráveis de instrumentos desconhecidos provocavam uma perturbação devastadora em seu íntimo. O 
que estaria acontecendo com ela? 

De repente, Nathan se sentou a seu lado e apoiou o braço no encosto do sofá. Automaticamente, ela se 

afastou para o canto oposto, embora seu desejo fosse procurar o aconchego do peito viril. 

 Geórgia,  aquele  homem...  —  Nat  esticou  o  braço,  acariciando  de leve seus ombros  nus.  — Você  não 

deveria deixar que ele a influenciasse. Ou que a fizesse acreditar que todos os outros são predadores. 

 Oh, não! — Encabulada, ela sorriu. Será que Nat estava ouvindo as batidas fortes de seu coração? 

— Nunca pensei isso. 

 Pois saiba que não tenho intenção de seduzi-la. 

 Não? 

Embora pretendesse ser sarcástica, a voz soou desolada, o que de fato acontecia. E aquela constatação a 

irritou.  Tinha  vinte  e  seis  anos  e  ainda  agia  como  uma  perfeita  adolescente,  acanhada  e  frustrada,  sem 
coragem de encarar os próprios sentimentos. 

 O que posso fazer por você? — ele insistiu. — Diga-me, Geórgia. 

 Não  faça  nada,  Nat  —  ela  respondeu  secamente  e  depois  levantou-se,  fitando-o  com  raiva.  — 

Não há nada que possa fazer. 

Ele se levantou também, colocando-se na frente dela. 
— Ainda 

é 

muito 

doloroso 

falar 

sobre 

assunto, 

não 

é? 

O rosto de Nat  estava  sombreado,  e, numa espécie de pesadelo, ela o imaginou um caçador prestes a 
pegar sua presa. No fundo, seria aquele seu desejo? 

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— Geórgia. — ele chamou, notando seu olhar parado. 

 Como? — Assustada, ela percebeu que não estava numa floresta, procurando um esconderijo. — Oh, 

sinto muito, não entendi... 

 Não 

quer 

falar 

sobre 

esse 

homem 

que 

fez 

sofrer? 

Que feriu seu coração, a ponto de cruzar continentes na tentativa de esquecê-lo? 

 Hum!  —  Ela  sorriu,  só  então  entendendo  a  preocupação  dele.  —  Para  ser  franca,  já  esqueci  Jordan 

completamente. Hoje, vejo que não estava envolvida de verdade. 

 Fico muito contente. Não imagina quanto, Geórgia! 

 E o que isso significa? 

 Significa... — Ele apoiou uma das mãos nos ombros dela e com a outra alisou seu rosto, fazendo-a 

estremecer. 
— Significa que quase morri de ciúme quando me contou sobre Jordan. 

 Nunca pensei... 

Realmente,  ela  não  havia  pensado,  e  sim  desejado  e  sonhado  com  aquela  confissão.  Embora  o  coração 

batesse, descompassado, a mente se negava a acreditar que sua alegria fosse real. 

Num impulso, ergueu a mão e roçou os dedos no rosto de Nat. A sensação da pele quente despertou-lhe 

um prazer indescritível. 

Seu  lado  racional  jamais  permitiria  aquele  gesto,  pois  fora  educada  num  colégio  de  freiras.  Mas, 

felizmente, o instinto falava mais forte... 

Nat a puxou para perto e a beijou com ardor. Momentos depois, murmurou: 
—  Geórgia... 

Você 

sabe 

aonde 

isto 

vai 

nos 

levar, 

não? 

Ao ouvir seu nome sendo pronunciado com tal delicadeza 

e

 urgência, ela fez o que teve vontade de fazer a 

noite inteira: começou a acariciar o peito másculo. 

—  Sei onde quero que termine, Nat. 
E  também  onde  queria  que  iniciasse,  ela  pensou,  quando

ele  a pegou  no colo e começou  a  caminhar  na 

direção do quarto. 

De repente, um barulho longo e insistente ecoou na sala,  perturbando a paz do apartamento. Sem dar 

importância,  Geórgia  resmungou  e  aninhou-se  mais  ainda  nos  braços  musculosos  que  a  carregavam. 
Não queria se separar... 

De novo, o mesmo barulho soou insistente. 
—  Céus,  o  telefone!  —  Nathan  exclamou,  colocando-a  no  chão,  em  pé,  com  delicadeza.  —  Sinto  muito, 

Geórgia, é um chamado em minha linha especial. Preciso atender, mas não saia daí. 

Ela  parou  à  porta  do  escritório,  enquanto  Nathan,  apressado  e  sem  acender  as  luzes,  atendia  ao 

telefone. 

—  Alô? Freddy? Sim, isso mesmo. Entendo... Bem, estive mergulhando o dia inteiro. Não, não dê seu 

consentimento  em  hipótese  alguma.  Claro,  isso  significa  um  retrocesso  no  planejamento  todo. 
Absolutamente,  essa  afirmativa  está  errada.  Como?  Freddy...  não  estou  sozinho.  Tem  certeza?  Tudo  bem, 
estarei aí dentro de meia hora. 

Nat  desligou  o  aparelho  e  permaneceu  quieto  durante  alguns  minutos,  que  para  Geórgia  pareceram 

horas. 

—  Era Freddy, o sheik — explicou, aproximando-se dela. — Vamos ter de sair, Geórgia. 
Se,  por  um  lado,  ela  se  desapontou  porque  preferia  permanecer  no  apartamento,  por  outro,  sentiu  um 

grande  alívio  por  Nat  ter  falado  no  plural,  incluindo-a  no  passeio.  No  entanto,  temia  demonstrar  seus 
sentimentos. 

 Tem certeza? 

 Infelizmente,  preciso  ir.  —  Nat  a  abraçou.  —  E  gostaria  que  fosse  comigo.  Não  vai  se  arrepender, 

prometo. Mas quem resolve é você. Talvez esteja cansada e prefira ficar, afinal, tivemos  um  dia  de  muita 
atividade. 

A ideia do cansaço era absurda. Nunca se sentira com tanta vitalidade como naquele momento. 

 Oh, não! Não estou nem um pouquinho cansada. 

 Então, vamos juntos. 

 Aonde? 

 A um lugar muito especial. Sempre quis visitar o deserto, não é? De vez em quando, num impulso de bom 

anfitrião, o sheik organiza o que ele chama de "piquenique" para os estrangeiros. Na verdade, trata-se de uma 
reunião bem diferente de um piquenique. Ele a convidou também. Quer ir? 

 Claro! 

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 Oh,  os  costumes  daqui  são  rigorosos...  Você  tem  alguma  roupa  mais  fechada?  A  faceta  ocidental  de 

Freddy  apreciaria  seu  vestido,  mas  seus  colaboradores  poderiam  pensar  que...  Tenho,  sim!  —  ela  o 
interrompeu, entusiasmada. — Outro dia, comprei um cafetã num bazar do centro para dar de presente 
a minha irmã. Vou vesti-lo. 

Ainda bem que ela e a irmã tinham quase o mesmo corpo, Geórgia pensou, colocando o cafetã preto por cima 

do vestido. Ricamente bordado com fios dourados no decote e na barra, ajustava-se levemente na cintura. 

Antes de sair do quarto, deu uma olhada no espelho. Ficou impressionada com sua elegância, apesar de 

a roupa ter custado uma ninharia. Reforçou o perfume e, ansiosa, foi procurar o "amo". 

Nathan  a aguardava no hall de entrada. Ele  acrescentara às roupas que usava apenas um blazer azul-

marinho. Ao vê-lo tão alinhado, o coração de Geórgia disparou. Será que ele tinha consciência do que se 
passava em seu íntimo? 

Guiada unicamente pelo instinto, ofereceu-lhe o rosto para ser beijada. 
—  Só agora entendo a importância de uma estilista, Geórgia. Está tão atraente que chego à conclusão 

de que sou um louco em querer sair daqui. Gostaria de esquecer o resto do mundo e ficar sozinho com você. 

Inclinando-se, ele a beijou com paixão, explorando cada milímetro dos lábios sedosos. 

 Nathan, eu... 

 Já lhe falei que meus amigos me chamam de Nat, querida. 

 E quem disse que tenho intenção de... ser sua amiga? 

Ele a fitou, com carinho. 

 Pois pensei que nossa amizade estivesse fazendo progressos! 

 Eu também, mas, como estou sendo forçada a sair, começo a duvidar... 

 Também gostaria de ficar aqui, não é? 

 Sim.  —  Com  um  olhar  meigo,  ela  acariciou  a  face  recém-barbeada  e  os  lábios  entreabertos.  — 

Muito mais do que imagina. 

 Vou  me  lembrar  de  cada  uma  de  suas  palavras,  prometo. E prometo também tomar certas atitudes 

mais tarde... Porém, agora, precisamos ir, meu bem, porque se continuarmos mais um minuto aqui... — 
Ele 

beijou 

novamente. 

— ...Posso jurar que não iremos a piquenique algum. E será uma pena você perder esta oportunidade. 

Então, ele abriu a porta, e Geórgia saiu, relutante. 
 
CAPITULO VI 
 
Em vez do automóvel, Nathan preferiu seu jipe de trabalho, com tração nas quatro rodas. 
Muito lentamente, cruzaram o centro movimentado da cidade, depois percorreram alguns quilómetros da 

rodovia costeira e em seguida desviaram para uma trilha irregular e perigosa, ladeada de dunas altas. 

Logo após o desvio, a lua cheia surgiu bem à frente deles, serena e imponente, destacando-se contra o céu 

negro, salpicado de estrelas cintilantes. 

Geórgia  admirava  a  vista  maravilhosa  quando,  após  um  morro  íngreme,  o  deserto  apareceu,  como  um 

imenso tapete de areia, tão grande quanto a eternidade. 

—  Pare! — ela pediu de repente. — Por favor, Nat... Quero guardar para sempre na lembrança esta 

visão. 

Sem  o  barulho  do  motor,  a  inércia  aparente  do  deserto  era  impressionante.  Geórgia  prendeu  a 

respiração, temendo perturbar  o  silêncio  absoluto.  Tinha  a  exata  sensação  de  que  sua  existência inteira 
fora apenas um prelúdio para aquele momento. 

As  colinas  de  areia  esculpidas  pela  intempérie  ora  mostravam-se  iluminadas,  ora  imersas  na  sombra 

negra e profunda. Nenhuma obra de arte feita pelo homem jamais chegaria aos pés daquela perfeição, ela 
pensou. 

 Oh! Nat! — Suspirou, segurando na mão dele. 

 Sim, é difícil acreditar e humanamente impossível expressar em palavras, a não ser para os poetas. — 

Ele 

beijou 

sua mão com carinho. — Sentimos algo indefinível sob a pele, cuja sensação nunca mais perderemos. E 
temos  a  impressão  de  estarmos  diante  de  um  verdadeiro  passe  de  mágica,  principalmente  numa  noite 
como a de hoje, não é? 

Totalmente  hipnotizada,  Geórgia  não  respondeu.  Respeitando-a,  Nathan  deu  a  partida  no  jipe  e  saiu 

devagar para não perturbar seu deleite. 

Subitamente, porém, do alto de uma colina, avistaram um mundo diferente, semelhante a um conto de fadas. 

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A  medida  que  desciam  pela  duna,  a  paisagem  erma  ia  se  transformando  num  vale  verde  de  nuanças 
indefinidas, apinhado de palmeiras, espelhos d'água e ruínas de construções antigas. 

Um oásis! O coração pulsante do deserto e o palco de histórias durante mais de dois mil anos! Abrigo 

protetor contra o sol escaldante para os viajantes das caravanas no lombo de camelos! 

Com  certeza,  deviam  ter  acontecido  muitas  guerras  para  dominar  aquele  pedaço  de  terra,  Geórgia 

divagava quando uma visão estonteante quase lhe tirou o fôlego. 

Sobressaindo  a  tudo,  emergia  da  areia  plana  uma  tenda  preta  de  proporções  gigantescas,  digna  dos 

cenários de Hollywood. Em toda a borda do teto ligeiramente abaulado, pendiam soltos ao vento minúsculos 
pingentes  dourados.  Pelas  laterais  amplamente  abertas,  tochas  flamejantes  lançavam  um  brilho  especial 
aos grãos de areia. 

No mesmo instante, Geórgia imaginou garanhões árabes pastando a grama, enquanto camelos cobertos 

com ricos tapetes persas, descansavam perto das ruínas. 

Ao  contar  a  Nathan,  ele  apenas  sorriu,  apontando  para  a  frente,  enquanto  contornava  a  tenda  para 

estacionar o jipe. Ela olhou e então entendeu o motivo do sorriso. 

Uma  coleção  de  Rolls-Royce  modernos,  com  as  peças  de  cromo  luzindo,  enfileirava-se  lado  a  lado  no 

estacionamento. No mesmo instante, associou a opulência e a ostentação ao conto As Mil e Uma Noites. E, 
como não podia faltar, na entrada principal da tenda, havia uma passadeira vermelha, trabalhada  em  fios 
de seda. 

Primeiramente, Nat apresentou-a ao sheik. Bastante impressionada, Geórgia notou um certo carisma na 

figura  alta,  elegante  e  de  barba  escura,  cujos  olhos  negros  e  brilhantes  a  analisaram  com  intensidade. 
Embora  usasse  cafetã  e  turbante,  o  sotaque  inglês  e  as  maneiras  eram  de  uma  pessoa  recém-chegada  de 
Oxbridge. 

— Bem-vinda a Raqat, srta. Maitland. Peço desculpas pela minha intromissão em sua noite, mas fiquei 

muito contente por terem atendido prontamente a meu chamado. 

Será que havia um quê de ironia no tom dele?, Geórgia se perguntou, descartando a ideia em seguida. 

 Foi muita bondade ter me convidado, Excelência. 

 Espero que se divirta. — O sheik inclinou a cabeça num cumprimento sério e depois virou-se para 

Nathan. — Nathan, por favor, leve-a até Mina. 

Mina,  a  irmã  mais  velha  do  sheik  e  que  também  falava  inglês  fluentemente,  apresentou  Geórgia  às 

demais  mulheres  da  festa,  na  maioria,  moças  jovens  e  bonitas,  usando  o  tradicional  vestido  longo  e  véu, 
encobrindo  parcialmente  o  rosto.  Uma  ou  outra  vestia-se  à  moda  europeia,  mas  com  extremo  recato,  sem 
nunca deixar à mostra os braços, as pernas ou o colo. 

Graças à orientação de Nat, Geórgia não se sentiu vulgar no meio delas. 
Enquanto  bebericava  o  coquetel,  um  exótico  suco  de  frutas  e  licor,  seus  olhos  procuravam  Nathan 

constantemente. E, apesar de conversar nas rodas masculinas, ele correspondia a seus olhares clandestinos 
com  mensagens  secretas.  Uma  experiência  nova  e  excitante  que  ela  considerou  sugestiva  dentro  daquele 
ambiente. 

Pouco a pouco, os convidados foram se acomodando nos sofás de couro, e Geórgia os seguiu, preferindo as 

almofadas de aparência confortável, colocadas sobre o tapete. 

Mal acabara de sentar-se, sentiu uma carícia extremamente sensual nas costas. No mesmo instante, seu 

coração  disparou,  e  um  arrepio  percorreu-lhe  a  espinha.  Sabia  muito  °em  de  quem  se  tratava,  mas  não  o 
deixaria perceber sua reação ridícula. 

Controlando-se, Geórgia olhou para trás e deu um sorriso discreto. 

 Olá, Nathan. 

 Olá! — Ele se sentou a seu lado, fixando o olhar em sua boca. — Está sobrevivendo? 

Por  que  ele  tinha  de  olhá-la  daquela  maneira?,  ela  pensou,  sentindo  a  resolução  de  esconder  seus 

sentimentos evaporar num segundo. 

—  Mais do que isso. — Num gesto amplo, ela indicou os principescos tapetes persas das paredes e os 

metais  dourados,  refletindo  as  tochas  incandescentes.  —Você  estava  certo,  Nat.  Seria  uma  pena  se  eu 
tivesse perdido tudo isto e... 

Naquele  momento,  um  garçom  aproximou-se,  depositando  uma  bandeja  de  canapés  em  uma  mesa 

próxima. Geórgia se serviu, procurando ignorar a centelha de desejo nos olhos atentos de Nathan. 

 E? — ele insistiu, ao ficarem a sós. 

 Estou muito contente, porque finalmente encontrei a fonte de inspiração que me faltava. O estímulo 

para  minha  criatividade!  —  Diante  do  olhar  surpreso,  ela  sorriu  com  ar  de  pura  inocência.  —Afinal, 
como já disse, foi por este motivo que fiz a viagem. 

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 Oh, sim, claro! Foi justamente isso que pensei quando a levei para mergulhar e quando decidi trazê-la 

comigo.  Aliás,  tenho  em  mente  várias  outras  ideias  que  vão  lhe  inspirar  ainda  mais...  —  Então,  ele 
pegou um canapé da bandeja e colocou-o delicadamente entre os lábios de Geórgia. 

Enquanto o saboreava, ela pensou que talvez devesse mudar de assunto. Alguém mais próximo poderia 

perceber que flertavam. 

 Nat, você... resolveu o problema com o sheik? — perguntou, indecisa. 

 Não  era  propriamente  um  problema.  —  Ele  sorriu,  notando  sua  confusão.  —  Na  verdade,  ele 

queria  apenas  meu  apoio  para  uma  decisão  que  havíamos  tomado  há  algum  tempo.  Alguém  estava 
sugerindo mudanças. Porém, está tudo sob controle agora. 

 Que  bom  —  ela  falou,  prestando  atenção  num  grupo  de  homens  que  conversavam,  animados,  do 

qual participavam o sheik e a irmã, que parecia enfrentá-los de igual para igual. — O sheik também é 
oceanografista, Nat? 

 Não. — Nathan acompanhou-lhe o olhar. — Freddy se graduou em matemática, e Mina se formou 

em  química.  Aliás,  ela  é  muito  competente.  Foi  nomeada  há  poucos  dias  para  ocupar  o  cargo  de 
conselheira-chefe do Departamento de Desenvolvimento da Indústria do Petróleo. 

 Puxa! Eu nunca teria imaginado! 

 Admite então que este reino não é retrógrado como pensava? Que aqui não existe nem machismo nem 

chauvinismo? 

 Eu não diria... 

 Ora, confesse que fez um julgamento apressado. Pode imaginar um governo ocidental tendo coragem 

para nomear uma mulher para um departamento desse porte? 

 Não posso prever o futuro... — ela se esquivou. — Mas confesso que estou impressionada e admiro 

Mira. Pelo que disse, parece uma pessoa formidável e inteligente. Digo o mesmo do sheik por sua coragem. 
Deve ter sido difícil tomar essa decisão, frente a tantos homens. 

 Na verdade, não foi. A avó de Freddy introduziu a educação primária obrigatória para meninas, 

e a mãe foi chefe do Departamento de Medicina do reino. Como vê, a emancipação da mulher aqui não é 
nenhuma novidade! 

 Ora, você... 

Ela o empurrou de leve e, em seguida, sondou ao redor com medo de ter cometido uma indiscrição. Por 

sorte, todos olhavam para um grupo de músicos que acabava de chegar. 

 Calma — Nat murmurou em seu ouvido. — Vamos ver a dança exótica agora. 

 Oh!  —  Geórgia  suspirou.  Não  tinha  a  mínima  disposição  para  ver  a  dança  do  ventre.  —  Temos 

mesmo de ficar para a dança, Nat? Estou tão cansada... 

Ele a encarou com intensidade, fazendo-a corar. 
—  Também  sinto  o  mesmo  cansaço  que  você,  Geórgia.  Ela  notou  que  o  tom  de  voz  contradizia  as 

palavras dele. 

 Mas seria indelicado sairmos agora. Esse tipo de show não é longo, e acho que vão apresentar uma 

dança clássica. 

Quando  há  convidados  estrangeiros,  as  danças  exóticas  são  consideradas  inadequadas  pelos  padrões 

árabes. 

Os  músicos  deram  início  a  uma  música  peculiar  dos  bazares,  tocada  com  instrumentos  de  corda. 

Pequenos sinos  presos  aos  quadris  das  dançarinas  intensificavam  o  ritmo  popular.  No  auge  da  dança,  as 
mulheres giravam rápido e com destreza, hipnotizando a plateia que acompanhava a música com palmas. 

O  show  representou  para  Geórgia  o  ponto  culminante  de  um  dia  repleto  de  novidades  que  jamais 

esqueceria, nem se vivesse cem anos. 

Porém,  suas  forças  haviam  se  exaurido,  e,  somente  ao  término  da  dança,  ela  percebeu  que  estava 

recostada em Nat. — Vamos embora? — Ele se levantou, oferecendo-lhe a mão. — Você deveria estar em 
casa a esta hora. E na cama. Ao  ouvir  a  ultima  palavra,  ela  sentiu  o  rosto  corar  e  virou-se, dando um 
passo para que ele não percebesse nada. Despediram-se do sheik e da irmã e saíram abraçados. Geórgia 
apoiara  a  cabeça  no  ombro  de  Nathan.  Perto  do  lago,  pararam  para  admirar  o  veio  de  águas 
cristalinas, correndo sobre uma pedra grande. A lua cheia parecia acompanhar o fluxo da água. 

De repente, ele se virou e tomou-lhe a face entre as mãos. — Geórgia, jamais me esquecerei deste dia e 

desta noite. E voltaremos aqui sozinhos, é uma promessa. Quero lhe mostrar todos os aspectos do deserto e 
todas as variações. Vê aqueles picos, lá no alto? Quero levá-la até lá, para nadarmos num lago escondido de 
água fria e cristalina. Oh, quero fazer tantas coisas junto com você! 

Ele a beijou de leve e por um instante explorou os lábios doces. Ela correspondeu ao gesto e ficaria ali 

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para o resto da vida, mas Nat se afastou, levando-a para o carro. 

A viagem de volta foi rápida. O movimento das ruas já diminuíra, e Geórgia começou a sentir-se nervosa 

e  tímida  quando  se  aproximaram  do  prédio.  E  mais  ainda  quando  se  viu  sozinha  com  Nathan  no 
elevador. 

O  que  aconteceria  quando  fechassem  a  porta  do  apartamento?  Talvez  o  momento  mágico  houvesse 

passado.  Ou,  talvez,  ele  tivesse  levado  a  sério  seus  protestos  de  cansaço.  Tentando  conter  a  ansiedade, 
Geórgia entrou no apartamento, e dirigiu-se para a sala de estar. Em seguida, com certa relutância, tirou o 
cafetã. 

 Foi muito apropriado eu ter ido com o cafetã por cima do vestido — falou, dobrando-o. — Mas é melhor 

eu 

comprar 

outro presente para Lissa. Acho difícil uma fazendeira, no País de Gales, encontrar ocasião para usá-lo. 

 Você deveria guardá-lo como lembrança de uma noite especial. — Fitando-a, Nathan tirou a roupa de 

suas mãos e colocou-a sobre uma cadeira. Em seguida, segurou Geórgia pela cintura e puxou-a para si. — 
Encontrará bijuterias lindas nos bazares do centro para Lissa. 

 Acho que... 

Os  olhos  cinzentos  a  hipnotizavam.  Ela  não  conseguia  falar  e  tampouco  pensar.  Apenas  retribuiu  o 

olhar. 

 Oh,  Geórgia,  querida...  —  ele  sussurrou,  acariciando-lhe  os  cabelos.  —  Por  que  perdemos  tanto 

tempo naquela festa? Devíamos ter ficado aqui. 

 Não posso responder a essa pergunta, Nat. Fui contra, lembra-se? Minha vontade era... 

Ela  o  beijou  com  um  ar  maroto  e  enfiou  a  mão  por  dentro  da  camisa  dele  para  lhe  acariciar  o  peito, 

sentindo na ponta dos dedos a pulsação forte e acelerada de seu coração. Tão forte quanto a dela. 

 Será que entendi direito, Geórgia? Arrependeu-se de ter visto o deserto? — Ele lhe segurou as mãos, 

prendendo a respiração. — Arrependeu-se de ter conseguido a inspiração para sua criatividade e de ter 
experimentado algo que guardaremos na lembrança para sempre? 

 Oh, não! Só estou dizendo que a escolha não foi minha... 

 Ah, entendi... Quer recomeçar do ponto onde paramos há três horas? 

E, antes que ela pudesse responder, Nat a pegou no colo e a  carregou para um quarto que  era muito 

parecido  com  o  dela.  Com  uma  única  diferença:  em  vez  de  duas  camas,  havia  apenas  uma  de  casal, 
forrada de chintz azul. 

 Você tem certeza do que deseja?   ele perguntou, cobrindo-a de beijos. 

 Sim. 

Os corações batiam com violência num compasso único. Nathan a pôs no chão delicadamente e a segurou 

pelo queixo, então, sem resistir, ela lhe ofereceu os lábios entreabertos, surpreendendo-se com sua própria 
falta de acanhamento. 

Deixou-o explorar cada milímetro de sua boca, enquanto as mãos acariciavam os seios intumescidos. 
Como nenhuma teoria se comparava à prática, nenhum livro ou nenhuma história ouvida pelas amigas 

fez jus ao prazer alucinante que sentiu naquele momento. O desejo de se entregar a Nat a corroía. 

Com  movimentos  lentos,  ele  abriu  o  zíper  do  vestido  de  Geórgia  e  afastou  as  alças  de  seus  ombros, 

fazendo com que a roupa caísse ao chão. 

Ela  imaginou  que  fosse  sentir-se  tímida,  culpada  e  cheia  de  pudor,  mas  nada  disso  aconteceu.  Ao 

contrário,  os  sentimentos  dominantes  eram  de  impaciência,  anseio  e  consciência  plena  de  sua 
sensualidade, até então contida. 

Ajudou-o  a  desabotoar  a  camisa,  e,  quando  suas  mãos  tocaram  o  peito  viril,  sentiu  uma  alegria 

indescritível.  Então,  instintivamente,  encostou  a  face  no  pescoço  dele,  aspirando  o  perfume  másculo  e 
inebriante. 

—  Oh,  Geórgia!  —  Nat  segurou  suas  mãos  e,  virando-as  para  cima,  beijou-lhe  as  palmas.  —  Tem 

ideia do que está fazendo comigo, amor? 

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— Talvez o mesmo que faz comigo... Sem comentários, ele a levou para a cama e se deitou a seu lado, 

voltando a acariciar-lhe a curva dos seios. 

 Sabe... — Nat murmurou entre um beijo e outro. — Sempre desejei ficar assim, como agora. Desde 

o primeiro dia em que a vi lá embaixo, no saguão. 

 Não acredito — Geórgia disse, surpresa. — Você não deixou transparecer nada. 

 Se estivesse preparada para ver, teria notado. 

 Oh, Nat... mas você prometeu... 

 O quê, amor? 

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 Sem laços ou compromissos e... 

 E? 

 Acreditei em sua sinceridade. 

 Mas fui sincero. Vou lhe provar isso. 

Segurando  os  braços  dela,  Nathan  se  inclinou  e  continuou  a  beijá-la,  primeiro  com  ternura  e  depois  com 

crescente paixão, desde o rosto e os cabelos até os ombros, os seios e as coxas. 

Geórgia nunca imaginara que aquelas carícias pudessem lhe despertar tantas emoções. Sem se conter, soltou 

uma das mãos e correu lentamente a ponta dos dedos pelas costas musculosas. 

 Geórgia... — Nathan sussurrou, mordiscando-lhe os seios, enquanto ela arqueava o corpo. 

 Oh, Nathan... Nunca sonhei que pudesse ser tão maravilhoso. 

 Prometo a você que será inesquecível... — Ele ergueu a cabeça, fitando-a. 

Em seguida, deixando-se levar pelo turbilhão de sensações enlouquecedoras que os dominou, ele continuou 

fazendo promessas... Prometeu-lhe o céu, as estrelas, o paraíso... 

 
CAPITULO VII 
 
A luz forte do sol já penetrava através da cortina, quando Geórgia acordou. 
De  costas  na  cama,  ela  sorriu  de  felicidade,  correndo  os  olhos  pelo  ambiente  semiconhecido.  Ao  lado, 

sobre  uma  poltrona  de  veludo  azul,  jazia  seu  vestido  e  uma  única  peça  de  lingerie:  a  calcinha  branca 
rendada. Seu rosto enrubesceu, ante a lembrança da noite anterior. 

Ela suspirou. Algo de extraordinário acontecera em sua vida, uma experiência sublime. Ainda sorrindo, pegou o 

travesseiro onde a cabeça de Nat estivera apoiada e, num impulso, encostou-o na face. Então, aspirou o perfume e 
abraçou-o com força. 

De repente, recordou-se de que se encontrava sozinha no apartamento. Nathan a acordara logo cedo com 

um beijo suave na boca e informara: 

 Preciso ir, amor. 

 Oh, não, por favor. — Ela acariciara o peito másculo, fitando-o com atrevimento para persuadi-lo a 

ficar na cama. — Não vá ainda, Nat. 

No mesmo instante, gemendo de prazer, ele se apoiara sobre o cotovelo, afastando uma mecha de cabelos do 

rosto  dela,  cobrindo  de  beijos  suas  pálpebras,  a  face  e  a  boca.  Depois,  com  um  suspiro  mais  profundo, 
inclinara-se sobre ela. 

Geórgia, por sua vez, abraçara-o para sentir a pele quente de encontro aos seios, ansiosa para deleitar-se 

de  prazer  mais  uma  vez.  Suspirando  de.felicidade,  rendera-se  totalmente,  concluindo  que  ambos  eram 
vítimas do mesmo poder de sedução. 

Momentos  após  atingirem  o  clímax,  Nathan,  finalmente,  levantara-se,  enquanto  ela  continuara deitada. 

Primeiro, revendo cada cena, relembrando cada sensação, e depois acabara dormindo novamente. 

Olhando  para  o  relógio  de  cabeceira,  viu  que  era  tarde.  Levantou-se  e  tomou  banho.  Ainda  assim, 

continuava  com  a  sensação  de  prazer  no  corpo.  Cada  vez  que  passava  diante  de  um  dos  espelhos  do 
apartamento,  via  o  próprio  sorriso  e  um  inconfundível  ar  misterioso  em  seu  semblante.  Um  ar  de 
felicidade! 

Ela  suspirou,  lembrando-se  de  que  Nat,  antes  de  viajar,  dera-lhe  um  outro  beijo  rápido  de  despedida. 

Ainda  podia  sentir  o  rosto  recém-barbeado  encostado  ao  seu.  O  perfume  dele  persistia  em  sua  memória. 
Fora difícil controlar-se e não o seduzir outra vez, atraindo-o para a cama! 

—  Voltarei  assim  que  puder,  querida  —  ele  sussurrara  em  seu  ouvido.  —  Não  sei  como  vou  viver  os 

próximos dias sem você, amor. 

E, pressentindo o perigo iminente, Nathan saíra rápido. No mesmo instante, ela o transferira para seus 

sonhos. 

Ainda  bem  que  Ismail  e  Enna  ainda  não  haviam  retornado  do  passeio,  caso  contrário  não  poderia 

circular pelo casa à vontade e com roupas íntimas. Além disso, na solidão do apartamento, teria tempo para 
considerar o que lhe acontecera, pensar nas consequências e no futuro... 

Pensativa, foi para a cozinha preparar um lanche leve para driblar o calor escaldante. Lavava o alface, 

quando de repente a campainha da porta soou. 

Seria  Nat?  Com  uma  súbita  esperança,  Geórgia  fechou  a  torneira,  correu  até  o  quarto,  vestiu  um  robe  e 

dirigiu-se  ao  hall. Talvez ele tivesse cancelado  a viagem por  algum motivo! Que  tolice!,  pensou  em  seguida, 
caindo em si. Nathan jamais tocaria a campainha, pois possuía a própria chave. 

Ainda  assim,  quando  abriu  a  porta  e  se  viu  diante  de  um  entregador,  não  pode  impedir-uma  certa 

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decepção.  Porém,  animou-se  quando  notou  que  o  rapaz  carregava  um  ramalhete  de  rosas.  Tão  perfeitas 
como jamais vira igual. 

Ela agradeceu, fechou a porta e destacou o pequeno cartão preso na lateral. Sorrindo, abriu o envelope e 

leu: 

Querida Geórgia,

 

Obrigado  pela  noite  encantadora.  Estarei  a  seu  lado  antes  do  que  imagina.  Quero  que  compre  um 

vestido, o mais lindo que encontrar. Tenho um assunto especial para conversarmos.

 

N.

 

Durante  alguns  segundos,  sua  mente  ficou  paralisada.  Um  vestido?  Uma  conversa?  O  que  Nathan 

queria  dizer  com  aquilo?  Logo  em  seguida,  lembrou-se  do  início  do  relacionamento  e  deu  asas  à 
imaginação... 

Ele mencionara naquela ocasião uma proposta?! Proposta ou pedido? Indecisa, releu o bilhete. Nathan lhe 

pedia  para  comprar  um  vestido  especial.  Raciocinando  com  frieza,  aquele  pedido  só  poderia  ter  um 
significado. 

Esquecida da salada e cantarolando de alegria, ela se arrumou, apressada, decidida a procurar o vestido 

naquele  momento.  Antes  de  sair,  porém,  parou  no  hall  e  procurou  lembrar-se  das  lojas  conhecidas  da 
cidade. Se Nat queria vê-la dentro de um vestido surpreendente, só havia uma butique realmente charmosa 
e exclusiva em Raqat. Já a visitara uma vez e sabia que lá tudo custava uma verdadeira fortuna. Talvez não 
tivesse  dinheiro  para  pagar  nem  um  simples  lenço  de  seda,  mas  e  daí?  Usaria  seu  cartão  de  crédito, 
decidiu, abrindo a porta. 

Afinal, quando um homem como Nathan Trehearn enviava rosas, acompanhadas de uma mensagem como 

aquela, uma mulher inteligente não deveria poupar esforços para lhe agradar. 

Com um sorriso nos lábios, Geórgia se olhou no espelho pela última vez e ficou séria. Estaria caindo na 

velha  e  conhecida  armadilha?  Deixando  um  homem  ditar  o  compasso  da  música  para  que  dançasse? 
Possivelmente, pensou, notando que sua  fisionomia continuava contente. Não havia outra possibilidade ou 
outro caminho. Ter Nathan Trehearn como par e dançarem no mesmo ritmo era tudo o que mais desejava no 
mundo! 

No final da tarde, de volta ao apartamento, Geórgia deixou os pacotes na sala e dirigiu-se à cozinha para 

preparar um chá de hortelã. 

Já  tomara  a  primeira  xícara  e  preparava-se  para  enchê-la  de  novo  quando  ouviu  o  som  insistente  do 

telefone, no escritório de Nat, e correu para atender. 

—  Alo? 
Ciente  de  que  apenas  o  sheik  e  seus  funcionários  tinham  acesso  àquela  linha  especial,  não  estranhou 

quando ouviu um murmurinho em árabe, antes de uma voz feminina indagar, em inglês: 

 Srta. Maitland? 

 Ela mesma. 

 Um momento, por favor. O sr. Trehearn deseja falar-lhe. 

 Geórgia... 

Além de timidez, Geórgia sentiu um arrepio de emoção. Ninguém nunca havia falado seu nome com aquela 

entonação carinhosa e de forma tão íntima. Ela se sentiu amada, querida... 

 Nathan! Obrigada pelo... pelas rosas maravilhosas! 

 Ah, então chegaram? Eu ia escolher rosas vermelhas, mas não resisti quando vi as salmão. Frescas 

e serenas, parecidas com você. 

 Fresca e serena?! Eu? De onde tirou essa ideia? O que fiz para você pensar que sou assim? 

 Hum...  Estou  numa  posição  privilegiada,  conhecendo  a  verdade  sobre  você.  E,  desde  que 

continue se mostrando tão... 

 Nathan! 

— 

ela 

repreendeu, 

com 

coração 

batendo 

forte no peito. 

Ele riu, percebendo seu embaraço. 

 Você não deveria estar na Suíça? — Geórgia prosseguiu, mudando de assunto. 

 E  estou.  Na  verdade,  estou  telefonando  do  escritório  do  sheik,  neste  país.  E,  agora,  a  boa 

notícia... Voltarei amanhã! 

 Amanhã! 

 Você parece... feliz? 

 O que acha? 

 Que acertei. Conseguiu comprar o vestido que sugeri? 

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 Oh, então era uma sugestão?! Encarei mais como uma ordem. 

 Ah, você acertou também! Fico contente por ter captado minha mensagem. 

 Bem, comprei um... Ele é... 

 Não me conte — Nathan a interrompeu, num tom misterioso. — Confio em seu senso artístico e pode 

dar azar... Geórgia, chegarei em Raqat amanhã, por volta das nove horas da noite. E muito importante 
que esteja pronta a essa hora. Vou levá-la para um evento muito especial. 

 Oh, Nathan! Você precisa me contar. Não aguento... 

 Sem perguntas, Geórgia. E uma surpresa. 

 Espero que seja agradável. 

 Bem, isso posso lhe afirmar, ou melhor, prometer. Agora, tenho de desligar, querida. 

 Oh, não... 

 Infelizmente, preciso. Durma bem. 

 Não vou conseguir fazer isso sem você. Boa noite, Nathan. 

Eu te amo, ela sussurrou, após colocar o fone no gancho. 
Era  a  primeira  vez  que  fazia  essa  declaração  simples  e  banal.  Declaração  antiquada,  ultrapassada  por 

outras  muito  mais  extravagantes,  especialmente  durante  os  instantes  de  doce  tormento  dos  casais  na 
cama. 

Nathan, com certeza, esperava o momento certo para fazer a mesma declaração. De certo, não fizera por 

telefone porque seria embaraçoso, diante da possibilidade de outras pessoas ouvirem. 

Geórgia parecia estar nas nuvens. O prazer que sentia era pleno e absoluto. Pudera, os planos de Nathan 

a levavam a crer que ele iria lhe propor casamento. O que mais poderia pensar depois do que ele lhe dissera 
ao telefone? Qualquer outra coisa seria uma decepção. 

E ela não teria dúvida alguma quanto à resposta. Já tomara sua decisão. 
No  dia  seguinte,  às  oito  horas  da  noite,  Geórgia  tremia  de nervoso.  E se  houvesse  entendido errado? 

Nathan podia estar querendo propor... Oh, céus, o quê? Qualquer coisa fora do alcance de sua imaginação, 
menos casamento! E se ele sugerisse um feriado prolongado na índia, por exemplo? 

Apesar de ter gasto grande parte do dia num salão de beleza especializado em todo tipo de relaxamento, 

sua tensão, em vez de diminuir, aumentava com o passar das horas. 

Caros e opulentos, os salões de Raqat ofereciam banho turco, massagens com óleos e unguentos, capazes 

de afastar qualquer sinal de fadiga do corpo. E, para completar, confiara nas mãos hábeis de especialistas 
para tratar dos cabelos com cremes e deixá-los mais sedosos, realçando as mechas douradas. As mãos e as 
unhas foram igualmente cuidadas, tornando-as mais longas e graciosas do que nunca. 

Tremendo ligeiramente, ela pegou o vestido de cima da cama e, com um cuidado extremo, colocou-o. 
De  seda  oriental  bege,  era  preso  sob  o  busto,  caindo  em  pregas  suaves  sobre  os  quadris.  Assentava 

perfeitamente nos ombros, como se tivesse sido feito exclusivamente para ela. O decote redondo suavizava o 
colo, e as mangas franzidas apresentavam um debrum fino vermelho. Para se ver de costas, ela ajustou dois 
espelhos. Realmente, estava muito charmosa. Junto com o vestido, havia comprado uma echarpe de seda, 
pensando nos costumes do país, onde o corpo da mulher era considerado indecente. 

Fazendo um teste, jogou o tecido sobre os ombros e, no estilo árabe, cobriu a face com uma das pontas, 

deixando apenas os olhos verdes de fora, os quais se transformaram em duas esmeraldas de brilho intenso. 
Nathan a aprovaria, com certeza. 

O som de uma chave na fechadura a fez estremecer de novo. Rapidamente, tirou  a echarpe  e correu 

para o hall. 

Com  uma  das  mãos  escondida  atrás das  costas,  Nathan  entrou  e  se  aproximou,  sorrindo.  De  repente, 

parou e examinou cada detalhe de sua aparência, enquanto ela fazia o mesmo com ele. 

Nathan  parecia  um  perfeito  modelo.  Magnífico!  Por  coincidência,  o  terno  marrom-claro,  impecável, 

combinava  com  a  cor  de  seu  vestido.  Usava  camisa  branca  de  seda  e  gravata  de  cashmere.  Ah!  E  o 
perfume  almiscarado  era  delicioso.  Os  cabelos  foram  aparados,  não  muito  curtos,  dando-lhe  um  ar 
sofisticado. Ele transcendia à imaginação de qualquer mulher. 

Sorrindo,  Nat  continuava  imóvel,  fitando-a.  Estaria  zombando  dela?  Não.  O  sorriso  íntimo  e  o  olhar 

intenso provocaram um disparo em seu coração. 

Mas por que ele apenas sorria, em vez de tomá-la nos braços? Ela estava morrendo de saudade! 
De repente, Geórgia percebeu que ele falava: 

 Você está esplendorosa! 

 E você... 

Sem jeito, ela interrompeu a frase no meio. Não ficaria bem dizer o mesmo para ele. E, afinal, apenas 

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esperava ser carregada para o quarto e que ele desistisse do passeio programado. 

Mas,  em  vez  disso,  Nathan  tirou  a  mão  das  costas  e  ofereceu-lhe  um  buque  de  rosas,  cujas  cores 

variavam do marfim ao âmbar, envoltas em brotos de samambaia. 

—  Para uma noiva linda... — ele sussurrou. 
Com lágrimas nos olhos, ela tocou um dos botões de rosa. 

 Oh, Nat! Você está me mimando. 

 E  pretendo  mimá-la  muito  mais.  Quero  que  se  case  comigo,  Geórgia.  —  Com  um  gesto,  ele  a 

impediu de responder. — Ouça, ainda não disse tudo. Quero que se case comigo agora... esta noite. 

 Nathan! 

A felicidade de Geórgia sobrepujou o choque causado pelas últimas palavras dele. E a certeza de ser 

amada triunfou sobre a dúvida que nutria, escondida em seu coração... Ela exultava de contentamento. 
Sua satisfação era intensa e pura. 

—  Tenho algumas considerações a fazer, mas, um dia, com calma, explicarei melhor. 
Geórgia não lhe deu atenção. Estava concentrada no buque. 

 Agora, podemos ir? — Nathan questionou. 

 Um momento. 

 Sim? 

Emocionada, ela continuou parada por alguns segundos, com o buque nas mãos. Depois, ergueu o rosto, e 

seus olhos brilhavam, cheios de promessas que a timidez a impedia de revelar. 

 Vou pegar minha echarpe — disse finalmente. 

 Espere. 

 Sim, amo? 

 Gostei  de  seu  vestido.  —  Rindo,  Nathan  alisou  suas  costas  com  sensualidade.  —  Mas  acho  que 

prefiro... Oh, desculpe-me, não posso deixá-la sem graça, expondo minha preferência... Afinal, você é uma 
noiva. 

Geórgia correspondeu ao sorriso e saiu em direção ao quarto, eufórica.  Apanhou  rapidamente  a  echarpe  e  a 

jogou sobre os ombros. Depois, segurando o buque na frente, voltou ao hall. 

 Ficou melhor assim? 

 Você sempre está bem. — Ele a abraçou com carinho. — Pensei que soubesse disso. Vamos. 

Um  carro  os  esperava  para  levá-los  ao  heliporto,  onde  o  aparelho  do  sheik,  com  o  brasão  na  lateral, 

aguardava-os. 

Calada, Geórgia olhava para baixo, sem distinguir a realidade do sonho. Sobrevoavam o deserto mágico. 

A  lua  brilhava  intensamente,  e  havia  a  mesma  extravagância  de  estrelas  piscando  como  se  fossem 
minúsculos faróis. 

Aterrissaram  perto  do  oásis  e  da  tenda,  cuja  aparência  era  totalmente  diferente  da  do  dia  da  festa. 

Fora  o  sheik  e  a  irmã,  não  havia  outros  convidados.  Os  tapetes  de  cores  vivas  tinham  sido  trocados  por 
tapetes de cores suaves, ricamente bordados com motivos de pássaros exóticos e flores. 

Freddy os recebeu com efusão, demonstrando claramente seu contentamento. Vestia um cafetã, mas não 

usava  turbante,  o  que  lhe  dava  uma  aparência  mais  jovem.  Geórgia  e  Nathan  o  cumprimentaram, 
juntando as mãos no tradicional gesto de respeito. 

Mina acompanhou Geórgia a um pequeno compartimento da tenda, onde a ajudou a enrolar a echarpe na 

cabeça de um jeito especial. 

Quando retornaram para junto dos homens, Geórgia estranhou ao ver Nathan de cafetã também. Depois, 

pensando melhor, achou natural que ele se vestisse daquela forma. Afinal, estavam no deserto, e o sheik 
ele  eram  como  dois  irmãos.  Além  do  mais,  a  roupa  dava-lhe  um  ar  romântico  dentro  da  magnificência 
daquele lugar. 

Todos  se  posicionaram  sobre  um  tapete  especial,  e,  em  pé,  de  frente  para  eles,  Freddy  iniciou  a 

cerimónia em árabe. Subitamente nervosa, Geórgia procurou a mão forte de Nathan. 

Não tinha ideia do que estava sendo dito, até que o sheik encerrou a cerimónia em inglês. 
— E,  agora,  pela  virtude  de  meu  poder  e  pelas  leis  de  Raqat,  eu  os  declaro  marido  e  mulher.  — 

Freddy beijou a noiva e abraçou Nathan com força. — Desejo-lhes felicidades e que tenham muitos e muitos 
filhos. 

Mina também os beijou, desejando-lhes felicidades. 
— Bem...  Mina  e  eu  precisamos  partir  agora,  Nathan.  —  O  sheik  sorriu  com  malícia.  —  Tenho 

certeza  de  que  desculpará  nossa  pressa  em  sair.  Mas  vejo-ò  amanhã,  isto  é,  se  você  não  estiver  muito 
ocupado! 

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Nathan e Geórgia assistiram juntos à decolagem do helicóptero. Quando o silêncio voltou a dominar o 

ambiente,  ela  olhou  ao  redor,  apreensiva.  Em  seu  íntimo,  ainda  temia  acordar  e  descobrir  que  o 
casamento não passava de um sonho. 

Como  se  adivinhasse  seu  pensamento,  Nathan  a  envolveu  pela  cintura,  devolvendo-lhe  a  confiança  e  o 

espírito de realidade. Então, caminharam até o lago de águas cristalinas, e, diante do cenário maravilhoso, 
ele a beijou com ternura. 

 Mal posso acreditar que isto esteja acontecendo, Geórgia. 

 Não está, Nat. Mas não importa. 

 Vamos para a tenda, querida. — Beijou-a de novo com ardor. — Os empregados nos aguardam com 

uma ceia especial. Pena que não sinto fome. 

 Pois eu estou morrendo de fome! — Ela o contradisse para provocá-lo. 

 Você é tão romântica! — Nathan fez um gesto amplo com as mãos, indicando a natureza. — Ofereço-

lhe o deserto inteiro, as estrelas e a lua, e tudo o que me diz é que está morrendo de fome? 

Com  um  ar  de  riso,  Geórgia  tornou  a  reparar  na  vastidão  do  deserto,  no  céu  cheio de  estrelas,  no  luar 

iluminando as fantásticas dunas de areia... Obras da natureza que pareciam ilustrar a insignificância do 
homem. 

 Desculpe-me, Nat. Estou muito impressionada e sou infinitamente grata a você. Não há nada mais 

belo do que tudo isto que está me oferecendo. Aliás, a paisagem é a prova viva de seu poder. 

 Sua última observação me comoveu, querida. Obrigado. Mas, apesar de tudo, sei que ainda continua 

morrendo 
de fome, e eu lhe fiz várias promessas. 

 Ah, sim! Precisa me contar o que o sheik falou. Minha ignorância inglesa me deixou em desvantagem 

em relação a sua sapiência arábica. 

 Bem,  Freddy  me  obrigou  a  colocar  sua  felicidade  em  primeiro  lugar,  isto  é,  no  topo  da  lista  das 

promessas. 

 Que ótimo! 

 Você, meus camelos e meus cachorros estão no mesmo nível. 

 É verdade?! 

 Claro! 

Diante da expressão chocada de Geórgia, ele riu, divertido, e ela fez o mesmo. 
Ambos  ainda  riam  quando  retornaram  à  tenda.  Um  empregado  apareceu  para  recolher  o  cafetã  de 

Nathan e a echarpe de Geórgia. Muito sério e carregando as roupas, o rapaz os conduziu a uma pequena 
alcova, atrás da sala principal, onde havia uma mesa posta para dois. 

Embora pequena, a sala inspirava opulência. Tapetes orientais forravam as paredes, e a luz trémula das 

velas  dispostas  em  candelabros  iluminava  um  aparador  com  bules,  bandejas  e  punhais  de  latão  polido. 
Sobre divãs, esparramavam-se almofadas coloridas, bordadas com fios de seda. De novo, Geórgia se sentiu 
parte da história de As Mil e Uma Noites. 

O empregado colocou no centro da mesa travessas de frutas e de filés de frango, regados com um molho 

de laranja e açafrão. 

— Que delícia! — Geórgia exclamou, após provar a comida. 
—  Bem,  pedi  a  Freddy  para  providenciar  algo  leve  e  suave  para...  —  Nat  fez  uma  pausa,  dando 

ênfase ao resto da frase. — ...Evitar que você tivesse um daqueles ataques de mal-estar. Você sabe... 

Ela demorou um pouco para lembrar-se de que passara mal nos primeiros dias em Raqat e, em seguida, 

teve vontade de rir, mas se controlou. 

 Que romântico você ter me lembrado desse episódio! 

 Não  me  provoque.  Entenda...  não  ficaria  bem  para  uma mulher jovem -e recém-casada sentir-se 

mal na noite de núpcias.- 

 Pois  fique  sabendo  que  não  tenho  intenção  de  me  conformar  com  pratos  triviais  ou  qualquer 

banalidade. 

 Já passou por sua cabeça que quando Saad e o cozinheiro forem embora de moto, você e eu ficaremos 

sozinhos, 
sem nenhum ser humano por perto? Por quilómetros de distância? Acho melhor começar a pensar com 
seriedade em agradar a seu marido, como prometeu diante do sheik. 

 Ora, fui enganada! Eu não sabia o que estava acontecendo. Na verdade, não me lembro de ter sido 

questionada 

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ou de ter feito qualquer promessa. 

 Hum... Vou lhe explicar, então, como as coisas são por aqui: a questão foi colocada, e seu silêncio 

foi tomado como "sim" pelo sheik. Freddy até se congratulou por ter encontrado uma noiva conformada 
e submissa para mim. 

 Ora... eu não sabia que ele tinha me encontrado! 

 Não?! 

 Não, 

e, 

para 

ser 

sincera, 

penso 

justamente 

contrário. 

sheik encontrou você para mim. 

 Que seja! — Nathan segurou sua mão sobre a mesa. — O destino nos uniu, e lhe serei eternamente 

grato.  

Adotando uma postura séria, ele levantou o copo de vinho para brindar.  

 A nós, Geórgia! E a este nosso momento. 

 A você, Nathan. — Ela encostou o copo no dele. — A você, por me fazer tão feliz! 

—  Isto, 

querida, 

é 

apenas 

início. 

Inclinando-se sobre a mesa, Nathan a beijou. 

 
CAPITULO VIII 
 
Nas  semanas  seguintes  ao  casamento,  Geórgia  sentiu-se  nas  nuvens.  Levava  uma  vida  repleta  de 

alegrias  e  prazeres.  Parecia  um  sonho,  do  qual  despertava  apenas  vez  ou  outra  para  surpreender-se  de-
sempenhando as tarefas do dia-a-dia com entusiasmo. Jamais havia pensado em "criar juízo", como diziam 
os  pais  ao  ver  os  filhos  se  casarem.  Na  verdade,  acontecia  justamente  o  contrário  com  ela.  Sua  vida 
passara a ser agitada, e não pacata como a de uma típica dona de casa. 

Seu casamento se situava num plano diferente do que imaginara. Vivia num mundo exótico, excitante e 

glamou-roso. E, claro, não existia nenhum outro homem igual a Nathan Trehearn na face da Terra! 

O mais importante era que ele parecia se sentir da mesma forma. Lamentava os momentos que passavam 

separados, procurando sempre a levar junto com ele, quando o trabalho o permitia. E, cumprindo a antiga 
promessa, levou-a outra vez para mergulhar num fim de semana de céu azul. 

Visitaram cavernas muito profundas, incrustadas em rochedos submersos, habitat de estranhas criaturas 

marinhas. 

Geórgia  se  mantivera  calma  durante  os  longos  períodos  de  mergulho,  consciente  de  que  Nathan,  e 

apenas ele, podia inspirar aquela segurança. 

Quando retornaram ao barco, ele lhe dera um beijo e a congratulara pela tranquilidade. 
— Você ainda vai se tornar uma grande mergulhadora. 
— Sabe, às vezes, pergunto-me por que se casou comigo? 

 Hum... Eu precisava desesperadamente de alguém que soubesse tomar notas entre... 

 Oh, que pena! Com certeza, vai se decepcionar, pois nunca fui boa taquígrafa. 

 Não me deixou terminar, querida. — Ele erguera seu queixo, fitando-a intensamente. — Tomar notas 

entre 

outras qualidades, eu ia dizer. 

No mesmo instante, ela enrubescera, sentindo o sangue correr mais rápido nas veias e uma vontade louca de 

provocá-lo. 

—  Interessante! Outras qualidades... Posso saber quais são elas, exatamente? 
Nat sorrira com malícia, observando seu corpo esbelto enquanto estendia a mão para soltar o laço que 

prendia a parte de cima do biquini de Geórgia. 

—  Venha cá. Quero você perto de mim para poder explicar direitinho e com calma.  

 Oh! Nathan, não... — Ela lhe segurou a mão. — Alguém pode... 

 Fique  tranquila,  querida.  Somos  os  únicos  seres  humanos  em  quilómetros  de  distância.  Disse-lhe  a 

mesma 

coisa 

quando estávamos no deserto, lembra-se? 

 Sim, mas... 

 Otimo.  —  Ignorando  seus  protestos,  Nat  a  puxara  pela  cintura  e,  prendendo-a  junto  a  seu  corpo 

molhado,  beijara  sua  boca,  a  nuca  e  os  seios.  —  Eu  estava  certo,  e  passamos  três  dias  maravilhosos  e 
relaxantes. 

Ela suspirara profundamente, percebendo o desejo latente de Nathan. 

 Maravilhosos e exaustivos exprimem melhor aqueles dias, não acha? 

 Esse  seu  suspiro  é  de  exaustão,  querida?  Venha,  vamos  descansar  na  cabina,  onde  está  fresco  e 

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podemos discutir por que me casei com você. 

Numa outra ocasião, ambos foram convidados para participar de um baile, no clube. No início, Geórgia se 

negara a ir, relutante em voltar ao maldito clube. Após muitas discussões, por fim, concordara em prestigiar os 
organizadores. 

Imaginando  os  mexericos,  arrumara-se  com  esmero,  escolhendo  para  a  ocasião  uma  saia  comprida, 

estampada com flores suaves e uma blusa de seda branca. A gola alta salientava o rosto, realçando a face 
radiante de felicidade. 

Como previra, vários homens solteiros vieram tirá-la para dançar, disputando sua atenção. 

 Não deve aceitar mais convites para dançar — Nat cochichara em seu ouvido, enquanto dançavam uma 

balada antiga. 

 Por quê? — ela perguntara, num tom de voz inocente, acariciando-lhe a  nuca.  — Estou apenas me 

divertindo. 

 Porque fico louco de ciúme, se quer saber. 

 Hum... E como pensa que me sinto quando dança de rosto colado com Melaine Jacobs? 

 Rosto  colado?!  —  Fingindo  indignação,  ele  tossira,  afastando-se  para  encará-la.  —  Você  está 

exagerando e, além disso, já lhe expliquei que Melaine é uma amiga da família. 

 Talvez essa seja a principal razão para eu sentir ciúme —  ela  falara,  séria,  para  provocá-lo.  — 

Bem, eu o proíbo de dançar com Melaine outra vez. E... você já lhe contou a nosso respeito? 

 Não, claro. Não combinamos manter segredo até falarmos com seu pai, na Inglaterra? 

 Ora, aquilo foi só uma ideia! E se ela é tão íntima assim de sua família... 

 Eu não disse íntima, Geórgia. — Nat meneara a cabeça, num  gesto de censura.  — Bem,  Melaine  até 

sugeriu... Fiz o melhor que pude para despistá-la, e... Ora, por que está rindo? 

—  Ele 

rira 

também. 

— 

Você 

adora 

me 

provocar, 

não? 

Geórgia fitava os olhos cinzentos, com ar inocente. 

 E você odeia provocações, não? 

 Esta é só uma das razões por que sou louco por você.  

Entretanto, os dias de Geórgia conheceram a rotina quando Nathan foi obrigado a viajar, para participar 

de  uma  série  de  conferências  entre  os  países  com  interesses  dire-tamente  ligados  ao  mar  Vermelho.  A 
viagem incluía Cairo, Amman e Riyadh. 

A única maneira que ela encontrou para amenizar a dor provocada pela ausência de Nathan foi ocupar-

se o tempo todo. Voltou a dedicar-se aos desenhos, pedindo a Ismail para levá-la a lugares remotos, onde 
podia observar tudo sem ser notada e sem ofender o povo local. 

De vez em quando, admirava os próprios desenhos, que pareciam um verdadeiro caleidoscópio de cores. 
O trabalho rendia bastante, preenchendo em parte os dias longos de solidão. 
À noite, porém, virava-se, desesperada e agoniada, na cama, à procura da segurança do peito viril, ciente 

do preço alto que pagava por amar demais. 

Em  seu  mundo  cor-de-rosa,  não  havia  espaço  para  desconfianças  e  tampouco  para  maus  pressentimentos. 

Jamais  passara  por  sua  cabeça  que  seu  casamento  estivesse  prestes  a  acabar  e  de  forma  precipitada  e 
traumatizante, como tudo acontecera. 

Tudo  se  iniciou  num  dia  normal,  como  qualquer  outro,  exceto  pelo  fato  de  que  Nathan  chegaria  de 

viagem, e Geórgia estava eufórica. Já havia ido ao cabeleireiro e também preparara um prato especial, pois 
Ismail e Enna haviam tirado folga. Só voltariam no final da tarde, do dia seguinte. 

Sozinha  no  apartamento,  Geórgia  organizava  seus  desenhos  na  pasta.  Separara  dois  esboços  de  Enna, 

com a intenção de dar-lhe assim que a visse novamente, e os demais, havia guardado, pois ainda cultivava o 
sonho de algum dia retomar a carreira de estilista e pretendia utilizá-los como fonte de inspiração. 

De repente, a campainha soou. Daquela vez, ela não pensou na possibilidade de ser Nat. Afinal, na noite 

anterior, ele telefonara, avisando-a de seu horário de chegada, e ainda era muito cedo. Além disso, possuía a 
própria chave. 

Colocando os desenhos de lado, ela se levantou, com calma. Porém, quando abriu a porta, quase caiu de 

susto,  ao  ser  praticamente  empurrada  de  lado  por  uma  mulher  loira,  de  óculos  escuros,  seguida  pelo 
porteiro. Com um ar amedrontado, ele carregava um número absurdo de malas. 

Como  se  não  tivesse  notado  a  presença  de  Geórgia,  a  mulher  dava  ordens  ao  pobre  homem,  com 

impaciência. 

 Ponha tudo naquele canto da sala. 

 Desculpe-me... — Geórgia tentou falar, quase em pânico. Não fazia ideia de como lidar com aquela 

intrusão súbita. —A senhora deve ter se confundido, não? Este apartamento pertence a... 

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 Aí está bom, obrigada — a estranha continuou, com seu sotaque sulista, ignorando-a. 

Só depois de ter dispensado o porteiro, com uma gorjeta, virou-se, examinando Geórgia de alto a baixo, 

com frieza. — Obrigada a você também, querida. Mas sei perfeitamente quem é o proprietário e gostaria de 
saber quem é você e o que faz aqui em nosso apartamento? 

Sem  perceber,  Geórgia  examinou-a  também.  Devia  ter  mais  ou  menos  trinta  anos  e  vestia-se  sem 

pretensão,  embora as roupas fossem de griffes caras. A camisa leve, azul-celeste, tinha o mesmo tom dos 
olhos. 

 Nosso?! — Geórgia finalmente se conscientizou das palavras ditas. — Quem pensa que é o dono... 

 Nat não está aqui, querida? 

 N... não. Mas quem é você? 

 Marylou.  —  Ela  deu  um  sorrisinho  irónico.  —  Não  é  estranho  como  os  homens  se  esquecem  de 

mencionar alguns assuntos? Nathan não lhe disse que tinha esposa, doçura? 

Não,  não  era  nada  estranho,  Geórgia  pensou.  Ninguém  melhor  do  que  ela  sabia  que  os  homens  se 

esqueciam de mencionar esse ponto importante às vezes. Mas até Nathan? 

Subitamente, sentiu uma dor profunda no peito, seus olhos se encheram de lágrimas e o cérebro parecia 

um novelo de lã emaranhado, negando-se a prestar atenção no que a mulher falava. 

 Philippa?! — Geórgia indagou, ao ouvir aquele nome estranho. — Quem é... 

 Sim, Philippa, minha filha. Coitadinha, ela sempre pergunta  quando  o  pai  vai  voltar  para  casa. 

As crianças sentem tanta falta dos pais, não é? Este tipo de consideração nunca passa pela cabeça de... — 
Ela fitou Geórgia com superioridade, deixando claro que a culpava pela tristeza da filha. — ...Gente de seu 
tipo, mas... onde está Ismail? Preciso de ajuda para carregar as malas para o quarto. 

Aturdida e com as pernas bambas, Geórgia se deixou cair na cadeira mais próxima. 
— Dei folga aos empregados. Voltarão amanhã, no final da tarde. 
Marylou não escondeu a irritação e, após fazer menção de pegar as malas, voltou-se para Geórgia. 

 Então é a srta...? 

 Maitland. Geórgia Maitland. 

 Pode me dar uma ajuda, srta. Geórgia Maitland? 

Sem dizer nada, Geórgia se levantou, pegou duas malas pequenas e seguiu-a pelo corredor. Para seu alívio, a 

americana escolheu o último quarto, em vez do que ela e Nat partilhavam. 

— Oh, estou morrendo de sede! — Marylou exclamou e, assim que colocou as malas no chão, virou-se na 

direção da cozinha. — Preciso de uma bebida bem gelada. 

Geórgia simplesmente a seguiu. 
— Bem, srta, Maitland, por que não me conta o que faz aqui e... quando Nat voltará? 
Geórgia respirou fundo e, num esforço sobre-humano, procurou agir com frieza. 

 Não sei ao certo. Acho que Nathan está participando de reuniões importantes... Para ser sincera, seu 

marido  não  me  conta  tudo  e...  —  De  repente,  a  voz  falhou,  e  seus  olhos  se  encheram  d'água.  Afinal, 
estava  sendo  sincera,  e  sua  falta  de  conhecimento  a  respeito  da  vida  de  Nathan  era  uma  triste 
realidade. No entanto, Marylou não devia perceber quanto estava abalada. — Não faço a mínima ideia 
de quando ele vai voltar. 

 Oh, eu já imaginava!  Isso não é novidade alguma, pois Nat sempre fez segredo de suas idas e 

vindáS. E é justamente por este motivo que estou curiosa para saber o que faz aqui, srta. Maitland. Afinal, 
uma qualidade ele costumava preservar... a discrição. 

Sem palavras, Geórgia apenas a fitou. Sentia-se miserável  e  sabia  que  não  adiantava  querer  esconder 

seu estado de espírito. Sua dor devia ser óbvia, pois acabava de saber que não passava de mais uma das 
mulheres  de  Nathan.  Ele  devia  ser  um  mulherengo  incorrigível,  e  Marylou  apenas  aceitava  o  fato,  como 
muitas esposas traídas o faziam. 

—  Bem, com licença, preciso dar alguns telefonemas — Marylou a avisou de maneira afetada. — Tenho 

muitos amigos em Raqat. 

Em  seguida,  Geórgia  a  ouviu  discando  do  aparelho  do  hall.  Procurando  não  escutar  a  conversa, 

caminhou, apressada, para seu quarto. Mesmo assim, ainda pôde ouvir algumas frases soltas. 

—  Olá, Melaine. Oh, o vôo foi excelente! Não, não... Philippa ficou com os avós, mas prometi a ela... 
Geórgia gelou. Melaine! Só podia ser uma pessoa, claro. Melaine Jacobs, a amiga da família. 
Com a mente trabalhando em círculos, começou a juntar as peças do quebra-cabeça. Nathan apenas havia 

se esquecido de ser objetivo e mencionar a "amiga de minha esposa". 

—  E então? — Subitamente, Marylou apareceu na porta do quarto. — Não vai me explicar por que 

está aqui, no apartamento de Nat? Como eu disse, o cenário não é comum. 

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Não seria mesmo comum? Geórgia pensou, curiosa, mas em hipótese  alguma  se  rebaixaria a ponto de 

perguntar. 

De queixo erguido, olhou diretamente nos olhos de sua atormentadora e explicou com poucas palavras a 

confusão com as datas da volta de Pete. Na verdade, tudo se iniciara naquele dia. 

 Se quiser confirmar a história, pergunte a Pete. 

 Oh,  claro  —  Marylou  falou,  com  sarcasmo.  —  E,  com  certeza,  Nathan  estava  por  perto,  com  uma 

oferta irresistível, certo? 

Virando-se de costas, Geórgia começou a tirar as roupas do armário. 

 Perfeitamente. Aliás, foi muita bondade da parte dele. 

 Ah, sim. Essa é uma das qualidades de Nathan, a bondade extrema, principalmente com mulheres 

jovens. — Marylou acendeu um cigarro e soprou a fumaça para dentro do quarto. — E aposto como vai 
querer que eu também acredite que os dois pombinhos não dormem juntos. 

Geórgia jogou as roupas dentro da mala e, depois de fechá-la, encarou Marylou por um momento. 
—  Acho melhor eu ir embora agora. Por favor, dê-me licença... 
— Bem,  já  que  tomou  essa  decisão,  fico  contente  com  sua  atitude  ponderada.  Odeio  quando  fazem 

cenas. Você sabe, às vezes, elas... 

Duas horas mais tarde, Geórgia se viu sentada no saguão do aeroporto, à espera de seu vôo, sem ter a 

mínima ideia de como havia chegado até lá. Não se lembrava de ter pego o táxi nem do trajeto pelas ruas da 
cidade que tanto adorava. 

Seu único pensamento fora escapar, encontrar um esconderijo onde pudesse se abrigar, curar as feridas 

do coração e tentar recompor a vida, mesmo que as possibilidades fossem remotas. 

E  só  havia  um  lugar  onde  poderia  se  sentir  segura:  em  seu  apartamento  em  Londres.  Lá,  poderia 

trancar a porta com ferrolhos, cerrar as persianas e chorar à vontade na solidão. Poderia derramar um rio 
de  lágrimas,  até  se  sentir  leve  e  livrar-se  da  tristeza  e  da  agonia.  Encerraria  assim  mais  um  capítulo 
desastroso em sua vida. 

Pelo  menos  num  ponto  a  sorte  parecia  estar  de  seu  lado.  No  momento  em  que  abordara  o  balcão  de 

embarque, a operadora recebia um telefonema de alguém cancelando a viagem para  Heathrow,  seu  adorável 
aeroporto na Inglaterra. 

Uma  pequena  parte  de  seu  problema  fora  resolvida  naquele  instante.  Além  de  não  se  preocupar  com 

hotel  para  passar  aquela  noite,  sentia-se  aliviada  por  se  ver  livre  das  malas.  Felizmente,  logo  estaria 
embarcando. 

Com os problemas práticos resolvidos, todo o seu pensamento concentrava-se em bloquear qualquer lembrança 

dos  últimos  acontecimentos.  Seu  grande  desejo  era  jamais  ter  ouvido  falar  de  Raqat  e  muito  menos  visitado 
aquela cidade ou o deserto. 

A  sua  volta,  o  movimento  de  pessoas  embarcando  e  desembarcando  continuava.  Os  vestidos  longos  e 

bordados  a  faziam  lembrar  de...  do  filme  Lawrence  d'Arábia.  Isso  mesmo,  do  filme  e  ponto  final.  Para 
sempre! 

Com o firme propósito de não pensar mais em sua angústia e espairecer, Geórgia se levantou e caminhou 

até o outro extremo  do  saguão,  com  determinação.  No  entanto,  ao passar por uma porta espelhada, quase 
morreu de susto, vendo a própria imagem refletida. Ninguém diria que Geórgia Mai-tland era aquela moça 
alta, magra, de cabelos loiros escorridos, encobrindo a metade do rosto. Um rosto pálido, e os olhos verdes, 
sempre tão brilhantes, sem nenhuma vida. 

Indignada, voltou a caminhar, parando em seguida, em pânico. 
No centro da ala de desembarque, havia um grupo de homens: cinco ou seis árabes e dois europeus. Um 

deles, o mais alto do grupo, era o último homem da face da Terra que ela gostaria de encontrar. Por uma 
fração de segundo, o contemplou, sem conseguir desviar a vista. 

Nathan  conversava,  muito  seguro  de  si.  Ambas  as  mãos  se  movimentavam  para  explicar  algo 

interessante que todos prestavam a atenção e riam. 

Por um lado, ela sentiu uma dor lancinante no peito e, por outro, um prazer perverso em admirar a figura 

dinâmica daquele homem tão à vontade no controle da situação e... tão lindo! Oh, sim! Reconhecia finalmente 
a  beleza  nos  traços  que  a  impressionaram  no  início  pela  força  e  pela  determinação  que  emanavam. 
Amargurada, admitia também que ele preenchia todos os requisitos que sonhara encontrar num homem. 

Um soluço fechou sua garganta, ameaçando sufocá-la. Naquele preciso momento, Nat ergueu a cabeça e, 

sorrindo, distraído, olhou em sua direção. 

Instintivamente,  Geórgia  escondeu-se  atrás  de  um  pilar  e,  gelada  de  medo,  rezou  para  não  ter  sido 

vista. Porém, seus olhos espreitaram o sorriso desaparecendo do rosto de Nathan, assim como o espanto da 

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expressão. 

Ele  se  desculpou  com  o  grupo  e  começou  a  andar  a  passos  largos,  cruzando  o  saguão  quase  vazio, 

enquanto ela se apressava em direção à sala de embarque. Lá, estaria a salvo, até seu vôo ser anunciado. 
Porém, a distância entre eles diminuía rapidamente. 

— Geórgia!. 
Ela  fingiu  não  ouvir.  Alguns  passos  a  mais,  e  conseguiria  escapar,  isto  é,  não  fosse  uma  família 

inteira: pais, avós, filhos e netos com seus carrinhos de bagagem, impedindo sua fuga. 

—  Geórgia! 

— 

Já 

ao 

lado 

dela, 

Nathan 

segurou 

pelo 

braço. 

Ela  o  fitou.  No  olhar  de  Nathan,  transpareciam  sentimentos  de  surpresa,  preocupação  e  ternura  ao 
mesmo  tempo.  Todas  as  emoções  num  só  olhar.  Emoções  que  apenas  serviam  para  confundi-la. 
Preferia mil vezes encarar uma expressão de raiva. Pelo menos, teria oportunidade de revidar. 

—  Nat... 
Ela  sorriu  sem  convicção,  percebendo  que  ele  desconfiava  de  algo.  Talvez  tivesse  visto  o  cartão  de 

embarque nas mãos dela. 

 O que aconteceu, Geórgia? Recebeu alguma notícia ruim, querida? 

 Não,  eu...  Não  é  nada  disso,  acalme-se.  —  Ela  procurou  sorrir,  fingindo  despreocupação.  — 

Recebi  um  telefonema  de  Jordan,  só  isso.  Lembra-se  dele?  Bem,  Jordan  me  ligou  hoje  cedo, 
oferecendo  meu  trabalho  de  volta.  —  Fez  uma  pausa,  dando  de  ombros.  —  Pois  é,  achei  melhor 
aceitar a oferta. 

Seu jeito despreocupado só tinha um motivo: queria magoá-lo assim como ele a  magoara, sem 

sugerir qualquer indício da profundidade de seu sofrimento. 

Vendo-o  passar  a  mão  pelos  cabelos,  como  alguém  se  controlando  para  não  perder  a  cabeça, 

chegou à conclusão de que havia conseguido enganá-lo. 

—  Não posso acreditar nisso — ele falou à meia voz. — E nós, Geórgia? 
—  Foi 

um 

erro 

— 

ela 

respondeu 

de 

forma 

seca 

fria. 

No  fundo,  desejava  tê-lo  acusado  com  todo  seu  ódio.  Sabia,  no  entanto,  que  apenas  o  orgulho  a 
impedia de criar uma cena digna de uma epopeia. Se os dois se encontrassem sozinhos em algum 
outro lugar, talvez gritasse e lhe atirasse no  rosto seu conhecimento da  existência  da esposa  e da 
filha, omitidas de propósito por ele. 

O orgulho a ajudou também em sua decisão de manter a frieza. Como Geórgia Maitland, uma 

mulher com certa experiência, pudera cometer o mesmo erro idiota outra vez?  

Como fora envolver-se com homens casados duas vezes consecutivas e em poucos meses? 
Perdera  toda  sua  auto-estima,  e  a  única  maneira  de  recuperá-la  era  tentando  apagar  tudo  que  se 

relacionava ao fato. Erradicar as raízes de todas as lembranças! 

Nathan continuava fitando-a. Parecia pálido, ou seria o efeito das luzes frias do aeroporto? 

 Um erro? — ele perguntou entre os dentes, apertando um pouco mais o braço dela. 

 Sinto muito, Nat — Geórgia se desculpou e arrependeu-se em seguida. Por que estava se desculpando? 

Por 

quê? 

— Por favor, solte-me. Você está machucando meu braço. 

Sem uma palavra, ele a soltou. Os olhos cinzentos, sempre tão luminosos, estavam frios e ausentes. 
Naquele instante, ela se deu conta de que, apesar de tudo, gostaria de encostar a cabeça no peito viril e 

pedir-lhe para negar, para desmentir a existência da mulher e da filha. Queria ser confortada e que ele 
juntasse os pedaços de seu coração partido. Será que sua determinação e suas forças estavam chegando ao 
fim? Precisava sair dali o mais rápido possível. 

 Estou esperando, Geórgia. 

 Mas  eu  já  disse,  foi  simplesmente  um  erro.  —  Naquele  momento,  ela  ouviu  uma  chamada  nos  alto-

falantes. — Preciso ir. Estão anunciando meu vôo. Eu... 

 Para Bagdá? Não acredito que esteja indo para Bagdá. De qualquer maneira, não vai a parte alguma 

sem antes me dar uma explicação. Apenas um erro não é o suficiente para mim. 

 Ouça, seus amigos estão procurando-no. Por que não vai se encontrar... 

 Estou  esperando,  Geórgia.  Aliás,  estou  tentando  me  controlar  porque,  se  eu  ficar  nervoso,  não 

hesitarei em arrastá-la até o carro e mantê-la em Raqat. E por quanto tempo eu quiser, entendeu? 

 Não acredito que faria isso. Você... 

 Está vendo meus amigos? O homem mais baixo é o Ministro da Defesa de Raqat. Sabia que tudo 

neste  país  é  de  propriedade  do  sheik?  Se  eu  inventar  uma  história  de  que  estão  faltando  um  ou  dois 
objetos... Bem, você será detida até o assunto ser esclarecido. 

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 Mas você... não seria capaz de fazer isso comigo. 

 E por que não? Está querendo se vingar de mim, certo? 

 Não, eu... — Geórgia quase deixou  escapar  as acusações, mas se controlou a tempo. — Já disse o 

motivo, Nat. Não quero magoá-lo mais. 

Infelizmente,  falava  a  verdade.  Mesmo  após  o  comportamento  abominável  de  Nathan,  não  havia 

satisfação em sua tentativa de feri-lo ou magoá-lo. Se incluísse o nome de Jordan, sugerindo que haviam 
reatado  o  antigo  caso,  isto  é,  dando  a  entender  que  havia  um  motivo  pessoal  para  a  vontade  súbita  de 
retornar à Inglaterra, conseguiria convencê-lo com mais facilidade. 

 Vingança não combina com você, Geórgia. 

 Juro, foi um erro. Eu me enganei quando me demiti do emprego, e... Sinto muito. 

Tola, ela se recriminou. Além de não mencionar Jordan ainda havia pedido desculpas! Com certeza, a 

última  coisa  que  Nat  queria  ouvir  era  um  pedido  de  desculpas.  Mas,  talvez,  aquele  fosse  o  modo  mais 
digno de terminar um relacionamento. 

—  Entendo... — Ele pareceu resignado. — Se é assim... Eu também sinto muito, Geórgia. 
De cabeça baixa, ela não se atrevia a encará-lo. Nathan realmente parecia sentido e desolado. E quem 

era ela para julgá-lo? Ele devia ter motivos para agir daquela forma. Afinal, jamais imaginaria, nem por um 
minuto, que Marylou fosse o tipo de mulher com quem... 

—  Nat, eu... 
Insistentemente, os alto-falantes chamavam uma pessoa. Geórgia ergueu a cabeça, e eles se fitaram por 

um momento. 

 Estão chamando-o, Nat. Parece urgente. 

 Como? Oh... sim! 

Uma  moça  com  uniforme  da  Aerolíneas  de  Raqat,  segurando  uma  pasta,  aproximou-se,  apressada. 

Nathan se inclinou para escutar melhor o recado. 

No mesmo instante, Geórgia ouviu a chamada para seu vôo e virou-se. Era a oportunidade de sair dali, 

sem olhar para trás. 

Horas depois, quando o avião já sobrevoava o Mediterrâneo, Geórgia caiu em si. Estivera muito perto de 

perdoá-lo, correndo o risco de ser persuadida a desistir da viagem ou de dizer adeus para sempre. 

Esse  pensamento  a  fez  estremecer.  Esgotada,  apoiou  a  cabeça  no  encosto  do  assento  e,  só  então, 

derramou as lágrimas que estavam presas em seu coração. 

 
CAPITULO IX 
 
Quatro semanas mais tarde, Geórgia percorria as ruas de Londres, sentada ao lado do motorista de um 

furgão alugado. As férias e os últimos acontecimentos em Raqat eram apenas uma vaga lembrança. 

Após uma curva fechada, ela olhou para trás, verificando se as roupas do desfile não haviam amassado. 

Não  ganharia  nada  para  mostrar  sua  minicoleção  no  hotel,  a  não  ser  publicidade  por  se  tratar  de  um 
desfile importante. 

—  É o principal evento beneficente da sra. Connie Bering   o pai argumentara alguns dias após a chegada 

de 

Geórgia 

à Inglaterra. 

Ambos conversavam na sala da casa do pai, em Greenwich. William Maitland preparara dois cálices de 

licor de cereja e entregara um à filha tristonha e calada. 

 Obrigada, pai. 

 Quando a sra. Bering me telefonou outro dia, pedindo ajuda, expliquei-lhe que você estava fora... no 

exterior —ele prosseguira, observando a filha, cujo olhar perdido fixava o jardim. — Mas... você voltou tão 
inesperadamente. Bem, a ideia pareceu-me ótima. Como sabe, David e eu servimos o Exército juntos, em 
Aden. E, desde que subiu de posto, sua mulher se transformou. Lembra-se dela? Era tão irresponsável e 
frívola, agora é a alma caridosa em pessoa... Geórgia, filha, que tal o licor? 

 Como? Oh, sim, você falava da sra. Bering! 

 Bem,  é  só  isso.  Pode  ser  muito  bom  para  você  puder  ajudá-la  nesse show de moda.  Ainda  não 

encontrou nenhuma atividade? 

Ela erguera o olhar para a fisionomia preocupada do pai. 
— Não. Mas não se preocupe, amanhã começarei a procurar. 
— E por que não participa desse trabalho primeiro? A direção da entidade está oferecendo uma verba 

para a compra dos tecidos e já contrataram algumas costureiras. Poderá ser divertido, e, se entendi bem, a 

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televisão dará uma cobertura especial. Várias griffes famosas vão mandar representantes. Pense apenas na 
publicidade, pois poderá ser mais valiosa do que o dinheiro, filha. 

Por  fim,  Geórgia  aceitara  a  proposta  e,  por  esse  motivo,  trabalhara  alucinadamente  nas  semanas 

seguintes. Aliás, nunca imaginara ser capaz de tanta persistência diante do trabalho árduo. 

As manhãs e as tardes passaram a ser tão exaustivas que, quando a noite chegava, ela mal encostava 

a cabeça no travesseiro e seus olhos se fechavam de imediato, sem pensar em mais nada. 

Porém,  ao  acordar,  no  dia  seguinte,  invariavelmente  ta-teava  a  seu  lado,  à  procura  do  homem  que 

amava.  Ou  pronunciava-lhe  o  nome.  Felizmente,  seu  delírio,  como  costumava  pensar,  durava  pouco. 
Graças  ao  trabalho  e  a  um  firme  propósito,  as  lembranças  e  os  sonhos  apagavam-se  gradativamente, 
apesar de não ser uma tarefa fácil. 

Ainda cultivava um forte sentimento de mágoa, por ter sido traída, e amargura, por Nathan não ter feito 

nenhuma tentativa de contato. Desejava uma explicação ou uma desculpa, mesmo que os argumentos dele 
fossem nulos. 

No fundo, talvez não fizesse questão de vê-lo outra vez. Aliás, era a última coisa que desejava... Mas, se ele 

realmente quisesse procurá-la, teria pedido seu endereço a Pete Taylor. 

Nathan deveria estar extremamente envergonhado. Ela até podia imaginar as histórias e os mexericos 

que circulavam em Raqat, depois de sua volta à Inglaterra. 

— Chegamos — o motorista informou, fazendo-a voltar à realidade. 
Depois de estacionar o veículo, ele a ajudou a carregar as roupas para o hotel. Entraram por uma porta 

lateral,  indo  direto  para  uma  sala  ampla,  onde  reinava  o  caos.  Todas  as  modistas  e  as  costureiras  faziam  os 
últimos acertos nas modelos. 

Como chegara em cima da hora, Geórgia foi logo chamada a apresentar sua coleção, mal tendo tempo de 

preparar-se como queria. 

Pelo menos, sentia-se confiante com a própria aparência. Vestia uma calça leve e a túnica que usara na 

primeira  vez  em  que...  Bem,  o  importante  era  que  se  sentia  confiante  também  com  os  vestidos  que 
apresentaria. 

Ao desenhar os modelos, enfatizara o lado alegre da moda, usando como inspiração vários esboços de sua 

viagem  a...  ao  Oriente  Médio.  As  roupas,  na  maioria,  eram  exóticas  e  impraticáveis  para  o  dia-a-dia  de 
muitas mulheres. Mas fizera isso de propósito, pois sabia que aquela audiência, acostumada ao luxo, não se 
interessaria pela roupa prática. 

Geórgia se considerou com sorte quando viu as garotas escolhidas para apresentar seus vestidos. Além de 

profissionais, eram as mais atraentes. Até ela prendeu a respiração, duvidando da própria criatividade, quando 
a primeira modelo desceu os degraus acarpetados em direção à passarela. 

Alta e esbelta, a modelo era o protótipo do gosto masculino... e feminino também. Havia uma harmonia 

perfeita entre a pele da modelo, morena, cor de jambo, e a suavidade do vestido longo, feito de chiffon, na 
cor marfim. 

De repente, Geórgia percebeu que a audiência aguardava o comentário da modista. Em pânico, ela correu 

os  olhos  pela  plateia  lotada,  à  procura  do  apoio  moral  do  pai.  Porém,  os  holofotes  colocados  em  sentido 
contrário a impediam de localizá-lo em meio a centenas de cabeças viradas em sua direção. 

Limpando a garganta, começou: 
— Apresento-lhes Lara. Esta modelo maravilhosa veste um traje inspirado no deserto. 
Com  os  pés  descalços,  Lara  desfilou  pela  passarela  e  parou  rapidamente  diante  de  um  ventilador 

estrategicamente colocado. O tecido leve colou-se contra o corpo, proporcionando uma visão momentânea das 
pernas  bem-feitas.  E,  antes  de  deixar  o  palco,  a  modelo  jogou  um  lenço  sobre  os  ombros  num  gesto 
dramático e sensual, fazendo a plateia vibrar. 

Em seguida, outra garota igualmente bela substituiu Lara na passarela. 
Os aplausos entusiasmados inspiraram confiança em Geórgia, que, sentindo-se à vontade, dispensou as 

fichas que havia preparado e passou a usar uma linguagem casual para explicar os modelos que criara. 

Aproveitando  um  pequeno  intervalo,  ela  tentou  novamente  localizar  o  pai  na  plateia.  Por  coincidência, 

naquele exato instante, uma porta lateral se abriu, e um facho de luz  penetrou no ambiente, iluminando 
uma figura alta, recostada contra a parede do fundo do salão. 

Geórgia sentiu uma dor aguda no peito, ao perceber um ar familiar,na pessoa. Porém, a porta se fechou 

antes que  pudesse examiná-la melhor. Com certeza,  enganara-se. Quanta ilusão! Já havia perdido a conta 
do número de vezes que identificara Nathan nas ruas, entre os pedestres. 

Novamente,  Lara  entrou  na  passarela,  dando  continuidade  ao  desfile.  Por  sorte,  aquele  seria  o  último 

vestido de sua coleção. 

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— Com estilo único e irrepreensível, Lara veste Masque-rade — Geórgia informou. 
A  moça  se  movia  com  graça  ao  ritmo  da  música  árabe.  A  calça  de  odalisca  flutuava  ao  redor  das 

pernas,  enquanto  minipingentes  cintilavam  na  cintura.  O  tecido  leve  possuía  uma  certa  transparência.  O 
suficiente  para  preservar  o  decoro,  embora  a  sensatez  não  fosse  o  conceito  primordial  da  arte  naquele 
desfile. A parte superior apenas cobria o busto. No umbigo descoberto, havia sido incrustado um rubi. Lara 
segurava  uma  máscara  dourada,  presa  numa  haste,  com  a  qual  encobria  a  face.  Antes  de  sair,  porém, 
abaixou-a,  revelando  os  olhos  bem  maquilados,  cujo  brilho  era  intenso.  Levando  em  consideração  os 
aplausos entusiasmados, Geórgia considerou a noite um grande sucesso. Sorridente, agradeceu ao público 
e deixou o palco, retornando à sala das modelos, onde pendurou as roupas espalhadas. O pai apareceu para 
elogiá-la,  e,  depois  de  ouvi-lo,  ela  voltou  ao  salão,  para  os  lugares  reservados  aos  organizadores,  a 
fim de assistir à apresentação dos outros estilistas. 

Admirava  uma manequim que  exibia um modelo de tema escocês, quando foi surpreendida por um 

leve toque no ombro. 

 Srta. Geórgia Maitland? — um segurança perguntou. 

 Sim. 

 Mandaram entregar-lhe este envelope. 

O envelope continha uma simples folha de papel com o logotipo do hotel, pedindo-lhe para subir 

à suíte 309 assim que pudesse. Geórgia estranhou o bilhete, comentando com uma  das  senhoras  da 
comissão. 

.     

 Que estranho... Acho que não vou. 

 Lembre-se, várias confecções enviaram representantes em busca de novos talentos! 

 Será?! 

 O que tem a perder indo lá, filha? Só uma tola perderia essa  chance.  E,  pelo  que  pude  notar, 

seus desenhos foram muito apreciados. Precisa atender a esse chamado. 

 É verdade, a senhora está certa, mas... 

Afinal  de  contas,  uma  das  razões  pela  qual  aceitara  participar  do  desfile  sem  ganhar  nada  era 

obter  os  contatos  que  impulsionariam  sua  carreira.  Porém,  sentia-se  desmotivada  naquele 
momento,  sem  ânimo  para  tomar  decisões  importantes  de  negócios,  e  tudo  porque...  Oh,  aquela 
maldita visão! Por que não esquecia Nathan de uma vez por todas? 

 Vai acabar se arrependendo, filha — a senhora a alertou. 

 Tudo bem, irei. — Geórgia forçou um sorriso. Afinal, precisava lutar, se quisesse esquecê-lo 

para sempre. — Se procurarem por mim, diga que já volto, por favor. 

 Vá tranquila e boa sorte, filha. 

Ao descer do elevador, a porta da suíte 309 já se encontrava  aberta.  Geórgia  entrou  e  olhou  ao 

redor,  à  procura  de  alguém.  Estranhou  a  falta  de  uma  bandeja  de  café  ou  aperitivos,  como 
normalmente acontecia em reuniões de negócios, mas... De repente, ela viu uma mesa posta com dois 
lugares, como se um casal fosse jantar. 

Apavorada  com  a  cena  de  intimidade  e  sentindo-se  indiscreta,  resolveu  sair  dali  o  mais  rápido 

possível. 

—  Geórgia. 
O som daquela voz conhecida a paralisou. As pernas começaram a tremer enquanto a indecisão a gelava. 

E, agora, o que faria? Voltava ou não para o quarto? Se, por um lado, resistir aquele  chamado era  difícil, 
ver-se face a face com ele seria duplamente penoso. 

Finalmente, ela se virou. A visão de Nathan despertou uma dor aguda que parecia perfurar seu coração. 

Ele  usava  terno  azul,  camisa  branca  e...  Como  ele  ousava  colocar  um  botão  de  rosa  na  lapela?  Queria 
provocá-la, com certeza. 

Ainda tremendo, Geórgia analisou o rosto moreno. Parecia mais magro, havia sinais de fadiga nos olhos 

e linhas marcantes ao redor da boca. Não se lembrava da existência daquelas linhas! Decerto,  a esposa  o 
fizera passar por um grande apuro, pressionando-o. 

—  Olá, Nathan. — Ela se esforçou para parecer natural. —  Não  me  lembro  de  tê-lo  visto  no  salão 

durante o desfile. 

 Mas eu estava lá, sim. Assisti ao desfile inteiro e gostei muito dos vestidos. Pelo visto, a estada 

em Raqat lhe fez bem. 

 Ora,  nem  tanto!  Porém,  você  me  enganou  com  o  bilhete.  Pensei  que  fosse  da  parte  de  alguma 

confecção. 

 Sinto  muito  se  a  decepcionei.  Não  quis  assinar  para  não  arriscar  perd...  Tive  medo  de  perder  a 

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chance de conversarmos. Bem, quando seu pai disse... 

 Meu pai?! — ela o interrompeu, subitamente furiosa. —  O que papai tem a ver com isso? 

 Não o culpe, Geórgia. Pedi a ele para não lhe contar que eu estava aqui. Levei muito tempo para 

localizá-lo,  e,  quando  consegui,  ele  me  contou  sobre  ,o  desfile  beneficente.  No  mesmo  instante,  reservei 
este quarto de hotel. 

 Entendo... —  ela  falou,  com  frieza. Sentia-se magoada  com  a  interferência  do  pai  em  sua  vida.  — 

Mas... 

O surgimento de dois garçons à porta da suíte, empurrando um carrinho com vinho e várias travessas 

de prata, interrompeu-a. Nat gesticulou para que eles entrassem. O que significava tudo aquilo? Será que 
ele pretendia reconquistá-la com aquele aparato todo? Apesar de faminta, não cederia à tentação. 

 Espero  que  tudo  isso  aí...  —  ela  fez  um  gesto  com  a  mão,  indicando  a  mesa,  após  a  saída  dos 

garçons — ...não tenha nada a ver comigo. E, se tiver, perdeu tempo e dinheiro. 

 Não tome decisões precipitadas, Geórgia. Aceita pelo menos um drinque? 

Ela  olhou  para  Nat,  que,  de  costas,  preparava  os  drinques.  E,  sem  querer,  lembrou-se  daquela  mesma 

recomendação, daquele tom de voz suave e das consequências... 

 Gim-tônica. — Ele lhe entregou o copo, sorrindo. — Bem fraco... como você gosta. 

 Obrigada. 

Contrariada, ela refletiu que, além de merecer um drinque após o dia estafante, faria um papel ridículo 

se saísse correndo, como se estivesse amedrontada. 

 Sente-se. Fique à vontade, Geórgia — ele falou, depois de alguns minutos em silêncio. — Descobrir 

seu paradeiro foi muito trabalhoso, sabia? 

 Não me diga! Verdade?! 

Sem perceber, ela havia tomado mais da metade da bebida, e o álcool começava a fazer efeito em seu 

estômago vazio, além de aguçar os sentidos. 

—  Bem, eu sabia apenas que seu pai morava em Londres. E, se não soubesse que ele seguia a carreira 

militar, minha procura teria levado muito mais tempo. 

Será que Nathan a tomava por idiota? 

 Se  estivesse  tão  ansioso  como  diz,  teria  perguntado  a  Pete  Taylor  o  endereço.  Ele  o  informaria, 

tenho certeza. 

 Ah, sim, Pete! — Nat exclamou. — Pensei nele, acredite. Mas Pete estava em Raqat, e eu... 

 Ficou envergonhado, não foi? 

 Escute, Geórgia, vamos parar com esse tipo de agressão? — Ele levantou ambas as mãos num gesto de 

desespero. 
— Não fica bem em você, e sabe disso. 

Ao invés de se zangar, Geórgia se alegrou por tê-lo deixado irritado. Finalmente, tirara-o do sério. 
—  Continue. Sou toda ouvidos 

 Nao percorri milhares de quilómetros para trocar críticas mordazes e de sentido duplo. Não faço a 

menor ideia do motivo que a leva a crer que fiquei envergonhado. E, se bem me lembro, a verdade é que 
quem  falou  em  voltar  à  Inglaterra para retomar o antigo emprego foi você. E acontece  também  que  seu 
pai me disse... 

 Papai não tem o direito de dizer nada. — Ela colocou o copo na mesa lateral com força. — Considero 

uma afronta vocês discutirem a meu respeito em minhas costas! 

 Pois não deveria, e você sabe o motivo — ele replicou, com calma. 

Algo na voz de Nat quase despedaçou o coração de Geórgia. 

 O que... quer dizer com isso? 

 Simplesmente que não deveria se ressentir. Ele a ama, e, quanto a mim... —Nathan passou a mão pelos 

cabelos, num gesto  de  desespero.  —  Pode  me  ouvir  por  alguns  instantes,  Geórgia? Fiquei desesperado, sem 
saber o que havia acontecido. 

Ela sabia que o pai a amava, mas Nathan? Uma vez acreditara ser amada por ele... 
—  Ora,  essa  é  boa!  Quer  que  eu  acredite?  Estava  tão  desesperado  que  demorou  semanas  e 

semanas... 

Ela parou de falar, sentindo um nó na garganta. E também fingiu ajeitar os cabelos para não o deixar 

ver seus olhos rasos d'água. 

 Acha que demorei porque eu quis? 

 O que esperava que eu pensasse, então? 

 Oh, Geórgia! — Nat a tocou de leve nos ombros. — Geórgia! Pode imaginar o inferno em que vivi 

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durante todo esse mês? 

Em  princípio,  ela  não  conseguiu  evitar  uma  certa  euforia.  Sentiu-se  nas  nuvens  com  aquela  confissão, 

mas, em seguida, lembrou-se de que não podia se deixar influenciar. 

 E o que importa isso agora, Nat? 

 Para mim, muito. Mais do que qualquer coisa no mundo. Mais do que o deserto. Lembra-se daquele dia 

no aeroporto, quando você estava embarcando e apareceu uma moça com um recado para mim? Ela trazia 
uma  mensagem  urgente  da  parte  de  minha  mãe.  Infelizmente,  meu  pai  havia  sofrido  um  acidente  de 
automóvel e estava muito mal. Somente esse foi o motivo que me impediu de tomar o avião seguinte para 
Heathrow, atrás de você, juro. 

Apesar de adorar saber que existia um motivo real para o silêncio de Nathan, Geórgia sentia-se mesquinha, 

encontrando consolo naquela justificativa, pois Nat queria muito bem ao pai. De qualquer forma, suavizava 
um pouco sua amargura. 

 Sinto muito, eu não sabia. Como está seu pai? 

 Ficou  em  coma  durante  vários  dias  e,  quando  se  recuperou,  assustou-nos  um  pouco.  Estava  com 

fixação  no  trabalho  e  nos  contratos  que  preparava  antes  do  acidente.  Ainda  está  com  o  braço  engessado, 
porém os médicos afirmaram que se recuperará totalmente. 

 Que bom! 

 Nesse meio tempo, fui obrigado a me dedicar de corpo e alma ao  escritório  de Nova  York  — Nat 

continuou. — Apenas isso me impediu de... Não se esqueça, quem decidiu que nosso relacionamento havia 
sido um erro foi você, para voltar para os braços daquele homem... Pode imaginar como me senti? Naquele 
dia, eu tinha encerrado as reuniões no Cairo mais cedo para voltar para casa. Para casa, não, para você, 
mas  acabei  sendo  passado  para  trás...  Eu  acreditava  que  havia  um  único  pensamento  entre  nós  dois. 
Algo que duraria para o resto de nossas vidas. Pode me entender? 

Geórgia  já  não o  ouvia mais. Precisava  interrompê-lo  antes  que perdesse o controle da situação. Antes que 

fosse  persuadida  a  fazer  o  que  sua  consciência  sabia  ser  errado.  Temia  sofrer  e,  mais  do  que  tudo,  que 
acontecesse o inevitável entre eles. 

Durante  a  pouca  convivência  de  ambos,  tornaram-se  peritos  em  despertar  o  prazer  recíproco. Naquele 

exato momento,  daria  tudo  no  mundo para  alisar  o  rosto  recém-bar-beado  de  Nathan.  E,  se  o  fizesse,  ele 
tomaria sua mão com gestos lentos e beijaria a palma com paixão, despertando-lhe uma sensação deliciosa 
e... perigosa. 

Sim, perigosa porque jamais imaginara, durante todo aquele tempo, que ele a estivesse enganando. Pior 

ainda, enganando a esposa! 

Geórgia suspirou, recuando um passo. Precisava se afastar do perigo iminente. 

 E sua esposa, Nathan? — A voz saiu calma, surpreendendo até a si própria. — Onde entra sua esposa 

nessa sua equação de unidade de pensamento e devoção eterna? 

 Mi... minha o quê?! 

Conseguira chocá-lo, Geórgia pensou, satisfeita. A expressão  terna  mudara,  os  olhos  se  contraíram  e  os 

lábios se crisparam. Tudo isso ocorreu numa fração de segundo. 

 Sabe, é até engraçado descobrir a quantidade de homens que têm a mesma atitude em relação às 

esposas. 

 Com  quem  esteve  falando?  —  E,  antes  que  ela  pudesse  responder,  Nathan  caiu  numa  sonora 

gargalhada. — Como se eu precisasse perguntar... com Melaine Jacobs, claro. Ela deve estar dando pulos 
de alegria. 

 Engano  seu,  Nat.  Nunca  mais  vi  Melaine,  a  não  ser  em  sua  companhia.  —  Geórgia  fez  uma  pausa, 

antecipando o prazer de ver a expressão dele se transformar mais uma vez. Nat tinha de sofrer tanto quanto 
ela.  —  Sua  esposa  apareceu  no  apartamento.  Aliás,  naquele  mesmo  dia  em  que  nos  encontramos  no 
aeroporto, lembra-se? Ela se admirou em me ver na cobertura. Bem, tomei a atitude mais decente que me 
ocorreu.  Sabe,  estou  surpresa  que  você  não  saiba  nada  a  respeito  de  nosso  encontro.  —  Geórgia  corou,  ao 
lembrar-se  da  humilhação.  —  Talvez...  isso  ocorra  com  tal  frequência  que  para  ela  não  valha  a  pena 
mencionar o fato. 

 Pois eu não soube de nada. 

Geórgia  apenas  deu  de  ombros,  fingindo  não  se  importar,  mas  no  íntimo  gostava  de  vê-lo  preocupado. 

Não precisava ser uma pessoa de grande percepção para enxergar a raiva que o dominava. 

— Não voltei ao apartamento depois do chamado urgente de minha mãe. Uma hora depois que seu avião 

decolou,  partipara  Nova  York.  E,  quando  encontrei  Marylou  nos  Estados  Unidos,  dez  dias  atrás,  ela  não 
mencionou que tinha estado  em Raqat.  E  claro  que  não  falaria...  —  Ele  passou  a  mão  pelos  cabelos,  num 

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gesto amargurado. — Uma atitude típica dela. 

Geórgia  se  desapontou,  apesar  de  não  esperar  nada  de  bom  do  encontro,  a  não  ser  desabafar  o 

sofrimento.  No  fundo,  talvez  tivesse  cultivado  a  esperança  de  que  uma  fada  com  varinha  de  condão 
desfizesse  o  mal-entendido.  Entretanto,  devia  ter  imaginado  que  estava  muito  velha  para  acreditar  em 
contos de fada. 

Depois do desabafo, a amargura se evaporara. Só lhe restava torcer para encontrar forças para resistir 

aos encantos quando Nathan tentasse reconquistá-la. 

—  Você  me  perdoa,  Geórgia?  —  Ele  pegou  uma  mecha  de  cabelos  dela  e  girou-a  nos  dedos.  — 

Tratei-a mal e não a culpo se... 

Ela perdoava, claro! Mas não aquele gesto erótico que enviava sinais de desejo por seu corpo. Temia que 

ele prosseguisse, como costumava fazer, puxando-a gentilmente de encontro ao peito e... depois, acariciasse 
suas costas, levando-a à loucura ao tocar-lhe os lábios. 

—  Deve pedir desculpas a sua esposa — ela falou, com raiva. Não permitiria que a emoção a fizesse 

esquecer que ele era casado. A simples ideia de que Nathan tinha uma filha com outra mulher parecia 
uma  faca  perfurando  seu  coração.  —  E  a  sua  filha  também.  E  não  a  mim,  uma  tola  que  se  deixou 
influenciar pelos mistérios do deserto. 

Sem  conseguir mais se controlar,  Geórgia  rompeu  em  pranto.  No mesmo instante,  sentiu os braços  de 

Nathan ao redor de seu corpo. 

 Não chore, minha querida. Está partindo meu coração. 

 Não me chame de querida — Geórgia protestou, entre soluços. 

Nat tirou um lenço do bolso e estendeu a ela. 
—  Bem,  agora  farei  uma  coisa  que  deveria  ter  feito  no  início  de  nosso  relacionamento.  Vou  lhe 

contar tudo a respeito de Marylou e Philippa. 

Quando o ouviu mencionar com tanta naturalidade os nomes das duas, Geórgia sentiu seu último fio de 

esperança desaparecer naquele instante. 

 
CAPITULO X 
 
Nathan caminhou até a mesa posta e virou-se para Geórgia. 
— Está com fome, querida? 
Será que ouvira bem?, ela pensou, quase explodindo de ódio e ressentimento. Estava com fome, sim, mas 

não admitiria isso. 

 Que espécie de pergunta é essa? — perguntou, de monstrando desdém. 

 Apropriada — ele respondeu baixinho. 

Havia  um  quê  de  respeito  e  submissão  na  voz  dele,  ou  enganara-se?  Ora,  a  virtude  da  humildade  não 

combinava com a aura de autoconfiança do temperamento altivo de Nathan. 

Desconfiada, ela ficou quieta, encarando-o. 
— Bem... — Nathan continuou no mesmo tom de voz. Como não comi nada o dia inteiro, encomendei 

uma refeição deliciosa e um vinho tinto para acompanhá-la. — Ele ergueu uma sobrancelha e deu um sorriso 
tímido e frustrado. 

 Acho que não adianta continuar falando porque, pelo visto, você não está com fome, não é? 

Comovida, Geórgia desviou a vista. 

 Para dizer a verdade, estou com um pouquinho de fome, sim — confessou, sem graça. 

 Nesse caso, venha sentar-se aqui. — Nathan puxou uma das cadeiras. 

Ao vê-la acomodada, ele suspirou enquanto tomava seu lugar. Depois de destampar as travessas de prata 

e colocar vinho nos copos, ele a fitou demoradamente. Os olhos cinzentos percorreram toda sua face, 
detendo-se nos lábios por alguns instantes. 

—  Vamos brindar, Geórgia? — Nat ergueu o copo, encorajando-a a fazer o mesmo. 
Distraída  em  examinar-lhe  as  feições,  ela  não  respondeu.  Como  podia  ter  esquecido  ou  bloqueado  da 

lembrança a infinidade de emoções que haviam passado juntos? Algumas vezes, quando estavam na cama, ele 
roçava os longos cílios aveludados  em sua  face,  causando-lhe uma sensação  estranha e, ao mesmo tempo, 
maravilhosa. Como pudera esquecer esses pequenos prazeres? pensou, estremecendo. 

Um barulho no corredor do hotel despertou-a do devaneio. Impassível e ainda segurando o copo, Nathan 

continuava fitando-a com um ligeiro sorriso nos lábios, como se lesse seus pensamentos. 

Talvez imaginasse que ela sucumbiria aos encantos dele. Que conseguiria abrandar sua raiva com aqueles 

olhares e sorrisos. Pois estava muito enganado, Geórgia pensou, adotando uma postura séria e ríspida. Levando 

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em consideração que ele admitira ter uma esposa, aquele sorriso apenas  provava que  possuía  experiência  em 
situações idênticas àquela. Situações de conquista, e a única tola seria ela, se caísse na armadilha. 

Novamente,  uma  dor  profunda  apoderou-se  de  seu  coração  magoado.  Para  dominar  a  vontade  de 

recomeçar a chorar, Geórgia pegou o copo de vinho. 

—  A nós! — ele falou. 
Em sinal de protesto, ela recolocou o copo sobre  a mesa  e pegou os talheres, concentrando sua atenção no 

medalhão de cordeiro, acompanhado de cenouras miúdas e batatas com ervas. 

Por  ironia  do  destino,  o  prato  era  colorido  como  a  vida  e  saboroso  como...  Preferia  não  terminar  o 

pensamento. 

 Hum... Está delicioso! — disse para irritá-lo. — Por que não se serve? — Como ele continuava com o 

copo erguido e o mesmo sorriso de contentamento nos lábios, ela resolveu perguntar.  — Há  algum motivo 
para comemorações? 

 Assim espero! 

Parece  achar  que  num  estalar  de  dedos  sua  vontade  será  feita.  E  ainda  passa  por  cima  de  todo 

mundo, sem levar em consideração as emoções, sejam elas quais forem. 

 Ora, eu não sabia que havia despertado emoções! — Nathan ironizou. — Cheguei a pensar que o que 

aconteceu em Raqat foi de comum acordo. Mais tarde, você me deu razões para pensar o contrário. Que fui 
apenas um substituto. 

 Não!  —  Geórgia  negou,  com  veemência,  lembrando-se  de  sua  entrega  plena  quando  faziam  amor.  — 

Nunca, jamais! Você... não pode acreditar no que acabou de dizer. 

 Então... e aquela conversa no aeroporto? 

 Foi  em  defesa  própria,  claro!  —  Ela  deu  vazão  à  raiva  que  a  dominava  havia  muito  tempo.  —  Sua 

mulher  apareceu  de  repente  no  apartamento,  questionando  nosso  relacionamento.  O  que  mais  eu  podia 
fazer para salvar meu orgulho? Se me desesperasse no aeroporto, o mundo inteiro ficaria sabendo como 
fui  tola  acreditando  naquele  teatro  ridículo  no  deserto...  Oh,  casamento...  —  Geórgia  parou  de  falar, 
com um nó na garganta e os olhos rasos d'água. 

 Não foi encenação, Geórgia. Eu lhe disse na ocasião que havia um motivo para casarmos depressa. 

 Ah, você ia explicar, pretendia explicar, mas, na ver dade, nunca deu nenhuma explicação. 

 A  permissão  para  você  permanecer  mais  tempo  em  Raqat  era  o  motivo,  querida.  Os  árabes  são 

rigorosos  com  visitantes  que  ultrapassam  o  período  da  visita.  Conversei  com  Freddy  a  respeito,  e  ele 
sugeriu que nos casássemos. Foi romântico, concorda? Eu sabia perfeitamente bem que você iria querer 
regularizar a situação quando voltássemos à Inglaterra. Aliás, eram meus planos... 

 Primeiro  de  tudo,  não  quero  que  me  chame  de  querida  e,  segundo,  esqueceu-se  de  uma  parte 

importante e prejudicial de seus planos... 

Ela o desafiou com o olhar, acreditando que Nat não fosse ter coragem de enfrentá-la. Porém, ele o 

sustentou com tranquilidade, antes de responder: 

 Se você se refere a Marylou, não esqueci. E impossível esquecê-la, infelizmente. 

 Você... 

 Nao  diga  mais  nada,  Geórgia.  —  Ele  lhe  segurou  a  mão  sobre  a  mesa,  tentando  acalmá-la.  — 

Deixe-me, antes, contar-lhe a história de Marylou. 

 De sua esposa, você quer dizer — ela falou, com rispidez. — Não vamos omitir o relacionamento 

que existe entre vocês dois. 

— Marylou 

nunca 

foi 

minha 

mulher 

de 

verdade. 

Preocupada em conter as lágrimas, Geórgia, em princípio, não entendeu o que ele dissera. 

— O quê? 

 Doze anos atrás, de fato, casei-me com Marylou. Mas apenas no papel... 

 Ah,  sim!  —  ela  se  indignou.  Será  que  ele  tinha  ideia  do  nível  em  que  a  colocava,  dando  aquela 

explicação? — E Philippa? De onde ela surgiu? Por acaso nasceu de um repolho? 

 Não, claro. Para simplificar o assunto, meu parentesco com Philippa é de tio. E talvez nem isso. 

Num  gesto  abrupto,  Geórgia  puxou  a  mão  que  ele  alisava  com  carinho.  Precisava  raciocinar,  e  aquele 

contato sempre a deixava em desvantagem. 

Enfrentando  os  olhos  cinzentos  que  a  fitavam  com  candura,  tentava  compreender  a  afirmação  que  ele 

acabara  de  fazer.  Seria  mentira  ou  fingimento?  De  todo  o  coração,  desejava  acreditar,  mas,  diante  de  tanta 
falsidade e má-fé, só tinha motivos para a desconfiança. E não queria sofrer mais do que já sofrera. 

—  Por quê? — Geórgia perguntou de repente. — Por que devo acreditar em você agora? 
Aquela  pergunta  o  pegara  desprevenido.  Antes  que  ele  pudesse  se  controlar,  ela  vira  um  traço  de 

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angústia no olhar de Nathan. 

—  Porque é a pura verdade — ele sussurrou. — Não posso pensar numa razão melhor. Não a censuro 

por  duvidar  de  mim.  A  culpa  foi  toda  minha  por  não  ter  lhe  contado  no  início  de  nosso  relacionamento. 
Esperei muito pelo momento certo e, ao mesmo tempo, queria protelá-lo indefinidamente. Primeiro,  porque 
jamais admiti a mim mesmo que era um homem  casado  e  depois...  Bem,  não  queria  estragar  algo  tão 
especial como nosso relacionamento. Talvez, no fundo, eu não quisesse que nada o enfraquecesse. 

 Você disse sobrinha?! Então Philippa é sua sobrinha? 

 Lembra-se  de  que  lhe  contei  que  tinha  um  irmão  mais  novo,  que  morreu  num  acidente  de  esqui,  no 

Colorado? Bem, logo em seguida, Marylou, sua namorada, apareceu em casa dizendo que esperava um filho 
de  Phil  e  que  tinham  intenção  de  casarem-se.  Minha  mãe,  ainda  traumatizada,  cismou  que  o  filho  seria  a 
reencarnação de Phil e que a criança deveria ter o sobrenome da família para preencher o espaço deixado 
pelo 

pai. 

Pode 

parecer 

chantagem 

ou 

loucura, 

mas 

único 

desejo  de  minha  mãe  era  que  eu  me  casasse  com  Marylou  para  a  linhagem  não  ser  quebrada.  Relutante, 
lógico, concordei, e nos casamos numa cerimónia de cinco minutos no cartório. Pouco tempo depois, porém, 
percebi que havia cometido um erro imperdoável e assim que pude me divorciei, em Nebraska. Em seguida, 
apaguei totalmente da cabeça o assunto. 

 E Philippa?      

 Calma. Quando nasceu uma menina em vez de um menino, minha mãe se decepcionou um pouco, e, nesse 

meio  tempo,  Marylou  já  se  tornara  uma  cruz  em  nossas  vidas.  Além  disso,  não  tínhamos  certeza  de  que 
Philippa  fosse  uma  Trehearn.  Achávamos que Marylou inventara a história para assegurar um bom futuro 
para  a filha e para  ela própria. Bem, isso ela conseguiu. Mas daí até afirmar que Philippa sente saudade do 
ambiente familiar... Nunca fomos uma família, Geórgia. 

 E Philippa não quer, ou melhor, ela não sente saudade mesmo? 

 Não.  Mesmo  que  sentisse,  Marylou  jamais  saberia.  Philippa  estuda  num  internato  excelente  em 

Boston. Sei que está feliz lá. Essa falta da família é invenção de Marylou. Apesar da mãe, a menina se tornou 
uma criança equilibrada, educada e simpática. 

 E até hoje vocês não têm certeza se ela é ou não filha de seu irmão? 

 Infelizmente,  não  temos  como  saber.  Bem,  ela  é  muito  parecida  com  a  mãe  e  também  não  existe 

nenhuma semelhança física conosco. Às vezes, notamos alguma expressão familiar ou um jeito especial de 
virar a cabeça... Cheguei a sugerir a Marylou que fizéssemos testes de DNA, mas ela desconversou. 

 Então, talvez nem a própria mae tenha... 

 Certeza?  Isso  mesmo.  —  Ele  deu  de  ombros.  —  Essa  é a história que eu deveria ter lhe contado no 

início, Geórgia. Nada empolgante, não é? Porém, nunca irei me perdoar por ter demorado tanto tempo 
para lhe revelar tudo. 

 Oh, Nathan! 

Geórgia  alisou  a  toalha  da  mesa,  pensativa.  Encontrava  dificuldade  para  assimilar  toda  a  trama.  Não 

queria confiar em sua euforia instantânea. Havia poucos instantes, estivera  deprimida  e  agora  se  sentia 
alegre? Não, era tudo muito bom e perfeito para ser verdade. E quanto a sua própria postura diante dos 
fatos? Fizera um julgamento apressado e teria sido mais inteligente conferir a verdade. 

No entanto, havia um único pensamento realmente importante: Nathan Trehearn, o homem que amava e 

que amaria para o resto da vida, não estava e nunca estivera envolvido com Marylou. Philippa não era filha 
dele e, talvez... 

 Sempre pensei que confiasse em mim, Geórgia — Nathan falou, interrompendo seus pensamentos. 

 Oh... — Não havia palavras para exprimir a profundidade de seu arrependimento. Ela própria não 

conseguia entender por que dera crédito a Marylou. Só havia uma explicação, Marylou agira com muita 
convicção.  —  Entenda-me,  Nat,  quando  ela  entrou  no  apartamento  parecia  muito  à  vontade,  como  se 
estivesse em seu próprio lar e... 

 Ora,  ela  entrou  lá  uma  única  vez,  querida!  Melaine,  a  amiga  da  família,  na  verdade,  é  amiga  de 

Marylou e deve ter-lhe contado sobre nós. Inconformada, Marylou quis estragar nosso relacionamento. O que 
me deixa mais  aborrecido é que,  se  alguém  viesse  fazer  intriga  a  seu  respeito,  eu  iria  querer  saber  sua 
versão da história antes de mais nada. 

 Oh, Nathan, sinto muito! Faria qualquer coisa para reparar meu erro... 

 Hum... Vou arranjar uma boa penitência para você. Deixe-me pensar... 

Procurando disfarçar a expectativa, ela riu. Sentia o coração batendo forte no peito, mas não podia mostrar-se 

muito ansiosa e entusiasmada. Se ele quisesse levá-la para a cama naquela hora, Geórgia nao pensaria duas 
vezes. Aliás, desejava ser coagida, seduzida! Mais do que disposta, estava impaciente. 

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 Mas vou querer uma resposta para o que tenho em mente — ele disse, sério. — Concorda? 

 Sim, amo! 

 O que pretende fazer amanhã à tarde? 

As palavras dele tiveram o efeito de uma ducha de água fria em Geórgia. 

 Oh, Nat! Amanhã à tarde?! Por que não neste momento? 

 Infelizmente,  hoje  não  vai  ser  possível.  —  Ele  consultou  o  relógio.  —  É  muito  tarde,  e,  além  disso,  só 

consegui a licença especial para amanhã à tarde. Será uma cerimónia simples, para decepção de muitos e para 
nossa alegria. Para nós dois, terá apenas um significado: não posso viver sem você, amor. 

 Oh, Nathan! — Os olhos de Geórgia encheram-se de lágrimas. 

Por que chorava se estava feliz? Lentamente, esticou a mão e roçou-a de leve na face dele. 

 Não podemos viver um sem o outro, querido... 

 Geórgia! Não vamos fazer o que você está querendo... Prometi a meu futuro sogro contar o desfecho da 

história. — Ele riu diante da expressão cómica e espantada dela. — Não ficaria nada bem se ele viesse até aqui 
e  encontrasse  a  filhinha  na  cama  com  um  homem!  Mas  você  ainda  não  respondeu  a  minha  pergunta.  Por 
favor, não faça tanto suspense. Aceita? 

 Sim, sim, sim... 

Num  ímpeto  de  alegria,  Geórgia  se  levantou  e  saiu  rodopiando  pela  sala  de  braços  abertos  até  ser 

abraçada por Nathan e caírem no sofá, rindo. 

 Eu  te  amo  —  ele  falou,  com  seriedade,  prendendo-a  contra  as  almofadas.  —  Mentira.  Sou 

alucinado  por  você.    Oh,  quando  pensei  que  a  havia  perdido...  Quando  a  imaginei  nos  braços  de  outro 
homem... 

 Então, talvez possa imaginar como me senti quando soube que era casado com Marylou e que tinha 

uma filha. 

 Não entendo... Por que não confiou em mim? 

 Pelo resto de nossas vidas, vou lhe dedicar uma fé cega... De hoje em diante, você passa a ser o 

homem mais confiável da face da Terra! 

 Não faça promessas que terá dificuldade em cumprir! 

 Ao  contrário,  será  muito  fácil.  —  Ela  o  puxou  pela  nuca  até  seus  lábios  ficarem  próximos.  — 

Enquanto você fizer isto... e... isto e... — Enquanto falava, cobria-o de beijos. 

 Se  continuar  fazendo  isto...  —  ele  murmurou  junto  a  sua  face  e  depois  a  beijou  —  duvido  que 

consigamos descer para falar com seu pai. E, como temos uma cerimónia marcada  para  amanhã  à  tarde, 
acho melhor avisá-lo hoje. 

Geórgia não parecia interessada na conversa e continuou a beijá-lo. 

 E  há  mais  um  detalhe,  querida  —  Nat  sussurrou,  escapando de seus braços. — Prometi a mim 

mesmo  que,  se  conseguisse  reconquistá-la,  não  tomaria  nenhuma  atitude  precipitada.  Por  mais  forte  que 
fosse a tentação! Portanto, até que a aliança esteja no lugar certo, isto é, em seu dedo da mão esquerda, 
não  pretendo  quebrar  minha  promessa.  Não  importa  quanto  me  provoque.  Então,  por  favor...  não 
dificulte as coisas para nós, Geórgia. 

 Ora... 

 Escute,  a  partir de amanhã, os votos  de  um celibatário sofredor vão terminar, e você poderá usar de 

toda a sedução que quiser. Prometo e garanto retribuí-la. Agora, vamos descer e falar com seu pai. Não quero 
mais nenhum impedimento. 

Antes de sair, ele a beijou com ardor. 
—  E, mais uma coisa... Eu te amo muito, querida. Hoje, inicia-se uma nova história de contos de fada 

com final feliz. 

 
CAPITULO XI 
 
Geórgia  e  Nathan  estavam  abraçados  no  jar-'  dim  da  vila.  Ela  se  extasiava  diante  do  mar  que  se 

estendia a perder de vista. 

O sol se punha. A esfera incandescente desaparecia na linha do horizonte, lançando raios avermelhados 

sobre a superfície serena de águas de um azul intenso. 

Geórgia suspirou, encostando a cabeça no ombro de Nathan. 
— Oh, 

Nat! 

Ainda 

não 

me 

convenci 

de 

onde 

estou. 

Ele beijou seus cabelos com carinho. 

 Pobrezinha... Deve ter sido um choque acordar sem saber onde estava, não? Pensou que acordaria 

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em Raqat? 

 Bem, como eu não fazia ideia de que sua família possuía esta propriedade no Caribe, realmente fiquei um 

tanto perdida. 

 Desapontou-se? 

Geórgia se virou para ele, exibindo um sorriso maroto. 
—  De jeito algum. Na verdade, também não ficaria desapontada se fôssemos passar a lua-de-mel na 

Sibéria... 

Eles riram e beijaram-se. 
—  Oh, Nathan, até agora não me conformo de ter chegado nesse paraíso dormindo feito uma pedra. 
Apesar  da  ansiedade,  da  impaciência  e  da  pressa  em  realizar  a  cerimónia  de  casamento,  o  cansaço 

acabara estragando a noite de lua-de-mel. 

Era  desconcertante  imaginar  que  fora  carregada  como  um  saco  de  batatas  do  banco  do  carro  para  a 

ilha.  Geórgia  lembrava-se  apenas  de  ter  agradecido  a  uma  moça  simpática  que  a  despira  das  roupas  de 
viagem,  ajudando-a  a  vestir  a  camisola.  Depois  disso,  caíra  num  sono  profundo,  só  acordando  na  manhã 
seguinte e, felizmente, com boa disposição e recuperada do cansaço provocado pela correria dos últimos dias. 

 Para  ser  sincero,  fiquei preocupado  em  princípio,  pensei  que  não  tivesse  se  sentindo  bem.  Contudo, 

logo  percebi  que  se  tratava  apenas  de  um  esgotamento.  Devo  lhe  confessar  que  eu  também  precisava 
descansar. 

 Ah! Nem bem se casou e já perdeu o interesse por sua mulher? 

 Não se preocupe, já me recuperei. — Um barulho de pratos e talheres chamou a atenção de ambos. 

— Parece que o jantar está pronto. Está com fome, Geórgia? 

 Faminta. 

 Para variar? 

O jantar foi servido num terraço espaçoso, voltado para o mar. O barulho das ondas quebrando parecia uma 

música suave. 

Primeiro, Geórgia e Nathan tomaram uma sopa levemente apimentada, depois comeram lagosta grelhada 

e, de sobremesa, uma salada de frutas deliciosa, como ela jamais havia experimentado igual. 

 Hum... Está tudo divino! — ela exclamou, erguendo a taça de champanhe. — A nós! A nossa vida! Ao 

mar, ao céu! 

 A  nossa  felicidade!  —  Sorrindo,  Nathan  imitou  o  gesto  dela,  percebendo  que  Geórgia  já  estava 

ligeiramente excitada pelo álcool. — Eu ainda não lhe falei de uma outra experiência traumatizante que 
nos espera quando chegarmos aos Estados Unidos, falei? 

 Sério? 

 Sim. Vai ser apresentada a meus pais. 

 E chama isso de experiência traumatizante?! Pois eu esperava que eles fossem... 

 Simpáticos? — Nathan a interrompeu. — Sim, eles o são,  e  não  se  preocupe  porque  vão  adorá-la 

tanto ou mais do que eu. Minha mãe, em particular, ficou encantada com nosso casamento. Ela sempre teve 
medo  de  que  eu  acabasse  solteiro  pelo  resto  da  vida,  devido  à  confusão  com  Marylou.  Enganou-se.  Mal 
sabia que eu esperava por sua chegada em Raqat, Geórgia! Você a livrou de um peso enorme. Então, do 
que tem medo? 

—  Na verdade, não é bem o encontro com meus pais que será traumatizante, mas... prepare-se. Minha 

mãe,  desde  já,  começou  organizar  uma  festa  de  casamento  para  nós.  Com  muita  pompa  e  muitos 
convidados. Mamãe não se conforma de não termos tido uma festa em Londres, pode entendê-la? 

   — Sim. 

 E não se importa? 

 Hoje, não me importo com nada, querido. 

 Bem, tenho uma outra surpresa para você. Convidei seus pais e sua irmã para a festa. 

 Nathan! E maravilhoso! 

 Eles prometeram ir. 

 E como pode dizer que uma notícia dessas vai ser traumatizante? 

 Ora,  tive  medo  de  que  você  pudesse  não  gostar  de  tantas  solenidades.  Primeiro,  casou-se  no 

deserto. Depois, em Londres. E agora uma festa nos Estados Unidos! 

 Pois sinto muito desapontá-lo porque estou preparada para enfrentar qualquer situação a seu lado. 

 Otimo!  Também  penso  o  mesmo.  —  Ele  sorriu,  inclinando-se  sobre  a  mesa  para  tomar  sua  mão  e 

tocou distraidamente na aliança de casamento. — Esta aliança parece tão só em seu dedo, querida. 

 Talvez, porém estou muito feliz por vê-la aí. A todo momento, olho para ela. 

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 Se é assim, então não precisa de mais uma jóia para admirar. 

Geórgia sorriu com malícia, percebendo as segundas intenções dele. 

 Eu não disse isso, Nathan Trehearn! 

 Que alívio! Pois tenho um presente para você. 

De olhos bem abertos, ela esperou, inquieta, que ele abrisse uma caixinha de veludo. 

 Oh, que anel lindo, Nat! 

 Fico  contente  por  você  ter  gostado.  —  Nat  o  tirou  da  caixa  e  colocou-o  no dedo  dela. —  Na  loja, 

fiquei  indeciso  quanto  ao  que  lhe  agradaria  mais.  Talvez  preferisse  safiras  ou  simplesmente  diamantes. 
Mas, quando vi esta pedra da cor de seus olhos, não pude resistir. 

Geórgia ergueu a mao e admirou o anel por alguns instantes. Depois, balançou a cabeça num gesto de 

aprovação e beijou Nathan com entusiasmo. 

 Obrigada, meu amor. Entretanto, como já lhe disse uma vez, você me mima em excesso. 

 Minha intenção sempre foi essa. 

Encantada, Geórgia movimentava a mão, hipnotizada pelo reflexo da luz na esmeralda lapidada e nos 

diamantes minúsculos a seu redor. 

 Quando encontrou tempo para comprar o anel, Nathan? 

 Bem...— ele hesitou. 

 Em Londres? Ora, pensei que estivesse ocupadíssimo para perder tempo visitando joalherias! 

 Não foi em Londres, querida. 

 Não?! Onde, então? 

 No Cairo. O anel já estava em meu bolso naquele dia fatídico, amor. 

 Oh, Nat! Agora me deixou com remorso... Sinto muito... 

 Shh...  —  Ele  colocou  um  dedo  sobre  seus  lábios,  impedindo-a  de  continuar  se  desculpando.  —  Basta  de 

desculpas, querida. O que aconteceu foi sofrido para ambos. Mas apenas durante aquele período. Talvez tenha até 
servido para nos unir ainda mais. Veja, neste exato momento, não me arrependo de nada. 

 E verdade — ela concordou. — Se os acontecimentos tivessem sido diferentes, poderíamos não estar 

aqui agora. E não posso imaginar lugar mais lindo do que este onde eu gostaria de estar. 

 Tem certeza? 

 Sim. 

 A  propósito,  sabia  que  teremos  de  voltar  a  Raqat  para  passar  um  ou  dois  meses?  Ainda  preciso 

determinar alguns detalhes do projeto do sheik, no mar Vermelho. E, depois, terei de ajudar meu pai nos 
negócios. 

 Acha  que  vai  sentir  falta  da  universidade?  Ou  da  liberdade  de  escolher  entre  participar  ou  não  de 

projetos ambientais do tipo do de Raqat? 

Com você a meu lado, não sinto falta de nada. — Ele acariciou a mão de Geórgia. — Até hoje, tive sorte 

em poder fazer  as  coisas  de  que  gostava.  Lucrei  com  as  experiências  adquiridas,  principalmente  com  as 
das últimas semanas. Elas me ensinaram que o sentimento mais importante da vida é o amor. E, falando 
nisto... 

Nathan  a  ajudou  a  se  levantar  e,  abraçados,  percorreram  a  casa  silenciosa  em  direção  ao  quarto 

envidraçado com vista para o mar. 

 Eu já lhe disse que estava linda quando chegou à igreja com seu pai? — Nathan sussurrou de encontro a 

seu rosto. 

 Sim, mas... não me importo de ouvir de novo e... de novo. 

 Adorei a simplicidade de seu vestido. 

 É verdade, ele era simples. Você nem me deu tempo para eu caprichar! — Ela fingiu indignação. 

— Conhece alguma outra mulher que tenha se preparado para um casamento em menos de doze horas? 

 E adorei ver seus cabelos presos num coque, enfeitados com botões de rosa, irias... 

 É porque tenho uma irmã que sabe lidar com improvisos. 

 Como eu ia dizendo, prefiro seus cabelos ao natural. Lisos como a seda e perfumados como as flores 

do campo. 

— Ora, pensei que gostasse mais de tranças... 

 Ah,  sim,  também!  —  Ele  riu.  —  Vou  lhe  mostrar  minhas  preferências  devagar.  Infelizmente,  não 

fica bem se eu a deixar envergonhada numa noite tão especial... Não há pressa, concorda? 

 Nathan! 

De repente, Geórgia sentiu-se inibida, e ele, percebendo isso, quis provocá-la ainda mais. 
—  Este  seu  vestido...  —  Ele  passou  as  mãos  pela  roupa,  com  sensualidade.  —  Por  que  o  escolheu? 

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Existe algum motivo especial? 

Antes de responder, ela ficou na ponta dos pés e tocou-lhe os lábios, enquanto sentia as mãos macias alisando 

seus ombros. 

 Vou ter de lembrá-lo? Pensei que soubesse por que o escolhi. 

 Não, querida. E me lembro perfeitamente de cada de talhe daquela noite. 

 Eu também — ela sussurrou. — Que outro motivo eu teria para trazê-lo para a lua-de-mel,  senão 

que você se lembrasse... 

 Como se algum dia eu pudesse esquecer! Recordo-me como se fosse hoje... Você entrou na cozinha, 

usando  esse  vestido  vaporoso,  desenhado  para  enlouquecer  os  homens.  E  se  ofereceu  para  me  ajudar  a 
preparar a comida, lembra-se? 

 Já  lhe  disse,  Nathan.  —  Ela  sorriu  com  doçura.  —  Lembro-me de  cada palavra e de cada gesto 

seu. 

 Eu já a desejava naquela época... — A voz de Nathan tremeu ligeiramente. — Tanto, querida! 

 E eu confiava em você! Podia jurar que estava total mente a salvo a seu lado. 

 Mas, até aquele momento, eu ainda acreditava em meu autocontrole. 

 Acho que eu nunca deveria ter abandonado a segurança do apartamento de Pete Taylor. 

 Se você tivesse usado esse vestido na casa de Pete, com certeza, eu teria sido obrigado a ir até lá 

para salvá-la. 

Então, incapaz de se conter por mais tempo, Nathan começou a abrir o zíper do vestido de Geórgia bem 

devagar... 

 
FIM